9 – Uma nova esperança
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O anoitecer veio brando e sem nenhum sinal de tempestade, entretanto ainda havia muita tensão dentro do templo.
As chamas alaranjadas iluminavam o caminho e balançavam conforme Hayato passava apressadamente pelo corredor, os passos leves não denunciaram a sua chegada, fazendo Kinugami desviar o rosto lentamente do copo de sake para contemplar o amigo parado a porta. Uma nova rixa começou e os dois se enfrentaram durante o silêncio infinito que formou naquele cômodo, quase conseguiam ler o que se passava na mente do outro.
- O que quer comigo, diga de uma vez! – a voz elevada do mestre não surpreendeu o recém chegado.
- Você matou mesmo o raposa? – sua tranquilidade fazia o cão dourado bufar e revirar os olhos em pura aversão. – Matou ou não matou?
- Não foi pelas minhas mãos... – deu um longo gole na bebida e depositou o copo sobre a mesa baixa, soltando um suspiro. – Mas ele realmente está morto.
- Não precisava ter falado isso para ela.
- Está dizendo que estou errado? – seus punhos tremeram antes de serem fechados com força. – Sua audácia está muito além da minha paciência! Por que faz seus irmãos lamber o chão por onde passo, se não é capaz de fazer o mesmo?
- Por que não tenho medo de você.
- Mas pensa que eu não mataria os dois mesmo eles sendo comportados? – os lábios esticaram em um sorriso largo e seus olhos não demonstravam nenhum receio. – Não sou tão bonzinho como pensa que sou... Hayato.
- Então diga isto para esta cicatriz. – apontou o polegar para o próprio peito, onde recebera o golpe de Kinugami alguns dias atrás. – Ou será que se esqueceu onde fica o coração? Se bem que, arrancar a cabeça do inimigo também resolveria o problema.
- Você quer mesmo lutar? Quer tanto assim morrer?
Ele se levantou, caminhando lentamente até ficar a poucos centímetros de Hayato. Seus olhos estavam alinhados e a única coisa que diferenciava os dois era a serenidade do servo e a agressividade do mestre.
- Não iria perder, porque eu ainda tenho minha promessa com a senhorita Shiori.
Kinugami apertou com as mãos os ombros do moreno e o empurrou, repetindo o gesto até que o outro estivesse fora de seu quarto. Sua cabeça pendia para baixo ocultando a sua expressão e seu olhar, mas isto tão pouco o incomodou, apenas queria esquecer as últimas palavras que havia escutado.
- Some da minha frente.
- Eu não te reconheço mais, você não é mais o mesmo. - o servo acusou com a voz ainda passiva.
- Some daqui! Desapareça!
A porta deslizou e fechou violentamente, batendo tão forte quanto o grito do deus-cão dourado. Após isto, só era possível ouvir o som de coisas sendo quebradas e de palavras carregadas, todas cheias de ressentimentos.
O tempo que passou desde então foi muito incerto. Os diálogos foram diminuindo gradativamente e a distância que existia entre Shirayuki e Kinugami aumentava a cada dia, chegando ao ponto de não se encontrarem mais dentro do templo.
O youkai dourado desaparecia de tempos em tempos, retornava apenas para trazer os mantimentos que eram de sua obrigação. Já a princesa treinava durante o dia inteiro no jardim branco, fazia as refeições em seu quarto e durante a tarde, ficava deitada completamente sozinha. Ela havia criado uma atmosfera densa demais para ser atravessada, nenhum dos servos conseguiam alcançá-la e com isto, a única luz que iluminava e trazia calor e felicidade para aquela montanha gélida, havia se apagado.
Os irmãos estavam se preparando para retirar a neve da entrada do templo, pegaram as suas pás de coletar e seguiram juntos, desanimados. Ouviram os passos da princesa e suas orelhas levantaram, se encarando automaticamente.
- É nossa chance! – falaram os gêmeos em uníssono. – Podemos? – levantaram o olhar para Hayato, aguardando a permissão.
- Como quiserem. – assentiu reforçando seu decreto, abrindo caminho para os dois passarem.
- Princesa! Princesa! – ambos correram até a youkai, que se virou sem encará-los. – Quer nos acompanhar? – perguntou Ren, abrindo um sorriso.
- Vamos tirar neve! – Ryo laçou o pescoço do irmão, dando um leve riso.
- Ou melhor, não gostaria de ouvir uma história? Pode escolher qualquer uma, teremos o maior prazer de falar cada detalhe, né? – Ren insistiu na ideia, incentivando o outro gêmeo a concordar com a mesma euforia que a dele.
- Sim, sim! Qualquer coisa! Podemos até cantar juntos!
- Então...
A voz soou fraca, um tanto desamparada, e as mãos se juntaram frente ao corpo em um gesto de autoproteção. Em momento algum ela ergueu o olhar, continuava a encarar o chão com um semblante de abandono. Demorou tempo o suficiente para que o irmão mais velho estivesse junto ao trio, parando ao lado dos outros para ouvi-la.
- ... poderiam me responder uma pergunta?
- Ah, é... Podemos... – a afirmação de ambos soou mais como uma nova questão.
- Minha mãe foi embora por minha causa?
Eles prenderam a respiração, surpresos.
- É por que todos se machucam quando ficam perto de mim?
