AVISO: O bloco inicial deste capítulo contém cenas yuri. Porém, não há nenhuma passagem explícita e nenhuma descrição detalhada. Se mesmo assim vocês não quiserem ler essa parte da fic, por favor, rolem a página até encontrar a primeira linha pontilhada (- = - = -). Abaixo dela vocês estarão "a salvo".
ABORRECIMENTOS E SAUDADES
Uma comédia romântica assumidamente feminista e sadomasoquista
Por Vane
"Saint Seiya" pertence a Masami Kurumada, Toei Animation, Shueisha e Akita Shoten.
Capítulo 9
Um fino raio de sol penetrava o quarto de Shaina por meio de uma fresta na janela fechada. A luz incidia diretamente sobre o rosto de Geist, e por fim fê-la despertar.
Ela consultou o relógio sobre a mesa de cabeceira à sua direita. Eram pouco mais de oito horas da manhã. Geist se espreguiçou e se sentou na cama. Depois cutucou Shaina, que ressonava ao seu lado.
- Shaina, acorde.
A amazona de Ofiúco grunhiu algo incompreensível e pareceu não dar atenção ao chamado de Geist, virando-se para o outro lado. Porém ela não tardou em abrir os olhos e voltar-se vagarosamente para a amiga.
Vendo que Shaina estava acordada, Geist se levantou e deixou o quarto, sem se preocupar em se vestir. Shaina por sua vez manteve-se deitada, olhando para o teto. Quando Geist regressou, minutos depois, foi a vez de ela mesma deixar o quarto temporariamente, para realizar os primeiros cuidados pessoais do dia: lavar o rosto, escovar os dentes, pentear displiscentemente os cabelos.
Quanto ela retornou aos seus aposentos, encontrou sua amiga sentada novamente na cama, com os dois pés sobre o colchão. Sentou-se ao lado dela e deu um suspiro cansado. Abraçou as pernas e apoiou o queixo sobre os joelhos.
- É hoje o dia - Geist comentou, rompendo o sliêncio.
- Não me diga - Shaina retrucou irônica, embora sua voz tivesse soado quase entediada.
Após alguns instantes, Geist sugeriu:
- É melhor você começar a se arrumar, não acha?
- Não - Shaina respondeu secamente.
- Shaina, deixe de ser besta. Não vai querer se esconder do mundo agora, certo? Você nunca foi de se acovardar com nada.
Shaina ergueu a cabeça e, voltando-se para Geist, inquiriu entre dentes:
- Está querendo dizer que estou me acovardando?
- É o que está parecendo - Geist respondeu desafiadora.
- Você está muito enganada! - a amazona de Ofiúco bradou, saindo da cama imediatamente após.
Vendo que Shaina começava a se vestir, Geist sorriu com satisfação. "Ela caiu fácil demais. Eu sabia que um único empurrãozinho já seria suficiente."
Ela lamentava a situação da amiga. Doía-lhe ver Shaina infeliz, pois estimava-a muito. Odiaria estar em seu lugar, pois também prezava sua liberdade e sua independência. Contudo, a vontade de Athena estava acima dos interesses individuais.
Quando a deusa a trouxera de volta à vida, oferecendo-lhe uma segunda oportunidade para provar seu valor como amazona, Geist ficara profundamente impressionada. Quem poderia imaginar que ela seria considerada digna da misericórdia de Athena, depois dos crimes que havia cometido?
O ato generoso da deusa transformara Geist em sua leal defensora. Por esta razão, a guerreira entendia que a vontade da soberana do Santuário sempre deveria ser cumprida, ainda que isto custasse a felicidade de seus servos.
Shaina a havia procurado duas semanas antes, dizendo-lhe que elas precisavam ter uma noite de despedida. Geist pedira a ela que esperasse mais algum tempo, pois queria ser a última pessoa a se despedir da guerreira de Ofiúco. Prometera à amiga que suas derradeiras horas de liberdade seriam especiais.
Sorriu para si mesma, certa de que havia honrado sua promessa com louvor.
Diante do espelho embaçado e rachado que cobria uma das portas de seu velho guarda-roupas, Shaina ajustou sobre os cabelos a tiara de sua armadura. Assim, terminou de se arrumar, e sentou-se na beira de sua cama, de costas para Geist.
- Como sei que hoje não será um dia fácil para você, eu farei o café - a guerreira regenerada anunciou, levantando-se e deixando o quarto novamente.
Shaina arregalou os olhos. Geist podia ser uma excelente amiga e amante, porém tinha algo em comum com ela: odiava cozinhar. Depois de dormir juntas elas quase sempre discutiam, porque nenhuma das duas jamais queria se responsabilizar pelas refeições.
Ofiúco sabia por que Geist agora se mostrava tão atipicamente prestativa, mas não teria se importado em ter mais uma de suas clássicas trocas de desaforos com ela. No final das contas, aqueles eram momentos divertidos; elas gostavam de duelar entre si, verificando quem falava mais alto e proferia as piores grosserias. Depois acabavam rindo de si mesmas. A amiga, querendo animá-la, cometera um erro: tirara-lhe a oportunidade de ter um último duelo verbal com ela.
"Mas eu ainda posso dar um jeito nisso", Shaina pensou, com um sorrisinho malicioso a dançar em seus lábios. Decidiu ir à cozinha, com o intuito de divertir-se provocando uma briga.
Todavia, seu plano falhou, pois o que Geist e ela fizeram foi reprisar a despedida noturna.
Duas horas mais tarde, Shaina começou a recolher e vestir novamente as peças que havia jogado ao chão. Geist recolocou o avental surrado que era a única peça que a cobria quando Shaina adentrou a cozinha. E finalmente pôde preparar o café da manhã.
As duas comeram rapidamente. Falaram pouco durante a refeição, mas trocaram diversos olhares e risadas cúmplices. Depois Shaina foi escovar os dentes, enquanto a parceira arrumava a mesa e lavava a louça.
Ao sair do banheiro, a amazona de Ofiúco pôs-se a percorrer os poucos cômodos de sua pequena casa. Os móveis não tinham grande importância para ela, por isso ficariam lá. Seus pertences não eram numerosos, excetuando-se suas coleções de livros e discos; estes já haviam sido levados para a Casa de Aquário, bem como quase todo o conteúdo de seu guarda-roupas. Os últimos objetos que ela deixasse para trás e que ainda lhe pudessem ter alguma serventia seriam levados para sua nova residência mais tarde, por Geist, que não assistiria ao casamento.
Ela estacou diante de uma das janelas de sua sala de estar. Olhava para fora, mas não via nada realmente. Seu desânimo a entorpecia.
- Shaina, são quase 11h30.
A amazona voltou-se lentamente para Geist, que agora, sem o avental, voltara a fica inteiramente nua. Estranhou a suavidade na voz da amiga.
