Bad Reputation

As coisas estavam indo de mal a pior nas aulas de defesa. Além de um primeiro dia desastroso com um ridículo questionário e após isso o incidente com os diabretes, Lockhart insistia em provar toda sua insensatez dia após dia. Mais irritante ainda era um estudante do primeiro ano que parecia achar uma boa ideia seguir Harry por todos os cantos. Dia após dia se tornava mais difícil suportar a zombaria constante de Neville sobre seu novo fã.

Além disso, havia Granger. A garota que nesse instante esbravejava furiosamente sobre quão maravilhoso era o novo professor de defesa. A maioria das pessoas achava o comportamento engraçado, Harry era um dos poucos que achava irritante.

"Nosso irmão disse que a viu desenhando corações ao lado do nome de Lockhart em seus horários." Disse Fred Weasley sentado a algumas cadeiras observando com diversão o comportamento da garota histérica.

Neville riu, enquanto Harry espalmou a própria testa em frustração.

"Não era pra ela ser inteligente? O que aconteceu com o rato de biblioteca?" Zombou Harry com mau humor enquanto trucidava suas batatas.

"Não tenho ideia." Falou Neville entre mordidas. "Não precisa ser um gênio para ver que há algo estranho naquele homem." Completou com um olhar curioso.

"Claro que não." Afirmou Harry. "Se fosse necessário você não teria percebido."

"Fazendo piadas agora, Potter?" Zombou o garoto com irritação fingida.

"Eu tenho que ir." Disse Harry levantando. "Prática de quadribol."

Harry ainda pode ver seu amigo fechar a cara antes de sair acompanhado dos gêmeos Weasley. O time da Grifinória não fez eliminatórias aquele ano, fato que irritou Neville um pouco. Não era um segredo seu interesse por uma chance de entrar no time.

"Por que demoraram?" Questionou Oliver ao ver os últimos três jogadores adentrarem o vestiário. "Não importa. Se reúnam aqui, precisamos conversar sobre nossas novas táticas de jogo."

O que se seguiu foi uma falação teórica tão chata que Harry sentiu-se flutuar dentro e fora da conversa por cerca de meia hora.

Harry gostava de quadribol, mas não tanto quando seus companheiros pareciam gostar. O jogo para ele não passava de uma diversão moderada e um meio de voar, isso sim ele amava.

A verdade é que nem mesmo os outros jogadores pareciam muito interessados no discurso de Wood, Alicia e Angelina observavam com descrença o show dos gêmeos que fingiam dormir enquanto Katie parecia mais interessada em lixar suas unhas.

"Então." Disse Wood, finalmente, arrancando Harry de uma irrealizável fantasia sobre que livros ele poderia ler, naquele instante, no castelo. "Ficou claro? Alguma pergunta?"

"Tenho uma pergunta, Oliver." Disse George, que fingia acordar assustado. "Você não podia ter explicado tudo isso ontem quando estávamos acordados?"

O que se seguiu foi mais uma interminável discussão sobre como Oliver desejava ganhar a maldita taça e como ele arrancaria o couro de um por um durante o treinamento. Não que Harry tenha prestado atenção, é claro.

Foi um alívio quando eles finalmente saíram para o campo, voar pelo céu montando sua vassoura era incrível. Harry foi tirado de seu estado de estupor prazeroso pelo irritante barulho de uma máquina fotográfica e uma estranha movimentação no campo de quadribol.

Quando finalmente alcançou a comoção Oliver parecia bastante concentrado em uma competição de encarar com o seu rival, capitão da Sonserina Marcus Flint.

"Saia logo daqui Flint." Cuspiu Oliver com o rosto irado. "Eu reservei o campo."

O outro garoto sorriu de forma feroz.

"Eu tenho a permissão do professor Snape." Flint sorriu maliciosamente entregando ao seu rival um pedaço de pergaminho.

Oliver parecia prestes a explodir de fúria.

"Você tem um novo apanhador?" Questionou Oliver incrédulo encarando a nota rabiscada em suas mãos.

Harry então finalmente percebeu Draco, que estava sendo sutilmente empurrado para frente por seus companheiros de time.

