Capítulo IX
Pansy olhou-se no espelho do banheiro e sentiu-se horrível. Ela havia finalmente dormido nessa noite, mas acordou sentindo-se tonta e nauseada. Não demorou para ela vomitar toda a sopa do jantar que Kioba lhe tinha preparado. Ela se perguntava se não conseguiria nunca mais se livrar daquela bendita doença.
Era domingo e Pansy estava sozinha com Kioba, uma vez que Emília tinha ido para casa na sexta-feira ver como estavam as coisas. Ela não se importava. Estava tão triste desde a partida de Draco e a visita de Astoria, que aquela doença apenas serviu como o pretexto que ela precisava para ficar trancada no quarto e deitada na cama. Desde que Draco viajara havia se passado já uma semana, e desde o dia seguinte em que Astoria apareceu ela começou a sentir aquele mal-estar. Devia ser de tristeza, ela pensava. Sentia fraqueza, tontura, vontade de ficar sempre deitada, e nessa manhã, enjoo. Estava claro que ela precisava se cuidar.
Pansy saiu do banheiro e caminhou em direção à cama, tudo o que desejava era deitar um pouco, mas então bateram na porta de seu quarto. Ela sentiu um aperto no estômago. Seria Draco? Astoria outra vez? Daphne? Ninguém poderia aparatar ali em seu quarto, mas na mansão sim, pessoas da família e autorizados. Pansy não respondeu e então voltaram a bater, agora com mais insistência.
Com um suspiro de desgosto, ela se dirigiu à porta. Sentiu o suor frio se formar em sua testa, a cabeça latejou e ela se apoiou na porta. Se a pessoa do outro lado soubesse o quanto ela estava perto de um desmaio, com certeza desistiria e a deixaria em paz.
No momento que Pansy pôs a mão na maçaneta, bateram mais uma vez.
– Pansy! Sou eu Emília, está me ouvindo? Você está bem? Abra por favor! – O desespero na voz de Emília era evidente, então Pansy decidiu abrir a porta para a amiga.
– Puxa Pansy, pensei que você não fosse abrir – disse Emília, entrando sem esperar ser convidada. – Achei que ficaria feliz em ver sua melhor amiga, uma vez que estive fora por alguns dias e você ficou sozinha nessa mansão fria. – Emília tentava suavizar o clima pesado entre elas. – Trouxe seu café da manhã.
Emília colocou a bandeja sobre a mesinha próxima da janela e abriu a tampa que mostrava o que ela tinha trazido: bolo, pão, biscoitos, geleia, suco e frutas. Pansy teve tempo somente de olhar para a bandeja e então o cheiro da geleia de morango a nauseou.
– Oh não!
Ela cobriu a boca com a mão e correu para o banheiro, vomitando tudo o que parecia ter restado em seu estômago. Quando Pansy acabou de vomitar, ela lavou o rosto e escovou os dentes, Emília estendeu-lhe uma toalha e ajudou-a a voltar para a cama. Felizmente, a amiga removera a bandeja de comida de sua vista.
– Por Merlin, Pansy, você está realmente doente.
– Acredito que sim. Não é tristeza que me faz ficar assim – murmurou Pansy, tampando os olhos com a toalha.
– Você está pior do que quando a deixei na sexta. Acho que devemos ir ao médico.
– Não podemos, você sabe que não posso sair e ninguém pode vir a menos que seja a família Malfoy ou autorizado por eles.
– Há quanto tempo está assim?
Pansy realmente gostava da amiga, mas gostaria que ela parasse de fazer tantas perguntas nesse momento. Tudo o que queria era ficar deitada ali e sofrer em paz. Mas sabia que isso não aconteceria porque no tempo que convivera com Emília ela pôde notar que a amiga era uma tagarela nata e, apesar de ser da idade de Pansy, às vezes, agia como uma mãe.
– Não me recordo exatamente. Talvez uma semana. Desde que Astoria esteve aqui.
– Humm.
Pansy levantou um canto da toalha.
– O que isso pode significar?
– Não estou certa. Conte-me de todos os seus sintomas.
– Sinto cólicas, meu corpo dói, principalmente meus seios, sinto-me fraca e cansada, tenho tonturas, dor de cabeça, alguns cheiros me dão enjoo, mas somente hoje comecei a vomitar.
– Febre? Tosse?
Pansy meneou a cabeça negativamente, mas parou quando o movimento revirou seu estômago novamente.
– Você foi cuidadosa?
– Cuidadosa com o que? – Agora, aquela era uma pergunta tola, pensou Pansy.
– Cuidadosa com Draco.
– Draco? O que tem ele? Draco estava doente e eu não percebi?
– Não querida, cuidadosa quando dormiram juntos, quando tiveram relações.
– Oh, não! Não, não, mil vezes não! Não posso estar grávida. Nós... ele... eu...