- Outra vez você está estragando tudo, idiota - ela disse áspera, a despeito da melancolia que sentia.
- Estragando o quê, sua ridícula? - Geist rebateu, pondo as mãos na cintura.
- Tá surda agora? Eu disse "tudo". Tudo quer dizer tudo, ora essa!
- Não sei do que você está falando, retardada. Só estou tentando te ajudar.
- Esse é que é o problema! Hoje você tirou o dia para bancar a santa. E eu não quero isso, não gosto disso, não preciso disso. Quero que você me trate como sempre, entendeu, besta dos infernos?
- Entendi, imbecil.
As duas se entreolharam e caíram na risada. Depois se abraçaram.
- Assim é que eu gosto - Shaina disse agradecida.
- Eu sei. Mas eu realmente só quis ajudar, porque hoje...
- Hoje é um dia que não deveria existir - Shaina interrompeu-a, a voz pesada e séria.
Geist desfez o abraço e fitou sua amiga. Havia rancor no olhar de Shaina e os lábios dela estavam contraídos. Contudo, Geist sabia que seria inútil oferecer-lhe palavras de conforto ou tomar qualquer espécie de atitude que resvalasse no sentimentalismo. Era preciso respeitar a guerreira de Ofiúco; por isto, o melhor a se fazer era tratá-la como o que ela era: uma mulher rude, acostumada a uma vida dura, e que odiava ser vista como uma "pobre coitada". Ela mesma deixara claro que este era seu desejo.
Tendo isto em mente, Geist falou sem rodeios:
- Agora chega de palhaçada, Shaina. Cai fora daqui. Anda, já está na hora.
Shaina desviou seu olhar, e após alguns segundos de silêncio, disse:
- É. Vou embora.
Depois disso, segurou o rosto da amiga e colou seus lábios aos dela.
Findo o beijo, Ofiúco caminhou em direção à porta. Antes que pudesse abri-la, foi detida pela voz de Geist:
- Ei, espere aí! E a sua máscara? Você se esqueceu de colocá-la.
- Não preciso mais usá-la - Shaina respondeu, enquanto se virava novamente para a outra amazona.
- Pelo que você mesma me contou, o Mestre disse que você estará definitivamente livre da sua máscara a partir do momento em que a cerimônia começar.
- Exatamente.
- Mas a cerimônia ainda não começou - observou Geist. - Vai desfilar por aí assim, exibindo seu rosto para quem quiser ver, antes de ter se casado?
Shaina encarou a parceira por um momento e indagou:
- Você faz ideia de como é ridículo isso que você acabou de me dizer?
- Eu sei. É totalmente "século passado" - Geist riu. Um pouco séria, acrescentou: - Mas se você deixar de usar sua máscara antes de ser oficialmente liberada pelo Mestre, estará desrespeitando a vontade dele, que é a vontade de Athena.
- Dane-se Athena! - Shaina exclamou, com um gesto agressivo. - Ela já vai conseguir o que quer, então que pelo menos me deixe fazer as coisas do meu jeito.
Geist esboçou um sorriso. Não gostava que se falasse de sua deusa daquela forma; mas tratava-se de Shaina, afinal. Dela não se poderia esperar nenhuma delicadeza, sobretudo naquelas circunstâncias.
- Está bem, está bem, pode exibir seu rosto à vontade. Vai logo de uma vez, Shaina - Geist ordenou, movendo as mãos como se expulsasse a outra guerreira da sala.
Shaina de fato chegou a abrir a porta e sair do recinto. Porém, ela retornou e agarrou o pulso esquerdo de Geist, dizendo:
- Vem aqui.
Conduziu a amiga nua para fora da sala. As duas pararam diante da entrada da casa, a cerca de meio metro da soleira da porta.
O sol brilhava intensamente e não havia quaisquer nuvens ou sombras à vista, de maneira que nada poderia disfarçar a situação em que Geist se encontrava.
- Pensei que você quisesse exibir publicamente o seu rosto, e não o meu corpo - ela comentou num tom falsamente despretensioso. Fitou Shaina obliquamente e pôs uma das mãos na cintura, tencionando fazer uma pose charmosa.
Shaina deu uma risadinha abafada, abraçou-a e beijou-a longamente. As duas mantiveram os olhos abertos durante uma parte do tempo, percebendo que alguns transeuntes observavam a cena ao longe. Quando o beijo terminou, as duas trocaram sorrisos travessos.
Sem dizer mais nada, Shaina afastou-se. E não olhou para trás.
Ela precisava realizar uma última ousadia como solteira. Devia isto a si mesma, e sentia-se muito bem por tê-lo feito. Fora sensata ao atender ao pedido de Geist e permitir que ela fosse sua derradeira companhia antes do casamento. Porque Geist era como ela. As duas se conheciam e se entendiam.
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Após caminhar alguns metros, Shaina começou a passar por várias das pessoas que a haviam visto beijar a despida Geist ao livre. Algumas lhe lançavam olhares admirados; outras pareciam constrangidas. Ela apenas sorria.
Prosseguindo em sua caminhada, a guerreira pôde estudar as reações de diversos homens à sua face exposta. Havia os que fitavam seu rosto abertamente, os que o faziam disfarçadamente e os que desviavam o olhar imediatamente. Ela enxergava sentimentos variados nos semblantes deles: perplexidade, reprovação, desejo, dúvida. Tudo isto a divertia e era-lhe indiferente ao mesmo tempo.
O casamento seria celebrado num dos salões do templo de Shion. Obviamente, Shaina não estava ansiosa para chegar ao seu destino. Por outro lado, não tinha medo de enfrentar aquela situação adversa. Por isto seus passos não eram nem acelerados, nem vagarosos.
Durante uma boa parte do caminho ela sentiu o coração aos pulos. Ainda lhe restava um fio de esperança. Não era totalmente impossível que o matrimônio fosse cancelado. Ela não contava com nenhum fato concreto para justificar estes pensamentos. Somente pensava em hipóteses. Seria tão absurdo assim imaginar que Athena poderia mudar de ideia?
Talvez a deusa jamais tivesse tido a intenção de fazer a amazona se casar realmente. "Ela pode ter querido me fazer acreditar nesse casamento por um mês inteiro apenas para me atormentar. Isto poderia ser uma vingança mais do que suficiente para ela", Shaina supôs. E então, antes que a cerimônia começasse, Shion lhe diria que Athena havia reconsiderado sua decisão, liberando Shaina de quaisquer obrigações.
Shaina detestava apegar-se a ilusões. Não apenas por seu temperamento, mas também porque o período em que estivera obcecada por Seiya lhe mostrara como sonhos sem fundamento poderiam ser perigosos. Ainda assim, ela acreditava que a perspectiva de ver seu casamento cancelado no último instante tinha um embasamento realista. Não tanto por ela mesma, mas sim por Camus.
