CAPÍTULO 8- DIAS NÃO TÃO CALMOS
Os olhos vermelhos de uma guerreira avaliavam o que se passava a seu redor, procurando tanto uma brecha em sua adversária quanto verificando se havia algum inocente por perto, alguém que poderia sofrer as conseqüências da luta que certamente ocorreria ali sem muita chance de escapar sem algum ferimento. Por sorte, todos os estudantes estavam distantes e certamente não haveria vítimas acidentais, ela poderia sossegar seu espírito para lutar.
Porém, um estudante observava à cena bem de perto, ainda paralisado pelo medo, um tanto curioso e atônito por ter sido salvo por uma guerreira muito bela... Ela lembrava alguém que conhecia, só não podia dizer exatamente quem... E era estranho que ele, o presidente do clube de esgrima, iria deixar uma garota apanhar em seu lugar. Porém, era sua vida que estava em jogo e com certeza acabaria morto se interferisse. Restava a ele apenas a torcida para que tudo acabasse bem.
Uranus Pirate Knight colocou-se em posição de ataque, em guarda, esperando que Midiz tomasse uma posição, o que o monstro logo fez, colocando-se na defensiva e esperando o que a guerreira petulante era capaz de fazer. Afinal de contas, ela não tinha impedido que tirasse energia de uma vítima? Além disso, não tinha de destruir uns tais guerreiros denominados Pirate Knights?
A guerreira aproximou-se, dando um soco com a mão direita, parado quase imediatamente pela defesa do monstro, que poucos instantes depois sentiu a força de uma mão esquerda em seu rosto. Reagiu com um chute, bloqueado de imediato pela guerreira e sentiu novamente a mão dela em seu rosto, também um pouco de sangue e talvez um dente fora de seu lugar habitual. Por sua vez, a guerreira virava o corpo com o máximo de velocidade possível e acertava sua adversária com a mão oposta, em um golpe de muito impacto que a levou ao chão.
Midiz, após alguns instantes de respiração ofegante, levantou-se e atingiu Uranus com um soco, tomando impulso do chão, porém esta reagiu com um chute em seu abdome. Estava na hora de fazer aquela menina forte sofrer um pouco, pensou. Para isso, como tinha reparado no golpe anterior, teria de usar uma fraqueza de sua adversária: ela deixava a defesa quase completamente aberta ao atacar! Era esse ponto que tinha de usar caso quisesse alguma vitória!
Levantando-se, o monstro tentou atingir sua adversária com um soco, parado por sua defesa, porém virou seu corpo o mais rapidamente que pôde e atingiu-a com o joelho na região do diafragma, fazendo com que parasse de respirar por alguns segundos:
- Agora a luta começa, Pirate Knight!
Uranus, ofegante, olhava para sua adversária, fora de condições para tomar qualquer atitude. Logo, estava sentindo uma sequência de socos em seu rosto, também que o sangue lhe tingia a face, ainda sem conseguir respirar direito e tampouco reagir. O máximo que conseguiu, após algum tempo, foi colocar a mão sobre o rosto, já caída no chão, enquanto esperava recobrar o fôlego para tentar reagir. Porém, como Akio, ainda paralisado, podia perceber e também qualquer outro espectador, poderia ser tarde demais.
Com os olhos perdidos nas nuvens do céu, ainda esperando pelo fim das aulas, Chaz se equilibrava no galho da árvore aonde estava, indiferente à agitação sob seus pés. Para que tanto barulho, era apenas hora da refeição! E, em especial naquele dia, os alunos estavam tão barulhentos, será que não podiam deixá-lo observando as nuvens em paz?
Ao olhar para baixo, viu um grupo correndo na direção do portão de saída e, algum tempo depois, uma figura de azul parecia coordenar como aquilo deveria ser feito. Treinamento de incêndio, pensou. Como as pessoas faziam escândalos sabendo se tratar de um treinamento? Ah, elas que se danassem, não estava interessado no que faziam ou deixavam de fazer.
Porém, abrindo um pouco mais seu campo de visão, pôde ver alguns corpos caídos e uma guerreira de amarelo lutando contra algo que parecia um humano, mas, mesmo de longe, era perceptível que apenas "parecia" humano... Continuando a acompanhar a luta com os olhos, reparando em especial na atuação da garota de cabelos cor-de-rosa, começou a preocupar-se ao vê-la apanhando em demasia. Preocupar-se? Com alguém que nunca tinha feito nada para merecer tal preocupação? O que estava dando nele agora, algum sentimentalismo imbecil por uma garotinha mimada? Porém, essa garotinha mimada estava no chão, ainda apanhando e provavelmente, se os golpes continuassem e fossem fortes, ela acabaria morrendo. E isso ele não poderia deixar...
- Kuso... – foi tudo o que ele sussurrou antes de tatear o peito procurando o pingente de transformação.
Olhos de um negro profundo observavam pelas grades que separavam a enorme escola da rua, procurando entre elas aquela que roubara seu coração sem chance alguma de defesa. Como queria vê-la, nem que fosse por apenas um instante e de longe! Era impossível, afinal de contas ela deveria estar dentro do refeitório, mas mesmo assim seus olhos a procuravam pelo imenso jardim.
Para sua surpresa, seus olhos encontraram aquilo que menos esperaria ver naquele lugar: alguns alunos corriam desesperados, como se fugissem de alguma coisa, rumo ao portão para saírem da escola. O que estava acontecendo ali, por um acaso era uma simulação de evacuação ou algo parecido? Não... O desespero estava explícito nas expressões dos jovens que se aproximavam do portão, estava acontecendo algo de grave naquela escola!
Lembrando das palavras de algum de seus companheiros, era bom transformar-se primeiro e perguntar o que estava acontecendo depois...
Midiz fazia que seu pé, com força, encontrasse-se com as costas de Uranus, no chão. Se era injusto, estava contra as regras de uma luta? Pouco importava, tinha recebido ordens para matar a guerreira e, além disso, tinha de descontar a surra que levara!
Por sua vez, a guerreira, sem conseguir reagir, cuspia algumas gotas de sangue. Será que estava tudo perdido, iria morrer ali? Ao que tudo indicava sim... Não seria dada a ela a chance de crescer, aproveitar seus amigos agora que tinha laços profundos com seus companheiros, conviver melhor com seus colegas de escola, aprimorar-se nas artes da esgrima, conhecer o amor! Como parecia cruel, tudo acabaria ali, não teria uma chance de viver!
Não.
Não podia desistir, não iria desistir. Podia sentir o sangue em sua boca em uma pressão para sair e cuspi-lo, mas tinha que reunir forças e acabar com aquela luta, tinha de viver! Mesmo que a dor de seus ferimentos beirasse o insuportável, tinha de reagir, antes que fosse tarde demais! Tinha de reunir forças, mesmo que não soubesse de onde tirá-las, para sobreviver e sair dali, além de mandar aquela desgraçada para o inferno!
Midiz preparava-se para dar o golpe de misericórdia naquela garota, afinal a surra já estava começando a enjoar... E ainda por cima ela parecia inconsciente, que graça tinha em bater se ela não sentia nada? Era só escolher: perfurar o diafragma ou uma lesão no cerebelo? A primeira opção doeria um pouco mais!
Quando preparava sua perna para pisar com toda a sua força no peito da adversária, sentiu uma mão na sua perna de apoio e, pouco depois, que o gramado da escola não era tão macio quanto aparentava. Uranus, em um último fôlego, levantou-se, ofegante. Tinha de lutar por sua vida, por aquilo que nunca tivera a chance de experimentar, por não aceitar ser derrotada e morta tão facilmente! Porém, no mesmo tempo em que Midiz se recompunha, Uranus sentiu uma dor profunda em seu corpo, tendo de abaixar-se para tentar recobrar um pouco do fôlego e fazer com que a dor passasse. O monstro, furioso com a guerreira, tinha resolvido não se delongar mais e ir direto ao ponto: concentrava uma esfera de energia sonora que se encarregaria de mandá-la direto para o inferno!
Porém, quando preparava-se para um disparo à queima-roupa, sentiu sua mão queimar e, ao olhar para trás, percebeu que sua esfera tinha sido desviada por uma flecha de fogo. Uranus olhou para trás e, ao ver o companheiro na posição de quem acabava de disparar uma flecha, teve apenas a reação de dizer:
- Não... se... meta... na minha.... luta!
- Você não está em condição de lutar, por um acaso quer morrer tentando?
- O problema.... é meu, ninguém... te chamou... aqui!
Midiz estava furiosa, afinal de contas aquele intrometido não tinha nada o que fazer ali, estava por ganhar a luta, por que aquele idiota interferira? Aproveitando a distração dos cavaleiros entretidos com a discussão, lançou uma grande onda sonora, que fez com que Uranus e Mars fossem arrastados por alguns metros antes de caírem no chão, ela nos braços do companheiro.
O marciano podia sentir que suas mãos acabaram se sujando com o sangue da companheira, agora desacordada em seus braços. Ela estava muito ferida, tinha feito bem em interferir antes que acabasse sendo morta. Claro que nunca viu alguém gostar de ter interferências em sua luta, mas também era uma garota mal-agradecida por não reconhecer que lhe salvara a vida estando ali naquele momento! Porém, pensando rapidamente para evitar que um novo ataque de Midiz, próximo, atingisse em cheio a amazona desmaiada em seus braços, jogou-se sobre ela, protegendo-a enquanto recebia o golpe, não muito forte, mas o suficiente para fazer doer bastante, nas costas.
- URANUS!
Era Mercury que se aproximava correndo, enquanto digitava freneticamente em seu computador procurando pelo ponto fraco do monstro. Estivera ajudando os colegas no processo da evacuação da escola e conseguira evitar alguns tumultos, organizando a saída com perfeição. Como era bom ser útil em uma situação, não apenas em suas análises e buscas, mas efetivamente deixando os civis em segurança!
Midiz já concentrava uma nova esfera de energia, preparando-a de maneira a ser capaz de matar Mars, o atrevido intrometido, instantaneamente. Porém, ao ouvir o grito e ver que um cavaleiro de azul vinha correndo em sua direção, mexendo as mãos como se estivesse digitando no ar, a esfera, ainda não formada totalmente, foi lançada em sua direção para pará-lo, o que efetivamente aconteceu.
Mercury, ao sentir-se atingido, além da dor que o dominava, sussurrou, enquanto seu corpo caía no chão devido ao impacto:
- Água...
Seu corpo caiu de bruços na grama, desmaiado e ferido, tingindo com algumas gotas de sangue as plantas a seu redor. Midiz, após lançar um olhar de "dever cumprido" sobre o corpo do jovem, começou a concentrar novamente outra esfera de energia, visando Mars e Uranus. O cavaleiro, ao perceber que seria impossível reagir a tempo, abraçou-se à companheira desacordada, numa tentativa de protegê-la com seu corpo. Sua única reação, ao ver a grande esfera de energia que se aproximava, foi fechar os olhos e esperar-se para o pior, porém quando percebeu que estava demorando muito para sentir alguma espécie de dor, resolveu abrir os olhos e tentar entender o que estava acontecendo.
- Não vai atingi-los sem antes lutar!
Ao olhar um pouco para frente, Mars percebeu estar dentro de um campo de força e que Saturn estava próximo, empunhando sua alabarda em posição de combate. Midiz, irritada por mais uma interrupção, concentrava outra esfera de energia, rebatida pela arma do cavaleiro de prontidão.
Saturn, em um movimento rápido, aproximou-se de onde o monstro estava e tentou acertá-lo com sua alabarda, porém Midiz foi mais rápida e desviou, deixando sua perna para trás para que seu adversário tropeçasse, o que acabou acontecendo. Saturn reequilibrou-se e, virando-se rapidamente, segurou sua arma com força, pronto para atacar novamente sua adversária.
Porém, calculou um pouco mal a força que utilizaria e acabou por sentir que as mãos de Midiz seguravam a outra extremidade da alabarda, impedindo uma movimentação sua e mesmo dela, já que quem soltasse aquela arma acabaria como vítima fácil do outro.
"Encurralado", não podia deixar de pensar. Era sua atual situação, não tinha como mexer-se, reagir, estava literalmente preso por sua adversária! O que poderia fazer para sair dali sem dar uma brecha para que ela atacasse? Tinha de pensar, e rápido, antes que ela pensasse em algo para atingi-lo apesar da prisão. Inclusive, para ela seria mais fácil derrubar a arma e contra-atacar do que para ele e tinha medo de quando ela percebesse a vantagem que tinha: Saturn estaria desequilibrado sem a alabarda. Estava literalmente de mãos atadas e tinha de pensar bastante rápido se queria sair bem daquela situação.
Mars olhava para cena, não podendo levantar-se sem temer machucar sua companheira ferida em seus braços. Ora, por que tinha de ter se jogado no chão para protegê-la, agora estava fora de combate! Mesmo as costas feridas não atrapalhariam tanto sua ação quanto a garota mimada... Porém, por que simplesmente não queria soltá-la, não queria correr o risco de vê-la mais ferida do que já se encontrava?
Akio, ainda paralisado, era um espectador atônito dos fatos. Como... como aquilo tudo podia estar acontecendo e tudo diante dos seus olhos? Era um pesadelo de mau gosto? Só podia... E se os guerreiros perdessem, o que seria dele? Tinha escapado da frigideira para cair no fogo por um acaso, pois aquele monstro certamente estaria com mais sede de sangue ainda se escapasse da luta?
Porém, o jovem presidente do clube de esgrima pôde sentir uma ponta de alívio em sua alma: ao longe, sobre um banco, uma figura de verde-água estava de braços cruzados avaliando a cena antes de entrar em ação, tendo seus longos cabelos negros balançados pelo vento. Sim... era hora de agir, podia ver Mercury caído, além de Uranus que parecia ter problemas! Além disso, Saturn estava encurralado... Tinha de entrar em ação, o mais rápido possível, para evitar maiores problemas e complicações!
Pulando de banco em banco, aproximou-se rapidamente e, para não ser acusada de deslealdade, avisou que estava presente:
- Deixe meus companheiros em paz, agora!
Midiz olhou para frente, encontrando com o olhar a amazona. Mais um intrometido? Será que esses Pirate Knights não tinham aprendido a não interferir nas lutas alheias? Ora, tinha problemas demais para aparecer mais um, em verde-água, para atrapalhar-lhe os planos!
Neptune, porém, não deu tempo para que o monstro esboçasse alguma tentativa de reação ou represália: queria acabar com aquilo logo. Concentrando-se, pronunciou as palavras que conjuravam seu golpe:
- NEPTUNE AQUA FLOOD!
A correnteza atingiu Midiz em cheio e transformou-a em pó quase imediatamente, fazendo com que Saturn perdesse o equilíbrio e caísse no chão, porém o companheiro levantou-se pouco depois, com um suspiro de alívio. Akio, por sua vez, pareceu finalmente juntar forças o suficiente para sair correndo dali, não se preocupando em agradecer pela vida, apenas querendo acordar do pesadelo mais estranho que já tivera...
A amazona de Netuno andava calmamente na direção onde Mars levantava-se, com todo o cuidado para não ferir ainda mais Uranus, ainda sem sentidos, enquanto Saturn, com alguma dificuldade, tirava Mercury do chão e apoiava-o no ombro para poder levá-lo dali:
- Leve-a para casa, tenho de ajudar Saturn a levar Mercury embora.
- Por que deveria?
- Por que não deveria? Vai deixá-la aqui, ferida e desacordada, por um acaso?
Diferentemente do que aconteceria com qualquer outro de seus novos companheiros, por alguma razão que desconhecia, Mars não conseguia ir contra os pedidos de Neptune... Era estranho, o que aquela garota mórbida tinha que o impedia de ser ele mesmo, retrucar, não aceitar ordens? Porém, estava longe de ser somente por ela o fato de levar Uranus para casa, mas a princesinha mimada tinha alguma coisa... Não queria que ela se ferisse mais e como era bom tê-la tão frágil em seus braços!
- Qual é o caminho?
- É simples... – Neptune disse antes de explicar rapidamente qual rumo ele deveria tomar.
- Vamos, Neptune- disse Saturn, chamando a companheira. – Ainda temos de explicar aos pais de Ryo como o filho chega da escola completamente ferido.
- E você acha que um ataque de monstros em uma escola não deve ter ganhado alguma reportagem extra em algum jornal de televisão? Agora vamos.
- Só gostaria de saber o que nosso amado líder está fazendo enquanto o circo pega fogo por aqui – disse Mars sarcasticamente antes de partir.
Em um shopping movimentado, onde milhares de pessoas faziam compras, olhavam as vitrines ou simplesmente matavam o tempo, havia uma grande praça de alimentação, capaz de atender aos milhares de pedidos diários, feitos principalmente nos horários de almoço e jantar, seja por estudantes saídos da escola, executivos apressados ou mesmo famílias desejosas em mudar um pouquinho sua rotina diária de alimentação.
Em uma das mesas dessa praça, um rapaz ocidental levava um copo de refrigerante à boca, experimentando um prato que não comia há anos, mas tinha saudades: pizza. Quando imaginaria que um dia poderia estar no Japão, comendo uma pizza com a sua amada? Seus olhos deliciaram-se ao olhar para a garota loira à sua frente, um pouco atrapalhada com um pedaço de queijo.
- Gostaria de almoçar todos os dias com você se fosse possível, minha querida – disse ele sorrindo da dificuldade do queijo se partir.
- Pena que isso será impossível, ainda mais agora que acho que finalmente conseguirei trabalhar! Gosta da idéia de que fabricarei remédios?
- Sinceramente não te imagino em um laboratório! Mas mesmo assim, você perdeu uma grande parte da seriedade em que estava envolta quando nos conhecemos. Está mais descontraída, até mesmo mais linda!
Cassie sorriu antes de responder, ainda atrapalhada com a pizza. Era bom esse queijo resolver partir logo! Após alguma luta e alguns instantes de mastigação silenciosa, a resposta veio:
- De certa maneira, me sinto mais livre, finalmente tenho amigos! Acho que minha máscara social já não é tão necessária quanto antes, quando eu era só mais um gênio juvenil infeliz...
- Você fala isso como se fosse algo muito comum...
- É mais comum do que aquilo que nos une – disse ela sorrindo, enquanto tocava o pingente de transformação em seu pescoço.
Storm não pôde deixar de sorrir, antes de se servir com mais um pedaço. Realmente, era muito comum ser a reencarnação de um guerreiro de um tempo distante e ainda por cima enfrentar monstros de vez em quando! Porém, ainda se angustiava com uma pergunta:
- Descobriu... de onde eles vêm?
- Iie... – Cassie olhou para uma gota esquecida sobre a mesa. – Hoje de tarde Ryo irá lá em casa, estava fazendo algumas análises, mas não cheguei a nenhuma conclusão além do que já sabemos. Creio que ele poderá ajudar e seremos mais eficientes pesquisando juntos do que individualmente...
- Está certa... Mas não nego ser estranho lutar contra algo que não faço idéia do que seja, como seja e por que seja... É como se eu estivesse em um quarto completamente escuro procurando pelo interruptor, entende? Não sei aonde vou esbarrar, onde estou pisando, o que tem em minha frente.
- Engraçado... Estamos aqui conversando sobre esse assunto e me veio uma sensação estranha!
- Que tipo de sensação?
- Parece que está acontecendo alguma coisa com nossos companheiros.
- Ah, não deve ser nada. Além disso, esses comunicadores não existem apenas para enfeitar nossos pulsos e eu sou o líder!
Cassie sorriu, enquanto levava um copo de refrigerante à boca. Seu amado estava mesmo empolgado com o fato de ser líder, até mesmo exercia sua autoridade quando essa não era necessária! Mas ele tinha razão... Qual era a utilidade daqueles comunicadores se, caso necessário, não fossem chamados?
O melhor meio alternativo de locomoção em Tóquio, principalmente se havia fôlego e pernas o suficiente, era andar pelos telhados dos prédios e casas. Como tal feito só era possível para aqueles com capacidades sobre-humanas, era um caminho livre e fácil, além de privativo, pois qualquer passante que visse algum vulto passar pelos telhados certamente pensaria tratar-se de uma ilusão de óptica.
Pulando de telhado em telhado na direção indicada por Neptune, Mars tentava ir o mais leve possível para não machucar ainda mais sua companheira Uranus, desmaiada e bastante ferida em seus braços. Porém, não conseguia entender a razão de tantos cuidados, afinal o que aquela garota, a princesinha mimada que se achava dona da verdade e da argumentação, tinha feito a ele para merecer preocupação em troca? Só se preocupara, e quando isso era de seu interesse, com membros de sua gangue e ainda os mais chegados... Quem disse que tinha alguma ligação muito forte com alguma pessoa, mesmo com um Kuroi Neko como ele? E por que agora andava devagar para que a companheira não sentisse o balanço muito forte?
Resolveu parar um pouco na cobertura de um grande edifício, esperando que a companheira revertesse, já que seria mais fácil fazer isso ali do que nos portões de sua casa. Ao sentar-se, tomou o cuidado de não mexer os braços, como se o bem mais precioso de sua vida estivesse neles e este bem pudesse quebrar com uma simples e leve brisa... Ao olhar para o rosto adormecido como um anjo, mesmo com os ferimentos, pôde perceber o quanto era linda, se é que nunca tinha notado antes. Era uma boneca de porcelana... Não, bonecas de porcelana remetiam a uma beleza infantil e, apesar dos quinze anos que carregava, de infantil a beleza da companheira não tinha nada. Era uma mulher atraente, sim, e muito, mas muito bela... A mais bonita que já vira em sua vida, sem exagero. Se ela quisesse, poderia ter o homem que quisesse a seus pés, apenas usando sua beleza...
Não demorou mais do que cinco minutos para que a transformação revertesse, fazendo com que o uniforme de guerreira desse lugar ao uniforme de estudante, este também empapado de sangue. Mars levantou-se de leve, com o máximo de cuidado do mundo, ajeitando a colegial adormecida em seus braços e tomando impulso para continuar o percurso até a sua casa.
Alguns quarteirões depois, o marciano, após reverter a transformação por ela já não ser necessária, começou a assustar-se com a vizinhança de sua companheira: mansões, uma maior e mais luxuosa do que a outra, cercadas por grandes muros e grades! Era o mal de ostentar tanto dinheiro, não se podia viver tranqüilo, conversando com vizinhos no quintal ou tomando o sol da tarde na entrada de casa! Porém, a escolha entre liberdade e luxo foi feita por aquelas pessoas... E o que ele poderia fazer, além de execrá-la?
Chegando a um enorme portão, o assombro tomou conta definitivamente do jovem: era aquela a casa de sua companheira? Aliás, casa? Quantos prédios não cabiam no terreno daquela propriedade? Nunca imaginara que a princesinha realmente fosse uma princesinha... Era mais uma daqueles idiotas que preferiam uma pia com revestimento de ouro nova ao bem-estar da população? Poderia odiá-la apenas por isso, mas... não. Não conseguia... Não tinha forças...
Após ser anunciado pela portaria, recebeu orientação para entrar na casa para ali deixar sua companheira. Como era lindo aquele jardim... Uma fonte na frente da mansão, a rua onde os carros passavam calçada de pedras, as flores margeando-a. Parecia estar dentro de um antigo filme ocidental, não na Tóquio do final da década de 80... Como podia ser possível, uma família ter dinheiro para fazer tal jardim de entrada e tantos, como ele, sem uma oportunidade nesse mundo!
Ao atravessar a porta de entrada, foi recebido por um homem aparentando bastante idade, dono de cabelos grisalhos que impunham respeito, vestido com um impecável terno preto. O mordomo, deduziu continuando o raciocínio de estar dentro de um antigo filme:
- Soube do acontecido na escola de miss Rika... Pelo visto, ela está muito machucada, mas acho que devemos levá-la para o quarto. Por favor, me ajude.
Chaz ajeitou delicadamente sua companheira no colo, antes de seguir James pelos enormes e ricamente decorados corredores da casa. Estava impressionado, nunca vira tantas preciosidades juntas! Eram quadros, vasos, pequenas esculturas... O que era aquilo por um acaso, o paraíso dos ladrões ou uma casa? E por que uma pessoa precisava de tantos badulaques, por que a casa tinha de ser tão enfeitada?
Depois de andarem por muitos corredores, James disse, na beira de uma porta:
- Esse é o quarto de miss Rika, por favor, coloque-a aí enquanto chamo o médico.
O jovem abriu a porta e, ao entrar, sentiu o misto de contemplação e revolta que o acompanhara por toda a casa: logo na entrada, seguindo uma grande tapeçaria onde se viam milhares de pequenas flores, uma pequena saleta com duas poltronas cor-de-rosa, um pufe da mesma cor e alguns aparelhos eletrônicos. Seguindo a tapeçaria e atravessando a abertura de um biombo, Chaz pôde ver a grande cama com um acolchoado cor-de-rosa, acompanhada de um jogo de criados e uma grande penteadeira no fundo, com muitos vidros de perfume e pequenas caixas decoradas. Sobre a cama, algumas bonecas e bichos de pelúcia lembravam que a dona daquele quarto não havia há muito deixado a infância e, nesta mesma cama, o marciano deixou sua companheira, da maneira mais delicada possível. Ao olhá-la, percebeu um detalhe: estava de sapatos!
- Não devia ter entrado calçada em casa...
Chaz calmamente desabotoou os sapatos de Rika, colocando-os ao lado da cama e não resistindo à vontade de acariciar aqueles pés que, apesar de escondidos pelas meias brancas, pareciam ser tão delicados. Ao olhá-la novamente, percebeu o casaco azul-marinho do uniforme, além da gravata e da camisa apertada. Não seria melhor tirá-los para deixá-la um pouco mais à vontade? Foi o que fez, com toda a delicadeza para não acordar a companheira: tirou o casaco e a gravata e, enquanto desabotoava os primeiros botões da camisa para deixá-la respirar um pouco melhor, foi invadido por uma vontade incrível de desabotoar todos os botões e ver de perto aquele corpo tão gracioso... Porém, conteve-se, não deveria fazer aquilo...
Porém, a vontade de acariciar aquele rosto não conseguiu ser vencida e passava os dedos de leve por aquela pele macia e delicada, enquanto ouvia o som delicado da respiração tornar-se um pouco mais forte, o que indicava que ela logo acordaria. Chaz tirou a mão rapidamente, o suficiente para que, no momento em que ela abriu os olhos rubros, não percebesse nada:
- Esse é... meu quarto!? E você, o que está fazendo aqui? – Disse ela, dirigindo-se ao companheiro.
- Você é bastante mal-agradecida, princesinha... Fui eu quem te trouxe até aqui – Chaz era ríspido.
Os olhos rubros, um pouco desconcertados, olharam para algum ponto distante perdido no horizonte, enquanto uma palavra, difícil de ser dita pelos donos de orgulho férreo, lhe subia pela garganta:
- Obrigada...
- Eu não tive outra escolha e, agora que acordou, não tenho mais o que fazer aqui.
A voz de Chaz era mais fria do que o gelo e o cavaleiro de Marte deixou o quarto sem olhar para trás, mesmo encontrando com James no corredor não parou e nem olhou para trás. Havia centenas de pequenos objetos de valor e vasos por seu caminho e era um ladrão, mas o que importava? O que mais queria naquele momento era sair dali... Aquele ambiente o sufocava, mesmo que Rika estivesse ali, precisava sair para tomar um pouco de ar.
Ao, finalmente, conseguir chegar na rua, olhou com nojo e uma certa contemplação para a casa ao longe e, influenciado por suas habilidades com escalada, começou a procurar a maior das árvores daquela rua. Se sua princesinha estava naquele palacete, então era melhor arranjar algum jeito de vê-la.
Mas que pensamentos eram esses? Sua? Sua princesinha? Essa vontade de vê-la a todos os momentos que lhe deixava maluco? A vontade de que estivesse sempre bem, a preocupação com seus ferimentos, o cuidado... o que era isso? Até mesmo a maneira de que a desejava... Não era apenas seu corpo em uma satisfação efêmera o que queria, era todo o seu ser e para sempre a seu lado! E por que sentia isso por alguém que nunca fizera nada por ele?
Que sentimento era esse, afinal?
A escola de ensino médio de Juubangai atacada por um monstro naquele dia estava tomada por homens da polícia e defesa civil, enquanto alguns alunos davam depoimentos, pistas tentavam ser encontradas e os corpos dos cinco estudantes mortos eram retirados. Além do tempo necessário para algumas reformas em áreas danificadas da escola e de toda a confusão da investigação, não haveria aulas também por algum tempo por motivo de luto.
- Então estávamos lá almoçando... Começou a gritaria... Saímos correndo e vimos o monstro atacando nossos colegas! – Naru disse, abraçada a seu namorado Daisuke, com lágrimas nos olhos, antes de começar a chorar novamente.
- Nunca tinha visto nada parecido, só nos filmes de televisão! – Kitsune disse.
O policial que colhia os depoimentos dos alunos coçou a cabeça antes de prosseguir com as perguntas. O que era isso, mais um para a coleção de ataques estranhos que andavam ocorrendo na cidade? Monstros? Como as investigações mostravam, era melhor continuar na hipótese de um grupo terrorista que andava provocando alucinações coletivas nas pessoas com algum tipo de substância.
Akio estava sentado na porta da sala de treinamento de esgrima, com o olhar perdido ao longe, pensativo. Teria tudo sido um sonho? Não, os ferimentos em suas mãos, alguns arranhões feitos quando caíra, estavam ali para provar que era realidade. E a garota linda que o salvara, além dos outros guerreiros? Gostaria de tê-la ajudado quando se feriu, mas estava paralisado pelo medo. "Paralisado pelo medo!", não pôde deixar de pensar novamente, enquanto balançava a cabeça negativamente. Não treinava táticas de luta na esgrima, não tinha derrotado o antigo presidente nas primeiras semanas de aula por sempre ter sido o melhor esgrimista de seu antigo colégio? Que belo treinamento era esse, que na hora de ajudar uma bela garota o fazia fraquejar!
