Disclaimer: As personagens pertencem a JK Rowling.


Capítulo 9

Decisões difíceis

Snape entrou dentro do gabinete do director sem sequer bater à porta. Precisava de desabafar com alguém e receber os conselhos apropriados. E esse alguém não poderia ser outra pessoa além de Dumbledore. Sim, era a decisão certa a se fazer. Não só era uma obrigação relatar-lhe todos os planos do Lord como não havia nenhuma outra alternativa de poder resolver aquele dilema.

Dumbledore encontrava-se atrás da sua secretária como se já o esperasse e um sorriso solene preencheu-lhe a face ao vê-lo entrar. Como não sabia mas aquele castelo parecia contar ao velho director tudo o que nele se passava. Só assim se justificava o facto deste saber sempre tudo o que acontecia à sua volta, só assim poderia saber que ele viria visitá-lo nesse momento. Poderia ser um pensamento absurdo mas Snape cada vez acreditava mais nele.

-Senta-te Severus, será uma longa conversa. Não é assim? – perguntou o velho director cruzando as mãos e apoiado a cabeça nelas.

-Não sei Albus, eu realmente espero que não. – disse com uma voz ligeiramente sarcástica.

-O que se passou na reunião com Tom para te deixar nesse estado?

Nesse estado? Tinha a certeza que as suas emoções estavam bem guardadas por detrás da sua frieza. Sentia-se um pouco perdido pois não sabia o que fazer mas uma coisa era sentir e outra, completamente diferente, era demonstrar isso. Odiava que os outros descodificassem algum sinal humano em si porque isso era um sinal de fraqueza e ele não queria ser fraco. Não podia.

Nem o director deveria conseguir ultrapassar a sua barreira mas a verdade é que acontecia precisamente o contrário. Desviou o olhar dos olhos azuis enérgicos com frustração e observou uma esfera com inscrições em latim, guardada numa das prateleiras que mobilavam toda a sala. Talvez dessa maneira estaria mais seguro e mais de acordo à imagem de homem sem sentimentos que tanto trabalho lhe deu criar num passado muito longínquo.

-Sabes o que é mais engraçado? – começou com um ar ausente. - Não me matou apesar das tantas falhas que cometi e que fez muitos dos seus súbditos desconfiarem de mim.

Dumbledore examinou-o com seriedade e franziu o sobrolho.

-Mas imagino que não é só por isso que estás assim. Ambos já sabíamos disso muito bem e concordamos que Tom não se quer livrar de alguém como tu sem ter provas mais claras do que os relatos dos outros Devoradores. Quanto a falhas não creio que as cometas, não falhas que poderão ser reveladoras da tua lealdade para comigo. Confio em ti e nas tuas capacidades meu rapaz.

-Não sei se mereço toda essa confiança…

-Eu sei. – disse Dumbledore de forma definitiva. – Agora é melhor dizeres o que te está a afligir. É algo relacionado com Hermione?

Snape anuiu com a cabeça. E para seu desconcerto o director sorriu. Estaria completamente loco? Porque estava a sorrir se não havia a menor graça naquela importante conversa? Alguma coisa no olhar incrédulo de Snape devia ter persuadido Dumbledore pois este alargou ainda mais o seu sorriso e declarou:

-Estás preocupado com Hermione.

Se não fosse todo o seu auto-controlo, Snape teria aberto a boca ao extremo. Não estava preocupado com aquela Gryffindor! Isso era inconcebível… teria de ser. A sua preocupação residia apenas e só apenas na perspectiva de ter que entregar um possível filho às mãos de um assassino. Porque tinha Dumbledore de dizer uma coisa tão ridicula como aquela? Por Merlin!

-Nem tu acreditas nisso. – refutou arrogantemente.

-Oh, mas claro que acredito Severus. E tu sabes que tenho razão, mas não é fácil que admitas nem para ti próprio…

Snape bufou por entre os dentes cerrados e apertou os nós dos dedos até eles ficarem brancos. Não havia nada para admitir!

-O Lord quer que eu tenha um filho com Hermione para depois entregar-lhe a criança. – revelou directamente. Já estava farto daquelas insinuações disparatadas do velho director e queria sair dali para fora.

