Lily

Depois que "terminamos", James e eu nunca mais trocamos uma só palavra.

Dorea estranhou e chegou a questionar o que tinha acontecido e se James havia feito alguma coisa. Eu neguei e expliquei que não tínhamos o que conversar, que éramos muito diferentes para continuarmos amigos. Ela pareceu não acreditar, mas aceitou o que eu disse e não me questionou mais.

James andava todo empolgado com a notícia de que havia passado em Oxford e em Cambridge. Ele e o pai já faziam todos os planos para sua viagem no fim do semestre. Charlus alugou um belo apartamento para o filho perto da Universidade de Cambridge, a escolhida por James.

Os meus pesadelos se tornaram mais frequentes e agora eu sonhava com James também. Por mais que eu quisesse negar, às vezes, eu me pegava observando ele na escola.

Andava tão feliz e animado. Pelo jeito, o fim do nosso caso não o afetou nem um pouco. Vivia rodeado de garotas e eu morria de ciúmes quando via ele se agarrando com alguma vadia na escola. Ficava imaginando quem podia ser a tal garota pela qual ele me trocou.

Mas o que eu achava? Que ele ia se apaixonar por mim e ficaríamos juntos?

James tinha razão, eu era ridícula.

Enquanto eu ia para o terceiro ano, James preparava suas coisas para se mudar para a Inglaterra. Aproveitei um dia que ele havia saído com seus amigos idiotas e invadi seu quarto. Muitos dos seus pertences pessoais já estavam embalados. Sentei na cama e acariciei a colcha.

Fechei os olhos e respirei fundo. Segurando para não chorar. Tudo o que mais queria era dizer que estava feliz por finalmente me livrar dele, mas não, eu me sentia incompleta. Como se parte de mim estivesse indo embora junto com ele. Só esperava que com essa distância pudesse finalmente esquecer ele para sempre, mesmo que no momento isso parecesse impossível.

Deitei na cama, e dois livros que estavam no criado mudo chamaram minha atenção. Estiquei o braço e peguei o que estava por cima, era Hamlet.

Ele realmente tinha lido.

Pensei conforme folheava o livro. Nele estavam marcadas várias partes, inclusive a que havia declamado há alguns meses no meu quarto.

Senti meu coração apertar com a lembrança. Larguei o livro sobre o criado e peguei o outro. Para minha surpresa era um livro com poemas de grandes escritores, Shakespeare, Goethe, E.E. Cummings, Da Vinci, T. S. Elliot, Russel e claro, Lord Byron. Um autor perfeito para alguém narcisista e egoísta como James se identificar.

Abri o livro na página que estava marcada e me deparei justamente com um poema de Byron, era o Canto 4 do livro, "A peregrinação de Childe Harold: um romântico". Meus olhos seguiram direto para a parte marcada com caneta amarela.

Os espinhos que me feriram foram produzidos pelo arbusto que

plantei, - eles me despedaçaram, - e eu sangro:

Eu deveria saber que fruto nasceria a partir de tal semente.

Franzi meu cenho confusa.

Por que James teria marcado esta parte? Quem o havia machucado?

Logo, um pensamento incoerente veio a minha mente.

Poderia ter sido eu? Eu seria o arbusto que ele plantou?

Balancei a cabeça pela idiotice que havia cogitado. Já estava imaginando coisas. Afinal, quem me machucou foi ele, eu nem cheguei a me vingar. Devia ser outra coisa. Talvez a tal garota por quem ele me trocou o tivesse magoado.

Fechei o livro com força, tentando afastar essas lembranças desagradáveis. Em um ato impensado saí do quarto com o livro nas minhas mãos. Sabia que era loucura guardar algo de James quando tudo o que eu deveria fazer era esquecê-lo, mas no momento toda a minha razão foi para o espaço e tudo o que eu queria era ter pelo menos um parte dele comigo.

Naquele mesmo dia, James deu por falta do livro e armou o maior escândalo. Nunca poderia imaginar que fosse tão importante para ele. Fiquei com medo que descobrisse que eu o tinha pego, então o escondi em um local seguro no meu quarto. Quando Dorea estava mobilizando os empregados para procurar pela casa, James disse que não precisava mais, que devia ter perdido em algum lugar e que talvez fosse melhor assim.

Suspirei aliviada sabendo que meu pequeno furto não seria descoberto.


James

Mantinha minha mente ocupada com a viagem e com os planos para quando chegasse na Inglaterra. Não queria pensar em mais nada. Aproveitei um dia que estava mais sossegado e resolvi ir em um bar com meus amigos. Ultimamente ficar em casa estava se tornando insuportável e não via a hora de pegar meu avião e ir embora.

