Gente, desculpa meeesmo pela demora. Sei que prometi postar uma vez por semana, e eu já estava com todos os capítulos prontos aqui sim, mas é que minha vida virou de cabeça pra baixo e eu simplesmente esqueci. Estou largando a faculdade de direito e me preparando para estudar para o vestibular do ano que vem e para concursos públicos pra ver se arranjo um emprego… Enfim, está tudo doido por aqui. Desculpa meeesmo.

- Akari

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CAPÍTULO 8

Era comum sua mente estar carregada, mas pela primeira vez em anos, Milliardo olhava para o teto e não conseguia dormir.

A base militar do Vale da Morte não tinha a organização de quartos de sua própria mansão. Ela era dividida estritamente, com simetria e correção, e os quartos que abrigavam a realeza eram do lado oposto da ala reservada aos soldados. Ali, também, no subsolo, ficava o conjunto de celas para Duo Maxwell deveria ter sido levado.

Milliardo havia prometido um quarto, e não uma prisão.

Não o queria lá, mas não havia outro lugar para um terrorista - mesmo que o terrorista fosse um menino de quinze anos, pouco mais novo que a princesa sua irmã. Enquanto ele estava muito ferido e beirava a inconsciência, não apresentava periculosidade na enfermaria. Mas apesar do garoto andar mesmo com dificuldade, já era um risco.

Os soldados da base ocupavam todos seus quartos, cabines com dois beliches cada. Não se esperava por ali nenhuma visita. Os únicos quartos disponíveis se encontravam na ala reservada à presença dos Peacecraft ali, e eram três. Dois reservados para realeza, e um para seu guardião e protetor, Treize Kushrenada que, por insistência própria, cedera-o para Duo.

- Alguém precisa fazer a guarda - ele dissera, como se a situação fosse perfeitamente normal. - E assim, resolvemos o… problema.

- Sim, deixe dois guardas, e mande-os revezar.

- Milliardo. - Treize havia franzido as sobrancelhas. - Não confia mais em mim? Francamente, não vou depender dos seus homens quando esse… menino estiver no quarto ao seu lado.

- Ele não precisa ficar ali.

- Então prefere que ele durma numa cela?

Era claro que não, e Treize sabia disso. Por isso, sorrira. Milliardo precisara ceder, e agora, Treize guardava a porta de seu próprio quarto, onde Duo dormia.

Duvidava que ele estivesse sequer com os olhos fechados. As vezes, tinha a impressão de que ouvia algo que se assemelhava a um choro vindo do quarto ao lado. Uma respiração pesada, ar sendo expulso de dentro do peito como se lhe custasse fazê-lo.

Ouvia passos no corredor, e entendia que Treize perambulava entre as duas portas.

Custou a dormir, e o barulho o assombrou a noite inteira.

A semana se desenrolou lenta e tortuosamente, e cada noite ficava pior. A transformação que tomara Duo era visível de uma forma indecente. Todas as manhãs via o garoto cada vez mais pálido. As manchas sob os seus olhos cresceram, assim como o cabelo desordenado. A beleza jovial dele dera lugar a uma aparência fraca, longe do garoto que mantinha a vitalidade, mesmo preso à cama de um hospital. Não era a força que havia se esvaído dele, mas sim a vontade.

Nas manhãs, quando Treize ainda lhes fazia companhia, Duo trabalhava de forma seca e mecânica. As palavras escapavam de sua boca de uma forma lacônica. Respondia tudo que lhe perguntassem como se houvesse esquecido de quem era. Parecia impossível ver aquele garoto furioso que encontrara neste Duo Maxwell. Ele só voltava a si a partir da tarde, quando Treize se retirava para dormir, e sua presença era substituida por dois soldados na porta. A força lhe voltava por alguns momentos breves e ele se permitia ousadias: um sorriso, uma ironia. Mesmo assim, era um menino cansado.

Milliardo gostava dele, tentava se convencer de que não, mas gostava. Era com um misto de admiração e curiosidade que via o garoto lutar contra si mesmo todos os dias e vencer com um sorriso. Nem sempre era um sorriso bom: ou era triste e cansado, ou irônico, ou muitas vezes mesquinho. O que importava para Milliardo é que ele não deixava de sorrir.

