PELOS PÁTIOS PARTIDOS EM FESTA

Saint Seiya é marca registrada de Masami Kurumada e da TOEI/BANDAI, portanto não me pertencem. Mas Lunna Monami é minha e nós estamos no capítulo FINAL! HIHIHIHIHEHEHEHEHEHAHAHAHAHA HA! *risada maligna*

CAPÍTULO 09: Guardiões só observam.

Mal começara o dia e o calor já se fazia insuportável. Mu tinha certeza que a cada ano que passava, o verão na Grécia se tornava pior. Desejava mais que tudo estar em Jamiel, sob a brisa refrescante, sob a calmaria. Mas não podia. Aquele dia era importante, definitivo. Era, quem sabe, um dia de grandes revelações e mudanças. Pelo menos tinha esperança de que seria. Afinal, não vestiria aquela pesada armadura à toa. Estava esperando ilustres visitantes.

Mirava o horizonte contemplativo. Aiolia havia retornado da missão de derrotar os cavaleiros de bronze com uma cara não muito boa. Passara por Mu sem dizer uma palavra. Mas não precisava: ele sabia que o leonino não tinha cumprido as ordens do Grande Mestre. E logo logo, os "traidores" estariam chegando ao Santuário. Mas eis que uma figura surgia subindo as escadarias. Sentia um enorme poder vindo dela.

"Somente um? Não é possível.", pensou Mu.

O sol da manhã o deixara em uma posição desfavorável. Não conseguia visualizar o invasor, cuja audácia parou em frente da entrada da Casa de Áries.

- Não lembra mais de mim, Mu?

"Essa voz...não podia ser..."

- Lunna?

A garota se aproximou subindo os últimos lances da escadaria. Tirou os óculos escuros e sorriu. Vinha com o cordão de estrela característico e roupas ocidentais, uma blusa folgada, short e botas cano médio. Trazia no rosto o sorriso de sempre, inconfundível. Mudara muito desde a última vez que ele a havia visto. E podia afirmar sem sombra de dúvida que se tornara uma mulher muito bonita. Chamava a atenção.

- Você mudou muito. Eu quase não a reconheci.

- Mu, você está fabuloso com essa armadura. – Lunna pôs as mãos no rosto dele para vê-lo melhor. – Mas continua com a mesma carinha de sempre. –apertou-lhe as bochechas fazendo careta. - Aaaaah que saudade! – Agarrou-o.

- Er...acho que me enganei. Você não mudou nada!

- Eu disse que voltava, não disse?

- Sim, disse. Venha, vamos entrar.

Mu conduziu a visitante para o interior da Casa de Áries. Ofereceu-lhe uma cadeira.

- Você deve estar no lugar de seu mestre agora. Uma guardiã.

- Sim. Já tem um tempo que sou. Mas como essa dimensão nunca me deu problemas só agora pude voltar para visitá-los.

- E seu mestre?

- Janos já partiu. Transcendeu. Estava cansado demais da vida.

- Entendo.

- Mas vamos deixar esse assunto chato de lado! Como estão todos? Nossa, foram treze anos! Quero ver cada um! Você vai ver como vou lhes torrar a paciência!

- Lunna, eu acho que...

- Eu sei que vocês devem estar ocupados. Então eu vou subir rápido, prometo que não demorarei. Não vou atrapalhar vocês. – disse sorrindo se levantando.

- Não é isso...

- Você sabe que eu estou muito ansiosa para me encontrar com todos. Mas tem uma pessoa em particular, né? – piscou o olho para Mu e fez menção de sair.

- Lunna, eu preciso lhe contar algo.

Ela voltou-se para Mu, séria. Sentia algo esquisito no ar. Seu coração deu um solavanco estranho. Após segundos encarando o cavaleiro, perguntou:

- Aconteceu algo com Aioros?

Mu hesitou. Porém, era melhor que tudo fosse esclarecido.

- Sim.

A guardiã sentiu seu coração bater mais rápido. Aproximou-se do ariano.

- Estou ouvindo.

- Aioros está morto, Lunna. Foi assassinado.

Lunna não podia acreditar. Um turbilhão de memórias passou pela sua mente. Lembrou-se do dia que o vira pela primeira vez e da sorte agourenta que destilara para ele na sua partida. Não, não podia ser. Parecia que seu coração havia sido perfurado, pois lhe faltou ar. As pernas não suportaram tanto peso e ela sentiu que despencava num abismo. Mu segurou-a antes que atingisse o chão.

- Não...eu disse para ele se cuidar...

Mu conduziu a jovem sem forças de volta para a cadeira. Lunna enfiava os dedos na madeira olhando transtornada para o chão. Seu peito subia e descia cadenciosamente. Mu não sabia o que fazer para tirá-la desse estado. Pensou em pegar um copo d'água, mas antes que agisse, ela ergueu a cabeça para ele. Ele ainda via que ela estava em choque e falava como se fosse outra pessoa:

- Como foi?

O ariano olhou para aquele rosto sério, para aquela máscara que agora escondia sua dor. Sentou-se numa cadeira a frente dela.

- O Grande Mestre Ares ordenou que ele fosse morto.

- O quê? O Grande Mestre ordenou isso? Mas porque ele faria um absurdo desses? Mu, Aioros...Aioros era praticamente um santo. Sua devoção por Athena era incrível.

- Lunna, eu vou lhe contar a verdade. Mas não se surpreenda. Quando você circular pelo Santuário, ouvirá o nome Aioros como sinônimo de traidor.

- Não compreendo, Mu.

- Aioros foi acusado de querer matar o bebê que seria a reencarnação da Deusa Athena. E por isso foi acusado de traição. Mas a verdade é que ele a salvou.

Lunna não podia acreditar. Tinha ido embora eu tudo ficara de pernas para o ar.

- Quem foi?

- O quê?

- Quem o Mestre mandou para cumprir a ordem?

- ...Shura.

Lunna inclinou a cabeça para o teto colocando a mão no rosto. Shura era amigo de Aioros. Aquilo era cruel demais.

- Quando foi isso? – perguntou ainda com o rosto voltado para o teto. A mão despencou a tira colo.

- Alguns meses depois que você partiu. Aliás, muita coisa aconteceu depois que foi embora.

- Me conte tudo, Mu, por favor. Não me poupe de nada.

"Que a dor venha toda de uma vez."

Mu contou a Lunna que o irmão de Saga, Kanon havia aparecido no Santuário. Disse-lhe também que Saga o havia prendido num calabouço que existia no Cabo Sunion, por crimes que ele havia cometido.

- Crimes? Kanon cometeu que crimes?

- Eu realmente não sei lhe dizer. Não estava aqui, estava em Jamiel. Quando voltei foi o que me foi dito.

- Não acredito que Saga prendeu o próprio irmão... – Lunna mordia o dedo indicador com um sorriso débil no rosto. Mentira. Acreditava sim. Já havia feito uma vez...

- E depois disso, Saga sumiu. Desapareceu sem deixar vestígio algum. Ninguém sabe o que aconteceu com ele.

- E isso tudo foi antes da morte de Aioros?

- Sim.

- Ninguém sabe mesmo, Mu, o que aconteceu com Saga? – Lunna olhava o ariano de esguelha. – Um cavaleiro de ouro sumir assim é no mínimo estranho.

- Eu tenho minhas próprias teorias, mas não pretendo compartilhá-las com você se não tenho certeza.

- Então vou tirar isso a limpo. – Lunna se levantou.

- Onde vai?

- Falar com o Grande Mestre. E é claro, matar a saudade dos amigos que ainda me restam.

Mu levantou-se e ficou em silêncio por uns instantes. Lunna olhava-o impaciente. Precisava no mínimo ter sua aprovação.

- Eu vou esperar você aqui. Não posso sair. Sugiro que vá depressa.

- Por que tanta afobação?

- Porque estamos na iminência de uma invasão. Uma guerra está por vir.

A jovem engoliu em seco.

- Não há tempo para explicar. Vá!

Lunna correu em direção as escadarias. Uma guerra! Amaldiçoou-se por não ter voltado antes. Chegara num momento ruim. Mas não tinha medo da batalha que estava por vir. Sabia que guerra mesmo era o que ela ia fazer para tirar tudo à prova. Sim...ela escavaria, a qualquer custo, todas as verdades enterradas naquele "santuário".

Chegou à Casa de Touro e não se conteve:

- Aldebaram!

Uma figura gigantesca emergiu das sombras das colunatas. O brasileiro também vestia sua armadura e Lunna acreditou que ele dobrara de tamanho. Agora sim o apelido "Muralha" fazia mais sentido do que nunca.

- Lunna? – Aldebaram olhava-a incrédulo. Abriu o sorrisão característico – HAHA! Você voltou! – O gigante levantou a moça no ar.

Lunna riu e ele colocou-a no chão. Ela aproveitou o abraçou-o. Mal chegava ao seu peito e suas mãos mal chegam às suas costas.

- Senti sua falta.

- E todos nós sentimos a sua.

- To vendo que hoje tá todo mundo assim, bonito, vestindo as armaduras. – Lunna piscou um olho.

- Hehe. Eu acredito que Mu deva ter lhe contado o motivo. – Aldebaram sorriu sem jeito.

Ela não queria falar dos problemas. Gostava daquela energia que o amigo tinha, típica do seu país.

- E cadê as namoradas, hein? Hein? – A moça cutucava-o.

Aldebaram tinha ficado vermelho.

- Ora! Eu lhe pergunto o mesmo!

- Ah, vocês são meus namorados, você bem sabe.

Ele riu e logo depois ficou sério.

- Está preocupado com os invasores?

- Naah! Onde já se viu cavaleiros de bronze derrotar os de ouro?

- Cavaleiros de bronze?

- Mu não lhe falou? Eles vêm hoje aqui, alegar que a verdadeira Athena está com eles. Que absurdo! Todos sabem que a Deusa está lá em cima, depois de Star Hill.

Lunna abaixou a cabeça. Não lhe interessava onde estava essa deusa.

- Eu tenho que ir, Deba. Mu disse para me apressar. Quero ver todos e...pretendo falar com o Grande Mestre.

- Tome cuidado, Lunna. Alguns de nós mudaram muito e outros nem tanto. E o Grande Mestre não é mais o mesmo.

- Realmente, Deba. Realmente.

Ela se despediu e continuou a sua subida. Divisou ao longe a Casa de Gêmeos e a poucos metros de chegar parou na escadaria. Recordou-se de Saga, com febre em seu leito, de como cuidara dele e acabara adormecendo. No entanto Saga não estava mais lá. Será que ele havia sumido por causa do demônio? E a casa? Estaria desprotegida? Iria arriscar.

A guardiã entrou correndo pelo amplo salão, mas teve que se esquivar rapidamente de um raio que veio em sua direção.

- Que porra é...

