Carregar uma criança no colo fazia emergir do seu coração uma sensação muito particular. Tal sentimento de segurança mútua, embora pudesse ser sentido em uma infinidade de ocasiões, ali era misturado com uma inocência sem tamanho, e enquanto sentia o ir e vir da respiração do menino, o professor sorriu ao lembrar de coisas que sabia estarem lentamente sendo enterradas conforme sua vida ia avançando.
— Tio — murmurou Kiki, ainda dormindo. — Cadê o papai?
— Está aqui perto, Kiki — respondeu Shaka, acariciando a cabeça do garoto com a mão livre. — Fazendo a matrícula de Atla na escola.
Kiki não respondeu, mas voltou a dormir sorrindo.
Era uma bela manhã ensolarada. Ou, era isso que os funcionários das redes de televisão pareciam acreditar, de suas confortáveis salas com ar condicionado. Na verdade, o calor estava insuportável, e mesmo tendo crescido em um lugar ainda mais quente, Shaka sentia a respiração se tornar mais pesada e o suor manchar as costas de sua camisa. Mu estava ainda pior, e chegou logo em seguida, de mãos dadas com Atla, os dois vermelhos de calor.
— Que calor — disse Mu, se abanando. Shaka olhou para o leque em sua mão.
— Onde arrumou isso? — perguntou, enquanto trocava Kiki de braço.
— Uma mãe estava lá dentro, vendendo essas coisas... — Riu. — Comprei um para Atla, também.
— Obrigado, senhor Mu — disse Atla, e olhou para Kiki. — Esse preguiçoso não acordou ainda?
— Não fale assim, Atla — disse Shaka, embora seu tom de voz não indicasse severidade.
— Mas é verdade. Já são quase onze horas, tio.
— Achei que vocês dois tivessem ficado até tarde vendo um filme — disse Mu. — Meu pai fazia você acordar cedo, Atla?
— Fazia, sim, mas ele disse que ia ser bom pra mim, e agora eu posso aproveitar mais o dia.
— Isso não é saudável — começou Shaka, e Mu imaginou se deveria pará-lo antes que começasse o sermão. — Crianças precisam dormir bastante, e vocês dois devem ter dormido lá pelas três da manhã, não é?
— Era uma maratona de desenho! — Deu um soco no ar, mas imediatamente percebeu o que estava fazendo e recuperou a pose de falso adulto. Shaka observou com interesse. — Foi... interessante.
— Bom, de qualquer forma, a matrícula do Atla está feita. Por sorte tivemos sua recomendação, Shaka.
— Imaginei que iriam precisar. Está nervoso com a escola nova, Atla?
— Não muito, porque o tio me falou que a escola é um lugar em que a gente aprende, e eu gosto de aprender.
Shaka fez um muxoxo.
— Aprender, sim — disse ele, parecendo contrariado —, mas também muito mais que isso.
— Como assim, senhor Shaka?
— É fato que a escola é o lugar onde se dá grande parte do aprendizado, mas aqui também é um lugar para fazer amigos. Aprendizado social, sim, mas sinto que não foi o que Shion quis dizer.
— Provavelmente não — concordou Mu. — Meu pai é muito severo com o estudo. Acho que também sou, ou serei, mas ele exagera em diversos níveis.
— Hm — grunhiu Shaka. Depois, mudou sua atenção para uma dama que havia recém entrado no local. — Ah... se me dão licença, eu preciso resolver alguns assuntos.
— Estava esperando alguém?
— Não, na verdade não imaginava que ela fosse vir hoje. De qualquer forma, vejo vocês em breve.
— Tchau, senhor Shaka — disse Atla, dando-lhe um abraço. — Vou tentar acordar o Kiki, pra quando o senhor chegar.
— Ou, pode tentar dormir junto dele... — Sorriu. — Acredite, vai ser melhor pra você.
— Bom, eu posso tentar, mas não tiro sonecas de tarde.