Ela não sabia o que Athena pensava do cavaleiro e nem como era o relacionamento entre eles. No entanto, baseando-se nos comentários vagos porém positivos que ouvira sobre Camus, Shaina pensava que havia alguma chance de Athena querer poupá-lo de uma união que ele evidentemente não desejava. "Ela pode não se compadecer de mim, mas do idiotinha chocólatra... quem sabe? Se ela for mais uma dessas pessoas que ficam repetindo que ele é um mocinho tímido porém bonzinho, talvez eu ainda tenha alguma chance de me livrar dessa. Vou dever um favor a ele se isso acontecer, mas não faz mal. O importante é que Athena sinta pena dele e mande esse casamento imbecil para o inferno."
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Terminando de subir a escadaria que conduzia ao templo do Mestre, Shaina foi cumprimentada secamente por um soldado que havia sido escalado especificamente para recepcionar os noivos.
- Você ainda deveria estar usando sua máscara - ele disse, olhando-a reprobatoriamente.
- Deveria, mas não estou - Shaina retrucou ríspida, sentindo a fúria crescer dentro dela.
- Você tem consciência de que está descumprindo uma determinação da segunda maior autoridade deste Santuário? - ele insistiu, alteando a voz.
- Você tem consciência de que deve mais respeito a alguém que está dois níveis hierárquicos acima de você? - Shaina devolveu, falando mais alto do que ele.
- O Mestre também está dois níveis hierárquicos acima de você - o homem observou, com um sorriso sardônico.
- Ah, é? Então pense comigo - Shaina disse cáustica: - O Mestre é uma pessoa benevolente; mesmo que eu tenha problemas com ele, nós dois nos entenderemos de uma forma ou de outra. Mas eu não sou uma pessoa benevolente; se você tiver problemas comigo, nós dois só nos entenderemos depois que eu o deixar estendido no chão, com todos os seus dentes quebrados. Que tal?
O sorriso do soldado se desfez abruptamente. Evitando fitá-la, e agora falando num tom consideravelmente baixo e contido, ele pediu que Shaina o acompanhasse. A amazona o fez, sem conter um sorriso satisfeito. No fundo, porém, sentia-se indignada.
"Era o que me faltava: um soldadinho que se acha no direito de me tratar com desprezo só porque recebeu uma incumbência diretamente do Mestre Shion! Se estou descumprindo o que o Mestre determinou, que ele mesmo me repreenda. Esse aí tem mais é que ficar calado e não se intrometer nisso; não é ele quem dita regras por aqui. Está com muita sorte, porque eu poderia denunciá-lo. Duvido que o Mestre ficasse contente em saber que tem gente aqui que usa as determinações dele como desculpa para poder pisar nos outros."
Eles percorreram a maior parte do interior do templo, até que o soldado parou diante de uma porta situada a poucos metros de distância do salão onde ocorreriam os ritos nupciais.
Shaina inclinou-se um pouco para observar o amplo recinto. Havia várias pessoas lá dentro; algumas arrumavam o ambiente, enquanto outras conversavam entre si. "Tem bastante gente, mas menos do que eu imaginava. E as coisas estão parecendo meio paradas por aqui; não vi ninguém passar pelo corredor desde que cheguei. Ou todos os curiosos que vieram assistir minha desgraça já chegaram, ou deixaram para chegar em cima da hora", Shaina pensou.
Sua atenção foi desviada pela voz do soldado, que abriu a porta diante da qual eles haviam parado.
- O Mestre reservou esta sala de espera para você e para Camus de Aquário - o homem explicou, fazendo um gesto para que Shaina entrasse.
Depois, ele entrou também e continuou:
- Se sentir fome ou sede, basta pegar o que você quiser no frigobar. O banheiro fica naquele corredor à direita. Quando tudo estiver pronto para o início da celebração, o Mestre virá buscá-los pessoalmente.
Fazendo uma rápida mesura, ele se despediu e fechou a porta, deixando a amazona sozinha.
Ela permaneceu de pé por um minuto, olhando ao seu redor. Pensou em abrir o frigobar apenas por curiosidade. Mas não queria comer e nem beber nada. Por isso resolveu sentar-se numa das duas poltronas da sala. Descobriu que o móvel era muito confortável, e esparramou-se nele com gosto.
Separando seu assento daquele que permanecia desocupado, havia uma mesinha baixa, repleta de jornais e revistas. Shaina pegou um jornal e tentou lê-lo. Porém, a ansiedade impediu-a de concentrar-se nas notícias, e logo ela desistiu.
O relógio marcava 13h47. A cerimônia deveria começar às 15h. "Eu deveria ter almoçado antes de sair de casa", a amazona pensou, ainda que não sentisse fome. "Cheguei cedo demais. Droga!"
Pouco após ter completado esse pensamento, ela viu a porta da sala se abrir. O soldado gesticulou para que Camus entrasse e lhe prestou exatamente as mesmas informações que fornecera a Shaina poucos minutos antes. Em seguida, ele cerrou a porta novamente.
A guerreira percebeu que Camus corou ao ver seu rosto, e que evitava olhá-la enquanto se encaminhava para a poltrona livre.
Assim como ela, o cavaleiro trajava sua armadura. A única peça que ele ainda não havia colocado era a tiara, que ele segurava em suas mãos.
Ajeitando sua capa cuidadosamente, Camus se sentou. Pôs a tiara sobre o colo e, ainda sem fitar Shaina, cumprimentou-a com voz sumida:
- Boa tarde.
- Boa tarde, bom dia... que mania irritante que você tem - Shaina reclamou, mantendo-se sentada em sua posição displiscente. - Não sei por que perde seu tempo me dizendo essas coisas. Não está vendo que esta não será uma boa tarde para nós?
Franzindo o cenho, Camus defendeu-se:
- É uma questão de educação.
- É uma questão de não ter nada de útil para se dizer - Shaina interpôs. - Se bem que numa situação como essa, é difícil mesmo falar alguma coisa que preste - ela admitiu, fazendo um gesto preguiçoso.
O cavaleiro meneou a cabeça e não respondeu.
Os dois ficaram mudos por alguns minutos. Camus mantinha sua cabeça levemente virada na direção oposta à de Shaina, tentando evitar a visão da face dela. Este fato não passou despercebido à amazona. E ela se aproveitou dele para romper a quietude do ambiente:
- Vai ficar com torcicolo se continuar paralisado nessa posição.
Camus preferiu não responder à provocação e permaneceu como estava. Porém, Shaina persistiu:
- Deixe de ser bobo. Pode olhar para o meu rosto. Você já o tinha visto antes mesmo.
Desta vez o cavaleiro sentiu a necessidade de ressaltar o que havia ocorrido realmente:
- Aquilo foi um acidente, como você sabe. Eu não me sentia bem, e nem mesmo me recordo de suas feições.
- Pode recordá-las agora.
