Capitulo 8 – Mentes confusas!
Quando o navio estava já em alto mar, prontos para se dirigir ao seu itinerário inicial, Singapura, Perla encontrava-se sentada no último degrau das escadas, que ligavam o convés superior ao castelo de poupa, agarrada á garrafa de rum que tinha roubado de Jack. Observava silenciosamente o céu estrelado, que brilhava tão intensamente quanto a própria lua que estava em quarto crescente. Aquela sim, era a vida que Perla sempre tinha sonhado, parecia que as histórias de sua mãe estavam se tornando realidade, e ela podia sentir cada emoção fluir na usa pele, esperando cada momento que ainda estava para vir. Podia dizer que estava adorando a viajem, a tripulação, o navio e…podia dizer que estava gostando da companhia do capitão, que tinha subido á bem pouco tempo para o leme, não notando na presença sossegada de Perla. Ela tinha reparado que Jack ainda parecia meio atordoado com o que tinha acontecido na cave, e isso notou-se pela maneira que ele tinha subido as outras escadas. Ela soltou um sorriso discreto para não chamar a atenção dele e acabou por suspirar folgadamente ao pensar que era aquele feitio que, de um forma inexplicável, tanto a atraía. Perla deu um gole profundo ao ver Jack aparecer em sua mente, e um tremor pareceu-lhe percorrer o corpo todo, como algo fora do controle
No meio dos seus pensamentos, ela olhou concentradamente para a garrafa de cor âmbar e lembrou-se então do beijo que tinha dado a Jack! Como tinha tido coragem para tal? Porque o tinha dado? Porque não tinha conseguido resistir? Perla passou a mão pela cabeça e olhou para o infinito, pensando que aquele tinha sido um beijo de agradecimento por tudo o que Jack estava fazendo por ela, só isso. Ela tentou mentalizar-se disso ao repeti-lo durante várias vezes dentro da sua própria cabeça, que ia sendo invadida pela figura de Jack, intacto na cave, sem qualquer reacção, mas aos poucos essa imagem foi substituída por Alessandro que sorria…e isso sim, fê-la sentir remorsos. Alex ainda era seu noivo e tinha-lhe um enorme respeito…talvez fosse a única coisa que conseguia segurar aquele noivado durante tanto tempo. Nunca tinha sentido amor por ele e sempre lhe deixou isso claro, mas mesmo assim ele respeitou os sentimentos dela, resolvendo arriscar em algo mais profundo, como o seu casamento. Ela deu mais um gole prolongado, fechando os olhos e colocando a mão na testa…e pensou se era certo continuar a alimentar esperanças de Alex, ou se seria melhor cortar o mal pela raiz o mais depressa possível para que ele não sofresse mais tarde, pois Perla sabia que, apesar do respeito que ela nutria por ele, não era o suficiente para aguentar um casamento sem amor sobretudo por sua parte, e isso, tornaria ambos infelizes já para não dizer que o seu casamento não teria grande futuro.
Perla deu fé que, durante toda a viagem, não era Alessandro que vinha ocupando seus pensamentos e sim Jack, com aquele jeito meio estouvado e as suas manias de durão. Ela sorriu desajeitadamente…por mais que tentasse evitar pensar nele era comprovativamente impossível pois ele estava tão presente, tanto no navio como em sua atormentada mente. Como quem tenta roubar um pouco de sua atenção e proclama-se dono de seus pensamentos mais dóceis e insanos, deixando-a desconfortada pelo facto de Jack estar tendo esse efeito sobre ela. Pelo avaliar da situação em que se encontrava, Perla não sabia bem o porquê disso, ela sempre tinha deixado claro que o detestava e o achava insuportável, mas de uma súbita hora ela queria estar perto dele e arranjar qualquer maneira de o tocar ou falar com ele, como uma espécie de ritual satírico, que atormenta sua mente quase insana. Sua cabeça estava numa confusão total, o que a fez suspirar bruscamente e beber novamente o liquido ardente que se encontrava na garrafa, que escorregava amargamente pela sua garganta
-Perla! – Uma voz acordou-a de seus pensamentos. - Desde quando você bebe bebida de pirata? – Perguntou Alessandro perplexo ao apreciar a cena.
-Desde que possivelmente virei um, não está vendo? – Respondeu ela grosseiramente
-Você nunca falou assim, isso já deve ser o álcool falando por si. Agora venha, eu vou levar você para os seus aposentos. – Alessandro tentou levantar Perla que fez corpo duro
-Eu não preciso de ajuda! Ahh Alex, apesar de não parecer eu estou me sentindo muito bem assim. Esta foi a vida que pedi a Deus, por favor, não estrague tudo agora. – Perla levantou-se. – Está vendo? Eu estou óptima. – De repente desequilibrou-se e caiu nos braços de Alessandro
-Se a vida que pediu a Deus era andar a cair de bêbada, óptimo porque você conseguiu.
