Algumas pessoas poderiam achá-la uma hipócrita por sempre ter rejeitado Genma e inesperadamente aceitar o pedido de casamento do rapaz. Entretanto, só quem já tinha passado por aquilo sabia como ela se sentia. Sakura já não era mais uma garota de 19 anos que podia ter o rapaz que quisesse. Ela estava ficando velha. Ela era mãe solteira.

Toda mulher quer amar e ser amada e Sakura não era exceção. Ela sempre foi muito romântica e durante sua infância e adolescência, sonhava com seu príncipe encantado. Esse príncipe, que montado em um cavalo branco a resgataria do alto de uma torre e a levaria para morar em um castelo, atendia pelo nome de Uchiha Sasuke. Mas isso era um sonho, algo que havia ficado no passado. Esse homem, que ela julgara ser seu príncipe, havia abandonado-a grávida e Sakura aprendeu que não existiam príncipes encantados.

Se ela não podia ter o príncipe, então ela se contentaria com o sapo. Genma não era o homem com o qual ela sempre sonhara para ser seu marido. Sakura sabia que ele e Satoru não se davam muito bem, mas tinha certeza que o shinobi honraria seus compromissos. Ele era um homem de palavra, apesar de tudo, e ela sabia que ele cuidaria bem dela e de Satoru. Ele protegeria os dois. E isso era o que bastava para ela. Sakura não tinha nascido para o amor. Ela já havia se conformado.

No dia seguinte, quando a jovem foi dar a notícia aos companheiros, as reações foram as mais variadas. Ino pareceu extremamente irritada. Naruto por sua vez estava visivelmente chocado. Shikamaru permaneceu indiferente. Kakashi, inexpressivo como sempre. Shizune foi a única que parabenizou o casal.

Enquanto o grupo se preparava para partir, Naruto aproveitou que Genma havia deixado sua futura esposa sozinha e foi falar com a amiga. Ele queria entender o motivo que levara Sakura a aceitar um idiota como Genma.

- Você vai ma responder ou não? – Naruto falou após esperar um tempo a resposta da amiga.

Sakura ainda permaneceu em silêncio por mais algum tempo. Ela sabia que jamais enganaria o amigo. Entretanto, era difícil admitir até mesmo para Naruto que ela estava carente e precisando de um marido. Nem que esse marido fosse Genma.

- Eu preciso de alguém que cuide de mim e do meu filho, Naruto.

O loiro arregalou os olhos diante daquela declaração.

- Mas Sakura-chan, você tem a mim, o Kakashi, a...

- Não Naruto! – Sakura o interrompeu – Não é a mesma coisa. Você sabe que não é.

Naruto olhou com pesar para Sakura.

- Eu entendo. Mas você poderia ter escolhido alguém melhor...

- O Genma não é má pessoa.

- Mas...

- Ele tem seus defeitos, mas vai saber cuidar de mim e do meu filho.

- Nunca pensei que você precisasse de cuidados, Sakura-chan.

A jovem mirou o amigo por alguns instantes. Depois, com um suspiro, disse:

- Toda mulher, por mais forte que seja, precisa de cuidados.

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Quando a notícia do casamento de Sakura se tornou pública, Sasuke se sentiu ainda pior. Finalmente, quando ele aceita seus verdadeiros sentimentos, aquilo acontece. Ele nunca imaginou que existisse uma dor tão forte. Aquele sentimento de perda só era comparado à falta que seus pais faziam.

Ele não era um covarde. Bom, talvez tivesse sido no passado ao abandonar todos da vila e se juntar a Orochimaru em busca de vingança. Mas ele havia mudado. Ele havia amadurecido. Prova disso era que ele estava indo resgatar o seu filho. Seu Satoru.

Não, ele definitivamente não era um covarde, mas o que ele poderia fazer se Sakura havia decidido se casar com Genma? Ele não podia simplesmente arrancá-la dos braços do homem e forçá-la a se casar com ele, poderia? Ele não poderia obrigá-la a ficar com ele para sempre, poderia? A decisão de Sakura o abalara profundamente. Ele tinha tomado coragem para se declarar. Ele tinha tomado coragem para pedi-la em casamento. Mas havia chegado tarde demais. Genma passara a sua frente.

