Lily apoiou os braços na janela e inspirou fundo. O sol, o vento e James ao seu lado. O que mais podia querer? A natureza era bela. Nem mesmo as nuvens escuras no horizonte a incomodavam.
A vida era maravilhosa.
Há três horas saíram de Liberty. Tiraram vários retratos.
Assim que James saiu do chuveiro, ambos esqueceram-se das fotos. Suas cabeças e mãos ficaram ocupadas com outras coisas.
Ele já lhe dissera que ela era ingênua, mas não a ponto de menosprezar o que tinham juntos. Algo especial. Tinha certeza de que nunca encontraria outro amante como ele. Que nunca amaria outro homem do mesmo modo. Embora fosse lógico, o coração não tinha tanta certeza.
Ela sorriu. Não se arrependia de nada. Se o relacionamento deles acabasse sendo apenas físico, ela ficaria feliz. Bem, se não feliz, pelo menos satisfeita.
Suspirou e depois sacudiu a cabeça.
Enlouqueceria se tentasse entender James. Já estava tendo bastante problemas com os próprios sentimentos.
— E o que vai ser, Lily?
— O quê? — indagou, surpresa.
— Precisaremos parar, se começar a chover. — Ele lhe entregou o mapa. — Onde vai ser, desta vez?
— Ah.
Recostando-se no banco, estudava as cidades pelo caminho.
Gray Creek... Arrow Bend... Quartz.
Não. Não. Não.
Ela achou o que queria oitenta quilômetros a oeste.
Sorrindo, mostrou o mapa para James.
Uma hora mais tarde, James parou no estacionamento do Hotel Forty Winks, em Lucky, Arizona. As nuvens carregadas escureciam a tarde, antes mesmo do sol se pôr.
Quando escutou o trovão a distância, Lily estremeceu, pegou sua bolsa e seguiu James até a recepção do hotel. Lá dentro uma pequena televisão colorida exibia um programa de auditório.
— "...E aí veio o mau tempo" era a primeira frase de que história de Hemmingwayl
— Moveable Feast — James murmurou.
Lily olhou para James, distraído. Quando o apresentador confirmou a resposta, Lily ergueu uma das sobrancelhas.
Enquanto esperavam, as perguntas continuavam na televisão:
— Este é o oitavo planeta a partir da Terra...
— Netuno — James disse, tirando a carteira do bolso de trás do jeans. Lily ergueu ambas as sobrancelhas.
Boquiaberta, Lily olhava para James. A recepcionista apareceu meio sonolenta.
— Oh, Deus. — Com a mão no peito, a recepcionista colocou os óculos, chamava-se Dorothy. — Devo ter adormecido.
— Gostaríamos de um quarto — anunciou James, jogando o cartão de crédito no balcão. — Cama de casal, não fumante.
"Um quarto? Lily suspirou.
— Bem-vindos a Lucky — a mulher falou, com um sorriso. — Para onde você e sua esposa estão indo?
Sua esposa. Lily olhou de soslaio, esperando que ele a corrigisse, não aconteceu.
— Wolf River.
— Que coincidência. Eu tenho um sobrinho em Wolf River. — Lily olhou para a mulher, ansiosa.
— Você... você tem um sobrinho em Wolf River?
— Tenho. Frank Longbottom. O nome da esposa dele é Alice.
— Você já esteve lá? — Lily perguntou, gentilmente.—Em Wolf River?
— Várias vezes.
— Lily — disse James, tocando no seu ombro. — Talvez seja cedo. — Ela olhou para ele e sacudiu a cabeça, depois voltou o olhar para a recepcionista.
— Você já ouviu falar na família Chesterton?
— Os Chesterton? Mas é claro. Todo mundo em Wolf River já ouviu falar dos Chesterton. Eles eram donos de metade da cidade.
— Eram?
— Havia três irmãos quando eu era adolescente. William era o mais velho. Ele não era boa coisa. Tinha também Damon e Thomas. Damon era o mais quieto, e Thomas o esquentado. Eu tinha uma queda pelo Thomas quando era mais nova.
Seus tios. William e Thomas.
— Você... você conheceu Damon?
— Encontrei com ele algumas vezes, durante um verão — disse Dorothy, suspirando. — Angela me enviou um artigo de jornal sobre o acidente de carro. Matou a família toda, três crianças e a esposa, embora não me lembre do nome dela.
— Nora — sussurrou Lily. — Seu nome era Nora.
— É verdade. Conhece os Chesterton?
— Não, só ouvi falar neles.