-A vida que pedi foi uma vida de liberdade e sem restrições, onde eu pudesse dar a minha opinião, fazer o que quisesse e aprender coisas novas, coisas que num palácio nos ocultam e proíbem. Alex, só lhe peço uma coisa, deixe-me ter o meu momento de liberdade e viver a vida tal como sempre sonhei
-Faça como você quiser, mas por favor não mude sua maneira de ser. Eu não quero perder a doce mulher pelo qual me apaixonei, e principalmente aquela amiga que sempre me apoiou e ajudou – Perla olhou para o chão, como se aquelas palavras lhe tivessem batido directas no coração – já para não falar que a Corte de seu pai iria fazer duras criticas ao seu novo comportamento. Você precisa manter a personalidade que sempre manteve em Siracura…
-Eu não estou em lugar para me servir de tais etiquetas, não vou tratar por vossas excelências piratas que toda a vida foram tratados como vagabundos e não vou andar de sapatinhos de salto alto e um vestido formal só para agradar as vistas a um bando de homem que não tem nada que fazer! Você vai conhecer uma nova Perla, uma mulher um pouco diferente da que você conheceu em Siracura. – Ele fitou-a preocupado, aquilo só podia ser o Rum a falar por ela. – Não se preocupe, eu não tenciono mudar com você, alias, você é meu noivo, um Comodoro Real. – Ela marcou bem a palavra cheia de ironia, dando uma volta completa a ele
-Antes de ser Comodoro, alteza, eu já era seu amigo á muito tempo Perla! E se você quer mudar só para agradar aos seus novos amigos, isso é consigo, mas acredite que lutarei para trazer você á razão! - Perla revirou os olhos
-Bom eu vou dormir. – Com a mão, Alex levantou a cabeça dela para cima e beijou sua testa. Perla não o encarou e baixinho despediu-se – Boa Noite.
-Boa noite. – Ao vê-la entrar pela porta ele lembrou-se – Ahh e Perla, e se aquele capitão tocar em você, por favor, grite que eu irei ter com você
-Não se preocupe, eu sei me defender sozinha. – Sem esperar resposta, ela abriu a porta do porão e entrou
Jack encontrava-se no leme, na companhia Barbossa e Gibbs, que estavam recebendo as ultimas indicações do capitão antes de se retirar para os seus aposentos. No entanto, a conversa foi cortada ao apreciarem aquela pequena discussão entre Perla e Alessandro que acabou na hora em que Jack viu ela se despedir do noivo.
-Éhhh Jack, quem manda você trazer no navio mulher com noivo? – Comentou Barbossa num tom brando, mas provocador. – Eu achava menos embaraçoso na altura em que não passava só da Giselle e da Scarlett, menos preocupações, mais tapas… mas não, o Grande Capitão Jack Sparrow sempre gostou de penetrar-se bem no meio de casais apaixonados e comprometidos
-Fique sabendo caro Barbossa, eu não preciso de mulheres comprometidas. Se você quer saber eu já tive várias mulheres, desde o hemisfério norte ao sul, em cada porto eu deixei uma… contando com minha querida Arabella. – Jack fez um olhar nostálgico. – Na época em que tivemos juntos ou quase juntos, isso antes de eu lhe roub... er... confiscar a taberna em que ela servia… – Continuava ele perdido na linha de seus pensamentos – Fora, é claro, outras mulheres que eu já engatei apenas com o meu irresistível charme. Aprenda comigo caro Hector, nenhuma mulher consegue resistir aos encantos do Capitão Jack Sparrow isso é óbvio demais. – Ele olhou Barbossa de cima a baixo, como quem tira medidas. - Agora quanto a você…nunca te vi nem com mulheres comprometidas, nem solteiras muito menos prostitutas. Onde estão seus dotes masculinos Hector? – Respondeu Jack ironicamente á provocação de Barbossa, que se sentiu ridicularizado perante aquilo, e reafirmou sua posição
-Meus dotes masculinos, como você os chama, não são para aqui chamados. O facto é que eu ainda não te vi preencher este navio com mulheres praticamente solteiras. Você só serve mesmo para fazer serviços a madames que têm outro tipo de entretimentos com outros tipo de seres másculos que não você, ou seja, não sei o que você ganha com isso tudo.