- Isto não precisa acontecer.
- Camus, quer deixar de ser tapado? - Shaina impacientou-se. A languidez a impedia de soar tão ácida quanto gostaria, mas ainda assim ela conseguiu se expressar com certa agressividade: - Desgraçadamente eu terei que morar na Casa de Aquário a partir de hoje. Por mais que eu queira manter distância de você e de sua infinita chatice, é lógico que haverá momentos em que nós dois teremos que olhar um para o outro, gostemos ou não disso. Então não adianta ficar com esses pudores bestas. Agora eu não tenho mais que usar máscara. Se você vir meu rosto, não estará fazendo nada de errado. Deu para entender, ou está difícil?
Ao mesmo tempo em que ela terminou seu breve discurso, a porta da sala foi reaberta e Shion entrou.
Camus empertigou-se mais um pouco em sua poltrona. Shaina saiu de sua posição preguiçosa e aprumou-se. Ambos fitaram o Mestre do Santuário em expectativa.
Shion ergueu uma das mãos, indicando que eles deveriam se acalmar, e apressou-se em dizer:
- Boa tarde. Ainda não está na hora.
Os dois relaxaram um pouco.
- Só vim saber se vocês estão bem, e se há algo de que precisem - Shion explicou amável.
- Precisamos que este casamento seja cancelado - Shaina não se conteve.
Shion preferiu não dar atenção ao que ela disse e indagou num tom sério porém sereno :
- Posso saber o que a senhorita está fazendo sem sua máscara?
- Vou me casar; não preciso mais usá-la - ela respondeu com descaso.
- Não era exatamente isso o que havíamos combinado - Shion lembrou. - Você só deveria retirar sua máscara quando a cerimônia começasse. Mas deixemos isso de lado - ele cedeu. Não valia a pena repreendê-la por aquele motivo.
Ao ser avisado de que os noivos já se encontravam na sala de espera, Shion quisera vê-los. O soldado que os havia recepcionado mencionara que Shaina estava sem máscara. O Mestre percebera-lhe uma nítida nota venenosa na voz e por isso o repreendera, dizendo-lhe que não deveria ser severo em seus julgamentos.
Sentira-se muito constrangido por saber que a face da amazona estava à mostra antes da hora certa, e por isso decidira que evitaria olhá-la diretamente enquanto lhe falasse. Era o que ele fazia agora. Shaina contudo não percebia que o Mestre mantinha um recato semelhante ao que ela criticara em Camus porque, ao contrário dela, o ex-cavaleiro tinha o rosto oculto.
Shion fez diversas perguntas aos dois guerreiros, procurando certificar-se de que nada lhes faltava. Uma das perguntas que ele fez foi:
- Vocês almoçaram antes de vir para cá?
Camus disse que sim, ao contrário da futura esposa.
- Filha, você deveria ter se alimentado - Shion disse um tanto preocupado. Ele foi até o frigobar e abriu-o. Com modos paternais, continuou: - Veja, eu mandei abastecê-lo com muitas coisas gostosas. Você vai comer pelo menos um pouquinho, não vai?
Shaina balançou a cabeça lentamente, indecisa:
- Não sei... se eu sentir fome...
- Vai sentir sim - o Mestre disse otimista. - Pode comer e beber tudo o que quiser. E você também, Camus.
O cavaleiro de Aquário murmurou um agradecimento discreto. Ao contrário de Shaina, porém, ele teve a impressão de ver no frigobar algo que o interessava.
- Tenho que ir agora. Quero supervisionar pessoalmente os preparativos finais. Acho que tudo ficará pronto a tempo. Sendo assim, deverei vir buscá-los às 15h - informou Shion. Despediu-se e retirou-se logo após.
Com a partida do Mestre, os dois noivos voltaram a silenciar.
Passados dois minutos, Camus ergueu-se e aproximou-se mansamente do frigobar. Abriu-o e agachou-se, verificando seu conteúdo. Quando ele retornou à sua poltrona, trazia consigo uma pequena embalagem retangular.
Ele educadamente ofereceu a Shaina uma parte de sua barra de chocolate, mas ela recusou. Camus consumiu o doce e se levantou novamente. Jogou a embalagem na lixeira próxima ao frigobar e abriu-o novamente, retirando dele outra barra de chocolate. Esta era um pouco maior do que a primeira.
Novamente ele ofereceu parte da barra à noiva, e novamente ela recusou a oferta. Todavia, desta vez ela não deixou de provocá-lo enquanto ele comia:
- Você acha que comendo isso aí você vai resolver seus problemas?
- Eu nunca disse isso - Camus respondeu, tentando ostentar alguma altivez. Entretanto, seus olhos baixos denotavam seu embaraço.
Shaina deu uma risadinha cínica, mas não respondeu.
Meia hora mais tarde, ela conseguiu se obrigar a beber dois copos de suco de manga. Ainda não tinha fome. Depois foi ao banheiro e lavou o rosto com água gelada, tentando combater a sonolência que o tédio lhe causava.
Este pequeno truque não funcionou, e Shaina acabou cochilando em sua poltrona.
Despertou uma vez. Notou que Camus lia uma revista sobre História. Cochilou novamente. Voltou a despertar. Agora Camus apenas olhava para o vazio. Cochilou uma vez mais. Ouviu Camus dar alguns passos, provavelmente em direção à janela ou ao banheiro. Manteve as pálpebras cerradas desta vez e continuou entregue ao sono leve.
Quando ela finalmente voltou a abrir os olhos, a primeira coisa que ela buscou foi o relógio de parede. Eram 15h02.
O enfado que ela vinha sentindo até então dissolveu-se e seus sentidos ficaram todos em alerta. Ela viu que Camus, agora já usando a tiara de sua armadura, também mantinha os olhos fixos nos ponteiros.
Intantes depois, a porta da sala se abriu mais uma vez.
Os corações dos dois jovens dispararam quando Shion entrou e disse-lhes:
- Vim buscá-los. Por favor, venham comigo.
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Shion e os noivos entraram juntos no salão onde se daria a cerimônia de casamento. O Mestre do Santuário estava entre os dois jovens, de mãos dadas com ambos.
No recinto agora havia muito mais pessoas do que no momento em que Shaina o havia observado pela primeira vez. Ela olhava ao seu redor, identificando um sem fim de rostos conhecidos.
Camus, por sua vez, lançava um ou outro olhar furtivo para os lados, mas preferia fitar o tapete que cobria o piso.
Havia várias fileiras de assentos à esquerda e a direita do trio. Este percorria uma espécie de passarela que terminava diante de uma mesa de madeira clara. Pontos estratégicos do salão eram decorados por arranjos compostos por flores predominantemente brancas. Na parede da direita, estava aberta uma porta que dava para o salão contíguo, onde ocorreria a recepção. Podia-se ver que ele fora preenchido com diversas mesas e cadeiras. Vários convidados olhavam naquela direção, desejosos de desfrutar os comes e bebes que lhes seriam oferecidos após o fim da cerimônia. Contudo, a maioria dos presentes se ocupava em observar Camus e Shaina.