Kyoko aproximou-se do namorado, estivera preocupada pelo ocorrido, por ele ter ficado para trás por sua causa! Ao aproximar-se, percebeu a distância de Akio. Seria por ela, pensando no que ela o fez passar?
- Me desculpe por ter te atrasado, Akio, fico tão feliz em ver que você está bem!
A jovem líder de torcida aproximou-se do namorado, porém não conseguiu fazer com que seu olhar voltasse-se para ela. Nunca vira Akio daquela maneira, ele devia estar realmente irritado com ela! Uma lágrima escorreu por um de seus olhos, enquanto pegava a mão de seu amado:
- Akio, fale comigo! Não fiz por mal, prometo nunca repetir!
Só naquele instante Akio percebeu que a namorada estava próxima e, enquanto tocava sua mão de leve com uma das mãos e com a outra afastava uma mecha da franja vermelha do rosto, disse:
- Faz muito tempo que você está aqui, Kyoko? Estou tão distraído que nem percebi...
A garota sentiu uma pressão em seu peito tão grande que mais algumas lágrimas lhe desceram pela face. Ele nunca esteve tão distante, há algum tempo bastava que ela se aproximasse um pouco para ele vir todo cheio de sorrisos e amabilidades! O que estava acontecendo com seu amado?
- Não, Akio...
- Estava preocupado com você, mas vejo que está bem. E nossos colegas, estão todos bem?
- Sim, encontrei com as meninas agora há pouco... Até onde soube, as vítimas foram três meninos do terceiro ano, um menino e uma menina do segundo... Mas com nossos colegas está tudo bem.
- Viu Tenoh-san por aí?
Kyoko sentiu a alma gelar ao ouvir esse nome, dessa vez de ódio. A maldita gaijin de novo! Era por causa daquela desgraçada, era por ela que Akio estava distante, que se afastava! Maldita!
- Não...
Sua vontade foi completar a frase: "Não... E bem que gostaria que ela tivesse morrido!", mas conteve-se. Akio ofereceu o braço para que saíssem dali, enquanto Kyoko tinha pensamentos de ódio. Era guerra? Pois bem... iria mostrar que era melhor do que aquela garota e conseguiria a atenção de seu namorado novamente!
Enquanto isso, em um dos muitos corredores da escola, aquele que levava ao registro escolar, uma mulher de cabelos azuis presos em um coque, vestindo um blazer vermelho, usando óculos escuros apesar de não haver sol naquele lugar, andava apressada. Devia ser por ali... Ao encontrar a sala de registro, entrou, como se fosse uma funcionária de muitos anos daquele lugar.
Tinha de agradecer o fato de humanos serem tão burocráticos! Um departamento apenas para fichas de alunos, como isso era útil! Claro que havia censos e registros em seu povo, mas estavam longe de ser o que eram entre os humanos... E não deixava de ser interessante que estivesse em uma sala, mexendo em documentos confidenciais, registros de alunos que passaram e passavam pelo colégio, como se fosse mais uma secretária.
Após alguns minutos de procura, foi dar no arquivo de alunos recentemente transferidos e encontrou algo interessante, o objetivo de toda aquela busca:
- Sarah Granger... Recém-transferida, iniciando as aulas no dia de hoje... Endereço em Tóquio... Nascimento: 27/02/1972 em Tel Aviv, Israel...
O olhar da serva do Castelo da Escuridão perdeu-se um pouco entre os arquivos e pastas, enquanto pensava já ter ouvido falar naqueles lugares citados pela ficha quando estudava sobre os humanos... Também chegara a uma conclusão interessante e útil: se queria descobrir mais coisas, mais detalhes e pistas e elaborar um bom plano, tinha que ir até o local indicado pela ficha... E era o que faria, naquele instante. Por que não descobrir tudo o que fosse possível sobre aquela garota, principalmente o que poderia facilmente ser usado contra ela?
Apenas uma questão atravessava as conexões neuroniais da serva, enquanto preparava-se para teleportar-se: há algumas semanas, fora divulgado entre os servos que Neptune Pirate Knight estava morto, inclusive a serva responsável pelo serviço foi agraciada com um generoso prêmio! Como agora aquela garota era Neptune, se este tinha sido eliminado e a máquina detectora de energia latente nunca, absolutamente nunca se enganava, era de uma tecnologia antiga e a prova de erros tão simples?
Rika estava deitada em sua cama, enquanto calmamente lia um livro recomendado pelo professor de História, um romance histórico, enquanto uma de suas mãos encontrou-se levemente com uma de suas costelas, apenas para chegar à conclusão de que ainda doía o simples toque e, se não fosse a paralisação nas aulas devido às conseqüências do ataque, certamente não conseguiria assistir aula nenhuma e perderia conteúdo... Não que fosse uma aluna ruim, longe disso, mas não podia facilitar, já que tinha se transferido há pouco tempo e sua nova escola exigia bem mais de seus alunos do que a antiga, ainda na França.
Seus olhos rubros rapidamente olharam para a grande janela no fundo de seu quarto, procurando por alguma coisa na grande árvore próxima a sua janela. Que estranho, tivera uma sensação tão estranha de estar sendo observada! Nos últimos três dias, desde que se machucara, aquela sensação persistia... Tão estranho! Pior era sentir, de certa forma, que o que a observava não era uma ameaça...
"Devo estar ficando maluca...", pensou antes de colocar o livro em sua cabeceira, parando para respirar. Porém, a sensação de que havia alguém no quarto foi acompanhada por uma voz bastante familiar:
- Ohayo! Como passou a noite?
- Cassie-chan!
Rika abriu um longo sorriso ao ver a amiga na entrada de seu quarto, animadamente vestindo jeans e uma camiseta, com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e uma expressão marota. Realmente, ela tinha perdido quase toda aquela seriedade de "gênio incompreendido"! Podia até mesmo vê-la vestindo o uniforme escolar e estudando em sua classe... Porém, até sabia o que acontecia à amiga, que também acontecia com ela e com Ryo e podia facilmente ser notado: estavam... perdendo suas máscaras. As proteções contra agressões, pessoas, contra a própria vida. E isso era muito bom, pois assim até mesmo podiam respirar melhor! O que uma amizade não era capaz de fazer?
- Passei bem, não está doendo tanto... Mas não aguento mais estar presa a essa cama, já que não aguento me mexer muito...
- Bom, meu Storm-chan está um tanto nervoso por não terem avisado a ele do monstro no colégio... Acho que ele está levando essa coisa de líder meio a sério demais, tenho até medo disso.
- Não se preocupe, já passa. Além disso, principalmente para ele, para Jack, para você... Vocês têm seu próprio mundo, têm algumas responsabilidades adicionais já que trabalham! Até mesmo Ishtar. Que direito temos de simplesmente chamá-la no meio de uma aula, que explicação ela daria para sair do colégio? E se acontecesse alguma coisa, eu e Ryo saímos bastante machucados dessa, qual explicação daríamos aos pais dela?
Cassie sorriu, enquanto se aproximava da cama de leve somente para dizer, em voz baixa e um tanto envergonhada:
- Beijos franceses são tão... bons! Não imaginava que podiam ser assim!
Rika riu um pouco da vergonha da amiga, antes de comentar:
- São menos frios que os ingleses, com certeza!
- Você... já... beijou assim, ne?
- Não vou dizer que não porque estaria mentindo, mas... nunca me importei muito, não foram com pessoas que eu realmente gostasse ou desejasse. – Rika tinha o olhar perdido em algum ponto à sua frente. – Mas só falo uma coisa: se você tem amor e confiança, não há mal nenhum em ir além dos beijos com Storm...
- Eu... eu já... eu já pensei nisso – Cassie estava completamente vermelha de vergonha.
- Só não vai se esquecer de tomar todos os cuidados quando chegar a hora né!
- Claro que não, Rika-chan! Tudo o que não quero, como um plano de vida e principalmente agora, é ter um filho! Crianças, bagunças... não, não para mim!
Enquanto Cassie e Rika trocavam confidências no quarto, pouco abaixo, em uma grande sala repleta de estantes de livros e alguns objetos de arte, um jovem de cabelos azulados observava um grande globo terrestre de madeira, enquanto conversava com a garota sentada em uma poltrona pouco à frente. Ela estava tão bonita naquele dia, apesar da aura de tristeza sempre presente!
- Como foi seu primeiro dia de aula, antes do ataque? Gostou da escola, de seus novos colegas, dos professores?
- Foi normal, Jack... Aquela coisa de sempre: meu nome, de onde eu vim, por que estou na cidade... Não estava muito animada para conversar, porém. – O tom de voz da garota era distante, como se desse uma informação a um passante que a tivesse pedido.
- Algum garoto te chamou a atenção?
- Não seja ridículo – comentou sem alterar o tom de voz.
Era impressão sua ou além da aura de tristeza, Sarah também erguera a parede de frieza por trás de onde às vezes se escondia, quando não queria conversar ou algo a incomodava? Por que ela tinha de ser daquele jeito, por que não podia se abrir, contar um pouco mais sobre o que estava sentindo, quem sabe assim poderia ajudá-la! O que ela guardava, por que era sempre tão triste, o que tinha acontecido para que não fosse uma garota de dezesseis anos, mas um espectro?
Jack ajoelhou-se aos pés da companheira e, tocando suas mãos em uma tentativa de encará-la, com seus olhos no fundo daquele mar castanho, ele perguntou:
- Você pode me dizer o que está acontecendo?
- Não é nada...
- Estou disposto a ouvir tudo. O que foi, por um acaso minha presença a incomoda, estou sobrando aqui enquanto deveria te deixar sozinha com seus pensamentos, com aquilo que te aflige? Se for isso, saio por essa porta para não voltar mais.
- Não é isso, fique aqui... – os olhos da garota desviaram-se.
- Sarah, SARAH! – Jack a sacudia levemente. – Você não entende que estou disposto a te ouvir, se possível te ajudar? Não aguento mais essa tristeza em você, que não vai embora nunca, de modo algum! Tem algo te incomodando, tem algo que te fere, por que não posso te ajudar? Por que você não quer dizer, por que está jogando tudo isso para dentro de você da pior maneira possível?
- Você... você não entenderia! – A voz da garota finalmente mudou de entonação, agora era como se Sarah estivesse no limiar do controle e das lágrimas.
- Como não entenderia, não sou seu amigo? Pode dizer tudo o que quiser para mim, vou ouvir e tentar te ajudar, se quiser ajuda. Não gosto de te ver triste, ainda mais por não saber o que te deixa assim! Por favor, confie em mim, estarei disposto a te ajudar, sempre! Pode ser o que for, qualquer coisa, vou te entender!
Enquanto falava, Jack colocou a mão no rosto da amiga, acariciando-o levemente. Ela parecia tão frágil, mas não sabia o que fazer para que toda aquela tristeza fosse embora para sempre! Como queria vê-la feliz e animada, principalmente se fosse a seu lado! E como a mão dela estava gelada e trêmula, quando a sentiu em seu rosto! Ela o acariciava e seus rostos se aproximavam, seus olhos fechando-se lentamente, o ar da respiração misturando-se. Será que o momento por qual mais ansiara desde que a conhecera, desde que se apaixonara perdidamente iria se realizar?
- Iie.. – sussurrou Sarah antes de afastar-se, encostando-se novamente na poltrona.
Jack ficou por alguns segundos parado, ainda entendendo o que não tinha acontecido. Estava tão próximo e era tão maravilhoso senti-la, estar próximo a ela! Como queria beijá-la naquele momento, enchê-la de carícias e mostrá-la o quão belo era o mundo!
- Ele... ele não merece uma atitude dessa! – Sarah disse, com uma das mãos apoiando a testa, já que tinha abaixado a cabeça.
Jack, ainda frustrado, olhou para o relógio em seu pulso: era hora de ir, tinha avisado ao chefe que chegaria um pouco mais tarde, mas precisava ir andando! Era até bom deixar Sarah um pouco a sós com seus pensamentos, quem sabe ela não resolveria lhe contar o que estava acontecendo? Antes de sair, disse calmamente:
- Pode contar comigo para o que precisar, quando se sentir à vontade para contar o que te aflige, estarei pronto para ouvi-la. Tenho de ir agora, mas logo estarei de volta... Até mais, minha querida Sarah.
A jovem acompanhou o companheiro com os olhos em seu trajeto até fora da biblioteca, enquanto levava os dedos levemente aos lábios. Quase sucumbira a um desejo efêmero, fizera algo de que se arrependeria depois apenas por impulso! Além do que... o que sentia por ele? Era apenas amizade, não?
Além disso, e aquele que amava mais do que tudo, Samuel? Não seria de mais ninguém, era eternamente dele... E assim seria até o dia em que se encontrassem novamente... Nunca se identificara tanto com alguém como com ele, era como se fossem duas metades de alguma coisa que só tem sentido se estão juntas! E era isso... Qual era o sentido de sua vida já que ele não estava mais a seu lado?
Em uma cama, localizada em um sobrado de Juubangai onde uma família composta de um casal e suas três filhas morava, uma pilha de roupas começava a se formar, aumentando rapidamente devido às muitas peças jogadas ali a cada minuto que se passava. Afinal de contas, era um domingo e a dona daquele quarto, da cama e das roupas queria estar bem-vestida para sair com sua melhor amiga!
Melhor amiga? Na verdade, desde que ela se apaixonara e seus sentimentos foram correspondidos, estava distante... Fazia duas semanas que não saíam, conversavam mais do que três frases de uma vez ou mesmo almoçavam juntas no colégio! Não eram amigas, não cresceram juntas, não dividiam todos os segredos?
Aliás, não mais. Algumas coisas tinham acontecido e toda, ou pelo menos uma grande parte da perspectiva de mundo que possuía tinha mudado radicalmente após alguns acontecimentos... Era uma guerreira, seu destino era ser como as heroínas de mangá mahou-shoujo! Porém, se contasse para Tomoyo, no mínimo ela riria de sua cara e diria que era melhor estudar do que imaginar coisas... E também, que assunto andavam tendo ultimamente? Nenhum...
Porém, tinha de pensar em algo mais urgente no momento: sua roupa para aquela tarde! Aquele conjuntinho rosa que estava usando combinava com as plataformas roxas?
- IRIS-CHAAAAAAAAAAAAAAAAAN!
A cabeça de uma gata amarela saiu de baixo de uma blusa de malha com o logotipo de uma boyband e seus olhos encontraram-se com aquela que a chamara e estava lhe alugando por toda a tarde. Não que não gostasse de ser alugada, adorava a atenção de sua protegida... Ishtar era tão doce de vez em quando, como gostava de quando passavam a noite conversando!
- Bom, Ishi-chan, acho que não combina! Além disso, você está vulgar com esse short desse tamanho e uma mini-blusa!
- É... Tem razão!
Mais duas peças de roupa foram atiradas na cama, aumentando ainda mais a pilha e a bagunça daquele quarto, enquanto os dedos de Ishtar passeavam pelos poucos cabides que restavam à procura de algo para vestir. Íris... Era tão gostoso se abrir com ela e, por mais que negasse, como suas broncas eram necessárias e úteis! Sentia nela uma amiga, como nunca tivera, apesar do pouco tempo de convivência. No começo estranhara conversar com uma gata, mas atualmente era tão bom!
- Ishi-chan, essa roupa está ridícula!
Realmente... Saia xadrez azul com uma blusa de bolinhas não combinava muito! Íris simplesmente suspirou enquanto desviava de mais duas peças de roupa atiradas em sua direção...
No andar inferior, na sala de visitas, uma garotinha de dez anos, dona de longos cabelos de um negro profundo que os usava soltos, com um par de óculos de lentes grossas, vestindo um abrigo de ginástica, colocava chá na xícara da visitante, enquanto comentava:
- Ishi-neechan está demorando, não acha?
- Não tem importância, Geshi-chan, continuamos a conversar mais um pouco.
Tomoyo abria um sorriso amarelo enquanto dizia a frase, afinal não aguentava mais ouvir as histórias de Geshtinana, o pequeno gênio da família Aino. O que lhe interessava que a garota agora estava em um curso de alemão e tocava violoncelo? Como Ishtar conseguia suportar aquela menina?
- Demorei, Tomoyo-chan?
Por falar nela, Ishtar acabava de aparecer na porta, vestindo uma blusa preta e uma saia florida, com Íris trançando em seus pés, fato que fez com que Tomoyo suspirasse e agradecesse ter sido salva pelo gongo:
- Nem um pouco, Ishi-chan!
- Aonde vamos?
- Parque de diversões! Makoto-kun estará lá...- Tomoyo disse entre suspiros.
Ishtar lançou para amiga um certo olhar de tristeza. Pois é, o passeio acabaria assim que ela o encontrasse, Makoto-kun seria prioridade e Ishtar, esquecida. A realidade doía, não era mesmo? Porém, a venusiana colocou um sorriso no rosto e disse:
- Então vamos lá! Tchauzinho, imouto-chan!
O olhar de Ishtar, apesar de disfarçado, fora notado por uma pessoa naquela sala... Aliás, não era exatamente uma pessoa, mas entendia muito bem o que aquela expressão significava e também o que fatalmente ocorreria no passeio. Estava na hora de entrar em ação e sabia exatamente como!
Mal Ishtar percebeu, mas na grande bolsa de passeio que tirava de um cabideiro, havia mais do que uma carteira e algumas bugigangas...
Domingo... Após uma semana se recuperando de seus ferimentos, Rika saía de casa pela primeira vez, em um passeio prometido já há algum tempo e que queria muito fazer, apesar de ter conseguido se levantar apenas na sexta-feira da cama. Estava com sua irmã, apesar de pequenas visitas e conversas ao telefone, desde que a francesa chegara ao Japão era a primeira vez em que efetivamente passeariam juntas!
Na verdade, preferiria passar um dia com ela em sua casa, coisa que fatalmente ocorreria dentro de muito breve, mas o apelo das montanhas-russas, brinquedos novos para todos os gostos, pessoas e até mesmo dos sorvetes fizeram com que as irmãs mudassem os planos um pouco e fossem passear em um parque de diversões. Rika tinha doces lembranças da época em que ia com seu pai, ou mesmo James-san, em quase todos os brinquedos! Só esperava que Haruka se divertisse bastante no passeio!
Porém, o passeio não era somente entre as irmãs Tenoh: Ryo ia com elas, animado e feliz por passear com aquela que não era apenas uma amiga, mas também seu amor... Não havia no mundo garota mais bela e gentil, mais simpática e doce, mais atenciosa, mais tudo! Rika era a garota perfeita, aquela que escolhera para amar! Como sentia-se feliz em estar ao lado dela, como sentira-se lisonjeado ao receber o convite para passear no ensolarado domingo! Não que fosse um grande fã de parques de diversões, afinal de contas o simples fato de pensar em uma casa mal-assombrada provocava-lhe arrepios, mas era tão bom estar em um passeio familiar com Rika e a irmã! E como achara graça da pergunta da pequena, ao ver que ele as acompanharia no passeio: "Ryo-san é seu namorado, oneesama?". Rika enrubescera e respondera que não, mas como queria que a resposta fosse um grande e sorridente sim!
Rika tinha os olhos perdidos nos outros ocupantes do banco traseiro do carro, observando como a irmã a olhava com admiração. Ela tinha crescido bastante, parecia um menino por ser alta, forte, ter os cabelos curtos e estar vestida com uma bermuda e uma camiseta larga! Ela estava tão bonita, tinha orgulho de ter uma irmã mais nova tão graciosa! Seus olhos avançaram um pouco e encontraram Ryo, tentando disfarçar seu olhar para ela. Fizera bem em chamá-lo para passear, afinal de contas seria bom para ele tirar a cabeça dos livros e colocá-la em alguma outra coisa, como diversão, por exemplo. Percebia que ele já se entrosava mais com os colegas de classe, mas ele precisava ver mais e mais gente, conviver com mais pessoas, além disso, o achava uma companhia tão agradável! Principalmente, também, depois dos fatos ocorridos na escola no início da semana, em que ele também se ferira um bocado. Era até engraçado pensar que não se lembrava de outra ocasião em que ele estivesse vestido com algo diferente do uniforme escolar...
- Senhorita Rika, estamos chegando – disse o motorista.
- Então pode nos deixar aqui... Pode deixar que telefono na hora de ir embora, Hajime-san!
Os três jovens desceram do carro, observando a longa fila que precedia a entrada do parque, em meio de um comentário de Ryo sobre como aquele dia estava convidativo para um passeio, por isso estava tão cheio, enquanto Haruka assentia com a cabeça.
- Acho bom irmos para a fila... E isso porque viemos cedo! Inclusive, convidei Sarah para vir conosco, mas ela disse que vinha mais tarde por ter de ajudar Jack e Storm com a limpeza do apartamento...
- Sarah-san é linda... – Haruka comentou rapidamente.
- Além de linda é... – Ryo iria tecer um elogio à companheira, mas faltava-lhe algum adjetivo. Sarah nunca lhe parecera divertida, extrovertida, aberta, feliz, satisfeita... Como podia fazer um elogio real? Ante os olhares curiosos das irmãs que o acompanhavam, concluiu do jeito que lhe parecia mais honesto -
Rika e Haruka entreolharam-se, concordando com a afirmação de Ryo, enquanto a francesa colocava levemente a mão sobre a região lombar, apenas para lembrar que estava chegando a hora de tomar um analgésico.
- Só espero que essa fila ande logo – foi tudo o que pôde comentar.
Cassie estava jogada no sofá da sala, vestindo uma camisola, debaixo dos cobertores e com um pote de sorvete nos braços, assistindo um filme qualquer que estava passando na televisão. Podia ser um lindo domingo de sol do lado de fora, mas o que interessava? Estava em casa e não sairia daquele estado de recolhimento tão cedo, afinal de contas não fora isso o que mais ouvira nos últimos dias? "Sinto muito", "não temos vagas", "não estamos interessados"...
Porém, no fim das contas, fora o último de seus entrevistadores que lhe dera um motivo realmente bom para que alguém com o currículo que possuía não ser contratada por ninguém: não tinham como dar um cargo de confiança a alguém com uma experiência de vida nula! Ou seja, fora lhe jogado na cara e com todas as letras que era uma criança!
Sempre soubera que se trabalhara com Tomoe-sensei fora por respeito a seus pais e não por seus méritos, mas já imaginava-se pronta para ser aceita em outros lugares, com outras pessoas! Porém, pelo jeito ainda não fora aceita... E qual era a mancha no currículo impecável, que incluía inglês não apenas fluente, mas perfeito; um diploma de graduação na Toudai e uma tese defendida na mesma universidade, senão a pouca idade? Chegava a ser injusto... Por que os "adultos" sempre se achavam os donos da verdade, perfeitos e incontestáveis, por que não podiam aceitá-la? Preconceito idiota!
Os pensamentos foram cortados pelo barulho irritante da campainha, que fez com que a jovem derrubasse seu pote de sorvete no chão, já que não esperava pela visita. Quem poderia ser, não estava esperando ninguém! Era dia de faxina na casa de Storm... Era engraçado imaginá-lo vestindo um avental e com um espanador na mão, além de um pano amarrado na cabeça para evitar que o penteado se desfizesse! "Que penteado?", pensou rapidamente. Os cabelos naturalmente bagunçados eram tão lindos, era tão gostoso ficar acariciando-os...
Além disso, onde estava a droga de porteiro que nem anunciava a visita?
- Que é? – Disse ela com o tom de voz mais arredio que conseguiu, com apenas uma fresta da porta aberta.
- Serviço de limpeza – aquela voz não lhe era estranha...
- Apartamento errado, não pedi nenhum... – a frase foi interrompida quando Cassie percebeu que um botão de rosa era gentilmente colocado no pequeno vão da porta aberto. Era ele?
- Eu sei que não...
A porta se abriu de leve, empurrada pela mão de um belo rapaz do outro lado da porta. Ele tinha seu encantador sorriso e, apesar de parecer cansado, tinha uma expressão de alegria imensa no rosto. Andara preocupado com a namorada, ela estava um tanto triste com o fato de não conseguir trabalhar, precisava relaxar e se divertir um pouco. Era uma pena ter deixado que Sarah fizesse muito do serviço que cabia a ele em sua casa, mas sentia muito, precisava vê-la, precisava fazê-la sorrir e relaxar da tensão que colocara sobre si própria.
No dia anterior, ocorrera um fato interessante: quando foi entregar alguns papéis em um escritório, acabou por ganhar, de um promotor que ali estava, dois passaportes para um famoso parque de diversões. Não tinha entendido exatamente o motivo, mas era uma boa oportunidade de ter um encontro a dois com ela, ainda mais em um lugar que desejava visitar! Há quantos anos não passava nem perto de parques de diversões?
- Tenho um convite para fazer – Enquanto sorria, Storm balançava no ar os passaportes.
Cassie sorria novamente para o namorado, porém olhou para baixo rapidamente apenas para perceber o quanto estava desmazelada! Isso não era maneira de apresentar-se para seu amado, ele merecia vê-la arrumada e bonita!
- Aceito, mas... volto já!
Enquanto a garota corria para o quarto para trocar-se, Storm lançou um olhar por toda a sala, percebendo a bagunça deixada pela namorada na sala, talvez por ser um domingo ela não estivesse se importando muito com limpeza, mas aquela sala estava um pandemônio! O cobertor espalhado no sofá, a televisão ligada, uma meleca cor-de-rosa que um dia foi um sorvete pelo chão... Tinha de ajudá-la e, de certa maneira, expiar-se por ter fugido da faxina de sua casa.
Muitos minutos depois, Cassie ainda terminava de abotoar os brincos enquanto aproximava-se da sala. Storm deveria entender o motivo da demora para se arrumar, afinal de contas ele não iria sair com uma namorada mal-arrumada! E arrumar-se nem era apenas por ele não... Era também para subir sua auto-estima, deixá-la um pouco mais animada para seguir com sua vida, mesmo que por um motivo que para si era bastante idiota não podia fazer o que gostava!
E qual não foi a surpresa da garota ao entrar na sala e ver o cobertor dobrado no canto do sofá e o chão limpo do sorvete? Ao olhar para o namorado brincando com as chaves de casa no sofá, só pôde olhá-lo com espanto e dizer:
- Não era sua obrigação...
- Mas achei melhor fazer.
- Obrigada, então...
Storm levantou-se e aproximou da namorada com um sorriso que mostrava toda sua apreciação à produção um tanto demorada, pegando sua mão de leve e levantando seu braço, fazendo com que ela se virasse para que ele visse toda a roupa:
- Está linda, sabia?
Cassie sorriu antes de responder com um longo beijo, acompanhado de algumas carícias no namorado, que as retribuía calorosamente. Porém, antes que a demonstração de carinho esquentasse mais, a garota lembrou do trabalho que dera para se arrumar e que queria ir ao parque, afinal de contas! Afastando-se levemente com um último beijo de leve, disse, com uma enorme gota de suor na testa:
- Bom, acho que nosso programa para hoje é outro, não é?
Storm assentiu com a cabeça, também com uma gota enorme na testa. Não que ela não o deixasse louco, mas além de já ter reservado o domingo para levá-la ao parque, tinha um certo medo de acabar magoando-a, apesar de que já tinham dado longos beijos e as carícias... Sendo direto ela era bem fofa, no sentido literal da palavra!
- Por que você está ficando vermelho?
- Vermelho? – O joviano assustou-se, interrompendo imediatamente os pensamentos. – Acho que... temos de ir logo, senão vai ficar muito tarde!
Cassie deu o braço para o namorado, que a guiava calmamente pela sala rumo à porta, pronto para levá-la para um belo passeio em um dia de sol agradável e convidativo, muito propício a sair, visitar novos lugares e divertirem-se, principalmente juntos.
As ruas estavam cheias de pessoas e carros, seguindo sua vida e rotina normais pela cidade, em mais um dia comum e sem grandes novidades, mesmo que o fantasma de uma guerra pairasse sobre aquele solo, fazendo com que uma sensação total de paz tornasse-se impossível.
Entre essas pessoas, uma figura se destacava: estava com um sobretudo pardo, óculos escuros e os longos cabelos azuis presos em um coque no alto da cabeça, observando tudo com o máximo de atenção e cuidado, não apenas por fazer parte do seu trabalho, mas por interessar-se por novas culturas e era uma excelente oportunidade para observar um pouco aquela região enquanto fazia suas pesquisas. Estava em uma região que aparecera muito enquanto pesquisava as raízes da humanidade no Pós-Milênio, região onde grandes civilizações se ergueram...
Porém, não era para isso que estava ali pesquisando, mas para que seu trunfo tivesse alguma utilidade. Seu trunfo... como era bom falar isso! Como era bom saber que os idiotas da Sala de Controle não tinham a informação privilegiada que descobrira, que se tudo ocorresse como estava planejando, a Mestra estaria desperta muito mais rápido do que aqueles idiotas sequer sonhavam e ainda por cima ela teria muito para ouvir e a justiça teria de ser feita!
Também nesse sentido a estada em Israel estava sendo boa, tinha descoberto muita coisa sobre o passado de Sarah Granger! Coisas muito interessantes mesmo, que podiam ser facilmente manipuladas a seu favor se necessário! Não poderia ter descoberto a identidade de um Pirate Knight melhor, provavelmente nenhum outro lhe daria tanto material de pesquisa! Não estava nem mesmo interessada em descobrir a identidade dos outros, só aquela garota já era muito interessante e serviria perfeitamente para seu plano!
Só faltavam alguns detalhes a serem resolvidos naquele dia mesmo, já que já tinha dados o suficiente para realizar aquilo que planejara. Depois era só voltar para a Sala de Comando e pegar o material necessário, seu plano estava pronto, era hora de agir!
Enquanto isso, na Sala de Controle do Castelo da Escuridão, uma dupla de generais observava os monitores e algumas luzes que se acendiam e apagavam rapidamente, indicando algumas coisas que nem chamavam a atenção muito mais do que um monitor específico, o que indicava a atividade dos servos fora do Castelo:
- O que Aneurocito está fazendo nesse lugar enquanto ela deveria estar aqui, trabalhando? – Cuprum perguntava em voz alta algo que estava entalado em sua garganta já há algum tempo.