Dumbledore endireitou-se e esfregou os olhos por detrás dos óculos com cansaço.

-Então é isso. – afirmou mais para si do que outra coisa.

Snape contou, com todos os pormenores possíveis, a sua conversa com o Lord. A expressão de Dumbledore era serena mas pensativa à medida que ouvia. Não foi interrompido nenhuma vez e deu graças por isso mas não podia parar de pensar no que se passaria na cabeça do director. Precisava de saber o que pensava Dumbledore sobre aquilo.

-O que pensas fazer Severus? – perguntou depois de este ter terminado o relato.

O professor de Poções levantou-se e passou a mão direita pelos cabelos numa atitude muito imprópria tratando-se dele. O que pensava fazer?. Durante os últimos dias dera voltas e voltas àquela questão e chegava sempre ao mesmo ponto: Não tinha outra hipótese do que terminar o seu papel de espião. Um papel que representou durante anos e anos e que o fizera sacrificar muitas coisas… mas que evitara acontecimentos ainda mais catastróficos do que aqueles que aconteceram e aconteciam.

-A Ordem ficará sem o seu espião.

-Já esperava essa resposta. – Dumbledore ergueu uma taça de prata cheia de caramelos de limão e inclinou-a para Snape talvez na esperança que este retirasse um.

E foi o que o homem de negro fez. Foi um gesto automático quase inconsciente. Toda a sua concentração estava à espera de algum comentário acerca de tudo o que contara.

-Consigo compreender a situação em que tu e Hermione se encontram no meio de tudo isto, no entanto, a Ordem não pode ficar sem espião neste momento.

Snape levantou uma sobrancelha e os seus olhos negros espelharam intensidade. Não esperava que Dumbledore dissesse precisamente aquilo… Como podia estar o velho director de acordo com a entrega de um possível filho seu ao lado do Lord das Trevas? Não, Dumbledore não poderia sugerir tal coisa… era ilógico… patético até. Ele não faria isso. A modéstia nunca for a o seu forte, sabia que a Ordem dependia muito dele, mas já se tinha arriscado muito por ela. Aquilo não iria fazer. Tinha muitos defeitos, mais defeitos do que propriamente virtudes mas nunca seria capaz de condenar um filho seu à morte.

-Não tires conclusões precipitadas. – declarou Dumbledore depois de um minuto de silêncio. – Pode ser injusto e tanto tu como Hermione têm liberdade para não aceitar, apenas quero que penses no que significará revelares já o lado da guerra que verdadeiramente apoias. Nunca seria capaz de entregar alguém a Tom e tu sabes isso, Severus. O que eu peço é que sigas o plano de Voldemort no que diz respeito a teres um filho e assim fornecer-nos mais nove meses para encontrar alguém que possa fazer o teu lugar no meio dos Devoradores. Se renunciares o teu papel de espião já então ficaremos algum tempo sem saber o que planeia o outro lado.

-Então queres que eu tenha um filho com a Gryffindor para poder espiar o Lord durante mais algum tempo.

-Exacto. Mas é claro que não entregaremos o teu filho nem ninguém a Tom. Trata-se de conseguir tempo, o que é muito importante para nós. Harry precisa de preparar-se melhor e a nossa obrigação é ajudá-lo nos que podermos.

Harry Potter. O futuro de todos nas mãos de um incompetente! Tinha de se arriscar tanto para algo no qual não acreditava muito. Mas… mas não era por Harry que durante tantos anos aguentara a dupla vida que tinha… foi por ela… por Lily.

-Sim, é o mais certo a se fazer. – afirmou com a indiferença Slytherin em que era especialista.

-Mais alguma coisa te preocupa?

Claro que sim!

-Não. – respondeu.

-Óptimo! Acompanhas este pobre velho num chá?

-Lamento Albus mas tenho muita coisa para fazer, sabes como é… muitas negativas para dar.

A verdade é que não queria passar mais algumas horas naquela sala a falar do maravilhoso que eram os doces.

-Oh, que pena. Convidarei a Minerva então. – declarou Dumbledore. – Nunca os posso convidar ao mesmo tempo senão o mais certo é ficar sem nada "inteiro" no meu estimado gabinete. Quando resolverão as vossas diferenças?

Snape fingiu meditar.