O fato de Sakura aceitar se casar com Genma significava que ela o amava? Sasuke não sabia. Na verdade, ele sempre estivera tão convencido de que a kunoichi ainda o amava que sequer pensou na possibilidade de que ela poderia estar apaixonada por outro homem. Ele havia sido ingênuo. Amaldiçoava-se por acreditar que Sakura iria esperá-lo pelo resto da vida. Talvez, toda aquela situação não havia sido repentina. Talvez eles já estivessem saindo há algum tempo. Provável. Sakura não era o tipo de pessoa que tomava uma decisão dessas no impulso. Ela sempre havia sido bem racional, bem receosa das coisas. Não, aquilo já devia estar acontecendo há algum tempo. Ele que não notara. Sasuke percebera tarde demais. Tudo porque estava convencido do amor de Sakura.

Talvez fosse bem feito para ele. Talvez fosse uma boa lição. Afinal, que direito ele tinha de reivindicar Sakura para ele? Ele a abandonara. Primeiro no dia em que fugira caindo nas graças de Orochimaru. Mesmo com todo o apelo desesperado da moça, ele não cedeu. Sua sede de vingança era mais forte do que tudo. Nunca a procurara para saber se estava bem e quando a reencontrara, o que ele fez? Dormiu com ela. Usara-a como um obje... Não! Não havia sido assim! Ele não a usara. Ele jamais faria isso com ela. Ela era a Sakura. A sua Sakura. Ele jamais teria coragem de usá-la. Sim, ele dormira com ela, mas não porque ele estava necessitado. Ele dormira com ela porque... Como ele havia sido ingênuo! Meu Deus! Como alguém pode ser tão cego a ponto de não perceber seus próprios sentimentos?! Antes ele achava que havia dormido com Sakura porque ela era diferente. Ela emanava uma sensualidade e um poder que enlouqueciam qualquer um. Aqueles olhos verdes o hipnotizavam, o deixavam fora de si. Ela não sabia, mas toda vez que o olhava com tamanha profundidade, o deixava louco.

Ele riu da sua própria ingenuidade. Ele acreditou que havia dormido com ela porque ela mexia com ele, o fascinava. Hoje, ele finalmente percebera a verdade. Mais do que fascínio, Sakura despertava nele algo mais forte. Sakura despertava em Sasuke a capacidade de amar. Ele dormiu com ela não só porque estava fascinado. Ele dormiu com ela porque a amava. Sasuke já amava, mas ainda não tinha se dado conta.

Sasuke parou para pensar. Será que seu amor havia realmente despertado naquela noite chuvosa? Mentalmente, ele fez uma retrospectiva dos acontecimentos. A conclusão o assustou. Não, não havia sido naquela noite que tudo começara. Havia sido anos antes. Ele que nunca tinha percebido. Seus atos eram mais do que meramente proteção para com um colega de time. Ele a protegia não porque ela fazia parte do time. Ele a protegia porque a amava. Sasuke havia ficado fora de si quando durante o exame Chunnin, Sakura se machucara. Haviam machucado sua preciosa flor de cerejeira e ele não poderia perdoar. Ele jamais perdoaria quem fizesse mal à sua pequenina flor.

Que ironia! Logo ele com esse sentimento de proteção! Logo ele quem havia sido o maior agressor da sua pequena flor de cerejeira. Fora Sasuke quem mais machucara Sakura. As feridas que ele causou, jamais cicatrizariam. Ele era um hipócrita. Possuía sentimentos de proteção enquanto era a pessoa que mais a machucava. Sim, ele era um hipócrita, um ingênuo, um idiota. Ele não a merecia.

Sinceramente ele não se achava no direito de reivindicar Sakura para si. Reivindicar? Por Deus! Ela não era nada para ser reivindicado! Ela era uma pessoa. Alguém com sentimentos. Sentimentos esses que o próprio Sasuke menosprezara. Afinal, que direito tinha ele sobre Sakura? Nenhum. Ele não tinha o direito de tê-la para si depois de tudo o que lhe causara. Sakura estava melhor sem ele e Genma, provavelmente, seria um marido melhor. Tudo o que ele pode fazer agora é olhar ao longe a sua doce Sakura. Era um castigo e ele sabia que merecia. O mundo dava voltas. Antes, ele a rejeitara. Agora, era ela quem o rejeitava. Destino irônico.

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O grupo seguiu para o esconderijo de Orochimaru. Era uma missão de resgate e eles deveriam evitar ao máximo uma batalha ferrenha. Sabiam que isso seria praticamente impossível. Orochimaru não desistiria facilmente de Satoru. Depois de meio dia de caminhada, o time liderado por Sakura chegou ao seu destino. Estava na hora de pegar Satoru de volta.

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Orochimaru já estava ficando impaciente. A resposta de Satoru estava demorando muito. Não era algo complexo. Ou ele aceitava a proposta ou morria. Para que pensar muito?