"E não é só isso." Falou Marcus com um sorriso zombeteiro enquanto apoiava seu corpo na sua vassoura, que só agora Harry percebeu era diferente da que eles usavam no ano anterior. "O pai de Draco foi gentil ao doar essas novas vassouras para o time da Sonserina." Disse o garoto com superioridade. Sete cabos polidos, novos em folha, e sete conjuntos de letras douradas, formando as palavras Nimbus 2001, reluziam sob o sol da tarde.

Harry se distraiu com a beleza da vassoura por um momento e quase perdeu o discurso prolixo sobre como a mais nova Nimbus batia com larga vantagem o modelo anterior.

O embate acabou depois disso. Oliver reconheceu a derrota e decidiu que o melhor curso de ação era recuar e lamber as feridas. Harry amaldiçoou a existência de Draco, agora Wood provavelmente ficaria mais maníaco do que nunca e provavelmente os esfolaria vivos nos treinamentos.

O garoto foi rápido em evitar o caos anunciado pelo brilho nos olhos dos gêmeos se afastando rapidamente do grupo, ele não queria ser cúmplice em seja lá o que os maníacos planejavam fazer.

Não houve maiores comoções naquele dia, Harry na verdade evitou todos seus colegas Grifinórios que há essa hora já deviam saber do acontecido no campo e provavelmente estavam cozinhando seu ódio em fogo baixo.

A biblioteca estava particularmente vazia naquele dia e as horas passaram antes que ele percebesse. Ele ainda não estava confiante o suficiente em sua habilidade de se esgueirar para invadir a sessão restrita durante o dia, limitou-se a ler sobre runas, disciplina eletiva que provavelmente escolheria no próximo ano. A noite após a biblioteca ser oficialmente fechada seguiu os passos já habituais em direção à sessão restrita. Ele havia esgotado os poucos livros práticos sobre artes das trevas que Hogwarts possuía, havia uma imensa quantia de informação intocada ainda, mas ela estava bem escondida atrás de teorias maciças e línguas mortas, desnecessário comentar que seu ritmo de avanço nessa área tinha diminuído vertiginosamente.

Ele não podia dizer que estava surpreso com esse desenvolvimento. A sequência de acontecimentos positivos ou falta de acontecimentos negativos vinha o alertando para os problemas que poderiam aparecer. A frustração crescente com as pilhas de livros e artigos teóricos sobre artes das trevas que levavam a lugares estranhos ou a nenhum lugar, já era um desenvolvimento esperado.

Foi tirado de seus pensamentos pessimistas por um som horrendo, era frio e agudo muito diferente do som bruxuleante que normalmente pairava nos corredores da sessão restrita. Parecia se aproximar e soava suspeitosamente como uma voz.

Harry não demorou em cobrir-se com a capa e cuidadosamente fazer o caminho para fora da escuridão da biblioteca. E então finalmente conseguiu distinguir a voz que parecia segui-lo.

"Venha venha para mim Me deixe rasgá-lo Me deixe rompê-lo Me deixe matá-lo…"

O terror apoderou-se de seu ser e seus passos aceleraram pelo corredor enquanto tentava apurar seus ouvidos em busca de qualquer indicação de que a voz continuava a segui-lo.

Foi um alívio entrar pelo retrato e se apressar em direção as escadas na segurança de seu dormitório, apenas depois de cobrir-se completamente com seus cobertores que o garoto percebeu suas mãos tremendo e os pelos do seu braço arrepiados. Seja lá o que fosse o que ele havia escutado não era algo normal.

Outubro finalmente chegou e com ele o período de chuvas, o lago negro parecia ainda mais ameaçador e os jardins ainda mais lamacentos. Harry se lembrava de Neville comentando sobre quão apetitosas as enormes abóboras de Hagrid pareciam, talvez Harry tenha feito uma insinuação maliciosa ou duas sobre o comentário.

Neville contraiu gripe aquela semana, parecia que um tipo de epidemia estava se espalhando no castelo aqueles dias, era possível ver mais de um Weasley correndo por ai com fumaça saindo pelas orelhas, efeito colateral da poção utilizada pela enfermeira que coincidentemente fazia o lendário ruivo Weasley parecer ainda mais com uma fogueira.

As chuvas aliadas a constante empolgação de Oliver fazia comum o habito de voltar para o dormitório encharcado de água e barro, Harry estava quase acostumado a encontrar vestígios de lama em suas partes baixas.

