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CAPÍTULO 9

PARTIDA

Hermione virou-se na cama, ainda inquieta, mas logo acalmou-se ao tomar uma respiração profunda. Ah... Como aquele cheiro a acalmava, a fazia sentir-se segura e acolhida e ela sabia que naqueles braços quentes que a envolvia ela estaria segura, sempre. Abriu os olhos devagar e deu de cara com um par de olhos negros que a encarava furtivamente. Ficaram assim, olhando-se, certificando-se que aquela cena era real e não algo imaginário, surreal. Porque eles tinham que passar por tantas intempéries?

A expressão no rosto de Tom suavizou-se e ele deu um sorriso acalentador para Hermione, que devolveu o sorriso indicando que estava, dentro da medida do possível, bem. Ela sentia seu corpo doer, uma moleza extraordinária e agora que estava se sentindo verdadeiramente acordada, sentia fome.

— Você dormiu por tanto tempo... — Tom falou acariciando seus fios castanhos.

— Quanto tempo? — ela perguntou com a voz extremamente rouca por causa do sono.

— Cinco dias.

— Tudo isso? — a castanha assustou-se. Como era possível que ainda estivesse se sentindo letárgica após dormir por tantas horas ininterruptas?

— Sim, e eu estava extremamente preocupado, mas Dr. Doggis disse que era normal, que o seu corpo precisava recuperar toda a energia que você perdeu.

Hermione engoliu em seco e suprimiu a lembrança do que havia acontecido. Ela não queria pensar naquilo, pensar em todo o mal que sofrera. Ela não aguentava mais aquela dose de sofrimento em sua vida. Sentia que a carga estava pesada demais, mas algo em seu interior a avisava que ainda não havia acabado.

Tom encarou o rosto de sua amada. Tão abatido e doente naquele momento. As olheiras escuras e profundas, os lábios sem cor, os olhos sem brilho. Não parecia a sua Hermione. E ele sabia o motivo.

"— O bebê está sugando toda energia dela Tom e isso é muito perigoso.

Mas não há uma poção que possa restituir essa energia, Dr. Doggis?

Eu já estou administrando muitas poções no intuito de mantê-la estável, Tom. Pode haver interações medicamentosas e a poção para energia poderia anular o efeito da poção do sono sem sonhos. Eu não posso fazer muita coisa a não ser torcer para que no final das contas dê tudo certo.

Como assim? Não pode fazer muita coisa a não ser torcer?

Oh Tom... Eu diria que como náiade, Hermione ficaria absolutamente bem grávida. Ficaria mais forte, em outras palavras, estaria literalmente radiante. Uma gravidez numa náiade deixa um brilho prateado em volta do seu corpo demonstrando o seu estado de graça e saúde, de plenitude por estar carregando uma nova vida. Mas, de alguma maneira isso não aconteceu com ela. Sem o núcleo mágico, o corpo dela não reage como deveria, e a pouca energia que ela tem é sugada pelo feto para que ele possa sobreviver.

Ainda não consigo entender completamente...

Uma das possibilidades é que talvez você possa demovê-la, convencê-la a tentar depois, em outro momento quando ela estiver mais forte, porque talvez você tenha que fazer uma escolha no final das contas.

Escolher entre ela e o meu filho?

Silêncio. Silêncio absoluto.

É só uma possibilidade Tom. Vamos fazer com que tudo dê certo entendeu?

O senhor não me parece muito seguro.

Vai dar tudo certo garoto. Tem que dar. Ela merece que dê certo..."

...

Tom sacudiu o corpo levemente espantando a lembrança daquele diálogo perturbador. Ele tinha que ser franco com Hermione. Tinha que contar-lhe os fatos. Ele tinha tomado a sua decisão. Pensou bastante naqueles longos cinco dias insones, salvos por alguns cochilos ocasionais recheados de pesadelos nada atrativos.

E se tudo fosse a complicação gestacional de Hermione. Ainda havia a coruja que tinha recebido do Ministério cobrando-lhe uma posição e a carta que havia recebido de Dumbledore.

Ah... A carta realmente mudou os seus conceitos em relação ao velhote.

Sr. Tom Riddle Jr.

Eu tenho conhecimento sobre o que o Ministro lhe pediu, juntamente ao Sr. Malfoy e peço que aceite. Sim, é um disparate, hediondo e medonho, mas acredito que seja o único jeito. Eu convivi com o seu conhecimento brilhante, com suas habilidades tendenciosamente negras, e isso me assustava. Mas, agora vejo como isso pode ser útil. Oh Tom, sei o quanto se faz necessária a sua presença ao lado daquela jovem encantadora, cujo nome é Hermione, mas permanecer ao lado dela seria correto quando o resto do mundo rui em caos e desgraça? Você e o Sr. Malfoy podem fazer isso. Podem salvar não só o futuro de vocês, mas o futuro do mundo bruxo.