- Aquele moleque está demorando a responder só para me irritar. – o sannin dizia zangado enquanto tamborilava os dedos no braço da cadeira.

- Acalme-se Orochimaru-sama. Tenho certeza que Satoru tomará a melhor decisão.

- Se ele não se juntar a mim, ele morre. – o homem mais velho disse com certo tom de crueldade.

- Orochimaru-sama fez um bom trabalho. Brincou bem com o psicológico de Satoru-kun. Ele vai ceder. Tenho certeza.

- É melhor mesmo. Com um garoto poderoso como ele ao meu lado, dominarei Konoha facilmente e subjugarei Tsunade e seus fiéis. Aquela mulher cairá e levará Konoha à ruína!

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Satoru nunca se sentira tão sozinho. Estava separado de sua mãe e dos outros, prisioneiro de um ninja cruel e sádico que gostava de brincar com a mente de seus adversários. Ele era apenas uma criança. O que aquele homem queria com ele afinal? Satoru poderia ser um bom aprendiz, mas estava longe de ser um ninja poderoso. Estava muito longe de alcançar o nível de sua mãe, ou de Kakashi ou de Naruto. Eles eram ANBU. Satoru sequer era gennin. Afinal, porque tamanho interesse de Orochimaru nele? Ele não tinha nada de especial...

Ele era uma criança. Ele só queria voltar para a vila e brincar. O que era poder? Ele nem sabia ao certo o significado daquela palavra. Ele nem sabia ao certo como o mundo realmente era. Tudo o que ele queria era brincar no parquinho e depois voltar para casa, tomar um banho na banheira com seu patinho de borracha para logo em seguida comer alguma coisa gostosa que sua mãe fizera. Essa era a vida que ele queria. Ele não queria poder. Ele não queria vingança. Afinal, o que era vingança?

Triste, cansado, com fome, sono e muito medo, Satoru estava sentado em um canto escuro enquanto pensava sobre tudo isso. Não agüentava mais aquele lugar. Tinha esperanças que sua mãe fosse buscá-lo mesmo Orochimaru dizendo que ela o abandonara. Não, sua mãe jamais faria isso. Ele a conhecia. Ao longo dos anos, eles haviam criado um laço que não poderia ser destruído facilmente. Esse laço era algo que estava além da compreensão do sannin.

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A paciência de Orochimaru havia se esgotado. Irritado, ele rumou para onde Satoru estava. Foi quando sons de batalhas foram ouvidos. Controlando a sua irritação, o sannin fechou os olhos. Aquela desgraçada da Tsunade havia descoberto seu esconderijo! Maldita!

- Kabuto! – o sannin chamou.

- Sim?

- Dê as boas vindas para os nossos convidados.

- O quê o senhor vai fazer, mestre?

Orochimaru sorriu malignamente.

- Eu cuidarei do nosso hóspede.

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O esconderijo de Orochimaru era bem protegido, mas os membros do time de resgate, a maioria integrantes ou ex-integrantes da ANBU, não tiveram muitos problemas para invadi-lo. O grupo se dividiu conforme o plano e saiu em busca do pequeno Satoru.

À medida que avançavam, os passos de Sakura e de Sasuke ecoavam pelos corredores. A escuridão era assustadora. O sharingan do rapaz já estava ativo. Os sentidos de Sakura também estavam. Apesar de Sakura não admitir, era visível que a dupla era poderosa. A moça com um único golpe podia acabar com a luta. O rapaz tinha a habilidade de prever os ataques do inimigo. Sasuke e Sakura eram perigosos juntos.

Faltava apenas uma sala e eles sabiam que era exatamente onde Satoru e Orochimaru se encontravam. Sakura fez sinal para Sasuke entrar. O rapaz olhou a escuridão ao seu redor. O sharingan ia de um lado para o outro procurando por algum sinal de Satoru ou de Orochimaru. De repente, as luzes se acenderam. O sannin estava a alguns metros à frente e tinha Satoru ao seu lado.

- Satoru! – Sakura exclamou aflita.

- Que bom que vieram! A festa não seria a mesma sem vocês! – Orochimaru exclamou debochado.

Sasuke ficou irritado. Muito irritado.

- Solte-o. – o jovem ordenou.

- Oh! Mas ele não é meu prisioneiro, Sasuke-kun!

- O quê quer dizer? – Sakura perguntou.

Orochimaru abriu um largo sorriso. Um sorriso extremamente sarcástico.

