A Reunião da Ordem

Snape estava exausto. A reunião da Ordem já se estendia por horas, e a cada minuto mais e mais pessoas pareciam ter perguntas a fazer à Srta. Norris. Maldição, por que será que essa trouxa tinha que aparecer justamente na minha sala? Por Salazar, como se não bastassem todos os problemas que tenho... E ainda por cima isso, ter que servir de platéia para Sirius Black! - devaneou o Mestre de Poções, com a nítida impressão de que estava sendo observado.

Anos trabalhando como espião deram a Snape o dom de perceber quando ele estava chamando mais atenção do que gostaria. E naquele exato momento, ele sabia que alguém estava estudando-o, só não conseguia identificar quem era.

Ao redor da mesa, no Largo Grimauld, os integrantes da Ordem da Fênix ouviam atentamente o que a Srta. Norris respondia às perguntas feitas por Dumbledore. A trouxa aparentava tanta confiança em si mesma, que até se oferecera para beber Veritasserum na presença de todos. Esperta - pensou - A minha pequena trouxa é inteligente. Conseguiu ganhar a confiança de todos. Interrompeu os pensamentos se perguntando de onde viera o termo "minha" e afastou isso da sua mente. Se pondo no lugar dos presentes, conjecturou consigo: - Das duas, uma, ou o que ela diz é verdade, ou foi muito bem treinada pelos Comensais. E como Snape sabia que esse não era nenhum plano de Voldemort, teve que admitir que se renderiam definitivamente a primeira opção.

Aproveitando a distração dos demais, o Mestre de Poções passou a observar os integrantes da Ordem presentes na reunião, para tentar identificar quem o analisava com tanta atenção. Lupin e Moody pareciam alheios ao que se passava, examinando com atenção um bisbilhioscópio. Arthur olhava encantado para Roxane. Provavelmente está ansioso por saber mais sobre os trouxas - pensou Snape.

A sensação de que estava sendo observado continuava. Do outro lado da mesa, Tonks se divertia ao saber que também era citada nos tais livros que a invasora disse existir sobre eles. Dumbledore olhava atentamente para a jovem trouxa. Somente ela, sentada no final da mesa, parecia alheia a tudo e, de cabeça baixa, fitava as mãos.

Sandy Stuart havia sido convidada a participar da reunião. Há muito a jornalista era uma ótima colaboradora da ordem. Suas ligações com o lado trouxa de sua família, politicamente influente na Inglaterra, faziam com que a jovem loira tivesse acesso a informações preciosas para o trabalho dos resistentes.

Snape deixou-se examinar a bela mulher. Há dois anos tiveram um breve, porém tórrido, romance. Mas descobriram que seriam melhores como amigos que como amantes. E desde então, a jornalista se tornara a melhor, para não dizer única, amiga do Mestre de Poções.

Observando melhor, o professor percebeu um fino e irônico sorriso na boca pequena e de lábios levemente carnudos da amiga. Só pode ser ela quem está me observando assim. Sandy está rindo de alguma piada interna, que está maquinando naquele cérebro maquiavélico dela. E desta vez, o alvo sou eu, eu tenho certeza - pensou.

Ele ainda tentou observar melhor as reações da jornalista loira, mas logo depois Dumbledore deu-se por satisfeito e encerrou a reunião.

- Senhoras e senhores, como é de conhecimentos de todos, a Srta. Norris ficará por algum tempo aqui na sede da Ordem - afirmou o diretor. - Esse foi um oferecimento do próprio Sr. Black que, face às circunstâncias que cercam o caso e que levam o Ministério a ter um grande interesse sobre nossa nova colaboradora, assumiu um compromisso de casamento com ela. – disse isso lançando um olhar carinhoso para Roxane.

- Não tenho dúvidas de que será em breve, senhorita - disse Remus Lupin, com um dissimulado tom de surpresa e um olhar maroto na direção de Roxane, que ficou ligeiramente constrangida -, se bem conheço o Almofadinhas. - Ela deu-lhe um pálido sorriso como resposta.