-Se eu arranjei esta princesa com um brinde másculo, foi derivado ao tesouro que ela nos poderá proporcionar, acho que isso é o suficiente. Savvy? – Os dois pigarrearam ao mesmo tempo, fazendo Jack elevar a sobrancelha e fazer um gesto com as mãos. – Pensem nisso... – Quando viram Jack virar costas e afastar-se, começaram a fazer comentários
-Aii capitão, está uma noite tão fria, não quer vir para esta cama espaçosa para se aquecer… – Gozou Barbossa fazendo uma voz mais fina
-O meu instinto para criaturas femininas diz que você precisa de uns braços fortes para lhe aquecer esta noite! – Continuou Gibbs imitando supostamente Jack que rodou os calcanhares
-Eu acho que isso é tudo pura inveja, porque eu vou dormir perto de algo realmente belo, ao contrário de vocês que vão dormir á beira de homens que além de feios, tresandam a rum e ressonam feito porcos. Agora com licença – Respondeu Jack descendo as escadas indo directo para os seus aposentos, deixando os dois no castelo de popa
-Jack sempre teve gosto requintado mestre Gibbs… – Falou por fim Barbossa tomando o controlo do leme. - Primeiro foi a filha do governador de Port Royal, agora é a filha do rei de Siracusa. De facto Jack tem vindo a superar-se a cada dia que passa com esses gostos refinados, para ser mais exacto
-É verdade mestre Barbossa, mas deixe-me frisar que pela senhorita Turner ele só sentiu uma atracção, embora tenha sido intensa e demorosa para passar. Agora com Perla, eu acho que ele vai aprofundar mais essa atracção
-Será? – Barbossa soltou um sorriso debochado. – Capitão Jack Sparrow, famoso por não saber o que quer, irá se deixar levar pelos prazeres carnais de um rabo de saias Real? Duvido muito mestre Gibbs, o que está em jogo não é só uma princesa em apuros, e sim um tesouro que poucos sabem o seu valor. Qualquer idiota que se preze deixaria o coração de lado, se é que Jack Sparrow tem coração, e deixaria se guiar pelas margens de um bem material mais plausível e reluzente, se é que me entende.
-Jack sabe muito bem o que está em jogo, por isso, essa luta de pensamentos que o está deixando louco. Por um lado, ele deseja ter algo reluzente em suas mãos, mas por outro, ele deseja provar o gosto de ter uma mulher como Perla ao seu lado, mesmo que seja impossível, pois ela é uma princesa e terá de aportar novamente em Siracusa depois da missão acabar. – Gibbs meteu a mão no queixo, pensando bem naquele assunto – Jack sempre gostou de um bom desafio, e não se esqueça que o fruto proibido é sempre o mais apetecido.
-Falta saber de qual desses dois frutos, Jack aprecia mais, não é verdade? – Num tom de ironia Barbossa sorriu. - Aposto a minha parte de rum, que Jack não vai cumprir o que prometeu á garota. – Propôs ele em desafio
-E eu aposto a minha parte de rum, em como ele vai cumprir e ainda vai ajudar a princesa a libertar a sua irmã…-Respondeu Gibbs, apertando a mão a Barbossa –Jack tornou-se num bom homem, por isso aposto nele
-Cada um aposta naquilo que crê, meu caro. Não se esqueça que Jack ainda tem um mísero acordo comigo que ainda o faz capitão deste navio por um fio. Se ele o quebra, eu lhe juro que o farei governador da próxima ilha que passamos
-Você nunca aceitou o facto de Jack ser mais engenhoso que você, mestre Barbossa e isso notasse pelo facto de você não estar comandando este navio como sempre quis. – Barbossa sentiu o veneno daquelas palavras. – Tome isso em conta, senão quem será governador do próximo ilhéu será você, meu caro. – Dito aquilo, Gibbs desceu as escadas satisfeito
Em simultâneo àquela conversa, Jack abriu silenciosamente a porta dos seus aposentos e viu Perla sentada na cómoda. Já não estava mais usando a bandana branca sobre sua cabeça e delicadamente penteava seus longos cabelos encaracolados, tendo uma certa dificuldade devido aos cachos que se concentravam nas pontas. A expressão de seu rosto estava bem exposto para quem quisesse interpretar…estava claramente aborrecida e pálida, já para não falar no rosto fechado que parecia não querer abrir. Os olhos de Jack caíram literalmente na camisa desabotoada de Perla que ia até ao peito, o que fez ele erguer a sobrancelha com um sorriso maroto. Depois do beijo que ambos tinham trocado na cave, nenhum dos dois se voltou a falar, por isso, Jack não sabia como a deveria abordar. Estava se sentindo com um verdadeiro adolescente, começando a sentir-se ridículo perante aquela condição…já tinha beijado várias mulheres…e várias mulheres já o tinham beijado, então qual era o espanto da situação? Sempre tinha reagido normalmente, não ia ser com ela que iria ser diferente. Ao deparar com a figura perplexa do capitão na porta, Perla pousou o pente sobre a cómoda e fitou-o até ele entrar completamente nos aposentos. Quando Jack fechou a porta, ele deu duas passadas em frente continuando em pleno silêncio.