Peguei minha bebida e sentei um pouco afastado de todo mundo. Ia sentir falta dos meus amigos, mas no momento queria ficar no meu canto. Lucius se aproximou e sentou ao meu lado.

- Tudo bem, cara?

- Está sim, por quê?

- Sei lá, você anda meio estranho nos últimos meses - revirei os olhos.

- Você está vendo coisas, Lucius - ele sorriu e colocou a mão no meu ombro.

- Eu te conheço, James. Desde que armamos para a vadia da Lily, você parece diferente - sacudi a cabeça, negando. Não queria conversar sobre isso.

- Mais uma prova que está enxergando o que não existe. Eu estou ótimo, nunca estive melhor - afirmei querendo fugir desse assunto desagradável.

- Falando nisso, você não me disse o que fez com a gravação - Lucius comentou do nada. Insistindo em falar sobre o que eu não queria.

- Queimei - respondi simplesmente. Não havia razão para guardar aquilo. Ele assentiu parecendo satisfeito e passou a mão no meu cabelo. Não me senti a vontade com seu toque e me afastei. Lucius ficou sem jeito e abaixou a mão.

- Que tal pegarmos umas gatinhas e irmos para algum lugar? Estou louco para foder uma loira de jeito - ri. Lucius e suas loiras.

- Vai você, não estou muito a fim hoje - ele arregalou os olhos.

- Definitivamente, você não está bem.

- Só estou cansado com essa correria da viagem - dei uma desculpa qualquer.

- Bom, você que sabe. Estou indo - deu um tapa no meu ombro e voltou para onde a turma estava.

Fiquei ali sozinho com meus pensamentos. Sobre uma coisa Lucius estava certo. Há tempos estava me sentindo fora de mim. Tentava disfarçar parecendo feliz, mas em alguns momentos era difícil demais colocar a máscara de que estava tudo bem. Simplesmente porque não estava. Eu só não sabia identificar a razão disso. Passei a mão pelo meu cabelo. Era como se tivesse perdido meu centro e estivesse sem rumo. Não estava mais me reconhecendo.

Olhei para meus amigos e não sentia a mínima vontade de interagir com eles. Decidi ir embora. Peguei a chave do meu carro e saí dali, me despedindo rapidamente do pessoal.

Precisava ficar sozinho.

Rodei por horas a cidade. Sem saber onde ir. Queria fugir da pressão crescente que sentia no peito. Decidi ir para o cais.

Estacionei um pouco longe da praia e sentei no capô do carro. O fim de tarde estava muito agradável e fiquei observando o mar. Antes que pudesse evitar, lembrei dela e no quanto gostaria daquele lugar.

Puta merda! Não podia acreditar que estava pensando nela de novo!

- Argh! - gritei com raiva abafando o som com minhas mãos. Esfreguei meu rosto e depois passei meus dedos pelo cabelo, querendo arrancá-los. O que você fez comigo, Lily? Que porra você fez comigo?

- Está tudo bem, rapaz? - virei o rosto e vi um senhor próximo a mim.

- Está sim - respondi seco e voltei a encarar o mar, ignorando o homem.

- É amor, não é? - franzi meu cenho o olhando sem entender.

- Como é?

- Está apaixonado e não é correspondido. Eu já passei por isso - explicou me deixando ainda mais chocado com sua suposição ridícula.

Amor?

Até parece.

Tudo o que sentia por Lily era desejo, e agora um ódio mortal. Desci do capô do carro e encarei o tal homem.

- Pois saiba que o senhor está completamente enganado. O que eu sinto não é amor, é raiva, ódio - ele sorriu e sacudiu a cabeça.

- Se é isso que você quer acreditar, - balançou os ombros. - boa sorte - disse e foi embora.

Cara folgado.

Não tinha nada que se meter na minha vida. Se nem meus pais tinham esse direito, que dirá um desconhecido qualquer. Minha vontade era de socar ele até que estivesse no chão e extravasar toda a minha raiva. Entretanto, não queria arrumar problema. Algo assim, com certeza afetaria minha viagem. E eu não poderia nem pensar em ficar mais tempo nesse lugar. Nesse país.

Entrei no meu carro e fui diretamente para casa. Cheguei e subi para o meu quarto. Não queria ver e nem falar com alguém. Deitei na cama e fiquei encarando o teto. Eu devia estar feliz. Extremamente feliz. Mas não. Eu me sentia despedaçado, assim como no poema de Byron.

Porra!

Não podia acreditar que estava lembrando da merda de um poema. Tudo culpa daquela vadia manipuladora.

"Está apaixonado e não é correspondido."