- Tenho a impressão de que as asinhas dela estão grandes demais, temos de cortá-las... Ora, ela tem responsabilidades, a missão dela é importante demais para ficar zanzando por aí e ainda por cima gastando uma energia que não podemos desperdiçar! E a Mestra, como é que fica? Temos de despertá-la, não ficar gastando energia com passeios!- Sílica esbravejava, acertando o painel em sua frente com o punho.
- E o que fazemos agora? Sabe que temos como trazê-la de volta imediatamente.
- Não, acho que ela volta. Por agora, acho que temos de tomar outro tipo de atitude...
- E qual seria essa atitude?
- Temos de aumentar o nível do reservatório de energia, principalmente porque com a ajuda de certos membros desperdiçadores – Sílica enfatizou a última frase enquanto apontava com raiva para o monitor que indicava a localização de Aneurocito - pode ser que daqui a pouco entremos em pane por falta de energia!
- Se é isso o que quer... MONSEN, APRESENTE-SE!
Um monstro idêntico a um urso polar, porém de pele completamente prateada e garras um pouco mais longas materializou-se na Sala de comando, na frente de Sílica e Cuprum. O general disse, um pouco afetado, apontando para um ponto em um mapa que brilhava em um monitor:
- Vá para esse ponto e pegue o máximo de energia possível, entendeu?
- Monsen! – O monstro repetiu em afirmação.
Após o urso teleportar-se para onde seria útil, Sílica lançou um olhar de quem tinha certeza do que estava fazendo para Curprum, que o retribuiu prontamente, como se dissesse que se Aneurocito queria complicar um pouco as coisas e ainda por cima se dava ao direito de desaparecer no meio de trabalho sério, eles tinham muito bem como agir...
Uma garota olhava desconsoladamente para a grande fila em sua frente, perguntando-se novamente por que ainda estava nela já que tinha ódio mortal a montanhas-russas, mas lembrando do motivo que a trouxera ao parque e fizera com que fosse abandonada naquela fila. Não era exatamente com ela que sua amiga queria sair, tudo era apenas um pretexto para se encontrar com o tal do Makoto-kun... Ela não passava de um jogo, uma desculpa, um álibi... Mas o pior não era nem isso, era saber que fora ao passeio consciente de sua posição, mas com a esperança vã de receber atenção da amiga.
Aliás, amiga? Será que, depois de tudo que estava acontecendo com ambas, podia ainda realmente chamá-la dessa forma?
Os pensamentos de Ishtar foram cortados no momento em que percebeu que a fila andava e estava quase sem escapatória: seria a próxima a ir. E o que a impedia de sair daquela fila naquele instante, já que sentia calafrios só de olhar para o brinquedo em sua frente e ouvir os gritos daqueles que estavam lá?
- Então você gosta de montanhas-russas, garotinha?
Ishtar disfarçadamente olhou para trás, apenas para que o pensamento de "Só faltava essa" aparecer em sua mente: o idiota pervertido da porta da escola! Como tinha vontade de dar um tapa nele, aquele arzinho de "eu sou melhor que você" era simplesmente nojento!
- Isso não é da sua conta!
- Bom, garotinhas como você não me parecem muito corajosas... Para mim, você gosta de ficar em solo firme, bem longe de alturas. Realmente, é necessário estômago para ir a uma montanha-russa dessas e você, neko-chan, – o rapaz passou de leve os dedos pelo cabelo de Ishtar, que se esquivou rapidamente – é delicada demais para aguentar uma dessas.
- Quem te deu liberdade para me tocar, hein, seu idiota? E ainda por cima tentar dar palpite em coisas que você não conhece! Pois saiba que eu vou nessa montanha-russa sim!
O garoto apenas deu um sorriso cínico, que queria dizer muito mais "como pessoas são manipuláveis" do que qualquer consideração sobre a "neko-chan" em sua frente, que andava irritada seguindo a fila. Por sua vez, a venusiana dava passos irritados... Aquele idiota tinha mexido no seu orgulho! Agora para ela era uma questão de honra ir àquela montanha-russa! E não deveria ser tão ruim assim, não estava vendo as pessoas saírem até mesmo com sorrisos de satisfação?
A garota respirou fundo, enquanto dava passos decididos até o carrinho, sentando-se enquanto um dos funcionários do parque a ajudava com o colete de segurança. Agora não tinha mais escapatória, não tinha como fugir! Era hora de começar a rezar, isso sim... Quando o carrinho começou a andar, fechou os olhos e novamente respirou fundo, esperando pelo que viria. "Ah, até que é calminho subir...", pensou, enquanto olhava o parque diminuir sob seus pés. Mas que agonia, a subida não acabava nunca! Porém, quando já estava achando que ia chegar em Vênus, uma brusca descida fez com que seu coração saltasse pela boca:
- AI! AI! AI! AAAAAIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!
O resto da viagem foi uma mistura de pânico e gritos de terror, enquanto o vento fazia com que seus longos e brilhantes cabelos castanho-claros se agitassem e roçava seu rosto fortemente, o que apenas a fazia gritar ainda mais. Quando o carrinho finalmente voltou ao ponto inicial, alguns minutos após ter saído mas que soaram como uma eternidade, a garota saiu um pouco pálida e trêmula, sendo ajudada por um funcionário do parque a descer as escadas que a levariam para fora do brinquedo e apenas retomando a noção do acontecido alguns minutos depois, ao encontrar-se sentada em um banco alguns metros à frente.
Os olhos estavam pesados de lágrimas, a vontade era de começar a chorar naquele instante, não apenas por ter seguido seu orgulho e se arrependido, mas por estar sozinha, não ter como e com quem se consolar, sentir-se um objeto, um fantoche, uma marionete! Sim, só mudou de comando, primeiro Tomoyo para levá-la até o parque e depois... aquele idiota!
- Pelo amor de Serenity, tirem-me daqui!
Ishtar olhou para a sua bolsa, espantada. Aquela voz lhe era familiar e parecia vinda dali, mas como isso seria possível? Será que chacoalhar na montanha-russa tinha afetado seus neurônios e estava tendo ilusões auditivas? O jeito era abri-la e concluir que tudo não passava de uma impressão, mas qual não foi sua surpresa ao ver uma gata amarela com uma lua crescente na testa sair lá de dentro ao abri-la?
- Íris-chan?
- Estava preocupada com você, Ishi-chan! Daijobu?
- Daijobu... Mas como veio parar aqui?
- Senti que precisava de mim, percebi seu olhar ao sair de casa, pressupus que tudo isso fosse acontecer... Queria vir só para te dizer que não está sozinha, Ishi-chan... Você tem pessoas que realmente se importam com seu bem-estar e fariam de tudo para te ver feliz. Não se esquente por uma garota tola que não sabe a besteira que está fazendo, mas sim com quem realmente se importa com você! Eu, suas irmãs, seus pais, seus novos amigos... todos estaremos aqui para quando precisar de nós, entendeu? Você não está sozinha e nem precisa agir como uma boneca para provar o contrário a si mesma!
Os olhos de Ishtar pesavam e algumas lágrimas começaram a rolar vagarosamente pelo belo rosto, imediatamente limpas pela garota, que disse calmamente:
- Obrigada...
- Agora vamos lá! Vá tomar um sorvetinho que eu infelizmente tenho de voltar pra bolsa... Ai,ai; bem que podia haver um parque felino aqui...
Ishtar sorriu levemente enquanto ajudava Íris a entrar novamente em sua bolsa, pensando que a gata tinha razão! Tomoyo infelizmente provara que a amizade e cumplicidade de muitos anos tinha chegado ao fim e agora era hora de respirar novos ares, conviver com seus companheiros e não ficar mais sozinha! Sim, as coisas mudavam, para o bem ou para o mal, era hora de adequar-se a sua nova vida!
Alguns metros adiante, um garoto tinha alguns pensamentos semelhantes enquanto saboreava um sorvete de chocolate sentado em um banco próximo à casa mal-assombrada: era hora de adequar-se a sua nova vida! As coisas estavam mudando, as coisas tinham mudado! Como tudo tinha melhorado desde que ela lhe mostrara que podia conversar, podia misturar-se, que era bom conversar um pouco, conviver com os colegas, sair da concha! Rika era um anjo... Um belo anjo, por sinal. Belo demais, era uma beleza que o tomava, que fazia com que a observasse por horas, com que seus olhos não conseguissem ver qualquer outra coisa quando ela estivesse perto!
Não apenas a beleza sufocante, aquele corpo perfeito que seria capaz de seduzir até mesmo um rochedo, mas também sue caráter! Como seu sorriso, quase sempre presente, era belo, como ele refrescava, era como o sol nascente após uma noite longa! Era a brisa de um dia quente, era um bálsamo! Ela o tratava tão bem, como ninguém nunca havia antes, dando uma atenção a ele que nunca dera, um carinho que não recebia de mais ninguém!
Como a amava, como a queria não apenas como amiga, mas como mulher para passar dias e noites a seu lado! Venderia sua alma para ter nem que fosse um toque, nem que fosse um beijo dela! Como a queria, como ela tinha a capacidade de remetê-lo ao mais doce dos paraísos!
- E então, Ryo-kun, demoramos muito?
A surpresa de ouvir sua voz, ainda mais quando pensava tão ardentemente nela, foi imensa, a ponto de fazer com que o jovem mercuriano desse um pulo do banco onde estava sentado.
- Que é isso, Rika-chan...
- Ryo-san esqueceu de tomar o sorvete e ele derreteu! – Haruka disse, rindo e apontando para uma grande mancha marrom na calça do jovem.
Ryo ficou completamente vermelho e, levantando-se para dar a explicação de que ia limpar o sorvete, saiu correndo para o banheiro mais próximo, enquanto as irmãs Tenoh trocavam alguns risos. Alguns minutos depois, quando Ryo voltou, Rika disse delicadamente:
- Acidentes acontecem, aprenda a rir deles e não repeti-los!
- Mas eles nos matam de vergonha assim mesmo... – disse Ryo ainda completamente sem-graça.
Haruka, para quebrar o clima pesado, tomou a mão de Ryo e, enquanto o puxava na direção da casa dos espelhos, perguntava animada:
- Por que não foi com a gente à casa mal-assombrada?
- É porque... bom, está longe de ser meu lugar preferido num parque de diversões!
- Ah, então você tem medo!
- Se prefere chamar assim...
Se Ryo antes estava vermelho pelo incidente com o sorvete, agora estava completamente roxo! Sim, tinha medo da casa mal-assombrada, e daí? Era ridículo ter medo de monstrinhos de borracha perto do que tinha de enfrentar como Mercury Pirate Knight, mas e daí? Era humano ter medo!
Porém... a vergonha era maior ainda ao ver que Rika dava risadinhas de leve, porém perceptivelmente segurando-se para não arrebentar em gargalhadas...
Um casal de namorados observava calmamente a enorme cidade que se erguia sob seus pés, naquele que era o ponto mais alto de uma roda-gigante, compenetrados na bela visão e também em sentirem-se tão juntos. Mesmo sendo uma tarde quente, era tão bom sentirem o calor um do outro, a proximidade um do outro!
- Parece que todo mundo teve a mesma idéia que você- disse Cassie apontando para baixo e mostrando o parque lotado.
- Mas nenhuma dessas pessoas está junto da garota mais adorável desse mundo- disse Storm, acariciando de leve o ombro da namorada.
- Você é um bobo, sabia? – Cassie disse sorrindo, enquanto tocava os lábios do namorado levemente com os seus.
- Bobo nada! Só sou o cara mais sortudo desse mundo...
A plutoniana encostou a cabeça de leve no ombro do namorado enquanto acariciava sua mão, observando os prédios ao longe. Era tão bom ficar tão perto dele, como queria ficar assim por toda a eternidade! Eternidade... Era uma palavra pesada... Porém, não podia encontrar melhor para definir seus sentimentos.
Seus pensamentos, assim como seus olhos, estavam perdidos, porém a idéia que não lhe abandonava fazia semanas voltou: por que todos aqueles fatos estranhos estavam ocorrendo, qual era o sentido? Por que monstros, por que mortes, por que guerreiros, qual era o sentido de tudo aquilo? Era tudo em vão, apenas estavam ali à toa? Claro que não, mas por que tudo aquilo estava acontecendo, qual era a razão?
Seus olhos enturvaram-se e, quando conseguiu ver novamente as coisas, não estava mais no parque: era um lugar estranho, parecia uma sala, havia uma mulher ao fundo, podia ver que Storm estava concentrado em uma luta e mesmo ferido, via também que um raio se aproximava dele, mas tudo parou de repente quando ouviu o barulho de um cajado que tocava o chão.
A visão foi-se tão rápido quanto veio e deixou apenas uma sensação horrível: a de que Storm seria ferido! O joviano sentiu que a namorada apertava sua mão em desespero e perguntou:
- O que houve?
- Vai... haver... algo... terrível! – A voz da garota estava embebida em desespero.
- Calma...- Storm sussurrava de leve em seu ouvido. – É o calor, não vai acontecer nada!
Cassie deu um sorriso leve, mas não conformado. Quem dera ser apenas um fruto do dia quente! Não ia deixar que nada de ruim acontecesse com sue amado, nem que tivesse de pagar com a vida para isso!
- Vamos tomar um sorvete?
Storm guiava a namorada delicadamente para fora da roda gigante e apontava uma barraquinha de sorvetes pouco à frente, puxando-a também delicadamente pela mão. Estava adorando o parque, já tinham ido a muitos brinquedos, fazia muito tempo que não se divertia daquela maneira! Era bom desligar-se um pouco da realidade, nem que fosse por apenas um domingo, era bom retomar a infância, mesmo que a sua não tivesse sido tão cheia de brinquedos e passeios! Era bom fazer aquilo que sempre sonhara, mas nunca tivera uma oportunidade, quando iria sonhar que passearia em um parque com aquelas proporções? Nunca imaginara até mesmo que um parque com tais proporções podia existir! Nem em seu melhor sonho de infância havia um parque desse tamanho, com essa variedade de brinquedos...
- Storm, acho que temos problemas!
O apelo da namorada fez com que o rapaz saísse de seus pensamentos e percebesse que se instalara uma correria no parque, acompanhada de gritos de pânico e desespero geral. Justo no dia em que queria ter folga algo errado estava acontecendo! O jeito era puxar a namorada pela multidão até encontrarem algum lugar para se transformarem, no caso um depósito onde "somente pessoal autorizado" podia entrar.
- Acho que não podemos entrar aqui... – disse Cassie, olhando para a placa na porta.
- E eu acho que é uma emergência. Vamos!
Após entrarem na sala, Cassie aproximou o comunicador da face e, após apertar um botãozinho disse:
- Parece que temos problemas no parque de diversões, venham para cá!
- Poder de Júpiter, VENHA A MIM!- Storm já se adiantava na transformação.
Pouco depois, Pluto e Jupiter Pirate Knight saíam do depósito e, como a correria já tinha cessado, um monstro parecido com um urso polar era visível e estava indo na direção de uma criança, provavelmente perdida de seus pais na confusão, que chorava mais por medo de estar sozinha e não entender o que estava acontecendo do que propriamente por medo do monstro. Pluto sentiu o sangue gelar e, afastando um pouco as mãos do corpo como se segurasse um bastão, concentrou-se até que seu cetro aparecesse, o que não demorou muito. Era mais fácil bater com ele, isso não podia negar...
- Deixe-o em paz! – disse Pluto, que rapidamente tinha se posto na frente da criança.
O urso respondeu com um ataque de raios prateados, que não podiam ser desviados sem que a criança fosse atingida pro algum deles. Pluto estendeu o braço:
- Chrono... – O movimento seguinte era semelhante ao que faria se quisesse simplesmente parar o ar. - !
Os raios pararam de repente quando atingidos pela onda de distorção do tempo, o que paralisou-os e dispersou-os. Pluto gritava para Jupiter, paralisado pela ação rápida da companheira:
- Leve esse menino daqui e deixe o resto por minha conta!
- Mas...
- Anda logo!
Jupiter, pulando, pegou o garoto no colo e saiu do raio da ação para deixá-lo em um lugar seguro, enquanto Pluto segurava seu cetro de forma a esperar o melhor momento a atacar e de uma maneira que seria fácil absorver qualquer ataque, esperando pela reação do monstro pouco à sua frente. Ele vinha furioso pela paralização de seus golpes e, com a pata fechada em soco, avançou para a amazona que desviou o golpe com a ajuda de seu cetro. Os moviemntos de tentativa de ataque e posterior esquiva continuaram, até que Pluto girou seu cetro rapidamente e atingiu o braço de Monsen, que berrou de dor. Em um movimento rápido, a amazona trouxe o cetro com força para a sua frente, atingindo o estômago do adversário.
Porém, como o uso de uma arma grande a tornava lenta, Monsen teve tempo de agarrar o cetro rapidamente e, puxando-o para frente, trazer consigo Pluto, que recebeu também um golpe no estômago, fazendo com que perdesse o fôlego por alguns instantes. Nesse período, sentiu o joelho do monstro no mesmo lugar e o gosto de sangue na boca, gesto repetido pouco depois.
- GALACTIC QUAKE!
Monsen sentiu o chão sumir sob seus pés e que era impelido para o chão, soltando a amazona que caiu sem fôlego no chão, limpando a boca de leve para tirar o filete de sangue que se formava. Pouco à frente, colocando-se em posição de ataque, estava uma amazona de uniforme amarelo, com os olhos queimando em ódio por ver sua amiga apanhando.
- Você quer uma adversária, seu covarde? Se é que posso chamar de lutador alguém que continua a bater mesmo quando o adversário se rendeu, para mim isso tem outro nome! Venha me enfrentar ou prove de uma vez por todas que é um idiota!
Monsen urrou alguma coisa e foi correndo na direção de Uranus que pulava e, aproveitando o impulso, preparava uma voadora certeira para seu adversário, atingindo-o no rosto. Porém, este revidou e atingiu-a em cheio com o braço, fazendo com que a uraniana caísse no chão. "Ele é bem maior que eu... Mas não é hora de avaliar um adversário pelo tamanho", pensava. Tomando fôlego, a amazona apoiou as mãos no chão e atingiu um chute na região do diafragma do adversário, deixando-o sem ar por alguns instantes, porém não calculou a volta e sentiu que sua canela estava nas mãos do monstro, sendo que estava de costas para ele e não lhe vinha idéia nenhuma de como reagir. O jeito era improvisar, pensou rapidamente, e girou rapidamente o corpo para atingir o braço que a segurava com a perna livre, provocando além da dor uma torção e fazendo com que fosse solta e despencasse do alto de mal-jeito, o que impossibilitou usa ação pelos instantes que precisaria para se recompôr.
Porém, não foi dado a ela esse tempo, pois o monstro a levantou pelo pescoço e, numa tentativa de estrangulá-la, pôs suas duas mãos naquela região, apertando-a. Uranus, enquanto com as mãos esforçava-se para que aquelas mãos a soltassem, com o ar que já sentia faltar mexia as pernas, tentando atingi-lo com um chute, porém estava sendo em vão.
- Uranus!
Mercury, que chegava naquele instante, gritou desesperado ao ver a companheira em tal situação. Porém, como não tinha muita força física, precisava usar de seus métodos para tentar ajudá-la e, conjurando seu computador, começou a digitar desesperadamente procurando um jeito de tirá-la dali, nem que fosse por algum processo de alavanca para abrir aquelas mãos, nem que fosse por um milagre! Não podia pará-lo com gelo sem atingir Uranus e Pluto, parada pouco atrás dos dois, junto; precisava de alguma coisa, precisava rezar por um milagre, precisava descobrir algum milagre!
- Parados aí!
Monsen, Mercury e Pluto lançaram olhares na direção da voz, encontrando uma garota no telhado do carrossel, contra o sol, de braços cruzados, na típica posição de heroína de mangá mahou shoujo, com uma gata a seus pés. Quando essa garota percebeu que era o centro das atenções de todos ali, disse:
- Se um pinto não partir a casca de seu ovo, morrerá sem ter nascido. Nós somos o pinto, o mundo é o ovo. Se não partirmos a casca do mundo, morreremos sem ter nascido. Partir a casca do mundo. PELO BEM DA REVOLUÇÃO DO MUNDO!
- PELO AMOR DE SERENITY, DE ONDE VOCÊ TIROU ESSE LEMA?
- Ah, ele é tão legal!
Todos os presentes tinham gotas de suor na testa. Venus Pirate Knight estava realmente demorando a chegar... O ambiente já estava até ficando pesado sem ela.
- Ah, não! AH, NÃO! Assim não tem condição!- A garota tinha um tom contrariado na voz.
- O que foi, Venus?
- Primeiro uma samambaia e agora eu tenho de enfrentar um urso de pelúcia? Ah, fala sério! Qual vai ser o próximo monstro, algo ridículo como um tambor em forma humana que só sabe dizer o próprio nome?
- Venus... PÁRA DE CONVERSA MOLE E ATACA ESSE MONSTRO LOGO, OU VOCÊ QUER QUE URANUS MORRA? – Íris triplicou de tamanho, assumindo uma forma monstruosa e Venus diminuiu assustada, em SD e cheia de gotas na testa.
- Er... tudo bem então... Eve Star Beam!
O pequeno raio de luz atingiu em cheio o ombro de Monsen, que urrou de dor e soltou Uranus, desacordada, no chão, para alívio de Mercury, Pluto e Íris. Venus, por sua vez, pulava alegremente por ter sido útil pela primeira vez, porém sua alegria não durou muito. Monsen atirou alguns raios em sua direção e, quando ela foi atingida e perdeu o equilíbrio, caindo desmaiada do telhado do carrossel, o monstro urrou de leve:
- Pentelha...
Antes que Venus atingisse o chão, um rápido vulto tomou-a nos braços e parou pouco a frente, revelando ser Saturn Pirate Knight. Do lado oposto, Neptune estava sobre a placa que indicava o nome de algum brinquedo, com braços cruzados e uma expressão de frieza tremenda, enquanto o vento balançava seus cabelos. Ao abrir os olhos e visualizar a cena, tomou impulso e pulou na direção onde o monstro estava, conjurando no ar seu bumerangue e, sem perder tempo, lançou-o na direção de sue adversário, no ápice da parábola que fazia no ar:
- NEPTUNE BOOMERANG ACTION!
O bumerangue atingiu o monstro, enfurecendo-o, enquanto Neptune caía delicadamente pouco a frente, ante os olhares surpresos de Pluto, Mercury e Íris, já se levantando e colocando em posição de ataque, apenas esperando que o monstro chegasse para começar a lutar. Não era tão boa quanto Uranus, tampouco tinha sua força, mas se era para se esforçar, para impedir que inocentes morressem, era o que faria, mesmo não sabendo muito mais do que colocar-se em ataque e defesa e dar alguns socos. Saturn, por sua vez, se aproximava de onde Pluto se recuperava e depositava delicadamente Venus no chão:
- Que bom que vocês chegaram...
- Encontramos aquele garoto arrogante no caminho e dissemos o que estava acontecendo, não sei se ele virá, mas de todo jeito ainda temos um reforço... E Jupiter, onde está?
- Foi deixar um garotinho em um lugar seguro, imagino que esteja dando explicações para as pessoas e ajudando a organizar a confusão, mas com quero que ele volte! Sei que Neptune, assim como eu, não vai aguentar muito tempo...
Mercury, percebendo que para o monstro não representava uma ameaça, digitava rapidamente procurando alguma fraqueza, alguma abertura, algo que permitisse com que liquidassem aquele monstro de vez! Ainda por cima, Uranus estava ferida e no meio da batalha! Não... não importava a pesquisa, tinha de tirá-la de lá o mais rápido possível! Porém, ao mesmo tempo em que pensou nisso, pôde ver uma flecha de fogo cortando o ar e atingindo em cheio o monstro, fazendo com que ele se distraísse e virasse para a direção de onde ela veio, apenas para encontrar um rapaz de uniforme vermelho e pose arrogante, como se já tivesse ganhado a briga muito antes dela começar, como se fosse ridiculamente fácil vencer...
- O que está esperando, algum de seus nerdzinhos duma figa, para tirarem Uranus do alcance desse monstro? Ou vocês são tão sádicos a ponto de deixarem uma companheira morrer tão fácil? Ah, façam-me rir!- Esbravejou ele enquanto preparava mais algumas flechas que ia atirando à medida que o monstro se aproximava.
Saturn, rapidamente, tomando impulso no chão para pular, pegou a desacordada Uranus e deitou-a levemente junto de suas companheiras, para que uma desesperada Pluto checasse seus sinais vitais e visse que estava tudo bem, pelo menos por hora.
Por sua vez, Monsen concentrava energia e atirava raios na direção de Mars, que anulava-os com suas flechas ou, quando isso era impossível, desviava, enquanto pulava pelos brinquedos do parque, perseguido de perto pelo seu adversário. A sequência de flechas e raios anulados continuava cada vez mais rápida até que Mars percebeu-se encurralado, não tinha como escapar do grande paredão onde acabara por dar de cara. Porém, num movimento rápido, passou do lado do monstro e continuou o percurso e a sequência, apenas para voltarem até a posição inicial, próximos aos outros Pirate Knights que podiam apenas assistir a cena sem fazer nada. Aproveitando-se de um instante de vacilo do cavaleiro, Monsen tomou impulso e pulou sobre ele, atingindo seu rosto com um soco e preparando-se para usar a outra mão, parada por um bloqueio instintivo de Mars. Mas uma nova sequência começou e o cavaleiro continuou a se esquivar, dessa vez arrastando-se para trás, enquanto os socos acabavam por acertar o chão.
Porém, ele não percebera que fora de encontro às grades do carrossel e, ao perceber que chegara nelas e ao ver o punho do monstro, com o máximo de força possível, mirando seu rosto, fechou os olhos esperando-se para o pior.
Monsen, por sua vez, estava furioso. Como aquele bando de insetos se atrevia a ser tão insolente dessa forma, como podia estar perdendo de crianças tão fracas e idiotas? Estava na hora de acabar com um deles, como não conseguira fazer com nenhuma daquelas garotas! Era bom concentrar toda a sua força para esmagar os miolos daquele idiota! Mas... sentiu tapinhas de leve no ombro, como se alguém o chamasse. Ao virar, pôde ver um guerreiro de verde e sorriso maroto nos lábios e ouvi-lo dizer:
- Quer experimentar da lâmina da minha espada?
O monstro caiu na provocação e virou a mão no rosto daquele jovem, que esquivou, aproveitando a abertura de defesa provocada pelo ataque para tentar, com a espada, feri-lo, o que acabou acontecendo e sujando a lâmina com algumas gotas de sangue esverdeado. Mars, por sua vez, gritou:
- NÃO PEDI PARA SER SALVO POR VOCÊ, IDIOTA!
Pluto observava com um sorriso nos lábios enquanto seu amado esquivava-se do adversário e tentava atingi-lo ora com espada, o que às vezes conseguia efetivamente mas não produzia mais do que arranhões, ora com chutes, que desestabilizavam-no um pouco, mas provocavam grandes aberturas na defesa do joviano. Ele estava se saindo muito bem, mas todos ali tinham uma grande colaboração, se o monstro tinha dado trabalho fora porque todos ali tinham dado muito de si!
Mercury finalmente chegara ao fim de suas pesquisas e olhava para seu visor um pouco desconcertado, enquanto digitava um pouco mais para tentar descobrir uma alternativa, qualquer uma! Não podia ser, era azar demais! Deveria comunicar a seus companheiros a descoberta, porém:
- Tenho uma boa e uma má notícia para vocês...
- Diga- disse Saturn.
- Descobri que o ponto fraco desse monstro é luz...
Neptune virou-se e observou por alguns instantes Venus, que dormia profundamente após o ataque e de ter despencado do carrossel, antes de dizer:
- Ótimo... Quais são as alternativas já que luz está fora de questão?
- Não sei, ué! – Mercury disse, irritado.
- Se o geninho do grupo não sabe algum de nós é que vai saber? – Mars disse, provocando, de onde estava.
- E você, idiota, por que ao invés de caçar briga não ajuda?
- Parem com isso vocês dois, temos coisas mais urgentes a fazer do que brigar- disse Pluto.
Jupiter, por sua vez, continuava a tentar atingir o adversário, porém estava tendo dificuldades, já que Monsen estava furioso com os acontecimentos e com uma sede incrível de sangue, o que fazia com que o joviano tivesse muito mais de esquivar-se e defender-se do que tentar atacar, o que provocava uma grande desvantagem, principalmente se comparado com a vantagem que adquirira há pouco tempo.
- Tenho uma idéia- disse Saturn, enquanto olhava para o companheiro lutando. – Vamos ajudar Jupiter... Vai cada um por um lado, atacando o monstro de uma só vez, ele vai se cansar logo e assim ficará fácil para Jupiter acabar com ele! Porque, com uma fraqueza ou não, qual monstro resistiria a virar picadinho? Mercury, você fica na cobertura, porque as meninas seriam vítima fácil se ele escapasse e Pluto não está em condições de lutar.
- Certo – o mercuriano disse.
- E você também poderia nos ajudar, Mars – disse Neptune.
- Tudo bem, vai, eu já estou aqui mesmo... – disse ele sarcasticamente.
- Um, dois, três... AGORA!
Saturn, convocando o Silent Glavie, ia pela esquerda, enquanto Neptune, preparando seu bumerangue, ia para direita e Mars, levantando-se, punha uma flecha apontada, pronta para atirar. Ao perceberem que Jupiter estava completamente em defesa, recuando e com dificuldades até mesmo para tirar a espada da posição que se encontrava, sobre o corpo para amortecer ataques, os três lançaram seus ataques ao mesmo tempo, atingindo Monsen em cheio e distraindo Jupiter, que não ouvira o grupo, fazendo com que o monstro, na confusão, acertasse um forte soco no rosto de Jupiter e deixasse-o desacordado no chão.