Hayato deu dois passos a frente e a segurou pelo queixo, apesar de ter sido repentino o movimento, não a machucou. Baixou sobre ela o olhar, com uma expressão tão tensa quanto à mão que a segurava e o máximo que a jovem conseguiu fazer, foi desviar os olhos para evitar tamanha intensidade.
- Olhe para mim! – ordenou, com o tom de voz baixo. – Eu estou aqui, não estou?
- Hayato... Me solte... – ela murmurava.
- Não importa quantas vezes for preciso lutar, eu nunca vou te abandonar!
- Líder! – os dois gritaram, cada um puxando o youkai por um braço. – Solte a princesa.
Ele olhou para os menores por sobre o ombro e então quando voltou a Shirayuki, ela tremia-se por inteiro. Seus olhos estavam abertos em espanto e os lábios separados pela respiração entrecortada. O servo se afastou no mesmo instante, fitando as mãos com perplexidade.
- Me perdoe.
Aquela foi a primeira vez que ela via Hayato agindo desta maneira e quando conseguiu fazer com que as pernas obedecessem a seus desejos, saiu de imediato daquele lugar. Chegou ao quarto ainda sentindo a pressão que o servo havia colocado sobre si e sua mente permanecia em branco. Nunca imaginou que ele pudesse agir desta forma e ao imaginar que havia se enfurecido por sua causa, só conseguiu lamentar ainda mais.
Os gêmeos permaneceram no corredor se encarando, então Ryo se agachou fechando a expressão e Ren cruzou os braços, armando um beicinho. Eles não conseguiam entender por que o irmão mais velho havia feito aquilo com princesa, ainda mais agora que ela estava tão triste. Também não conseguiram segui-lo para conversar, o jeito que ele olhou para os dois antes de sair era como se tivesse cometido o pior dos pecados e que sua alma seria julgada sem nenhuma piedade. Logo Hayato, que sempre zelou pelo bem estar de Shirayuki…
- Parece que tudo ficou errado de repente. – concluiu Ren, após o longo silêncio.
- E não podemos fazer nada para mudar isto. – complementou Ryo, balançando a cabeça.
Soltaram um longo suspiro, indo cumprir a tarefa que ainda os aguardava.
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O clima e a paisagem eram completamente diferentes do que estava acostumado, e ficou ainda mais surpreso pela quantidade de youkais que rondavam aquele lugar. Seus olhos azuis analisavam cada um, cada grupo e suspirou ao perceber que o seu alvo não estava ali, novamente.
Após aproximadamente dezesseis anos, chegou aos ouvidos de Hayato que o youkai raposa havia aparecido no Makai, participando do Torneio das Trevas, organizado por demônios e humanos. Não conseguiu acreditar que isto fosse possível e ignorou a informação, porém dois anos depois houve outro torneio e este foi criado para decidir quem seria o rei definitivo do mundo dos demônios, pelo menos pelos próximos quatro anos. Desta vez o deus-cão conseguiu confirmar, assistindo uma das lutas de Kurama.
E neste momento estava caminhando perto das instalações da nova competição, o tempo de reinado do primeiro vencedor havia acabado e as batalhas estavam para começar novamente. Andou por um dia inteiro tentando encontrar o raposa, algo dentro dele dizia que ele iria participar outra vez e tinha que ter certeza, já que seu plano não poderia falhar de modo algum.
Quando retornasse para o templo neste dia, contaria para Shirayuki que Kurama estava vivo e depois disso, caberia a ela decidir o que iria fazer.
… O servo devolveria a princesa uma pequena chama de esperança.
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Notas do capítulo:
- Saquê / Saqué (em japonês: sake, também osake e nihonshu) é uma bebida fermentada tradicional do Japão, fabricada pela fermentação do arroz; tomada normalmente gelado e em grandes comemorações, como Ano Novo e cerimônias xintoístas de casamento.
- O Torneio das Trevas acontece aproximadamente 16 anos depois que o Kurama desapareceu do Makai. Foi criado pela aliança entre humanos e youkais para fins de entretenimento, assim os grupos apostam dinheiro nos times que participavam e o vencedor poderia pedir qualquer prêmio aos organizadores.
- O Torneio do Rei do Makai foi criado para determinar o rei supremo do mundo dos demônios após a morte de Raizen, que era um dos quatro antigos reis que mantinha o equilíbrio no Makai (os três são citados no capítulo 1). O período de reinado dura 4 anos, sendo necessário ter outro para determinar o próximo governante. Na história está acontecendo o segundo torneio, neste caso já passou aproximadamente 22 anos após o desaparecimento do Kurama (só dois anos de diferença entre o torneio das trevas e o primeiro torneio do rei do makai).
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Oi!
Neste último capitulo tivemos um salto no tempo, tanto que tentei explicar melhor nas notas sobre os torneios e o tempo que houve entre eles (quaisquer duvidas só perguntar!). Agora sabemos que o Kurama está vivinho da silva, podemos ficar tranquilos e imaginar que realmente ainda há esperanças...? Hehe, quem sabe?
Este era também é o último capitulo que tenho pronto, então agora a coisa pode demorar mais para ser atualizada... Paciência. Quero muito adiantar a coisa, mas não prometo, nunca cumpro os meus planejamentos para as fics mesmo... Estou escrevendo um capitulo um tanto longo e quando terminá-lo, voltarei para a nossa criança aqui, Shirayuki te amo s2
Sem mais, obrigada por quem acompanha e quem também perde uns minutinhos comentando s2 fico realmente muito feliz com o feedback!
Beijos e até mais!
