Harry Potter e Draco Malfoy estavam sentados na grama, próximos ao lago, nos terrenos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Era um domingo de manhã, dia seguinte da festa em comemoração à morte de Voldemort. Harry e Draco tinham retornado tarde para seus dormitórios, mas ninguém quis dormir muito, a fim de poderem aproveitar o domingo juntos. Era um lindo dia de sol e a maioria dos estudantes estava na área externa, aproveitando o clima ameno. Alguns conversavam em grupos, outros estudavam e praticavam feitiços e outros ainda namoravam, como era o caso dos dois garotos.
- Tem uma coisa que eu queria te perguntar. – Draco começou.
Harry ficou um pouco aflito com a postura séria que o menino adquiriu, mas como o louro parecia relaxado, o grifinório apenas murmurou:
- O que?
- Você se lembra a segunda vez que nos encontramos no banheiro e você me falou sobre o videogame? – o louro começou.
Harry assentiu.
- Você me disse que seus tios te odiavam. Eu perguntei por que e você me respondeu que me contaria uma outra hora. – Draco explicou. – Imaginei que seria algo íntimo e que você não se sentia à vontade pra me contar na época...
Harry virou-se para o garoto, olhando firmemente para o sonserino. Ponderou se havia chegado a hora de Draco conhecer aquele detalhe do seu passado.
- Não foi por causa disso que eu não te contei. – Harry falou devagar, tentando medir a relação do outro. – Eu não te contei porque não queria te influenciar contra os trouxas.
O sonserino ficou em silêncio alguns segundos.
- Você acha que se me disser agora, eu não vou sentir aversão aos trouxas?
- Mais ou menos...eu acho que você abrandou um pouco sua forma de pensar, ou não estaria comigo. – Harry parou. – Você sabe que minha mãe nasceu trouxa, não sabe?
Draco fez que sim com a cabeça.
- Não é que eu tenha abandonado completamente esse receio. – o grifinório continuou. – mas não vejo sentido em esconder de você algo que foi tão marcante na minha história pessoal.
- Eu entendo. – Draco ponderou. – Vou tentar manter a cabeça aberta.
- Meus tios me odeiam porque eu sou um bruxo. Odeiam tudo relacionado a magia, eles não podem nem ouvir a palavra. – o garoto soltou tudo de uma vez.
A expressão de Draco ficou furiosa. Ele parecia muito estar tentando se controlar.
- Me conte a pior coisa que eles já fizeram a você. – o sonserino falou em tom de ordem, e sua voz fria e calculada se assemelhou muito a de Lúcio Malfoy.
- Me trancavam e me deixavam sem comer, as vezes. – Harry falou muito baixo, depois de alguns segundos.
- No seu quarto? – o outro questionou.
- Não, eu não tinha quarto. – Harry falou devagar, depois de ponderar durante algum tempo se era melhor mentir a respeito disso. – Eu dormia em um armário embaixo de escada.
- Como um Elfo Doméstico? – Os olhos de Draco eram assassinos e sua voz cuidadosamente controlada transmitia uma calma evidentemente falsa. – Só faltava te mandarem fazer todo o serviço...
Harry arregalou um poucos os olhos, se forçando a continuar sendo completamente sincero.
- Eu fazia isso também. – ele murmurou, se sentindo um pouco exposto demais.
Quando pareceu que Draco explodiria completamente, Rony chegou gritando seu nome com um jornal na mão. Harry deu graças a Merlin pela presença do amigo, pensou que o que quer que o ruivo tivesse a dizer, despertaria um novo assunto e daria ao sonserino um tempo para se acalmar.
- Vocês viram o Profeta Diário hoje? – Rony questionou. – Não sei como eles conseguiram editar tão rápido.
Harry segurou o exemplar do jornal para ler e Draco aproximou-se do grifinório para fazer o mesmo. O Eleito abriu a boca de surpresa ao ver uma foto dele beijando Draco Malfoy na capa do jornal. Não era uma coluna de fofocas, nem a coluna social. Não era nem mesmo uma matéria secundária. A manchete do jornal trazia em letras garrafais: AMOR IMPROVÁVEL ENTRE O ELEITO E O EX COMENSAL DA MORTE DRACO MALFOY. Ao ler aquele título, Harry pensou que talvez tivesse sido melhor falar sobre seus tios.