- DAME! JUPITER! – Pluto gritou, desesperada.
O passar dos dias, os treinamentos tornando-se mais e mais intensos, ou mesmo definitivamente abandonados já que seu objetivo já fora alcançado, a ansiedade dominando mentes e corações... Porém, o dia esperado e prometido acabou por chegar: o dia dos novos Pirate Knights ganharem seus títulos e a responsabilidade que eles lhe aferiam.
Antes mesmo da cerimônia oficial, estava na hora de mudarem-se para o Forte de Halley, a residência oficial, distante até mesmo de Nêmesis, o último planeta, em uma posição estratégica para o caso de invasões, tanto externas quanto praticadas pelo Milênio de Prata; e, como novos moradores, teriam de dividir quartos e tarefas. Por isso, chegando o dia indicado, naves reais se aproximavam no Forte, entregando malas e caixas com objetos pessoais pertencentes a cada um dos novos moradores.
O primeiro encontro do grupo após os Combates acontecia na grande sala de refeições do Forte, em um leve jantar de recepção. Os poucos criados do local esperavam, também ansiosos, por aqueles que seriam seus novos mestres, com novas ordens e preferências, aguardando pacientemente na sala de jantar. A primeira a chegar foi Anfitrite da Casa de Tiamat, princesa de Netuno e nova Neptune Pirate Knight. Sua primeira ação foi cumprimentar a todos os criados, perguntando para eles detalhes como a rotina daquele lugar, cardápios principais das refeições e outros detalhes. Fora criada, muito mais do que para algum dia tentar ser uma guerreira, para cuidar de uma casa, já que a ela não seria dada outra escolha diferente de ser a consorte de algum nobre netuniano caso perdesse seu duelo...
A netuniana, um pouco adiantada em relação aos companheiros, passeava pelas caixas que embalavam os objetos a qual era permitido aos novos moradores trazerem um tanto pensativa, afinal apesar de estar realizando o maior sonho de sua vida, estava deixando para trás uma vida na Corte, os bailes e festas, a possibilidade de casar-se com Nereu, aquele que fora seu namorado de infância... Porém, de que adiantava lamentar-se, não podia mudar ou mesmo ir contra seu destino, se era para ser Neptune Pirate Knight, o seria com todas as suas forças.
A futura amazona passeava pelo hangar quando percebeu duas naves se aproximando: uma, podia reconhecê-la, era da comitiva real de Júpiter, obviamente trazendo o príncipe daquele planeta, enquanto a outra parecia ser de uma frota de aluguel. As duas naves pararam ao mesmo tempo e dois jovens desceram: um vestia-se com as roupas de passeio da família real joviana, costuradas com os melhores tecidos nos melhores costureiros, enquanto o outro usava as roupas simples que as famílias de classes mais baixas usavam em ocasiões festivas.
A reação do joviano, ao ver o futuro colega de trabalho descendo da nave com sua pouca bagagem de mão, foi largar as malas no chão onde estava e atravessar o hangar correndo, apenas para agarrar seu pescoço com força e gritar:
- VAI PAGAR POR SUA OUSADIA, DESGRAÇADO!
A resposta foi um sorriso de ironia que camuflava uma certa vontade de saber o que estava acontecendo ali e a resposta, cuspida entre os dentes, foi simples e sarcástica, como seu dono:
- Também estou feliz em vê-lo, principezinho...
Storm apertou o pescoço de Irídio com mais força, apenas para ouvi-lo gemer levemente. Estava furioso, fora o bando de delinquentes guiado por ele que estragara seu primeiro encontro com aquela que amava, além disso ela quase fora violentada por um dos amiguinhos daquele maldito! Ele tinha de pagar caro, muito caro!
- PARE COM ISSO, THOR!
O joviano olhou para a direção da voz, apenas para ver a princesa de Netuno correndo na direção dos dois, dizendo com firmeza na voz quando chegou mais perto:
- Largue-o agora, Thor da Casa de Susanoh!
- Você não tem idéia do que esse delinquente fez, não o defenda se não sabe de nada, Anfitrite! – Gritou Storm com o ódio queimando nos olhos.
- Pouco me interessa o que ele fez ou deixou de fazer, Storm, somos todos iguais sobre este solo! E se não fôssemos, não estaríamos aqui nesse instante, não estaríamos defendendo esse Milênio! E se você não é capaz de entender ideais nobres, só fala através de força bruta, solte-o por saber que assassinato de companheiros, isso mesmo, COMPANHEIROS, é crime de traição... Você estará traindo sua própria Ordem, sua própria soberana, e será executado por isso!
Storm soltou o pescoço de Irídio, que acariciava-o para aliviar a pressão que aquelas mãos faziam. Tinha escapado por pouco, se aquela garota não aparecesse não saberia o que poderia ter acontecido. Ela tinha idéias estranhas sobre igualdade e o que uma nascida num berço de ouro podia saber sobre igualdade ou discriminação? Ela vinha em sua direção, mas seu olhar não era de alguém preocupada com o estado de um companheiro, mas de alguém com raiva nos olhos:
- Quanto a você... Não percebeu que um cargo como o seu exige responsabilidades? Vai ficar agindo como um marginal apenas porque agora tem uma certa liberdade de ação e não deve satisfações a ninguém? Você é um cavaleiro ou criminoso? E a palavra "cavaleiro" envolve muito mais do que força, astúcia ou a capacidade que teve de vencer o duelo, ser o primeiro e único até hoje a quebrar a escrita... A palavra "cavaleiro" vem acompanhada de uma coisa chamada "honra"... Você sabe o significado de "honra"? Ou vai ser só um idiota empunhando uma arma, clamando por justiça se é injusto, por igualdade se, a seu modo, exerce discriminação?
- Igualdade é um ideal criado pelos filósofos de seu meio para parecerem preocupados... Prego o total fim de classes e diferenças, não essa tal "liberdade, igualdade e fraternidade" que vocês enchem a boca para dizer, mas as evitam com unhas e dentes!
- Não estou discutindo conceitos! Estou apenas dizendo que se você não mudar um pouco seu comportamento, não tiver uma atitude digna, não lutar com a maior arma que você tem, sua honra, não será um cavaleiro, não terá valor, não será nada!
Irídio tinha o olhar perdido em algum ponto do hangar, entre as naves e peças de reposição, paredes e portões. Disse, sem encarar sua interlocutora:
- Estou te devendo minha vida...
- Não fiz mais do que minha obrigação.
- Errado. Estou te devendo um grande favor, quando precisar cobrá-lo, esteja às ordens. E não venha me dizer que não aceita, no lugar onde nasci e fui criado, essa é a lei. Amor com amor se paga...
- Que seja, então. Agora vamos entrar...
Os dois futuros Pirate Knights entraram no Forte e, encontrando-se com Thor que deixara o hangar pouco antes, foram para o salão onde a recepção estava preparada, esperando pelos outros companheiros. Depois de algum tempo, todos chegaram e a noite foi cheia de festejos e brincadeiras, enquanto todos comemoravam a vida, os cargos, o amor... Era necessário uma noite para que se entrosassem e também começassem a acostumar com o lugar onde passariam grande parte de suas vidas dali para frente, onde seria seu novo lar e centro de comando.
Na manhã seguinte, os oito tomaram uma grande nave de comitiva que, após seis dias de viagem, chegou em Selene, a capital do Milênio de Prata, onde mais uma grande festa os esperava e, onde no dia seguinte, seria a cerimônia de nomeação dos jovens, ansiosos pela consumação daquele que era seu maior sonho e grande projeto de vida :seriam, finalmente, Pirate Knights.
O grande salão de cerimonial do Palácio Lunar estava decorado ricamente com flores e fitas, com belos tapetes vermelhos estendidos no corredor que dava para o trono real e uma orquestra fazia com que uma suave melodia ecoasse ao fundo. Era uma cerimônia aberta a nobreza, na verdade, para a grande população não fazia muita diferença o que acontecia ou deixava de acontecer dentro do Palácio, apesar de que a próxima comemoração seria uma grande festa popular onde a rainha se misturaria com seus fieis súditos.
Na parte à esquerda do trono, as primeiras fileiras eram reservadas aos membros de outras milícias nobres, enquanto o lado direito era totalmente ocupado por familiares e outras famílias nobres. Na primeira fileira à direita, as Sailor Senshi, no lugar para os espectadores de maior honra daquele evento enquanto na mesma posição do lado esquerdo, quatro figuras se destacavam: uma mulher de longos cabelos vermelhos encaracolados vestindo um belo vestido dourado e com um diadema representando o Sol em seus cabelos; a seu lado um rapaz de cabelos curtos aloirados com mechas um pouco mais claras com uma roupa de gala prateada, levemente adormecido em sua cadeira; a seu lado, uma garota de longos cabelos castanhos lisos, vestindo-se de vermelho com os cabelos adornados por rosas também vermelhas e com uma expressão de tédio profundo; ao lado desta outra garota, esta com um vestido branco um tanto provocante e com os longos e muito lisos cabelos profundamente negros, em contraste com sua pele muito branca, presos em um coque por prendedores de diamantes, numa expressão de calma profunda.
O soar de clarinetes anunciou que a soberana estava vindo, logo todos os presentes se levantaram e acompanharam com os olhos os três primeiros membros da comitiva real: uma mulher de longos cabelos negros cacheados, um homem de também longos cabelos, mas loiros, atrás deles uma garota ruiva sardenta, um pouco mais baixa do que a mulher da frente, porém com passos decididos de quem dedicara a vida toda a ser uma conselheira real e finalmente tinha conseguido seu objetivo. Há alguns passos atrás estava a soberana Serenity, vestindo um belo vestido prateado e segurando o cetro que continha o poderoso Cristal de Prata, refletindo toda a majestade dada a ela e toda a sabedoria de alguém quem há séculos governava aquela Federação, provocando a admiração de todos os presentes, sensação que sempre causava ao se aproximar ou mesmo apresentar-se. Pouco atrás dela, um cavaleiro de armadura negra tinha a espada empunhada e uma expressão de quem checava até o menor detalhe com os olhos. Era Loki, o primeiro-cavaleiro do Milênio de Prata, sob ordens diretas de Serenity e com a missão de protegê-la, sempre.
Após a soberana sentar-se em seu trono disse, dirigindo-se aos convidados:
- Estamos aqui hoje por uma ocasião muito especial: é um dia de renovação, um dia de mudança, quando o velho dá lugar ao novo, ou antes, quando o novo ocupa uma lacuna aberta a ele, esperando por sua presença. Tudo nesse universo muda, nada é permanente, todos os fatos e acontecimentos são como um leve oceano, uma leve correnteza que faz com que as águas se renovem eternamente. Estamos celebrando esta renovação e a força dos jovens que a trarão, com suas virtudes e força de vontade.
Nesse instante, trajando aqueles que seriam os uniformes-armaduras que os acompanhariam por toda a vida, os oito futuros Pirate Knights entraram no salão passando pelo corredor vermelho, na ordem da órbita de seus planetas em relação ao Sol, se dirigindo para a frente do trono de Serenity e ajoelhando-se perante a soberana, em uma posição de respeito.
- Essa é a última vez em suas vidas que terão de se ajoelhar perante mim, meus jovens. Mesmo que devam satisfações à minha pessoa, nunca precisarão se ajoelhar a meus pés. E, antes que essa cerimônia se inicie, é por vontade de vocês que aqui estão, é o desejo de vocês serem Pirate Knights?
- Sim – responderam em coro, sem um pingo de hesitação.
Agora, como o protocolo mandava, Serenity contava a longa história da criação da Ordem e como ela foi importante em diversos momentos da história do Milênio de Prata, desde defesas contra grandes invasões externas, como na Guerra de Andrômeda, até nos conflitos internos, muito frequentes há cerca de três gerações atrás.
Por sua vez, a garota de vermelho enfeitada de rosas sussurrou para a companheira, entediada com o ritual e com todo o discurso que ouvia novamente após um longo tempo:
- Enquanto houver um membro da Elite, nenhuma outra milícia será necessária.
- Psssst... Não fale besteiras, Gaia, é um erro concentrar o poder na mão de poucos. É perigoso tanto no caso de um grande ataque quanto no caso da prepotência tomar conta dos membros da Ordem única.
- Errado, Amaterasu. Não se lembra do juramento que fizemos e que em breve esses jovens farão? Se há poder demais, ele foge ao controle... E pode servir de ameaça a aquilo que se quer proteger.
A jovem de cabelos vermelhos olhou para a companheira com um sorriso no rosto, apesar da surpresa de ouvi-la falar palavras com tal maturidade e perceber que tinha razão: a companheira não parecia a garotinha mimada e arrogante de sempre!
- Mas não devo me preocupar, são um bando de fracotes... E espero que assim permaneçam para todo o sempre!
Amaterasu balançou a cabeça levemente, enquanto sorria. A garotinha que existia em Gaia sempre voltava, mesmo depois de tantos anos... Talvez ela ainda não se acostumara em ter entrado para a Elite, já que fora a última a chegar, mas sabia muito bem porque a jovem ex-Earth Pirate Knight estava ali... A força de cumprir seus ideais que ela tinha, nem que para isso tivesse de levar tudo às últimas conseqüências, tornou-a poderosa, muito poderosa... E era graças a essa força que, apesar das atitudes infantis que tomava de tempos em tempos, tornava-a uma dos quatro mais poderosos de todo o Milênio de Prata.
- Gaia, na verdade há muito mais na formação da Elite do que apenas reunir "os mais poderosos de todos". Se você soubesse disso... Bom, tenho certeza que não se devotaria tão cegamente. Espero que com o tempo você entenda, principalmente quando o dia em que você tiver de "sujar suas mãos" chegue...
- Não sei do que fala, Éris – Amaterasu disse, distante.
- Sabe sim... Você é que é mansa e pacífica demais... Chego a admirar a pureza de sua alma, minha colega...- Éris virou-se para a frente, demonstrando que não pretendia continuar com o assunto.
A guerreira do Sol olhava levemente para sua colega, enquanto punha para trás algumas madeixas vermelhas que lhe caíam sobre os olhos. Éris estava ali há muito tempo, dizia-se que era mais velha que Serenity, presenciara eras e gerações, guerras e paz, presenciara também a corrupção e podridão de algumas pessoas e instituições... Sabia muito bem qual era o motivo oculto por trás da Elite, qual era o jogo, porém, não interessava a ela outra vida a não ser a de guerreira, além do que preferia períodos de paz do que de guerra e como desejava que ela se prolongasse por um longo tempo!
Na verdade, o que mais temia é que, depois de tantos anos de bastidores, Éris tivesse se corrompido... E isso seria deveras perigoso, ainda mais por se tratar de uma pessoa dotada de um poder muito grande...
Entretanto, para aqueles que a cerimônia realmente interessava, a hora mais interessante estava por chegar, aquela em que seriam por direito e honra chamados de Pirate Knights. Serenity levantou-se do seu trono e, colocando-se na frente dos jovens, disse placidamente:
- Protetores do Milênio de Prata, juram pelo Sol que tudo movimenta e pela Lua que tudo governa não medirem esforços e poderes para proteger a essa Federação e seus habitantes, nem que isso lhes custe as vidas?
- Sim – os cavaleiros disseram em uníssono.
- Então, pelos poderes concedidos a mim, por este Sol que nos ilumina e esta Lua que nos guia, estão declarados Pirate Knights. E, para que nosso pacto esteja eternamente firmado, vocês receberão as armas que passam de geração em geração na Ordem a qual pertencem.
Os oitos jovens podiam ver a sua frente, após um movimento do cetro de Serenity, alguns objetos e armas pertencentes às antigas gerações de Pirate Knights, todos eles ricamente decorados e era como que chamassem os jovens cavaleiros a tocá-los... Serenity pegou o primeiro objeto, um computador portátil de pequeno tamanho, acompanhado de um visor, com o símbolo de Mercúrio gravado em azul:
- Para aquele a quem são dados os dons de inteligência, estratégia e sagacidade; para aqueles a quem cabe o suporte operacional dos planos, para aqueles que sempre são os chefes de investigações, ofereço Éolos, um dos computadores mais velozes e eficientes do Milênio de Prata, do maior refinamento tecnológico, o que certamente será de muita valia na vida de todos vocês.
A soberana depositou o computador nas mãos de Cromo que, ainda tremendo de emoção, colocou o visor e ligou-o, para começar de uma vez o programa de inicialização que o faria efetivamente o novo dono de Éolos, um dos mais poderosos computadores portáteis do Milênio de Prata, perdendo apenas para aquele que era propriedade de Sailor Mercury.
Por sua vez, a soberana tomava nas mãos um chicote laranja, com o símbolo de Vênus, feito de um material leve e resistente bastante simples de se utilizar, não sendo necessário muito treino para que fosse usado com maestria. Aproximando-se da amazona de Vênus, Serenity disse:
- Para aqueles dotados de astúcia, uma arma de uso rápido e eficiente. Porém, não é dado aos venusianos apenas astúcia, mas um grande carisma e grande beleza, além do domínio da alma... Tome cuidado com esse domínio, mesmo que para aqueles que tem a arte da espionagem e sedução no sangue ele seja necessário, mas lembre-se sempre de que a alma de todos os seres é inviolável...
Ishtar tocou levemente o cabo do chicote que lhe era oferecido pela rainha e, já em um primeiro momento, sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, como se tivesse tocado a essência de todos aqueles que um dia foram e um dia seriam Venus Pirate Knight. Era uma sensação tão estranha e ao mesmo tempo tão sublime que impediu qualquer outra reação da jovem a não ser voltar para seu lugar.
- Por que Serenity sempre tem de recitar esses conselhos sobre empatia espiritual, hein? – Khonsu perguntou, acordando levemente do sono que o acometera desde o momento em que entrara naquela sala.
- Por uma razão simples: se um venusiano fortalecer seu poder latente para empatia espiritual, será difícil até mesmo para Serenity dominá-lo, se é que não corre-se o risco de ser manipulada por ele. Mesmo uma mente com um treinamento muito forte para evitar a dominação não resistiria se o poder fosse muito, por isso todo o venusiano que entra para uma Ordem nobre ou de muito poder é estimulado a usar apenas astúcia e sedução como armas – disse Éris calmamente.
- Ah, sim – disse Khonsu voltando para o sono.
Serenity carregava consigo um arco sem corda, feito de um metal vermelho-vivo bastante resistente e com o símbolo de Marte onde se apoiariam as flechas, indo em direção a aquele que fora o único, em todos os tempos, a quebrar seus Jogos, aquele que prenunciava mudanças, aquele que de certa forma a punha medo por talvez representar o fim daquilo que lutara tanto para manter:
- Para aqueles cujo fogo não é apenas um elemento, mas uma metáfora sobre sua própria vida e devoção. O fogo é um símbolo da paixão e é com paixão que abraçam suas causas, é com paixão que acreditam, lutam, agem, vivem! Para essa paixão, essa força interior que os move para seus objetivos, um objeto para ajudá-lo a transformar sua paixão em seu elemento e este em sua arma.
Irídio tocou o arco, sorrindo para a soberana com a maior altivez que conseguia ter, afinal de contas agora ele era Mars Pirate Knight, não era só o plebeu Irídio, ou o Irídio de Marte que ganhara o duelo, era um cavaleiro, seu maior sonho estava realizado! Para ver o outro, lutaria com todas as suas forças, não apenas com aquele arco, mas principalmente com suas idéias, para ver um lugar onde não houvesse distinção entre nobres e plebeus, não houvesse uma soberana absoluta, todos fossem iguais e tivessem as mesas responsabilidades!
Serenity tomava nos braços uma outra arma, uma bela espada feita com o metal mais resistente e ao mesmo tempo reluzente, com um belo punho totalmente trabalhado, onde havia uma esmeralda e o símbolo de Júpiter gravado; levando-a para aquele que seria o próximo agraciado:
- Para aquele do maior planeta, de onde os melhores guerreiros vêm, para aqueles que muitas vezes são os líderes natos, um dos símbolos do poder. Porém, que este poder nunca venha pela força, mas pelo conhecimento e respeito de seus companheiros. O verdadeiro poder vem com a sabedoria, nunca se esqueça disso, que por mais refinadas que suas técnicas possam ser, se não for sábio e justo nunca será nada.
Storm sentiu o enorme peso da responsabilidade de ser um Pirate Knight quando colocou as mão naquele punho, sentindo toda a força daqueles que já haviam tocado-o, sentindo até mesmo a totalidade de seu poder percorrer todo o seu corpo, significando que ele era finalmente Jupiter Pirate Knight.
- Destruição e construção andam juntas nesse Universo, para uma haver, a outra precisa acontecer. Por isso, para aqueles com o dom da destruição e construção e destinados a destruir e construir, uma arma que simboliza essa força.
Serenity entregava para Shiva sua arma, o Silent Glaive, arma que era a metade do Silence Glaive que sua irmã, Devi, a Sailor Saturn, carregava. Ao tocá-la levemente, em especial a lâmina da alabarda, pôde sentir que, de certa maneira, sua arma o deixaria próximo da querida irmã por toda a eternidade, unindo os dois em um ideal e poder em comum.
A soberana já se dirigia à próxima jovem, a aquela dotada de uma beleza profunda, que fizera com que seu primeiro-cavaleiro já não tivesse somente as obrigações palacianas em mente, mas também aquela jovem... Não apenas por seu belo rosto e corpo, mas pelo seu caráter explosivo, pelo orgulho que a impedia de perder fazer com que tivesse uma gana incrível de cumprir seus objetivos, quaisquer fossem. Dirigi-a se a ela com um belo florete na mão, com o cabo totalmente adornado com desenhos e também um grande topázio com o símbolo de Urano em dourado:
- Para aqueles do planeta dos ventos, donos da velocidade e força de combate, uma arma que sintetize essa velocidade, para ataques rápidos e precisos. Só tome cuidado, minha jovem, para que sua altivez não a leve para as profundezas dos erros... Siga o que seu coração manda, mas tenha cuidado ao realizar suas vontades ou reagir a provocações, afinal isso poderá ser mortal a você.
Aurora tocou seu florete levemente, com a imensa vontade de testar sua lâmina e habilidade com aquela arma. A força de seus punhos já era mais do que suficiente se queria vencer uma batalha, porém seria interessante lutar armada de vez em quando, ainda mais com uma arma com o qual treinara por muito tempo. Mal percebia, porém o primeiro-cavaleiro de Serenity a observava, encantado com tamanha beleza e também com a postura de uma certa altivez que a jovem tomava, tornando-a ainda mais bela.
A soberana tinha nas mãos agora um bumerangue verde-água decorado apenas com o símbolo de Netuno em auto-relevo prateado e o levava na direção de uma das últimas guerreiras remanescentes, aquela do planeta das águas e seu espírito sereno:
- A serenidade das águas e da alma, das ações e pensamentos. Para aqueles do planeta das águas, dotados do dom da serenidade, uma arma mortal, porém compatível com tal serenidade de espírito.
Anfitrite tocou com um sorriso sua nova arma, enquanto sentia em seu interior todos aqueles que já haviam tocado-no, toda a devoção à causa que escolhera para toda a sua vida, toda a vida que se iniciaria a partir daquele instante, não como uma princesa, mas como Neptune Pirate Knight.
- A previsão do futuro não é um dom, é uma maldição, para não se afogar no grande mar de passado, presente e futuro que o cerca, um plutoniano deve ter um enorme controle tanto de sua mente quanto de seu poder. E, mais do que ninguém, plutonianos sabe quem o destino pode vir por linhas tortas, mas sempre vem, todos os fatos destinados a acontecer sempre acontecem. Para representar tamanho controle, outro símbolo de poder.
Serenity entregava para Cassandra um cetro em formato de chave, adornado com uma grande gema preta, semelhante à chave para se abrir o portal do tempo carregada por Sailor Pluto, porém capaz de abrir o limbo temporal, onde todos os fios de todas as dimensões possíveis se encontravam, em um mar que levaria qualquer um sem um forte preparo à loucura de imediato. Além disso, de certa maneira a pequena fala de Serenity fora uma resposta a todos aqueles que não davam a ela seu respeito pela sua luta nos Jogos. Se aquele era seu destino, afinal, ele iria acontecer, nem que por linhas tortas e não havia nada nem ninguém capaz de impedi-lo.
- Declaro então, perante aos cavaleiros honrados em minha frente, que essa cerimônia está encerrada e os novos Pirate Knights devem receber os cumprimentos em uma recepção popular a ser oferecida nos jardins do Palácio!
Os três conselheiros de Serenity se dirigiram à saída, fato repetido pela soberana e seu primeiro-cavaleiro, o que fez co quem todos os presentes ficassem de pé em respeito. Gaia cutucou o companheiro a seu lado e disse:
- Vamos, seu preguiçoso, acorda que temos uma festa para ir!
- Hum...- foi a resposta de Khonsu, levantando-se.
- O que Serenity disse tem seu fundo de razão... O simples fato de que um não-Indicado ganhou os Jogos já é o começo de mudanças...- Amaterasu disse, reflexiva.
- Não se aflija, minha colega... Mudanças ocorrem sempre... O problema é quando as mudanças vêm junto com colapsos, o que é necessário. Nunca ouviu dizer em destruir completamente o velho para trazer o novo?
Amaterasu sentiu um arrepio na espinha ao ouvir a frase de Éris, que mais pensava em voz alta do que tentava iniciar um diálogo. Parecia um prenúncio... Só tinha medo que ele se concretizasse e da pior forma possível.
Gritos... Porém, estava tão distante que para ele esses gritos definitivamente não queriam dizer nada.
Sonho... Não fora um sonho, fora uma lembrança de um fato já ocorrido há muitos e muitos séculos, em um passado de glórias.
Lembranças... Podia lembrar-se de um dos gritos, pouco tempo antes. "DAME! JUPITER!"... A voz dela ecoava por toda a sua alma e era por ela, somente por ela, que tinha de se levantar e terminar logo com aquela luta. Lembrava-se também de uma frase perdida no nada, não sabia direito quem a havia dito ou em qual contexto... "Mesmo que um monstro tenha uma fraqueza, não resistirá se for atingido em cheio por uma espada".
Jupiter Pirate Knight abriu os olhos e pôde ver a situação onde se encontrava: pouco à frente, três companheiros invocavam os golpes e os atiravam no monstro, que já arfava assim como os três jovens praticamente esgotados. Tinha que agir rápido antes que seus companheiros acabassem se ferindo seriamente ou se esgotando completamente!
Invocando novamente sua espada, tomou fôlego e impulso, indo correndo em direção ao adversário, gritando para concentrar mais e mais energia. Sua espada atingiu em cheio a região onde deveria estar o coração do urso e, para garantir a eficácia e morte, a espada ainda foi retirada enquanto girava no interior da criatura e novamente cravada, pouco abaixo.
Sangue verde espalhou-se pela região onde o corpo de Monsen caiu, pouco antes de transformar-se em pó e espalhar-se com o vento por todo o parque de diversões, onde mais um ataque ocorrera e fora frustrado por aqueles que já imprimiam seu nome na galeria das lendas urbanas da cidade de Tóquio.
Aneurocito andava com passos leves pelos corredores do Castelo da Escuridão, tinha voltado há pouco e já apanhado nos depósitos o material que precisava para a execução de seu plano, o mais rápido possível! Tinha colhido material suficiente para montá-lo, estava completamente planejado em sua mente, era só pô-lo finalmente em prática!
Entrando na Sala de Controle, percebeu uma grande atividade de máquinas, além do que aqueles a quem devia subordinação estavam completamente distraídos olhando para uma tela. "Isso não está me cheirando nada bem", pensou, enquanto observava os outros monitores procurando alguma pista para o que poderia estar acontecendo ali.
Qual não foi sua surpresa ao olhar para o monitor de frequência de energia de servos fora do Castelo e perceber que um monstro fora mandado para Tóquio, sem que ao menos fosse consultada? Podia ser só uma subordinada, mas era uma falta de respeito daqueles idiotas, se tinham pedido um plano elaborado, por que a atrapalhavam? Mais do que nunca o ódio lhe ardeu e também a certeza de que o plano deveria ser cumprido, a Mestra deveria despertar e aqueles dois idiotas pagarem muito caro!
- COMO SE ATREVEM A SE INTROMETEREM NO MEU PLANO E MANDAREM UM SERVO?
- E como a senhora Aneurocito se atreve a abandonar a Sala de Controle para ir passear? – Cuprum perguntou rispidamente.
- Antes fosse um passeio, estava investigando! Mas claro que dizer isso e nada para os senhores- as duas últimas palavras saíram com uma dose de ironia acima do normal- dá na mesma, afinal o que entendem de estratégia? Pelo visto nada!
- E o que você entende de responsabilidade para vir nos dar lições de moral, garotinha? – Sílica perguntou, bufando de ódio.
- Muito mais do que uma dupla de incompetentes! E, querem saber do que mais? Não vai demorar muito para esse show de arrogância e prepotência dos senhores acabar, esperem para ver! Vão pagar caro, muito caro!
Cuprum levantou-se rapidamente e, indo em direção a sua subordinada, acertou-a com um forte tapa no rosto, que a fez cair no chão com o impacto. Enquanto Aneurocito massageava de leve a bochecha e lágrimas de ódio caíam de seus olhos, o general disse:
- Insubordinada você, hein, garota? Esqueceu com quem está falando, a quem deve respeito? Pois saiba que na próxima gracinha, você vai pagar com a vida!
- É para aprender a não deixar serviço nas mãos de crianças irresponsáveis- disse Sílica, saindo da sala.
Aneurocito, enquanto observava as luzes dos painéis, chorava lágrimas de um ódio profundo. Eles não tinham o direito, ninguém tinha o direito de batê-la, humilhá-la, fazer pouco de seu serviço! Se antes queria terminar com seu plano da melhor maneira possível e queria mostrar para aqueles idiotas que era capaz, agora estava fervilhando em ódio. Eles tinham de pagar, sim, porém com a vida. Só sentiria-se satisfeita quando pudesse vislumbrar o sangue deles, muito mais do que despertar a Mestra...