A amazona viu que Asterion e Marin ocupavam os dois primeiros assentos de uma das fileiras à esquerda. Ao passar por eles, lançou-lhes um olhar fulminante. Marin engoliu em seco e Asterion encolheu-se um pouco.
Ela descobrira na antevéspera que aquele casal fora o responsável pela instituição dos matrimônios religiosos no Santuário. Eles haviam se desculpado por terem lhe causado uma contrariedade adicional, e asseguraram que essa não fora sua intenção. Shaina acreditara neles, mas argumentara que eles só deveriam ter se manifestado depois que o casamento dela já tivesse ocorrido.
"Isto aqui era para ser um casamento civil, daqueles bem simples, discretos e sem ninguém por perto. Por sua culpa, eu tenho que me sujeitar a essa cerimônia ridícula e cheia de gente. Espero que esteja contente por ter me transformado em sua cobaia", ela pensou, encarando Asterion. O amigo fitou-a consternado e encolheu-se ainda mais, denunciando-se de forma inequívoca: ele havia lido seus pensamentos. "Resolveu abrir uma exceção e ler meus pensamentos agora? Ótimo. Espero que se sinta bastante culpado pelo que está me acontecendo hoje!", Shaina acrescentou mentalmente.
Tendo alcançado a mesa de madeira, Shion soltou as mãos dos nubentes. Estes ficaram de costas para os convidados, lado a lado, embora um tanto afastados um do outro. O mais velho contornou a mesa, posicionando-se de frente para o casal e para a audiência.
Shion sentiu-se um pouco nervoso e indeciso por se tratar da primeira vez em que ele realizaria aquele tipo de ritual. Respirou fundo e procurou lembrar-se do que havia ensaiado nos dias anteriores. Sobre a mesa, jazia um caderno fechado por um laço de fita. Este lhe havia sido entregue em mãos por Kanon, poucos minutos antes das 15h.
O Mestre recebera a encomenda com grande alegria e alívio. O cavaleiro cumprira o prometido, mesmo que quase atrasado. Shion ainda não havia lido as frases selecionadas por Kanon, mas sentia-se tranquilo por saber que teria o que dizer durante a celebração. Agora só restava iniciá-la.
Sem conseguir pensar em alternativas melhores, o Mestre optara por memorizar um punhado de dizeres convencionais que vira em livros e filmes. Era com eles que iniciaria agora os trabalhos:
- Boa tarde a todos. - Ele hesitou, respirou fundo de novo e conseguiu prosseguir: - Estamos aqui reunidos para celebrar o casamento de Emmanuel Camus e Roberta Piccinini. Antes de continuar, eu gostaria de saber se há alguém aqui que se oponha a esta união.
- Eu.
A resposta de Shaina provocou um suave burburinho entre os convidados.
Shion, resignado, reformulou sua frase:
- Gostaria de saber se há alguém aqui que se oponha a esta união, além dos próprios noivos.
Estas palavras provocaram uma nítida agitação na audiência; exclamações de espanto podiam ser ouvidas por toda a parte. Os noivos também encararam Shion estupefatos.
Era óbvio que todos os presentes sabiam que Shaina e Camus se casariam contra a vontade. Contudo, prevalecia ali uma espécie de acordo tácito para que aquele fato desagradável não fosse comentado durante a cerimônia. O que ninguém imaginara era que justamente Shion ousaria romper tal acordo.
"Nestas horas eu percebo como é bom usar máscara", Shion pensou, contente por ter um escudo facial a impedir que seu acanhamento fosse notado. Aguardou um pouco e concluiu:
- Se ninguém se opõe, podemos ir em frente.
Esta frase sepultou definitivamente as esperanças de Shaina. Até aquele momento ela ainda acreditava na remota possibilidade de cancelamento do matrimônio. Agora já não via mais como isto poderia ocorrer; o evento seguiria seu curso normal, para sua infelicidade.
Shion desfez o laço que selava o caderno entregue por Kanon. Anunciou:
- Quero compartilhar com todos vocês algumas frases e versos que nos farão refletir sobre a beleza do amor, o valor do companheirismo e a importância do casamento. Espero que gostem e meditem sobre as belas lições que vocês ouvirão.
Sorrindo, ele leu apenas o início da primeira frase do caderno. Detectou ali o verbo "amar" e empolgou-se:
- Nossa primeira frase para reflexão é sobre o amor! O mais sublime dos sentimentos!
Camus se perguntou o que aquela situação tinha a ver com amor. Shaina teve vontade de xingar o Mestre.
Shion enfim leu a frase completa em alto e bom som:
- Quando eu te amava, para te ver, pulava a cerca de espinhos; hoje, pago dinheiro para não ver o seu focinho.
Inúmeros pares de olhos arregalados miraram o Patriarca.
- Errr... deve ter havido algum engano... - Shion tartamudeou. - Esta frase deve ter sido incluída aqui acidentalmente, não é mesmo? - ele cogitou com uma risadinha embaraçada. Buscou Kanon com o olhar.
O ex-marina estava numa das fileiras mais próximas da mesa, acompanhado por Tétis. A sereia encarou-o acusadoramente.
- Calma, amor. Não me olhe desse jeito - ele disse, sem disfarçar um sorriso zombeteiro.
- Kanon, espero que não tenha criado nenhum problema para você mesmo - Tétis advertiu-o.
- Fique tranquila, não vai acontecer nada - Kanon respondeu confiante.
Shion decidiu folhear o caderno, selecionando uma página aleatória. Encontrou uma quadra poética que começava com uma menção a resfriados, e deduziu que os versos seguintes falassem sobre a importância de um casal se manter unido durante as enfermidades.
- Ouçam, temos aqui um poema muito gracioso que diz o seguinte: "Só porque estás resfriado / Me recusas um beijinho? / Ora, não seja malvado / Me transmite um microbinho!"
Após um instante de silêncio, o salão explodiu em gargalhadas. Camus e Shion estavam entre os poucos que permaneciam sérios.
- Kanon, por que fez isso?
- Tétis, querida, não adianta disfarçar: você também riu!
- Eu sei - a guerreira admitiu -, mas mesmo assim...
- Já disse para você ficar tranquila, amor - Kanon insistiu bem-humorado.
O Mestre folheou o caderno novamente, tencionando encontrar algo melhor o mais depressa possível. E foi justamente a pressa a sua armadilha, pois ele elevou a voz para abafar as risadas coletivas e disse sem pensar:
- Ouçam este aqui: "Se queres um conselho / Muito útil e bem pensando / Nunca metas o bedelho / Onde não fores chamado".
