Capítulo 9
América suspirou, se virando. Horas haviam (provavelmente) se passado, mas não importava o quão cansado ele estava, o americano percebeu que não conseguia dormir. Inglaterra tinha pendurado outra rede para ele dormir, e era realmente confortável, mas ele não conseguia parar de pensar em tudo que tinha acontecido.
Eu sou O Líder... Isso ainda é difícil de engolir...
Ele respirou fundo. O ar era abafado e seco. América não tinha realmente percebido isso durante o dia, mas agora que não havia nada para distraí-lo, aquilo era muito óbvio. Ele queria ar fresco.
Eu mal passei um dia aqui e já quero voltar para a superfície... E essas pessoas tem que viver aqui o tempo todo! Esses pensamentos não eram muito agradáveis para sua consciência. Agora que estava sozinho com seus pensamentos, as pequenas pontadas de culpa que sentia quando ele se lembrava da situação de todos estavam crescendo e se tornando mais frequentes. Mas não é minha culpa! É O Líder... Ok, tecnicamente ainda sou eu, mas sou eu no futuro, então eu não tenho nada a ver com o que eu... Ele... O Líder fez. Nada disso aconteceu ainda e eu não vou deixar acontecer! Quando eu voltar para casa, terei certeza disso.
Casa. América franziu a testa. Será que Japão e Inglaterra estariam preocupados com ele? Não aqueles com quem ele conversara algumas horas atrás, mas o Japão e o Inglaterra do passado (ou seria do presente?). Japão estaria provavelmente imaginando por que ele não voltara em alguns minutos como ele esperava. E Inglaterra... Será que ele sabia que ele tinha ido?
Ele pareceu bastante chateado comigo da última vez que falei com ele. América pensou, triste. Mas ele não está sempre?
Ele imaginou se alguém além de Japão percebera que ele não estava lá. Se passara menos de um dia, então ele ainda não podia ser considerado "desaparecido". A menos que Japão tenha entrado em pânico quando viu que América não estava voltando e contou ao mundo inteiro o que aconteceu.
E, quando se é um país, contar ao mundo inteiro nem sempre é um exagero.
E Japão era o tipo de pessoa que entra em pânico com esse tipo de coisa? Ele sempre pareceu tão calmo. Contudo, o Japão do futuro pareceu realmente desconcertado quando se separaram, mas talvez ele fosse um pouco diferente do Japão do passado. O Japão do futuro passou por mais do que o Japão do seu tempo, então não era completamente loucura dizer isso.
Mas aí estava outra coisa que estava incomodando América. A voz que ele ouvira quando estava prestes a ir para casa. Ele não teve muito tempo para pensar nisso por causa de toda aquela coisa de seu "eu vilão do futuro", mas aquilo ainda o preocupava.
"Você tem que ficar..."
Primeiro ele pensou que fosse fruto de sua imaginação, mas pareceu tão real. Contudo, o que o incomodava mais não era realmente a voz, mas o fato de que ela lhe pareceu muito familiar...
América ofegou de repente, quase caindo no chão. A sensação tinha voltado. A sensação de estar sendo observado. Mas como isso seria possível? Estava escuro, mas ele sabia que os únicos no quarto eram ele e Inglaterra.
Em meio ao silêncio, América ouviu uma risada fraca.
"Quem está aí?" América gritou, tentando não soar assustado. "Quem diabos é você? E por que está me observando?" Ele pulou de sua rede, se preparando para uma possível briga com o perseguidor.
"América...? América, qual é o problema?" Inglaterra chamou de onde estava dormindo, sua voz cansada, antes de se tornar urgente. Uma luz súbita no quarto fez América perceber que Inglaterra deve ter acendido a lanterna que estava perto da rede do britânico. América olhou em volta, tentando encontrar o estranho.
América e Inglaterra eram os únicos ali.
"Qual é o problema?" Inglaterra perguntou de novo, notando a expressão confusa do americano.