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Então? O que está achando? Mande sua opinião para
Os olhos vermelhos de uma guerreira avaliavam o que se passava a seu redor, procurando tanto uma brecha em sua adversária quanto verificando se havia algum inocente por perto, alguém que poderia sofrer as conseqüências da luta que certamente ocorreria ali sem muita chance de escapar sem algum ferimento. Por sorte, todos os estudantes estavam distantes e certamente não haveria vítimas acidentais, ela poderia sossegar seu espírito para lutar.
Porém, um estudante observava à cena bem de perto, ainda paralisado pelo medo, um tanto curioso e atônito por ter sido salvo por uma guerreira muito bela... Ela lembrava alguém que conhecia, só não podia dizer exatamente quem... E era estranho que ele, o presidente do clube de esgrima, iria deixar uma garota apanhar em seu lugar. Porém, era sua vida que estava em jogo e com certeza acabaria morto se interferisse. Restava a ele apenas a torcida para que tudo acabasse bem.
Uranus Pirate Knight colocou-se em posição de ataque, em guarda, esperando que Midiz tomasse uma posição, o que o monstro logo fez, colocando-se na defensiva e esperando o que a guerreira petulante era capaz de fazer. Afinal de contas, ela não tinha impedido que tirasse energia de uma vítima? Além disso, não tinha de destruir uns tais guerreiros denominados Pirate Knights?
A guerreira aproximou-se, dando um soco com a mão direita, parado quase imediatamente pela defesa do monstro, que poucos instantes depois sentiu a força de uma mão esquerda em seu rosto. Reagiu com um chute, bloqueado de imediato pela guerreira e sentiu novamente a mão dela em seu rosto, também um pouco de sangue e talvez um dente fora de seu lugar habitual. Por sua vez, a guerreira virava o corpo com o máximo de velocidade possível e acertava sua adversária com a mão oposta, em um golpe de muito impacto que a levou ao chão.
Midiz, após alguns instantes de respiração ofegante, levantou-se e atingiu Uranus com um soco, tomando impulso do chão, porém esta reagiu com um chute em seu abdome. Estava na hora de fazer aquela menina forte sofrer um pouco, pensou. Para isso, como tinha reparado no golpe anterior, teria de usar uma fraqueza de sua adversária: ela deixava a defesa quase completamente aberta ao atacar! Era esse ponto que tinha de usar caso quisesse alguma vitória!
Levantando-se, o monstro tentou atingir sua adversária com um soco, parado por sua defesa, porém virou seu corpo o mais rapidamente que pôde e atingiu-a com o joelho na região do diafragma, fazendo com que parasse de respirar por alguns segundos:
- Agora a luta começa, Pirate Knight!
Uranus, ofegante, olhava para sua adversária, fora de condições para tomar qualquer atitude. Logo, estava sentindo uma sequência de socos em seu rosto, também que o sangue lhe tingia a face, ainda sem conseguir respirar direito e tampouco reagir. O máximo que conseguiu, após algum tempo, foi colocar a mão sobre o rosto, já caída no chão, enquanto esperava recobrar o fôlego para tentar reagir. Porém, como Akio, ainda paralisado, podia perceber e também qualquer outro espectador, poderia ser tarde demais.
Com os olhos perdidos nas nuvens do céu, ainda esperando pelo fim das aulas, Chaz se equilibrava no galho da árvore aonde estava, indiferente à agitação sob seus pés. Para que tanto barulho, era apenas hora da refeição! E, em especial naquele dia, os alunos estavam tão barulhentos, será que não podiam deixá-lo observando as nuvens em paz?
Ao olhar para baixo, viu um grupo correndo na direção do portão de saída e, algum tempo depois, uma figura de azul parecia coordenar como aquilo deveria ser feito. Treinamento de incêndio, pensou. Como as pessoas faziam escândalos sabendo se tratar de um treinamento? Ah, elas que se danassem, não estava interessado no que faziam ou deixavam de fazer.
Porém, abrindo um pouco mais seu campo de visão, pôde ver alguns corpos caídos e uma guerreira de amarelo lutando contra algo que parecia um humano, mas, mesmo de longe, era perceptível que apenas "parecia" humano... Continuando a acompanhar a luta com os olhos, reparando em especial na atuação da garota de cabelos cor-de-rosa, começou a preocupar-se ao vê-la apanhando em demasia. Preocupar-se? Com alguém que nunca tinha feito nada para merecer tal preocupação? O que estava dando nele agora, algum sentimentalismo imbecil por uma garotinha mimada? Porém, essa garotinha mimada estava no chão, ainda apanhando e provavelmente, se os golpes continuassem e fossem fortes, ela acabaria morrendo. E isso ele não poderia deixar...
- Kuso... – foi tudo o que ele sussurrou antes de tatear o peito procurando o pingente de transformação.
Olhos de um negro profundo observavam pelas grades que separavam a enorme escola da rua, procurando entre elas aquela que roubara seu coração sem chance alguma de defesa. Como queria vê-la, nem que fosse por apenas um instante e de longe! Era impossível, afinal de contas ela deveria estar dentro do refeitório, mas mesmo assim seus olhos a procuravam pelo imenso jardim.
Para sua surpresa, seus olhos encontraram aquilo que menos esperaria ver naquele lugar: alguns alunos corriam desesperados, como se fugissem de alguma coisa, rumo ao portão para saírem da escola. O que estava acontecendo ali, por um acaso era uma simulação de evacuação ou algo parecido? Não... O desespero estava explícito nas expressões dos jovens que se aproximavam do portão, estava acontecendo algo de grave naquela escola!
Lembrando das palavras de algum de seus companheiros, era bom transformar-se primeiro e perguntar o que estava acontecendo depois...
Midiz fazia que seu pé, com força, encontrasse-se com as costas de Uranus, no chão. Se era injusto, estava contra as regras de uma luta? Pouco importava, tinha recebido ordens para matar a guerreira e, além disso, tinha de descontar a surra que levara!
Por sua vez, a guerreira, sem conseguir reagir, cuspia algumas gotas de sangue. Será que estava tudo perdido, iria morrer ali? Ao que tudo indicava sim... Não seria dada a ela a chance de crescer, aproveitar seus amigos agora que tinha laços profundos com seus companheiros, conviver melhor com seus colegas de escola, aprimorar-se nas artes da esgrima, conhecer o amor! Como parecia cruel, tudo acabaria ali, não teria uma chance de viver!
Não.
Não podia desistir, não iria desistir. Podia sentir o sangue em sua boca em uma pressão para sair e cuspi-lo, mas tinha que reunir forças e acabar com aquela luta, tinha de viver! Mesmo que a dor de seus ferimentos beirasse o insuportável, tinha de reagir, antes que fosse tarde demais! Tinha de reunir forças, mesmo que não soubesse de onde tirá-las, para sobreviver e sair dali, além de mandar aquela desgraçada para o inferno!
Midiz preparava-se para dar o golpe de misericórdia naquela garota, afinal a surra já estava começando a enjoar... E ainda por cima ela parecia inconsciente, que graça tinha em bater se ela não sentia nada? Era só escolher: perfurar o diafragma ou uma lesão no cerebelo? A primeira opção doeria um pouco mais!
Quando preparava sua perna para pisar com toda a sua força no peito da adversária, sentiu uma mão na sua perna de apoio e, pouco depois, que o gramado da escola não era tão macio quanto aparentava. Uranus, em um último fôlego, levantou-se, ofegante. Tinha de lutar por sua vida, por aquilo que nunca tivera a chance de experimentar, por não aceitar ser derrotada e morta tão facilmente! Porém, no mesmo tempo em que Midiz se recompunha, Uranus sentiu uma dor profunda em seu corpo, tendo de abaixar-se para tentar recobrar um pouco do fôlego e fazer com que a dor passasse. O monstro, furioso com a guerreira, tinha resolvido não se delongar mais e ir direto ao ponto: concentrava uma esfera de energia sonora que se encarregaria de mandá-la direto para o inferno!
Porém, quando preparava-se para um disparo à queima-roupa, sentiu sua mão queimar e, ao olhar para trás, percebeu que sua esfera tinha sido desviada por uma flecha de fogo. Uranus olhou para trás e, ao ver o companheiro na posição de quem acabava de disparar uma flecha, teve apenas a reação de dizer:
- Não... se... meta... na minha.... luta!
- Você não está em condição de lutar, por um acaso quer morrer tentando?
- O problema.... é meu, ninguém... te chamou... aqui!
Midiz estava furiosa, afinal de contas aquele intrometido não tinha nada o que fazer ali, estava por ganhar a luta, por que aquele idiota interferira? Aproveitando a distração dos cavaleiros entretidos com a discussão, lançou uma grande onda sonora, que fez com que Uranus e Mars fossem arrastados por alguns metros antes de caírem no chão, ela nos braços do companheiro.
O marciano podia sentir que suas mãos acabaram se sujando com o sangue da companheira, agora desacordada em seus braços. Ela estava muito ferida, tinha feito bem em interferir antes que acabasse sendo morta. Claro que nunca viu alguém gostar de ter interferências em sua luta, mas também era uma garota mal-agradecida por não reconhecer que lhe salvara a vida estando ali naquele momento! Porém, pensando rapidamente para evitar que um novo ataque de Midiz, próximo, atingisse em cheio a amazona desmaiada em seus braços, jogou-se sobre ela, protegendo-a enquanto recebia o golpe, não muito forte, mas o suficiente para fazer doer bastante, nas costas.
- URANUS!
Era Mercury que se aproximava correndo, enquanto digitava freneticamente em seu computador procurando pelo ponto fraco do monstro. Estivera ajudando os colegas no processo da evacuação da escola e conseguira evitar alguns tumultos, organizando a saída com perfeição. Como era bom ser útil em uma situação, não apenas em suas análises e buscas, mas efetivamente deixando os civis em segurança!
Midiz já concentrava uma nova esfera de energia, preparando-a de maneira a ser capaz de matar Mars, o atrevido intrometido, instantaneamente. Porém, ao ouvir o grito e ver que um cavaleiro de azul vinha correndo em sua direção, mexendo as mãos como se estivesse digitando no ar, a esfera, ainda não formada totalmente, foi lançada em sua direção para pará-lo, o que efetivamente aconteceu.
Mercury, ao sentir-se atingido, além da dor que o dominava, sussurrou, enquanto seu corpo caía no chão devido ao impacto:
- Água...
Seu corpo caiu de bruços na grama, desmaiado e ferido, tingindo com algumas gotas de sangue as plantas a seu redor. Midiz, após lançar um olhar de "dever cumprido" sobre o corpo do jovem, começou a concentrar novamente outra esfera de energia, visando Mars e Uranus. O cavaleiro, ao perceber que seria impossível reagir a tempo, abraçou-se à companheira desacordada, numa tentativa de protegê-la com seu corpo. Sua única reação, ao ver a grande esfera de energia que se aproximava, foi fechar os olhos e esperar-se para o pior, porém quando percebeu que estava demorando muito para sentir alguma espécie de dor, resolveu abrir os olhos e tentar entender o que estava acontecendo.
- Não vai atingi-los sem antes lutar!
Ao olhar um pouco para frente, Mars percebeu estar dentro de um campo de força e que Saturn estava próximo, empunhando sua alabarda em posição de combate. Midiz, irritada por mais uma interrupção, concentrava outra esfera de energia, rebatida pela arma do cavaleiro de prontidão.
Saturn, em um movimento rápido, aproximou-se de onde o monstro estava e tentou acertá-lo com sua alabarda, porém Midiz foi mais rápida e desviou, deixando sua perna para trás para que seu adversário tropeçasse, o que acabou acontecendo. Saturn reequilibrou-se e, virando-se rapidamente, segurou sua arma com força, pronto para atacar novamente sua adversária.
Porém, calculou um pouco mal a força que utilizaria e acabou por sentir que as mãos de Midiz seguravam a outra extremidade da alabarda, impedindo uma movimentação sua e mesmo dela, já que quem soltasse aquela arma acabaria como vítima fácil do outro.
"Encurralado", não podia deixar de pensar. Era sua atual situação, não tinha como mexer-se, reagir, estava literalmente preso por sua adversária! O que poderia fazer para sair dali sem dar uma brecha para que ela atacasse? Tinha de pensar, e rápido, antes que ela pensasse em algo para atingi-lo apesar da prisão. Inclusive, para ela seria mais fácil derrubar a arma e contra-atacar do que para ele e tinha medo de quando ela percebesse a vantagem que tinha: Saturn estaria desequilibrado sem a alabarda. Estava literalmente de mãos atadas e tinha de pensar bastante rápido se queria sair bem daquela situação.
Mars olhava para cena, não podendo levantar-se sem temer machucar sua companheira ferida em seus braços. Ora, por que tinha de ter se jogado no chão para protegê-la, agora estava fora de combate! Mesmo as costas feridas não atrapalhariam tanto sua ação quanto a garota mimada... Porém, por que simplesmente não queria soltá-la, não queria correr o risco de vê-la mais ferida do que já se encontrava?
Akio, ainda paralisado, era um espectador atônito dos fatos. Como... como aquilo tudo podia estar acontecendo e tudo diante dos seus olhos? Era um pesadelo de mau gosto? Só podia... E se os guerreiros perdessem, o que seria dele? Tinha escapado da frigideira para cair no fogo por um acaso, pois aquele monstro certamente estaria com mais sede de sangue ainda se escapasse da luta?
Porém, o jovem presidente do clube de esgrima pôde sentir uma ponta de alívio em sua alma: ao longe, sobre um banco, uma figura de verde-água estava de braços cruzados avaliando a cena antes de entrar em ação, tendo seus longos cabelos negros balançados pelo vento. Sim... era hora de agir, podia ver Mercury caído, além de Uranus que parecia ter problemas! Além disso, Saturn estava encurralado... Tinha de entrar em ação, o mais rápido possível, para evitar maiores problemas e complicações!
Pulando de banco em banco, aproximou-se rapidamente e, para não ser acusada de deslealdade, avisou que estava presente:
- Deixe meus companheiros em paz, agora!
Midiz olhou para frente, encontrando com o olhar a amazona. Mais um intrometido? Será que esses Pirate Knights não tinham aprendido a não interferir nas lutas alheias? Ora, tinha problemas demais para aparecer mais um, em verde-água, para atrapalhar-lhe os planos!
Neptune, porém, não deu tempo para que o monstro esboçasse alguma tentativa de reação ou represália: queria acabar com aquilo logo. Concentrando-se, pronunciou as palavras que conjuravam seu golpe:
- NEPTUNE AQUA FLOOD!
A correnteza atingiu Midiz em cheio e transformou-a em pó quase imediatamente, fazendo com que Saturn perdesse o equilíbrio e caísse no chão, porém o companheiro levantou-se pouco depois, com um suspiro de alívio. Akio, por sua vez, pareceu finalmente juntar forças o suficiente para sair correndo dali, não se preocupando em agradecer pela vida, apenas querendo acordar do pesadelo mais estranho que já tivera...
A amazona de Netuno andava calmamente na direção onde Mars levantava-se, com todo o cuidado para não ferir ainda mais Uranus, ainda sem sentidos, enquanto Saturn, com alguma dificuldade, tirava Mercury do chão e apoiava-o no ombro para poder levá-lo dali:
- Leve-a para casa, tenho de ajudar Saturn a levar Mercury embora.
- Por que deveria?
- Por que não deveria? Vai deixá-la aqui, ferida e desacordada, por um acaso?
Diferentemente do que aconteceria com qualquer outro de seus novos companheiros, por alguma razão que desconhecia, Mars não conseguia ir contra os pedidos de Neptune... Era estranho, o que aquela garota mórbida tinha que o impedia de ser ele mesmo, retrucar, não aceitar ordens? Porém, estava longe de ser somente por ela o fato de levar Uranus para casa, mas a princesinha mimada tinha alguma coisa... Não queria que ela se ferisse mais e como era bom tê-la tão frágil em seus braços!
- Qual é o caminho?
- É simples... – Neptune disse antes de explicar rapidamente qual rumo ele deveria tomar.
- Vamos, Neptune- disse Saturn, chamando a companheira. – Ainda temos de explicar aos pais de Ryo como o filho chega da escola completamente ferido.
- E você acha que um ataque de monstros em uma escola não deve ter ganhado alguma reportagem extra em algum jornal de televisão? Agora vamos.
- Só gostaria de saber o que nosso amado líder está fazendo enquanto o circo pega fogo por aqui – disse Mars sarcasticamente antes de partir.
Em um shopping movimentado, onde milhares de pessoas faziam compras, olhavam as vitrines ou simplesmente matavam o tempo, havia uma grande praça de alimentação, capaz de atender aos milhares de pedidos diários, feitos principalmente nos horários de almoço e jantar, seja por estudantes saídos da escola, executivos apressados ou mesmo famílias desejosas em mudar um pouquinho sua rotina diária de alimentação.
Em uma das mesas dessa praça, um rapaz ocidental levava um copo de refrigerante à boca, experimentando um prato que não comia há anos, mas tinha saudades: pizza. Quando imaginaria que um dia poderia estar no Japão, comendo uma pizza com a sua amada? Seus olhos deliciaram-se ao olhar para a garota loira à sua frente, um pouco atrapalhada com um pedaço de queijo.
- Gostaria de almoçar todos os dias com você se fosse possível, minha querida – disse ele sorrindo da dificuldade do queijo se partir.
- Pena que isso será impossível, ainda mais agora que acho que finalmente conseguirei trabalhar! Gosta da idéia de que fabricarei remédios?
- Sinceramente não te imagino em um laboratório! Mas mesmo assim, você perdeu uma grande parte da seriedade em que estava envolta quando nos conhecemos. Está mais descontraída, até mesmo mais linda!
Cassie sorriu antes de responder, ainda atrapalhada com a pizza. Era bom esse queijo resolver partir logo! Após alguma luta e alguns instantes de mastigação silenciosa, a resposta veio:
- De certa maneira, me sinto mais livre, finalmente tenho amigos! Acho que minha máscara social já não é tão necessária quanto antes, quando eu era só mais um gênio juvenil infeliz...
- Você fala isso como se fosse algo muito comum...
- É mais comum do que aquilo que nos une – disse ela sorrindo, enquanto tocava o pingente de transformação em seu pescoço.
Storm não pôde deixar de sorrir, antes de se servir com mais um pedaço. Realmente, era muito comum ser a reencarnação de um guerreiro de um tempo distante e ainda por cima enfrentar monstros de vez em quando! Porém, ainda se angustiava com uma pergunta:
- Descobriu... de onde eles vêm?
- Iie... – Cassie olhou para uma gota esquecida sobre a mesa. – Hoje de tarde Ryo irá lá em casa, estava fazendo algumas análises, mas não cheguei a nenhuma conclusão além do que já sabemos. Creio que ele poderá ajudar e seremos mais eficientes pesquisando juntos do que individualmente...
- Está certa... Mas não nego ser estranho lutar contra algo que não faço idéia do que seja, como seja e por que seja... É como se eu estivesse em um quarto completamente escuro procurando pelo interruptor, entende? Não sei aonde vou esbarrar, onde estou pisando, o que tem em minha frente.
- Engraçado... Estamos aqui conversando sobre esse assunto e me veio uma sensação estranha!
- Que tipo de sensação?
- Parece que está acontecendo alguma coisa com nossos companheiros.
- Ah, não deve ser nada. Além disso, esses comunicadores não existem apenas para enfeitar nossos pulsos e eu sou o líder!
Cassie sorriu, enquanto levava um copo de refrigerante à boca. Seu amado estava mesmo empolgado com o fato de ser líder, até mesmo exercia sua autoridade quando essa não era necessária! Mas ele tinha razão... Qual era a utilidade daqueles comunicadores se, caso necessário, não fossem chamados?
O melhor meio alternativo de locomoção em Tóquio, principalmente se havia fôlego e pernas o suficiente, era andar pelos telhados dos prédios e casas. Como tal feito só era possível para aqueles com capacidades sobre-humanas, era um caminho livre e fácil, além de privativo, pois qualquer passante que visse algum vulto passar pelos telhados certamente pensaria tratar-se de uma ilusão de óptica.
Pulando de telhado em telhado na direção indicada por Neptune, Mars tentava ir o mais leve possível para não machucar ainda mais sua companheira Uranus, desmaiada e bastante ferida em seus braços. Porém, não conseguia entender a razão de tantos cuidados, afinal o que aquela garota, a princesinha mimada que se achava dona da verdade e da argumentação, tinha feito a ele para merecer preocupação em troca? Só se preocupara, e quando isso era de seu interesse, com membros de sua gangue e ainda os mais chegados... Quem disse que tinha alguma ligação muito forte com alguma pessoa, mesmo com um Kuroi Neko como ele? E por que agora andava devagar para que a companheira não sentisse o balanço muito forte?
Resolveu parar um pouco na cobertura de um grande edifício, esperando que a companheira revertesse, já que seria mais fácil fazer isso ali do que nos portões de sua casa. Ao sentar-se, tomou o cuidado de não mexer os braços, como se o bem mais precioso de sua vida estivesse neles e este bem pudesse quebrar com uma simples e leve brisa... Ao olhar para o rosto adormecido como um anjo, mesmo com os ferimentos, pôde perceber o quanto era linda, se é que nunca tinha notado antes. Era uma boneca de porcelana... Não, bonecas de porcelana remetiam a uma beleza infantil e, apesar dos quinze anos que carregava, de infantil a beleza da companheira não tinha nada. Era uma mulher atraente, sim, e muito, mas muito bela... A mais bonita que já vira em sua vida, sem exagero. Se ela quisesse, poderia ter o homem que quisesse a seus pés, apenas usando sua beleza...
Não demorou mais do que cinco minutos para que a transformação revertesse, fazendo com que o uniforme de guerreira desse lugar ao uniforme de estudante, este também empapado de sangue. Mars levantou-se de leve, com o máximo de cuidado do mundo, ajeitando a colegial adormecida em seus braços e tomando impulso para continuar o percurso até a sua casa.
Alguns quarteirões depois, o marciano, após reverter a transformação por ela já não ser necessária, começou a assustar-se com a vizinhança de sua companheira: mansões, uma maior e mais luxuosa do que a outra, cercadas por grandes muros e grades! Era o mal de ostentar tanto dinheiro, não se podia viver tranqüilo, conversando com vizinhos no quintal ou tomando o sol da tarde na entrada de casa! Porém, a escolha entre liberdade e luxo foi feita por aquelas pessoas... E o que ele poderia fazer, além de execrá-la?
Chegando a um enorme portão, o assombro tomou conta definitivamente do jovem: era aquela a casa de sua companheira? Aliás, casa? Quantos prédios não cabiam no terreno daquela propriedade? Nunca imaginara que a princesinha realmente fosse uma princesinha... Era mais uma daqueles idiotas que preferiam uma pia com revestimento de ouro nova ao bem-estar da população? Poderia odiá-la apenas por isso, mas... não. Não conseguia... Não tinha forças...
Após ser anunciado pela portaria, recebeu orientação para entrar na casa para ali deixar sua companheira. Como era lindo aquele jardim... Uma fonte na frente da mansão, a rua onde os carros passavam calçada de pedras, as flores margeando-a. Parecia estar dentro de um antigo filme ocidental, não na Tóquio do final da década de 80... Como podia ser possível, uma família ter dinheiro para fazer tal jardim de entrada e tantos, como ele, sem uma oportunidade nesse mundo!
Ao atravessar a porta de entrada, foi recebido por um homem aparentando bastante idade, dono de cabelos grisalhos que impunham respeito, vestido com um impecável terno preto. O mordomo, deduziu continuando o raciocínio de estar dentro de um antigo filme:
- Soube do acontecido na escola de miss Rika... Pelo visto, ela está muito machucada, mas acho que devemos levá-la para o quarto. Por favor, me ajude.
Chaz ajeitou delicadamente sua companheira no colo, antes de seguir James pelos enormes e ricamente decorados corredores da casa. Estava impressionado, nunca vira tantas preciosidades juntas! Eram quadros, vasos, pequenas esculturas... O que era aquilo por um acaso, o paraíso dos ladrões ou uma casa? E por que uma pessoa precisava de tantos badulaques, por que a casa tinha de ser tão enfeitada?
Depois de andarem por muitos corredores, James disse, na beira de uma porta:
- Esse é o quarto de miss Rika, por favor, coloque-a aí enquanto chamo o médico.
O jovem abriu a porta e, ao entrar, sentiu o misto de contemplação e revolta que o acompanhara por toda a casa: logo na entrada, seguindo uma grande tapeçaria onde se viam milhares de pequenas flores, uma pequena saleta com duas poltronas cor-de-rosa, um pufe da mesma cor e alguns aparelhos eletrônicos. Seguindo a tapeçaria e atravessando a abertura de um biombo, Chaz pôde ver a grande cama com um acolchoado cor-de-rosa, acompanhada de um jogo de criados e uma grande penteadeira no fundo, com muitos vidros de perfume e pequenas caixas decoradas. Sobre a cama, algumas bonecas e bichos de pelúcia lembravam que a dona daquele quarto não havia há muito deixado a infância e, nesta mesma cama, o marciano deixou sua companheira, da maneira mais delicada possível. Ao olhá-la, percebeu um detalhe: estava de sapatos!
- Não devia ter entrado calçada em casa...
Chaz calmamente desabotoou os sapatos de Rika, colocando-os ao lado da cama e não resistindo à vontade de acariciar aqueles pés que, apesar de escondidos pelas meias brancas, pareciam ser tão delicados. Ao olhá-la novamente, percebeu o casaco azul-marinho do uniforme, além da gravata e da camisa apertada. Não seria melhor tirá-los para deixá-la um pouco mais à vontade? Foi o que fez, com toda a delicadeza para não acordar a companheira: tirou o casaco e a gravata e, enquanto desabotoava os primeiros botões da camisa para deixá-la respirar um pouco melhor, foi invadido por uma vontade incrível de desabotoar todos os botões e ver de perto aquele corpo tão gracioso... Porém, conteve-se, não deveria fazer aquilo...
Porém, a vontade de acariciar aquele rosto não conseguiu ser vencida e passava os dedos de leve por aquela pele macia e delicada, enquanto ouvia o som delicado da respiração tornar-se um pouco mais forte, o que indicava que ela logo acordaria. Chaz tirou a mão rapidamente, o suficiente para que, no momento em que ela abriu os olhos rubros, não percebesse nada:
- Esse é... meu quarto!? E você, o que está fazendo aqui? – Disse ela, dirigindo-se ao companheiro.
- Você é bastante mal-agradecida, princesinha... Fui eu quem te trouxe até aqui – Chaz era ríspido.
Os olhos rubros, um pouco desconcertados, olharam para algum ponto distante perdido no horizonte, enquanto uma palavra, difícil de ser dita pelos donos de orgulho férreo, lhe subia pela garganta:
- Obrigada...
- Eu não tive outra escolha e, agora que acordou, não tenho mais o que fazer aqui.
A voz de Chaz era mais fria do que o gelo e o cavaleiro de Marte deixou o quarto sem olhar para trás, mesmo encontrando com James no corredor não parou e nem olhou para trás. Havia centenas de pequenos objetos de valor e vasos por seu caminho e era um ladrão, mas o que importava? O que mais queria naquele momento era sair dali... Aquele ambiente o sufocava, mesmo que Rika estivesse ali, precisava sair para tomar um pouco de ar.
Ao, finalmente, conseguir chegar na rua, olhou com nojo e uma certa contemplação para a casa ao longe e, influenciado por suas habilidades com escalada, começou a procurar a maior das árvores daquela rua. Se sua princesinha estava naquele palacete, então era melhor arranjar algum jeito de vê-la.
Mas que pensamentos eram esses? Sua? Sua princesinha? Essa vontade de vê-la a todos os momentos que lhe deixava maluco? A vontade de que estivesse sempre bem, a preocupação com seus ferimentos, o cuidado... o que era isso? Até mesmo a maneira de que a desejava... Não era apenas seu corpo em uma satisfação efêmera o que queria, era todo o seu ser e para sempre a seu lado! E por que sentia isso por alguém que nunca fizera nada por ele?
Que sentimento era esse, afinal?
A escola de ensino médio de Juubangai atacada por um monstro naquele dia estava tomada por homens da polícia e defesa civil, enquanto alguns alunos davam depoimentos, pistas tentavam ser encontradas e os corpos dos cinco estudantes mortos eram retirados. Além do tempo necessário para algumas reformas em áreas danificadas da escola e de toda a confusão da investigação, não haveria aulas também por algum tempo por motivo de luto.
- Então estávamos lá almoçando... Começou a gritaria... Saímos correndo e vimos o monstro atacando nossos colegas! – Naru disse, abraçada a seu namorado Daisuke, com lágrimas nos olhos, antes de começar a chorar novamente.
- Nunca tinha visto nada parecido, só nos filmes de televisão! – Kitsune disse.
O policial que colhia os depoimentos dos alunos coçou a cabeça antes de prosseguir com as perguntas. O que era isso, mais um para a coleção de ataques estranhos que andavam ocorrendo na cidade? Monstros? Como as investigações mostravam, era melhor continuar na hipótese de um grupo terrorista que andava provocando alucinações coletivas nas pessoas com algum tipo de substância.
Akio estava sentado na porta da sala de treinamento de esgrima, com o olhar perdido ao longe, pensativo. Teria tudo sido um sonho? Não, os ferimentos em suas mãos, alguns arranhões feitos quando caíra, estavam ali para provar que era realidade. E a garota linda que o salvara, além dos outros guerreiros? Gostaria de tê-la ajudado quando se feriu, mas estava paralisado pelo medo. "Paralisado pelo medo!", não pôde deixar de pensar novamente, enquanto balançava a cabeça negativamente. Não treinava táticas de luta na esgrima, não tinha derrotado o antigo presidente nas primeiras semanas de aula por sempre ter sido o melhor esgrimista de seu antigo colégio? Que belo treinamento era esse, que na hora de ajudar uma bela garota o fazia fraquejar!