-O meu tremendo instinto para criaturas femininas está me dizendo que você está plenamente chateada, e precisa de algum tipo de distracção. – Tentou ele vendo Perla tirar as botas pesadas e levantar-se logo de seguida
-Se me conseguir arranjar um noivo menos chato, de bom grado que lhe agradeço. – Jack rodopiou delicadamente as pontas do seu bigode com os dedos, sorrindo maliciosamente. Ela puxava os lençóis para trás, para se poder deitar
-Sabe darling. – Ele pigarreou um pouco aproximando-se dela – Eu sou o capitão deste navio, e como tal eu posso realizar um casamento, ali, no convés, entre nós, se você quiser.
-Não era você que tinha fechado esse negócio dos casamentos no seu navio?
-Aye, mas eu posso abrir uma excepção para nós, amor…o que acha? Eu e você, você e eu, nós os dois nos casarmos e partilhamos uma vida em conjunto, aqui no Pérola. Mais tarde nasceriam os Jacks e as Perlinhas e vivíamos felizes para sempre, não ia ser lindo?
-Posso estar um pouquinho bêbeda, mas nem tanto para aceitar tal proposta. Aliás, nem sei qual de vocês os dois seria melhor, se um comodoro chato ou um capitão insuportável…
-E aquele beijo que você me deu? – Perla que estava de costas para Jack arranjando a cama, ficou sem expressão, ao ouvir ele sussurrar-lhe aquilo no ouvido, tão cinicamente que a fez abrir ligeiramente os olhos. - Foi só para me dizer o quão insuportável que sou ou finalmente consegui despertar algo incontrolável em você, que não consegue mais esconder…
-Aquele beijo, foi só um beijo de agradecimento… – Respondeu ela dando ombros, mostrando-se insignificante àquilo, continuando de costas para ele ao fazer de conta que agora amachucava a almofada de modos a torná-la confortável
-Estou vendo que em Siracusa se agradece assim… – Jack sentou-se numa cadeira, colocando seus pés sobre a mesinha e seus braços atrás das cabeça, como quem está pensando algo importante – Se for realmente assim, acho que mal esta viagem acabe, vou mudar-me para lá, sempre é melhor do que levar tapas a toda a hora
-Você é tão insuportável e convencido. – Perla atirou a almofada para a cama, virando-se repentinamente para ele, que sorriu descaradamente
-Você está assim porque de todos os menininhos ricos que conheceu, eu sou o único homem que realmente conheceu – Perla ficou de boca aberta, não sabendo de havia de rir ou de continuar olhando para ele com cara de boba
-De todos os menininhos ricos que eu conheci, você é o único pirata. – Perla chegou atrás de Jack e dobrou-se um bocadinho até ao ouvido dele, onde sussurrou aquela frase. Jack levantou-se repentinamente da cadeira, não desviando o olhar dos olhos dela
-Sabe Darling – Jack passou as costas da mão no rosto dela, fazendo ela fechar os olhos ao toque suave. - Eu tenho óptimas qualidades! Você ainda está em bom tempo de as descobrir. – Disse Jack, vendo Perla suspirar
-Teremos muito tempo para isso, aliás a viagem será longa, e eu faço questão de saber cada detalhe da sua pessoa, Capitão Jack Sparrow. – Perla ia aproximando os lábios dos dele, e Jack dos dela, até a ver tombar sobre o seu corpo
-Mas o quê…Ohhh bugger, porque tinha de adormecer logo agora? – Murmurou ele pegando nela, e colocando-a na cama, cobrindo-a com aquele lençol quase branco
De seguida, estendeu a rede e deitou-se lá, resmungando a falta de sorte que tinha com as mulheres, fosse ela qual fosse. Jack mirou-a atentamente e novamente aquela bagunça de pensamentos surgiu em sua cabeça, borbulhando de maneira intensa. Na cave, quando ficou sozinho, tinha deixado bem claro para si mesmo que não estava interessado nela, muito menos seu beijo tinha mexido com ele, mas havia algo de errado se passando. Embora não quisesse admitir, ele tinha receio de se deixar envolver demasiado com Perla, e que aquela mulher indefesa interferisse no seu plano de obter a Mão de Midas. Não podia permitir