Sobre o Gellert, quero que saiba que enquanto eu me entretinha a ensinar novos feiticeiros, ele andava a formar um exército. Há quem diga que ele me receia, e talvez seja verdade, mas a certeza que eu tenho é que ele me receia menos do que eu a ele. Oh, não é o fato de que ele possa me matar. Nem as magias que poderia fazer contra mim. Saiba que estamos mais ou menos à mesma altura, talvez eu seja um tudo-nada mais habilidoso. O que eu receio é a verdade.

Eu e Grindelwald fomos mais que amigos Tom. E eu o trouxe para a minha vida, para dentro do meu lar, mesmo que isso me fizesse ir diretamente contra o meu irmão, Aberfoth.

Não, eu não era tão diferente de Grindelwald – ou de você em seus tempos mais sombrios -, ansioso pelo poder e pelo conhecimento absoluto. E começamos a discordar digamos assim.

Nunca soube qual de nós, naquele derradeiro e terrível combate, tinha lançado a maldição que matou a minha irmã. O que eu mais temia, Tom, era descobrir que tinha sido eu a causar a morte dela, não só com a minha arrogância e estupidez, mas por ter sido eu mesmo a executar o golpe que lhe arrancou à vida. Acho que ele sabe..., Acho que ele sabe o que eu verdadeiramente temo. Continuei sempre a protelar um eventual encontro com ele até que, agora a essa altura, se tornou demasiado vergonhoso continuar a resistir. Há gente a morrer, e ele parece imparável. Eu tenho que fazer tudo o que estiver ao meu alcance e para esse feito, eu preciso da ajuda dos senhores. Não permita que a vida da Srtª. Granger e consequentemente a vida da Srtª McGonagall se esvaia nas mãos dele, assim como a vida de Ariana esvaiu-se. Aguardo ansiosamente a resposta dos senhores.

Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore

Depois de ler o conteúdo o moreno já havia dado a sua resposta. Ele partiria naquele mesmo dia juntamente com Abraxas. Como contar tudo isso a ela? Grindelwald já estava na Inglaterra, destruindo vilas trouxas e em busca de uma certa náiade que ele tomara conhecimento através de um aliado anônimo. Ele bem sabia quem era o aliado que não se mostrara. Benjamin Nott.

— Hermione... — ele chamou a atenção da garota. — Precisamos conversar algo sério. — ele não conseguiu olhar em seus olhos. Preferiu encarar um vaso ornamental do outro lado do quarto.

— Sobre o que? — ela aconchegou-se mais a ele.

— Eu sei que vai parecer monstruoso, mas preciso lhe pedir algo... — ele começou incerto engolindo em seco. Suas mãos suavam e tremiam levemente e lágrimas invadiam o canto de seus olhos.

— Pois peça amor. — ela sorriu levemente. Não se encaravam, pois a cabeça da castanha estava firmemente aconchegada ao peitoral do moreno. — Você sabe que eu faço qualquer coisa por você. — ela disse manhosa e aquilo foi como um soco no estômago do garoto.

— Oh Merlin. — sua voz tremulou e as lágrimas caíram. Ela rapidamente sentou-se para encará-lo, mas foi acometida por uma tontura. Ele a firmou enquanto ela tentava se reestabelecer respirando mais profundamente. — Você está bem? — ele perguntou preocupado.

Alguns segundos depois ela acenou positivamente, quando o mundo voltou o seu devido lugar e ela pode então focar os olhos no rosto sofrido do moreno.

O garoto começou a contar-lhe tudo, desde a complicação na gravidez ao pedido do Ministério e de Dumbledore. Ele implorava para que ela entendesse.

— Você já aceitou... — não foi uma pergunta. A expressão de Hermione havia caído, não havia um único resquício de brilho em seus olhos.

— Aceitei por você Hermione. Por nossa família.

Ela soltou um riso sem graça. — Se você morrer em missão é um grande bem que você faz a nossa família, não acha? — ela perguntou sarcasticamente desarmando o garoto imediatamente.

— Eu sou a porra de uma náiade e eu preciso de você seu burro arrogante metido a salvador da pátria. — ela estava com raiva. O seu rosto assumindo um tom vermelho escuro. Tom já havia pensado nisso juntamente com Abraxas e só havia um único meio de mantê-la segura e a salvo, mesmo longe dele.