Após uma última troca de olhares, Mu se despediu e, com Kiki no colo, saiu em direção ao ponto de ônibus. Shaka notou, com um sorriso, que Atla começava a andar mais devagar, mais cansado, e talvez o sono viesse logo.
Voltou suas atenções à dama.
— Pandora Heinstein, eu presumo? — disse, cordial.
— Sim, sou eu — disse Pandora, jogando seus fartos cabelos negros para trás. Olhou-o dos pés à cabeça, em uma análise satisfeita, descruzou as pernas e sorriu.
— Meu nome é Shaka, e eu sou o professor dos seus sobrinhos.
Pandora lançou a mão ao peito de maneira dramática, parecendo aflita.
— Shun está bem? — perguntou ela.
— Está, sim. Ambos estão, mas eu queria conversar sobre o Ikki.
— Ah — exclamou Pandora, e seu sorriso se tornou diferente. — Ele causou algum problema?
— De jeito algum. Na verdade, seu comportamento é mais do que exemplar. Ikki é um garoto dócil, e embora seja solitário, é bastante atento ao que acontece ao seu redor, e isso entra em conflito direto com o que está em sua ficha.
— Ele é um garoto muito problemático.
— Com todo respeito, é difícil acreditar nisso, mesmo que a ficha não esteja mentindo. Uma mudança tão radical de um ano para o outro?
— Foi assim da primeira vez... — Mordeu o lábio. — Quero dizer, ele é assim mesmo.
— Assim como, senhora?
Pandora olhou para os lados, como se estivesse sem saída. Por fim, suspirou. A impaciência estava impressa em seu rosto.
— Há dois anos, os pais dos meninos morreram. Shun foi o mais afetado, mas Ikki não pareceu se importar muito. Estava agindo normalmente, até que quase um ano depois eu começo a receber ligações dizendo que ele estava destruindo a escola. Deve ter se envolvido com algum delinqüente.
— Deve ter? — Shaka estreitou os olhos, ainda que sorrindo a contragosto. Pandora não respondeu. — Pode me dizer como os pais deles morreram, senhora?
— Acidente de carro. Por sorte, o Shun não estava com eles.
— Na maioria das vezes, perante a morte de parentes próximos, as crianças têm alguns problemas de adaptação. Precisam de mais atenção, e em vezes jamais se recuperam completamente.
— Está insinuando algo, professor?
— Apenas que esta pode ser a causa. Shun e Ikki são pessoas diferentes, você sabe, e talvez o impacto tenha vindo mais tarde. Talvez por isso, a senhora não tenha notado.
Pandora o fitou, em um tipo de raiva educada. Sua mão tremia, como se ela quisesse levantá-la, e seu rosto não se decidia entre o cordial e o ultrajado. Levantou-se.
— Eu não acredito em desculpas Freudianas, professor Shaka. Mas, perdão, eu acabo de me lembrar de um assunto urgente que preciso resolver. Com licença, por favor.
Bateu a porta. Do lado de fora, fez menção de voltar e culpar o vento, mas foi em frente.
Shaka suspirou, mas antes mesmo que pudesse sentir alguma raiva, ouviu um ruído vindo do lado de fora.
— Ela não gosta muito de mim, professor — disse Ikki, encolhido sob a janela. Shaka se sentou no parapeito.
— Imaginei que fosse algo assim — disse, suspirando.
— Então por que você chamou ela, professor?
— Porque queria confirmar.
— Podia ter perguntado pra mim. Eu não ia mentir... mas agora ela vai chegar em casa zangada. Ela vai achar que eu fiz alguma coisa.
— Ikki, como ela pode? Eu a chamei aqui para falar bem de você.
— Não importa! — berrou. — Ela vai arrumar uma desculpa, ela é uma vadia.
Shaka sentiu ímpetos de corrigir o menino, mas se viu concordando com ele. Aquela mulher era simplesmente revoltante.
:::
Estavam fazendo uma caminhada pelo bosque nas imediações da escola. Ikki andava de mãos dadas com o professor, emburrado porque não queria incomodar, e havia falado com ele na janela por instinto, raiva e tristeza.
