Parte I
Milo pigarreou antes de começar a falar. Sabia que não seria tão fácil explicar as coisas, mesmo que Kanon e Aiolos já soubessem de parte da história. Levantou-se da cadeira e tomou uma dose de uísque num tapa só, para então analisar os presentes e concluir que não adiantava muito imaginar qual seria a receptividade de cada um se teria que contar de todo jeito.
- Vou começar do início...
- Por onde mais começaria? – interrompeu Mu, levemente impaciente. O que poderia ser mais importante que visitar Aiolia no hospital, afinal de contas? – Seja breve, faz favor.
- Se você não me interromper novamente vai ser mais rápido – Milo volveu ríspido, já preparado para um bate boca com Mu, coisa que não aconteceu pelo tibetano ter sido interrompido pela mão de Saga em seu ombro, em um "nem começa" mudo. Milo agradeceu Saga com um sorriso e continuou – Então, não tem maneira de fazer isso ser mais fácil, então serei direto. Eu sou um anjo da guarda, assim como esse cara aí – apontou para Ikki, que acenou com um sorriso chocho – O nome dele é Ikki. – antes que algum dos outros tivesse tempo de dizer alguma coisa, Milo continuou – Eu sou o anjo da guarda do Aiolia, ele é do Shaka.
Mesmo que o pensamento geral fosse "Então você não está fazendo um bom trabalho", ninguém o exteriorizou. Até por que Mu e Saga, que eram os dois que não sabiam, não acreditaram muito nisso.
- Eu que tomo remédio controlado e você que fica louco? – disse Saga, passando as mãos nos cabelos, nervoso. Os últimos dias não tinham sido muito legais e sair contando lorotas não ia melhorar o clima – Milo, falando sério. Sei que você se responsabiliza por quando o Aiolia ficou surdo, mas... Chegar a dizer que é o anjo da guarda dele é ridículo.
Ikki riu ao mesmo tempo em que Milo suspirou, resignado. Sabia que não iam acreditar. Então fez o mesmo que com Kanon e Aiolos, dias atrás, no hospital. Estalou os dedos e suas imensas asas vermelho e dourado apareceram. Ikki fez o mesmo e fez-se ver asas em tons de laranja e vermelho e um pouco menores que as de Milo.
Mu arregalou os olhos e Saga parou e respirou, se perguntando se aquilo era real.
- Isso é... Efeitos especiais? – perguntou o ariano, incrédulo.
- Vocês estão vendo isso, não é? – Saga já havia tido experiências não muito agradáveis com alucinações antes, então estava realmente em dúvida se aquilo era verdade ou uma peça muito da maldosa pregada por sua mente – Kanon, você tá vendo isso, certo? Essas asas louconas.
- Pois é, tô.
Milo sorriu vitorioso – Então, eu sou o anjo do Aiolia e esse é o Ikki, anjo do Shaka.
- Que mal lhe pergunte, Milo – começou Aiolos. Desde que descobrira que Milo era um anjo estava louco para fazer algumas perguntas, mas não tivera tempo. Ia aproveitar – Por que...
- Deixa eu explicar primeiro, depois você pergunta – interrompeu Milo – Então... Eu encarnei com o Aiolia, por que fica mais fácil quando a pessoa vai ter problemas na vida. Mas não é o Aiolia que teria problema, o Aiolia encarnou como um canal para salvar outra alma, a tal alma gêmea dele, então essa outra alma teve dois anjos encarnados, cada um com um protegido, para que pudesse se salvar.
Ikki o olhou de soslaio, meio entediado. Todos no Céu sabiam o problema que foi quando Maschera Mortuaria foi encarnar. Já sabia essa história de cor. Os outros ouviram meio incrédulos, tendo decidido por ouvir aquilo como se Milo estivesse contando o enredo de um filme, não algo que acontecera de fato.
- Então. O Ikki fez uma encarnação tardia...
- Por que o Shaka vai ter alguns problemas agora, mas a vida dele até aqui foi tranqüila. – disse Ikki, interrompendo Milo, que fez uma careta de desgosto. Ikki deu de ombros. Fora o único anjo da guarda que a alma de Shaka teve (isto é, sem contar o anjo da primeira encarnação) e morria de ciúmes do mesmo. Detestava que outros anjos falassem dele na sua presença. A alma de Shaka era sua incumbência e de mais ninguém – É chamado de "encarnação tardia" e é normalmente sinal de mais perigo que uma encarnação conjunta. O Milo e o Shura, a virtude que encarnou para ser anjo da guarda do Chiara, fizeram encarnações conjuntas. A minha é tardia.
- Shura não é o tal espanhol que o Milo aparentemente está namorando? – volveu Mu.
