Cap 8 – Perdendo a noção do tempo.
Sexta feira. Já era o último dia de aula antes das férias de Julho.
Eu estava feliz por acabar por quase um mês a tortura do cursinho. Era estranho estar presa naquela sala com Thiers e seus amigos vampiros para ficar longe de Mikey. Não por não gostar de Mikey, apesar de eu nunca ter o considerado um amigo, mas sim para protegê-lo de mim mesma.
Eu não apresentei nenhum comportamento fora do normal desde a minha recente descoberta. Eu esperava que a qualquer momento eu tivesse uma vontade de sangue tão intensa que eu seria capaz de pular no pescoço (literalmente) da primeira pessoa que eu visse na minha frente, e estava só me assegurando que não fosse ninguém importante.
Mas nada aconteceu, eu continuava tendo plena consciência do certo e errado, eu continuava a comer como qualquer pessoa normal, ou pelo menos o normal para mim, nunca tive hábitos alimentares muito normais. Eu até cheguei a me iludir, pensando que eu na verdade nunca seria uma vampira, mas Rossana me lembrou que isso só aconteceria quando eu tivesse 20 anos. E ainda teriam vários meses até lá.
Dormi a maior parte do dia, de quinta para sexta-feira, eu estava começando a trocar o dia pela noite naturalmente.
A noite, como de costume fui para o cursinho cansada, e sem conseguir prestar atenção na aula. Sem Mikey comentando algo sobre a aula ao meu lado era mais difícil me concentrar no que o professor estava dizendo. Mas as vezes, milagrosamente, eu captava uma coisa ou outra.
- Fotonastismo! – falava o professor de biologia. – é caso da famosa flor chamada dama-da-noite, já ouviram falar? – o estranho cheiro que eu e minha mãe sentíamos recentemente em casa, agora toda noite.- Ela é uma flor curiosa que só aparece de noite e tem um perfume muito forte, ela morre quando os primeiros raios de sol a tocam.
Não ouvi mais nada a partir daí. Me distrai ao ver Thiers, o garoto de piercing rosa e o garoto bonito prestando atenção na aula. Era difícil ver Thiers concentrado em qualquer coisa que não fosse o garoto bonito ao seu lado. Isso era estranho, o modo como Thiers mal conseguia tirar os olhos quando o lindo garoto entrava em cena. Eu não podia negar, ele era lindo, a presença dele seria inebriante para qualquer pessoa, se ele não fosse um vampiro e as pessoas o pudessem notar. Mas havia algo a mais aí. Thiers mantinha uma relação de verdadeira admiração, para não dizer devoção a ele, como se ele significasse mais do que alguém poderia entender, como se estivesse ligado a ele de uma forma irremediável. Era até estranho pensar em todas as vezes que encontrei Thiers sozinho a minha espera, quando eu olhava para os dois vampiros lado a lado, eu não conseguia imaginar Thiers conseguindo caminhar sem seguir os passos do outro.
A garota Hosun não havia aparecido hoje. Eu havia ficado esperançosa por um momento que eu pudesse ter uma amiga, uma amiga de verdade, uma vez na vida. Mas eu não estava apta a ter amigos, como a experiência com o Mikey ainda é uma prova. Não posso ter amigos normais, humanos. Nem, muito menos, amigos vampiros. Eu odeio vampiros, ou pelo menos um. Thiers.
Eu já havia aderido o visual vampírico, praticamente. Eu estava com uma blusa e uma calça preta, e o meu velho casaco longo, preto também, que eu não me separava por nada. Eu via necessidade de me vestir de preto. Como se eu pudesse me camuflar entre as pessoas, apesar de não ser preciso. Thiers e os outros dois vampiros sempre se vestiam com roupas escuras. A não ser pelo piercing rosa e colar combinando do mais baixo.
Quando a penúltima aula chegou ao fim me lembrei que ainda não tinha pegado a maldita apostila nova. Agora não daria mais tempo. Teria que pegá-las quando as aulas voltassem. Droga. Odeio ter que pegar apostila.
O sinal do fim da penúltima aula tocava, e eu arrumava meu material o mais rápido o possível pra sair, preocupada em sair antes de Thiers, a ultima aula era de inglês, portanto desnecessária, pelo menos pra mim. Quando me levantei ansiosa, procurando por ele, vi apenas o garoto bonito ainda sentado. Thiers e o outro deveriam estar apressados. Rumei pra fora da sala um pouco desapontada, queria ver aquele detestável vampiro uma ultima vez antes de seguir para as férias. Teria de me contentar em apenas ver o outro vampiro.
Sai pela porta, a segurando a tempo dela não me atingir com força, quando alguém que saia distraído a largou, sem cavalheirismo. Deveria estar acostumada com isso. Foi quando eu dei de cara com Thiers e o vampiro do piercing parados em frente a porta, esperando.