Lembrou-se da fama de conquistador do maroto Black, e das inúmeras fics que lera sobre como o moreno era requisitado e bem falado na época da escola. Fitou Black de canto de olho, ele sorriu transmitindo-lhe confiança. Sabia que estava sob os olhares de uma grande platéia, pois todos fizeram silêncio diante da notícia. Enfim, não havia mais como fugir, a Ordem inteira estava reunida ali pela primeira vez desde que chegara ao Largo Grimauld, e Roxane não ousaria voltar atrás em sua decisão. Principalmente depois do que ouvira de Severus há algumas noites, aquele era o anúncio definitivo de que seria uma Black.

O constrangimento dela aumentou quando, ao olhar para Snape, viu nos lábios do professor um ligeiro muxoxo de contrariedade. A oficialização do casamento de Sirius Black e Roxane deixou Snape ainda mais irritado do que ele já estava. Com uma dor de cabeça apontando nas suas têmporas, ele só queria ir embora para a escola e tentar dormir.

Em meio ao burburinho dos membros da Ordem da Fênix se retirando da Mansão Black e das felicitações ao casal, Snape sentiu um ligeiro perfume próximo a ele, antes que uma mão o segurasse pelo pulso.

- Severus, podemos conversar?

- Acho melhor não – respondeu frio. - A minha cabeça vai explodir a qualquer momento. Eu quero apenas encerrar esse dia maluco, Stuart - disse o Mestre de Poções.

A risada cristalina da loira o surpreendeu. Mas não mais que o gesto dela. Esfregando a palma de uma das mãos contra a outra, aquecendo-as ligeiramente, ela tocou cada lado da cabeça de Snape, enquanto fechava os olhos e murmurava um encantamento. As pontadas desapareceram imediatamente, como que por milagre.

- Sem varinha, Stuart? – ele a fitou com uma leve nota de escárnio. - Você está ficando muito boa nisso - disse, para assombro das pessoas que estavam passando pelo casal. O rígido Mestre de Poções dificilmente elogiava alguém.

A interação entre Snape e a jovem loira não passou despercebida por Roxane, que apesar da promessa de não mais procurá-lo, sentiu como se uma fina lâmina de gelo cortasse seu coração ao meio. Antes de sair da cozinha, Roxane ainda pode ouvir parte da conversa. A voz da jornalista chegou suave aos seus ouvidos:

- Vamos, meu caro, a hora é ideal para um bom firewisky.

Inconscientemente Roxane se desvencilhou das pessoas a sua volta e subiu as escadas até seu quarto, batendo com força a porta atrás de si. Atirou-se na cama fitando o teto, os pensamentos confusos em sua mente. Nunca se sentira tão pequena e estúpida, servira apenas como distração para Snape. Ele brincara com seus sentimentos, por isso dissera aquelas palavras naquela noite. Algo revolveu na sua mente, as peças não se encaixavam. As lágrimas correram livres por seu rosto, e ela as enxugou com as pontas dos dedos. Por mais que quisesse negar, porque isso a fazia sofrer, ela amava aquele homem.

Não pode ser tão simples assim - pensou. Era impossível que estivesse tão errada, vira o olhar dele, sentira suas emoções conflitantes, tinha certeza que ele sentia algo. Sabia que ele não estava disposto a aceitar isso, mas daí a aceitá-lo com outra mulher era um passo muito grande. Seu coração se apertou no peito, e perturbada por todos esses acontecimentos, viu o rosto da loira surgir a sua frente numa névoa. Fechou os olhos, pedindo à Merlin que ela não significasse nada para o Mestre de Poções além de uma, quem sabe, possível amiga. O corpo dolorido pela agitação dos últimos dias e das noites mal dormidas fez com que cedesse rapidamente ao sono.

Acomodado na saleta preferida da Mansão Stuart, relaxando após sua segunda dose de firewisky, Snape não estava preparado para o ataque direto:

- Então, Severus, pode começar a falar.

- Falar? – ele chegou a engasgar com a bebida, os olhos negros cintilaram na direção da loira. – Não sei do que você está falando, Stuart. Eu já disse tudo que eu tinha para dizer durante a reunião - completou.

- Tudo o que tinha para dizer, Severus. Mas eu sou sua melhor e quase única amiga, e já tive você em minha cama. – Ela estreitou seu olhar sobre a figura à sua frente e continuou no tom mordaz: - Dois motivos que me gabaritam a dizer que há muito nesse caso que você não disse. Por isso, pode começar a desembuchar logo, antes que eu me estresse - disse a jovem jornalista.

