Vejam vocês, um capítulo com foco no mistério!

Divirtam-se, mas antes...

Pessoas comentarísticas lindas da mamãe, muito, muito, muito obrigada a vocês todas. Agradeci a maioria em particular, mas queria fazer aqui também. É piegas dizer isso, mas não escreveria se não fosse por vocês.

A quem está lendo sem comentar, obrigada também.

Lara Depr, vc tá anônima e não consigo conversar por mensagem privada contigo, então, sua linda, obrigada. É muito legal quando as pessoas comentam capítulo a capítulo.

Agora sim, divirtam-se.


- E quando vamos estudar o caso, as evidências, as pistas, as provas..?

- Tudo a seu tempo. E devo te lembrar que tudo que temos são suspeitas, fatos que, isolados, não significam nada, mas que, juntos, podem sugerir um golpe de estado.

- Golpe? Para tomar o poder? Mas isso seria como...

- Como fizeram aqueles que foram derrotados, sim. Esse menos sangrento, mais velado.

- Mas estão se tornando o que combateram.

- E estão combatendo os sintomas com poções que agravam a causa.

Ela se calou, recebendo com gratidão o vento gelado do Lago Negro no rosto. A paisagem e o clima acalmavam seu espírito e estimulavam sua mente, a distraíam do contexto terrível no qual em breve estaria inserida, permitindo uma análise da montanha a partir da planície.

- E o que foi uma luta pela igualdade, se tornou vingança.

- Todo poder corrompe, Hermione.


Depois de recolhidos e lavados os pratos e talheres, Hermione arrastou o sofá e retirou quadros das paredes. Transfigurou toda a parede em um quadro branco, enquanto Snape colocava sobre a pequena mesa de jantar uma caixa de recortes de jornais bruxos com matérias, fotos, obituários, diversas páginas da coluna social relatando principalmente casamentos e as formalidades pós-guerra. A caixa viera encolhida dentro da mala de Snape e fora deixada de lado naquela tarde. Agora precisavam voltar ao trabalho.

Ela já havia lido algumas daquelas matérias, mas, quando vistas da forma como ele as colocara – um acervo de informações recolhidas ao longo de três anos – ela sentiu um calafrio na espinha: Não havia a menor chance de que ele estivesse errado. Nascidos trouxas estavam se casando com puros-sangue. Dentre aqueles que ela conhecia, poucos pareciam ter qualquer afinidade real entre si. Ela grifou com canetas de cores diferentes os nomes dos bruxos simpatizantes a cada uma das causas e perguntou sobre pessoas desconhecidas a Snape. Alguns casamentos, especialmente aqueles que envolviam altos cargos no ministério, aconteceram entre bruxos de mesmo alinhamento. Esses nomes foram circulados e cuidadosamente anotados no quadro branco como possíveis suspeitos e fotos destas pessoas foram afixadas magicamente na parede.

Hermione desenhou uma coluna à parte para aqueles noivos e noivas cujas futuras esposas e maridos haviam morrido antes do casamento. Snape fez uma legenda rápida relacionando as cores usadas por ela e seu significado, em seguida a ajudou a categorizar os recortes.

No fundo da caixa estavam as notícias diretamente relacionadas à lei matrimonial. Snape coletara recortes de diversos jornais, ingleses e estrangeiros, que haviam abordado o assunto. Hermione lera apenas a matéria publicada pelo Profeta Diário, pois estava escrevendo seu projeto de mestrado, cursando o último ano em Hogwarts e se preparando para os NIEM's, entre todas as festividades para as quais era chamada. Faltava tempo. Além disso, achara que já tinha escolhido o homem com quem ficaria até o fim de seus dias, faltara, portanto, também interesse. Estava lendo uma reportagem francesa que saíra no Magie Imprimé quando ele terminou a organização e, com um sorriso mal disfarçado, entregou o recorte a ele.

- Achei que o mestrado em Beauxbatons exigisse francês fluente.

- E exige. - ela respondeu simplesmente, recebendo dele um arquear de sobrancelha.

Ele limpou a garganta e começou a ler a matéria em voz alta, exigindo de Hermione mais que toda a sua força de vontade para não beijá-lo novamente. Os "r"s arrastados pela voz dele pareciam a língua dos anjos.

A versão mais comum contava sobre uma profecia encontrada nos escombros do escritório do próprio Alvo Dumbledore após a batalha de Hogwarts. Surpreendentemente nenhum jornal reproduzira integralmente a profecia, mas todos diziam se tratar da única esperança de vida para o mundo mágico: a multiplicação. Chamou a atenção de Hermione um par de matérias mais extensas que informavam que a profecia era a confirmação de que apenas a tolerância poderia gerar os frutos certos para repovoar o mundo mágico, livrando-o da semente plantada por Voldemort. Notícias posteriores relatavam que estudiosos já estavam desenvolvendo um artefato capaz de selecionar os casais com maior afinidade e que seriam capazes de produzir maior número de descendentes mágicos. A identidade desses estudiosos permanecia um mistério, mas os jornalistas responsáveis pelas matérias mais completas tiveram seus nomes e fotos anexados ao quadro.