"Nick está deprimido." Afirmou Neville sentando-se ao lado de seu amigo que saboreava suas batatas com carne.

"Nick?" Perguntou Harry confuso. "Que Nick?"

Neville revirou os olhos.

"Nick Quase Sem Cabeça, Harry." Respondeu o garoto como se fosse obvio. "O fantasma da Grifinória, sua maldita casa." Completou o garoto.

"Entendo, esse Nick." Falou o garoto desinteressado voltando a sua atenção a refeição a sua frente.

"Você não escutou o que falei Potter?" Falou Neville com irritação. "Nick está deprimido, precisamos fazer algo para ajudá-lo."

Harry não parecia feliz por ter sua refeição interrompida outra vez, o treino de quadribol havia sido especialmente cansativo e sua fome era quase incontrolável no momento.

"Como eu poderia?" Perguntou exasperado. "Aliás, por que um fantasma estaria deprimido? Ele já está morto. As coisas não podem piorar, podem?"

Neville descartou sua irritação.

"Parece que sua solicitação para integrar a caçada dos sem cabeças foi negada." Harry olhou para Neville como se lhe houvesse crescido um terceiro braço. "Ele me pediu para convidá-lo para seu aniversario de morte, garanti que você iria. Ele parecia satisfeito com isso."

Harry estava abismado.

"Eu não posso nem começar a descrever o absurdo da situação." Falou Harry estressado. "Você por acaso tem cérebro?"

"Anime-se idiota, quantas oportunidades você vai ter para ver um aniversario de morte?" Falou Neville se apossando de uma maça que parecia especialmente suculenta. "É uma experiência única. Além do mais você me deve uma." Falou o garoto com um sorriso superior.

Harry fez cara feia.

"Por que diabos eu lhe devo uma?" Perguntou com um misto de interesse e irritação.

"Por qualquer coisa ora, eu já fiz muito por você." Falou Neville como se fosse óbvio.

"E quanto ao que eu fiz por você?" Questionou o garoto irritado.

Neville parecia ofendido.

"Eu nunca pensei que você faria isso por interesse. Você não falou que eu lhe devia qualquer coisa." Apontou o garoto fingindo mágoa.

"Nem você falou imbecil."

"Essa não é uma desculpa muito boa." Apontou Neville.

"Você acabou de usá-la." Decretou Harry.

Sua discussão foi interrompida por Sarah que passou correndo ao lado dos dois amigos como se tivesse sido assustada por algo. Harry estranhou a ação.

"Ela está agindo de forma estranha mesmo." Disse o garoto agora curioso.

"Como eu disse." Falou Neville novamente superior. "O fato de eu ter lhe avisado sobre isso é um motivo bom o suficiente pra você ir ao aniversário." Falou o garoto sorrindo vitorioso.

"Ótimo, eu vou à maldita festa." Disse Harry com irritação. "Agora me deixe terminar de comer, por favor."

"Anime-se Potter, eu estarei lá, vai ser divertido."

"Não vejo como isso deveria me animar." Alfinetou Harry com amargura. Neville se limitou a rir enquanto se dirigia para fora do salão.

Era um inconveniente precisar comparecer a uma festa, mas honestamente Harry estava satisfeito com a distração. A voz sinistra que ele havia escutado no corredor a várias noites voltou a se fazer presente em uma de suas incursões noturnas mais recentes, era irritante admitir que algo tão pequeno estava o preocupando e tirando seu sono.

O dia das bruxas chegou e com ele surgiram os enfeites. A escola transbordava vida, havia enormes lanternas de abóbora iluminando os corredores do castelo, assim como morcegos vivos voando desordenadamente pelo salão principal.

A data não significava nada muito positivo para Harry, era obvio até mesmo para ele que seu humor estava ficando pior a cada dia. Mesmo Neville estava tendo dificuldades em ficar muito tempo na presença de seu melhor amigo.

Eram esses pensamentos que assombravam sua mente ao ser interrompido por Neville a caminho do salão principal.

"Onde diabos você estava? Procurei por toda parte." Falou o garoto frustrado.

Harry limitou-se a um olhar impassível ao ver seu amigo juntar-se ao seu passo.

"Onde você está indo idiota?" Tornou a questionar Neville.