Snape sentia-se encurralado. Sabia que Sandy tinha razão, mas ao mesmo tempo não sabia o que responder à amiga. E, para piorar, a Stuart estressada podia ser pior que o Lorde das Trevas. Suspirando, ele apenas disse:

- Eu não sei, Stuart – disse apoiando a cabeça entre as mãos. Seu tom agora era baixo, quase um sussurro. - Ela mexe comigo de um jeito que eu não sei explicar. Ela me atrai, sim. E faz com que eu perca meu autocontrole. E você sabe o quanto eu odeio me sentir fora de controle.

A jovem sabia. E entendia bem a que o Mestre de Poções se referia. Ela também odiava sentir o chão faltando sob seus pés. E por conhecer essa sensação, e saber o que a provocava, foi que ela levantou-se e sentou ao lado do amigo, segurando de leve o seu pulso e falando baixinho.

- Bem-vindo, caro Severus. Bem-vindo ao clube dos apaixonados – disse crispando os lábios num leve sorriso. – Diga-me, o que pretende fazer?

- Absolutamente nada, Stuart – respondeu ríspido, batendo com o copo sobre o tampo da mesa de madeira na frente do sofá – Eu não estou apaixonado! Isso é uma insanidade!

- Esbraveje e negue o quanto quiser, mas isso é um fato – encarou-o, e completou: - Cedo ou tarde terá que resolver que posição vai tomar em relação a tudo. Você, melhor que ninguém, sabe o que está por vir, e sabe o que significa ela estar aqui. Aceite que ela mudou as coisas – deu-lhe um tapinha no ombro e se levantou, colocando-se em frente à lareira. – Não pretendo julgar seus atos, mas você será o único entre nós em posição de defendê-la... Já pensou nisso?

- Quem irá defendê-la será o marido dela, Sirius Balck – ele bufou, enquanto sorvia um grande gole de whisky. - O tonto do Black já a aceitou em casamento. A honra Grifinória!

- O tonto do Black... Entendo – foi a vez de Sandy sorrir, fitando a figura encurvada no sofá. – Por que não o fez no lugar dele?

- Por que ela é uma trouxa, ora essa – ele rebateu seco. – Uma estúpida trouxa que nunca devia ter aparecido. Uma trouxa que sabe demais, uma idiota que não vê o perigo que corre. – Ele interrompeu o discurso fitando o copo, as elipses descritas pelo líquido, e continuou em tom baixo: – Uma linda trouxa com olhos castanhos e cabelos ondulados que... – seus olhos perderam o brilho e tornaram-se escuros como a noite.

- Vamos, termine o que ia dizer, Severus – ela o encorajou.

- Não há mais nada a ser dito, Stuart – ele se levantou e, encarando-a frio, arrematou : – Essa história termina aqui.

- Sei... – ela o analisou enquanto ele vestia capa e disse firme: - Escute, essa história não termina aqui. Voldemort vai caçá-la até o fim do mundo, e eu sei que você vai se colocar entre os dois. Então quanto antes aceitar que a ama, melhor.

- Não vou fazer nada disso – ele crispou os lábios num sorriso de escárnio. – Ela sabe que só quero uma coisa dela.

- Quanto tempo acha que só os lençóis da cama dela servirão de consolo? – A voz dela soou imponente, calando-o. – E quando Black se deitar ao lado dela? O que pretende fazer? Expulsá-lo como um amante raivoso?

- Basta, Stuart! – Seu tom era ameaçador. – Já ouvi demais. Você se julga dona da verdade, esqueceu do que eu sou? Do que faço? – rosnou para ela. – Acha que algum dia chegarei em casa com um buquê de flores na mão, dizendo que o dia está lindo?

- Não sei no que essa guerra vai resultar, mas você não pode fugir eternamente de seus sentimentos, e eu nunca o vi assim. – Ela bebeu mais um gole de seu whisky. – Nunca é tarde para rever nossas atitudes.

- Eu já fiz isso uma vez – ele rebateu frio.

- Talvez esteja na hora de fazê-lo de novo – Sandy disse suavemente.

- Eu perdi a mulher que amava, Stuart. – Sua figura estava impassível. - Não vou deixar acontecer de novo. O destino de Roxane será diferente... Será longe de mim.