-Não as vamos resolver. Pedir uma coisa dessas é absurdo e tenho a certeza que Minerva lhe dirá a mesma coisa.

-Certo. – declarou Dumbledore risonho.

-Adeus director. – despediu-se Snape.

-Adeus… tem um bom dia.

Pois, claro… um bom dia. Como se os milagres existissem. Afastou-se até à bendita porta desejoso de a ultrapassar. Quanto mais tempo passasse com Dumbledore mais probabilidades tinha de ser vítima dos comentários enigmáticos do director e se encontrava ainda com menos paciência do que o normal para os tentar resolver.

-Ah e Severus, tenta ser um pouco mais justo nas classificações dos Gryffindor.

Snape dedicou-lhe um sorriso arrogante e saiu.

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Hermione observou Lucius Malfoy a afastar-se e saiu detrás da estátua. Malfoy tinha-se escondido do próprio pai. Muito estranho. Ali havia gato… Riu para si. Ainda utilizava expressões muggles, o que era normal, tinha sido criada como uma.

Draco Malfoy sempre tinha falado do pai com orgulho. Não perdia uma oportunidade para demonstrar que o seu pai era poderoso e que podia ter tudo o que desejasse. No entanto, naquele momento Malfoy não parecia muito contente por o ter visto. Observava a figura imponente de Lucius Malfoy a afastar-se pelo corredor, com as sobrancelhas franzidas e Hermione reparou ainda como enterrava as unhas nas palmas das mãos. Sim, alguma coisa se estava a passar entre eles os dois.

-Podes explicar-me o que acabou de ocorrer? – perguntou.

O loiro olhou para ela com superioridade e deu um sorriso irónico.

-Desde quando tenho de dar explicações a alguém, e mais… desde quando tenho de dar explicações logo a ti? – replicou ao mesmo tempo que alisava o seu uniforme.

-Desde que me "atiras" para trás de uma estátua. Olha Malfoy eu sei que não tenho nada a ver com a tua vida mas…

-Ainda bem que reconheces isso. – disse o loiro preparando-se para andar.

Não tinha esperado outra coisa. Sabia que ele não lhe contaria nada, era algo básico. E, além do mais, não era assunto seu. Tinha mais coisas para fazer do que estar ali na companhia de um loiro arrogante que destruíra o coração de Ginny.

-Sinceramente não imagino como Ginny pode ter-se apaixonado por ele. – murmurou para si.

-O que é que disseste? – o loiro parou de andar e Hermione mordeu o lábio inferior.

E agora? Ele a tinha ouvido!

-Na.. nada, não disse nada. – respondeu.

-Não sou como os teus "queridos" e estúpidos amigos. O que é que te contou Ginny? – o seu tom era ameaçador e Hermione engoliu em seco.

-O que se está a passar aqui?

Uma voz grave fez Hermione virar-se. Nunca ficou tão contente em ver o seu professor de Poções. Estava com os braços cruzados e uma expressão questionadora. Todo ele era intimidador, Malfoy ao seu lado não passava de um principiante.

-Estávamos a ter uma pequena conversa "amigável". – quem respondeu foi Malfoy.

Snape analisou Draco durante uns segundos e depois assentiu com a cabeça.

-Mesmo assim, o corredor em frente aos meus aposentos não é um lugar para se manter conversas… amigáveis. – afirmou com um tom sarcástico. – Dez pontos a menos para os Gryffindor.

-Dez pontos? Mas eu não fiz nada de mal! E porque só me tirou pontos a mim? – Hermione odiava perder pontos e mais quando eles eram tirados injustamente.

-Não questione as minhas decisões. – declarou Snape de uma forma que não admitia réplicas. – E senhor Malfoy, aconselho-o a não perder a primeira aula.

Malfoy ainda olhou mais uma vez para Hermione mas concordou com a cabeça.

-Sim, tem razão professor Snape.

Quando Malfoy desapareceu do seu campo de visão Hermione lembrou-se do que a levara até ali e retirou o pergaminho de dentro do manto e em seguida encarou o seu professor.

-É melhor ver isto. – disse, esticando o pergaminho em direcção a Snape para que este o aceitasse.

Snape olhou para o pergaminho mas não deu qualquer intenção de o aceitar. Andou uns passos, sussurrou umas palavras e a porta, em frente à qual tinham estado parados, abriu-se.