"Para o salão. Aonde mais eu iria?" Perguntou Harry agora confuso.

Neville gemeu.

"Você esqueceu, eu deveria ter esperado por isso." Disse o garoto.

Harry finalmente parou para ouvir seu amigo.

"Do que você está falando exatamente."

Neville sorriu com superioridade.

"O aniversario de Nick, lembra agora? Você prometeu que iria."

Harry praguejou.

"Droga, eu tinha esperanças que você esqueceria se eu não tocasse no assunto." Disse Harry com leve irritação. "É sério, eu realmente não deveria ir."

"Bobagem." Falou Neville apontando o caminho. "Vamos lá, já está quase na hora."

"Eu vou me arrepender disso, com toda certeza." Murmurou o menino que seguia seu amigo, para a diversão do mesmo.

O caminho até a parte mais profunda das masmorras foi emocionante para Neville. Harry não demorou a apontar um atalho escondido atrás de uma tapeçaria que levou os garotos ao seu destino na metade do tempo.

O corredor que levava até a festa era visivelmente mais maltratado que o resto das masmorras. Ficava afastado das áreas normalmente ocupadas por alunos, mesmo Harry havia visitado o lugar poucas vezes. O corredor sujo com uma linha interminável de portas trancadas magicamente lhe dava arrepios. Ele estava relativamente certo que esse lado do castelo ficava bastante afastado da estrutura principal do prédio.

Apesar de sujo e velho o corredor estava bem iluminado, uma diferença clara dos outros dias em que Harry passou por ele, normalmente não havia sinal de vida nesse lado das masmorras além de um gemido ocasional vindo de uma das portas trancadas e barulho de correntes batendo na madeira.

"Sinistro." Sussurrou Neville correndo o dedo pela luminária feita do que parecia suspeitosamente com ossos.

"Eu odeio esse lado do castelo." Falou Harry por entre os dentes.

"Você já esteve aqui?" Questionou Neville levemente surpreso.

"Algumas vezes." Respondeu o garoto ignorando os poucos moveis de aparência sinistra que existiam no corredor antigo. "Qual era o caminho mesmo?" Perguntou Harry ao garoto que o seguia de perto.

"Considerando esse barulho horrível, eu diria que estamos no caminho certo." Falou o menino não parecendo muito seguro.

O barulho citado se assemelhava muito com unhas arranhando um quadro ou mesmo o barulho que Harry achava que escutaria se mil gatos resolvessem entrar no cio ao mesmo tempo.

"Eu imagino que seja um tipo de música." Falou com curiosidade. "De extremo mau gosto. Mas ainda assim, música."

"Você pode estar certo. Vamos por aqui." Disse Neville apontando o caminho.

Os garotos encontraram o que buscavam dois corredores à frente, um pequeno salão se abria para mostrar um amontoado de convidados perolados valsando enquanto flutuavam morbidamente. A dita música parecia ainda pior agora que estava perto e o clima da festa não poderia piorar na opinião de Harry.

"Você definitivamente me deve uma Longbottom." Falou Harry desanimado enquanto observava a aproximação do seu anfitrião.

"Bem-vindos caros amigos." Falou Nick com pesar. "Fico contente que tenham vindo." Sua voz melancólica era acompanhada por uma expressão de derrota. "E você senhor Potter." Disse o fantasma agora se dirigindo a Harry. "Não tenho o visto muito nos últimos dias, não é saudável ser tão recluso em uma idade tão jovem." Continuou Nick enquanto avaliava o garoto a sua frente. "De qualquer forma ficaremos felizes em recebê-lo como um de nós caso seja necessário." Completou com indiferença enquanto se afastava.

"Não ria Longbotton." Disse o garoto por entre os dentes para seu amigo que mordia sua capa enquanto tremia de riso mal contido.

"Um fantasma acabou de mandar você se matar." Falava o garoto com diversão enquanto limpava uma lágrima imaginaria. "Ei volte aqui."

Harry ignorou o apelo de seu amigo se dirigindo a uma mesa no canto da sala que havia chamado sua atenção ao adentrar o recinto.

O que jazia em cima da mesa era uma tentativa patética da prática culinária, peixes estragados, um enorme bolo queimado e carne coberta de vermes.

"Vejo seu olhar de repulsa meu jovem." Falou um espectro tirando Harry de seus pensamentos.