O cavaleiro apareceu. A armadura de gêmeos reluzia, seu capacete com duplo rosto era medonho. Um cosmo poderoso parecia emergir dele.

- Quem é você?

Não houve resposta, apenas uma rajada de energia em direção a garota. Lunna teve que se jogar no chão para não ser acertada. Olhava desconcertada para o cavaleiro, mas não conseguia ver seu rosto. Será que era apenas a armadura?

- Não é uma simples vestimenta que vai me deter! – Ela se levantou disparando sua energia contra o oponente, que foi atingido em cheio. A armadura se desmontou, suas partes migrando para longe. Seu rival se desfizera no ar.

- Apareça e lute de verdade! Seja lá quem for! – Lunna queimava sua energia esperando um outro ataque. Mas nada mais veio. Correu para sair daquela casa perturbadora.

Na subida, vislumbrou a Casa de Câncer e recordou-se da visão agourenta de Afrodite morto. Estancou ao chegar à entrada, pois sentia um clima péssimo naquele lugar. Se antes, a conhecida casa assombrada do Santuário possuía uma atmosfera densa para os mais sensíveis, ela se tornara insuportavelmente pesada. Como Carlo conseguia ficar ali? Foi entrando devagar.

- Carlo?

- Quem é o tolo que ousa entrar na Casa de Câncer? – A voz era cavernosa e retumbante. A moca seguiu o som e deparou-se com a silhueta de um cavaleiro. Aquele nevoeiro espesso não era nada mais do que energia estagnada acumulada.

- É você, Carlo?

- Aqui só há um Máscara da Morte! – O cavaleiro surgiu.

- E aqui só há uma Lunna Monami.

Carlo deteve-se diante da guardiã, franzindo a testa. Analisou-a de cima a baixo. Lunna relembrou o jeito costumeiro dele olhar para os outros como se fossem vermes, mas sorriu.

- Que diabos você faz aqui?

- Ué! Vim te ver!

- Para quê?

- Ah Carlo, vai me dizer que você não sentiu minha falta nem esse tantinho assim? – Lunna mostrou o polegar e o indicador.

- É claro que não!

- Carlo, como é que você consegue ficar aqui? Não sente esse clima pesado?

Máscara da Morte deu uma gargalhada.

- Se não entendeu olhe as paredes!

Lunna tentou enxergar além das brumas. Aquilo já estava lhe dando dor de cabeça. A jovem retesou ao distinguir rostos humanos adornando as paredes. Não, definitivamente aquilo não existia antes.

- Que rostos são esses? – A garota achava que sabia a resposta, mas precisava ouvi-la da boca do outro.

- São meus! Meus troféus! Não percebe? Sou o maior executor do Santuário.

- Mas...mas, Carlo...tem ...tem crianças aqui!

- Se não gosta, vá embora! Saia daqui antes que eu coloque seu rosto entre eles! – Máscara da Morte avançou para ela e ela recuou.

- Não posso ir embora...preciso falar com o Grande Mestre.

- E porque acha que o Grande Mestre vai querer vê-la?

- Se ele não quiser, eu vou obrigá-lo a me receber.

- Eu vou é acabar com você aqui! – Máscara da Morte avançou em direção de Lunna e liberou uma bola de energia em sua direção. A guardiã desviou e voltou-se para ele revoltada:

- Lembra-se das minhas visões, lembra? Lembra-se dos vivos-mortos que me visitaram? Será que agora que você é apenas um assassino está preparado para saber quem eram?

- Pouco me importa quem seja!

- Afrodite, Carlo! Foi Afrodite quem eu vi morto!

Carlo estancou. Bufava de raiva agora.

- Carlo, você mudou...—Lunna falava com tristeza agora.

- Saia daqui...Saia daqui antes que eu me arrependa da minha benevolência! Vá falar com o Grande Mestre se acha que tem alguma chance! Veja e constate que nada do que você fizer vai mudar alguma coisa!

Lunna correu para as escadarias e Máscara da Morte correu atrás dela até a saída. Parou segurando-se numa coluna, o rosto contorcido de raiva.

Câncer nada disse e retornou a casa. Não poderia deixar seu coração amolecer por causa daquelas palavras. Não poderia se tornar um fraco, pois quando vencesse, a lógica do vitorioso seria a certa, a verdadeira. E ele não seria derrotado.

A guardiã parou no meio da subida apoiando-se numa das laterais da escada. Não chegara nem na metade do caminho e já estava estafada com tantas mudanças, tantas surpresas desagradáveis. Aquele era mesmo o lugar que a fazia sentir tão em casa? Virou seu rosto em direção ao próximo templo.

"Aiolia, me diga que ainda é o mesmo."

Lunna retornou ao trajeto relutante. Já duvidava se sua empreitada iria gerar bons frutos. Entrou de mansinho, na Casa de Leão, chamando por seu inquilino:

- Aiolia?

Uma figura hesitante apareceu, vindo do interior do palacete. Mirava a visita tentando compreender se se tratava de alguma ilusão.

- Lunna?

- Aiolia... – Ela se aproximou com um sorriso esperançoso. Seu coração batia forte. A semelhança entre Aiolia e Aioros era inacreditável. – Você está tão bonito com essa armadura...

O cavaleiro se aproximou e apanhou as mãos da moça. Estava admirado com a surpresa, admirado como ela tinha ficado ainda mais bonita. Abraçou-a.

- Senti sua falta.

- Eu senti demais a sua.

Afastou-se com o sorriso maroto que Lunna reconhecia de anos atrás. Roubou-lhe um beijo.

- Aio...! – Antes que Lunna terminasse sua exclamação surpresa e falsamente indignada, Aiolia roubou-lhe outro beijo.

- Vejo que você perdeu completamente a vergonha.

- Um pouco. Agora não perco nenhuma oportunidade. – riu.

Lunna sorriu aliviada. Aiolia era o mesmo de sempre.

- Como você está?

- Não muito bem, Lunna. As coisas aqui no Santuário estão...estranhas.

- Eu soube de Aioros...hoje. – A voz da guardiã embargou no final e Aiolia cerrou os olhos e abaixou a cabeça suspirando. – Aiolia...Aiolia, seu irmão não é traidor...—ela segurou o rosto do leonino, erguendo-o. – Isso é inconcebível...

Aiolia abriu os olhos novamente e viu que lágrimas deslizavam pelo rosto da garota. O grego segurou com força as mãos dela.

- Eu sei...eu sei...—Abraçou-a – Agora eu sei...

- Eu não acredito que ele morreu, Aiolia...

Quando Aiolia se deu conta chorava junto com a amiga, afagando-lhe os cabelos. Já fazia treze anos e aquilo nunca passava. Nunca ia embora. Era como um ser adormecido que de tempo em tempos acordava para bagunçar as coisas, as idéias. Mas o rapaz não ia permitir Lunna vê-lo chorar. Enxugou o rosto antes de afastar-se da garota.

- É por isso que estou subindo para falar com o Grande Mestre. Não só por Aioros, mas também porque tudo tem estado muito errado. Coisas estranhas têm acontecido por aqui, Lunna.

- Eu também estou subindo. Quero tirar algumas coisas a limpo.

- Então vamos juntos.

- Não...melhor não. Aiolia, você me permite ir à frente? Dê-me um tempo, deixe-me ver se consigo arrancar algumas respostas.

- Lunna, o Mestre não é o mesmo que você conhecia. Pode ser perigoso.

- Eu sei, Aiolia, mas você sabe muito bem que sei me virar. Por favor...?

- Tudo bem. Mas vá depressa. Quero esclarecer as coisas antes que os de cavaleiros de bronze cheguem aqui. Se possível, gostaria de evitar uma batalha sem sentido.

- Me deseje sorte. – Lunna beijou-o no rosto e seguiu para a próxima casa: Virgem.

"Shaka, Shaka...deve estar mais rabugento que nunca. Será que dessa vez eu vou levar o Tesouro do Céu nas fuças?" A garota sorriu, pois mesmo que isso acontecesse, ainda assim ela saberia que as coisas não haviam mudado tanto assim.

Adentrou a Casa de Virgem sem hesitação e encontrou o cavaleiro de ouro em posição de Lótus, meditando. Encarou-o coçando a cabeça, procurando descobrir uma maneira segura de chamar sua atenção. Porém, logo descobriu que o virginiano já tinha percebido sua presença de longe:

- Você demorou a chegar aqui.

- Não me lembro de termos marcado uma hora, meu amigo. – respondeu a garota com seu jeito petulante.

Shaka sorriu, mas não saiu de sua posição. E nem parecia ter a intenção de mexer um único músculo. Lunna meneava a cabeça de um lado para o outro, já se irritando com a fria recepção.

- Você nem vai abrir os olhos pra dar uma boa olhada em mim?

- Não creio que isso seja conveniente. Mas não se preocupe. Eu enxergo você muito bem.

Ela riu.

- Que bom...por que eu lembrava de você quase se perder em um certo parque de diversões.

- Sua memória é excelente. – Franziu um pouco o cenho como se ponderasse – Vejo que não veio apenas fazer uma visita cortês...

- A intenção não era uma "visita cortês". Era matar a saudade de vocês, mesmo, idiota! Mas tive que mudar um pouco os planos por causa dos acontecimentos...- Lunna respirou fundo, ficando séria.

- Está a par de tudo, percebo.

- Mu me contou o que ele sabia. Mas você sabe que não me dou por satisfeita com tão pouco.

- Sim, eu sei...- Sorri - Vejo que ao contrário de muitos de nós, você não mudou...

- Mudar todos mudamos, Shaka. Mas no final, ainda somos os mesmos.

- Não encontrará respostas comigo... vai saber do que falo no tempo certo. Siga em frente, e comprove o que digo com seus próprios olhos...

Lunna estava frustrada com a recepção frígida do amigo. Mas Shaka era assim, não era? Não podia mesmo ficar bobeando àquela altura. O importante mesmo era ver se seus entes queridos estavam bem.

- Eu vou...mas, quando isso acabar, eu volto. E aí, te dou um abraço nem que você não queira! Fui!

- Lunna! - O virginiano a chamou, saindo de sua posição de Lótus.

A garota parou e voltou-se para o cavaleiro.

- Nunca a agradeci pelo dia do parque. Obrigado. - E virou-se, sumindo no interior do Templo de Virgem.

A guardiã abriu um enorme sorriso e saiu em disparada para as escadarias. Passou como o vento pela casa de Libra, ansiosa para chegar logo na Casa de Escorpião. Milo.

Entrou sem pedir licença, inoportuna, procurando por Milo. O cavaleiro correu até a presença invasora e estranha que seu cosmos detectara, pronto para o ataque. Estacou no meio do impulso ao ver o rosto iluminado e conhecido de sua antiga amiga. Seu "bichinho de estimação".

- Lun!