— Professor, não precisa — tentou, mas Shaka apenas sorriu para ele. Era um sorriso que acalmava, um sorriso em que ele confiava, e Ikki sabia que não era possível convencer o professor a desistir de algo, por isso não disse mais nada. Mesmo emburrado, não conseguia se arrepender.
Com aquele calor quase infernal, o lugar parecia coberto de uma camada de luz que fazia doer os olhos, mas Ikki ainda tentava admirar a trilha e memorizar o caminho. Sempre soube que havia um bosque ali, mas nunca imaginou que era parte do colégio e aberto aos alunos. Quem é que tinha tanto dinheiro pra comprar uma área grande como aquela, afinal?
Caminharam por quase meia hora sem dizer uma única palavra, e então chegaram a um riacho. Ikki imediatamente correu, mergulhando o rosto na água, enquanto Shaka fez quase a mesma coisa com uma pitada a mais de graciosidade.
— Esse colégio tem de tudo! — disse Ikki, sorrindo.
— Pode nadar, se quiser. Não é proibido.
— Eu não trouxe sunga, professor.
Shaka ergueu uma sobrancelha. Meio minuto depois, Ikki estava mergulhando.
— Cuidado para não chegar muito perto das pedras, na cachoeira, Ikki — disse Shaka, juntando as roupas do menino enquanto ele emergia da água. — Eu notei que você não trouxe o rosário hoje.
— Ah! — Ikki ficou vermelho. — É que eu meio que saí correndo pra cá, atrás da tia. Eu tiro pra dormir.
— Você mora perto daqui?
— É, na rua de cima... — Parou. — Achei que o professor ia me perguntar se eu tinha permissão pra ter vindo.
— Isso não vem ao caso — dispensou o assunto com um gesto — e, de qualquer forma, você estava perto da sua tia, e agora está comigo. Gostando da água?
— Muito boa. Tem certeza que não vai aparecer ninguém por aqui?
— Alguns alunos costumam nadar aqui nos fins de semana, mas você nunca me pareceu do tipo modesto, Ikki.
— Eu não tenho vergonha, professor! — protestou, sem tirar o sorriso do rosto. — É só que não queria levar bronca. Outra.
— Outra? — Shaka sabia o que Ikki queria dizer, mas mesmo assim fez a pergunta.
— Eu vou levar uma da minha tia, quando chegar em casa. Se não for porque o professor chamou ela, então porque eu saí de casa sem ela deixar. E mesmo se eu não tivesse saído, ela ia arrumar uma desculpa, porque só o que ela faz é me deixar de castigo enquanto paparica o meu irmão.
As palavras saíram tão rápido da sua boca que quando percebeu o que estava dizendo já era tarde. Shaka parecia contemplar algo por trás de seus óculos, e Ikki notou que ele não parecia nada surpreso.
— Professor! — berrou, nadando rapidamente para a borda.
Antes que o professor pudesse reagir, Ikki o puxou para dentro da água, com roupa, óculos e tudo.
— Ikki — disse ele, sério.
— Ah, professor, o senhor me usou — disse Ikki, emburrado.
— Manipulei — corrigiu o professor, sorrindo. — Podia ao menos ter esperado eu tirar os óculos, pequeno.
Mais tarde, Ikki iria perceber que o professor provavelmente havia permitido aquilo também.
— Não gosto que me chamem de pequeno.
— Assim como velhos não gostam de ser chamados de velhos. Não adianta nada fugir da verdade, Ikki, e se passar a se importar menos com isso, talvez quando você crescer se sinta mais satisfeito.
Por algum motivo, aquilo parecia fazer sentido. Tudo que saía da boca de Shaka fazia sentido, de um jeito ou de outro.
Ikki deu de ombros.
— Pelo menos assim o senhor nada comigo.
— Eu ia nadar com você, mas agora vou ter que secar as minhas roupas. Ao menos essa calça seca rápido.