A matéria, na íntegra, dizia o seguinte:
"Harry Potter chegou acompanhado à festa de comemoração da derrota de Voldemort, oferecida por Horácio Slughorn (que atualmente ministra a disciplina de Poções em Hogwarts e é diretor da casa Sonserina). O convidado do Salvador do Mundo Bruxo era ninguém menos do que o ex Comensal da Morte Draco Malfoy, filho do também comensal Lúcio Malfoy que atualmente cumpre pena em Azkaban.
O sr. Malfoy e o Eleito entraram no salão de mãos dadas e não quiseram responder às perguntas dos jornalistas do Profeta Diário que cobriam o evento. O novo casal passou boa parte da festa na pista de dança e no final da festa se beijaram na frente de todos os presentes, deixando claro o seu relacionamento.
Nós, do profeta diário, procuramos alguns bruxos e bruxas presentes na festa para que comentassem a respeito deste romance que parecia tão improvável. Um grande amigo do Eleito, Zacarias Smith, comentou: 'Harry Potter é um exemplo para o mundo bruxo, há muitos alunos mais novos aqui em Hogwarts que se espelham nele e por isso, ele não deveria assumir publicamente um relacionamento anormal. Isso pode incentivar o homossexualismo na comunidade bruxa'.
Uma quartanista da Grifinória que não quis se identificar afirmou: 'Nunca imaginei que Harry Potter se encantaria por um garoto como Draco Malfoy; é óbvio que ele muito bonito, mas é odioso. Jamais pensaria que alguém como Harry namoraria uma pessoa só pela aparência física'. Um outro aluno anônimo se pronunciou dizendo: 'É óbvio que Malfoy está usando o Harry para se reerguer agora de Você-Sabe-Quem foi derrotado. Eu não me admiraria se ele recebesse excelentes oportunidades após se formar em Hogwarts só por causa do seu relacionamento com o Eleito'.
Lembramos que é de conhecimento geral que o Menino-Que-Sobreviveu e o sr. Malfoy se odeiam desde o primeiro ano dos dois na escola. Além disso, não existe nenhum indício que classifique o sr. Potter como homossexual, nossa equipe soube por fonte fidedigna que alguns anos atrás o Eleito teve um relacionamento público com a srta. Chang, uma linda menina da Corvinal que se formou o ano retrasado em Hogwarts. Não temos dúvidas de que a recém nomeada diretora Minerva McGonagall vai mandar investigar se nosso querido e admirado Harry Potter está sendo alvo de poções de amor ou qualquer feitiço ilegal realizado pelo ex Comensal da Morte, Draco Malfoy".
- Merda. – xingou Harry, baixo.
Rony não parecia muito surpreso.
- Bom é claro que escreveriam algo. – o ruivo ponderou. – Acho que já até escreveram coisas piores sobre você. Na verdade, está bem parecida com aquela matéria do quarto ano sobre você e a Hermione.
- É só que Granger não foi Comensal da Morte. – Draco disse, frio e mordaz.
- Calma, Draco. – Harry tentou apaziguar a fúria do sonserino.
- Calma? – a voz do loiro subiu duas oitavas. – Estão dizendo aqui que eu enfeiticei você e estou usando do nosso relacionamento para conseguir melhores oportunidades na minha carreira.
- Você não pareceu incomodado quando me falou que os sonserinos iriam pensar isso. – Harry deixou escapar, percebendo logo que tinha sido a coisa errada a se dizer.
- Não pareci incomodado? – Draco gritava, algumas pessoas mais próximas viraram a cabeça para olhar o casal. – Você disse que tudo bem se as pessoas pensam que eu estou me VENDENDO pra você em troca de um EMPREGO?
- Não foi isso que eu quis dizer... – Harry disse, procurando consertar o que tinha dito.
- Acho que devemos simular um término. – Draco disse, agora mais baixo para que só Harry e Rony ouvissem. A voz ainda fria e distante.
- Você quer dizer namorar escondido? – Harry argumentou. – Draco você tem ideia de como isso soa infantil? Você já sabia que nós teríamos críticas, não acredito que você está desistindo.
- O que foi, Potter? – o sonserino disse, com escárnio. – Não sou corajoso como os grifinórios?
- Talvez você devesse tentar encarar as coisas como um grifinório. – o moreno enfrentou o outro. – Mal não ia fazer.
- Talvez VOCÊ devesse se colocar no MEU lugar. – Draco afirmou. – Estou cansado de todas as pessoas agindo como se você fosse um prêmio de loteria que eu ganhei. Estou cansado das pessoas agindo como se você fosse tão vastamente superior a mim.