- MiloMiloMilo! – correu para abraçá-lo, passando os braços ao redor do seu pescoço. – Que saudade! – Ela suspirou sentindo o cheiro do seu perfume e os fios dourados do seu cabelo. Porém, Milo logo a afastou dele segurando-a pelos braços.

- Por que demorou tanto? – Milo parecia zangado.

- Não pude vir antes...

- Mentirosa! Não é possível que seu mestre aporrinhou e prendeu você durante treze anos! Ele te deixava amarrada por acaso?

Lunna riu meio sem jeito da indignação do amigo. Milo mantinha a cara emburrada, meio infantil.

- Me perdoa? – Ela meneou a cabeça, com uma falsa expressão tristonha.

- Perdoo não!

- Ooo Milo...Milo, Milo...

- Claro, sua boba!—Levantou a garota no ar – Ah! Não acredito que você voltou! Minha companheira de festas! – colocou-a de volta no chão - Mas me deixa olhar pra você. Gatona, hein?

A moça soltou uma gargalhada.

- Vocês também estão ótimos! Com essas armaduras então...

Milo estava radiante. Ria e mexia nos fios loiros que contrastavam tão bem naquela pele bronzeada. Ele estava tão contente por ela ter voltado. Tão feliz, que ela já sentia o ódio dele no minuto seguinte. O ódio por ela ter visto. O ódio por ela não ter contado. O ódio por ela não ter impedido. A morte de Kamus.

- Desculpe, não escutei... – "Não precisa mais gostar de mim, apenas me perdoe quando acontecer..."

- Você está nas nuvens! Estou falando que eu queria muito aproveitar o dia com você, tem tanta coisa pra contar, tanta coisa que aconteceu... mas, infelizmente estamos na iminência de uma invasão por aqui.

- Eu sei, os outros já me puseram a par da situação. Eu também não posso demorar, vou lá em cima, compreende?

Milo assentiu com a cabeça. Lunna percebeu que ele ficou sério com a menção de ir a Star Hill. Pensou ligeiro e quebrou o mal estar:

- E como está você e Kamyu?

Milo deu um sorriso malicioso.

- Sem comentários.

- Hahaha Milo!

- Pergunta pra ele. Diz que fui EU que mandei.

- Eita, Milo. Você não tem jeito! Se cuida, tá? – Beijou-lhe a face.

Ela despediu-se do cavaleiro de Escorpião com satisfação. Desde que saíra de Leão, seu coração ficava cada vez mais leve com a constatação que ainda tinha amigos por zelar por ali. A casa de Sagitário surgia aos poucos no horizonte. Lunna fechou os olhos, sem deixar de correr, sentindo a brisa e a saudade achegarem ao seu coração. Desejou um milagre. Desejou entrar naquela casa e encontrar Aioros. Entrou no palacete às escuras, guiada apenas pela sua percepção. Tinha medo de abrir os olhos e seu sonho não se realizar. Parou, sentindo estranhas impressões. Era uma energia morna, cálida, envolvente. Reconheceu imediatamente como sendo de Aioros e agora achava que sentia seu cheiro no ar. Mas não, não abriria os olhos.

Respirou fundo, sentindo novas lágrimas brotarem. Já havia chorado àquele dia e tudo levava a crer que choraria muito mais. Quis enxugar o rosto, mas lembrou-se do último diálogo que tivera com o cavaleiro de Sagitário. Chorar não era sinônimo de fraqueza. Era ser humano. Encontrou uma coluna e apoiou-se. Choraria ali, nem que fosse só um pouco. Choraria na presença de Aioros, esperando que ele viesse surpreendê-la. Mesmo que fosse ilusão. Mesmo sendo bobagem.

"Aioros...Aioros eu lhe prometi a glória. A maior de todas. E eu cumprirei a minha palavra."

Lunna encheu-se de coragem e abriu os olhos encarando a realidade, a sala deserta e escura. Correu mais veloz que antes, mais forte que antes e quando menos esperou, já estava à frente da próxima casa, o cosmos emergindo, o calor tomando de conta dela.

Encontrou Shura sentado nas escadarias à frente da Casa de Capricórnio, com aquele jeitão largado, contemplativo. Lunna achava que lhe faltava um cigarro à boca e um violão. Armadura pra quê? Ela subiu as escadarias e prostrou-se diante dele olhando-o de cima. Shura moveu a cabeça lentamente, dirigindo-lhe o olhar tedioso, analisando-a. Por fim, disse:

- Coxão, hein?

- Chifrão, hein?

- Sou um corno com orgulho.

Ela tentava sorrir, mas não conseguia. Queria muito cumprimentar o amigo de verdade, sem precisar de nenhuma cretinice. Mas estava bloqueada. Estava diante do executor do homem que admirava. Como você pôde, Shura? Não tinha estômago para isso. Shura parecia que compreendia o que se passava na alma da outra, e permanecia quieto, observando-a, na mesma posição. Muito tempo se passou antes que ele, novamente quebrasse o silêncio:

- Pode me bater se quiser.

Lunna abriu a boca para responder, contudo nenhum som saiu. Levantou a mão para o alto preparando o tapa que aplicaria no seu rosto. A mão desceu implacável. Shura fechou os olhos esperando a batida, todavia sentiu apenas um vento nos cabelos e um tilintar metálico no chão. Abriu os olhos para constatar que Lunna arremessara seu capacete para longe, na direção da casa.

- Não vai trazê-lo de volta mesmo.

Lunna respirou fundo e ajoelhou-se diante do capricorniano espantado.

- Me dá um abraço logo, droga.

Shura puxou-a para si beijando-lhe a testa e abraçando-a com força. Ambos respiravam profundamente.

- Você é sempre surpreendente.

- Cala a boca, Shura. – Ela enterrava seu rosto com violência no peito do amigo e tremia de raiva, tristeza e frustração. Ela achou que o rapaz tremia junto com ela, mas não teve certeza. Afastou-se lentamente, sem ousar levantar os olhos. Segurou as mãos compridas do espanhol com força, eliminando o que restara de cólera.

- Tenho que ir. Vou falar com o Grande Mestre.

Shura apertou a mão dela de volta com força e Lunna levantou o olhar. O capricorniano apresentava um semblante de preocupação.

- Não...eu sei do perigo. Mas tenho que ir. – Ele ergueu-se sem tirar os olhos dele. Desalinhou seus cabelos, beijou-o na testa e partiu em disparada.

Faltavam apenas duas casas agora. Dois amigos. Dois amigos que Lunna tivera visão deles mortos. Como odiava estar sempre certa. Aproximou-se com cautela da casa de Aquário, sentindo o clima gélido que pairava ao redor. Seguiu, sentindo o frio aumentar gradativamente. A moça sorriu gentilmente diante do aparecimento do pálido cavaleiro à fachada.

- Salut, Kamyu.

- Lunna?

- Surpreso?

- Sim e não. Esperava que viesse, mas não sob essas circunstâncias...

Ela riu sem graça.

- É, nem eu. Mas sou meio corvo da tempestade. Tenho o dom de chegar nas horas erradas. -A garota passou a língua nos lábios enquanto terminava se subir os degraus e ficar frente a frente com o francês. Começou a rir do nada. Kamus franziu a testa.

- Qual a graça?

- To lembrando de quando você queria me matar por eu ter feito você beijar o Milo.

Kamus enrubesceu.

- Você diz cada baboseira... – Seu rosto competia com o seu cabelo ruivo agora – Foi para isso que veio?

- Pra dizer baboseiras? Também. Mas eu queria mesmo era dar um abraço apertado numa pessoa gelada que não vejo há muito, muitos anos.

Sorrindo meio sem graça, Kamus abaixou a guarda, quase abrindo os braços.

- Você pode ter mudado por fora...mas é só.

Ela abraçou o amigo ignorando o frio cortante que era tocar na sua armadura. Quando se separaram, o francês tinha um leve sorriso no rosto, mas a garota estava triste. Segurava uma mecha de seu cabelo ruivo, alisando-a com os dedos.

- O que foi agora?

- A verdade é que estou preocupada com você.

- Preocupada comigo? Por quê?

- Estou com um mau pressentimento, Kamyu. – disse levantando seus olhos para os dele, aqueles olhos eternamente pacientes, eternamente como as geleiras.

- Sei do que fala... - Perde o olhar fitando o horizonte - Não pretendo matar meu discípulo, Lunna...

- Discípulo? – A garota franziu o cenho.

Kamus sorri para ela, o olhar tranqüilo.

- Sim, meu discípulo vem aqui hoje, para lutar comigo, por Athena.

A guardiã tentava assimilar a informação. Não conseguia se imaginar lutando contra seu antigo mestre Janos.

- Mas...mas que absurdo!

- Mas é assim que deve ser. – O cavaleiro suspira, abaixando a cabeça - Ele não entende, não consegue me entender... —levanta novamente o rosto com um sorriso.

- Kamyu...eu não sei do que está falando. Mas por favor, não faça nenhuma besteira! Não faça...não faça Milo sofrer...

- Um defensor de Athena não pode se dar a esse luxo. É o destino de todos nós ...morrer em batalha...

Athena, Athena. A visitante não agüentava mais aquele nome. Afastou-se do francês irritada. Nem mesmo Milo pôde alterar a percepção calculista e racional de Kamus com seu temperamento explosivo.

- Kamyu!

- Vou fazer o que deve ser feito.

Lunna lançou-lhe um olhar desesperado, mas Kamus parecia impassível. Ele encarava a garota.

- Pardonnez-moi, mas você não tinha algo a fazer? -Olha para o monte - Em Star Hill?

- Sim...tenho algo importante a fazer lá. Então...Au revoir, meu amigo! Bonne chance.

- À bientôt, cherri.

"Ok. Mais uma casa e depois, Star Hill." Sentiu à distância o cheiro inebriante de rosas. Mas em vez de embevecer-se com o aroma agradável, seu estômago embrulhou com a lembrança de um corpo no meio das flores ensangüentadas. A aproximação com Star Hill e o encontro com Kamyu deixavam uma impressão funesta no ar.

O cavaleiro de Peixes esperava à frente de sua casa, assim como cavaleiro de Aquário. Trazia o capacete debaixo do braço e os cabelos balançavam sutilmente na brisa. Os anos apenas realçaram a beleza andrógena de Afrodite, cuja armadura cintilava naquele sol escaldante.

- Nossa, Dite, você brilha de longe...

- Olha só quem voltou...Lunna, querida. Lembrava de você mais raquítica. Posso ver que melhorou bastante.

A moça passou a língua pelo canino superior. Parecia que a "colega" se tornara mais ácida com o passar dos anos.

- Jealous much?

- Ah, querida. Não me compare a você. As pessoas me admiram e me amam, não sabia?

- Sabe, querido, parece que as coisas aqui não mudaram muito. Você continua uma mega vadia.

Afrodite arremessou uma rosa contra a guardiã, mas a garota desviou apenas girando o rosto. O pisciano soltou um pequeno riso.