"T-Tinha mais alguém aqui!" Disse América, nervoso.
Inglaterra piscou. "América, provavelmente você está só cansado." Ele tentou dizer calmamente, mas não conseguiu esconder uma ponta de irritação na voz.
"Não é isso! Desde que cheguei aqui, tenho momentos estranhos em que sinto que estou sendo observado."
Uma emoção cintilou no rosto de Inglaterra, uma mistura de medo, tristeza e... Raiva?
Inglaterra sorriu de repente, todas as referências da outra emoção se foram. "Não é realmente um bom momento para você se tornar paranoico, América." Ele riu. "Você deveria ir dormir. Se sentir que está sendo observado de novo, apenas me acorde."
"Tudo bem." Ele disse, relutante em voltar para sua rede. Inglaterra sorriu mais uma vez antes de desligar a lanterna.
Antes de América conseguir cair no sono, ele podia jurar que ouvira a fraca risada novamente.
"...ca..."
"Huh?" América piscou. O que era aquilo?
"...ica."
Ele definitivamente tinha acabado de ouvir uma voz. Mas estava muito baixa para ouvir o que estavam dizendo...
"América...!"
Seu nome? Alguém estava chamando por ele? A voz soava familiar, mas era diferente da que ele ouvira mais cedo...
"América!"
Espera... Ele conhecia aquela voz, era-
"América-san, você precisa acordar!" A voz de Japão cortou o sonho do americano.
"Huh...?" Ele respondeu, sonolento. Com o que ele tinha acabado de sonhar?
"América!" Dessa vez era a voz de Inglaterra.
Estranho... Por que Japão e Inglaterra estão na minha casa? América pensou, confuso. Foi quando ele se lembrou dos eventos do dia anterior.
"América, eu te disse que haveria uma reunião hoje. Se você quer realmente ajudar, levante-se." Inglaterra disse severamente.
"Certo, certo. Desculpe." América disse timidamente. "Por que Japão está aqui?" Ele perguntou como se tivesse acabado de notar que o japonês estava ali.
"Eu pensei que seria melhor se fôssemos todos juntos à reunião." Japão sorriu.
"Aqui." Disse Inglaterra, passando para o americano uma tigela com... Alguma coisa.
"E... O que exatamente é isso?" América encarou a substância que parecia líquida.
"Café da manhã." Inglaterra simplesmente respondeu.
América bebeu, nervoso, e tossiu com o gosto. "Cara, isso é tão ruim quanto o que você cozinhava." Disse ele, meio brincando, meio morrendo por dentro.
"Ora, seu-"
"Nós não temos o que você costumava comer no café da manhã no seu tempo." Japão cortou, na esperança de acabar com a discussão. "Por favor, apenas suporte por enquanto." Ele implorou.
América suspirou. Se era isso que as pessoas normalmente comiam por ali, ele tentou comer/beber aquilo. Talvez isso o impedisse de sentir aquela ponta de culpa de começava a voltar. Ou impedi-lo de sentir alguma coisa, de qualquer jeito.
Depois de acabar com a substância desconhecida, América olhou para os outros dois países, esperando. "Então, quanto tempo temos até a reunião?"
"Nós podemos ir lá agora, mas provavelmente não vai começar tão cedo." Japão explicou.
"lembre-se, América, você deve manter sua identidade em segredo. Não diga ou faça nada que possa atrair atenção para você... Na verdade, apenas não diga ou faça nada. Ok?"
"Ok..." Disse América, triste. De repente, sorriu. "Vamos lá! Eu não ligo se não puder falar na reunião, contanto que eu ainda possa derrotar O Líder!" Ele riu enquanto saía correndo do quarto.
"Quanto tempo você acha que demora para América-san perceber que não faz ideia de onde é o lugar da reunião?"
"Ele vai perceber..." Inglaterra respondeu, incerto. "Eventualmente."