Enquanto o professor estendia as roupas em uma árvore, vestido apenas com uma cueca preta que mais parecia um calção de banho, Ikki percebeu que era a primeira vez que o via sem uniforme. Naquele manhã, ele usava apenas uma camisa social e calça jeans, e mesmo assim tinha aquele ar de professor que o fazia ter certa autoridade mesmo sem ser autoritário. E agora que estava se secando, era também a primeira vez que o via sem os óculos. Shaka tinha olhos azuis.
— Seus olhos são bonitos — disse Ikki, por impulso, e como já tinha ido metade do caminho, continuou. — Por que o professor não usa lente?
— Imagine ter que enfiar uma coisa no seu olho todos os dias.
— Hmmm — Ikki engoliu em seco. — É, não parece muito confortável. Mas um amigo meu da outra escola tinha um óculos que não refletia. Eu quase não consigo ver os olhos do senhor.
— Ah, isso... — Riu. — Você já ouviu falar que a imaginação e a curiosidade deixa as coisas mais bonitas?
— Ouvi o Daichi, da primeira série, falando disso com alguns meninos mais velhos.
— É por isso que uso estes óculos.
— Isso parece um pouco... como era a palavra... ah, é: parece um pouco superficial, professor.
— Certo, certo, e você acha que isso não combina comigo?
— Nem um pouco, não combina.
— E se eu disser que é porque os óculos me dão um ar mais misterioso e altivo?
— Não sei o que significa altivo.
— É uma certa pretensão, um orgulho arrogante.
— Mas isso não parece ser muito bom em uma pessoa.
— Exato, e você diz isso porque já me conhece. Estou sempre olhando para as pessoas por trás de lentes, e poucas conseguem ver os meus olhos. Isso inevitavelmente resulta em um pré-conceito, e eu gosto de ver quantas pessoas me julgam pelo que eu pareço antes de me conhecer. É especialmente bom para lidar com os pais, ver o que eles estão ensinando para os filhos e então ter uma boa conversa sobre o assunto.
— Nossa — disse Ikki, saindo do rio e se sentando ao lado do professor. — É complicado.
— Complicado, mas sem dúvidas efetivo. Pandora, por exemplo, me olhou dos pés à cabeça e sorriu, então assumo que ela tenha gostado de toda essa farsa.
— É bem a cara dela. Mas isso não é aquele negócio de manipulação?
Sorriso.
Ikki gostava mais do professor a cada instante. Ele podia falar de qualquer coisa, desde budismo até videogames (e Ikki aprendeu de um que tinha uma relação interessante com o número 108), e também não mentia sobre suas opiniões. Ficaram ali, conversando, esquecidos do calor e de Pandora enquanto a bela manhã ensolarada se tornava uma bela tarde ensolarada.
Quando Ikki viu que o sol estava bem alto, quase no topo de sua cabeça (o que indicava que estavam chegando perto do meio-dia), decidiu perguntar:
— Professor, o senhor tinha dito que poderia aparecer algum outro aluno aqui.
— Seiya costuma nadar aqui. De vez em quando ele traz uns amigos de fora do colégio, também.
— Espero que aquele chato não apareça.
— Não gosta dele?
— Não é bem isso, mas ele é um mala, professor.
— Ele é inconveniente — concordou o professor, para a surpresa de Ikki. — Mas também é um bom garoto, e eu não posso culpá-lo pela personalidade que tem.
— Ele tá na minha sala, então eu acho que tenho que aprender a conviver.
Ouviram um berro:
— 'FÊSSOR!
— Ah, não, viu só o que dá falar nele? — Ikki suspirou.
— Não sabia que 'cê ia ficar aqui hoje! — Seiya correu de dentro do bosque, abraçando Shaka por trás. — É esse calor chato, né?
— Na verdade, eu vim trazer o Ikki para conhecer o riacho.
— Ikki? — Shun saiu de trás de um arbusto, já com calção de banho e bóias nos braços. Ikki olhou para o irmão, surpreso.
— Titia tá doida atrás de você — disse Shun.