- Os seus reflexos melhoraram consideravelmente, amiga. Mas diga-me, você demorou a chegar aqui. Já passa da hora do almoço. O que andou fazendo? Dando para os nossos colegas?

- Não tanto quanto você dá diariamente. Aliás, como anda você e Carlo? Domou o cavalo batizado ou deixou-se influenciar pela maldade que agora infestou sua alma?

- Somos uma dupla e tanto, querida. Ninguém pode nos derrotar. Ninguém.

A guardiã já estava enojada com aquela conversinha. Era verdade que Afrodite sempre tinha essas fases mais azedas e venenosas, principalmente quando se irritava com alguma coisa. Mas agora aquilo era tudo o que ele tinha se tornado: uma piranha fria e arrogante. Cruel como seu amante.

- Sabe, Dite, está meio tarde e eu vou andando.

- Subindo?

- Vou falar com o Grande Mestre. Afinal, eu voltei e tenho que cumprimentar todos, não?

Afrodite soltou uma risada maldosa.

- Lunna, querida...hahaha...vá, vá correndo falar com o Mestre. Ele vai lhe receber muito bem... – sibilou, puxando uma mexa dos cabelos perfumados e sedosos para trás da orelha. A garota correu até a saída da casa, mas antes de se afastar muito, parou e virou para o cavaleiro:

- Cuidado, Frô. Com todo esse cheiro você pode morrer intoxicado.

A guardiã velozmente sumiu antes que o pisciano desse algum chilique. Porém, as escadarias do fundo da casa de Peixes estavam cobertas por rosas. Muitas rosas. Lunna não era boba e pressentiu o perigo.

- Ok...isso não estava aqui há treze anos.

Deu meia volta e caminhou relutante até Afrodite, que prevendo o que ia acontecer, estava parado à saída, esperando-a com um sorriso.

- Amigo...acho que você deixou seu jardim crescer demais!

Afrodite gargalhou.

- Tá com medinho de pisar em rosas, guardiãzinha?

- Não tenho tempo para joguinhos, Dite!

- Ah, assim você me magoa.

- Vai me deixar passar ou não vai?

- O que quer fazer realmente em Star Hill? Vocês guardiões não deveriam interferir, não?

- Você sabe o que está acontecendo?

- Claro que sei, não sou burro.

- E não se importa?

- Não. Nem um pouco, para mim tanto faz quem esta lá em cima.

- Como assim quem? Não é Ares que está lá em cima?

Afrodite deu um sorriso de escárnio.

- Não pequena, não é Ares quem está lá. Queria ver sua cara ao saber quem é o 'Grande Mestre' agora...hahahaha

Lunna estava chocada. Será que...será que era mesmo...

- Me deixe passar!

- Oras, não é assim que se fala. Perdeu a educação foi? – o cavaleiro continuava com o sorriso zombeteiro no rosto.

A visitante passou a mão no rosto e tornou a olhar para Afrodite mordendo a língua. Já se arrependia de ter sofrido com a visão do amigo morto. Merecia. Se pudesse se teletransportar...ah, não ia precisar se humilhar dessa forma. Maldito Cosmos de Athena!

- Amigo...poderia, por favor, me deixar seguir adiante? - Suas mãos seguravam com força uma coluna que estava prestes a rachar com a pressão.

- Isso mesmo, assim que se fala... - Passou pela guardiã como se a mesma não estivesse ali, seguiu até onde o jardim começava, e soprou, abrindo levemente os lábios carnudos, pintados de azul. As Rosas sumiram em questão de segundos.

- Pode passar, querida amiga.

Lunna cruzou com o pisciano bufando de raiva e começou a subir com rapidez os degraus. Não muito distante, escutou Afrodite chamá-la:

- Às vezes, Lunna, as pessoas mudam por causa de outras.

A guardiã parou a corrida para escutar o que o outro tinha a dizer.

- Existem coisas contra as quais não se pode e não se deve lutar contra.

Ela pensou ter notado um tom de tristeza nas palavras do cavaleiro, mas ignorou e seguiu adiante.

Quando a guardiã finalmente chegou a Star Hill, havia guardas cercando toda a construção. Parou ainda nas escadarias, e escondeu-se atrás de uma coluna, a fim de olhar a movimentação, a ronda normal. Não ia comprar briga a toa. Seu mestre lhe ensinara sempre a não ser impulsiva, o que de fato era algo que às vezes ela não conseguia fazer, e seu irmão ensinara-lhe mil maneiras de escapar de uma luta. Esperou. Ia achar uma brecha para passar.

Já era de tarde, mas o sol não dava clemência. Queimava-lhe o rosto aquele momento de espera. O suor incomodava. Mas faltava pouco agora. Pronto. Um momento de distração, um minuto de desatenção e ela passara agilmente por eles. Amadores. Esgueirou-se pelos corredores amplos da pedra característica de todos os templos. Apagou, sem fazer barulho, os dois guardas que ficavam estacionados na frente da grande porta adornada em ouro. Sentiu seu sangue ferver ao tocá-la no intuito de abri-la. Não hesitou. Mas...a cadeira estava vazia! Onde será que ele podia estar?

Adentrou o espaçoso salão, olhando para os lados, receosa. Procurou sentir o cosmo do outro, tendo cautela em esconder o seu próprio. Seguindo essa intuição enveredou para esquerda e deparou-se com outra porta. Sim, ele estava ali.

Entrou tempestuosa na sala, abrindo as portas estupidamente, sob os protestos do Grande Mestre, que estava sentado atrás de uma grande mesa de madeira nobre.

- Quem é você?! Como ousa entrar aqui dessa maneira?!

Lunna havia retesado. Aquela voz...aquela energia...aquilo era familiar. Percebeu que o homem por trás da máscara, ali naquele aposento nuvioso, inóspito, no ponto mais alto que se podia chegar em toda a Grécia, também se encontrava paralisado.

- Não, não pode ser...

Saiu daquela paralisia como que por encanto, avançando para cima da figura sombria, arrancando-lhe a máscara e o capacete, arremessando-os para longe. Pareceu que o mundo ficou sem som e sem cor. Seus olhos se arregalaram, seu coração parou, sua boca abriu sem emitir som. Conhecia aqueles cabelos, aquele rosto muito bem. Só conseguiu falar depois de escutar o ruído do metal estatelando no chão. Algo que durou uma eternidade.

- Sa-ga...

- Você voltou... – o geminiano estava assombrado.

A garota estava em choque. Ela imaginara, suspeitara. Mas...sempre havia um "mas". Sempre havia esperança de ser uma ilusão. Mas ela sempre acertava...sempre.

- Está...linda...do jeito que imaginei que ficaria...

- O...o que está fazendo? – Lunna falou baixo demais. Quase nenhum ar entrava ou saia de sua boca.

Saga olhou-a sem entender.

- O que está fazendo?!

- Não consegue ver? – sorria debilmente. – Eu estou tomando conta de tudo! – travou de repente e pôs as mãos no rosto.

- Você mandou matar Aioros... não foi?...Por quê?

Saga ergueu o olhar para ela transtornado.

- Responda! – Lunna gritou batendo na mesa.

O cavaleiro pôs as mãos sobre a mesa como se quisesse evitar aquele terremoto.

- Ele estava no meu caminho...ele sabia...ele não podia contar pra ninguém. Eu não ia permitir que ele... contasse... "tu n'étais pas bien pour moi... tu n'étais pas bien pour moi" – parecia que cantarolava baixinho no final, olhando para o lado.

Lunna respirou fundo repetidas vezes. Tentava tirar energia de algum lugar, pois começava a sentir-se fraca.

- Você deixou o demônio te dominar... – a voz da guardiã era de uma tristeza profunda.

- Você não estava aqui...você não estava aqui para me ajudar...partiu. E eu nem a vi ir...

- Eu falei com você! Mas...mas não era...era...Kanon! Onde está Kanon...o que você fez com ele...?

- Kanon está pagando pelos seus crimes. Está preso. – disse recompondo-se. Parecia agora um homem sério e sóbrio. Mudava de atitudes e gestos demais, contribuindo para deixar a garota ainda mais confusa.

- Crimes? – Lunna sorria pela ironia. – Me diz, Saga...que crimes? Qual foi o ato tão terrível que ele cometeu?

Saga olhou incisivamente.

-Você sabe o porque...

Lunna tentou esbofeteá-lo no rosto, mas ele segurou seu punho com força. Puxou-a rudemente, fazendo-a se apoiar com a outra mão sobre a mesa.

- Miséria...é só o que eu consigo enxergar em você!

O cavaleiro empurrou-a violentamente e Lunna caiu no chão. Avançou para cima dela num surto de raiva, apertando seu pescoço. A guardiã estava confusa demais e se debatia, tentando inutilmente segurar os punhos do inimigo. Via a sombra mais nítida do que nunca no seu olhar, o sorriso maldoso ao sufocá-la. Sentia que se apertasse mais, seu pescoço se quebraria. Voltando a raciocinar, concentrou rapidamente calor em suas mãos, queimando a pele de Saga, que a largou. A expressão maldosa esvaecia dando lugar a uma desesperada. Ele rastejou-se para longe dela, apoiando as costas numa das pernas da mesa.

Ela ergueu o tronco, sentando-se, uma mão na garganta.

- Vai me matar também? Vai me matar como fez com Aioros?

Saga escondia o rosto com as mãos. Contorcia-se no chão. Lunna levantou-se, a mão ralando na fria parede de pedra. Seu corpo doía tanto. De ódio. Cerrou os olhos. "Aioros, Aioros...Saga destruiu tudo!" Debateu-se na parede, jogando suas costas contra ela de tanto rancor. Uma... duas...três, até sentir que alguém puxava seus pés.

- Me impeça...!

A guardiã mirou o homem a seus pés que pedia socorro. Socorro o qual não podia dar.

- Me pare agora! Você pode!

Não suportava ver aquele homem no chão. Ergueu-o pela gola da vestimenta de grande mestre. Segurava firme, lançando-lhe um olhar letífero. Sentia pena, sentia o calor da vingança apossar-se dela.

- Maldito! Eu devia matá-lo!

Sentia-se sufocada por tê-lo tão próximo.

- Mate-me...mate-me... – Saga abraçou-a e começou a distribuir beijos pelo seu rosto e pescoço enquanto repetia a súplica desesperada. A garota não sabia se continuava segurando-o ou se o empurrava para longe.

- Você dizia...você dizia que era tão cretina quanto eu, lembra? Igual a mim...quebrada...

- Está louco!

Não agüentava mais aquele peso. O ar denso entorpecendo-lhe os sentidos, as mãos de Saga começando a passear por ela. Lunna tentava empurrá-lo para longe, mas ele a pressionava mais e mais, fazendo-a contrair-se em soluços. Encostou a boca em sua orelha:

- Culpa sua...culpa sua...culpa sua eu ter matado Aioros ...culpa sua eu ter matado Ares...culpa sua eu ter prendido Kanon...