— Até onde sei, Lucas, o filho de Thomas, foi o único que sobrou. Ouvi histórias de um filho de William, mas pelo que sei, ele fugiu quando era adolescente.
O telefone tocou, e Dorothy virou-se para atender, James agarrou o braço de Lily.
— É melhor irmos.
Ao saírem do saguão, Lily apoiou-se em James.
—Vi os documentos. Escutei a confissão dos meus pais. Mas, até este instante, nada parecia ser real. Aquela mulher lá dentro mudou tudo.
— É... É tudo verdade.
— Ela conheceu meu pai. Conheceu meus tios.
A tempestade se aproximava. Lily tocou a face de James para certificar-se de que ele também era real.
— Tem uma pizzaria do outro lado da rua, que tal?
— Contanto que seja uma gigante de pepperoni.
— Pepperoni também era proibido? Que crueldade.
— Eu que o diga.
Ao entrarem no Pearl's Pizza e Salão de Bilhar, havia cheiro de pizza, o restaurante estava cheio, havia filas para pedir, para sentar e para bebidas.
— Faça os pedidos — disse Lily. — Pegarei uma mesa. — Minutos mais tarde, James juntou-se a Lily numa mesa ao lado dos jogos infantis.
— Baderneiros — ele murmurou, sentando-se.
— São apenas crianças. Não gosta de crianças?
— Claro. Eu já fui criança. Também já fui baderneiro.
— Não acredito. Baderneiros não lêem Hemingway ou sabem a raiz quadrada de vinte e cinco mil.
— Se o oficial de condicional deles acreditar em instrução, eles até podem.
— Você esteve preso?
A surpresa nos seus olhos o lembrou de como ela sabia tão pouco da vida fora do seu mundinho protegido. E como sabia pouco a respeito dele.
Nos guetos de Nova Jersey, a única coisa que importava era a sobrevivência. Quando garoto, ele viu, e até fez, coisas que deixariam Lily toda arrepiada.
Diabos, ele ficava todo arrepiado, só de pensar.
— Pelo juizado de menores, com quatorze anos.
— Era só uma criança.
— Onde cresci, quatorze, definitivamente, não é só uma criança. E o homem de quem Sirius e eu roubamos o carro não ligou muito para a nossa idade.
— Quem é Sirius?
— Meu melhor amigo. A ovelha negra da família Black, que fugiu de casa e veio morar comigo e meu pai. Ele é o irmão que nunca tive.
— Vocês cometeram um erro, você não tinha sua mãe e seu pai era um alcoólatra. Decerto o juiz levou isso em consideração.
— Claro que levou. Mandou o Sirius de volta para casa e eu para um centro juvenil em Newark.
— Porque Sirius não foi para o centro juvenil também?
— O pai de Sirius é um diplomata influente e o juiz não queria problemas.
— Que horror!
— Mas foi o melhor, deu a mim um objetivo.
— Que objetivo?
— Não acabar como os outros meninos do centro.
— E quanto a Sirius?
— Ele terminou a escola e conseguiu uma bolsa para a Universidade do Texas. Mostrou ao pai dele de que não precisa do sobrenome Black para ser alguém. Nenhum de nós nunca olhou para trás.
Ela queria de volta seu passado, e ele queria esquecer o seu.
— E Sirius? Onde ele está agora?
— É dono de uma construtora a cerca de trinta quilômetros de Fort Worth.
Lily notou o orgulho na voz de James.
— E você não foi para a universidade?
— Diplomas são para pessoas com horários, que gostam de adular o chefe. Minha vida é simples, não tenho cartão de ponto, jardins, nem leite para levar a caminho de casa.
Lily percebeu a conversa ir de educação para casamento, mas James estava tentando convencê-la, ou a si próprio, de que não pretendia se comprometer.
Ela apreciava sua franqueza, tivera mentiras demais na vida, precisava da verdade agora.
Sabia que verdades a esperavam em Wolf River e que estava na hora de ir para lá.
Eles comeram pizza, jogaram videogames e fliperama e, naquela noite, sob os sons da chuva e de trovoadas, fizeram amor com a mesma intensidade que a tempestade, ambos percebendo que seu tempo juntos estava ficando menor a cada hora. A cada minuto. A cada segundo...
Olá gente! Peço perdão pela demora, mas agora é a reta final do semestre e vou me dedicar exclusivamente a faculdade, acho que só conseguirei postar novamente em dezembro nas férias, mas prometo que seu tiver um tempinho posto antes. Muito obrigada de coração a todas que comentaram. Beijos :*