Harry tratou logo de policiar suas feições enquanto analisava o fantasma a sua frente. O ser era esguio, seus olhos pareciam assombrados e havia sangue prateado em suas vestes luxuosas.

"Barão." Cumprimentou o garoto incerto, ele não havia ouvido falar de nenhum aluno fora da Sonserina que havia tido qualquer tipo de interação com o fantasma.

"Não se preocupe criança." Falou sinistra e pausadamente. "Não tenho intenção de lhe fazer mal."

Harry se limitou a assentir com incerteza.

"Está vendo o homem encapuzado parado do outro lado da sala?" Questionou o fantasma com curiosidade.

O ser referido era um fantasma solitário, usava vestes prateadas que se assemelhavam a de um monge. Não havia um único vestígio de pele aparecendo.

Harry assentiu.

"O que tem ele." Perguntou o garoto com curiosidade mórbida.

"Ele foi um professor nessa escola a eras atrás." Começou a falar enquanto tentava cutucar uma maça apodrecida. "Ele ensinava uma disciplina eletiva. Não chamávamos assim na época, mas isso não importa eu acho." Disse o homem virando seus olhos enlouquecidos para Harry. "Eu era um fantasma jovem, então lembro muito bem do que aconteceu."

O fantasma agora passava os dedos por entre um pernil estragado, o cheiro começava a incomodar Harry.

"O que aconteceu?" Perguntou o garoto começando a ficar realmente curioso.

"Ele ensinava Rituais Antigos. As disciplinas em Hogwarts vão e vem dependendo do interesse das gerações. Mas essa nunca mais foi ensinada nessa escola depois do incidente." Murmurou o fantasma com pesar. "Ninguém sabe o que levou ao acontecido, mas dizem que um de seus rituais deu errado. Há boatos que ele invocou um ser por acidente, um ser poderoso. A coisa assumiu controle do seu corpo e ficou lá dentro até o dia de sua morte." Falou sinistramente provocando arrepios na espinha de Harry que agora olhava para o ser encapuzado com temor. "O ser o fez fazer coisas horríveis. Ninguém descobriu por um bom tempo. O diretor na época travou uma verdadeira batalha, havia alunos sumindo nos corredores da escola, os espíritos no castelo estavam aterrorizados, o ser trazia a tona o pior de nós."

O fantasma parou para examinar a feição do garoto a sua frente, que agora tinha olhos arregalados em curiosidade e temor.

"De alguma forma o diretor descobriu sobre ele. Eu lembro bem daquela manhã, as portas das quatro salas foram lacradas e os professores postos de guarda para caso algo desse errado. Edmund, o diretor, encarou o ser sozinho. Foi uma batalha aterrorizante, nós os fantasmas somos as únicas testemunhas do que aconteceu nos corredores desse castelo naquele dia. A batalha durou horas e no fim o diretor conseguiu subjugar o ser. Por Merlin eu poderia jurar que o bastardo invocou o fogo do próprio inferno para queimar o maldito demônio até o pó, as chamas eram negras e ameaçaram derreter a própria pedra. E assim o ser foi finalmente morto."

"Foi isso? Acabou assim?" Questionou Harry incrédulo.

O fantasma tirou os olhos da comida estragada para encarar profundamente o jovem a sua frente.

"O diretor morreu algumas semanas depois, ninguém realmente sabe o motivo. Logo após isso aquela aberração encapuzada surgiu." Disse o fantasma.

Harry voltou o olhar para o ser citado, que parecia encará-los por baixo de sua capa prateada.

"Por que a capa?" Questionou Harry mais para si mesmo do que para o fantasma que mesmo assim o respondeu.

"A aparência de um espectro é definida pelo seu corpo na hora da morte. Nós aparecemos assim que morremos, vagando perto do local de nossa morte." Respondeu o fantasma. "Você sabe o que isso significa?" Harry sabia.

"Se ele morreu carbonizado, e não sobraram nem ossos." Começou com incerteza enquanto olhava para o ser que flutuava imóvel do outro lado da sala. "Não há nada embaixo daquela capa não é mesmo?" Questionou temendo a resposta.

O Barão Sangrento limitou-se a assentir sem olhar para nada.