- Mais importante que isso – disse Aiolos, confuso – Chiara não é o tal amigo virtual trans do Aiolia?
- E quês problemas o Shaka vai ter? - expôs Saga, preocupado – Tipo, para você ter que encarnar.
Ikki deu de ombros. Não ia e não podia falar o quê cargas d'água aconteceu /vai acontecer com Shaka e sobre Chioria (como Shura e Milo chamavam o shipp) não lhe incumbia.
- Pois é, a alma gêmea do Aiolia é aquele cara da internet, então confiem nele. Certeza. Ok? – Milo fez sinal de "jóia" com ambas as mãos e sorriu, esperando os outros concordarem. Sem graça, continuou quando ouviu murmúrios de "ok" e sinais iguais – Daí me mandaram contar pra vocês, mas não sei exatamente o motivo.
O papo angelical de Milo e Ikki com Aiolos, Saga, Kanon e Mu ainda durou cerca de uma hora, com os anjos explicando coisas simples, como "não podemos ter um relacionamento com o protegido" seguido de "Então por que o Milo já transou com o Aiolia?" e "Pois é, estou recebendo uma advertência e uma punição que não sei qual é por causa disso".
Enquanto isso, Shaka lia um volume grosso de anatomia para um trabalho na faculdade e Aiolia dormia, exausto.
E, no carro, rumo a uma cidadela no interior italiano, Trento, Chiara chorava.
Contido e disfarçadamente, ele olhava para fora pela janela e tentava conter as lágrimas que rolavam. Ele jurava que não ia chorar quando o figlio di uma cagna que chamava de pai morresse. Para dizer a verdade, passou anos desejando que isso acontecesse e que ele sofresse muito antes.
Mesmo que seja exatamente isso que aconteceu (com o bônus de ver o pai implorando por sua presença e morrer sem receber seu perdão), Máscara da Morte se sentia triste, vazio e arrependido por não ter ido ver o pai uma última vez depois de cerca de dez anos de ausência.
No meio de todas essas emoções que não sabia que tinha, estava chateado com Shura. O cara era seu amigo de longa data, sabia que voltar para casa era uma coisa muito importante... E fica em Roma com a desculpa de que "tenho uma faxina para fazer em casa e não posso adiar".
O caralho que era faxina. O espanhol estava escondendo algo e inventando motivo para não vir junto e isso só deixava as coisas piores.
Chiara suspirou. Ao menos não vinha sozinho. Aldebaran dirigia e conversava com Afrodite sobre o último álbum da Sia, tentando animar o ambiente. Camus não viera, não podia deixar a boate sozinha, levando em conta que estava só com Afrodite fazendo shows, já que as outras queens estavam de férias, Misty e Bado. E tinha seu filho Hyoga, que só tinha 14 anos não ficaria sozinho enquanto Camus estivesse vivo.
De qualquer forma, Máscara entendia a ausência de Camus. Mas não a de Shura. E isso fazia com que tivesse algo pra canalizar a tristeza, que se exteriorizou em forma de raiva e mágoa infinitos.
- Eu prefiro Erasure ou Abba, se quer minha opinião – Afrodite disse, rindo e tentando aliviar o clima tenso do carro – Mas entre Sia e Lana Del Rey eu fico com Sia. Sou uma rosa colorida e alegre demais para toda aquela depressividade absorvente da Lana. Qual prefere, Chiara? – Olhou para o banco de trás, onde Chiara sentava sozinho e ofereceu um dos vários rolinhos de canela que estavam no seu colo – Quer um?
Chiara arqueou a sobrancelha e pegou um rolinho, irritado e sem responder. Aldebaran também pegou um bolinho, continuando a discussão – E entre Erasure e Abba,quem você prefere, florzinha?
- Não me fode sem me levar pra jantar primeiro, chefe – o sueco respondeu, indignado – Não consigo escolher entre os dois. É impossível. Talvez Abba, já que são da Suécia, mas...
Afrodite estava no seu quinto pãozinho e sabia que se arrependeria amargamente depois. Nem era sábado para cair matando nos doces (e, para ele, isso incluía os rolinhos suecos de canela) ou 4 de outubro, Dia do Rolinho de Canela¹. Obviamente sabia que um dos dois amigos iria comentar o fato, mas esperava que não fosse tão cedo. Só queria afogar a mágoa comendo e que ninguém o incomodasse.
- Dite, hoje não é 4 de outubro. Tá uns cinco meses atrasado. Para que esse tanto de rolinho de canela, cacete? Quando você teve tempo de fazer? Preguiçoso do jeito que é, deve ter comprado – Máscara disse, autoritário e rude – Esse rolinho vai tudo para seus culotes, escreve só o que to falando.