Meus olhos se arregalaram e meu coração foi parar na garganta. Eu e Thiers estávamos cara a cara, depois de tanto tempo. Fiquei pregada no lugar enquanto ele me examinava rapidamente de cima a baixo, tentando controlar um riso que lutava para aparecer, escondendo o sorriso assustador, mas ainda assim sorrindo, com a boca fechada. Ao seu lado o vampiro baixo de piercing e colar rosa apenas me olhava confuso, como se perguntasse porque diabos eu havia congelado ali na porta.
Foi quando eu consegui me desgrudar do chão, e meio cambaleando escolhi que ia descer pela escada mais próxima do vampiro de piercing. Ainda abobada com a presença e inebriada com o forte cheiro que era característico de Thiers, eu andei um pouco desequilibrada e quase atingi o vampiro menor, que sabiamente se deslocou antes que eu o arrastasse enroscado na minha bolsa escada abaixo.
Pensei ter ouvido uma risada abafada enquanto ainda descia e Thiers com o outro ainda esperavam o vampiro bonito sair da sala.
Finalmente as férias tinham chegado. Agora, sem ter que me preocupar em ir ao cursinho, o dia passava quase imperceptivelmente, ou melhor dizendo, a noite. Sem ter hora pra nada, eu começava a perder a noção do tempo, de que dia da semana era, ou até quantos dias faltavam para o mês acabar, alias nem me lembrava em que mês estava.
Rossana e eu conversamos bastante, como sempre foi antes de ela me contar que eu era uma vampira, quando eu fiquei ignorando ela por algum tempo. Mas agora, com esse fato já aceito, nós duas voltamos ao normal, era quase como se eu fosse humana novamente. Eu e Rossana sempre fomos muito ligadas, talvez fosse por isso que eu nunca tive necessidade de ter amigos, minha mãe preenchia esse papel bem o bastante. Mas ela não se sentia bem com isso, e sempre teve um forte desejo que eu tivesse amigas.
- Tem falado com a Michele agora nas férias? – Rossana me perguntou certa noite.
- Quem?? – perguntei sem em lembrar que havia tarnsformado Michel em uma menina de quem eu era muito amiga, para minha mãe.
- Michele! Sua amiga do cursinho! – ela disse incrédula que eu não me lembrasse.
- Ahh... – exclamei, me lembrando da mentira. – Não falo mais com ela. – disse sinceramente, pois não falava mais com Michael.
- Aaaaahhh. Mas porque?? – minha mãe perguntou decepcionada.
- Er... nós brigamos. – eu menti. Era melhor que a mentira chegasse ao fim, já que ela nunca veria a tal Michele.
- Aaah.. que pena... eu gostava dela. – ela disse.
- Mãe... Você nem conhecia ela. – eu lembrei a ela.
- Mas eu gostava dela. Só por ser sua amiga. – disse Rossana. – Todo mundo precisa ter amigos.
Eu não concordava com isso, mas era inútil discutir. Nós discutimos isso milhares de vezes. Era melhor estar bem e sentir-se completa consigo mesma do que depender dos outros. Mas Rossana não acreditava nisso. Ela sempre foi muito comunicativa, ao contrario de mim. Foi então que me lembrei de algo que poderia alegra-la.
- conheci uma menina outro dia. – eu comecei a contar.
- Conheceu? Que bom!!! Como ela se chama?? – Rossana perguntou muito animada.
- Hosun. – eu disse. – Ela é oriental. – disse em explicação do estranho nome.
- Ahh sim. – ela exclamou entendendo.
- Mas não entendi muito bem o que ela queria. – eu confessei
- Como assim?? – rossana perguntou.
- Sei lá...Ela ficou me perguntando umas coisas esquisitas.
- Que coisas?? – minha mãe perguntou desconfiada.
- Er...ela perguntou o que eu ia prestar, porque eu ia prestar aquilo, detalhes do curso...e falou outras coisas do tipo também. Parecia que ela estava tentando me convencer a prestar o curso dela. – eu contei me lembrando da estranha conversa.
- Ahh Samantha. Ela só queria fazer amizade!!! – Rossana disse indignada que minhas habilidades sociais fossem tão ridículas!
- Eu cheguei a conclusão que pudesse ser isso. – eu me defendi.
Rossana riu. Logo eu me juntei a ela.
(Mariella - Kate Nash)
"Mariella.
Mariella.
Minha linda, pequena menina.
Descole seus lábios e vista um pouco de rosa e pérolas.
Você pode ter seus amigos por perto e eles podem ficar para um chá.
Tente pelo menos se entrosar, faça isso por mim. (...)"