"Ele nem mesmo fala. Os fantasmas ainda especulam anualmente se aquilo é o pobre professor ou o demônio que se apoderou de seu corpo. Já foi considerada a possibilidade de um exorcismo algumas dezenas de vezes." Falou o fantasma.

"E por que ainda não o fizeram?" Questionou o garoto impassível.

"Essa é a questão não é mesmo jovem senhor Potter?"

"Por que está contando essas coisas?" O fantasma fingiu surpresa com sua pergunta.

"Você realmente não sabe?" Perguntou com malícia o fantasma da Sonserina enquanto virava-se para ir embora. "É a história de sua família no fim das contas. Edmund Potter estaria decepcionado com sua ignorância." Falou o fantasma se afastando e deixando Harry com suas próprias dúvidas.

Neville não demorou a se juntar a ele ao perceber sua rápida escapada para os corredores das masmorras.

"Você parecia assustado. O que o Barão queria?" Questionou o menino curioso.

"Eu não tenho certeza, ele contou uma história sobre um dos meus antepassados, Edmund Potter aparentemente." Resmungou Harry.

"Qual deles? O diretor?" Voltou a questionar o garoto um pouco confuso.

Harry revirou os olhos, é claro que Neville conhecia a árvore genealógica Potter melhor do que qualquer um com exceção, talvez, de sua avó.

"Exato, foi uma experiência interessante." Comentou Harry virando a esquina sem olhar para trás.

Neville assentiu de forma sombria.

"Interessante pra dizer o mínimo. Historia macabra." Falou em tom controlado. "Ensinar rituais antigos em uma escola para crianças e adolescentes é um pouco irresponsável… Mas isso?" Neville estremeceu.

A conversa cessou ao avistarem a entrada do salão principal.

"Matar, é hora de matar."

"Espere." Alertou Harry com a voz trêmula. "Estou ouvindo algo."

"Ouvindo algo?" Perguntou Neville confuso. "O que exatamente?"

Harry demorou a responder tentando localizar a origem do som sinistro que acabará de escutar.

"Matar."

"Eu já ouvi isso antes." Comentou Harry com feição preocupada. "Ele vai matar alguém, por aqui." Disse enquanto corriam em direção as escadas.

"Matar? De que diabos você está falando? Quem vai matar quem?" Os questionamentos de Neville caíram nos ouvidos surdos de Harry que saltava os degraus com pressa.

"Espera Potter, onde estamos…" Neville se calou ao ver a inscrição sangrenta a sua frente. "Que diabos." Esbravejou encarando a parede ao lado de seu amigo.

"A câmara dos segredos foi aberta." Leu Harry em voz baixa. "Inimigos do herdeiro, cuidado."

Os olhos de Harry desviaram da inscrição e inspecionaram os arredores.

"Ali." Falou o garoto apontando para o que parecia uma sombra pairando no ar acima de uma enorme poça de água.

"É a gata do zelador." Disse Neville com pavor. "Precisamos sair daqui." Completou o garoto com urgência encarando seu amigo que observava com fascinação mórbida a multidão se formando ao seu redor.

"Tarde demais." Resmungou Harry.

Harry mal prestou atenção na comoção causada pelo incidente, sua mente corria incansavelmente analisando as possibilidades e repercussões do incidente, seu pensamento só foi interrompido por Dumbledore que chamou sua atenção.

"Venha conosco senhor Potter, e você também senhor Longbottom." Disse o diretor com feição séria apontando o caminho.

Harry pressentia uma noite longa e extremamente incômoda.

"Eu ouvi que você tem tido problemas com seus colegas nos últimos dias." Comentou o velho diretor para seu aluno que se concentrava firmemente em salvar um rato que se contorcia silenciado em uma gaiola improvisada.

O garoto surpreso pela intervenção de seu mestre deixou sua concentração deslizar por um segundo, tempo suficiente para sentir as entranhas de sua cobaia sujarem seu rosto.

Dumbledore riu diante da cara de asco de seu discípulo antes de limpar a sujeira com um aceno de sua varinha.

"Tenho relativa certeza que a maldição de congelar as entranhas não explode o alvo atingido." Brincou Albus com seus olhos azuis cintilando.

Harry se jogou em uma cadeira de aparência confortável com um olhar de derrota.

"Não era a maldição de congelar as entranhas." Explicou o menino com cansaço. "Uma variação do feitiço de ferver o sangue."