– Acalme-se! – disse a amiga movendo-se para a beirada da cama e sentando-se. – Quando você ficou menstruada pela última vez?
Pansy parou para pensar por um instante buscando na memória a lembrança de seu período.
– Duas semanas antes de eu dançar naquela festa e ser enviada aquele lugar horrível onde fiquei presa. – Lágrimas encheram os olhos de Pansy.
Emília ficou séria e pôs uma mão em cima da de Pansy.
– Quanto tempo esteve presa?
– Umas duas semanas. – Ela fungou.
– E nós estamos aqui na mansão por mais três semanas, assim já são quase dois meses depois de seu último período.
– Emília...
– Vou buscar uma poção Pansy, basta algumas gotas de seu sangue para que possamos saber se está ou não grávida. Tome um banho e me espere aqui. Volto logo!
Pansy fez o Emília sugeriu e agora não segurava as lágrimas. Podia mesmo estar grávida? Como podia ter sido tão tola para não adivinhar? Ela perdera a memória, mas não a inteligência. Sabia que essas coisas aconteciam porque ela vira muitos filmes na TV. Talvez fosse porque se convencera de que nada realmente acontecera naquela noite fatídica em que dançara na despedida de solteiro. Quantas vezes dissera a si mesma que tudo aquilo fora um sonho e que não se entregara para um desconhecido? Como pudera ter perdido a virgindade com um homem que não era seu marido? O que Draco diria? Com certeza a odiaria. Ele a respeitava tanto e ela nem sequer merecia.
De volta a cama, Pansy sentia-se entorpecida. Não era possível que mais uma tragédia fizesse parte de sua vida.
Emília voltou meia hora depois e trouxe um vidro com um liquido amarelo dentro. Ela furou o dedo de Pansy com uma pequena agulha e deixou que algumas gotas caíssem no liquido, agitando-o em seguida.
Pansy caminhou até a penteadeira e sentou-se, esfregando as mãos nervosamente. Ela notou que a poção adquiriu uma tonalidade azul. Emília virou-se para ela com o rosto inexpressivo. Pansy a encarava com ansiedade.
– E então? O que significa? – O coração de Pansy pulsava acelerado.
– Você está grávida. E espera um menino.
Pansy segurou-se na penteadeira. Ela sentia que ia desmaiar.
– Você quer o bebê?
Levou um minuto para as palavras da amiga atingirem seu cérebro. Alguns instantes no consultório médico e seu problema podia ser resolvido, ela sabia que isso acontecia também. Uma mão protetora descansou sobre o estômago.
– Sim – foi a resposta.
– Tudo bem. Você não tem que fazer nada que não queira. Conte a Draco. Tenho certeza que ele ajudará.
– Draco vai me odiar.
– Claro que não Pansy! Ele ficará encantado, ele a ama de verdade e ter um filho com você será apenas a cereja do bolo.
– Um filho comigo? – Pansy a encarou sem compreender.
– Sim, o bebê que você espera. Draco ficará feliz em saber que será novamente pai. – Emília retrucou impaciente.
– Ele não é o pai. – sussurrou Pansy.
Emília ficou em silencio, o choque evidente em sua face.
– Blaise...
– Não. Blaise nunca me tocou, éramos noivos, mas ele sem sequer me beijava.
– Estranho, mas não se não foi Blaise e Draco...
Pansy suspirou. Seu estômago doía de nervosismo, a cabeça latejava mais do que nunca, ela sentia que ia sufocar...
– Pansy, se você sabe quem é o pai, deve dizer-lhe. – Emília pôs as mãos sobre os ombros da amiga. – Ele tem que lhe ajudar com o bebê, pelo menos enquanto você está sem renda.
– Acredita mesmo que vou receber o dinheiro de meus pais?
– Sim, todos que não estavam envolvidos receberam. Pode levar alguns meses, mas você vai ser uma mulher muito rica em breve. Seus pais não gastaram dinheiro na guerra como os meus.
– Então não precisarei de ninguém, nem meu filho. – Ela disse orgulhosamente.
– Não. Mas por enquanto sim. Realmente não poderá continuar aqui com Draco, acho que ele vai ficar confuso com tudo isso.
– Claro que não posso. Confuso é o mínimo, ele vai me odiar, ficar decepcionado. E eu já pensava em ir embora por causa de Astoria, apesar de não ter para onde ir.
– Eu gostaria de poder ajudá-la, mas não posso protegê-la adequadamente, não tenho recursos para isso...
– Eu sei minha amiga, mas preciso mesmo sair daqui.
– Pretende partir antes de Draco voltar?
– Não sei quando ele volta e não posso sair daqui, esqueceu?
– Claro que pode! Comigo!
– Acha que posso? – Pansy estava surpresa.