- Eu... eu odeio você.

Saga afastou-se dela, permitindo-a se mexer livremente e socou a parede. De cabeça baixa, ofegava, apoiando-se com ambas as mãos na pedra fria.

- Vá embora...corra...

Lunna não se moveu.

- Eu não consigo controlá-lo por muito tempo... vá!

Ela levou à mão a boca. Ali ainda existia o velho Saga? Saiu feito o vento, sem querer pensar no que havia se passado e no que ainda aconteceria. Não se importou em ser vista pelos guardas, eles nunca a alcançariam. Desceu as escadarias com o espírito atormentado, passando por Peixes e seu cavaleiro como se eles não existissem. Deparou-se com Aiolia que subia, mas não teve coragem de levantar seu olhar para ele, apesar dele tentar pará-la. Disse alguma coisa que não pôde escutar. Não escutava nada. Somente o vento zumbir nos seus ouvidos, o ruído dos seus passos ecoando, o som da sua respiração.

Passou por Aquário, Capricórnio, Sagitário, Escorpião, Libra, Virgem, Leão, Câncer, Gêmeos, Touro sem parar, sem sentir, sem falar ou ouvir. Não sabia se os amigos tinham visto seu rosto transtornado, sua energia oscilante. Não sabiam se haviam se preocupado ou debochado da sua ingenuidade. Veio como o vento, somente para se jogar no chão de Áries.

Achou que ralara os joelhos ao cair, a vontade de vomitar apoderando-se dela. Viu Mu atravessar o pátio do templo em sua direção, mas a voz dele chegava até ela distorcida.

- Mu, acho que não me sinto bem...

Lunna sentiu sua vista escurecer tão rápido que não pôde sentir sua face beijar o chão frio. Acordou com dois olhos verdes muito vivos a fitarem curiosamente.

- Quem é você?

- Sou Kiki! Meu mestre Mu me mandou ficar de olho em você.

A garota sentou-se ainda sentindo sua cabeça rodar. Acreditava estar num quarto no interior da Casa de Áries. Olhou para o garoto com cabelos cor de fogo. Ele também tinha os mesmos sinais da testa de Mu. Quantos anos teria? Dez?

- Aprendiz do Mu, hein? Faz tempo que apaguei?

- Na verdade, não faz nem cinco minutos.

A guardiã levantou-se se dirigindo a porta, mas Kiki tornou a puxá-la de volta a cama.

- Mestre Mu disse que era pra você descansar.

- Não posso descansar agora, moleque.

Kiki correu para frente da porta.

- Não deixo você sair!

Lunna achou graça da atitude do menino. Parecia bem mais ariano que Mu. Apertou-lhe o nariz com as juntas dos dedos indicador e médio, puxando-o para longe da saída.

- Vaza, pivete.

A garota deixou o quarto sob os protestos da criança, que acabou saindo também, seguindo-a. Encontrou com Mu à frente do templo, de olho nas escadarias. Deviam ser umas três ou quatro da tarde pela posição do sol.

- Não precisa me tratar como uma garota qualquer.

- Só achei que precisava descansar. Eu sei que é muita informação para assimilar numa única manhã.

Kiki havia se achegado timidamente perto de Mu, olhando a estranha de uma forma mal-criada, mas com curiosidade.

- Você sabia, não sabia? – a garota encostou-se a uma coluna, mirando as escadarias como Mu.

- Kiki, vá até meu baú e procure aquela caixinha que Shaka me deu. Traga ela até aqui, sim?

Kiki sumiu no interior do templo e Lunna completou sua pergunta.

- Você sabia quem estava lá em cima, não sabia?

- Lunna, porque não vai pra casa? Você não precisa passar por isso.

- Casa? Que casa, Mu? Eu não tenho casa. Só ando por aí, parando em um ou outro lugar de vez em quando.

Kiki retornou com uma caixinha decorada com motivos indianos, de madeira clara, com uma fechadura dourada. Mu passou a mão pelos cabelos dele, pensativo, sem tomar-lhe o que lhe pedira.

- Não...eu vou ficar. Não quero esperar mais treze anos para saber o que aconteceu com meus amigos.

- O dia vai demorar a findar...

- Cadê minhas fotos?

- Achei que não fosse mais perguntar.

O cavaleiro abriu a caixa nas mãos de Kiki e retirou um saco de pano vinho familiar. Entregou à amiga.

- Nunca dei uma única espiada.

Lunna retirou as fotos. Mu realmente cuidara delas bem, nem amareladas estavam. Sorriu relembrando antigos e pequenos acontecimentos.

- Olha, Kiki, o seu mestre quando era mais novo! – virou uma foto em direção ao aprendiz que rapidamente se aproximou curioso, esquecendo-se da cara amarrada que fazia minutos atrás para a visitante. Sentaram-se os dois no chão de pedra.

- Mestre, o senhor tinha cara de bobo!

- Kiki...

- Vem cá, vem ver também. Tá mais que na hora de mostrá-las pra alguém.

Mu sentou-se do lado da garota e ela passava foto por foto. Parou numa em que aparecia Aioros e perguntou olhando para ela:

- Acha que sou culpada?

O cavaleiro olhou para ela e passou-lhe a mão na cabeça, com um sorriso tenro no rosto.

- Aioros não morreu por algo que você disse. Ele morreu por algo que acreditava.

Um jato cruzou os céus do Santuário, um objeto estranho e um barulho incômodo demais para aquele cenário bucólico.

- Eu nunca tinha visto avião sobrevoar essa área.

- Devem ser Athena e os cavaleiros de bronze.

- E vieram de jato?

- A atual reencarnação da deusa, Saori Kido, é herdeira de uma grande fortuna.

- Mesmo assim é uma audácia! Onde é que eles pensam que vão pousar aquilo? No Coliseu?

- Provavelmente.

- Ah, inferno!

Mu riu e Lunna continuou:

- E essa Saori é o tal bebê que Aioros salvou?

- Sim.

- Mas se você acredita que ela é Athena, porque vai lutar?

- Não vou lutar. Mas nem todos acreditam. Precisam de algum tipo de milagre para acreditar.

- Um milagre tipo cavaleiros de bronze derrotar os de ouro?

Mu sorriu.

- Isso é ridículo. Vocês vão facilitar. Vocês querem mais que ela chegue lá em cima...para matar Saga.

- Não desejamos a morte de ninguém. Athena vem para purificar o Santuário.

- Purificar? Com mortes?

- Você não acabou de dizer que era impossível cavaleiros de bronze derrotarem os de ouro?

- Mesmo assim me preocupo com os meus amigos. Ainda mais depois do que vi e sonhei.

- Levante-se. São eles subindo.

- Eu? Vou ficar aqui sentada mesmo, obrigada. Não faço questão de receber assassinos.

Lunna viu Mu mover com sua telecinese uma grande rocha do penhasco e jogar contra os quatro cavaleiros de bronze, que dispersaram para evitar serem atingidos.

- Maneira legal de fazer as honras a alguém.

- Estive esperando por vocês.

- Mu de Jamiel? Você é o Cavaleiro de Ouro de Áries? – perguntou o surpreso cavaleiro com aparência chinesa.

- Droga, Mu...você não me disse que já os conhecia... – resmungou Lunna falando quase para si mesma.

- O que há com você? Por que está fazendo isso? Está interferindo na nossa missão de salvar Saori? – perguntou o cavaleiro loiro.

- É mesmo Mu...o que está fazendo? – a garota olhou para ele de forma irônica.

- E se fosse verdade o que poderiam fazer? – perguntou Mu sem se alterar.

- Está falando sério? Você prometeu derrotar Ares nos Cinco Picos Antigos! – o chinês parecia indignado.

- Não temos tempo! Temos apenas doze horas para salvar Saori da morte! Ela foi atingida com uma flecha dourada no peito! – completou o cavaleiro de feições andrógenas.

- Rá! Bem feito! – Lunna deixou escapar uma gargalhada de satisfação.

- Estou realmente decepcionado com você, Mu. – O cavaleiro chinês correu escadaria acima para atacar o ariano. Pulou para acertá-lo com um chute, mas o cavaleiro de ouro o parou no ar. Com o dedo indicador. E com o mesmo dedo, Mu o arremessou para longe, apesar de o cavaleiro de bronze ter habilmente se defendido com o seu escudo.

Os três se reuniram ao redor do rapaz caído para verificar se estava bem.

- Não se preocupe! Mestre Mu não bateu nele tão forte como você pensa. – falou Kiki descendo as escadas junto com o ariano.

- O que é uma pena... – completou Lunna.

Mas os cavaleiros estavam chocados: o escudo do chinês quebrara.

Mu explicou que as armaduras dos cavaleiros de bronze estavam cheias de rachaduras devido às inúmeras e duras batalhas.

- Não temos tempo para explicações sobre armaduras! – replicou o cavaleiro que Lunna achou que era o mais esquentado. E burro por dispensar uma explicação daquelas.

- A armadura de vocês ficará em pedaços mesmo que o inimigo mal encoste nelas. E seus inimigos são cavaleiros de ouro, esqueceram-se disso? Só a coragem de vocês não será suficiente para derrotá-los. Mas se querem lutar contra eles nessas condições, não os irei mais impedir. É a vida de vocês contra a deles.

- Vocês deveriam pedir ao Mestre Mu para consertar as armaduras! – disse Kiki com o maior sorriso de confiança que uma criança pode dar.

- Precisarei de uma hora para consertá-las.

- Você não pode está falando sério, Mu... –Lunna, que assistia tudo de longe, pôs a mão na cabeça.

Os quatro cavaleiros concordaram. Adentraram o templo de Áries, junto a Mu e Kiki, sob o olhar de desprezo da garota. Retiraram suas armaduras e entregaram ao cavaleiro de ouro. Ficaram num canto, em silêncio, esperando. Lunna permanecia sentada, encarando-os, o rosto escondido atrás dos braços que se apoiavam nos joelhos. Os quatro estavam se sentindo incomodados com o olhar incisivo da garota, mas nada diziam ou faziam. Até Lunna quebrar o silêncio:

- Mu, esses cavaleiros não vão nem passar de Aldebaram.

Os cavaleiros olharam para ela com despeito. Mu continuou concentrado no seu ofício.

- Falo sério...são fracos. Eles têm tanto poder quanto...um poodle.

- Lunna, eles vieram em nome de Athena. Devem ser respeitados.

- Respeito, Mu? Têm alguns aqui que nem queriam ser cavaleiros...nem merecem a armadura que carregam. – olhou incisivamente para o cavaleiro loiro, que reagiu com um olhar atarantado.

- Quem é você para falar que não merecemos a nossa armadura? Lutamos muito por elas! – respondeu o cavaleiro "burro".

- Quem é essa moça, Mu? – perguntou o rapaz andrógeno.