"Engenhoso." Comentou o velho que não parecia surpreso. "Tentou usar uma magia com efeito oposto para salvar a vítima. Poderia ter funcionado se não estivéssemos falando de magia negra." Ponderou o velho. "Esse tipo de magia não reage bem com a maioria dos outros feitiços." Explicou ele.

"Seria muito mais fácil se você me explicasse exatamente como lançar uma contra maldição eficiente." Argumentou o menino com irritação.

"Eu já lhe expliquei, o processo de aprender magia é extremamente intimista e pessoal. Em especial para indivíduos com suas habilidades." Disse o velho sem perder o olhar calmo.

Harry simplesmente afundou com mais força na cadeira enquanto cerrava os dentes.

"Você parece cansado Harry." Disse Dumbledore com uma pontada do que parecia preocupação. "Vamos falar sobre a última semana."

"Não há muito que dizer na verdade." Começou o menino enquanto se levantava e ia em direção à fênix, que repousava graciosamente em seu poleiro. "Alguém espalhou um boato irritante dando a entender que eu tive algo a ver com o incidente. A maioria das pessoas tem me deixado em paz."

"Entendo." Falou o velho sorrindo tristemente para o menino que brincava com seu pássaro milenar. "Criaturas engraçadas as fênix." Começou mudando de assunto o diretor. "É impossível dizer quantas vidas humanas essa bonita criatura já viveu, e mesmo assim ela permanece tão apegada a um parceiro mortal."

Harry curioso encarou o pássaro que olhou de volta.

"Às vezes me pergunto." Voltou a falar Dumbledore sorrindo. "Se realmente Fawkes é a mascote da relação."

Harry riu do absurdo da afirmação.

"Você está livre para a noite Harry, mas antes." Disse o diretor levantando-se de seu assento. "Nicolas voltou a demonstrar interesse em você." Disse o diretor com olhar indecifrável.

Harry parecia incerto.

"Isso é algo bom ou ruim?" Questionou o garoto em tom duvidoso.

"Saberemos um dia, eu espero." Falou o velho sorrindo amigavelmente e apontando para a porta, em um claro gesto de demissão.

"Garota estúpida." Esbravejou Harry irritado para Neville que tentava acompanhar seus passos apressados.

Os dois haviam acabado de presenciar um refrescante respiro de vida e discurso não premeditado de seu professor de história da magia.

"Eu devo concordar." Disse Neville pensativo. "Achei que Granger seria mais esperta que isso." Harry grunhiu em concordância.

"É uma surpresa que Binns tenha dado ouvidos a ela, na verdade." Falou o garoto ajeitando os óculos e desviando de alguns alunos da lufa-lufa. "Eu aposto minha varinha que os professores já foram orientados a não falar mais que o absolutamente necessário sobre o assunto."

"Isso é provavelmente verdade." Respondeu Neville. "Por falar nisso, vovó respondeu minha carta." Disse o garoto em meio a uma careta de desagrado.

Harry parou imediatamente para ouvir o que seu amigo tinha a dizer.

"E então." Encorajou o menino. "O que ela sabe?"

"Nada que faça muita diferença pra falar a verdade." Começou o garoto incerto. "Mesmo ela admite que tudo se resume em especulações e lendas."

Harry assentiu esperando que seu amigo continuasse.

"Parece que houve um acontecimento estranho há cerca de meio século." Começou o garoto tentando lembrar-se das informações passadas por sua avó. "O diretor da época teve alguns problemas sérios com o que as pessoas especulam ser a câmara."

"Entendo." Disse Harry enquanto ouvia atentamente.

"Resumindo a história, parece que houve um assassinato. Um aluno parece ter descoberto toda a trama, incluindo o suposto herdeiro." Falou Neville.

"É difícil acreditar realmente." Falou Harry um pouco incrédulo.

Neville assentiu.

"Dizem que há um troféu com o nome do garoto embora." Falou enquanto voltava a andar. "Riddle, Tom Riddle."

Harry assentiu, lembrava-se de já ter lido o nome em algum lugar, poderia muito bem ser na sala de troféus.

"A pergunta é, a câmara realmente existe?" Questionou Harry pensativo. "Pode ter sido apenas uma artimanha de alguém para cometer crimes sem desconfiança."