- Draco, eu não quero soar horrível, mas eu matei Voldemort. Era no mínimo esperado que as pessoas comentassem coisas desse tipo... eu não estou dizendo que elas estão certas... – Harry tentava argumentar.
- Ah que bom que você não está dizendo que elas estão certas! – Draco fez uma voz sarcástica e falsamente gentil. – Muito obrigado viu salvador do mundo bruxo? Por não achar que é tão superior e por me dar a honra de namorar você. Pelo menos eu sou bonito, como apontou sua colega de casa. Deve ser um alívio pra você.
- Draco, não faça assim. – o grifinório pediu, aflito.
- Vá procurar um heróizinho, Potter. – o sonserino mandou. – De preferência um que bata palmas pra sua família trouxa.
E com essa frase de efeito, Draco saiu caminhando a passos largos na direção do castelo, deixando um Harry atônito olhando para o seu, não menos surpreso, melhor amigo.
Eu não vou gostar de você porque sua cara é bonita
O amor é mais que isso
O amor talvez seja uma música que eu gostei e botei numa fita
Eu não vou gostar de você porque você acredita
O amor é mais que isso
O amor talvez seja uma coisa que até nem sei se precisa ser dita
- O que foi tudo isso? – Harry se sentia completamente sem ação.
- Acho que um furacão sonserino passou por cima de você. – Rony comentou.
Os dois amigos se encararam durante alguns minutos. A cabeça de Harry tentava processar aquela briga. Ele não entendia. O que Malfoy esperava que fosse acontecer quando eles assumissem um relacionamento? Que a comunidade bruxa mandaria votos de felicidades para o novo casal? Se ele não queria enfrentar aquela situação, por que tinha dito a Harry que não queria esconder o namoro? E mais, o jeito que ele tratou o grifinório, tinha parecido que Draco acreditava realmente que Harry via a si próprio como um ser superior a ele.
- Você acha que eu dei a entender que me acho melhor que ele? – Harry questionou, em voz alta.
Rony apenas suspirou e se sentou de frente para o melhor amigo.
- Harry você não é uma pessoa ruim, nunca se achou melhor do que ninguém, mesmo que as pessoas sempre dessem mais atenção a você do que aos demais. – o ruivo começou. – Mas as vezes, a maneira como a comunidade bruxa te coloca em uma posição de destaque, pode fazer com que uma pessoa se sinta bastante inferiorizada.
- Mas eu não tenho culpa... – o menino começou.
- Eu não estou dizendo que você tem culpa. – Rony cortou a explicação do amigo. – Mas isso não muda o fato de que as pessoas mais próximas de você podem acabar se sentindo assim em alguns momentos. Eu já tive esse sentimento algumas vezes, você mesmo viu quando eu destruí aquela horcrux.
Harry se sentiu culpado e egoísta. O menino nunca tinha incentivado pessoas que queriam lhe conceder privilégios em relação aos demais, e muitas vezes tinha querido simplesmente apagar aquela cicatriz de sua testa para que ninguém o reconhecesse. Mas isso não mudava o fato de que ele tinha feito Rony se sentir inferiorizado, e que agora fazia o mesmo com Draco. O que era ainda pior, pois Draco já seria mal visto pela população bruxa de qualquer modo, por ter sido um dia partidário de Voldemort.
- Eu exagerei. – Harry se deu conta – Não devia ter sido tão duro.
- Não. – Rony concordou. – Mas você tem razão quando disse que o que aconteceu não foi mais do que o esperado. Draco é um cara inteligente, ele sabia que algo assim esperava por ele se assumisse um relacionamento com você.
- É também a minha opinião. – o Eleito comentou.
- Mas só porque ele sabia, não significa que ele estava preparado pro impacto que isso causou nele mesmo. – o ruivo apontou. – Dê um tempo a ele. Depois o procure, tente conversar com calma.
Harry resolveu seguir os conselhos de Rony. Pensou em como era irônico ter Rony Weasley lhe dando conselhos em relacionamentos, e nem era a primeira vez que isso acontecia naquele ano. Harry refletiu como o namoro do seu melhor amigo com Hermione realmente havia feito o garoto amadurecer emocionalmente.
Naquele dia, Harry decidiu dar um tempo a Draco e não o procurou. Foi difícil se conter a noite no quarto, todo seu corpo parecia querer se levantar e ir bater na porta do Salão Comunal da Sonserina até que o loiro saísse lá de dentro e o abraçasse. Mas o grifinório se controlou. Somente no dia seguinte, Harry convidou Draco para dar uma volta pelos terrenos de Hogwarts no tempo livre que os dois tinham em comum imediatamente após o almoço. O sonserino aceitou imediatamente e Harry achou até ter visto um certo alívio em seus indecifráveis olhos azuis.