que isso acontecesse, afinal ele era o Capitão Jack Sparrow, aquele que amava o mar e só a ele lhe dedicaria toda a sua vida se possível, não era agora uma princesa vinda de Siracusa que iria mudar isso, não seria ela que colocaria os planos dele na corda bamba. Jack tentou deixar esses pensamentos de lado e observou-a dormindo serenamente sobre sua cama…sua pele brilhava devido á densidade dos raios da lua que entravam teimosamente sobre a cabine…parecia um verdadeiro anjo, e sua face angelical mostrava seus tentadores lábios formados numa linha, o que fez Jack virar-se para o lado oposto, para não cair na tentação de querer provar novamente o gosto do beijo dela, que parecia ainda permanecer na boca de Jack
Como um ser tão inofensivo conseguia proporcionar tanto estrago nos pensamentos de Jack, logo ele que sempre foi um homem que comandava sua mente e tomava as decisões perante cada acontecimento, fosse ele qual fosse…mas bastou aquela mulher entrar na sua vida para lhe revolucionar a alma e pôr em causa aquilo que pensava e as decisões que tomava. Era como se a mulher que estava dividindo os mesmos aposentos com ele, fosse uma espécie de feiticeira, alguém que o testava a toda a hora…não só a ele como também a sua rigidez, amolecendo seu coração de uma forma inexplicável. O pior é que Jack não se conseguia livrar disso, como uma maldição entranhada na sua pele, que aos poucos ia tomando conta de seu ser, possuindo-o tão rapidamente seu corpo feito veneno. Aquela atracção pela morena estava-o deixando exaltado. Não podia se deixar emaranhar pelos encantos dela, não agora que precisava de se concentrar no seu maior objectivo, talvez o maior tesouro de sua vida
-Feiticeira! – Murmurou ele sorrindo sarcasticamente.
Jack remexeu-se na rede, olhando fixamente para o tecto da cabine e recordou o beijo que Perla lhe tinha dado, e do quão ele tinha ficado perplexo com a embaraçada, mas gostosa situação. Apesar dela lhe ter dito que tinha sido um beijo de agradecimento, ele sentiu que havia algo mais envolvido naquele beijo que Jack não conseguiu captar e num impulso de estupidez, acabou por comparar o beijo dela com o de Elizabeth…ambas beijavam bem, mas sentia que o beijo de Perla tinha sido sincero e honesto, algo que não sentiu no beijo de Elizabeth, que apenas o persuadiu para tomar a atitude certa.
-Bem vindo ao incrível mundo das lady's, Jack – Jack colocou o chapéu na frente do rosto e se acomodou na rede – Um mundo totalmente... inexplicável! - Foi então que se lembrou que o plano inicial era levá-la até á Mão de Midas e depois abandonar Perla, mas teria coragem para abandonar tal preciosidade? – Ohh Bugger…
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Quando o sol raiou na manhã seguinte, Perla abriu lentamente os olhos, levando com a claridade dourada do sol que entrava pela janela. Sentia seu corpo pesado e uma moleza entranha, podendo concluir que aquilo não era efeito do rum da noite anterior, o que se tornava ainda mais incompreensível. Ao se acomodar na cama, verificou se Jack estava na rede, mas parecia que o capitão tinha madrugado…o que a deixou surpresa foi deparar-se com Alessandro ao seu lado, contemplando-a silenciosamente. Todas as manhãs no palácio era ele que a ia acordar com uma belo pequeno-almoço, mas desde que tinha embarcado no navio, que já não estava habituada acordar com ele ao seu lado, o que a fez por breves momentos, sentir saudades de casa e de Amélita, a ama que sempre a criou como uma filha
-Bom dia, dormiu bem? – Saudou Alessandro sorridente – O capitão não te atormentou?
-Quando ele chegou eu já estava dormindo. – Mentiu ela levando a mão á cabeça, até o olhar com atenção e perceber que aquilo não era um sonho e que Alessandro estava mesmo naquele navio. – Eu não cheguei a perguntar a você, o que lhe deu para apanhar boleia daquele Lord Silver?