- Ei, ei...não pergunte de mim como se não estivesse aqui!

- Ela é uma amiga. – o Ariano respondeu sem se virar.

- Você é cavaleiro também? – perguntou o loiro.

- Não.

- Uma...hã...aprendiz de Mu? – perguntou o cavaleiro enfezado de camiseta vermelha, reparando nas roupas ocidentais da garota.

Lunna gargalhou.

- Acho que estou meio velha pra isso. Prefiro pensar que eu e ele estamos no mesmo nível. Olha, Mu! Eu até fui humilde!

Mu nem piscava, mas a garota sabia que ele escutava e estava atento a tudo.

- Vocês realmente têm essa necessidade de títulos? Sou alguém que está assistindo. Pronto.

- Qual seu nome?

- Não há necessidades de apresentações aqui.

Os cavaleiros de bronze já estavam se sentindo oprimidos com tantas cortadas.

- Além do mais, eu já sei tudo o que preciso saber sobre vocês.

Virou-se para o cavaleiro loiro que emanava o cosmos característico dos cavaleiros de gelo:

- Você é o aprendiz de Kamus, estou certa?

- Sim, sou.

Lunna sorriu internamente ao perceber a diferença estrondosa de poder entra ambos. Kamus exalava um cosmos tão gélido quanto às nevascas do Pólo Norte, quanto a uma Era Glacial. E aquele jovem a sua frente, não passava de um vento ameno para esfriar uma noite de verão. Virou-se para o de blusa vermelha:

- Você treinou aqui em Atenas, não?

- Como sabe?

- Pela sua armadura. Eu já treinei aqui também. Bem antes de você, obviamente.

- Mas você não parece tão mais velha assim.

- Que gentil. Mas isso não vai me fazer ser mais aprazível com vocês. – disse Lunna com desdém.

- E você, ceguinho – virou-se para o cavaleiro chinês, ainda mantendo o tom desdenhoso. – Você falou em Cinco Picos...não é lá que está Dohko de Libra, Mu?

Mu permanecia absorto no seu trabalho.

- Bom, quem cala consente. Você não seria aprendiz dele?

O cavaleiro nada respondeu. Tinha cruzado os braços seriamente. Lunna sorriu, passando a língua nos dentes, e continuou.

- O que faria se tivesse que lutar contra seu mestre hoje?

- Nunca lutaria contra meu mestre.

- Ah...mas esse outro aqui não se importa, importa? – disse virando-se para o loiro que recuou instintivamente.

- Pessoal, não liguem para ela. Está querendo só tirar a concentração de nosso objetivo. - O andrógeno voltava-se para os outros.

- Ah, é, eu ainda não falei de você... – Lunna voltou o olhar fixo para aquele que parecia ser o mais jovem. Podia ver a energia emanar ao seu redor como uma película protetora. Mas ela conseguia distinguir uma outra energia, roxa, escura, emanar dele. Sentiu um deja vu.

- Já nos vimos antes? – disse Lunna afinando o olhar.

- Não sei por que está nos destratando! Viemos aqui por que o Mestre do Santuário nos ataca e nos acusa de traidores gratuitamente. E agora precisamos salvar Saori! – respondeu o de camisa vermelha.

- Ah, não sabem? Eu vou lhes refrescar a memória: Vocês são invasores e assassinos.

- Não somos assassinos!

- Ah e vocês vieram passear por aqui, foi? Achei que tinham vindo matar meus amigos!

- Não é nossa intenção...mas é uma batalha, pode acontecer.

Lunna levantou-se possessa. Segurava as fotos nas mãos e seu cosmos esparzia ameaçadoramente. Os quatro recuaram.

- Mu, eu vou matá-los.

Mu virou-se para a visitante e ela respirava profundamente como que se fosse para segurar sua raiva.

- Me segura...me segura que eu vou matá-los.

Mu ergueu a mão esquerda e tocou delicadamente o antebraço da amiga. Em seguida, segurou-o completando o movimento sem se levantar, cabisbaixo. Os cavaleiros não entendiam o que estava acontecendo, mas o rosto da moça passava da ira para a tristeza. Lunna livrou-se da mão de Mu, rudemente e girou, ficando de costas para os visitantes. Não adiantava mesmo. Não havia nada que pudesse fazer além de assistir a avalanche de acontecimentos. Não podia intervir. Como sempre.

Sua paciência aumentara muito com os treinamentos e ensinamentos de Janos. Mas nem todo o treino do mundo faria ela ter sangue de barata. Custava-lhe muito estar ali. Mas ficaria. Por sua função e por seus amigos.

Os cavaleiros de bronze se entreolhavam em silêncio. Aquilo realmente causara mal estar entre eles. Mu apenas concentrava-se no seu dever e Lunna permaneceu de costas, agora encostada numa coluna, cabeça baixa mirando as fotos nas mãos. O chinês, tentando compreender a situação em que se encontravam, resolveu falar, avançando poucos passos:

- Moça...me chamo Shiryu, sou Cavaleiro de Dragão, e sim, meu mestre é o ancião que vive nos Cinco Picos Antigos. Acredito entender seus sentimentos. Mas não podemos ignorar que alguém está a morrer lá embaixo.

- Vocês se importam tanto com ela que a deixaram lá, no sol. Que feio.

- Não podíamos trazê-la junto conosco. Não sabíamos que inimigos enfrentaríamos. – respondeu o rapaz de blusa vermelha.

Lunna virou o rosto num impulso e rebateu:

- Acha mesmo que os cavaleiros de ouro são tão desleais a ponto de atacar alguém que não pode se defender? Patético. – e voltando a posição original – Mas de qualquer forma vocês são corajosos por virem aqui na cara-dura. Na verdade, meio suicidas. Por que se arriscam desse jeito por uma garota mimada?

- Saori é a Deusa Athena! – exclamou o rapaz de vermelho.

- Não deixa de ser uma garota mimada. Vai dizer que a riquinha não birrava quando não tinha seus desejos atendidos? Garoto, estou cansada de ver esses tipos! Vai ver que com uma flecha enfiada no peito ela melhore o seu caráter.

- Como pode dizer isso de uma garota inocente? – Replicou o loiro.

A guardiã virou-se para ele, lentamente, a sobrancelha erguida como se anunciasse uma ironia.

- Garota? Sim. Inocente? –aproximou-se do bando, inclinando-se levemente em direção a eles. - Não. –e voltando a posição ereta. - Nesse mundo, só são inocentes os que acabaram de chegar.

Lunna afastou-se um pouco os encarando.- E calem-se. Vocês interromperam o colega de vocês e quero escutar o que o ceguinho tem a dizer.

Shiryu se espantava. Não abarcava completamente o comportamento daquela estranha. Engoliu em seco, sentindo-se que o que dissesse seria determinante para levá-los ao céu ou ao inferno.

- Estamos aqui para que Saori seja reconhecida como Athena, para que assim os ataques cessem. Agora temos que salva-la, pois foi gravemente ferida. Parece-me que você tem uma alta estima por seus companheiros, os cavaleiros de ouro. Eu também tenho pelos meus amigos, e isso é mais um motivo para estar aqui.

Lunna nada respondeu e Shiryu continuou.

- A Deusa é necessária para manter a paz no mundo. Se Athena morrer, o mundo entrará no caos.

- Paz no mundo? Você acha que se Athena chegar lá em cima, no topo dessa montanha, as pessoas vão ficar felizes, no "peace and love"? Garoto...você não lê jornais? A paz no mundo só depende dos humanos. E não adianta um Deus descer à Terra e simplesmente ordená-la porque isso não vai acontecer. – A garota lançou-lhe um olhar de pena – Seu ponto de vista é muito bonito, mas utópico. Não são os deuses que guiam nossas vidas. Somos apenas...nós. Então, se você vai subir, vai lutar, está fazendo por você. Não por ela.

- Acabei.

Todos se voltaram para Mu de Áries que se levantava, afastando-se das armaduras que irradiavam um brilho intenso. O ariano era realmente um exímio ferreiro. Um artista. Os quatro cavaleiros de bronze apressaram-se para vesti-las, maravilhados e extasiados pela força que elas emanavam agora. Agradeceram o cavaleiro de Áries que os alertou antes de partirem.

- O mérito dos cavaleiros de ouro não está em suas armaduras, e sim, no seu cosmos. Eles são fortes porque conhecem a essência do seu cosmos. Aquele que fizer queimar e explodir sua cosmo energia mais que os outros, será o vencedor.

- O mestre Mu e eu cuidaremos da Saori! Não se preocupem! – falou Kiki com o eterno entusiasmo.

- Apressem-se! Só lhe restam mais onze horas!

Os cavaleiros agradeceram mais uma vez e correram para as escadarias sem olhar para trás. Os três que ficaram os acompanharam com o olhar, até que sumissem na paisagem branca. Mu virou-se para Lunna, que tinha uma expressão melancólica.

- Descerei para verificar como está Athena.

Lunna nem se mexeu e o ariano desceu as escadarias junto de Kiki. A garota não queria ver e muito menos velar a causa daquela confusão toda. Mas olhou para o templo de Áries vazio e sentiu-se mal. Relutante, desceu as escadarias e parou alguns metros longe de seus amigos, que se ajoelhavam perante uma jovem desfalecida. Aquela flecha devia está doendo pacas, mas isso não era suficiente para fazer a guardiã sentir remorso algum. Olhava-a enraivecida, desdenhando do vestidinho brega que a vestia.

- Essa daí que é Athena? Não parece grande coisa para mim.

- Resolveu atacar quem não pode se defender agora?

- Só estou falando...pra mim parece uma patricinha qualquer.

- Sua raiva só pode estar deturpando seus sentidos! Não sente o cosmos poderoso emanar dela?

É claro que Lunna sentia. Mas aquilo não a intimidava, como nunca se deixou intimidar por grandalhões de escola, campeões de faixa preta, magos antigos e experientes, monstros lendários e deuses mesquinhos. Já tinha visto coisa demais para se impressionar com aquilo.

- Não. – disse por fim com desdém, aproximando-se e sentando-se perto deles.

Mu balançou a cabeça. A amiga não era tola, mas era birrenta e intransigente.

- Eles já estão com Aldebaram.

A guardiã fechou os olhos para sentir a energia deles de longe. A força de Aldebaram era incrível. Se os cavaleiros de bronze fossem atingidos por seu golpe, era o mesmo que um touro atropelar uma criança de colo.

- Se Aldebaram não for como você Mu e lutar a sério, não tem como eles passarem. E Deba acredita que Athena está lá em cima não aqui embaixo.

Mu concordava, mas tinha esperança. Além do mais, Aldebaram não era parvo ou cruel. Os minutos passavam, o sol esfriava e a brisa que anunciava a noite, começava a soprar. Lunna observava entediada, o grande relógio de fogo que marcava as dozes horas. Era um relógio tão imenso que podia ser visto por todo o Santuário. Nesse momento, eles sentiram que o cosmos da garota no chão aumentara. Pouco tempo depois, o fogo que marcava a segunda casa se apagou.