Neville fez um gesto de indiferença com olhar preocupado.

"Não importa realmente." Disse o jovem puro sangue de forma sombria. "Há um psicopata entre nós de uma forma ou de outra." Decretou o garoto de forma dura.

Harry se viu obrigado a concordar.

A verdade é que ele estava profundamente preocupado, sua inconveniente presença no local do incidente levantava alguma suspeita sobre sua pessoa. Apesar de amenizar o fato perante Dumbledore, o olhar de desconfiança de seus pares vinha aumentando nos últimos dias. Era cada vez mais crucial manter em segredo suas atividades noturnas. Ultima coisa que precisava agora era de justiceiros mirins colocando seus narizes onde não foram chamados.

Sua atenção foi desviada pelo abrupto grito de Weasley que discutia com Granger a alguns metros dali, os dois amigos encararam curiosos enquanto o garoto se escondia atrás da menina trouxa chocada e apontava para o chão.

Harry seguiu Neville que se aproximou da cena com curiosidade.

"Tire essas coisas de perto de mim!" Gritava Weasley amedrontado. "Aranhas, eu detesto aranhas."

Agora ao lado dos dois colegas, Neville e Harry conseguiam ver o que havia causado tanto alvoroço. Com disciplina e calma, marchavam enfileiradas pequenas aranhas por uma distância insondável em direção à floresta proibida.

"Isso é estranho." Falou Granger. Era quase possível ver as engrenagens funcionando em seu pequeno cérebro. "Aranhas não agem assim."

Neville concordou com curiosidade.

"Talvez sejam aranhas mágicas." Falou Harry com indiferença.

Granger pareceu finalmente notar seus companheiros de casa ao seu lado. Seus olhos se estreitaram em direção a Harry.

"O que vocês fazem aqui?" Perguntou a garota com desconfiança. "Vocês não estavam nos espionando, estavam?" Falou desconfiada apontando para si e para seu amigo ruivo que se afastava dos animais inofensivos mantendo seus olhos amedrontados neles.

Harry revirou os olhos.

"Não é nada disso." falou Neville com um olhar pacificador e um sorriso tranquilo. "Ouvimos gritos, viemos verificar se precisavam de ajuda." Completou o garoto.

"Não preciso de ajuda" Decretou a garota com hostilidade sem tirar os olhos de Harry. "Principalmente de alguém como ele." Terminou a menina para o aborrecimento de Harry.

"O que exatamente você quer dizer com isso?" Questionou Harry com um misto de aborrecimento e curiosidade ao lado de Neville que observava a troca com atenção.

"Não se faça de idiota." Falou a garota com irritação. "Eu ouvi as histórias e os boatos." Falou com altivez. Harry finalmente compreendeu a onde ela queria chegar. "Não tenho ideia por que alguém como você quereria abrir a Câmara Secreta, mas não importa." Continuou ela. "Tenho certeza que os professores vão descobrir sobre isso."

Harry encarou a garota a sua frente por alguns segundos como se esperasse por mais ataques verbais.

"É isso?" Perguntou o garoto. "Você acha que eu abri a sala da fantasia? Vamos lá Granger, a próxima coisa que você vai falar é que o Weasley ali é a reencarnação de Merlin e Neville o novo Dumbledore." Debochou Harry.

"Ei." Exclamou Neville ofendido.

Hermione cerrou os dentes enquanto desviava os olhos.

"Vamos Ron. É perigoso ficar nos terrenos depois do fim das aulas." Lançou um último olhar gelado enquanto marchava em direção ao castelo com Weasley em seu encalço.

Neville e Harry observaram a cena por alguns segundos.

"Ela não vai parar, você sabe." Afirmou o garoto curioso e um pouco preocupado.

"Eu sei." Falou Harry aborrecido. "Isso é terrível, a cada dia mais pessoas me olham estranho pelos corredores, eu não achei que já havia alguém na Grifinória que pensasse assim."

"Granger não é um grande problema ainda." Falou Neville considerando a situação. "Apenas precisamos torcer para que Dumbledore consiga controlar a situação logo." Falou com pouca confiança.

Harry assentiu.

"Devemos confiar no diretor." Concluiu Neville para seu amigo que encarava o distante lago com um olhar de incerteza.