Palavras Amargas

Depois de um descanso nebuloso, nossos aventureiros acordaram com um céu cinza de chuva. A lua ainda brilhava por trás das nuvens, fornecendo uma luminosidade quase sobrenatural ao campo de batalha de Prontera. Todos estavam tensos e ansiosos, não havia linha inimiga no horizonte e batedores não haviam avistado nenhuma movimentação.

No grupo estavam todos calados, especialmente o trio formado por Douglas, Ariel e Arthemis. Estavam apenas olhando para o horizonte ou para a grama azulada. Vitor e Arthur estavam mais atrás terminado de equipar-se com suas armaduras e armas.

Arthur: Acho que fez mal, irmão, em fazer os três entrarem em conflito. Ouvi rumores de alguns bardos e eles me contaram que os três brigaram sem parar e quase que a Ariel e a Arthemis entram em confronto.

Vitor: É eu vi o que aconteceu, elas brigaram tanto que irritaram o Douglas. Ele dispensou as duas. Não achei que seria assim.

Arthur: O Douglas nunca foi muito bom com isso, você o deixou confuso.

Vitor: Eu só queria ajudar...Mas parece que ferrei as coisas, vou lá pedir desculpas para o Douglas.

Arthur: Mano...acho melhor n...

Mas o Mercenário já tinha ido em direção ao Templário antes que os avisos de seu irmão chegassem aos seus ouvidos. Vitor tocou o ombro de Douglas e sem graça esboçou um sorriso.

Vitor: É amigo, ouvi dizer que você se irritou... Fica assim não, essas coisas do coração são complicadas mesmo e você...

Vitor se esquivou a 3 cm de levar um corte transversal no peito da espada do Templário. Seu susto só não fora maior que as palavras que foram proferidas de um Douglas furioso, expressão que ele, em 6 anos de amizade, nunca havia visto.

Douglas: O QUE VOCÊ QUER, MALDITO!

Vitor: Douglas, calma eu vim aqui pra pedir desculpas...

Douglas: DESCULPAS! AH VÁ PRO INFERNO SEU EGOISTA MESQINHO!

Vitor: Douglas por favor eu não estou te ofendendo, eu só quis te ajudar...

Douglas: ESSE É SEU PROBLEMA VITOR, É SEMPRE O QUE VOCÊ QUER. PARA UM SEGUNDO PRA PENSAR NOS OUTROS. EU NUNCA PEDI SUA AJUDA, NUNCA A QUIS. VOCÊ É UM DESGRAÇADO QUE QUER IMPOR SUAS IDÉIAS A TUDO E TODOS, SE ACHA O BAMBAM DO RAGNAROK, O "CARA"! RINDO DA CARA DE TODOS COMO SE FOSSE SUPERIOR! ACORDA PRA VIDA MOLEQUE! VOCÊ É UM ESTORVO PRA TODOS AQUI, NÃO QUE VER NINGUEM FELIZ SE VOCÊ NÃO ESTIVER BEM. O MUNDO NÃO GIRA NO SEU UMBIGO SEU BABACA!

Vitor: Douglas... Me desc...

Douglas: VOCÊ SEMPRE TENTA INTERFERIR NAS MINHAS ESCOLHAS COMO SE FOSSE DA MINHA FAMILIA. FAZ UM FAVOR PRA NÓS DOIS! DEIXA-ME EM PAZ!

Vitor: Como quiser, caro Templário...

Vitor deu meia volta e caminhou na direção das barracas, cabisbaixo, Arthur viu de relance lágrimas rolarem pela face do seu irmão. Arthemis olhou para Douglas incrédula, Vitor era seu amigo desde eram do ensino fundamental, passava festas de ano nas casas de um e do outro. Sempre foram melhores amigos e agora aquelas palavras ásperas. Mesmo assim achou que havia sido um castigo de muito bom tamanho para o Mercenário petulante. Douglas ainda tremia de fúria e olhava o mercenário se afastar a passos duros. Ele olhou e viu no semblante de Arthur desaprovação e raiva.

Mais uma hora se passou, e Vitor tinha desaparecido do campo de batalha.

Douglas: Ele fugiu...

Arthur: Meu irmão não é covarde se é o que quis insinuar!

Ariel: Será que ele está bem?

Arthemis: Quem se importa?! Ele não fará falta!

Arthur: Por que vocês não vão se lascar! Ele vai aparecer e, se o conheço bem, com algum trunfo que nos ajude. Mesmo ao mais ingrato de nós...

Douglas fingiu que não era com ele. Ele também foi o primeiro a notar que Vitor, jazia no meio do grupo, esbaforido e assustado.

Vitor: Nós...Vamos... Morrer!

Ele olhava fixo para o céu, todos seguiram seu gesto, monstros alados sem forma surgiam como pontos negros.

Vitor: A batalha de ontem foi só um teste, Loki queria medir nossas forças, ele mandou a elite desta vez, só tem monstro no mínimo vinte levels acima da gente!

