"Sine Die"

Sine die, do latim 'adiar por tempo indeterminado'. Você está adiando a sua felicidade.

Cap VIII – Três dias ou Desculpe-se por me fazer sofrer.

James achava difícil acreditar que somente sete dias tinham passado desde que Lily tinha terminado com ele. Parecia mais, muito mais, só que isso provavelmente se devia ao tanto de coisas que ele estivera fazendo para tirar a garota de sua mente.

Era difícil, também, entender porque apesar de tudo que estava fazendo, a imagem do sorriso de Lily, o cheiro de Lily, o sabor de Lily, continuava a aparecer nos momentos menos oportunos. Como um gato perseguindo um rato, a memória da garota o seguia ininterruptamente.

Deitado na cama, encarando o teto, tentou se lembrar do motivo que o levara de volta ao quarto antigo com os amigos e lembrou-se do gelo que ainda estava dando em Lily. Mesmo em sua cabeça, aquilo soou infantil, uma birra de criança mimada.

Levantou-se de súbito e começou a arrumar as coisas, espalhadas pelo quarto como se um furacão tivesse passado pelo local. Quando tinha tudo pronto, pegou a mochila e saiu, deixando os amigos adormecidos em montes disformes nas respectivas camas.

A mordomia de não ter que dividir a bagunça, muito menos arrumá-la, estaria de volta em alguns minutos. Assim que se obrigasse a voltar para o salão que deixara a menos de 12 horas, com uma garota deitada no sofá.

Com sorte, a garota do sofá também voltaria... Para ele.


Lily acordou com um estrondo tão alto que por pouco não caiu do sofá em que acabara dormindo na noite anterior. No susto, jogou o cobertor, que não se lembrava de ter pegado, para o alto, e acabou escondendo-se sem querer.

Enquanto se descobria, avistou James no topo da escada, segurando a porta entreaberta, com uma careta de culpa que doía. A porta. O barulho. Ele.

A garota suspirou e se deitou novamente, tentando desacelerar o coração, que se debatia loucamente em seu peito. Fechou os olhos e suspirou umas três vezes. Quando se recuperou, sentou-se e tentou sorrir, mas os músculos da face pareciam ainda estar paralisados de susto.

James desceu as escadas silenciosamente e parou em frente à garota, ajoelhado na beira do sofá. De perto, os olhos brilhantes dele pareciam curiosos e assustados, então ela percebeu que aquela descrição não valia somente para quem o olhava de perto. Ele sempre parecia curioso e assustado nos últimos dias.

- Foi sem querer. – ele disse. – A porta bateu. Sozinha. Eu ia segurar, mas não deu. Desculpa.

Os lábios dela formaram um sorriso triste e ela assentiu, com um dar de ombros de quem parecia não poder se importar menos. Por dentro, o coração palpitava com a proximidade, apesar de o garoto sequer estar encostado nela.

Antes que pudesse se frear, tirou o cobertor do pedaço de sofá que ele ocupava, puxando-o para seu colo e abriu espaço para o garoto. Viu James oscilar e enrugar a testa, confuso com os sinais controversos que recebia. Por fim, ele se sentou ao lado dela e suspirou fundo, muito fundo, umas três ou quatro vezes, enquanto Lily podia sentir seu coração batendo em todos os lugares possíveis do corpo.

- Ahn, o que você... Por que você está aqui? – ela perguntou, após um instante particularmente longo.

Ele tinha batido a porta, confere; tinha a acordado, confere; mas tinha batido a porta e, consequentemente, a acordado por que motivo?

- Eu durmo aqui. – ele respondeu rapidamente.

- Eu sei, acho. – Lily retrucou, confusa. – O que eu perguntei é por que você está aqui se está fingindo que a minha existência nunca ocorreu?

A frase pendeu no ar, até se esvoaçar como fumaça varrida pelo vento. Após proferir aquelas palavras, Lily se chutou mentalmente por ter soado tão rude. Na verdade, ela não sabia como deveria soar; a proximidade de James era entorpecente, ela queria segurá-lo pelas mãos, envolvê-lo em um abraço e selar os lábios dele nos dela.

- Você vai se assustar de novo, então respire fundo. – o garoto disse em uma tentativa de brincadeira. – Eu achei que estava sendo infantil fazendo aquilo.

A garota riu, antes que pudesse se controlar. Se James achava uma atitude qualquer infantil, a atitude só podia se infantil.

- Você também estava sendo bastante infantil, só pra constar. – acrescentou, cessando as risadas.