-Como você tinha desaparecido, e como o Lord Silver tem em sua posse vários navios recheado de marujos loucos e corajosos, eu resolvi pedir-lhe ajuda para achar você. Eu estava desesperado sem noticias suas, pensando que também tinham raptado você…
-Alex, você podia ter morrido, ele podia ter-te morto…
-Eu não sabia dessa parte da história, senão nunca teria colocado meus pés naquele maldito navio e teria pego minha própria tripulação – Alessandro levantou-se e andou de um lado para o outro
-Ele é mais perigoso do que aquilo que você pode imaginar. Jack me contou que quando o pai de Silver morreu, ele ficou a ser membro da Corte da Irmandade e tomou posse do navio e da tripulação de seu pai. Com o tempo conseguiu uma numerosa tripulação e se apelidou por Black Dog para lançar o horror pelos sete mares. Alex, ele roubou umas certas Cartas de Navegação ao Jack e foi atrás do que lhe chamam o cálice da imortalidade…
-Isso quer dizer que ele é praticamente imortal…
-É, e representa uma grande ameaça para todo o mundo. Ele jurou vingar-se dos oito lord's da Corte da Irmandade que o humilharam e o prenderam devido ás várias regras infringidas, e além da imortalidade, ele quer essa Mão de Midas para poder ter o sucesso que ele sempre prestigiou…Custa tanto ver meu pai depositar tanta confiança em alguém que não merece, alguém que o quer destruir ao querer casar comigo só para obter o reino. – Alessandro cerrou o punho com tanta força, enquanto sua raiva borbulhava em sua pele.
-Ele que ouse tocar em você – Alessandro viu o rosto assustado de Perla, que não escondia estar com medo – Não há maneira de o destruir?
-Há mas são mínimas. Jack disse que para o destruir temos de procurar algo inverso ao que Silver tomou.
-Nós iremos achar essa Mão e daremos logo a esse maldito canalha, para que ele desapareça definitivamente das nossas vidas. Quanto ao resto, deixaremos que esses piratas tratem dele, pois já não é da nossa conta acabar com esse desgraçado. – Disse Alessandro abraçando-a calorosamente
-Assim o espero…
-E com isso, você poderá voltar á sua vida normal e marcamos novamente o nosso casamento. – Perla sentiu um aperto no peito ao pensar naquilo
-Alex, eu tenho uma coisa para te contar … – Alessandro colocou a mão sobre a boca dela
-Não agora, quando for a altura certa. – Murmurou ele dando-lhe um beijo apaixonado
-Eu vou ter com o capitão para saber quanto tempo falta para chegar a Singapura. – Cortou ela, saindo de repente da cama, vendo Alessandro olhar para a janela. Ela olhou para ele, que não estava concentrando seu olhar nela e respirou com alguma dificuldade ao sentir uma angústia por estar fazendo aquilo com ele. Pressentiu que Alessandro já desconfiava de algo, mas preferiu não dizer nada
Perla saiu então dos aposentos de Jack, fechando finalmente a porta. Ao ver que estava sozinha, ela encostou-se á porta e deixou que as lágrimas que á muito guardava, brotassem-lhe dos olhos. Ela sentiu raiva ao limpar violentamente as lágrimas, pois sentia que estava fraquejando ao libertar aquela angústia que guardava dentro de si. Não queria voltar novamente para Siracusa, não queria casar com Alessandro e sim, queria viver naqueles mares se possível toda a vida, mas parecia que suas vontades não tinham qualquer iniciativa em suas decisões e que seu destino mesmo era voltar para Siracusa mal aquela aventura terminasse. Perla olhou para o tecto tentando controlar aquelas sufocantes lágrimas, aquela dor que apertava seu peito ao sentir que tudo lhe corria mal, e ela nada podia fazer para mudar o destino que lhe reservada…governar Siracusa. Em sua cabeça uma recordação lhe veio, algo que Perla já não se lembrava.
Flashback
-Boa comodoro, você não me pega! – Dizia uma garota com os seus dez anos de idade com uma espada de pau, lutando com um garoto dois anos mais velho.
-Dê-se por vencido, seu pirata maldito. Da próxima vez que ameaçar a rainha, morrerá
-Está á espera do quê? Mate-o agora comodoro – Disse a garota mais nova fazendo-se passar por rainha
-Ninguém mete a mão em Perla Bonny – Berrou a outra garota, subindo uma das poltronas. De repente na sala, entrou um homem de boa aparência que a pegou ao colo. – Por favor papá me solte.