Todos olhavam as criaturas chegando, os arqueiros e caçadores disparavam flechas incessantemente, e poucas caiam em solo. Valkyrias caídas, monstros do lago do abismo, de Niffhien, da caverna de Magma e de todos os cantos obscuros de Rune-Midgard. Todos caiam do céu como uma chuva amaldiçoada. Como uma ação de reflexo ele entraram em sua formação de combate e sacaram suas armas enquanto os monstros caiam do céu com tudo.

Arthur: Mano o que iremos fazer?

Vitor: Eu não faço a mínima idéia...

Vitor se odiou por dizer aquilo, todos se odiaram por ouvir. Tinham que sobreviver se quisessem voltar.

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O fogo da espada, o cheiro de ferro e sangue fresco, o barulho infernal dos gritos de dor e pânico. O campo de batalha era uma festa macabra em uma noite chuvosa e violenta. Raios partiam o céu iluminando os horrores que estavam por vim, e os horrores que já se encontravam em campo.

Os heróis combatiam fervorosamente com magias e espadas, energia espiritual era gasta como água e logo era reposta, feridas eram abertas e logo eram curadas. Machados abriam crânios em intervalos menores que as batidas do coração do Ferreiro, Golpes milimétricos e fatais eram aplicados pelo Mercenário, e o Templário colocava toda sua fé no fio de sua lâmina para purificar as almas. E quando a força era inútil, o poder divino se revelava somado as forças da natureza, a magia elaborada. Estavam cansados, estavam com fome, frio e medo, mas acima de tudo, estavam determinados não saírem da formação e sobreviver mesmo se todos ao seu redor estivessem caindo.

E isso acontecia em velocidade assustadora.

Os monstros eram inteligentes, conhecia as fraquezas de seus oponentes e eram cruéis na hora da morte. Partes desmembradas eram uma constante no campo. Tanto membros humanos como os de monstros. A força do exército, a última fronteira humana, estava se esvaindo.

Vitor:Estão nos dizimando! Temos que encontrar um jeito de sair daqui.

Arthur: Ariel! Faz um portal para o castelo.

Ariel: Eu vou precisar de tempo, bastante tempo.

Douglas: Arthemis, escudo mágico agora!

Arthemis: Entendido.

Forças arcanas que regem o mundo, Dêem-me agora o mais perfeito escudo.
Escudo Mágico

Uma aura rosa envolveu a Sacerdotisa, nenhum ataque físico iria passar por ele enquanto mantivesse ativo. Ela pegou uma pedra preciosa azul usada para canalizar efeitos mágicos e começou a recitar um canto mágico de teleporte.

Arthur: Pronto, precisamos manter a formação e em breve sairemos desse pandemônio.

Vitor: Ah não... Merda!

Por enxergar mais longe, o Mercenário foi o primeiro a perceber uma horda de gárgulas se aproximar em alta velocidade, mas o mais assustador era o que vinha abaixo dela. Uma quimera horrível, cabeça de leão, braços de gorila, parte inferior de bode e 6 caudas de serpentes venenosas, se aquilo chegasse ao grupo iría quebrá-lo e destruí-lo em segundos.

Arthur: Putalamerda! A coisa só faz piorar!

Vitor: Se aquilo chegar aqui ele vai quebrar a formação. Você conseguem manter um triângulo?

Arthur: Não Vitor nem pensar! Sei o que quer e está fora de cogitação, você não pode ir sozinho, vai morrer se o fizer.

Vitor: Não se preocupe, será uma perda aceitável...

Antes que seu irmão pudesse xingá-lo ele sumiu em um desfocado deixando que assumissem a formação de ponta de lança. Em pouco tempo o mercenário alcançou seu adversário, ele era enorme, uns 4 m de altura com braços grosso como dois trocos de arvores e com a maior cabeça de leão que Vitor já vira na vida. Ela rugiu para ele, que não se intimidou. Ele preparou as katares e partiu com tudo pra cima das gárgulas que o acompanhava, se elas o estorvassem na luta poderia ser ainda mais fatal. Ele pulou de monstro em monstro não demorando mais que 5 segundos em cada um e quando terminou ele sacou suas melhores armas: Duas Main Gauche bi cortantes bi fatais e se preparou. O dano seria bruto.

Vitor: Vem cá gatinho, gatinho, gatinho...

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Quimeras são criaturas mágicas hediondas, criadas por mentes caóticas. Os alquimistas antigos a criavam para proteger seus laboratórios ou simplesmente para seus insanos deleites. Pelo trauma de ter três consciências distintas, as quimeras são criaturas constantemente furiosas e fora de controle. Podem ser feitas de várias partes animais e às vezes uni-las a partes humanas também.