— Eu sei, quem sabe até eu voltar ela esquece. O que você tá fazendo aqui?
— Seiya me convidou pra... por que você tá pelado?
— Ikki tá pelado? — disse Seiya, gargalhando copiosamente enquanto finalmente percebia que Ikki estava ali. — Eu vou contar pra todo mundo!
— Vai contar pra todo mundo que o meu pinto é maior que o seu? Conta! — Ikki deu de ombros, e Seiya o olhou de cara feia.
— Não é maior nada — disse ele, sem muita empolgação, virando de costas. — Não falo mais com você!
— Você faz isso com todo mundo que diz que o seu pinto é pequeno? Porque eu conheço um monte de gente que ficaria feliz com você calando a boca.
Seiya ergueu os punhos, pronto pra brigar.
— Sai fora, fracote — disse Ikki, sem se levantar.
— Você vai ver só o fracote, seu...
— Basta! — Era Shaka.
Talvez estivesse finalmente vendo o lado delinqüente de Ikki. Mas eram apenas crianças, afinal.
:::
— Para almoçar. Sim, foi no colégio, quando ele estava indo nadar. Não se preocupe, fica por minha conta. Claro, eu entendo e aproveitando, espero ver você na próxima reunião de pais, está certo? Sim, a diretora sempre aparece, mas tenho certeza que você sabe mais sobre ele, Seika. Até lá!
Shaka desligou o celular, sorrindo, e olhou para Seiya.
— Então, tio, ela deixou? Diz que ela deixou, vai, diz — disse o menino, mal contendo a empolgação.
— Deixou, se eu o fizesse prometer não me causar problemas. Então?
— Prometo! — Estendeu o mindinho, para selar o acordo.
Já estavam perto do carro, no estacionamento do colégio. Shun estava preocupado em ir a qualquer lugar de calção de banho, mas Seiya, que estava apenas de sunga, não parecia se importar. Ikki já estava vestido, conversava com o irmão.
— Falou com a tia Pandora? — perguntou ele.
— Falei. Eu tive que dizer que você tava com a gente, Ikki.
— É, eu sei, senão podia dar problema pro professor.
— Ela ficou brava porque você não avisou que ia sair.
Até parece que foi só por isso, pensou Ikki.
— Mas ela deixou, não deixou?
— Sim, e nem quis falar com o professor. Bizarro.
— Imagino o porquê — disse Shaka, e Ikki sorriu. — Bom, parece que todos vão poder ir.
— Eu ainda queria passar em casa pra trocar de roupa...
— Shun, deixa de frescura! — disse Seiya, arrastando-o para dentro do carro. — Tá calor, vai assim mesmo.
— De fato, vai ter bastante gente voltando da praia no restaurante. Não se preocupe, Shun.
— Então a gente vai num restaurante? — Seiya começou a pular sentado no banco. — E a comida é gostosa?
— Muito gostosa. Você vai gostar, Seiya.
— Se é gostosa, então eu vou adorar, 'fêssor!
Quando Shaka estava entrando no carro, Ikki segurou a sua mão.
— Algum problema?
— Não, é que eu queria perguntar uma coisa. Eu ouvi o professor falando no telefone com a — abaixou a voz — mãe do Seiya, e o senhor falou de uma diretora. Como assim?
Sorrindo, o professor fechou a porta do carro, pedindo aos outros dois que esperassem e não quebrassem nada.
— Fico satisfeito com o quanto você é atento, Ikki — disse ele. — Não falei com a mãe dele, mas sim com a irmã. Seiya é órfão.
Muito surpreso, Ikki fitou Seiya por alguns segundos, vendo-o agora sob uma ótica diferente. Olhou para o professor, cheio de dúvidas.
— Mas como ele estuda aqui? Esse colégio é caro, eu já ouvi a tia reclamando da mensalidade várias vezes.