Kyoko aproximou-se do namorado, estivera preocupada pelo ocorrido, por ele ter ficado para trás por sua causa! Ao aproximar-se, percebeu a distância de Akio. Seria por ela, pensando no que ela o fez passar?
- Me desculpe por ter te atrasado, Akio, fico tão feliz em ver que você está bem!
A jovem líder de torcida aproximou-se do namorado, porém não conseguiu fazer com que seu olhar voltasse-se para ela. Nunca vira Akio daquela maneira, ele devia estar realmente irritado com ela! Uma lágrima escorreu por um de seus olhos, enquanto pegava a mão de seu amado:
- Akio, fale comigo! Não fiz por mal, prometo nunca repetir!
Só naquele instante Akio percebeu que a namorada estava próxima e, enquanto tocava sua mão de leve com uma das mãos e com a outra afastava uma mecha da franja vermelha do rosto, disse:
- Faz muito tempo que você está aqui, Kyoko? Estou tão distraído que nem percebi...
A garota sentiu uma pressão em seu peito tão grande que mais algumas lágrimas lhe desceram pela face. Ele nunca esteve tão distante, há algum tempo bastava que ela se aproximasse um pouco para ele vir todo cheio de sorrisos e amabilidades! O que estava acontecendo com seu amado?
- Não, Akio...
- Estava preocupado com você, mas vejo que está bem. E nossos colegas, estão todos bem?
- Sim, encontrei com as meninas agora há pouco... Até onde soube, as vítimas foram três meninos do terceiro ano, um menino e uma menina do segundo... Mas com nossos colegas está tudo bem.
- Viu Tenoh-san por aí?
Kyoko sentiu a alma gelar ao ouvir esse nome, dessa vez de ódio. A maldita gaijin de novo! Era por causa daquela desgraçada, era por ela que Akio estava distante, que se afastava! Maldita!
- Não...
Sua vontade foi completar a frase: "Não... E bem que gostaria que ela tivesse morrido!", mas conteve-se. Akio ofereceu o braço para que saíssem dali, enquanto Kyoko tinha pensamentos de ódio. Era guerra? Pois bem... iria mostrar que era melhor do que aquela garota e conseguiria a atenção de seu namorado novamente!
Enquanto isso, em um dos muitos corredores da escola, aquele que levava ao registro escolar, uma mulher de cabelos azuis presos em um coque, vestindo um blazer vermelho, usando óculos escuros apesar de não haver sol naquele lugar, andava apressada. Devia ser por ali... Ao encontrar a sala de registro, entrou, como se fosse uma funcionária de muitos anos daquele lugar.
Tinha de agradecer o fato de humanos serem tão burocráticos! Um departamento apenas para fichas de alunos, como isso era útil! Claro que havia censos e registros em seu povo, mas estavam longe de ser o que eram entre os humanos... E não deixava de ser interessante que estivesse em uma sala, mexendo em documentos confidenciais, registros de alunos que passaram e passavam pelo colégio, como se fosse mais uma secretária.
Após alguns minutos de procura, foi dar no arquivo de alunos recentemente transferidos e encontrou algo interessante, o objetivo de toda aquela busca:
- Sarah Granger... Recém-transferida, iniciando as aulas no dia de hoje... Endereço em Tóquio... Nascimento: 27/02/1972 em Tel Aviv, Israel...
O olhar da serva do Castelo da Escuridão perdeu-se um pouco entre os arquivos e pastas, enquanto pensava já ter ouvido falar naqueles lugares citados pela ficha quando estudava sobre os humanos... Também chegara a uma conclusão interessante e útil: se queria descobrir mais coisas, mais detalhes e pistas e elaborar um bom plano, tinha que ir até o local indicado pela ficha... E era o que faria, naquele instante. Por que não descobrir tudo o que fosse possível sobre aquela garota, principalmente o que poderia facilmente ser usado contra ela?
Apenas uma questão atravessava as conexões neuroniais da serva, enquanto preparava-se para teleportar-se: há algumas semanas, fora divulgado entre os servos que Neptune Pirate Knight estava morto, inclusive a serva responsável pelo serviço foi agraciada com um generoso prêmio! Como agora aquela garota era Neptune, se este tinha sido eliminado e a máquina detectora de energia latente nunca, absolutamente nunca se enganava, era de uma tecnologia antiga e a prova de erros tão simples?
Rika estava deitada em sua cama, enquanto calmamente lia um livro recomendado pelo professor de História, um romance histórico, enquanto uma de suas mãos encontrou-se levemente com uma de suas costelas, apenas para chegar à conclusão de que ainda doía o simples toque e, se não fosse a paralisação nas aulas devido às conseqüências do ataque, certamente não conseguiria assistir aula nenhuma e perderia conteúdo... Não que fosse uma aluna ruim, longe disso, mas não podia facilitar, já que tinha se transferido há pouco tempo e sua nova escola exigia bem mais de seus alunos do que a antiga, ainda na França.
Seus olhos rubros rapidamente olharam para a grande janela no fundo de seu quarto, procurando por alguma coisa na grande árvore próxima a sua janela. Que estranho, tivera uma sensação tão estranha de estar sendo observada! Nos últimos três dias, desde que se machucara, aquela sensação persistia... Tão estranho! Pior era sentir, de certa forma, que o que a observava não era uma ameaça...
"Devo estar ficando maluca...", pensou antes de colocar o livro em sua cabeceira, parando para respirar. Porém, a sensação de que havia alguém no quarto foi acompanhada por uma voz bastante familiar:
- Ohayo! Como passou a noite?
- Cassie-chan!
Rika abriu um longo sorriso ao ver a amiga na entrada de seu quarto, animadamente vestindo jeans e uma camiseta, com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e uma expressão marota. Realmente, ela tinha perdido quase toda aquela seriedade de "gênio incompreendido"! Podia até mesmo vê-la vestindo o uniforme escolar e estudando em sua classe... Porém, até sabia o que acontecia à amiga, que também acontecia com ela e com Ryo e podia facilmente ser notado: estavam... perdendo suas máscaras. As proteções contra agressões, pessoas, contra a própria vida. E isso era muito bom, pois assim até mesmo podiam respirar melhor! O que uma amizade não era capaz de fazer?
- Passei bem, não está doendo tanto... Mas não aguento mais estar presa a essa cama, já que não aguento me mexer muito...
- Bom, meu Storm-chan está um tanto nervoso por não terem avisado a ele do monstro no colégio... Acho que ele está levando essa coisa de líder meio a sério demais, tenho até medo disso.
- Não se preocupe, já passa. Além disso, principalmente para ele, para Jack, para você... Vocês têm seu próprio mundo, têm algumas responsabilidades adicionais já que trabalham! Até mesmo Ishtar. Que direito temos de simplesmente chamá-la no meio de uma aula, que explicação ela daria para sair do colégio? E se acontecesse alguma coisa, eu e Ryo saímos bastante machucados dessa, qual explicação daríamos aos pais dela?
Cassie sorriu, enquanto se aproximava da cama de leve somente para dizer, em voz baixa e um tanto envergonhada:
- Beijos franceses são tão... bons! Não imaginava que podiam ser assim!
Rika riu um pouco da vergonha da amiga, antes de comentar:
- São menos frios que os ingleses, com certeza!
- Você... já... beijou assim, ne?
- Não vou dizer que não porque estaria mentindo, mas... nunca me importei muito, não foram com pessoas que eu realmente gostasse ou desejasse. – Rika tinha o olhar perdido em algum ponto à sua frente. – Mas só falo uma coisa: se você tem amor e confiança, não há mal nenhum em ir além dos beijos com Storm...
- Eu... eu já... eu já pensei nisso – Cassie estava completamente vermelha de vergonha.
- Só não vai se esquecer de tomar todos os cuidados quando chegar a hora né!
- Claro que não, Rika-chan! Tudo o que não quero, como um plano de vida e principalmente agora, é ter um filho! Crianças, bagunças... não, não para mim!
Enquanto Cassie e Rika trocavam confidências no quarto, pouco abaixo, em uma grande sala repleta de estantes de livros e alguns objetos de arte, um jovem de cabelos azulados observava um grande globo terrestre de madeira, enquanto conversava com a garota sentada em uma poltrona pouco à frente. Ela estava tão bonita naquele dia, apesar da aura de tristeza sempre presente!
- Como foi seu primeiro dia de aula, antes do ataque? Gostou da escola, de seus novos colegas, dos professores?
- Foi normal, Jack... Aquela coisa de sempre: meu nome, de onde eu vim, por que estou na cidade... Não estava muito animada para conversar, porém. – O tom de voz da garota era distante, como se desse uma informação a um passante que a tivesse pedido.
- Algum garoto te chamou a atenção?
- Não seja ridículo – comentou sem alterar o tom de voz.
Era impressão sua ou além da aura de tristeza, Sarah também erguera a parede de frieza por trás de onde às vezes se escondia, quando não queria conversar ou algo a incomodava? Por que ela tinha de ser daquele jeito, por que não podia se abrir, contar um pouco mais sobre o que estava sentindo, quem sabe assim poderia ajudá-la! O que ela guardava, por que era sempre tão triste, o que tinha acontecido para que não fosse uma garota de dezesseis anos, mas um espectro?
Jack ajoelhou-se aos pés da companheira e, tocando suas mãos em uma tentativa de encará-la, com seus olhos no fundo daquele mar castanho, ele perguntou:
- Você pode me dizer o que está acontecendo?
- Não é nada...
- Estou disposto a ouvir tudo. O que foi, por um acaso minha presença a incomoda, estou sobrando aqui enquanto deveria te deixar sozinha com seus pensamentos, com aquilo que te aflige? Se for isso, saio por essa porta para não voltar mais.
- Não é isso, fique aqui... – os olhos da garota desviaram-se.
- Sarah, SARAH! – Jack a sacudia levemente. – Você não entende que estou disposto a te ouvir, se possível te ajudar? Não aguento mais essa tristeza em você, que não vai embora nunca, de modo algum! Tem algo te incomodando, tem algo que te fere, por que não posso te ajudar? Por que você não quer dizer, por que está jogando tudo isso para dentro de você da pior maneira possível?
- Você... você não entenderia! – A voz da garota finalmente mudou de entonação, agora era como se Sarah estivesse no limiar do controle e das lágrimas.
- Como não entenderia, não sou seu amigo? Pode dizer tudo o que quiser para mim, vou ouvir e tentar te ajudar, se quiser ajuda. Não gosto de te ver triste, ainda mais por não saber o que te deixa assim! Por favor, confie em mim, estarei disposto a te ajudar, sempre! Pode ser o que for, qualquer coisa, vou te entender!
Enquanto falava, Jack colocou a mão no rosto da amiga, acariciando-o levemente. Ela parecia tão frágil, mas não sabia o que fazer para que toda aquela tristeza fosse embora para sempre! Como queria vê-la feliz e animada, principalmente se fosse a seu lado! E como a mão dela estava gelada e trêmula, quando a sentiu em seu rosto! Ela o acariciava e seus rostos se aproximavam, seus olhos fechando-se lentamente, o ar da respiração misturando-se. Será que o momento por qual mais ansiara desde que a conhecera, desde que se apaixonara perdidamente iria se realizar?
- Iie.. – sussurrou Sarah antes de afastar-se, encostando-se novamente na poltrona.
Jack ficou por alguns segundos parado, ainda entendendo o que não tinha acontecido. Estava tão próximo e era tão maravilhoso senti-la, estar próximo a ela! Como queria beijá-la naquele momento, enchê-la de carícias e mostrá-la o quão belo era o mundo!
- Ele... ele não merece uma atitude dessa! – Sarah disse, com uma das mãos apoiando a testa, já que tinha abaixado a cabeça.
Jack, ainda frustrado, olhou para o relógio em seu pulso: era hora de ir, tinha avisado ao chefe que chegaria um pouco mais tarde, mas precisava ir andando! Era até bom deixar Sarah um pouco a sós com seus pensamentos, quem sabe ela não resolveria lhe contar o que estava acontecendo? Antes de sair, disse calmamente:
- Pode contar comigo para o que precisar, quando se sentir à vontade para contar o que te aflige, estarei pronto para ouvi-la. Tenho de ir agora, mas logo estarei de volta... Até mais, minha querida Sarah.
A jovem acompanhou o companheiro com os olhos em seu trajeto até fora da biblioteca, enquanto levava os dedos levemente aos lábios. Quase sucumbira a um desejo efêmero, fizera algo de que se arrependeria depois apenas por impulso! Além do que... o que sentia por ele? Era apenas amizade, não?
Além disso, e aquele que amava mais do que tudo, Samuel? Não seria de mais ninguém, era eternamente dele... E assim seria até o dia em que se encontrassem novamente... Nunca se identificara tanto com alguém como com ele, era como se fossem duas metades de alguma coisa que só tem sentido se estão juntas! E era isso... Qual era o sentido de sua vida já que ele não estava mais a seu lado?
Em uma cama, localizada em um sobrado de Juubangai onde uma família composta de um casal e suas três filhas morava, uma pilha de roupas começava a se formar, aumentando rapidamente devido às muitas peças jogadas ali a cada minuto que se passava. Afinal de contas, era um domingo e a dona daquele quarto, da cama e das roupas queria estar bem-vestida para sair com sua melhor amiga!
Melhor amiga? Na verdade, desde que ela se apaixonara e seus sentimentos foram correspondidos, estava distante... Fazia duas semanas que não saíam, conversavam mais do que três frases de uma vez ou mesmo almoçavam juntas no colégio! Não eram amigas, não cresceram juntas, não dividiam todos os segredos?
Aliás, não mais. Algumas coisas tinham acontecido e toda, ou pelo menos uma grande parte da perspectiva de mundo que possuía tinha mudado radicalmente após alguns acontecimentos... Era uma guerreira, seu destino era ser como as heroínas de mangá mahou-shoujo! Porém, se contasse para Tomoyo, no mínimo ela riria de sua cara e diria que era melhor estudar do que imaginar coisas... E também, que assunto andavam tendo ultimamente? Nenhum...
Porém, tinha de pensar em algo mais urgente no momento: sua roupa para aquela tarde! Aquele conjuntinho rosa que estava usando combinava com as plataformas roxas?
- IRIS-CHAAAAAAAAAAAAAAAAAN!
A cabeça de uma gata amarela saiu de baixo de uma blusa de malha com o logotipo de uma boyband e seus olhos encontraram-se com aquela que a chamara e estava lhe alugando por toda a tarde. Não que não gostasse de ser alugada, adorava a atenção de sua protegida... Ishtar era tão doce de vez em quando, como gostava de quando passavam a noite conversando!
- Bom, Ishi-chan, acho que não combina! Além disso, você está vulgar com esse short desse tamanho e uma mini-blusa!
- É... Tem razão!
Mais duas peças de roupa foram atiradas na cama, aumentando ainda mais a pilha e a bagunça daquele quarto, enquanto os dedos de Ishtar passeavam pelos poucos cabides que restavam à procura de algo para vestir. Íris... Era tão gostoso se abrir com ela e, por mais que negasse, como suas broncas eram necessárias e úteis! Sentia nela uma amiga, como nunca tivera, apesar do pouco tempo de convivência. No começo estranhara conversar com uma gata, mas atualmente era tão bom!
- Ishi-chan, essa roupa está ridícula!
Realmente... Saia xadrez azul com uma blusa de bolinhas não combinava muito! Íris simplesmente suspirou enquanto desviava de mais duas peças de roupa atiradas em sua direção...
No andar inferior, na sala de visitas, uma garotinha de dez anos, dona de longos cabelos de um negro profundo que os usava soltos, com um par de óculos de lentes grossas, vestindo um abrigo de ginástica, colocava chá na xícara da visitante, enquanto comentava:
- Ishi-neechan está demorando, não acha?
- Não tem importância, Geshi-chan, continuamos a conversar mais um pouco.
Tomoyo abria um sorriso amarelo enquanto dizia a frase, afinal não aguentava mais ouvir as histórias de Geshtinana, o pequeno gênio da família Aino. O que lhe interessava que a garota agora estava em um curso de alemão e tocava violoncelo? Como Ishtar conseguia suportar aquela menina?
- Demorei, Tomoyo-chan?
Por falar nela, Ishtar acabava de aparecer na porta, vestindo uma blusa preta e uma saia florida, com Íris trançando em seus pés, fato que fez com que Tomoyo suspirasse e agradecesse ter sido salva pelo gongo:
- Nem um pouco, Ishi-chan!
- Aonde vamos?
- Parque de diversões! Makoto-kun estará lá...- Tomoyo disse entre suspiros.
Ishtar lançou para amiga um certo olhar de tristeza. Pois é, o passeio acabaria assim que ela o encontrasse, Makoto-kun seria prioridade e Ishtar, esquecida. A realidade doía, não era mesmo? Porém, a venusiana colocou um sorriso no rosto e disse:
- Então vamos lá! Tchauzinho, imouto-chan!
O olhar de Ishtar, apesar de disfarçado, fora notado por uma pessoa naquela sala... Aliás, não era exatamente uma pessoa, mas entendia muito bem o que aquela expressão significava e também o que fatalmente ocorreria no passeio. Estava na hora de entrar em ação e sabia exatamente como!
Mal Ishtar percebeu, mas na grande bolsa de passeio que tirava de um cabideiro, havia mais do que uma carteira e algumas bugigangas...
Domingo... Após uma semana se recuperando de seus ferimentos, Rika saía de casa pela primeira vez, em um passeio prometido já há algum tempo e que queria muito fazer, apesar de ter conseguido se levantar apenas na sexta-feira da cama. Estava com sua irmã, apesar de pequenas visitas e conversas ao telefone, desde que a francesa chegara ao Japão era a primeira vez em que efetivamente passeariam juntas!
Na verdade, preferiria passar um dia com ela em sua casa, coisa que fatalmente ocorreria dentro de muito breve, mas o apelo das montanhas-russas, brinquedos novos para todos os gostos, pessoas e até mesmo dos sorvetes fizeram com que as irmãs mudassem os planos um pouco e fossem passear em um parque de diversões. Rika tinha doces lembranças da época em que ia com seu pai, ou mesmo James-san, em quase todos os brinquedos! Só esperava que Haruka se divertisse bastante no passeio!
Porém, o passeio não era somente entre as irmãs Tenoh: Ryo ia com elas, animado e feliz por passear com aquela que não era apenas uma amiga, mas também seu amor... Não havia no mundo garota mais bela e gentil, mais simpática e doce, mais atenciosa, mais tudo! Rika era a garota perfeita, aquela que escolhera para amar! Como sentia-se feliz em estar ao lado dela, como sentira-se lisonjeado ao receber o convite para passear no ensolarado domingo! Não que fosse um grande fã de parques de diversões, afinal de contas o simples fato de pensar em uma casa mal-assombrada provocava-lhe arrepios, mas era tão bom estar em um passeio familiar com Rika e a irmã! E como achara graça da pergunta da pequena, ao ver que ele as acompanharia no passeio: "Ryo-san é seu namorado, oneesama?". Rika enrubescera e respondera que não, mas como queria que a resposta fosse um grande e sorridente sim!
Rika tinha os olhos perdidos nos outros ocupantes do banco traseiro do carro, observando como a irmã a olhava com admiração. Ela tinha crescido bastante, parecia um menino por ser alta, forte, ter os cabelos curtos e estar vestida com uma bermuda e uma camiseta larga! Ela estava tão bonita, tinha orgulho de ter uma irmã mais nova tão graciosa! Seus olhos avançaram um pouco e encontraram Ryo, tentando disfarçar seu olhar para ela. Fizera bem em chamá-lo para passear, afinal de contas seria bom para ele tirar a cabeça dos livros e colocá-la em alguma outra coisa, como diversão, por exemplo. Percebia que ele já se entrosava mais com os colegas de classe, mas ele precisava ver mais e mais gente, conviver com mais pessoas, além disso, o achava uma companhia tão agradável! Principalmente, também, depois dos fatos ocorridos na escola no início da semana, em que ele também se ferira um bocado. Era até engraçado pensar que não se lembrava de outra ocasião em que ele estivesse vestido com algo diferente do uniforme escolar...
- Senhorita Rika, estamos chegando – disse o motorista.
- Então pode nos deixar aqui... Pode deixar que telefono na hora de ir embora, Hajime-san!
Os três jovens desceram do carro, observando a longa fila que precedia a entrada do parque, em meio de um comentário de Ryo sobre como aquele dia estava convidativo para um passeio, por isso estava tão cheio, enquanto Haruka assentia com a cabeça.
- Acho bom irmos para a fila... E isso porque viemos cedo! Inclusive, convidei Sarah para vir conosco, mas ela disse que vinha mais tarde por ter de ajudar Jack e Storm com a limpeza do apartamento...
- Sarah-san é linda... – Haruka comentou rapidamente.
- Além de linda é... – Ryo iria tecer um elogio à companheira, mas faltava-lhe algum adjetivo. Sarah nunca lhe parecera divertida, extrovertida, aberta, feliz, satisfeita... Como podia fazer um elogio real? Ante os olhares curiosos das irmãs que o acompanhavam, concluiu do jeito que lhe parecia mais honesto -
Rika e Haruka entreolharam-se, concordando com a afirmação de Ryo, enquanto a francesa colocava levemente a mão sobre a região lombar, apenas para lembrar que estava chegando a hora de tomar um analgésico.
- Só espero que essa fila ande logo – foi tudo o que pôde comentar.
Cassie estava jogada no sofá da sala, vestindo uma camisola, debaixo dos cobertores e com um pote de sorvete nos braços, assistindo um filme qualquer que estava passando na televisão. Podia ser um lindo domingo de sol do lado de fora, mas o que interessava? Estava em casa e não sairia daquele estado de recolhimento tão cedo, afinal de contas não fora isso o que mais ouvira nos últimos dias? "Sinto muito", "não temos vagas", "não estamos interessados"...
Porém, no fim das contas, fora o último de seus entrevistadores que lhe dera um motivo realmente bom para que alguém com o currículo que possuía não ser contratada por ninguém: não tinham como dar um cargo de confiança a alguém com uma experiência de vida nula! Ou seja, fora lhe jogado na cara e com todas as letras que era uma criança!
Sempre soubera que se trabalhara com Tomoe-sensei fora por respeito a seus pais e não por seus méritos, mas já imaginava-se pronta para ser aceita em outros lugares, com outras pessoas! Porém, pelo jeito ainda não fora aceita... E qual era a mancha no currículo impecável, que incluía inglês não apenas fluente, mas perfeito; um diploma de graduação na Toudai e uma tese defendida na mesma universidade, senão a pouca idade? Chegava a ser injusto... Por que os "adultos" sempre se achavam os donos da verdade, perfeitos e incontestáveis, por que não podiam aceitá-la? Preconceito idiota!
Os pensamentos foram cortados pelo barulho irritante da campainha, que fez com que a jovem derrubasse seu pote de sorvete no chão, já que não esperava pela visita. Quem poderia ser, não estava esperando ninguém! Era dia de faxina na casa de Storm... Era engraçado imaginá-lo vestindo um avental e com um espanador na mão, além de um pano amarrado na cabeça para evitar que o penteado se desfizesse! "Que penteado?", pensou rapidamente. Os cabelos naturalmente bagunçados eram tão lindos, era tão gostoso ficar acariciando-os...
Além disso, onde estava a droga de porteiro que nem anunciava a visita?
- Que é? – Disse ela com o tom de voz mais arredio que conseguiu, com apenas uma fresta da porta aberta.
- Serviço de limpeza – aquela voz não lhe era estranha...
- Apartamento errado, não pedi nenhum... – a frase foi interrompida quando Cassie percebeu que um botão de rosa era gentilmente colocado no pequeno vão da porta aberto. Era ele?
- Eu sei que não...
A porta se abriu de leve, empurrada pela mão de um belo rapaz do outro lado da porta. Ele tinha seu encantador sorriso e, apesar de parecer cansado, tinha uma expressão de alegria imensa no rosto. Andara preocupado com a namorada, ela estava um tanto triste com o fato de não conseguir trabalhar, precisava relaxar e se divertir um pouco. Era uma pena ter deixado que Sarah fizesse muito do serviço que cabia a ele em sua casa, mas sentia muito, precisava vê-la, precisava fazê-la sorrir e relaxar da tensão que colocara sobre si própria.
No dia anterior, ocorrera um fato interessante: quando foi entregar alguns papéis em um escritório, acabou por ganhar, de um promotor que ali estava, dois passaportes para um famoso parque de diversões. Não tinha entendido exatamente o motivo, mas era uma boa oportunidade de ter um encontro a dois com ela, ainda mais em um lugar que desejava visitar! Há quantos anos não passava nem perto de parques de diversões?
- Tenho um convite para fazer – Enquanto sorria, Storm balançava no ar os passaportes.
Cassie sorria novamente para o namorado, porém olhou para baixo rapidamente apenas para perceber o quanto estava desmazelada! Isso não era maneira de apresentar-se para seu amado, ele merecia vê-la arrumada e bonita!
- Aceito, mas... volto já!
Enquanto a garota corria para o quarto para trocar-se, Storm lançou um olhar por toda a sala, percebendo a bagunça deixada pela namorada na sala, talvez por ser um domingo ela não estivesse se importando muito com limpeza, mas aquela sala estava um pandemônio! O cobertor espalhado no sofá, a televisão ligada, uma meleca cor-de-rosa que um dia foi um sorvete pelo chão... Tinha de ajudá-la e, de certa maneira, expiar-se por ter fugido da faxina de sua casa.
Muitos minutos depois, Cassie ainda terminava de abotoar os brincos enquanto aproximava-se da sala. Storm deveria entender o motivo da demora para se arrumar, afinal de contas ele não iria sair com uma namorada mal-arrumada! E arrumar-se nem era apenas por ele não... Era também para subir sua auto-estima, deixá-la um pouco mais animada para seguir com sua vida, mesmo que por um motivo que para si era bastante idiota não podia fazer o que gostava!
E qual não foi a surpresa da garota ao entrar na sala e ver o cobertor dobrado no canto do sofá e o chão limpo do sorvete? Ao olhar para o namorado brincando com as chaves de casa no sofá, só pôde olhá-lo com espanto e dizer:
- Não era sua obrigação...
- Mas achei melhor fazer.
- Obrigada, então...
Storm levantou-se e aproximou da namorada com um sorriso que mostrava toda sua apreciação à produção um tanto demorada, pegando sua mão de leve e levantando seu braço, fazendo com que ela se virasse para que ele visse toda a roupa:
- Está linda, sabia?
Cassie sorriu antes de responder com um longo beijo, acompanhado de algumas carícias no namorado, que as retribuía calorosamente. Porém, antes que a demonstração de carinho esquentasse mais, a garota lembrou do trabalho que dera para se arrumar e que queria ir ao parque, afinal de contas! Afastando-se levemente com um último beijo de leve, disse, com uma enorme gota de suor na testa:
- Bom, acho que nosso programa para hoje é outro, não é?
Storm assentiu com a cabeça, também com uma gota enorme na testa. Não que ela não o deixasse louco, mas além de já ter reservado o domingo para levá-la ao parque, tinha um certo medo de acabar magoando-a, apesar de que já tinham dado longos beijos e as carícias... Sendo direto ela era bem fofa, no sentido literal da palavra!
- Por que você está ficando vermelho?
- Vermelho? – O joviano assustou-se, interrompendo imediatamente os pensamentos. – Acho que... temos de ir logo, senão vai ficar muito tarde!
Cassie deu o braço para o namorado, que a guiava calmamente pela sala rumo à porta, pronto para levá-la para um belo passeio em um dia de sol agradável e convidativo, muito propício a sair, visitar novos lugares e divertirem-se, principalmente juntos.
As ruas estavam cheias de pessoas e carros, seguindo sua vida e rotina normais pela cidade, em mais um dia comum e sem grandes novidades, mesmo que o fantasma de uma guerra pairasse sobre aquele solo, fazendo com que uma sensação total de paz tornasse-se impossível.
Entre essas pessoas, uma figura se destacava: estava com um sobretudo pardo, óculos escuros e os longos cabelos azuis presos em um coque no alto da cabeça, observando tudo com o máximo de atenção e cuidado, não apenas por fazer parte do seu trabalho, mas por interessar-se por novas culturas e era uma excelente oportunidade para observar um pouco aquela região enquanto fazia suas pesquisas. Estava em uma região que aparecera muito enquanto pesquisava as raízes da humanidade no Pós-Milênio, região onde grandes civilizações se ergueram...
Porém, não era para isso que estava ali pesquisando, mas para que seu trunfo tivesse alguma utilidade. Seu trunfo... como era bom falar isso! Como era bom saber que os idiotas da Sala de Controle não tinham a informação privilegiada que descobrira, que se tudo ocorresse como estava planejando, a Mestra estaria desperta muito mais rápido do que aqueles idiotas sequer sonhavam e ainda por cima ela teria muito para ouvir e a justiça teria de ser feita!
Também nesse sentido a estada em Israel estava sendo boa, tinha descoberto muita coisa sobre o passado de Sarah Granger! Coisas muito interessantes mesmo, que podiam ser facilmente manipuladas a seu favor se necessário! Não poderia ter descoberto a identidade de um Pirate Knight melhor, provavelmente nenhum outro lhe daria tanto material de pesquisa! Não estava nem mesmo interessada em descobrir a identidade dos outros, só aquela garota já era muito interessante e serviria perfeitamente para seu plano!
Só faltavam alguns detalhes a serem resolvidos naquele dia mesmo, já que já tinha dados o suficiente para realizar aquilo que planejara. Depois era só voltar para a Sala de Comando e pegar o material necessário, seu plano estava pronto, era hora de agir!
Enquanto isso, na Sala de Controle do Castelo da Escuridão, uma dupla de generais observava os monitores e algumas luzes que se acendiam e apagavam rapidamente, indicando algumas coisas que nem chamavam a atenção muito mais do que um monitor específico, o que indicava a atividade dos servos fora do Castelo:
- O que Aneurocito está fazendo nesse lugar enquanto ela deveria estar aqui, trabalhando? – Cuprum perguntava em voz alta algo que estava entalado em sua garganta já há algum tempo.