E ele era bonito. Milliardo ressentia Treize terrivelmente por ter roubado tanto dele, até a beleza. Desde o cabelo comprido à cor dos lábios. Suas mãos crispavam-se só de lembrar. Ele nunca havia pensado em Treize como cruel - calculista, sim, e frio. Maquiavélico, no sentido mais puro da palavra. Mas destruir aquele garoto não podia ser outra coisa, e não descobrir o porquê o deixava irritadiço e nervoso.

Ele imaginava como seria ter encontrado Duo Maxwell de uma outra forma. Pensava se o garoto deixaria ele escorregar a mão por longos cabelos castanhos; sonhava em segurar seu rosto entre as mãos e beijar sua boca.

Mas não ali, naquele momento. Era como terminar um quebra cabeça e descobrir que faltava uma única peça perdida. O quadro estava fadado a ficar incompleto para sempre então. Da mesma forma, aquele momento fazia tudo parecer errado. Era errado. Duo Maxwell era o inimigo e Treize havia deixado-o quebrado. Incompleto, faltando uma peça.

Milliardo não pensava nisso e só seguia enfrente. Naquele dia, entretanto, foi Duo que não conseguiu.

Ele aguentara bravamente, Milliardo precisava admitir. Ficara de pé o tempo inteiro enquanto Treize lhe questionava sobre as estratégias militares de sua organização frente a um quadro. Ele havia visto o garoto empalidecer gradualmente, até quase desaparecer frente ao papel. Treize ignorara, e só parou quando Milliardo anunciou que eles haviam terminado ali. Claro que ele tentara questionar, mas uma ordem era uma ordem, e Milliardo ordenou que Treize fosse dormir porque parecia cansado. Era claro para ambos - e ele não havia feito questão de esconder - que sua preocupação era com Duo.

Assim que Treize deixou-os, Duo desabou. Ele caiu, silencioso e sem fazer alarde, quase como se tivesse sido tragado pelo chão. Somente quando o príncipe deu as costas para porta viu o garoto estirado, e a primeira coisa que fez, antes mesmo de correr até ele e tentar ajudá-lo, foi se culpar por não ter feito nada antes. Ele notara que Duo estava sofrendo, mas assistira calado, apreciando o espetáculo.

Era uma piada.

Ergueu Duo, envolvendo seus ombros com o braço e colocando-o sentado. A face dele era a de alguém esgotado. Ela estava funda e acinzentada, e foi então que Milliardo olhou para o que restara do garoto. Duo andava descalço, sapatos sendo privilégio demais para alguém como ele, e seus pés estavam de uma cor púrpura. Eram um retalho de veias estouradas e bolhas, e pela primeira vez Milliardo pensou que podiam não ser os passos de Treize que ele escutara, mas de Duo, que passara sete noites sem dormir, andando irriquieto de um lado para o outro desde que chegara ali…

O pensamento fez algo em seu estômago se revirar. Milliardo segurou Duo e o carregou até um sofá, deitando-o até que ele se recuperasse. Olhou para o relógio - doze horas em ponto. Todos os dias, Treize deliberadamente pendurava os mapas e gráficos nas paredes, obrigando Duo a ficar de pé para alcançá-los por seis, as vezes sete horas seguidas. Duo não dizia nada.

Milliardo não reparava porque não queria ver. Era uma promessa tola compensar o que já havia sido feito, mas ele levantou-se do lugar que havia tomado ao lado de Duo e gesticulou para que um dos soldados na porta informasse que ele iria almoçar ali, e não com Relena, como de costume.

Meia hora se passou até que um dos homens voltasse com sua refeição. No inteirim, Milliardo escutava a batida do coração do garoto, fraca mas persistente. Era por puro egoísmo que não levava-o dali para a ala hospitalar ou chamava um médico. Queria guardá-lo para si e transformar aquele soldado em alguém dependente…

Riu. Não era alguém muito melhor do que Treize.