Vitor a golpeava incessantemente em pontos críticos, mas a criatura não caia ou demonstrava cansaço como ele. Já havia gastado também toda sua energia espiritual, mas ela era imune a venenos comuns. Decidido a acabar com aquilo antes que ficasse pior ele, partiu com a última estratégia que tinha em mente, mas sua sorte havia acabado. Uma das serpentes cuspiu veneno em seus olhos o deixando completamente cego. Ele se ajoehou no chão urrando de dor, e golpeava o ar em vão. Ao ver aquilo Arthur se desesperou.

Arthur: Irmão! Droga eu tenho que ajudá-lo.

Douglas: Não Arthur, se você sair daqui a Ariel não terminará de conjurar o portal.

Arthemis: Ele sabia dos riscos!

Arthur: Vão pra PQP eu vou ajudá-lo!

Mas infelizmente uma horda de monstros demoníacos apertou o grupo e Arthur só podia observar a cena: Seu irmão agora estava entre as gigantescas mãos da criatura.

Vitor: Ahhhhhhh! Maldito!Arghhhhhh!

Os ossos dos seus braços estavam sendo esmigalhados, Vitor não tinha mais o que fazer. Mas era um Mercenário, um assassino, e formas de matar era sua especialidade. Com o pouco de força que ainda tinha, ele bateu a ponta das botas revelando duas adagas roxas na sola, tirou uma pequena adaga do ombro da camisa e ficou no nervo que controla o polegar, fazendo a criatura afrouxar a mão e rugir abrindo a enorme bocarra, a chance que ele precisava. Com habilidade ele pegou apoio chorando de dor pelo braço quebrado e socou os dois pés no céu da boca da criatura, que sentiu uma dor alucinante e o lançou com toda força para longe, Vitor quicou no chão varias vezes indo parar perto dos seus companheiros.

Ao longe a criatura levava a mãos a cabeça em desespero enquanto a mesma derretia com o efeito do veneno mágico. Logo ele era uma poça de gosma inerte.

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O grupo não acreditava que aquele farrapo de gente era mesmo o Mercenário que havia lutado tanto. A realidade cai como uma bomba para todos, Douglas foi o primeiro a correr para o amigo moribundo. Vitor tinha os braços e pernas em posições estranhas, sangrava em algumas partes do corpo e o filete de sangue escorrendo de sua boca denunciava uma grave hemorragia interna, Douglas amaldiçoou o mundo por não ter energia espiritual para conjurar uma cura, as poções haviam acabado, era desesperador, mas mesmo assim Vitor sorria.

Vitor: Heheeee... Filho da mãe, morreu!"cof" Droga! E me quebrou também...

Douglas: Shiii... Não fala cara... A Ariel está terminando de conjurar e já vem aqui te ajudar...

Vitor: Não vai adiantar..."cof" são machucados demais... Chegou há minha hora..."cof"

Douglas: Que isso...Estamos num mundo onde ossos quebrados não são nada...uma fagulha branca e pronto, tudo curado!

Vitor: Cara... do jeito que eu to é uma sorte não ter caído morto aqui... a Ariel é só uma sacerdotisa, não tem tanto poder assim e o estoque de poção azul acabou... logo você Douglas? Que era tão realista...

Douglas: Não!Você não pode morrer aqui...temos que voltar pra casa!

Vitor: Me desculpa amigo... Sempre quis o seu bem, te ajudar a se adaptar a nossa cidade. Acabei me acostumando e tentava mudar tudo na sua vida. Mas nunca tive más intenções...

Douglas: Não precisa Vitor, eu estava irritado falei sem pensar...

Vitor: "cof" Não, você tinha razão...era um tolo egoísta, deveria ter visto isso antes de te prejudicar"cof, cof, cof" Eu só queria ser o irmão "COF, COF, COF" que você nunca teve.

Vitor deu um ultimo sorriso e fechou os olhos para descansar eternamente.

Douglas não agüentou ao ouvir essas palavras, não viu Arthur chegar desesperado, não a ouviu o pranto de Arthemis. Não ouviu seu próprio pranto. As palavras ecoavam na sua mente cheia de dor, remorso e revolta. Então ele observou que estavam cercados pelos monstros e três monstros, sub-generais do exercito de Loki, o observavam. Ele se levantou apoiado na espada. Disse para Arthur se levantar também, mandou Ariel, sobre forte protesto, pelo portal e só não mandou Arthemis também porque esta cancelou a magia assim que a sacerdotisa havia passado. Os três se viraram para os que encaravam: Uma Valquíria Caída, o Cavaleiro Sanguinário e o Barão Coruja. Com lágrimas nos olhos Douglas sorriu tristemente. E disse para o vento:

Douglas: E você foi meu amigo, você foi e sempre será.

Eles morreriam com certeza, mas como ótimos soldados que eram, levariam tantos quantos pudessem. E lá no céu, a lua também se eclipsava, o Ragnarök havia realmente começado.

""""""""""Será esse o fim?"""""""""""

Aguarde...