– Sim, Draco me disse que poderia sair se fosse comigo, mas apenas em uma emergência, para que não corresse perigo de ser levada outra vez por Blaise.
– Isso é uma emergência, e eu não quero que Blaise me encontre, ainda mais nessa situação. Não imagino o que ele poderia fazer.
– Nem quero pensar sobre isso Pansy.
– Então você vai me ajudar Emília.
– Vai procurar o pai do bebê?
– Acho que ele me odeia.
– Impossível! Se fosse assim, vocês não teriam um filho. A menos que ele tenha te forçado. – Emília olhou assustada para Pansy.
– Não. Quer dizer...
Pansy encarou Emília e então contou a ela tudo o que lembrava da noite em que dançara na festa de despedida de solteira, e também o que aconteceu depois. Contou como encarou o homem de olhos verdes, como aceitou a bebida do amigo ruivo do noivo, como acordou ao lado do homem, de a noiva dele ter aparecido, de ela ter sido levada para a prisão, de tê-lo visto no julgamento e então nunca mais.
– Merlin Pansy! Não acredito!
– Em mim?
– Não! Mas Harry Potter!? Isso é... Nem sei o que dizer. Se me dissessem que Voldemort ressuscitou eu ia acreditar, mas você grávida do Potter, jamais.
– Por que é tão absurdo? – Pansy levantou-se incomoda e voltou para a cama sentindo-se fraca novamente.
– Você e Potter sempre foram inimigos, viviam trocando insultos na escola. Draco também, mas agora eles convivem pacificamente, já não se odeiam, apesar de viverem numa disputa velada.
– Eu tentei me convencer de que nada aconteceu...
– Mas claramente aconteceu, e será um menino. Caramba! Isso vai ser um escândalo!
– Não quero isso Emília. Não quero ninguém falando sobre mim ou minha gravidez, imagino quais coisas horríveis dirão. Já chega o que escutei e como tratada desde que acordei ao lado desse homem.
– Você tem razão. Precisamos encontrar uma forma de manter isso em segredo.
– É o que mais quero.
– E Draco?
– Direi a ele que estou grávida, não sobre o pai, não quero deixá-lo mais chateado.
– Ele vai insistir.
– Não direi mesmo que me sangre o coração.
– Ele ia querer matar Potter se soubesse.
– Isso é absurdo! Ele não faria isso.
– Mas Potter ia acabar com ele, de certeza, afinal ele derrotou Voldemort, quem seria Draco Malfoy para ele!? Aí o escândalo seria maior.
– Harry Potter é assim tão poderoso?
– Não sei, mas ele é um excelente bruxo e o melhor auror do Ministério, acho que até do mundo mágico.
– Ele poderia me defender de qualquer perigo?
– Com certeza!
– E ele tem dinheiro?
– Potter é o bruxo mais rico do mundo mágico. Tenho certeza que é por isso que a Weasley está com ele.
– Ah sim, a noiva. – Disse Pansy com desgosto.
– Ela vai morrer quando souber e eu aposto que não haverá casamento.
– Harry Potter gosta mesmo da noiva?
– Com certeza. Tirando você, nunca ouvimos falar sobre o envolvimento dele com outra mulher depois que começou a namorar a Weasley. Ele é louco por ela.
– Então ele não vai querer romper o noivado, não vai querer que ninguém saiba sobre minha condição.
– Creio que não. Você é o segredo sujo do Potter.
– Isso é ótimo então! É essa a saída!
– O quê? Não estou acompanhando seu raciocínio!
– Vou procurar Potter e dizer a ele que estou esperando seu filho. Pedirei que ele me esconda e proteja onde ninguém me encontre até que eu receba minha fortuna, então eu pago a ele por tudo o que ele fez e desapareço com meu bebê.
– Entendi. É realmente um bom plano Pansy.
– Sim. E você vai me ajudar. Quero falar com ele antes que Draco volte.
– Draco voltará amanhã. Ele mandou uma coruja ontem.
– Então preciso falar com Harry Potter Hoje.
– Eu levarei você. Mas prometa-me que deixará que eu saiba para onde você irá.
– Não posso prometer enquanto estiver com Potter, mas depois sim.
– Então está bem.
Pansy lembrou-se dos olhos verdes como esmeraldas, da pele clara e cremosa que ele tinha, do cheiro masculino de colônia, dos cabelos negros e bagunçados. Não era provável que ele quisesse ajudá-la, principalmente depois de ela ter sido o instrumento que quase arruinou seu casamento e que poderia fazê-lo de vez agora. Considerando que ele a queria presa naquele lugar horrível, era provável que ele a mandasse para lá mais uma vez. Ele não gostava dela, provavelmente ele a odiasse. Mas ela teria que arriscar pelo bem do bebê que esperava. Por que tudo tinha que acontecer a ela?