Tudo o que ele conseguiu foi sentir-se ainda mais envergonhado, enquanto as gargalhadas recrudesciam. Ainda pensou em argumentar que os versos, a despeito do tom patético, continham um ensinamento sábio. Mas previu que seria inútil dizê-lo.
Shaina chegava a curvar-se de tanto rir. Camus sentia-se profundamente constrangido por Shion.
- Kanon, eu acho... que... - Tétis ia repreendê-lo, mas sucumbiu às risadas.
O cavaleiro passou um braço em torno dos ombros dela e acompanhou-a no riso.
Shion fechou o caderno e aguardou que as pessoas recuperassem a serenidade. Quando isto por fim aconteceu, ele tentou salvar as aparências:
- Pensando bem, quem precisa de frases feitas, não é? O que importa é desejarmos espontaneamente aos nossos queridos companheiros que eles tenham uma vida muito feliz, harmoniosa e pacífica!
Esta frase improvisada também arrancou risadas da audiência. O motivo desta vez foi a ironia da situação: esperar que duas pessoas que se casavam obrigadas fossem felizes era um disparate; supor que alguém pudesse conviver harmoniosa e pacificamente com Shaina era um delírio.
Ao Mestre não restou outra alternativa senão esperar o arrefecimento da onda de risos sarcásticos.
Vendo que os convidados haviam recobrado a compostura, Shion apelou para o único recurso que poderia preservar sua dignidade:
- Vamos agora falar sobre as implicações legais de um casamento dentro de nosso Santuário.
A partir deste momento, Shion pôde expressar-se com muito mais segurança e não voltou a cometer erros. Ele conhecia a maioria das leis do Santuário de cabeça. Passou os minutos seguintes discorrendo sobre todos os deveres e direitos de Camus e Shaina, ocasionalmente pedindo que eles manifestassem sua aprovação ao que era dito. O cavaleiro de Aquário obedecia a cada pedido prontamente, respondendo a tudo com sua voz resignada e séria. Shaina, por seu turno, não fazia esforço algum para dissimular sua má vontade, ainda que se visse obrigada a aceitar o que o Mestre dizia.
O último aspecto formal que Shion abordou foi a mudança de sobrenome:
- Foi acordado que o cônjuge que mudará seu nome será Emmanuel Camus. Camus, você aceita renunciar ao seu sobrenome e adotar o sobrenome de Roberta Piccinini?
- Sim.
- Você confirma perante todos nós que aceita esta alteração por sua livre e espontânea vontade?
- Sim - Camus repetiu.
Shion não notou qualquer nota de pesar na voz do cavaleiro. Prosseguiu:
- Você compreende que terá de alterar seus documentos, e que seu novo nome constará de todos eles, e que será com este nome que você deverá assinar todo e qualquer documento de hoje em diante?
- Sim.
- Por favor, diga diante de todos nós a qual nome você renuncia neste exato instante.
- Emmanuel Camus.
- Agora, por favor, diga diante de todos nós como você se chama.
- Emmanuel Piccinini.
- Shaina, você aceita ceder seu sobrenome ao seu esposo e permite que ele passe a se chamar Emmanuel Piccinini?
- Sim! - este foi o único momento em que a amazona se mostrou animada, uma vez que era Camus e não ela quem tinha de mudar de nome.
- Obrigado. Assinem aqui, por favor - Shion pediu, empurrando na direção dos noivos um livro de registros aberto sobre a mesa.
Assim que eles terminaram, Shion disse solene:
- A partir deste instante, eu declaro e confirmo que Emmanuel e Roberta Piccinini estão legalmente casados.
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Os convidados aprovaram a recepção. Salgadinhos, docinhos e refrigerantes eram distribuídos abundantemente. Uma banda tocava música pop, rock, baladas e canções folclóricas de vários países, representando as diferentes origens dos servos de Athena. Grupos se formavam, reunindo homens e mulheres que conversava animadamente. Vários pares dançavam.
Bem poucos foram os indivíduos descontentes com a festa.
Kanon estava a bailar com Tétis, quando ambos perceberam que Shion, acompanhado de quatro soldados, aproximava-se deles. Os dois se interromperam e trocaram olhares confusos.
Parando diante do casal, Shion informou:
- Kanon de Gêmeos, é com grande pesar que eu o condeno a cinco dias de prisão por desacato a superior hierárquico.
O cavaleiro encarou o Mestre boquiaberto. Esperava no máximo uma repreensão verbal. Não previra que seu castigo seria tão severo.
- Durante este período você não poderá receber visitas - Shion acrescentou. - Não me agrada fazer isso, mas você certamente sabe que fez por merecer.
Conformado, Kanon assentiu em silêncio.
Voltando-se para Tétis, ele pôde adivinhar o significado do olhar dela: "Você não deveria ter feito aquilo". Apesar disso e do semblante austero que ela exibia, ele a segurou delicadamente pelo queixo e beijou-lhe os lábios. Depois, acompanhou os soldados que iriam conduzi-lo à sua cela.
Tétis seguiu-o com os olhos. Shion disse-lhe afável:
- Peço desculpas por esta situação.
Tétis fitou-o e respondeu:
- Não se preocupe. Como o senhor mesmo disse, ele fez por merecer. Eu não sabia que aquele era o tipo de frase que ele estava compilando para o senhor. Se eu tivesse sabido disso antes, eu o teria convencido a desistir.
- Obrigado. Vejo que Kanon está em boas mãos.
A guerreira de Poseidon esboçou um sorriso. Shion fez-lhe uma oferta:
- Você pode continuar hospedada na Casa de Gêmeos enquanto Kanon não é liberado. De minha parte, não há problema algum em tê-la aqui em nosso Santuário. Fique conosco todo o tempo que quiser.
- Muito obrigada, mas infelizmente minha autorização para permanecer na superfície expira dentro de dois dias. E mesmo que não expirasse tão depressa, eu iria embora hoje mesmo. Kanon não merece que eu esteja aqui à espera dele, depois do que fez. Quero que ele tenha mais um motivo para se arrepender e refletir - ela explicou. Intimamente, ela mesma se sentia arrependida por ter chegado a rir das frases que o Mestre lera.
Shion aprovou as palavras de Tétis e despediu-se cortesmente dela. "É uma pena que eu tenha precisado estragar a visita dessa moça ao Santuário. E também é uma pena que Saga vá receber uma notícia tão desagradável daqui a três dias", ele pensou. O primeiro cavaleiro de Gêmeos estava prestes a retornar da longa viagem que fizera para cumprir uma missão diplomática. E caberia ao Mestre recepcioná-lo e informá-lo sobre a prisão de Kanon.