-Não é bonito, a futura rainha de Siracusa estar fingindo ser um pirata, muito menos roubando um navio Real. – O rei pousou-a no chão e examinou-a – Já viu como você está? Porquê não está usando o vestido que lhe ofereci, em vez desses trapos…
Pacientemente, o rei removeu a bandana que estava embaraçada com os cabelos da menina, enquanto ela de rosto fechado, olhava para o chão expondo a sua tristeza
-Só estávamos brincando de pirata papá, não há mal nenhum nisso…
-É, e fui eu que comecei a brincadeira. – Defendeu Alessandro, metendo-se á frente da garota
-Alessandro, não a defenda. Sei muito bem que tudo isto se deve por minha culpa …se tivesse educado ela melhor, Perla nunca estaria assim…
-Mamã era pirata, porque Perla não pode ser? – Perguntou Estella levando com um olhar fulminante do pai
-Isso não é vida para ninguém Estella, e sua mãe nunca mereceu o que teve…
-Não ouse falar assim da mamã, eu não lhe permito. – Gritou Perla recebendo o olhar incrédulo do rei
-E eu não quero ver minha filha se tornar em algo que desonre nossa família, para erros, já basta os que cometi. Agora jovem lady, faça favor de ir para o seu quarto remover essas roupas ridículas e trate de terminar a história que eu lhe dei no seu aniversário
-Eu não quero ler aquele romance patético. Eu quero histórias sobre aventura, tesouros, piratas e tudo que envolva o mundo deles. – Perla encarou severamente o pai – Um dia, eu me encontrarei com um capitão pirata e me juntarei á sua tripulação e sairei pelos sete mares. Só aí é que serei livre como um oceano, sem nenhuma obrigação e sem laços que me prendam a terra. – Dito aquilo saiu a correr para o seu quarto
Fim Flashback
-Perla Bonny! – Ela soltou um sorriso forçado. - Até agora consegui tudo isso, menos desprender-me aos laços que ainda me perseguem. – Murmurou ela suspirando.
O passo que ela deu em frente, soou fraco, como se seu pé tivesse pisado algo falso. Senhor Gibbs que estava indo até á cave para buscar uma garrafa de rum ao capitão, aparou-a em seus braços, impedindo-a assim de cair ao chão. Ele ergueu novamente a moça e reparou na sua cor pálida e no estado vulnerável que a jovem se encontrava
-Obrigada senhor Gibbs…
-Você não está bem?
-Claro que estou, não se preocupe. E Jack onde está? – Perguntou ela mudando o rumo da conversa
-Lá em cima. – Perla foi então até ao convés superior, vendo Jack olhar pela grandiosa luneta, com um ar de satisfação.
-Falta muito para chegar a Singapura? – Disse ela meio ríspida
-Calma amor, acordou mal-humorada ou isso tudo foi porque seu noivinho foi acordar você? – Perla ergueu a mão, mas Jack segurou-a a tempo para que esta não fosse directa para a sua cara – Dentro de algum tempo estaremos lá, você não pode ser tão apressada
-Ahhh vá para o inferno! – Ela virou costas e pousou suas mãos sobre amurada do castelo de popa, olhando para o intenso mar azul
-Continuo dizendo que a realiza está perdendo a compostura …
-Estou perdendo é a paciência. – Murmurou ela virando sua cabeça de rompante em direcção a Jack. -O tempo que Silver nos deu está se encurtando e até agora eu não tenho esse objecto nas minhas mãos. Compreenda Jack, eu estou desesperada, eu não posso ver minha irmã morta, ela é tudo para mim.
-Minha tripulação está fazendo os possíveis para se apressar…
-Então faça os impossíveis!
-Só se você, por debaixo dessa camisa, tiver umas asas que possa usar para apressar o meu navio ainda mais. - Respondeu ele fazendo seus gestos característicos
-Não goze Jack, o assunto é sério. – Replicou ela meigamente, fazendo Jack erguer a sobrancelha.
Viu ela tombar de leve contra a amurada, e de olhos fechados levando a mão ao rosto. Jack apercebeu-se que Perla não estava bem, principalmente ao verificar sua cor que já não era a mesma, estava mais pálida do que ontem, parecendo-lhe que ela poderia desmaiar a qualquer momento, o que de facto preocupou Jack
-Você está bem? – Perguntou ele por fim vendo ela olhá-lo. Seus olhos já não tinham o mesmo brilho ofuscante de outrora, parecia que estavam mais apagados que o costume.
-Não sei! – Suspirou ela desencostando-se um pouco da amurada. Jack viu ela dar um passo em frente, e cair em seus braços.