- Tenho a impressão de que as asinhas dela estão grandes demais, temos de cortá-las... Ora, ela tem responsabilidades, a missão dela é importante demais para ficar zanzando por aí e ainda por cima gastando uma energia que não podemos desperdiçar! E a Mestra, como é que fica? Temos de despertá-la, não ficar gastando energia com passeios!- Sílica esbravejava, acertando o painel em sua frente com o punho.
- E o que fazemos agora? Sabe que temos como trazê-la de volta imediatamente.
- Não, acho que ela volta. Por agora, acho que temos de tomar outro tipo de atitude...
- E qual seria essa atitude?
- Temos de aumentar o nível do reservatório de energia, principalmente porque com a ajuda de certos membros desperdiçadores – Sílica enfatizou a última frase enquanto apontava com raiva para o monitor que indicava a localização de Aneurocito - pode ser que daqui a pouco entremos em pane por falta de energia!
- Se é isso o que quer... MONSEN, APRESENTE-SE!
Um monstro idêntico a um urso polar, porém de pele completamente prateada e garras um pouco mais longas materializou-se na Sala de comando, na frente de Sílica e Cuprum. O general disse, um pouco afetado, apontando para um ponto em um mapa que brilhava em um monitor:
- Vá para esse ponto e pegue o máximo de energia possível, entendeu?
- Monsen! – O monstro repetiu em afirmação.
Após o urso teleportar-se para onde seria útil, Sílica lançou um olhar de quem tinha certeza do que estava fazendo para Curprum, que o retribuiu prontamente, como se dissesse que se Aneurocito queria complicar um pouco as coisas e ainda por cima se dava ao direito de desaparecer no meio de trabalho sério, eles tinham muito bem como agir...
Uma garota olhava desconsoladamente para a grande fila em sua frente, perguntando-se novamente por que ainda estava nela já que tinha ódio mortal a montanhas-russas, mas lembrando do motivo que a trouxera ao parque e fizera com que fosse abandonada naquela fila. Não era exatamente com ela que sua amiga queria sair, tudo era apenas um pretexto para se encontrar com o tal do Makoto-kun... Ela não passava de um jogo, uma desculpa, um álibi... Mas o pior não era nem isso, era saber que fora ao passeio consciente de sua posição, mas com a esperança vã de receber atenção da amiga.
Aliás, amiga? Será que, depois de tudo que estava acontecendo com ambas, podia ainda realmente chamá-la dessa forma?
Os pensamentos de Ishtar foram cortados no momento em que percebeu que a fila andava e estava quase sem escapatória: seria a próxima a ir. E o que a impedia de sair daquela fila naquele instante, já que sentia calafrios só de olhar para o brinquedo em sua frente e ouvir os gritos daqueles que estavam lá?
- Então você gosta de montanhas-russas, garotinha?
Ishtar disfarçadamente olhou para trás, apenas para que o pensamento de "Só faltava essa" aparecer em sua mente: o idiota pervertido da porta da escola! Como tinha vontade de dar um tapa nele, aquele arzinho de "eu sou melhor que você" era simplesmente nojento!
- Isso não é da sua conta!
- Bom, garotinhas como você não me parecem muito corajosas... Para mim, você gosta de ficar em solo firme, bem longe de alturas. Realmente, é necessário estômago para ir a uma montanha-russa dessas e você, neko-chan, – o rapaz passou de leve os dedos pelo cabelo de Ishtar, que se esquivou rapidamente – é delicada demais para aguentar uma dessas.
- Quem te deu liberdade para me tocar, hein, seu idiota? E ainda por cima tentar dar palpite em coisas que você não conhece! Pois saiba que eu vou nessa montanha-russa sim!
O garoto apenas deu um sorriso cínico, que queria dizer muito mais "como pessoas são manipuláveis" do que qualquer consideração sobre a "neko-chan" em sua frente, que andava irritada seguindo a fila. Por sua vez, a venusiana dava passos irritados... Aquele idiota tinha mexido no seu orgulho! Agora para ela era uma questão de honra ir àquela montanha-russa! E não deveria ser tão ruim assim, não estava vendo as pessoas saírem até mesmo com sorrisos de satisfação?
A garota respirou fundo, enquanto dava passos decididos até o carrinho, sentando-se enquanto um dos funcionários do parque a ajudava com o colete de segurança. Agora não tinha mais escapatória, não tinha como fugir! Era hora de começar a rezar, isso sim... Quando o carrinho começou a andar, fechou os olhos e novamente respirou fundo, esperando pelo que viria. "Ah, até que é calminho subir...", pensou, enquanto olhava o parque diminuir sob seus pés. Mas que agonia, a subida não acabava nunca! Porém, quando já estava achando que ia chegar em Vênus, uma brusca descida fez com que seu coração saltasse pela boca:
- AI! AI! AI! AAAAAIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!
O resto da viagem foi uma mistura de pânico e gritos de terror, enquanto o vento fazia com que seus longos e brilhantes cabelos castanho-claros se agitassem e roçava seu rosto fortemente, o que apenas a fazia gritar ainda mais. Quando o carrinho finalmente voltou ao ponto inicial, alguns minutos após ter saído mas que soaram como uma eternidade, a garota saiu um pouco pálida e trêmula, sendo ajudada por um funcionário do parque a descer as escadas que a levariam para fora do brinquedo e apenas retomando a noção do acontecido alguns minutos depois, ao encontrar-se sentada em um banco alguns metros à frente.
Os olhos estavam pesados de lágrimas, a vontade era de começar a chorar naquele instante, não apenas por ter seguido seu orgulho e se arrependido, mas por estar sozinha, não ter como e com quem se consolar, sentir-se um objeto, um fantoche, uma marionete! Sim, só mudou de comando, primeiro Tomoyo para levá-la até o parque e depois... aquele idiota!
- Pelo amor de Serenity, tirem-me daqui!
Ishtar olhou para a sua bolsa, espantada. Aquela voz lhe era familiar e parecia vinda dali, mas como isso seria possível? Será que chacoalhar na montanha-russa tinha afetado seus neurônios e estava tendo ilusões auditivas? O jeito era abri-la e concluir que tudo não passava de uma impressão, mas qual não foi sua surpresa ao ver uma gata amarela com uma lua crescente na testa sair lá de dentro ao abri-la?
- Íris-chan?
- Estava preocupada com você, Ishi-chan! Daijobu?
- Daijobu... Mas como veio parar aqui?
- Senti que precisava de mim, percebi seu olhar ao sair de casa, pressupus que tudo isso fosse acontecer... Queria vir só para te dizer que não está sozinha, Ishi-chan... Você tem pessoas que realmente se importam com seu bem-estar e fariam de tudo para te ver feliz. Não se esquente por uma garota tola que não sabe a besteira que está fazendo, mas sim com quem realmente se importa com você! Eu, suas irmãs, seus pais, seus novos amigos... todos estaremos aqui para quando precisar de nós, entendeu? Você não está sozinha e nem precisa agir como uma boneca para provar o contrário a si mesma!
Os olhos de Ishtar pesavam e algumas lágrimas começaram a rolar vagarosamente pelo belo rosto, imediatamente limpas pela garota, que disse calmamente:
- Obrigada...
- Agora vamos lá! Vá tomar um sorvetinho que eu infelizmente tenho de voltar pra bolsa... Ai,ai; bem que podia haver um parque felino aqui...
Ishtar sorriu levemente enquanto ajudava Íris a entrar novamente em sua bolsa, pensando que a gata tinha razão! Tomoyo infelizmente provara que a amizade e cumplicidade de muitos anos tinha chegado ao fim e agora era hora de respirar novos ares, conviver com seus companheiros e não ficar mais sozinha! Sim, as coisas mudavam, para o bem ou para o mal, era hora de adequar-se a sua nova vida!
Alguns metros adiante, um garoto tinha alguns pensamentos semelhantes enquanto saboreava um sorvete de chocolate sentado em um banco próximo à casa mal-assombrada: era hora de adequar-se a sua nova vida! As coisas estavam mudando, as coisas tinham mudado! Como tudo tinha melhorado desde que ela lhe mostrara que podia conversar, podia misturar-se, que era bom conversar um pouco, conviver com os colegas, sair da concha! Rika era um anjo... Um belo anjo, por sinal. Belo demais, era uma beleza que o tomava, que fazia com que a observasse por horas, com que seus olhos não conseguissem ver qualquer outra coisa quando ela estivesse perto!
Não apenas a beleza sufocante, aquele corpo perfeito que seria capaz de seduzir até mesmo um rochedo, mas também sue caráter! Como seu sorriso, quase sempre presente, era belo, como ele refrescava, era como o sol nascente após uma noite longa! Era a brisa de um dia quente, era um bálsamo! Ela o tratava tão bem, como ninguém nunca havia antes, dando uma atenção a ele que nunca dera, um carinho que não recebia de mais ninguém!
Como a amava, como a queria não apenas como amiga, mas como mulher para passar dias e noites a seu lado! Venderia sua alma para ter nem que fosse um toque, nem que fosse um beijo dela! Como a queria, como ela tinha a capacidade de remetê-lo ao mais doce dos paraísos!
- E então, Ryo-kun, demoramos muito?
A surpresa de ouvir sua voz, ainda mais quando pensava tão ardentemente nela, foi imensa, a ponto de fazer com que o jovem mercuriano desse um pulo do banco onde estava sentado.
- Que é isso, Rika-chan...
- Ryo-san esqueceu de tomar o sorvete e ele derreteu! – Haruka disse, rindo e apontando para uma grande mancha marrom na calça do jovem.
Ryo ficou completamente vermelho e, levantando-se para dar a explicação de que ia limpar o sorvete, saiu correndo para o banheiro mais próximo, enquanto as irmãs Tenoh trocavam alguns risos. Alguns minutos depois, quando Ryo voltou, Rika disse delicadamente:
- Acidentes acontecem, aprenda a rir deles e não repeti-los!
- Mas eles nos matam de vergonha assim mesmo... – disse Ryo ainda completamente sem-graça.
Haruka, para quebrar o clima pesado, tomou a mão de Ryo e, enquanto o puxava na direção da casa dos espelhos, perguntava animada:
- Por que não foi com a gente à casa mal-assombrada?
- É porque... bom, está longe de ser meu lugar preferido num parque de diversões!
- Ah, então você tem medo!
- Se prefere chamar assim...
Se Ryo antes estava vermelho pelo incidente com o sorvete, agora estava completamente roxo! Sim, tinha medo da casa mal-assombrada, e daí? Era ridículo ter medo de monstrinhos de borracha perto do que tinha de enfrentar como Mercury Pirate Knight, mas e daí? Era humano ter medo!
Porém... a vergonha era maior ainda ao ver que Rika dava risadinhas de leve, porém perceptivelmente segurando-se para não arrebentar em gargalhadas...
Um casal de namorados observava calmamente a enorme cidade que se erguia sob seus pés, naquele que era o ponto mais alto de uma roda-gigante, compenetrados na bela visão e também em sentirem-se tão juntos. Mesmo sendo uma tarde quente, era tão bom sentirem o calor um do outro, a proximidade um do outro!
- Parece que todo mundo teve a mesma idéia que você- disse Cassie apontando para baixo e mostrando o parque lotado.
- Mas nenhuma dessas pessoas está junto da garota mais adorável desse mundo- disse Storm, acariciando de leve o ombro da namorada.
- Você é um bobo, sabia? – Cassie disse sorrindo, enquanto tocava os lábios do namorado levemente com os seus.
- Bobo nada! Só sou o cara mais sortudo desse mundo...
A plutoniana encostou a cabeça de leve no ombro do namorado enquanto acariciava sua mão, observando os prédios ao longe. Era tão bom ficar tão perto dele, como queria ficar assim por toda a eternidade! Eternidade... Era uma palavra pesada... Porém, não podia encontrar melhor para definir seus sentimentos.
Seus pensamentos, assim como seus olhos, estavam perdidos, porém a idéia que não lhe abandonava fazia semanas voltou: por que todos aqueles fatos estranhos estavam ocorrendo, qual era o sentido? Por que monstros, por que mortes, por que guerreiros, qual era o sentido de tudo aquilo? Era tudo em vão, apenas estavam ali à toa? Claro que não, mas por que tudo aquilo estava acontecendo, qual era a razão?
Seus olhos enturvaram-se e, quando conseguiu ver novamente as coisas, não estava mais no parque: era um lugar estranho, parecia uma sala, havia uma mulher ao fundo, podia ver que Storm estava concentrado em uma luta e mesmo ferido, via também que um raio se aproximava dele, mas tudo parou de repente quando ouviu o barulho de um cajado que tocava o chão.
A visão foi-se tão rápido quanto veio e deixou apenas uma sensação horrível: a de que Storm seria ferido! O joviano sentiu que a namorada apertava sua mão em desespero e perguntou:
- O que houve?
- Vai... haver... algo... terrível! – A voz da garota estava embebida em desespero.
- Calma...- Storm sussurrava de leve em seu ouvido. – É o calor, não vai acontecer nada!
Cassie deu um sorriso leve, mas não conformado. Quem dera ser apenas um fruto do dia quente! Não ia deixar que nada de ruim acontecesse com sue amado, nem que tivesse de pagar com a vida para isso!
- Vamos tomar um sorvete?
Storm guiava a namorada delicadamente para fora da roda gigante e apontava uma barraquinha de sorvetes pouco à frente, puxando-a também delicadamente pela mão. Estava adorando o parque, já tinham ido a muitos brinquedos, fazia muito tempo que não se divertia daquela maneira! Era bom desligar-se um pouco da realidade, nem que fosse por apenas um domingo, era bom retomar a infância, mesmo que a sua não tivesse sido tão cheia de brinquedos e passeios! Era bom fazer aquilo que sempre sonhara, mas nunca tivera uma oportunidade, quando iria sonhar que passearia em um parque com aquelas proporções? Nunca imaginara até mesmo que um parque com tais proporções podia existir! Nem em seu melhor sonho de infância havia um parque desse tamanho, com essa variedade de brinquedos...
- Storm, acho que temos problemas!
O apelo da namorada fez com que o rapaz saísse de seus pensamentos e percebesse que se instalara uma correria no parque, acompanhada de gritos de pânico e desespero geral. Justo no dia em que queria ter folga algo errado estava acontecendo! O jeito era puxar a namorada pela multidão até encontrarem algum lugar para se transformarem, no caso um depósito onde "somente pessoal autorizado" podia entrar.
- Acho que não podemos entrar aqui... – disse Cassie, olhando para a placa na porta.
- E eu acho que é uma emergência. Vamos!
Após entrarem na sala, Cassie aproximou o comunicador da face e, após apertar um botãozinho disse:
- Parece que temos problemas no parque de diversões, venham para cá!
- Poder de Júpiter, VENHA A MIM!- Storm já se adiantava na transformação.
Pouco depois, Pluto e Jupiter Pirate Knight saíam do depósito e, como a correria já tinha cessado, um monstro parecido com um urso polar era visível e estava indo na direção de uma criança, provavelmente perdida de seus pais na confusão, que chorava mais por medo de estar sozinha e não entender o que estava acontecendo do que propriamente por medo do monstro. Pluto sentiu o sangue gelar e, afastando um pouco as mãos do corpo como se segurasse um bastão, concentrou-se até que seu cetro aparecesse, o que não demorou muito. Era mais fácil bater com ele, isso não podia negar...
- Deixe-o em paz! – disse Pluto, que rapidamente tinha se posto na frente da criança.
O urso respondeu com um ataque de raios prateados, que não podiam ser desviados sem que a criança fosse atingida pro algum deles. Pluto estendeu o braço:
- Chrono... – O movimento seguinte era semelhante ao que faria se quisesse simplesmente parar o ar. - !
Os raios pararam de repente quando atingidos pela onda de distorção do tempo, o que paralisou-os e dispersou-os. Pluto gritava para Jupiter, paralisado pela ação rápida da companheira:
- Leve esse menino daqui e deixe o resto por minha conta!
- Mas...
- Anda logo!
Jupiter, pulando, pegou o garoto no colo e saiu do raio da ação para deixá-lo em um lugar seguro, enquanto Pluto segurava seu cetro de forma a esperar o melhor momento a atacar e de uma maneira que seria fácil absorver qualquer ataque, esperando pela reação do monstro pouco à sua frente. Ele vinha furioso pela paralização de seus golpes e, com a pata fechada em soco, avançou para a amazona que desviou o golpe com a ajuda de seu cetro. Os moviemntos de tentativa de ataque e posterior esquiva continuaram, até que Pluto girou seu cetro rapidamente e atingiu o braço de Monsen, que berrou de dor. Em um movimento rápido, a amazona trouxe o cetro com força para a sua frente, atingindo o estômago do adversário.
Porém, como o uso de uma arma grande a tornava lenta, Monsen teve tempo de agarrar o cetro rapidamente e, puxando-o para frente, trazer consigo Pluto, que recebeu também um golpe no estômago, fazendo com que perdesse o fôlego por alguns instantes. Nesse período, sentiu o joelho do monstro no mesmo lugar e o gosto de sangue na boca, gesto repetido pouco depois.
- GALACTIC QUAKE!
Monsen sentiu o chão sumir sob seus pés e que era impelido para o chão, soltando a amazona que caiu sem fôlego no chão, limpando a boca de leve para tirar o filete de sangue que se formava. Pouco à frente, colocando-se em posição de ataque, estava uma amazona de uniforme amarelo, com os olhos queimando em ódio por ver sua amiga apanhando.
- Você quer uma adversária, seu covarde? Se é que posso chamar de lutador alguém que continua a bater mesmo quando o adversário se rendeu, para mim isso tem outro nome! Venha me enfrentar ou prove de uma vez por todas que é um idiota!
Monsen urrou alguma coisa e foi correndo na direção de Uranus que pulava e, aproveitando o impulso, preparava uma voadora certeira para seu adversário, atingindo-o no rosto. Porém, este revidou e atingiu-a em cheio com o braço, fazendo com que a uraniana caísse no chão. "Ele é bem maior que eu... Mas não é hora de avaliar um adversário pelo tamanho", pensava. Tomando fôlego, a amazona apoiou as mãos no chão e atingiu um chute na região do diafragma do adversário, deixando-o sem ar por alguns instantes, porém não calculou a volta e sentiu que sua canela estava nas mãos do monstro, sendo que estava de costas para ele e não lhe vinha idéia nenhuma de como reagir. O jeito era improvisar, pensou rapidamente, e girou rapidamente o corpo para atingir o braço que a segurava com a perna livre, provocando além da dor uma torção e fazendo com que fosse solta e despencasse do alto de mal-jeito, o que impossibilitou usa ação pelos instantes que precisaria para se recompôr.
Porém, não foi dado a ela esse tempo, pois o monstro a levantou pelo pescoço e, numa tentativa de estrangulá-la, pôs suas duas mãos naquela região, apertando-a. Uranus, enquanto com as mãos esforçava-se para que aquelas mãos a soltassem, com o ar que já sentia faltar mexia as pernas, tentando atingi-lo com um chute, porém estava sendo em vão.
- Uranus!
Mercury, que chegava naquele instante, gritou desesperado ao ver a companheira em tal situação. Porém, como não tinha muita força física, precisava usar de seus métodos para tentar ajudá-la e, conjurando seu computador, começou a digitar desesperadamente procurando um jeito de tirá-la dali, nem que fosse por algum processo de alavanca para abrir aquelas mãos, nem que fosse por um milagre! Não podia pará-lo com gelo sem atingir Uranus e Pluto, parada pouco atrás dos dois, junto; precisava de alguma coisa, precisava rezar por um milagre, precisava descobrir algum milagre!
- Parados aí!
Monsen, Mercury e Pluto lançaram olhares na direção da voz, encontrando uma garota no telhado do carrossel, contra o sol, de braços cruzados, na típica posição de heroína de mangá mahou shoujo, com uma gata a seus pés. Quando essa garota percebeu que era o centro das atenções de todos ali, disse:
- Se um pinto não partir a casca de seu ovo, morrerá sem ter nascido. Nós somos o pinto, o mundo é o ovo. Se não partirmos a casca do mundo, morreremos sem ter nascido. Partir a casca do mundo. PELO BEM DA REVOLUÇÃO DO MUNDO!
- PELO AMOR DE SERENITY, DE ONDE VOCÊ TIROU ESSE LEMA?
- Ah, ele é tão legal!
Todos os presentes tinham gotas de suor na testa. Venus Pirate Knight estava realmente demorando a chegar... O ambiente já estava até ficando pesado sem ela.
- Ah, não! AH, NÃO! Assim não tem condição!- A garota tinha um tom contrariado na voz.
- O que foi, Venus?
- Primeiro uma samambaia e agora eu tenho de enfrentar um urso de pelúcia? Ah, fala sério! Qual vai ser o próximo monstro, algo ridículo como um tambor em forma humana que só sabe dizer o próprio nome?
- Venus... PÁRA DE CONVERSA MOLE E ATACA ESSE MONSTRO LOGO, OU VOCÊ QUER QUE URANUS MORRA? – Íris triplicou de tamanho, assumindo uma forma monstruosa e Venus diminuiu assustada, em SD e cheia de gotas na testa.
- Er... tudo bem então... Eve Star Beam!
O pequeno raio de luz atingiu em cheio o ombro de Monsen, que urrou de dor e soltou Uranus, desacordada, no chão, para alívio de Mercury, Pluto e Íris. Venus, por sua vez, pulava alegremente por ter sido útil pela primeira vez, porém sua alegria não durou muito. Monsen atirou alguns raios em sua direção e, quando ela foi atingida e perdeu o equilíbrio, caindo desmaiada do telhado do carrossel, o monstro urrou de leve:
- Pentelha...
Antes que Venus atingisse o chão, um rápido vulto tomou-a nos braços e parou pouco a frente, revelando ser Saturn Pirate Knight. Do lado oposto, Neptune estava sobre a placa que indicava o nome de algum brinquedo, com braços cruzados e uma expressão de frieza tremenda, enquanto o vento balançava seus cabelos. Ao abrir os olhos e visualizar a cena, tomou impulso e pulou na direção onde o monstro estava, conjurando no ar seu bumerangue e, sem perder tempo, lançou-o na direção de sue adversário, no ápice da parábola que fazia no ar:
- NEPTUNE BOOMERANG ACTION!
O bumerangue atingiu o monstro, enfurecendo-o, enquanto Neptune caía delicadamente pouco a frente, ante os olhares surpresos de Pluto, Mercury e Íris, já se levantando e colocando em posição de ataque, apenas esperando que o monstro chegasse para começar a lutar. Não era tão boa quanto Uranus, tampouco tinha sua força, mas se era para se esforçar, para impedir que inocentes morressem, era o que faria, mesmo não sabendo muito mais do que colocar-se em ataque e defesa e dar alguns socos. Saturn, por sua vez, se aproximava de onde Pluto se recuperava e depositava delicadamente Venus no chão:
- Que bom que vocês chegaram...
- Encontramos aquele garoto arrogante no caminho e dissemos o que estava acontecendo, não sei se ele virá, mas de todo jeito ainda temos um reforço... E Jupiter, onde está?
- Foi deixar um garotinho em um lugar seguro, imagino que esteja dando explicações para as pessoas e ajudando a organizar a confusão, mas com quero que ele volte! Sei que Neptune, assim como eu, não vai aguentar muito tempo...
Mercury, percebendo que para o monstro não representava uma ameaça, digitava rapidamente procurando alguma fraqueza, alguma abertura, algo que permitisse com que liquidassem aquele monstro de vez! Ainda por cima, Uranus estava ferida e no meio da batalha! Não... não importava a pesquisa, tinha de tirá-la de lá o mais rápido possível! Porém, ao mesmo tempo em que pensou nisso, pôde ver uma flecha de fogo cortando o ar e atingindo em cheio o monstro, fazendo com que ele se distraísse e virasse para a direção de onde ela veio, apenas para encontrar um rapaz de uniforme vermelho e pose arrogante, como se já tivesse ganhado a briga muito antes dela começar, como se fosse ridiculamente fácil vencer...
- O que está esperando, algum de seus nerdzinhos duma figa, para tirarem Uranus do alcance desse monstro? Ou vocês são tão sádicos a ponto de deixarem uma companheira morrer tão fácil? Ah, façam-me rir!- Esbravejou ele enquanto preparava mais algumas flechas que ia atirando à medida que o monstro se aproximava.
Saturn, rapidamente, tomando impulso no chão para pular, pegou a desacordada Uranus e deitou-a levemente junto de suas companheiras, para que uma desesperada Pluto checasse seus sinais vitais e visse que estava tudo bem, pelo menos por hora.
Por sua vez, Monsen concentrava energia e atirava raios na direção de Mars, que anulava-os com suas flechas ou, quando isso era impossível, desviava, enquanto pulava pelos brinquedos do parque, perseguido de perto pelo seu adversário. A sequência de flechas e raios anulados continuava cada vez mais rápida até que Mars percebeu-se encurralado, não tinha como escapar do grande paredão onde acabara por dar de cara. Porém, num movimento rápido, passou do lado do monstro e continuou o percurso e a sequência, apenas para voltarem até a posição inicial, próximos aos outros Pirate Knights que podiam apenas assistir a cena sem fazer nada. Aproveitando-se de um instante de vacilo do cavaleiro, Monsen tomou impulso e pulou sobre ele, atingindo seu rosto com um soco e preparando-se para usar a outra mão, parada por um bloqueio instintivo de Mars. Mas uma nova sequência começou e o cavaleiro continuou a se esquivar, dessa vez arrastando-se para trás, enquanto os socos acabavam por acertar o chão.
Porém, ele não percebera que fora de encontro às grades do carrossel e, ao perceber que chegara nelas e ao ver o punho do monstro, com o máximo de força possível, mirando seu rosto, fechou os olhos esperando-se para o pior.
Monsen, por sua vez, estava furioso. Como aquele bando de insetos se atrevia a ser tão insolente dessa forma, como podia estar perdendo de crianças tão fracas e idiotas? Estava na hora de acabar com um deles, como não conseguira fazer com nenhuma daquelas garotas! Era bom concentrar toda a sua força para esmagar os miolos daquele idiota! Mas... sentiu tapinhas de leve no ombro, como se alguém o chamasse. Ao virar, pôde ver um guerreiro de verde e sorriso maroto nos lábios e ouvi-lo dizer:
- Quer experimentar da lâmina da minha espada?
O monstro caiu na provocação e virou a mão no rosto daquele jovem, que esquivou, aproveitando a abertura de defesa provocada pelo ataque para tentar, com a espada, feri-lo, o que acabou acontecendo e sujando a lâmina com algumas gotas de sangue esverdeado. Mars, por sua vez, gritou:
- NÃO PEDI PARA SER SALVO POR VOCÊ, IDIOTA!
Pluto observava com um sorriso nos lábios enquanto seu amado esquivava-se do adversário e tentava atingi-lo ora com espada, o que às vezes conseguia efetivamente mas não produzia mais do que arranhões, ora com chutes, que desestabilizavam-no um pouco, mas provocavam grandes aberturas na defesa do joviano. Ele estava se saindo muito bem, mas todos ali tinham uma grande colaboração, se o monstro tinha dado trabalho fora porque todos ali tinham dado muito de si!
Mercury finalmente chegara ao fim de suas pesquisas e olhava para seu visor um pouco desconcertado, enquanto digitava um pouco mais para tentar descobrir uma alternativa, qualquer uma! Não podia ser, era azar demais! Deveria comunicar a seus companheiros a descoberta, porém:
- Tenho uma boa e uma má notícia para vocês...
- Diga- disse Saturn.
- Descobri que o ponto fraco desse monstro é luz...
Neptune virou-se e observou por alguns instantes Venus, que dormia profundamente após o ataque e de ter despencado do carrossel, antes de dizer:
- Ótimo... Quais são as alternativas já que luz está fora de questão?
- Não sei, ué! – Mercury disse, irritado.
- Se o geninho do grupo não sabe algum de nós é que vai saber? – Mars disse, provocando, de onde estava.
- E você, idiota, por que ao invés de caçar briga não ajuda?
- Parem com isso vocês dois, temos coisas mais urgentes a fazer do que brigar- disse Pluto.
Jupiter, por sua vez, continuava a tentar atingir o adversário, porém estava tendo dificuldades, já que Monsen estava furioso com os acontecimentos e com uma sede incrível de sangue, o que fazia com que o joviano tivesse muito mais de esquivar-se e defender-se do que tentar atacar, o que provocava uma grande desvantagem, principalmente se comparado com a vantagem que adquirira há pouco tempo.
- Tenho uma idéia- disse Saturn, enquanto olhava para o companheiro lutando. – Vamos ajudar Jupiter... Vai cada um por um lado, atacando o monstro de uma só vez, ele vai se cansar logo e assim ficará fácil para Jupiter acabar com ele! Porque, com uma fraqueza ou não, qual monstro resistiria a virar picadinho? Mercury, você fica na cobertura, porque as meninas seriam vítima fácil se ele escapasse e Pluto não está em condições de lutar.
- Certo – o mercuriano disse.
- E você também poderia nos ajudar, Mars – disse Neptune.
- Tudo bem, vai, eu já estou aqui mesmo... – disse ele sarcasticamente.
- Um, dois, três... AGORA!
Saturn, convocando o Silent Glavie, ia pela esquerda, enquanto Neptune, preparando seu bumerangue, ia para direita e Mars, levantando-se, punha uma flecha apontada, pronta para atirar. Ao perceberem que Jupiter estava completamente em defesa, recuando e com dificuldades até mesmo para tirar a espada da posição que se encontrava, sobre o corpo para amortecer ataques, os três lançaram seus ataques ao mesmo tempo, atingindo Monsen em cheio e distraindo Jupiter, que não ouvira o grupo, fazendo com que o monstro, na confusão, acertasse um forte soco no rosto de Jupiter e deixasse-o desacordado no chão.