Num ponto mais remoto do salão, os recém-casados estavam de pé, próximos um ao outro, recebendo os cumprimentos dos presentes. Ambos os jovens se mantinham muito sérios enquanto ouviam as mais variadas frases, de despropositados votos de felicidade até tentativas de conforto e encorajamento. Quase todos os que se dirigiam a eles depois comentavam com outros convidados que os semblantes de Camus e Shaina estavam "incrivelmente carregados". Não foram poucos os que afirmaram enxergar nos rostos dos cônjuges nuvens cinzentas que prenunciavam tempestades.
Após haver cumprido o que ela considerava uma das piores partes do protocolo daquele dia, Shaina enfim começou a sentir fome. Aproximou-se de uma das mesas de salgadinhos e comeu vários deles. Enquanto bebia um copo de refrigerante, foi abordada por Tremy, que convidou-a a dançar. Tentando reanimar-se, ela aceitou o convite.
Camus acercou-se de uma mesa desocupada, sentou-se na cadeira encostada à parede e prometeu-se que só se levantaria dali em último caso. Não gostava de festas, e não tinha nada a comemorar. Apenas queria ficar sozinho e desejou ardentemente ser ignorado e esquecido por todos.
Ambos atingiram seus objetivos. A música, a dança com parceiros variados e as conversas descompromissadas melhoraram o estado de espírito de Shaina, que tentou fingir que aquela era uma festa como qualquer outra. Camus, conhecido como uma pessoa pouco receptiva, foi efetivamente ignorado pelos demais; apenas raramente precisou trocar palavras breves com aqueles que passavam próximo à sua mesa.
Marin e Asterion dançavam quase sem parar. Aproveitando-se de uma pausa que os dois fizeram para comer, Shion disse-lhes que queria conversar com eles. O cavaleiro concordou imediatamente. A amazona estava voltada para a parede, pois havia retirado sua máscara a fim de se alimentar, mas pediu a Shion que não se incomodasse com isso e falasse o que desejava.
- Eu só quero me desculpar pelo que vocês viram hoje. Este deveria ter sido um teste para o casamento de vocês, mas infelizmente as coisas não correram conforme eu havia imaginado - Shion lamentou. - Vocês devem estar preocupados agora, e com razão. Mas eu lhes dou minha palavra de honra de que a cerimônia de vocês será muito mais organizada e caprichada.
- Mas não estamos preocupados, não é, meu benzinho? - Asterion dirigiu-se à sua noiva.
- É claro que não, chuchuzinho - Marin concordou, logo após terminar de mastigar um doce. - Mestre, o que nós queremos de verdade é que nosso casamento seja celebrado pelo senhor ou por Athena. E isso nós já sabemos que acontecerá. O resto nos é indiferente.
- Eu havia dito ao senhor que não precisamos de nada muito complicado - o guerreiro de Cães de Caça reforçou.
- Mesmo assim, faço questão de pelo menos elaborar um discurso decente em homenagem a vocês dois - Shion redarguiu. - Eu mesmo o farei e todas as frases serão criadas por mim.
O casal o agradeceu com alegria.
Shaina agora dançava e conversava com Milo. Ele disse galante:
- Sabe que é muito bom poder ver esse seu rosto lindo assim, sem ter que me preocupar com proibições?
- Você já é o décimo quinto... não, o décimo sexto a me dizer isso hoje - Shaina respondeu, sorrindo provocadora.
Milo sorriu também e falou:
- Então é por isso que tem tanta gente aqui te tirando para dançar!
- Sim. Estão todos me elogiando, e também choramingando por causa dessa nova realidade: meu rosto está acessível para todos, mas o meu corpo... - Shaina não quis completar a frase, pois a nova realidade a que seus parceiros de dança vinham aludindo a irritava profundamente.
- Não fique chateada - Milo tentou animá-la. - Qualquer dia desses você consegue permissão para se separar do Camus, e aí tudo volta ao normal.
- Nem tudo - Shaina corrigiu-o. - Mesmo depois que essa porcaria de casamento for anulada, eu poderei continuar sem máscara.
- Viu que legal? Então tudo vai ser ainda melhor do que antes! - Milo concluiu entusiasmado.
A empolgação quase pueril dele contagiou Shaina, que conseguiu se sentir um pouco mais otimista.
- Eu ainda não vi você dançar com seu marido - o cavaleiro de Escorpião mudou parcialmente o assunto.
- Não faço questão. Deixe-o lá, isolado, com aquela cara de palerma que os deuses lhe deram. Aliás, ele tem cara de quem nem sabe dançar.
- Eu duvido que ele saiba mesmo - disse Milo, pensativo. Arriscou-se a perguntar: - Você não fica com pena dele vendo-o sentado ali, sozinho?
- Azar o dele - Shaina respondeu seca.
- É, tem razão - Milo assentiu. No fundo, intuía que Camus estivesse solitário por escolha própria. Por este motivo, abstivera-se de abordá-lo. "Se ele quer ficar sossegado no canto dele, não vai adiantar nada tentar puxar conversa."
Em respeito ao pesar do amigo e da ex-amante, Milo também se abstivera de entrar na fila de cumprimentos aos noivos. E hesitara em convidar Shaina para dançar. Agora estava em seus braços porque ela mesma o convidara.
Lançou um olhar furtivo na direção de Camus e depois voltou a admirar a face da amazona. "Que desperdício. Dá uma vontade de estar no lugar do Camus..." Enquanto rodopiava ao ritmo da música, Milo fitava as pessoas ao seu redor e notava vários pares de olhos a cobiçar Shaina. Ele concluiu: "Parece que tem um monte de gente aqui pensando o mesmo que eu."
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A festa se estendeu por várias horas. Foi somente por volta das 21h que alguns convidados, já tendo se servido do jantar e da sobremesa, começaram a se despedir de Camus e Shaina.
Ao longo das duas horas seguintes, o salão se esvaziou gradualmente. Às 23h40, os recém-casados finalmente viram partir os últimos convidados. Somente Shion e alguns soldados responsáveis pela guarda do local permaneciam ali.
Reunindo-se ao Mestre, os dois jovens receberam conselhos:
- Agora vocês já podem ir para a Casa de Aquário. Descansem bastante, e por favor, tentem ter paciência um com o outro. Como o dia de hoje foi longo e desgatante, é melhor que vocês não treinem amanhã.
Shion surpreendeu-se com as imediatas reações dos guerreiros: Camus arregalou os olhos e pôs-se a balançar a cabeça negativamente; Shaina proferiu um sonoro "nem pensar".
- Vocês não gostariam de passar o dia de amanhã repousando? - o mais velho indagou confuso.
- Se fizermos isso, aposto que vai ter gente interpretando a nossa folga como uma espécie de lua de mel, e isso eu não quero de jeito nenhum! - Shaina disse.
Camus assentiu e acrescentou:
- Algumas pessoas são muito maldosas. Não podemos dar margem a certo tipo de comentários.