— Eu sei que você é parte náiade. — ele falou o óbvio sem perder a compostura como a garota havia feito. — Mas há um meio de te manter segura enquanto estou em missão. Eu não estaria indo, não aceitaria essa missão absurda se não tivesse certeza que você ficaria bem.

— E que maldito meio é esse? — ela perguntou elevando muito o tom de sua voz.

Há uma possibilidade... Há uma possibilidade... Tudo o que eu vou conseguir vai ser seu também... Tudo o que eu vou conseguir vai ser seu também...

Ele ficou ali, olhando-a sem nada dizer por longos minutos, apenas encarando como o seu rosto estava abatido e parecia doente.

— Retirando todas as suas memórias em relação a mim. — ele respondeu assumindo a sua máscara de frieza e então ela soube naquele instante, ele faria isso, ela quisesse ou não, porque não importava o quanto ela fosse contra essa ideia absurda e idiota, ele iria mantê-la viva, custasse o que custasse, e se o preço fossem as suas memórias para que o seu coração continuasse batendo, então ele o faria.

Então me avise quando você ouvir meu coração parar... Você é o único que me conhece... Me avise quando ouvir o meu silêncio... Há uma possibilidade de eu não saber.

— Você não vai fazer isso comigo. — ela falou trêmula, temerosa. As mãos varrendo a cama procurando pela sua própria varinha no impulso de se defender.

— Sua varinha quebrou. — ele falou cansado ao perceber a intensão de Hermione. Ela respirou derrotada.

— Por favor... — ela implorou. — Por favor, Tom.

Saiba que quando você partir... Pelo sangue e por mim, você anda como um ladrão... Pelo sangue e por mim... Eu caio quando você se vai.

— É por você Hermione. É porque eu te amo. — ele falou segurando-a pelos ombros e sem esperar uma resposta da garota começou a murmurar um encantamento.

Hermione sentiu o seu rosto pesar e um torpor nebuloso invadir sua mente, pesando, escurecendo, desvanecendo tudo. A voz de Tom invadia-lhe os ouvidos, o murmúrio quase cantado que forçava-a a doar-lhe o que ela tinha de mais precioso... Os seus momentos com ele.

Uma enorme linha prateada saía da têmpora direita de Hermione formando uma pequena nuvem de neblina cintilante acima de sua cabeça enquanto seus olhos encontravam-se sem foco.

Tom soltou uma das mãos e apanhou um invólucro, onde, com mais um feitiço, ele aprisionou todas as memórias em relação à ele que a castanha tinha.

Então me avise quando meu silêncio terminar... Você é o motivo pelo qual me fechei... Então me avise quando me ouvir caindo... Há uma possibilidade de eu não saber...

— Eu prometo que eu as devolverei assim que voltar para você meu amor. — sentiu-se um canalha, mas antes ser um pulha do que ficar de braços cruzados enquanto assistia a perseguição que culminaria na morte da mulher que amava. Isso ele não poderia fazer. — Durma agora meu amor... — ele murmurou mais um feitiço e a castanha fechou os olhos caindo num sono profundo.

Eu não farei você chorar... Eu jamais me perderei... Eu a farei minha parte... Por que eu te amo.

(...)

Tom ouviu uma batida na porta. Logo o loiro colocou a cabeça na porta. Tom notou seus olhos vermelhos e as bolsas embaixo dos olhos azuis acinzentados. Ele havia chorado.

— Está feito? — o loiro perguntou com a voz esganiçada e rouca.

Tom acenou positivamente enquanto olhava a castanha dormir.

— Você fez também? — Tom perguntou olhando para o amigo que também acenou positivamente.

— Ela me seguiria se eu não o fizesse. Você sabe como ela é inconvenientemente tenaz. — ele riu não achando realmente graça da situação. — Não se preocupe Tom. O meu padrinho e Madame Pilpes irão cuidar delas.

(...)

Os dois jovens deram as memórias à Dobby, que a guardou como a sua própria vida. Naquele dia, saíram da Malfoy Manor em vestes negras e munidos de todo o instinto de oclumência que tinham, sem olhar para trás, porque se o fizessem certamente fraquejariam. Teriam que ser fortes porque não há vitória sem luta. A vida tinha que recompensar os sacrifícios feitos pelo amor, porque foi o amor que os transformou e era por aquele mesmo amor que eles arriscariam as suas próprias peles. O primeiro ato grifinório de suas vidas. Eles estavam partindo como heróis e esperavam voltar daquela loucura com vida.

(...)