Duo acordou perdido e murmurando nomes que Milliardo não conhecia. Assim que ele se levantou, Milliardo empurrou um copo de água em sua boca, que Duo bebeu obedientemente. O garoto ainda não percebia onde estava, pois se apoiou nele de bom grado até terminar, deixando Milliardo desconfortavelmente quente, uma vermelhidão se espalhando do pescoço até as bochechas. Duo tinha uma das mãos enrolada em seu braço e deitara a cabeça em seu ombro, e o calor do corpo dele se espalhara até alcançar o seu. Ele pensara que nunca poderia sentir Duo assim tão perto - mas Duo não estava encostado nele, ao menos, não sabia que estava. Havia um brilho de gratidão em seu olhar que logo desapareceu quando ele arregalou os olhos e percebeu que quem o ajudara fora o príncipe inimigo.

Tudo se resumia a isso, parecia. Dois homens de lados opostos. A barreira se mantinha sólida entre eles, um muro intransponível e vívido na mente de ambos.

Milliardo não se deixou intimidar desta vez. Ele era um príncipe.

Sem uma palavra, mesmo quando Duo se afastou horrorizado, ele manteve-se próximo. Empurrou um dos pratos em sua direção, vendo a desconfiança no rosto do garoto ser afastada em razão de uma necessidade básica. Duo tomou o prato, colocando-o no colo com uma voracidade que Milliardo nunca havia visto nem mesmo em cães famintos, e devorou a comida com as mãos, lambendo os dedos ao final.

Milliardo não esperava gratidão sincera e nem a obteve. Duo passou a olhá-lo com confusão. A desconfiança ainda estava escondida atrás da nova expressão, mas era diminuta. Ele conhecia aquele olhar. Duo estava testando-o, se perguntando o porquê da atitude gentil. Na experiência deles, Milliardo sabia, gentileza não vinha de graça.

- Comida sólida. Você tem vivido de ração, não é? - Era um preparado distribuído aos miseráveis, insípido e repulsivo, mas que continha todos os nutrientes necessários para manter uma pessoa numa sobrevida.

Duo concordou cautelosamente. Milliardo lhe passou mais um pedaço cortado de frango, que ele arrancou dos dedos e engoliu rapidamente. Seus olhos estavam grandes e assustados, e a todo momento ele olhava para os lados, procurando discernir algum figura nas sombras do aposento.

- Você pode comer. Não se preocupe.

- Da última vez que você disse isso - ele falou - eu tive muitas razões para me preocupar.

Ele não esperava que continuasse a ser questionado, porque quando Milliardo perguntou "Quais?" em um tom de voz grave, Duo virou o rosto para o lado.

- Então vai continuar o interrogatório, é?

- Duo - se atreveu, e o garoto olhou para ele como se tivesse levado um tapa. - Eu prometi que ia deixá-lo viver. Você caiu desacordado, não acho que-

- Eu não preciso de você para cuidar de mim - ele disse rispidamente, quase num sibilar.

- Eu não estou me propondo a isso. Você não consegue dormir. Eu ouço você à noite, e vejo você de dia.

O garoto ficou vermelho, Milliardo só não sabia se de vergonha ou raiva. A cor explodira em suas bochechas, fazendo-o cerrar os punhos com tanta força que os nós de seus dedos embranqueceram.

- Eu poderia arranjar um lugar novo para você, e refeições de verdade. Ao menos, até que se recupere. Como espera trabalhar para mim assim? É claro que você pode voltar a comer ração e dormir no quarto em que está se quiser.

Deu um sorriso entristecido e continuou.

- Você tem que decidir se quer seguir em frente agora, porque se quiser, você vai ter que aprender a confiar em mim. Por enquanto você não tem ninguém mais.

Milliardo viu ele hesitar. Duo engasgou com as palavras em sua garganta, forçando-as a permanecerem guardadas enquanto o instinto fazia-o desejar cuspir tudo. Sua voz saiu quebradiça e esganiçada quando ele admitiu que queria tudo que Milliardo podia oferecer.

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Espero que a espera tenha valido a pena!