Shion olhou de um para o outro e inquiriu curioso:
- Vocês dois combinaram essa decisão? - Ante as respostas negativas deles, acrescentou: - Pois saibam que por um momento eu tive essa impressão. Vocês veem? Mesmo sendo tão diferentes um do outro, algumas coisas vocês têm em comum.
O casal se entreolhou com desconfiança.
- Eu ficaria feliz se vocês pensassem em explorar essas pequenas afinidades que vocês têm e se tornassem amigos - Shion afirmou, numa voz suave e isenta de malícia.
Entretanto, tudo o que ele conseguiu foi fazer com que as feições de seus interlocutores se endurecessem.
- Deixe isso para lá, Mestre - Shaina pediu agastada. Ela mirou Camus por um segundo e ordenou secamente: - Vamos embora.
Em seguida, ela desejou uma boa noite a Shion e deu as costas aos dois homens, começando a se afastar.
- Obrigado por tudo, Mestre. Tenha uma boa noite - Camus despediu-se respeitosamente. E seguiu a esposa.
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Os dois servos de Athena não trocaram uma única palavra ou olhar enquanto se encaminhavam para a Casa de Aquário.
Chegando lá, subiram ao segundo piso. Caminharam pelo vestíbulo até atingirem o seu centro. Ali eles finalmente se encararam.
Shaina advertiu:
- Vou para o meu quarto. Nem pense em me seguir!
- Não se preocupe; eu jamais o faria - Camus respondeu grave.
- Acho bom mesmo. Se algum dia você tentar entrar no meu quarto, eu o mato - afirmou Shaina, cáustica.
- Se algum dia eu tiver a infeliz ideia de entrar em seu quarto, por favor, mate-me - Camus devolveu com firmeza.
- Seu desejo será atendido! - a amazona rebateu, erguendo o queixo.
Sabendo que nada mais havia a se dizer, eles se voltaram para lados opostos. Cada um dirigiu-se a uma diferente ala.
Adentrando seus aposentos pela primeira vez desde a visita guiada, Shaina teve um breve instante de estranhamento. Quando estivera lá, poucos dias antes, aquele era apenas um quarto vazio. Somente agora ela recordava a promessa de Shion de mobiliar o recinto e torná-lo confortável. "Muito bem, Mestre. O senhor fez um bom trabalho aqui", ela agradeceu mentalmente.
Habituada à sua casa simples e aos seus móveis velhos e escuros, Shaina sentiu-se um tanto deslocada naquele que passaria a ser seu novo lar. As paredes, as cortinas, os tapetes, a roupa de cama e a mobília apresentavam tons claros; tudo era novo, bonito e de boa qualidade. Ela girou em torno de si mesma várias vezes, apreendendo os detalhes do ambiente.
Havia uma caixa de papelão sobre a colcha que cobria seu leito. A guerreira deduziu que Geist estivera ali antes de sua chegada, e que aquela caixa continha os últimos objetos e roupas deixados em sua agora ex-casa.
Ela caminhou a esmo pelo quarto durante alguns minutos, tentando se acostumar ao que via ao seu redor. "Vai ser muito esquisito dormir aqui. Está tudo tão claro e certinho... não gosto disso."
Entrou na suíte, verificando que esta também havia sido preparada com todo o cuidado. Ali porém ela ficou apenas por alguns segundos. Quis voltar para o quarto.
Caminhou até sua cama e sentou-se. Puxou a caixa de papelão para junto de si e abriu-a. O primeiro item que viu em seu interior foi um bloco de papel. A página inicial continha alguns dizeres escritos numa letra que Shaina reconheceu sem qualquer dificuldade: tratava-se da grafia de Geist.
Pegando o bloco e retirando-o da caixa, Shaina leu o recado da amiga:
"Para levantar o seu ânimo, resolvi providenciar mais uma despedida para você. Ou melhor, mais umas despedidas. É só virar as páginas. Acho que você vai gostar. E se não gostar, é porque você é a besta mais ridícula de todo o Santuário!"
Shaina deu uma risadinha e virou a primeira página, curiosa.
Seus olhos pousaram sobre outra mensagem escrita à mão. Ela reconheceu ali a letra de um de seus ex-amantes. Sem lê-la por completo, Shaina também virou essa página e encontrou mais uma mensagem manuscrita. Folheou o bloco rapidamente e viu que ele estava inteiramente preenchido com recados para ela.
O teor das mensagens variava. Alguns dos ex-parceiros pediam-lhe que não ficasse triste e elogiavam-na por sua força; outros recordavam os momentos íntimos que haviam passado com ela; houve mesmo quem tivesse anotado piadas e artigos satíricos.
Saboreando cada uma das palavras que lhe haviam sido dedicadas, Shaina experimentou um agridoce misto de melancolia, alegria e gratidão.
Capítulo concluído em 12 de junho de 2009.
NOTAS: Finalmente aconteceu o que vocês tanto queriam! E o que Shaina e Camus tanto temiam...
Muitíssimo obrigada a todos os que me cobraram e me incentivaram para que eu atingisse este ponto da história. Não citarei nomes, pois vocês sabem quem vocês são.
O capítulo ficou bem longo porque eu não quis omitir nenhum detalhe. Sendo esta uma parte tão esperada do enredo, eu procurei oferecer aos meus estimados leitores tudo a que eles tinham direito. Pensei até em dividir tudo isto em dois capítulos diferentes, mas logo desisti, optando pelo pacote completo.
Esta também foi a minha estreia como escritora de yuri. Gostei muito de criar aquelas cenas no início do capítulo. Agora penso em escrever uma fic Shaina/Geist curta, contendo cenas mais íntimas e detalhadas entre as duas amazonas. Não garanto que porei a ideia em prática; mas seu eu o fizer, a história será complementar a "Aborrecimentos e Saudades" e poderá ser lida de forma independente.
A partir de agora, esta fanfic entra numa nova fase. Como será que nossos protagonistas enfrentarão a vida de casados? Será que eles vão se relacionar civilizadamente? Será que vão se odiar? Será que já estarão juntos na cama após um ou dois meses de convivência? É isto o que vocês descobrirão nos próximos capítulos. Porém, vocês precisarão ter um pouco de paciência comigo.
Eu explico: venho produzindo novos capítulos de "Aborrecimentos e Saudades" regularmente, mas esta não é minha única fic em andamento. Para privilegiar esta história, preteri meus outros projetos. As fics mais afetadas foram "Último Dia de Aioros" e "Inimigo Inesperado de Athena", que aliás são duas tramas interligadas. Agora chegou a hora de cuidar delas. Depois que eu as tiver atualizado, poderei retomar esta fic. Enquanto isto não ocorre, considerem-se convidados (para não dizer intimados) a ler minhas outras obras. :-) Se puderem comentá-las, melhor ainda. Se não puderem, não ficarei chateada... contanto que vocês as leiam de fato. ;-)
Vejo vocês em breve!