O silêncio morno que se seguiu foi amolecendo aos poucos os receios de Lily e ela se permitiu olhar para James pela primeira vez desde que ele havia sentado a seu lado. E ele era simplesmente ele, ainda, apesar de tudo, e nada tinha mudado, nada.


James sentiu o coração encher de algo esquisito e leve quando seus olhos encontraram os de Lily e então esticou a mão para tocar a dela, que repousava no colo da garota levemente e estrategicamente posicionada mais perto dele do que de costume.

Os dedos se tocaram e depois o resto da mão, e então, eles estavam de mãos dadas de novo. Esse simples gesto fez com que um arrepio perpassasse pelos corpos unidos pelas mãos. Os dias anteriores ficaram nublados e uma fresta de esperança começou a cintilar na janela fechada que era a visão do futuro dos dois.

Em momento algum, James sentiu a mão de Lily vacilar, se encolher ou apertar os dedos que envolvia. Ela estava lá e só. Como se o resto do corpo estivesse ocupado fazendo outra coisa qualquer e a mão existisse separadamente. Mas estava ali e aquilo já era um começo.


Lily não saberia dizer quanto tempo tinha se passado quando finalmente conseguiu reunir forças para levantar, ainda de mãos dadas com James e dizer o que queria.

- Eu não posso voltar pra você.

E também não sabia quanto tempo se passou até que James levantasse, ainda segurando a mão dela, e dissesse o que parecia estar engasgado dentro dele.

- E isso seria por quê...?

- Porque eu não mereço você. – ela conseguiu balbuciar, apertando a mão do garoto pela primeira vez.

Sentiu como se um buraco tivesse se aberto no chão quando ele soltou a mão dela e se afastou uns passos, para olhá-la com pesar nos olhos. A repreensão pesava tanto que a garota se sentia a ponto de cair.


- Para de falar isso. Por que você fica falando isso? Para de falar besteira! – James falou sem qualquer entonação mais forte na voz.

O "eu não mereço você" estava se repetindo a toda velocidade em sua cabeça, como um disco arranhado, mas com a força de um milhão de cavalos trotando sobre o solo seco e duro de um lugar abandonado.

Como ela podia pensar uma coisa dessas? Porque ela pensaria uma coisa dessas?!


- Eu magoei você. Eu tentei te tirar da minha vida, eu tentei te machucar, porque eu quero que você seja feliz e eu não posso te fazer feliz. – Lily sussurrou, os olhos já marejados.

Cada palavra proferida tinha o peso aproximado de uma tonelada, embora caísse sobre ela mais do que sobre James, que só a observava atônito.

O garoto deu um passo à frente e ela recuou um passo, mantendo a distância entre os dois. Ela precisava ser forte, era a última chance de terminar de vez com ele. Ela não agüentaria dizer aquilo de novo, não depois de sentir a mão de James na sua e de se lembrar de tudo que havia acontecido entre eles.


- Você 'tá ficando doida! Para! – o garoto disse dando mais passos para frente, que eram rapidamente compensados pelos passos de Lily para trás.

A cada palavra que saía da boca da garota, ele se sentia mais impelido a correr e abraçá-la, mas ele sentia que cada palavra era milimetricamente calculada para machucá-lo, para forçá-lo a se retirar dali e nunca mais querer vê-la.

- Vem cá. Para de falar besteira. Esquece isso!


Lily meneou a cabeça efusivamente e sentiu as lágrimas escorrerem quentes e dolorosas pelas bochechas rosadas de raiva de si mesma. Aquilo doía. Muito.

- Vai embora. Por favor. – ela pediu em um fio de voz.


- Quando você cansar de falar besteira, eu vou. Eu vou, juro. Mas só quando você parar de falar essa idiotices.

A visão das lágrimas da garota doeu profundamente, como cortes fundos em uma pele já recortada no passado. E, mesmo que não diretamente, aquilo era parte culpa dele.

- Eu não quero fazer você chorar. – ele continuou, avançando até que a garota estivesse encurralada em um canto da sala. – Eu desculpo você, é isso que você quer? E eu peço desculpas também.


Lily nada disse em resposta a James.

As lágrimas continuavam a correr soltas, marcando o rosto da garota, escorrendo pelo mesmo caminho que tantas outras lágrimas já haviam passado. Os soluços não demoraram a se seguir e a cada segundo a agonia parecia piorar.

Ela não se moveu quando James atravessou o especo que os separa e a abraçou, envolvendo-a em um abraço forte e quente. Ela não teve forças nem para retribuir, apertá-lo ou dar tapinhas nas costas.