Dito e feito, mas Afrodite não esperava que Máscara fosse descontar em si a irritação. Era injusto. Muito injusto. Virou-se para frente e ficou nervosamente observando a estrada, emudecido de consternação e chateação e continuou comendo seus rolinhos de canela. Era a única coisa que conseguia fazer quando estava triste. Comer.
- Chiara. – Aldebaran suspirou ao ver a cena. Máscara era difícil e Afrodite sensível. Normalmente os dois se davam muito bem, até dividiam o apê, mas era um perigo as raras vezes que o sueco era alvo da raiva canalizada do outro. – Máscara da Morte. Chiara – Máscara continuou ignorando Aldebaran, mastigando o rolinho de canela como se quisesse castigar o mesmo e infligir dor no coitado. Aldebaran foi para o acostamento e parou o carro em uma freada brusca e se virou para trás e disse calmamente, embora firme, segurando o queixo de Máscara para que esse olhasse diretamente nos seus olhos – Eu to pouco me lixando para o que você está passando no momento. Todo mundo te aconselhou a ir ver seu pai antes, você não foi por que não quis. Agora o cara morreu e você tá chateado e tem direito a isso. Agora, o Shura sumiu e não pode mais ser alvo da sua rudeza idiota e, mesmo que isso te irrite mais, não desconta em quem tá tentando te ajudar. Não se morde na mão que acaricia, seu idiota. Eu e o Afrodite estamos aqui para te ajudar e estar do seu lado, não para ser saco de pancadas. Agora, se você for continuar com essa tromba e essa atitude, eu te largo no meio da estrada e volto pra Roma. Estamos entendidos?
Os olhos de Máscara marejaram. Pois é, tinha sido um idiota, mas não assumiria isso. Mas mudou de idéia quando olhou para o lado e viu, no banco do carona, que Afrodite estava chorando. Quer dizer, tentando segurar o choro. Ele sabia que o amigo comia muito quando estava triste ou nervoso e se penalizava constantemente pelo o quê aconteceu quando saiu fugido de Estocolmo. Não era justo (só para começar) descontar nele sua frustração.
Além do quê, rolinhos de canela era uma das poucas coisas que Afrodite sabia fazer na cozinha e ele se orgulhava muito disso.
- Eu... Desculpa, Di. De verdade.
Afrodite enxugou as lágrimas e engoliu o quê estava mastigando – Que isso não se repita.
Parte II
Enquanto isso, Shura chegava de elevador Setor de Reencarnações do Departamento de Almas Corrompidas. Fora recebido por um alegre Shun, que comia um rolinho de canela, mas do tipo americano e com glacê extra, em homenagem a Afrodite.
- Olá, Shura. Queira me acompanhar.
Shura estava nervoso e ansioso para se dizer o mínimo. Era a primeira vez que era guarda de alguém, geralmente supervisionava trabalhos de milagre em hospitais e não sabia se estava fazendo seu trabalho direito. Mas estava se esforçando muito, devia ser suficiente. É.
- Ok.
Foi acompanhando Shun pelos corredores em tons de arco-íris pastel e depois pelo salão cheio de mesas iguais, anjos iguais com computadores iguais e serviços iguais. Ao fundo, ao lado de vasos de girassol e por uma porta de vidro transparente salpicado de glitter prateado, estava a sala de Shion.
Shun abriu a porta e ambos entraram, encontrando lá Shion sentado em sua cadeira e Dohko esparramado no divã ao canto, comendo jujubas. Sentou-se junto com Shun nas cadeiras em frente à Shion, que se endireitou e sorriu. Dohko continuou comendo, fingindo que não estava lá.
- Shura, quer a notícia boa ou a notícia ruim? – Shion disse calmamente.
- A ruim?
- A notícia ruim é que você reprovou no teste.
Shura ficou com uma legítima cara de confusão idiótica. Mas ele não tinha vindo fazer o tal teste? Como já estava reprovado? – Como?
- Seu teste era saber se você valorizava mais o Chiara que seu trabalho – Shun sorriu, pegando jujubas do pote que havia em cima da mesa de Shion e colocando umas na boca para depois morder no rolinho de canela e responder depois de terminar de mastigar – Ou seja, se você o acompanharia até o enterro do pai ou se você viria para cá. Você sabe o quê fez, não é?
- Ah. E... E a boa notícia?
- Eu disse que tinha boa notícia? – Shion rebateu – Perdão, devo ter dito errado. A próxima notícia, que também é ruim, é que você foi suspenso do caso.
¹ Suecos comem cerca de 1,2 de doces por semana, geralmente aos sábados. E eles realmente tem um dia dedicado a doces específicos, sendo 4 de outubro o dia do rolinho de canela (que é diferente do rolinho americano).
Receita (em inglês): /collection/classic-swedish-food/article/cinnamon-buns/