As palavras do senhor no cais voltaram para me assombrar. Não. Isso não podia ser amor. Nem mesmo paixão. Lily deve ter jogado algum feitiço em mim. Era a única explicação. Esfreguei meu rosto com raiva. Só de lembrar que eu disse coisas à ela que nunca falei para mais ninguém, ficava ainda mais possesso comigo mesmo. Fui muito idiota a subestimando e acreditando em seu amor.

Tudo mentira!

Ela nunca me amou, apenas queria vingança. Havia sido ingênuo demais pensando que ela não seria capaz disso. Que eu era mais esperto. Eu era um estúpido, isso sim.

Sentei na cama inquieto. Essa situação estava me deixando louco. Olhei de relance pelo quarto e algo chamou minha atenção. Ou melhor, a falta de alguma coisa. Franzi meu cenho.

Onde estava meu livro de poemas?

Abri as gavetas e nada. Só o de Hamlet estava ali.

Será que tinha perdido?

Tentava me lembrar de algum lugar que pudesse ter deixado ele, mas nada vinha a minha mente. Sem pensar duas vezes, saí do meu quarto e fui falar com minha mãe. Ela pediu calma e disse que ia pedir que procurassem pela casa. Não podia perder ele. Não podia. Aquele livro tinha muitas lembranças.

Coisas que você deveria esquecer.

Minha consciência acusou. Suspirei derrotado. Talvez fosse melhor que eu não o encontrasse. É, essa definitivamente era a melhor decisão. Esquecer tudo.


Lily

James decidiu ir para a Inglaterra duas semanas antes do previsto. Seus pais ficaram surpresos com sua decisão, assim como eu. Ele explicou que queria ir arrumando suas coisas com calma. Tinha certeza que não era nada disso. Podia apostar que ele não via a hora de aproveitar sua vida boêmia, sem os pais pegarem no seu pé. Fútil e vazio. Assim era James Potter.

Não demorou e chegou o dia da sua viagem. Estava parada na escada e de longe observava ele se despedindo de Dorea e Charlus na sala. James havia dito que preferia que se despedissem em casa por ser mais privado que no aeroporto.

- Se cuida, filho. E por favor, não vá fazer nenhuma besteira - Dorea o advertiu, James sorriu e a beijou.

- Pode deixar, mãe. Vou me cuidar e me comportar - ela o abraçou apertado, depois se afastou e James encarou o pai.

- Tenho muito orgulho de você, garoto. Vá e curta seu tempo na faculdade, só não exagera, viu? - Charlus aconselhou o abraçando rapidamente.

- Obrigado por me dar essa chance, pai. Não vou te decepcionar.

- Eu sei que não - James pegou sua mochila e se dirigiu até a porta. Grande parte de suas coisas seriam despachadas assim que ele chegasse na Inglaterra.

Antes de sair, se virou e me viu parada no meio da escada.

- Adeus, Lily - despediu-se secamente.

Apesar da sua rispidez, minha vontade era correr e pular nos seus braços, mas meu bom senso me prendeu ali.

- Filha, vem dar um abraço no James - Dorea falou me chamando, antes que dissesse algo ele se pronunciou.

- Estou atrasado, mãe - respondeu saindo em seguida.

Subi as escadas correndo e fui direto para o meu quarto. Segui até a janela à tempo de vê-lo mais uma vez. Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas podia jurar que tinha olhado para mim antes de entrar no carro e ir embora. Coloquei minha mão na vidraça.

- Adeus, James - murmurei com a voz embargada.

Não aguentei mais o aperto na minha garganta e comecei a chorar. Deitei na minha cama e despejei as lágrimas que estavam guardadas desde o dia que terminamos. Senti meu colchão afundar e uma mão acariciar suavemente minha cabeça.

- Eu também vou sentir falta dele, meu bem - ouvi a voz delicada de Dorea. Girei o corpo e a abracei sem parar de chorar. Percebi que ela também chorava, ambas estávamos consolando a outra pela ausência que James faria.


Olá gente! Eu sei, mais um capítulo triste, mas será que o senhor do cais está certo, é amor? Olha, as vezes a verdade vem de lugares estranhos. Será que você está certa Nanda Soares? Uma coisa te garanto, algo aconteceu nesse meio tempo entre o banho da Lily que vai mudar todo o rumo da história. E agora que eles estão separados por um oceano, Lily vai deixar de sofrer? São variais perguntas, não é Deby? Vamos acompanhar o desenrolar da história e torcer por um final feliz. Os próximos dois capítulos vão ser uma transição para uma nova fase. E gente, eles estão chegando, logo tem a estréia dos Marotos ;) Obrigada pelas reviews meninas. Beijos :*