Hermione quase caiu da cadeira ao ver em um jornal austríaco o nome Weasley sendo citado. Tentou e tentou compreender o que dizia a matéria, mas não dominava a língua alemã o suficiente, então, sentou-se no sofá ao lado de Snape para que ele traduzisse a matéria. Ele tentava ensinar algo da língua complexa para ela lendo em voz alta e explicando as elaboradas conjugações alemãs, mas ela própria tinha perdido as esperanças de entender. Se francês parecia a língua dos anjos, só um demônio seria tão sedutor quanto Severus lendo em alemão.

Ele aparentemente sequer correra os olhos pela matéria, tamanha foi a surpresa estampada em seu rosto quando viu do que se tratava. Interrompeu a lição no mesmo minuto e apenas contou a ela do que se tratava.

- Essa matéria diz que William Weasley foi o portador da profecia que gerou a lei. Você ouviu algo sobre isso, Hermione? – Snape desabara no sofá. A expressão do mestre de poções estava de volta em seu rosto pálido, uma águia mergulhando na direção da sua presa. – Ele precisaria ter feito essa profecia antes da Batalha de Hogwarts para que ela estivesse no escritório de Alvo. O que você sabe sobre ele?

Aquele era o Snape objetivo, focado, concentrado. Ela o vira infinitas vezes quando ele observava os alunos lidarem com ingredientes perigosos. Aquele Snape caminharia sobre brasas para impedir um erro particularmente grave de um aluno. Aquele Snape não admitia erros. Hermione concentrou-se o máximo que pôde para se lembrar de qualquer informação relevante.

- Bem... Sobre o Will... Ele sempre foi um pouco distante, mesmo antes da Torre d – como ela poderia falar sobre aquilo? Como ela poderia se referir à noite em que Comensais da Morte invadiram Hogwarts, quando o homem que amava havia matado Dumbledore? Ele havia sido inocentado dos pecados que cometera em nome do "Bem Maior", mas teria ele próprio se perdoado? Ele tinha os olhos pregados nela, perfurando agudamente seus pensamentos; não aceitaria meias palavras, era tarde demais. – de Astronomia. Will foi ferido por Grayback no rosto. Foi um corte feio e isso afetou muito ele. Não só pela aparência, mas pelo risco da licantropia, e depois disso ele ficou ainda mais recluso. Eu encontrei Fleur Delacour, esposa dele, umas poucas vezes em Paris, enquanto fazia o mestrado em Beauxbatons, mas ela sempre dizia apenas que estava tudo bem e que ela estava tentando engravidar. Ele nunca estava com ela, nunca o vi indo buscá-la, ou deixá-la no banco onde ela trabalhava, mas ela não parecia solitária, parecia feliz e animada. Nunca conversamos mais longamente, eu tinha medo de que ela perguntasse sobre os outros,... sobre mim... Não que isso fosse muito a cara dela, mas eu sempre preferi não arriscar.

Snape arrastou a mão grande pelo rosto, claramente impaciente.

- E o senhor Weasley, Hermione? Quando vocês se encontravam ele parecia contemplativo, aéreo, costumava falar de forma misteriosa ou passar longos períodos, dias ou semanas, calado?

- O pouco contato que tive com Will não foi suficiente para muita coisa, mas ele nunca me pareceu o tipo místico, era bem prático e objetivo, aliás. Gostava de conversar sobre tudo que não envolvia magia, era muito curioso quanto aos trouxas, provavelmente por causa do pai. Depois que ele foi ferido, com certeza ficou mais calado. Às vezes pensávamos que ele tivesse desenvolvido algum grau de depressão e Molly se preocupou com isso até o fim. Quando estava só com a família ele se soltava um pouco e ria e contava piadas de escritório. Você acha que o trauma pode ter dado a ele o dom da profecia?

- Não o trauma, Hermione, mas mesmo um pequeno grau de licantropia, ainda que não ativa, sem transformações, pode aguçar os sentidos da vítima, o que se estende ao sexto sentido. E o isolamento pode sim facilitar o desenvolvimento de dons místicos pré-existentes, por isso muitos profetas são eremitas com pouco ou nenhum contato com a sociedade.

Era tudo que Hermione não queria ouvir. Sabia que havia dúvidas o bastante para justificar uma rápida viagem a Paris. Ela deixou-se afundar no sofá sob o peso da tarefa que certamente teria pela frente, olhando as próprias mãos sujas de tinta em seu colo.

Snape, sem aviso, pegou uma de suas mãos e a apertou com firmeza e carinho, assegurando-a sem palavras de que estava ali, com ela, confortando-a o quanto podia, e ela se sentiu egoísta e infantil por precisar daquilo. Ela havia trazido à tona o que, provavelmente, fora o episódio mais difícil da vida dele, quando, não sem motivos, matara o homem que o chamava de filho, que agia como um pai, protetor e cuidadoso, não apenas com ele, mas com todos à sua volta. Ela se perguntou se um dia eles se sentariam no sofá, acenderiam a lareira. e conversariam sobre seus dias de espião, sobre o que ele fizera e sobre o que não pudera fazer.

"Idiota" – sorriu conformada, voltando para as reportagens e matérias que lia, relia e classificava.