-O que você não faz para cair em meus braços. – Debochou ele abrindo um sorriso maroto
Perla permaneceu ali, aconchegando-se cada vez mais nos braços fortes dele. Sentiu-se na liberdade de chorar aquela maldita angústia que a corroía por dentro, e toda a sua preocupação ao ver que suas buscas não estavam dando em quase nada. Parecia uma criança pedindo encarecidamente protecção ao seu protector, mas na verdade era que nos braços de Jack, onde ela mais se sentia segura, o que não deixava de ser irónico. Não estava aguentando mais aquele fardo sozinha, precisava de sentir que ele estava ali, ao seu lado para a ajudar, ele que era o seu porto de abrigo. Jack apenas acariciava os cabelos da moça, deixando-a descarregar aquele pesado fardo, em pequenas lágrimas que escorregavam delicadamente sobre seu rosto. Ele tinha noção que aquilo não estava sendo nada fácil para Perla…ela bem tentava mostrar-se forte e corajosa, mas não estava conseguindo realmente manter a força necessária para aguentar um peso daquele tamanho, o que a estava deixando com um aspecto desgastado. Apesar de tudo o que Jack sentia e pensava, mais uma vez, ela tinha conseguido destorcer tudo o que ele tinha planeado num só minuto…que tipo de encantamento ela usava para ter esse efeito nele? Nem o rum o tinha tanto efeito na sua pessoa, não o deixava tão atordoado como a presença dela o deixava. Respirando fundo, ele tomou uma decisão que possivelmente iria se arrepender num futuro próprio, algo que o condenaria ao fracasso total, ou pensando noutro ponto de vista nem tanto… independente do que pensassem e do que ELE PRÓPRIO pensasse, ia ajudá-la a superar aquilo, e lhe daria aquela protecção que ela estava precisando.
Quem não gostou da situação, foi Alessandro que ficou perplexo ao apreciar a cena. Não queria acreditar no que seus olhos viam…Perla não podia estar se deixando levar pela conversa daquele pirata oportunista, logo por ele que era engenhoso demais para gosto de Alessandro. Barbossa que também estava apreciando tudo, soltou um sorriso matreiro e aproximou-se de Alex, com seu jeito grosso e rude
-Jack está conseguindo. – Murmurou ele parando ao lado de Alex. – Sabe que ele traiu o seu amigo? Will Turner era noivo de Elizabeth Swann e mesmo assim Jack não deixou de ter uma atracção pela jovem, e ambos chegaram a se beijar, mesmo nas condições que antecediam – Alessandro olhou-o de soslaio, inerte aquela conversa
-O que você quer dizer com isso?
-Você não é amigo dele, por isso, não será traição roubar sua noiva, muito pelo contrário, será um desafio. O pior é que Jack vai aproveitar que ela está vulnerável e vai encher a cabeça da pobre moça ingénua até conseguir o que quer, depois vai lhe dar um chute bem certeiro no traseiro e abandoná-la no porto mais perto. Não é isso que você quer para a sua princezinha pois não? Vê-la sofrer por um maldito pirata que só lhe prometeu ajuda por causa de bens matérias mais reluzentes!
-Eu mato o infeliz que a magoar, e esse Capitão não será excepção. Ele que não se ouse se meter com Perla nesses termos, muito menos magoá-la…acredite que não estará vivo para poder se vangloriar de tal acto.
-Acho muito bem que você preserve seus bens mais que materiais, meu caro. Acima de tudo, o bem da princesa, claro. – Ironizou Barbossa sorrindo para o macaco que pulava de excitação no ombro dele, como se pressentisse algo no meio daquela ironia toda
-Mas porquê que Perla não vê que ele se quer aproveitar dela? – Murmurou Alessandro ressentido
-Ela está confusa! Esta foi a vida que ela sempre quis, e além do mais, está começando a dar os seus sinais de fraqueza por causa do tempo estar passando e não haver nenhuma pista da Mão de Midas nem da irmã, acho que esta é a presa fácil para alguém que sonha alto, e tem ambições grandiosas caro Ramirez… Jack não vai deixar isso barato. – Alessandro cerrou os olhos ao ver os dois continuarem abraçados. – Pense claramente nisso, mate. - Barbossa afastou-se deixando Alex remoendo aquilo que ouvira
É, acho que me entusiasmei ao escrever este capítulo, devido ao tamanho dele, rs. E Perla está dando os seus primeiros sinais de fraqueza e se rendendo cada vez mais aos encantos de um certo capitão…quem não está gostando dessa história é Alessandro, e Barbossa vai aproveitar esse deslize para poder se guiar pelos seus ideais…enfim, a ver no que isto dá.
Quero agradecer os comentários fofos que me mandaram no capítulo anterior, adorei cada um deles… Fini Felton, Dorinha Pamella, Jane, Roxane Norris, Ieda, Likha Sparrow, Bruno Teixeira…a vocês o meu muito obrigada, principalmente pelo apoio de cada Review…
Próximo capítulo está sendo feito (vou aproveitar este fim de semana livre, que não tenho nada para estudar)
P.s.: Segunda capa deste fic postada no meu profile, para quem quiser dar uma vista de olhos.
Bjokas e fikem bem
Taty Black