Os dois ficaram em pé, em um abraço unilateral, por vários minutos, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto da garota e encharcavam a camisa do garoto. O coração de Lily batia dentro do peito de James e vice-versa, em um ritmo descompassado que não combinava.


James estava certo de que não iria soltar a garota tão cedo, quando um soluço particularmente alto antecedeu o abraço de Lily. Os braços dela o envolviam com uma força que ele não sabia de onde vinha.

O abraço, agora completo, demorou a se esfacelar, e quando se partiu, ele segurou o rosto da garota em suas mãos e a olhou dentro dos olhos.

- Você quer me pedir desculpa? Eu já perdoei você.

- Me desculpa, eu não posso fazer isso, eu não posso te privar do que você merece. – Lily sussurrou, na voz entrecortada que conseguiu falar.

- Exatamente, você não pode me privar de você.


A garota fechou os olhos, deixando cair mais lágrimas e se assustou quando sentiu os lábios de James tocarem sua bochecha direita, depois a esquerda e por último sua testa. Não conseguiu se obrigar a abrir os olhos, nem se afastar, então, de olhos fechados, envolveu-o novamente em um abraço.


James percebeu que Lily estava oscilando em pé e conduziu a garota de volta para o sofá. Sentou-se e colocou-a para deitar com a cabeça em seu colo.

As lágrimas secas no rosto desenhavam várias fileiras tristes que ele tentava ignorar enquanto mexia no cabelo da garota. Ela pareceu dormir em segundos, mas ele continuou a acariciá-la durante o sono.

As feições do rosto de acalmaram com o tempo e ele pôde perceber o quanto ela era linda, apesar do rosto manchado pelas lágrimas. Linda e boba em acreditar que algo que ela dissesse mudaria o que ele sente.

James não notou, mas aos poucos foi se embalando em um sono calmo e despreocupado, apoiado no braço do sofá, ainda com os dedos entrelaçados no cabelo de Lily. A última coisa que fez, antes de se permitir adormecer, foi selar os lábios gentilmente na testa da garota, mais uma vez.


Lily abriu os olhos energicamente, como se tivessem apertado o botão de ligar em suas costas. A primeira coisa que viu foi James, todo contorcido, com os dedos enroscados em seu cabelo e a cabeça pendendo para frente.

Levantou-se devagar, tentou colocá-lo em uma posição confortável e o cobriu com o cobertor que ele havia usado para cobri-la na noite anterior. Ele era lindo, até daquele jeito bagunçado e cansado.

Procurou um papel e rabiscou um bilhete rapidamente. Precisava sair dali.

Lembrou-se que sequer tinha comido naquele dia e viu as horas, para então descobrir que havia perdido o almoço. Saiu em silêncio, pra ir a cozinha, deixando James adormecido e metade do coração no bilhete.


James só acordou umas horas após a saída de Lily e não se surpreendeu com a ausência da garota. Ela sempre fugia, sempre.

Abriu o bilhete cuidadosamente e leu:

Eu realmente peço desculpas. Eu preciso digerir tudo que aconteceu hoje. Não quero machucar você com escolhas erradas. Não espero que entenda, mas espero que aceite. Não vou fazê-lo esperar demais, prometo. Agora é de verdade e a próxima decisão é a última. Quero fazer a escolha certa, mas preciso de calma para pensar. Eu vou procurar você. Quando eu estiver pronta.

Lily.

Riu. "Não vou fazê-lo esperar demais, prometo". Qualquer tempo era muito tempo.

Suspirou e guardou o bilhete no bolso. Espreguiçou-se e levantou, subindo as escadas para encontrar a mochila do mesmo jeito que estava de manhã, caída em frente à porta que batera subitamente. Portas nunca tinham sido tão oportunas antes.


ENE/AAA: OI povo. Nem demorei! De verdade, capitulo mais rápido da história! Bem, essa "coisa" desse capitulo realmente aconteceu. Eu chorei escrevendo, bastante e a primeira coisa que eu fiz quando terminei o capitulo, hoje ha umas quatro horas, foi ligar pra Lucas, meu namorado, que vocês conhecem como James, só pra dizer o quanto eu o amo.

Obrigada pessoas, por comentarem, por lerem e principalmente por me darem forças pra continuar. Vocês são demais.

O proximo capitulo não deve demorar tanto. Espero. Antes do dia 14 de novembro (quando eu faço um ano de namoro) a fic vai estar completa, não se preocupem. IOAHSIOAHSOI.

BEIJOS ENORMES!