— Não sei dos detalhes, mas a dona do colégio conhecia os pais de Seiya, e a diretora do orfanato acabou descobrindo isso e tentou uma bolsa para ele e para a irmã. Infelizmente, só conseguiram uma bolsa para um deles, e Seika escolheu dar essa chance ao irmão.
— Não sei se foi uma boa idéia, professor... — Ergueu a sobrancelha. — Mas sabe, isso explica muita coisa.
— Como o quê?
— Ele é meio diferente. Parece que tá sempre ligado, sei lá, não é como os outros meninos da minha sala, e eu já li sobre orfanatos, e lá as coisas não são como em famílias.
— Não é um orfanato ruim, mas você está certo, a educação que ele tem lá é certamente diferente da educação que uma família dá para os filhos.
— Entendi — disse Ikki. — E o professor teve um bom motivo pra me contar tudo isso, não teve?
Shaka sorriu:
— Está começando a me conhecer melhor. Apenas começando.
— Sabe, professor, o senhor é um adulto muito interessante.
Quando o dia terminou, Seiya e Ikki estavam mais próximos de uma amizade ("colegas de escola", como preferiu dizer o mais velho), e o professor Shaka havia cumprido todos os objetivos de seu dia. Ninguém estava triste.
Mas, com certeza, um dia alguém iria chamá-lo de cretino manipulador. E neste dia, ele iria sorrir.
Notas do autor: Eu achei que ia demorar com este capítulo, mas depois de ler o que vocês escreveram, a empolgação e inspiração chegaram ao ponto máximo, e eu acabei terminando tudo de ontem pra hoje, olha só! Esse capítulo fugiu um pouco do estilo dos outros, já que é focado apenas no nosso professor favorito, mas espero que vocês gostem. Respondendo aos comentários:
(Lune Kuruta) Hahaha, eu abri o maior sorriso quando vi o tamanho do que você escreveu, assim como o fiz com o comentário do James! Gosto muito do Atla, e é realmente uma pena que ele não seja muito usado pelo fandom, talvez porque muitos o considerem apenas um clone mais novo do Mu, ou então muito extra na história para ser considerado. Eu não sou uma dessas pessoas, e a relação entre ele e o Kiki é algo que eu realmente queria trabalhar, apesar da idéia não estar presente desde o começo.
Quanto ao telemarketing... eeeei, estando trabalhando como telefonista (ainda que não de telemarketing ou cobrança), posso te dizer que essa profissão é extremamente estressante, e olha que eu sou uma pessoa bastante calma. Tenho que ser calmo, e mesmo assim duzentas ligações mal educadas por dia é barra. Ou talvez seja como o Shion disse: você é fresco, Mu! Aliás, ele e seu trono são fodas, né?
Fico muito feliz com o comentário sobre o estilo do capítulo anterior, e também com algumas outras partes do seu comentário, em que você captou o que eu queria passar. Nunca tinha escrito uma cena indo e voltando dessa maneira, mas foi uma experiência legal!
(James Hiwatari) Então, como eu disse antes, eu não acho você cri-cri, muito menos fico ofendido com as suas críticas, que por sinal são muito válidas. É exatamente o contrário: embora nem tanto hoje em dia, eu sempre quis um leitor que me criticasse, porque as críticas me fazem melhorar e obviamente eu só posso me auto-criticar até certo ponto. Minha beta e grande amiga, a Mesarthim, me ajuda pra caramba, mas é sempre bom ter opiniões externas. Eu não considero realmente o meu excesso de vírgulas um erro, especialmente quando se trata de falas, já que eu tomo a liberdade de considerar a vírgula como uma indicação de pausa, e gosto de usá-la para controlar o ritmo do texto da maneira que me convém. Antigamente eu usava uma quantidade absurda de vírgulas, e muitas pessoas me chamavam a atenção, e por isso hoje, talvez, você esteja certo, então eu vou considerar as suas críticas e prestar um pouco mais de atenção, ok? Muito obrigado!
Então é isso, gente! Fiquem atentos ao próximo capítulo, que vai ser especial, e até a próxima. o/
-Rikku (Tachibana)