- Onde eles estão, Mu?

- Estão indo para a Casa de Gêmeos.

- Mas Aldebaram não foi vencido. O cosmos dele continua firme e forte. Eu sabia que vocês iam facilitar...- olhava Mu de esguelha.

- Não me olhe como se estivéssemos fazendo um motim, um complô. Se quiser irei até lá só para perguntar o que houve. Mas não posso deixar Athena sozinha.

- Não acredito que você quer me deixar aqui tomando conta dessa daí.

- Então vá lá e pergunte.

Lunna voltou-se para os milhares de degraus e cansou-se só de olhá-los.

- Eu subiria, mas estou com preguiça.

Mu sorriu.

- Eu volto logo.

Lunna ficou sozinha com Kiki, olhando entediada para a garota no chão. Pensou em fazer uma maldade, corta-lhe os cabelos, pichar o vestido, enfiar a flecha de uma vez no peito. "Não tem graça mexer com alguém que não vai brigar com você depois que acordar. Não é como se estivesse dormindo." Olhou para Kiki e puxou-lhe fazendo cosquinhas. Estava decidido: o garoto ia ser seu brinquedo para o tédio e espera. Mu retornou rindo.

- Qual a graça?

- O cavaleiro de Pegasus cortou fora o chifre de Aldebaram.

- Você me envergonha, Deba...vou pegar no pé dele até a morte por causa disso. Sim, mas isso não explica porque ele deixou passar.

- Ele disse que, durante a luta, começou a duvidar que fossem traidores, por causa da sua determinação. Além disso, disse que sentiu o poder de outro cosmo, mais forte que a dele, ajudando os de bronze.

Os dois voltaram-se para a jovem no chão.

- Então, vai trapacear? – perguntou Lunna à Saori – Ela vai ajudá-los a vencer, Mu.

- Então Aldebaram foi sensato em deixar os cavaleiros passar.

Lunna suspirou assanhando os cabelos de fogo de Kiki, que estava no seu colo.

- Então vão atravessar Gêmeos e ir direto para Carlo. – Lunna sorriu tristemente – Ele não vai deixá-los passar. Quase não me deixou passar.

- Meu medo é que não cruzem a Casa de Gêmeos.

- Mas não há ninguém lá!

- Agora há.

As horas passavam, o vento noturno chegara para ficar. Lunna sentia que os cavaleiros estavam espalhados: um estava em Gêmeos, outros corriam para Câncer e outro, o de gelo, se não estava enganada, sabe Zeus como, tinha ido parar em Libra. Lunna sentiu um estalo e olhou temerosa para Mu.

- Tem um cavaleiro de ouro na Casa de Libra.

- Sim...é Kamus quem está lá.

Lunna retesou e abraçou Kiki que reclamou de estar sendo esmagado. Ela sabia que o invasor era inferior ao Mestre do Gelo, mas não esquecia o que tinha visto. E o que é que ele fazia na casa de Libra?

- Tenha paciência.

A garota não relaxou com o conselho de Mu. Ficou tensa, pressionando o pequeno aprendiz até sentir o cosmos do invasor sumir e o de seu amigo continuar intacto. Respirou aliviada soltando Kiki, que agora não parecia mais gostar tanto assim do colo da guardiã. Lunna não se importou de ter sido abandonada pela criança, que foi sentar-se perto do seu mestre, e esboçou um sorriso. Mas Mu permanecia sério e preocupado.

- Ei Kiki, você não pode fugir das garotas assim.

- Você tava me apertando.

- É bom se acostumar. Quando você ficar maiorzinho, vai ter um monte de namoradas querendo te pegar. – e voltando-se para Mu. – Ou namorados.

Mu sorriu e Lunna aproveitou a brecha:

- Ei Kiki, você já viu o Mu e o Shaka namorarem?

- Lunna!

A criança pôs a mão na boca abafando o riso, sem conseguir.

- Olha aí, você vai influenciar a criança! Eu to dizendo que isso ai quando crescer vai ser um desperdício!

- Lunna Monami!

- Ei Kiki, eles namoram em Áries ou em Virgem?

Kiki abriu a boca para responder, mas Mu puxou-lhe a orelha.

- Nunca dê corda para Lunna Monami. Não é sensato.

- Que é isso, Mu! Deixa eu falar com o menino! – A guardiã e Kiki riam, apesar de o menino ter sentido a puxada na orelha.

De repente, a garota parou. Sentiu como se tivesse sido atingida pelas costas e lacrimejou. Virou-se lentamente para a montanha, a boca aberta, seca. Mu também fez o mesmo.

- Carlo...?

- Sim...

- Mas eu não tinha visto a morte dele! Será que...- virou-se para Mu – Vai acontecer outras que não previ?

Mu respondeu com uma expressão de pedra e a canceriana abaixou a cabeça, sentindo a perda de seu irmão de signo. Carlos havia se tornado uma pessoa pior, mas para ela, ainda assim ele não merecia a morte.

O vento noturno se pronunciou mais intensamente, denunciando chuva. O firmamento estava quase completamente avermelhado de nuvens carregadas. Lunna observava o céu esfregando as mãos. Não conseguia livrar-se da ansiedade. Os invasores já haviam deixado a Casa de Leão há algum tempo e estavam em Virgem. Preocupava-se com o amigo e com Mu, que não deveria estar satisfeito em saber que Shaka lutava contra os de bronze. Porém, Mu limitava-se ora a mirar a moça no chão, ora a mirar o horizonte. Gotas começaram a cair do céu e rapidamente uma chuva densa principiara.

Lunna escondeu rapidamente as fotos, que nunca tinha largado, no pano. Virou-se incomodada para o ariano:

- Ah não! Não vou ficar aqui pegando toró por causa dela!

Mu nada respondia. Kiki havia se despido da blusa e agora a segurava em cima do rosto da moça, numa tentativa vã de protegê-la.

- Mu!

- Já disse que não arredarei meu pé daqui, Lunna. Vá para a casa de Áries se assim deseja.

A guardiã, contrariada, ergueu-se e subiu os degraus escorregadios correndo. Quase caiu no chão ao chegar ao topo, devido à pressa, à irritação e à água que empoçava tudo rapidamente. Precisava salvar seu presente. Adentrou, despreocupada, os aposentos procurando algum lugar onde pudesse guardá-las. Desprendida, acabou largando-as em cima de uma mesa. Não acreditava mesmo que alguém pudesse entrar ali e roubá-las. Voltou para a entrada do Templo, visualizando Mu e o menino se molharem lá embaixo. Relampejava muito. Um vento cortante passou por ela, assim como uma sensação de perda. Girou seu olhar em direção as dozes casas. Será que...?

- Mu...Shaka... – a garota havia descido as escadas esbaforida. Agora não parecia se importar com a chuva.

- Não se preocupe. Ele está bem. – respondeu sem se virar.

- Mas eu senti ele desaparecer...

- Ele está bem! – Falou com a voz um pouco alterada.

Mu também sofria, mas sua fé era muito maior que a dela. Sentou-se ao seu lado novamente.

Já passava da meia-noite. Ao longe, a lua grande e esbranquiçada contrastava com o imenso e fantasmagórico relógio de fogo, dando um tom nefasto à noite. A chuva havia cessado há algum tempo deixando o clima bastante úmido. O nervosismo da garota voltara com mais intensidade ao sentir que os invasores lutavam em Escorpião. Procurava secar-se, torcendo os cabelos e a blusa, numa tentativa improfícua de liberar a cabeça de pensamentos agourentos. De repente, um velho careca, trajando roupas para treino de kendo, surgiu em disparada no horizonte.

- Senhorita! – parecia bastante atrapalhado e aflito.

- É o Tatsumi! – berrou Kiki espantado.

- Who? – perguntou Lunna sem se mover.

O homem parou ajoelhado ao lado de Saori. Logo atrás dele, aparecendo ao longe, vários soldados do Santuário dispostos a atacar. Mu virou-se para a amiga e o aprendiz:

- Vamos embora.

- Mas Mestre Mu...!

O cavaleiro de Áries levantou e começou a subir as escadas. Kiki, indeciso, olhava para o Mestre, para a confusão que se formara e para a garota no chão. Acabou por correr até Mu, seguindo-o. Lunna demorou-se um pouco mais, achando muito gozado a estranha luta que era travada entre aquele velho atrapalhado e os soldados. Logo se juntou a Mu, sem dar a mínima para a moça desacordada. Sentou-se ao seu lado nas escadarias em frente ao templo, observando junto com ele a desordem.

- Eu lhe disse, Mestre Mu, eu lhe disse! – Kiki estava aflito ao ver os soldados dominarem o estrangeiro e se aproximar perigosamente da garota.

Mas logo outros cinco cavaleiros apareceram e começaram a enfrentar os soldados.

- E esses quem são?

- Cavaleiros de Bronze como os que estão lá em cima.

- Mais? Tá virando baderna já! O que é isso agora? Vão chamar todos os 88?

Os soldados rapidamente foram vencidos, mas a visitante não estava se importando com isso. Sorriu ao sentir a batalha na Casa de Escorpião terminada e seu amigo Milo bem.

Após curto período, a movimentação lá embaixo era outra: um dos invasores trazia um báculo e colocava na mão da jovem desacordada. O báculo fulgurou inundando a noite de luz, e ergueu-se do chão sozinho. De repente, um fulgor surgiu no céu estrelado.

- O que é aquilo? – perguntou Kiki.

Lunna sentiu o cosmo familiar e levantou-se num impulso, assombrada.

- Aioros...!

A armadura de Sagitário pairava no ar. Desceu lentamente até parar acerca da jovem desacordada. Lunna foi tomada por um sentimento de ciúmes que ela desconhecia. Sempre soube da devoção do cavaleiro pela Deusa e entendia, aceitava. Não é assim que se deve fazer com aqueles a quem se ama? Aceita-los? Porém, agora olhava a moça com despeito e crueldade, desejando que morresse. Ela havia tomado não só a vida de Aioros, mas havia tomado Aioros dela.

Mas a visagem logo terminou. A armadura brilhou novamente e desapareceu nos ares, provavelmente indo guardar a Casa de Sagitário.

A visão da armadura e a força que ela trouxe fizeram com que a guardiã tivesse seus sentimentos em relação a Aioros despertos novamente. Desde que correra de Star Hill e desmaiara em Áries, tinha sentindo-se adormecida, em topor. Sentia a aflição pelo perigo que rondava seus amigos a todo o momento, pela a dúvida de saber quem seria o próximo a ser consumido pelas aquelas lutas sem sentido. E agora, experimentava novamente a perda de Aioros. Seu coração doía ao pensar que os invasores já haviam chegado a Shura. Refletia se a alma do capricorniano estava tão perturbada quanto à dela.