Andaram um tempo, um do lado do outro, sem dizer nada. Foi Harry quem começou a se expressar.
- Olha, Draco, eu quero te pedir desculpas. – o grifinório começou. – Essas coisas que estão dizendo ao seu respeito são horríveis, eu realmente não queria que você tivesse que passar por isso.
O sonserino não disse nada, apenas encarou o outro, a expressão controlada.
- Eu preciso que você acredite que eu nunca quis nada disso. Eu sou famoso porque um bruxo das trevas matou os meus pais e tentou me matar. Sou famoso porque passei a vida toda sendo atacado por esse mesmo bruxo até que finalmente consegui me livrar dele. – Harry disse com intensidade. – Eu sei que as vezes também ganho privilégios por ser quem eu sou. Mas eu juro a você que preferia ser só mais um homem normal. Nunca quis tanto não ser o Eleito. Se eu fosse só Harry, nós poderíamos andar juntos por aí com mais tranquilidade. Se eu fosse só Harry, você não teria passado por isso.
- Não é culpa sua. – Draco concedeu, e depois ergueu a mão para tocar o rosto do grifinório. – E eu acredito em você, Harry. Mas não muda o fato de que os seus atos heroicos e os erros que eu cometi no passado nos perseguem e nos levam para direções opostas.
Deixa de tolice, veja que eu estou aqui agora
Inteiro, intenso, eterno, pronto pro momento e você cobra
Deixa de bobagem, é claro, certo e belo como eu quero
O corpo, a alma, a calma, o sonho, o gozo, a dor e agora para
- Você está terminando comigo? – Harry se sentia desesperado e triste.
- Não. – o outro falou alto demais, parecendo aflito que o grifinório tivesse compreendido dessa forma. – Não, eu quero ficar com você. Eu não vou desistir.
- Então confie em mim quando eu digo que tudo que eu sou me leva exatamente na sua direção. – Harry falou, com uma sinceridade atordoante. – Desde a primeira vez que nos abraçamos naquele banheiro, eu tenho gravitado ao seu redor o tempo todo. Esqueça todos estes títulos e estereótipos. Você sabe quem eu realmente sou, eu sei quem você realmente é. Vamos ser apenas Harry e Draco, tudo bem?
Draco puxou Harry para si e o abraçou. A sensação foi perfeita. Harry sentia seu corpo todo aliviado e protegido por estar nos braços de Draco. Ele sentia vontade de chorar. Sabia que Draco jamais se declararia assim tão francamente, não era característico dele. Mas a forma como ele o abraçava deixava claro que ele se sentia da mesma forma, deixava claro que ele tinha adorado ouvir Harry dizer aquilo.
- Se você realmente quiser, nós podemos esconder. – o grifinório procurava ceder. – Eu realmente não queria ter que agir friamente com você em público, quando tudo o que eu quero é te trazer pra mais perto. Mas eu posso fazer isso por você.
- Eu não quero isso também. – Draco declarou. – Eu não quero esconder nada. Eu sinto muito, eu não deveria ter me desesperado.
- Se você quiser, podemos dar uma entrevista, contar o nosso lado da história. – Harry sugeriu. – Eu realmente não gosto de expor a minha vida assim e imagino que nem você, por isso me recusei a responder perguntas. Mas quem sabe mostrar as pessoas como nos sentimos pode ajudar a combater esse tipo de reação ao nosso relacionamento.
- Até que tem lógica. – Draco ponderou, depois de alguns minutos. – Mas não sei se o Profeta quer contar a história por esse ângulo. Ninguém quer acreditar que Harry Potter é gay.
- É engraçado isso não é? – Harry comentou. – Por que será que as pessoas acham que tem o direito de dizer de quem eu devo gostar? De quem qualquer pessoa deve gostar, na verdade.
Draco Malfoy deu de ombros e puxou Harry para mais perto de si.
- Ninguém pode me impedir de gostar de você.
- Deixe o tempo passar, Draco. – Harry murmurou, antes de beijar o sonserino. – As pessoas vão se acostumar.
Será que é tão difícil aceitar o amor como é e deixar que ele vá,
E nos leve pra todo lugar, como aqui
Será melhor deixar essa nuvem passar
E você vai saber de onde vim, aonde vou e que eu estou aqui