- DAME! JUPITER! – Pluto gritou, desesperada.
O passar dos dias, os treinamentos tornando-se mais e mais intensos, ou mesmo definitivamente abandonados já que seu objetivo já fora alcançado, a ansiedade dominando mentes e corações... Porém, o dia esperado e prometido acabou por chegar: o dia dos novos Pirate Knights ganharem seus títulos e a responsabilidade que eles lhe aferiam.
Antes mesmo da cerimônia oficial, estava na hora de mudarem-se para o Forte de Halley, a residência oficial, distante até mesmo de Nêmesis, o último planeta, em uma posição estratégica para o caso de invasões, tanto externas quanto praticadas pelo Milênio de Prata; e, como novos moradores, teriam de dividir quartos e tarefas. Por isso, chegando o dia indicado, naves reais se aproximavam no Forte, entregando malas e caixas com objetos pessoais pertencentes a cada um dos novos moradores.
O primeiro encontro do grupo após os Combates acontecia na grande sala de refeições do Forte, em um leve jantar de recepção. Os poucos criados do local esperavam, também ansiosos, por aqueles que seriam seus novos mestres, com novas ordens e preferências, aguardando pacientemente na sala de jantar. A primeira a chegar foi Anfitrite da Casa de Tiamat, princesa de Netuno e nova Neptune Pirate Knight. Sua primeira ação foi cumprimentar a todos os criados, perguntando para eles detalhes como a rotina daquele lugar, cardápios principais das refeições e outros detalhes. Fora criada, muito mais do que para algum dia tentar ser uma guerreira, para cuidar de uma casa, já que a ela não seria dada outra escolha diferente de ser a consorte de algum nobre netuniano caso perdesse seu duelo...
A netuniana, um pouco adiantada em relação aos companheiros, passeava pelas caixas que embalavam os objetos a qual era permitido aos novos moradores trazerem um tanto pensativa, afinal apesar de estar realizando o maior sonho de sua vida, estava deixando para trás uma vida na Corte, os bailes e festas, a possibilidade de casar-se com Nereu, aquele que fora seu namorado de infância... Porém, de que adiantava lamentar-se, não podia mudar ou mesmo ir contra seu destino, se era para ser Neptune Pirate Knight, o seria com todas as suas forças.
A futura amazona passeava pelo hangar quando percebeu duas naves se aproximando: uma, podia reconhecê-la, era da comitiva real de Júpiter, obviamente trazendo o príncipe daquele planeta, enquanto a outra parecia ser de uma frota de aluguel. As duas naves pararam ao mesmo tempo e dois jovens desceram: um vestia-se com as roupas de passeio da família real joviana, costuradas com os melhores tecidos nos melhores costureiros, enquanto o outro usava as roupas simples que as famílias de classes mais baixas usavam em ocasiões festivas.
A reação do joviano, ao ver o futuro colega de trabalho descendo da nave com sua pouca bagagem de mão, foi largar as malas no chão onde estava e atravessar o hangar correndo, apenas para agarrar seu pescoço com força e gritar:
- VAI PAGAR POR SUA OUSADIA, DESGRAÇADO!
A resposta foi um sorriso de ironia que camuflava uma certa vontade de saber o que estava acontecendo ali e a resposta, cuspida entre os dentes, foi simples e sarcástica, como seu dono:
- Também estou feliz em vê-lo, principezinho...
Storm apertou o pescoço de Irídio com mais força, apenas para ouvi-lo gemer levemente. Estava furioso, fora o bando de delinquentes guiado por ele que estragara seu primeiro encontro com aquela que amava, além disso ela quase fora violentada por um dos amiguinhos daquele maldito! Ele tinha de pagar caro, muito caro!
- PARE COM ISSO, THOR!
O joviano olhou para a direção da voz, apenas para ver a princesa de Netuno correndo na direção dos dois, dizendo com firmeza na voz quando chegou mais perto:
- Largue-o agora, Thor da Casa de Susanoh!
- Você não tem idéia do que esse delinquente fez, não o defenda se não sabe de nada, Anfitrite! – Gritou Storm com o ódio queimando nos olhos.
- Pouco me interessa o que ele fez ou deixou de fazer, Storm, somos todos iguais sobre este solo! E se não fôssemos, não estaríamos aqui nesse instante, não estaríamos defendendo esse Milênio! E se você não é capaz de entender ideais nobres, só fala através de força bruta, solte-o por saber que assassinato de companheiros, isso mesmo, COMPANHEIROS, é crime de traição... Você estará traindo sua própria Ordem, sua própria soberana, e será executado por isso!
Storm soltou o pescoço de Irídio, que acariciava-o para aliviar a pressão que aquelas mãos faziam. Tinha escapado por pouco, se aquela garota não aparecesse não saberia o que poderia ter acontecido. Ela tinha idéias estranhas sobre igualdade e o que uma nascida num berço de ouro podia saber sobre igualdade ou discriminação? Ela vinha em sua direção, mas seu olhar não era de alguém preocupada com o estado de um companheiro, mas de alguém com raiva nos olhos:
- Quanto a você... Não percebeu que um cargo como o seu exige responsabilidades? Vai ficar agindo como um marginal apenas porque agora tem uma certa liberdade de ação e não deve satisfações a ninguém? Você é um cavaleiro ou criminoso? E a palavra "cavaleiro" envolve muito mais do que força, astúcia ou a capacidade que teve de vencer o duelo, ser o primeiro e único até hoje a quebrar a escrita... A palavra "cavaleiro" vem acompanhada de uma coisa chamada "honra"... Você sabe o significado de "honra"? Ou vai ser só um idiota empunhando uma arma, clamando por justiça se é injusto, por igualdade se, a seu modo, exerce discriminação?
- Igualdade é um ideal criado pelos filósofos de seu meio para parecerem preocupados... Prego o total fim de classes e diferenças, não essa tal "liberdade, igualdade e fraternidade" que vocês enchem a boca para dizer, mas as evitam com unhas e dentes!
- Não estou discutindo conceitos! Estou apenas dizendo que se você não mudar um pouco seu comportamento, não tiver uma atitude digna, não lutar com a maior arma que você tem, sua honra, não será um cavaleiro, não terá valor, não será nada!
Irídio tinha o olhar perdido em algum ponto do hangar, entre as naves e peças de reposição, paredes e portões. Disse, sem encarar sua interlocutora:
- Estou te devendo minha vida...
- Não fiz mais do que minha obrigação.
- Errado. Estou te devendo um grande favor, quando precisar cobrá-lo, esteja às ordens. E não venha me dizer que não aceita, no lugar onde nasci e fui criado, essa é a lei. Amor com amor se paga...
- Que seja, então. Agora vamos entrar...
Os dois futuros Pirate Knights entraram no Forte e, encontrando-se com Thor que deixara o hangar pouco antes, foram para o salão onde a recepção estava preparada, esperando pelos outros companheiros. Depois de algum tempo, todos chegaram e a noite foi cheia de festejos e brincadeiras, enquanto todos comemoravam a vida, os cargos, o amor... Era necessário uma noite para que se entrosassem e também começassem a acostumar com o lugar onde passariam grande parte de suas vidas dali para frente, onde seria seu novo lar e centro de comando.
Na manhã seguinte, os oito tomaram uma grande nave de comitiva que, após seis dias de viagem, chegou em Selene, a capital do Milênio de Prata, onde mais uma grande festa os esperava e, onde no dia seguinte, seria a cerimônia de nomeação dos jovens, ansiosos pela consumação daquele que era seu maior sonho e grande projeto de vida :seriam, finalmente, Pirate Knights.
O grande salão de cerimonial do Palácio Lunar estava decorado ricamente com flores e fitas, com belos tapetes vermelhos estendidos no corredor que dava para o trono real e uma orquestra fazia com que uma suave melodia ecoasse ao fundo. Era uma cerimônia aberta a nobreza, na verdade, para a grande população não fazia muita diferença o que acontecia ou deixava de acontecer dentro do Palácio, apesar de que a próxima comemoração seria uma grande festa popular onde a rainha se misturaria com seus fieis súditos.
Na parte à esquerda do trono, as primeiras fileiras eram reservadas aos membros de outras milícias nobres, enquanto o lado direito era totalmente ocupado por familiares e outras famílias nobres. Na primeira fileira à direita, as Sailor Senshi, no lugar para os espectadores de maior honra daquele evento enquanto na mesma posição do lado esquerdo, quatro figuras se destacavam: uma mulher de longos cabelos vermelhos encaracolados vestindo um belo vestido dourado e com um diadema representando o Sol em seus cabelos; a seu lado um rapaz de cabelos curtos aloirados com mechas um pouco mais claras com uma roupa de gala prateada, levemente adormecido em sua cadeira; a seu lado, uma garota de longos cabelos castanhos lisos, vestindo-se de vermelho com os cabelos adornados por rosas também vermelhas e com uma expressão de tédio profundo; ao lado desta outra garota, esta com um vestido branco um tanto provocante e com os longos e muito lisos cabelos profundamente negros, em contraste com sua pele muito branca, presos em um coque por prendedores de diamantes, numa expressão de calma profunda.
O soar de clarinetes anunciou que a soberana estava vindo, logo todos os presentes se levantaram e acompanharam com os olhos os três primeiros membros da comitiva real: uma mulher de longos cabelos negros cacheados, um homem de também longos cabelos, mas loiros, atrás deles uma garota ruiva sardenta, um pouco mais baixa do que a mulher da frente, porém com passos decididos de quem dedicara a vida toda a ser uma conselheira real e finalmente tinha conseguido seu objetivo. Há alguns passos atrás estava a soberana Serenity, vestindo um belo vestido prateado e segurando o cetro que continha o poderoso Cristal de Prata, refletindo toda a majestade dada a ela e toda a sabedoria de alguém quem há séculos governava aquela Federação, provocando a admiração de todos os presentes, sensação que sempre causava ao se aproximar ou mesmo apresentar-se. Pouco atrás dela, um cavaleiro de armadura negra tinha a espada empunhada e uma expressão de quem checava até o menor detalhe com os olhos. Era Loki, o primeiro-cavaleiro do Milênio de Prata, sob ordens diretas de Serenity e com a missão de protegê-la, sempre.
Após a soberana sentar-se em seu trono disse, dirigindo-se aos convidados:
- Estamos aqui hoje por uma ocasião muito especial: é um dia de renovação, um dia de mudança, quando o velho dá lugar ao novo, ou antes, quando o novo ocupa uma lacuna aberta a ele, esperando por sua presença. Tudo nesse universo muda, nada é permanente, todos os fatos e acontecimentos são como um leve oceano, uma leve correnteza que faz com que as águas se renovem eternamente. Estamos celebrando esta renovação e a força dos jovens que a trarão, com suas virtudes e força de vontade.
Nesse instante, trajando aqueles que seriam os uniformes-armaduras que os acompanhariam por toda a vida, os oito futuros Pirate Knights entraram no salão passando pelo corredor vermelho, na ordem da órbita de seus planetas em relação ao Sol, se dirigindo para a frente do trono de Serenity e ajoelhando-se perante a soberana, em uma posição de respeito.
- Essa é a última vez em suas vidas que terão de se ajoelhar perante mim, meus jovens. Mesmo que devam satisfações à minha pessoa, nunca precisarão se ajoelhar a meus pés. E, antes que essa cerimônia se inicie, é por vontade de vocês que aqui estão, é o desejo de vocês serem Pirate Knights?
- Sim – responderam em coro, sem um pingo de hesitação.
Agora, como o protocolo mandava, Serenity contava a longa história da criação da Ordem e como ela foi importante em diversos momentos da história do Milênio de Prata, desde defesas contra grandes invasões externas, como na Guerra de Andrômeda, até nos conflitos internos, muito frequentes há cerca de três gerações atrás.
Por sua vez, a garota de vermelho enfeitada de rosas sussurrou para a companheira, entediada com o ritual e com todo o discurso que ouvia novamente após um longo tempo:
- Enquanto houver um membro da Elite, nenhuma outra milícia será necessária.
- Psssst... Não fale besteiras, Gaia, é um erro concentrar o poder na mão de poucos. É perigoso tanto no caso de um grande ataque quanto no caso da prepotência tomar conta dos membros da Ordem única.
- Errado, Amaterasu. Não se lembra do juramento que fizemos e que em breve esses jovens farão? Se há poder demais, ele foge ao controle... E pode servir de ameaça a aquilo que se quer proteger.
A jovem de cabelos vermelhos olhou para a companheira com um sorriso no rosto, apesar da surpresa de ouvi-la falar palavras com tal maturidade e perceber que tinha razão: a companheira não parecia a garotinha mimada e arrogante de sempre!
- Mas não devo me preocupar, são um bando de fracotes... E espero que assim permaneçam para todo o sempre!
Amaterasu balançou a cabeça levemente, enquanto sorria. A garotinha que existia em Gaia sempre voltava, mesmo depois de tantos anos... Talvez ela ainda não se acostumara em ter entrado para a Elite, já que fora a última a chegar, mas sabia muito bem porque a jovem ex-Earth Pirate Knight estava ali... A força de cumprir seus ideais que ela tinha, nem que para isso tivesse de levar tudo às últimas conseqüências, tornou-a poderosa, muito poderosa... E era graças a essa força que, apesar das atitudes infantis que tomava de tempos em tempos, tornava-a uma dos quatro mais poderosos de todo o Milênio de Prata.
- Gaia, na verdade há muito mais na formação da Elite do que apenas reunir "os mais poderosos de todos". Se você soubesse disso... Bom, tenho certeza que não se devotaria tão cegamente. Espero que com o tempo você entenda, principalmente quando o dia em que você tiver de "sujar suas mãos" chegue...
- Não sei do que fala, Éris – Amaterasu disse, distante.
- Sabe sim... Você é que é mansa e pacífica demais... Chego a admirar a pureza de sua alma, minha colega...- Éris virou-se para a frente, demonstrando que não pretendia continuar com o assunto.
A guerreira do Sol olhava levemente para sua colega, enquanto punha para trás algumas madeixas vermelhas que lhe caíam sobre os olhos. Éris estava ali há muito tempo, dizia-se que era mais velha que Serenity, presenciara eras e gerações, guerras e paz, presenciara também a corrupção e podridão de algumas pessoas e instituições... Sabia muito bem qual era o motivo oculto por trás da Elite, qual era o jogo, porém, não interessava a ela outra vida a não ser a de guerreira, além do que preferia períodos de paz do que de guerra e como desejava que ela se prolongasse por um longo tempo!
Na verdade, o que mais temia é que, depois de tantos anos de bastidores, Éris tivesse se corrompido... E isso seria deveras perigoso, ainda mais por se tratar de uma pessoa dotada de um poder muito grande...
Entretanto, para aqueles que a cerimônia realmente interessava, a hora mais interessante estava por chegar, aquela em que seriam por direito e honra chamados de Pirate Knights. Serenity levantou-se do seu trono e, colocando-se na frente dos jovens, disse placidamente:
- Protetores do Milênio de Prata, juram pelo Sol que tudo movimenta e pela Lua que tudo governa não medirem esforços e poderes para proteger a essa Federação e seus habitantes, nem que isso lhes custe as vidas?
- Sim – os cavaleiros disseram em uníssono.
- Então, pelos poderes concedidos a mim, por este Sol que nos ilumina e esta Lua que nos guia, estão declarados Pirate Knights. E, para que nosso pacto esteja eternamente firmado, vocês receberão as armas que passam de geração em geração na Ordem a qual pertencem.
Os oitos jovens podiam ver a sua frente, após um movimento do cetro de Serenity, alguns objetos e armas pertencentes às antigas gerações de Pirate Knights, todos eles ricamente decorados e era como que chamassem os jovens cavaleiros a tocá-los... Serenity pegou o primeiro objeto, um computador portátil de pequeno tamanho, acompanhado de um visor, com o símbolo de Mercúrio gravado em azul:
- Para aquele a quem são dados os dons de inteligência, estratégia e sagacidade; para aqueles a quem cabe o suporte operacional dos planos, para aqueles que sempre são os chefes de investigações, ofereço Éolos, um dos computadores mais velozes e eficientes do Milênio de Prata, do maior refinamento tecnológico, o que certamente será de muita valia na vida de todos vocês.
A soberana depositou o computador nas mãos de Cromo que, ainda tremendo de emoção, colocou o visor e ligou-o, para começar de uma vez o programa de inicialização que o faria efetivamente o novo dono de Éolos, um dos mais poderosos computadores portáteis do Milênio de Prata, perdendo apenas para aquele que era propriedade de Sailor Mercury.
Por sua vez, a soberana tomava nas mãos um chicote laranja, com o símbolo de Vênus, feito de um material leve e resistente bastante simples de se utilizar, não sendo necessário muito treino para que fosse usado com maestria. Aproximando-se da amazona de Vênus, Serenity disse:
- Para aqueles dotados de astúcia, uma arma de uso rápido e eficiente. Porém, não é dado aos venusianos apenas astúcia, mas um grande carisma e grande beleza, além do domínio da alma... Tome cuidado com esse domínio, mesmo que para aqueles que tem a arte da espionagem e sedução no sangue ele seja necessário, mas lembre-se sempre de que a alma de todos os seres é inviolável...
Ishtar tocou levemente o cabo do chicote que lhe era oferecido pela rainha e, já em um primeiro momento, sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, como se tivesse tocado a essência de todos aqueles que um dia foram e um dia seriam Venus Pirate Knight. Era uma sensação tão estranha e ao mesmo tempo tão sublime que impediu qualquer outra reação da jovem a não ser voltar para seu lugar.
- Por que Serenity sempre tem de recitar esses conselhos sobre empatia espiritual, hein? – Khonsu perguntou, acordando levemente do sono que o acometera desde o momento em que entrara naquela sala.
- Por uma razão simples: se um venusiano fortalecer seu poder latente para empatia espiritual, será difícil até mesmo para Serenity dominá-lo, se é que não corre-se o risco de ser manipulada por ele. Mesmo uma mente com um treinamento muito forte para evitar a dominação não resistiria se o poder fosse muito, por isso todo o venusiano que entra para uma Ordem nobre ou de muito poder é estimulado a usar apenas astúcia e sedução como armas – disse Éris calmamente.
- Ah, sim – disse Khonsu voltando para o sono.
Serenity carregava consigo um arco sem corda, feito de um metal vermelho-vivo bastante resistente e com o símbolo de Marte onde se apoiariam as flechas, indo em direção a aquele que fora o único, em todos os tempos, a quebrar seus Jogos, aquele que prenunciava mudanças, aquele que de certa forma a punha medo por talvez representar o fim daquilo que lutara tanto para manter:
- Para aqueles cujo fogo não é apenas um elemento, mas uma metáfora sobre sua própria vida e devoção. O fogo é um símbolo da paixão e é com paixão que abraçam suas causas, é com paixão que acreditam, lutam, agem, vivem! Para essa paixão, essa força interior que os move para seus objetivos, um objeto para ajudá-lo a transformar sua paixão em seu elemento e este em sua arma.
Irídio tocou o arco, sorrindo para a soberana com a maior altivez que conseguia ter, afinal de contas agora ele era Mars Pirate Knight, não era só o plebeu Irídio, ou o Irídio de Marte que ganhara o duelo, era um cavaleiro, seu maior sonho estava realizado! Para ver o outro, lutaria com todas as suas forças, não apenas com aquele arco, mas principalmente com suas idéias, para ver um lugar onde não houvesse distinção entre nobres e plebeus, não houvesse uma soberana absoluta, todos fossem iguais e tivessem as mesas responsabilidades!
Serenity tomava nos braços uma outra arma, uma bela espada feita com o metal mais resistente e ao mesmo tempo reluzente, com um belo punho totalmente trabalhado, onde havia uma esmeralda e o símbolo de Júpiter gravado; levando-a para aquele que seria o próximo agraciado:
- Para aquele do maior planeta, de onde os melhores guerreiros vêm, para aqueles que muitas vezes são os líderes natos, um dos símbolos do poder. Porém, que este poder nunca venha pela força, mas pelo conhecimento e respeito de seus companheiros. O verdadeiro poder vem com a sabedoria, nunca se esqueça disso, que por mais refinadas que suas técnicas possam ser, se não for sábio e justo nunca será nada.
Storm sentiu o enorme peso da responsabilidade de ser um Pirate Knight quando colocou as mão naquele punho, sentindo toda a força daqueles que já haviam tocado-o, sentindo até mesmo a totalidade de seu poder percorrer todo o seu corpo, significando que ele era finalmente Jupiter Pirate Knight.
- Destruição e construção andam juntas nesse Universo, para uma haver, a outra precisa acontecer. Por isso, para aqueles com o dom da destruição e construção e destinados a destruir e construir, uma arma que simboliza essa força.
Serenity entregava para Shiva sua arma, o Silent Glaive, arma que era a metade do Silence Glaive que sua irmã, Devi, a Sailor Saturn, carregava. Ao tocá-la levemente, em especial a lâmina da alabarda, pôde sentir que, de certa maneira, sua arma o deixaria próximo da querida irmã por toda a eternidade, unindo os dois em um ideal e poder em comum.
A soberana já se dirigia à próxima jovem, a aquela dotada de uma beleza profunda, que fizera com que seu primeiro-cavaleiro já não tivesse somente as obrigações palacianas em mente, mas também aquela jovem... Não apenas por seu belo rosto e corpo, mas pelo seu caráter explosivo, pelo orgulho que a impedia de perder fazer com que tivesse uma gana incrível de cumprir seus objetivos, quaisquer fossem. Dirigi-a se a ela com um belo florete na mão, com o cabo totalmente adornado com desenhos e também um grande topázio com o símbolo de Urano em dourado:
- Para aqueles do planeta dos ventos, donos da velocidade e força de combate, uma arma que sintetize essa velocidade, para ataques rápidos e precisos. Só tome cuidado, minha jovem, para que sua altivez não a leve para as profundezas dos erros... Siga o que seu coração manda, mas tenha cuidado ao realizar suas vontades ou reagir a provocações, afinal isso poderá ser mortal a você.
Aurora tocou seu florete levemente, com a imensa vontade de testar sua lâmina e habilidade com aquela arma. A força de seus punhos já era mais do que suficiente se queria vencer uma batalha, porém seria interessante lutar armada de vez em quando, ainda mais com uma arma com o qual treinara por muito tempo. Mal percebia, porém o primeiro-cavaleiro de Serenity a observava, encantado com tamanha beleza e também com a postura de uma certa altivez que a jovem tomava, tornando-a ainda mais bela.
A soberana tinha nas mãos agora um bumerangue verde-água decorado apenas com o símbolo de Netuno em auto-relevo prateado e o levava na direção de uma das últimas guerreiras remanescentes, aquela do planeta das águas e seu espírito sereno:
- A serenidade das águas e da alma, das ações e pensamentos. Para aqueles do planeta das águas, dotados do dom da serenidade, uma arma mortal, porém compatível com tal serenidade de espírito.
Anfitrite tocou com um sorriso sua nova arma, enquanto sentia em seu interior todos aqueles que já haviam tocado-no, toda a devoção à causa que escolhera para toda a sua vida, toda a vida que se iniciaria a partir daquele instante, não como uma princesa, mas como Neptune Pirate Knight.
- A previsão do futuro não é um dom, é uma maldição, para não se afogar no grande mar de passado, presente e futuro que o cerca, um plutoniano deve ter um enorme controle tanto de sua mente quanto de seu poder. E, mais do que ninguém, plutonianos sabe quem o destino pode vir por linhas tortas, mas sempre vem, todos os fatos destinados a acontecer sempre acontecem. Para representar tamanho controle, outro símbolo de poder.
Serenity entregava para Cassandra um cetro em formato de chave, adornado com uma grande gema preta, semelhante à chave para se abrir o portal do tempo carregada por Sailor Pluto, porém capaz de abrir o limbo temporal, onde todos os fios de todas as dimensões possíveis se encontravam, em um mar que levaria qualquer um sem um forte preparo à loucura de imediato. Além disso, de certa maneira a pequena fala de Serenity fora uma resposta a todos aqueles que não davam a ela seu respeito pela sua luta nos Jogos. Se aquele era seu destino, afinal, ele iria acontecer, nem que por linhas tortas e não havia nada nem ninguém capaz de impedi-lo.
- Declaro então, perante aos cavaleiros honrados em minha frente, que essa cerimônia está encerrada e os novos Pirate Knights devem receber os cumprimentos em uma recepção popular a ser oferecida nos jardins do Palácio!
Os três conselheiros de Serenity se dirigiram à saída, fato repetido pela soberana e seu primeiro-cavaleiro, o que fez co quem todos os presentes ficassem de pé em respeito. Gaia cutucou o companheiro a seu lado e disse:
- Vamos, seu preguiçoso, acorda que temos uma festa para ir!
- Hum...- foi a resposta de Khonsu, levantando-se.
- O que Serenity disse tem seu fundo de razão... O simples fato de que um não-Indicado ganhou os Jogos já é o começo de mudanças...- Amaterasu disse, reflexiva.
- Não se aflija, minha colega... Mudanças ocorrem sempre... O problema é quando as mudanças vêm junto com colapsos, o que é necessário. Nunca ouviu dizer em destruir completamente o velho para trazer o novo?
Amaterasu sentiu um arrepio na espinha ao ouvir a frase de Éris, que mais pensava em voz alta do que tentava iniciar um diálogo. Parecia um prenúncio... Só tinha medo que ele se concretizasse e da pior forma possível.
Gritos... Porém, estava tão distante que para ele esses gritos definitivamente não queriam dizer nada.
Sonho... Não fora um sonho, fora uma lembrança de um fato já ocorrido há muitos e muitos séculos, em um passado de glórias.
Lembranças... Podia lembrar-se de um dos gritos, pouco tempo antes. "DAME! JUPITER!"... A voz dela ecoava por toda a sua alma e era por ela, somente por ela, que tinha de se levantar e terminar logo com aquela luta. Lembrava-se também de uma frase perdida no nada, não sabia direito quem a havia dito ou em qual contexto... "Mesmo que um monstro tenha uma fraqueza, não resistirá se for atingido em cheio por uma espada".
Jupiter Pirate Knight abriu os olhos e pôde ver a situação onde se encontrava: pouco à frente, três companheiros invocavam os golpes e os atiravam no monstro, que já arfava assim como os três jovens praticamente esgotados. Tinha que agir rápido antes que seus companheiros acabassem se ferindo seriamente ou se esgotando completamente!
Invocando novamente sua espada, tomou fôlego e impulso, indo correndo em direção ao adversário, gritando para concentrar mais e mais energia. Sua espada atingiu em cheio a região onde deveria estar o coração do urso e, para garantir a eficácia e morte, a espada ainda foi retirada enquanto girava no interior da criatura e novamente cravada, pouco abaixo.
Sangue verde espalhou-se pela região onde o corpo de Monsen caiu, pouco antes de transformar-se em pó e espalhar-se com o vento por todo o parque de diversões, onde mais um ataque ocorrera e fora frustrado por aqueles que já imprimiam seu nome na galeria das lendas urbanas da cidade de Tóquio.
Aneurocito andava com passos leves pelos corredores do Castelo da Escuridão, tinha voltado há pouco e já apanhado nos depósitos o material que precisava para a execução de seu plano, o mais rápido possível! Tinha colhido material suficiente para montá-lo, estava completamente planejado em sua mente, era só pô-lo finalmente em prática!
Entrando na Sala de Controle, percebeu uma grande atividade de máquinas, além do que aqueles a quem devia subordinação estavam completamente distraídos olhando para uma tela. "Isso não está me cheirando nada bem", pensou, enquanto observava os outros monitores procurando alguma pista para o que poderia estar acontecendo ali.
Qual não foi sua surpresa ao olhar para o monitor de frequência de energia de servos fora do Castelo e perceber que um monstro fora mandado para Tóquio, sem que ao menos fosse consultada? Podia ser só uma subordinada, mas era uma falta de respeito daqueles idiotas, se tinham pedido um plano elaborado, por que a atrapalhavam? Mais do que nunca o ódio lhe ardeu e também a certeza de que o plano deveria ser cumprido, a Mestra deveria despertar e aqueles dois idiotas pagarem muito caro!
- COMO SE ATREVEM A SE INTROMETEREM NO MEU PLANO E MANDAREM UM SERVO?
- E como a senhora Aneurocito se atreve a abandonar a Sala de Controle para ir passear? – Cuprum perguntou rispidamente.
- Antes fosse um passeio, estava investigando! Mas claro que dizer isso e nada para os senhores- as duas últimas palavras saíram com uma dose de ironia acima do normal- dá na mesma, afinal o que entendem de estratégia? Pelo visto nada!
- E o que você entende de responsabilidade para vir nos dar lições de moral, garotinha? – Sílica perguntou, bufando de ódio.
- Muito mais do que uma dupla de incompetentes! E, querem saber do que mais? Não vai demorar muito para esse show de arrogância e prepotência dos senhores acabar, esperem para ver! Vão pagar caro, muito caro!
Cuprum levantou-se rapidamente e, indo em direção a sua subordinada, acertou-a com um forte tapa no rosto, que a fez cair no chão com o impacto. Enquanto Aneurocito massageava de leve a bochecha e lágrimas de ódio caíam de seus olhos, o general disse:
- Insubordinada você, hein, garota? Esqueceu com quem está falando, a quem deve respeito? Pois saiba que na próxima gracinha, você vai pagar com a vida!
- É para aprender a não deixar serviço nas mãos de crianças irresponsáveis- disse Sílica, saindo da sala.
Aneurocito, enquanto observava as luzes dos painéis, chorava lágrimas de um ódio profundo. Eles não tinham o direito, ninguém tinha o direito de batê-la, humilhá-la, fazer pouco de seu serviço! Se antes queria terminar com seu plano da melhor maneira possível e queria mostrar para aqueles idiotas que era capaz, agora estava fervilhando em ódio. Eles tinham de pagar, sim, porém com a vida. Só sentiria-se satisfeita quando pudesse vislumbrar o sangue deles, muito mais do que despertar a Mestra...
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