- Satoru-kun não é meu prisioneiro. Ele é meu alidado.

Ninguém falou nada depois daquela declaração. Enquanto Orochimaru se divertia, Sasuke e Sakura estavam visivelmente chocados.

- Pare de falar besteira! – Sasuke exclamou irritado.

- Eu não estou falando nenhuma mentira, Sasuke-kun.

- Satoru! – Sakura chamou mais aflita do que nunca – Isso é verdade? É verdade, meu filho?

O pequeno tinha os olhos pregados no chão e não respondeu a pergunta da mãe.

- Responda-me! – Sakura gritou transtornada. Ela não podia acreditar. Havia perdido Sasuke para Orochimaru uma vez. Não poderia perder Satoru também.

- Como é mesmo aquele ditado? – o sannin falou – Quem cala consente?

Aquilo havia sido a gota d'água para Sasuke. Ele não deixaria que seu filho tivesse o mesmo destino dele. O Uchiha então avançou sobre Orochimaru e uma luta começou.

- Você não me derrotou daquela vez, Sasuke-kun – o sannin falou divertido enquanto desviava de um golpe do adversário – O que o faz pensar que agora seria diferente?

- Você foi longe demais, Orochimaru! Longe demais!

Orochimaru estava contente. Naquela noite ele teria pai e filho. Konoha definitivamente cairia.

A batalha estava equilibrada. Sasuke estava mais cuidadoso do que antes. Apesar de tudo, o Uchiha era poderoso e Orochimaru não o venceria tão facilmente. Aproveitando a distração do sannin, Sakura correu para o filho. Quando estava próxima, Orochimaru percebeu sua falha. Desferiu um violento golpe em Sasuke que ficou atordoado por alguns segundos. Em seguida, abriu a boca e sua espada saiu correndo em direção a kunoichi. Sakura estava tão preocupada com o filho que o golpe pegou-a desprevenida. Satoru sentiu os salpicos de sangue em seu rosto. Dois pares de olhos verdes se miraram assustados.

- Sa... Satoru...

- Ma-Mamãe?

Sakura caiu e seu sangue começou a banhar o chão. Satoru estava em estado de choque. Sasuke, ao ver o que tinha acontecido, ficou fora de si. Avançou com tudo para cima de Orochimaru. Enquanto isso, Satoru tremia dos pés à cabeça. A única coisa que seu cérebro processava era que sua mãe havia se machucado e ele era o culpado. Os belos olhos verdes que Satoru herdara da mãe haviam dado lugar aos olhos vermelhos que herdara do pai. O sharingan havia se manifestado mais uma vez.

Mais transtornado do que nunca, Satoru virou-se para Orochimaru. Ele havia perdido a razão. Estava fazendo tudo inconscientemente. Mexeu as mãos rapidamente e no segundo seguinte, soprou uma imensa bola de fogo. Ele havia copiado o jutsu do pai sem saber. Orochimaru e Sasuke se afastaram para não serem atingidos pelo fogo.

- O quê está fazendo, Satoru-kun? Por que me atacou? – Orochimaru perguntou.

- Eu não perdôo ninguém que machuca a minha mãe.

- Mas você agora é meu aliado.

Satoru riu. Uma risada assustadoramente debochada para uma criança daquela idade.

- E você por acaso me ouviu dizendo isso?

- Eu...

- Não, você não ouviu seu sannin idiota! Em nenhum momento eu disse que me juntaria a você! Foi você quem supôs isso!

- Ora seu...

- Você realmente acha que eu me juntaria a uma pessoa que machuca aqueles que eu amo? Quem você acha que eu sou?

- Fedelho... – Orochimaru disse em tom de aviso.

- Eu não sou fraco, Orochimaru e eu jamais me juntaria a você! Seu joguinho mental pode ter mexido comigo, mas não foi o suficiente para me fazer ir para o seu lado!

Orochimaru estava chocado. Havia conseguido com Sasuke. Por que não conseguira com Satoru?

- Fedelho, você... – mas ele não terminou a frase, pois outra bola de fogo foi em sua direção.

Sasuke aproveitou-se disso e correu para amparar Sakura. Várias bolas de fogo iam à direção do sannin que só o que poderia fazer naquele momento era desviar. Quando ele desviou da última, olhou ao redor e o que viu, ou melhor, o que não viu, o fez urrar de raiva. Sasuke havia fugido levando Sakura e o filho.

Orochimaru havia sido um idiota. Acreditara piamente que o filho seguiria o caminho do pai. Aquele episódio provara que Satoru e Sasuke eram muito diferentes.