Lunna havia inclinado o corpo totalmente e deitara-se no chão de pedra. Sua respiração oscilava e ela pôs a mão sobre o peito como se quisesse controlá-la. A boca aberta, os olhos sem vida, opacos, atônita, faziam Kiki se preocupar com ela. Mu meditava ou orava, não tinha certeza. Shura havia subido aos céus, fazia pouco tempo, e o cosmos de Kamus desaparecia. Ela quase conseguia vê-lo, desmaiado, congelado no chão rude, sem ninguém para socorrê-lo. Milo a odiaria...já conseguia sentir.

"Milo, me perdoe...me perdoe, por favor..."

Não chorava. Não chorou por nenhuma morte, exceto por Aioros. Simplesmente não conseguia, e achava que era melhor assim. Era para aquilo que tinha sido treinada a vida toda. Reclamava de Janos por não se divertir, não sorrir, não demonstrar nada além de severidade. No fundo, sabia que ele sentia algo. Afinal, era humano, tivera família. Amou. Mas endureceu. E agora, aquilo acontecia com ela. Justo com ela, que jurara que não seria como ele. Janos mais uma vez tinha razão. Que grande mestre ele foi.

A guardiã ergueu-se mirando o relógio de fogo. Afrodite se fora, mas o fogo que marcava sua casa continuava intacto, apenas diminuíra. Lunna olhou para Mu esperando alguma resposta, alguma reação da parte dele, mas ele já há muito tempo nada fazia. Tinha ficado meio arredio com o desaparecimento do cosmos de Shaka e desde então começara a meditar constantemente. Abruptamente levantou-se, olhos arregalados como se visse algo no horizonte:

- O que foi, Mu?

- Mestre?

- Shaka...Shaka de Virgem está falando diretamente com meu cosmo.

Lunna e Kiki se entreolharam.

- Ele diz que caiu num lugar estranho, onde não há noção de tempo e nem espaço. Está me pedindo ajuda para voltar de lá e trazer de volta o cavaleiro que caiu junto com ele. – Mu agora sorria. Fechou seus olhos e concentrou seu cosmo por um momento. Logo em seguida, sentou-se nas escadarias novamente, com um sorriso tranqüilo.

- Eu disse que ele estava bem.

A garota sorriu para o amigo admirando sua sorte. Mu talvez não sentisse tanto a morte dos outros. Tinha Shaka só para ele. Mas ela mesma agora só tinha...

- Não posso mais esperar aqui. – disse olhando a torre do relógio. Ficou de pé. – Vou subir.

- Lunna, espere.

- Não Mu. Não me impeça. Eu preciso ir até lá novamente.

- De que adianta subir? Você não pode interferir. Só vai sofrer!

A guardiã pôs a mão no rosto, fechando os olhos.

- Por que faz isso consigo mesma? Por que está se penitenciando? Eu já lhe disse! Não tem culpa de nada disso!

- Mas eu me sinto assim! –Lunna se alterou, gritando. Estava querendo gritar há muito tempo, mas infelizmente o ariano tinha sido a vítima. Olhou para ele envergonhada. – Me desculpe. – voltou o rosto para o chão. – Mas eu preciso ver. Preciso saber logo o que vai acontecer. Eu simplesmente não posso mais esperar. – e saiu em disparada em direção às escadarias, ignorando os apelos do cavaleiro de Áries.

Mu observou a amiga sumir sem compreender, mas a resposta veio quase em forma de música:

"Love is watching someone die."(1)

Lunna passou por Aldebaram sem parar ou olhar para ele. Ele apenas a viu correr e também nada fez. Era como uma bala de revólver: depois de disparado o gatilho, nada podia interromper a trajetória. Passou por Gêmeos. Passou por Câncer notando o ar mais leve e a ausência de seu cavaleiro e de seus preciosos troféus. A garota realmente pensou que aquele lugar fora purificado e a dialética de Mu começava a fazer sentido. Passou por Leão e Aiolia não a ignorou. Segurou seu braço fortemente, quase derrubando-a no chão:

- Para onde está indo?

- Me larga, Aiolia!

- O que vai fazer lá em cima de novo? Os cavaleiros estão lutando!

- Já disse pra me soltar! Tenho que subir!

- Você passou por mim transtornada quando vinha da Sala do Mestre. O que aconteceu lá? O que ele fez a você?

- Aiolia...tá me machucando.

- Lunna, não vou deixar você subir!

- Se você não deixar, você está empatando minha missão como guardiã aqui!

O leonino apertou o braço dela com mais força e ela encarava-o, muito séria, ignorando a dor.

- Lunna...não interfira.

- Por quem me tomas? Não sou uma garotinha que precisa se relembrada de suas obrigações!

Aiolia soltou o braço da moça sem aviso e ela acabou desequilibrando-se, caminhando para longe dele. Ambos encararam-se por segundos e a moça tomou a iniciativa de quebrar o contato, retomando a corrida.

Passou por Shaka que ignorou-a como Aldebaram. Passou por Libra, e ao passar por Escorpião, sentiu vontade de dirigir-se a Milo. Mas o mero vislumbre de sua expressão abatida e cheia de incertezas fez Lunna fugir em disparada. Não podia enfrentar aquilo agora.

Sagitário, Capricórnio sem seu senhor, Aquário. Pôs a mão na boca para não vomitar, ao ver Kamus estatelado sem vida no chão. Tão branco...até o vermelho vivo dos cabelos havia empalidecido. Em Peixes não foi diferente. Afrodite estava idêntico como na visão: os machucados, as rosas. Pegou fôlego. Ainda tinha que chegar à Sala do Mestre.

Por um momento pensou que teria que burlar a vigilância dos soldados novamente, mas não havia guarda algum. Provavelmente, haviam sido dispensados. Adentrou o templo com cuidado, temerosa, escutando barulhos de briga que pareciam vir da sala do Grande Mestre. Espiou pela porta aberta, mas encontrou apenas destruição. A briga parecia ser mais acima. Esgueirou-se por detrás do salão, chegando a uma outra escadaria. Subiu receosa, pois parecia que ela levava a um pátio aberto. Escutando o barulho, subiu somente o suficiente para enxergar o que se passava, quase engatinhando nos degraus. Saga, com sua armadura de ouro, esmurrava sem dó um cavaleiro que ela desconhecia. Já o cavaleiro que treinara na Grécia encontrava-se estirado no chão, com uma faca e um escudo dourado ao seu lado. Foi então que se virou para o relógio de fogo: estava completamente apagado. Olhando a luta, aproveitou-se de um momento que Saga estava de costas, correu sorrateiramente para uma coluna próxima, escondendo-se. O geminiano não parecia ter notado sua presença, sua atenção estava completamente voltada para o cavaleiro incógnito. Saga golpeava-o sem receios, gargalhando. Era o próprio demônio agora. Era visível notar o olhar vidrado, ensandecido, como de um viciado. Agressivo, violento, como nunca presenciara na vida. Era horrível. Não, aquilo não era Saga. Saga dormia em algum lugar, alheio a tudo, dentro daquele corpo.

O cavaleiro desconhecido voara em direção as escadarias, completamente machucado. O geminiano ergueu o braço para aplicar-lhe o golpe de misericórdia, mas foi subitamente interrompido por uma força estrondosa. Era a jovem desacordada que subia, viva, sem flecha alguma no peito, com seu séquito, carregando o restante dos de bronze que Lunna supôs que estavam mortos. Os cavaleiros de ouro remanescentes também vieram. Era o milagre que Mu tecera?

A guardiã assistiu o esforço inútil dos cinco cavaleiros de bronze, que estavam à semelhança de espectros de guerra, reagirem contra Gêmeos. Sem forças, foram ao chão, sob as gargalhadas do demônio. Saga apanhou a faca no chão, que estava próxima ao cavaleiro de Pégasus, enquanto dialogava com a jovem que se dizia Athena. Ela estava tentando convencê-lo a se render, mas o cavaleiro apenas debochava dela. No entanto, ele entrava em conflito, passava a mão no rosto, como se sentisse dor. Tentou atacá-la, mas não conseguiu: a armadura de Gêmeos o abandonara inesperadamente. Era visível sua confusão. Era visível que sofria. Lunna não pode deixar de sentir pena: ninguém além dela sabia o que se passava realmente com ele. Ninguém podia ajudá-lo. Num desses lampejos, ele virou o olhar em sua direção, o rosto contorcido. Ele a vira!

Lunna segurou a respiração. Seus olhos encontraram-se não mais que segundos, mas pareceram uma eternidade. Parecia que queria falar-lhe algo. Virou-se para Athena, faca erguida, o olhar maldito expressando seu desejo pelo sangue dela. Mas variou também o olhar para Lunna, aflita, muda, escondida de todos. A faca desceu. Pareceu que o tempo tinha cessado para a guardiã. Todo o som do mundo extinguiu-se assim como o grito em sua garganta. Suspensão. O sangue lavou o chão, o corpo de Saga. Levou a mão à garganta, sentindo o jorro do rasgo feito, feio, profundo. Despencou aos pés da jovem que salvara entregando sua própria vida. Pedia perdão.

A guardiã perdoava-o em pensamento, a boca aberta como conseqüência do grito que não veio. O som voltara, o vento da madrugada achegou-se arrepiando a pele de seus braços e pernas descobertos. Cansaço.

Os outros cavaleiros acordaram do momento de tensão, reagindo todos de uma vez, procurando ajudar os companheiros feridos. Saga fora deixado sozinho, o rio vermelho descendo os degraus brancos. Lunna saiu de seu esconderijo lentamente, em direção as escadarias, sem se importar se seria vista pelos outros. Porém, apenas Mu a notou. Ela caminhou, escutando o bombear do seu coração, a única coisa que a fazia ter certeza de que estava viva e bem acordada. Aproximou-se da saída olhando o homem sem vida no chão, tão tranqüilo, tão sereno.

"Você conseguiu vencer no final. Você conseguiu se livrar dele, Saga."

Desceu pausadamente os degraus, o solado das botas manchando-se em bordô. Nesse mesmo ritmo continuou, descendo, robotizada, sentindo o frio apoderar-se do seu corpo, a cabeça aérea, as botas pesando mais do que deveriam, até chegar em Áries. Entrou no aposento onde deixara as fotos e apanhou-as de forma automática. Foi até a entrada do templo, olhando a noite, o Santuário inteiro em silêncio. Era um momento solene, um velório, ou apenas o sono que impedia o lugar ter alguma vitalidade?

Sem resposta, sentindo finalmente o cansaço de quem peleja por dias, sentou-se nas escadarias. Olhou as fotos. Tremeu e curvou-se, enfiando o rosto nelas. Como se pudesse de alguma forma adentrar nelas novamente. Como se de alguma forma pudesse reviver aqueles momentos de novo.