- Você não pode decidir isso sozinho - ela retrucou.

- Eu já decidi – ele disse duro.

- Então realmente deixe-a ir. – A voz de Sandy era fria como as paredes, mas sabia que esse tom funcionaria com ele. - Não a procure mais.

Os olhos pretos dele caíram sobre ela como facas cruzando o ar, e ele se aproximou fitando-a enfurecido consigo mesmo e disse estúpido:

- Não posso fazer isso. – Seus lábios tremeram de ódio enquanto se lembrava da promessa feita a Sirius involuntariamente. Os olhos cintilaram, e ele prosseguiu: – Não posso simplesmente abandoná-la, ela quase deu sua vida por mim outro dia...

- Touché! Então meu caro, você está disposto a morrer por ela - Sandy o confrontou com um longo olhar de triunfo. – Garota de sorte. – E, colocando um ponto final na conversa, disse: - Desculpe-me Severus, preciso descansar. Adoro nossas conversas, mas tenho que partir amanhã cedo e temo que não volte tão cedo.

- Para onde vai? – Snape perguntou.

- Os trópicos, meu caro. Onde meu coração fique tão aquecido quanto o seu – disse desdenhosa. – Precisam de uma informante com vasta experiência no assunto e acima de qualquer suspeita. – Ela sorriu para ele. - Os Comensais começaram a organizar seus ataques por lá, e fui prontamente convocada. Como não há nada que me estimule mais que o perigo, eu aceitei. – E ainda sorrindo, exigiu: – Deseje-me boa viagem, Severus.

- Boa viagem, Stuart – disse curto. – Cuide-se.

- Bom casamento, Severus – ela disse com cinismo. – Não esqueça de me mandar um convite.

Ele não parou para respondê-la, apenas entrou na lareira e sumiu nas chamas esverdeadas. Sandy foi até a biblioteca, sentou na grande cadeira de carvalho maciço em frente à mesa e, abrindo uma das gavetas, pegou um pedaço de pergaminho. Molhou a pena na tinta e, rabiscando algumas palavras sobre ele, lacrou-o. Um sorriso brincou em seus lábios antes de entregá-la ao seu mensageiro.

Na manhã seguinte, enquanto tomava seu café-da-manhã na cozinha da Ordem da Fênix, Roxane foi surpreendida pela presença de um elfo elegante, que lhe entregou uma carta e desapareceu sem nada dizer.

Curiosa, a jovem observou o lacre e logo reconheceu o desenho daquele brasão: Família Stuart. Ainda mais intrigada, ela abriu o envelope para retirar de dentro um fino pergaminho.

"Prezada Srta. Roxane Norris

Escrevo apenas para lhe dizer que, por mais que possa não parecer, e mesmo que talvez você nunca venha a entender completamente as ações dele, Severus Snape a ama.

Machuque-o, e desejará nunca ter ouvido falar no nome dele.

Não se surpreenda com essa correspondência. Snape é um dos poucos amigos verdadeiros que eu tenho, que nunca se importaram com o nome da minha família ou com a importância dela. E, por isso, eu tomei liberdade em procurá-la através desta carta. Faça-o feliz e terá em mim uma amiga eterna e fiel.

Sem mais

Sandy Stuart"

Roxane dobrou a carta colocando-a sob as vestes. Sorvendo mais um pouco do delicioso café da Sra. Weasley, sorriu para si mesma. Então Sandy Stuart era apenas uma amiga, e muito íntima por sinal. Snape não era um homem de amizades; imaginou como a loira ascendera a tal posto, mas segundos depois, desistiu de conjecturar sobre isso. Era melhor descobrir se as palavras dela eram verdadeiras. Mas os dias se sucederam sem mais nenhuma reunião, e Roxane viu seus receios aumentarem.

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N/A : Esse capítulo foi extraído de uma fanfic que recebi de presente de uma grande amiga, Sandy Stuart Snape. Agradeço demasiadamente a ela por me dar essa oportunidade e me brindar com essa maravilhosa história. Bjus linda! Obrigada de coração.

Obrigada imensamente a minha beta maravilhosa BastetAzazis que de última hora acrescentou esse caps na sua lista e betou-o com carinho. Bjus doces!!

Agradeço a todas que com carinho e paciência acompanham essa história e, também, por todas as reviews deixadas!