-Entre. – ordenou secamente.

Já lá tinha entrado uma vez mas nessa ocasião não tinha reparado em como os aposentos de Snape eram um lugar que se podia considerar acolhedor. Parecia um escritório e ao mesmo tempo uma sala de estar com dois sofás negros e de aspecto confortável virados em direcção a uma lareira. Também havia uma secretária cheia de pergaminhos e livros abertos, um pequeno bar e uma estante com livros de variadas formas e cores. Ao fundo encontrava-se uma porta que Hermione supôs tratar-se do quarto do seu professor.

-Espero que tenha gostado. – disse uma voz atrás de si.

Hermione deu conta que observava tudo ao seu redor com atenção e corou.

-Sente-se. – Snape fez um gesto em direcção a um dos sofás e Hermione sentou-se. – Então o que me queria entregar?

Snape dirigiu-se ao bar, serviu-se de um pouco de whisky de fogo e quando voltou para perto de Hermione esta lhe entregou o pergaminho suspeito.

-Encontrei-o na minha cama hoje. – disse.

-Alguém quer brincar connosco. – Snape suspirou e apontou a varinha ao pergaminho. – Não tem nada estranho, é um pergaminho normal escrito com uma tinta completamente normal. Desconfia de alguém do seu dormitório?

Hermione pensou durante uns momentos e chegou à conclusão que nenhuma das raparigas com quem partilhava o dormitório seria o culpado. Não havia razão para que elas lhe fizessem uma coisa daquelas. As únicas palavras que trocava com elas era "bom dia" e "boa noite" às vezes nem isso… Não as conhecia nem elas a conheciam. E nunca lhes tinha feito algo de mal. O que poderiam ganhar com o seu casamento com Snape?

-Não. – acabou por dizer.

-Se não é nenhuma delas como explica o pergaminho precisamente na sua cama? – Snape deu um gole. – Alguém o colocou lá.

-Isso não prova nada. Poderia ter sido qualquer pessoa, professor. O culpado poderia ter simplesmente pedido que alguma das minhas colegas colocasse o pergaminho em cima da minha cama. Ou então, se se tratar de uma rapariga, poderia ter colocado o pergaminho ela mesma na minha cama sem que para isso ter de partilhar o mesmo dormitório que eu.

-Mesmo assim teremos de interrogar as raparigas com quem divide o dormitório. Apesar de acreditar que aquele que nos meteu nesta situação seja alguém com inteligência suficiente para não se dar a conhecer a ninguém. Caso nenhuma das suas amigas ter colocado o pergaminho em cima da sua cama então teremos de recorrer a alguma outra alternativa para descobrir o culpado.

-Acha que o culpado é alguém da minha casa? – inquiriu Hermione de repente.

Snape olhou para ela com curiosidade.

-Ao princípio quis acreditar que se tratava de um Gryffindor mas agora não tenho tanta certeza. Não acredito que tenha sido um Hufflepuff e o motivo é lógico: são demasiado estúpidos para organizarem tudo isto. Quanto aos Ravenclaw penso que o que lhes importa é mesmo estudar e respeitam os professores acima de tudo, não creio que tenha sido um deles.

-O que só nos resta os Gryffindor e os Slytherin. – elucidou Hermione.

-Sim. – concordou Snape. – Mas dos Slytherins me encarrego eu, sei o que vou fazer para saber se foi ou não um dos meus.

Hermione sentiu curiosidade. O que estaria a tramar Snape? Alguma coisa tinha preparado, não era um homem que dizia as coisas só por dizer. Parecia alguém tão forte. Será que era capaz de sentir medo? Sabia que a vida dele não era das melhores. Vivia no limite e um passo em falso significaria a morte. Como era viver sem saber se o seguinte instante seria o último? Harry tinha a ameaça de Voldemort nas suas costas mas tinha amigos que eram capazes de o protegerem com as suas vidas. Quanto a Snape isso não se passava… Ele era um dos que arriscavam a sua vida pelo seu amigo. Melhor, ele arriscava a sua vida por alguém que odiava.

Deveria sentir-se muito sozinho. Agora compreendia porque era sempre cruel com os demais. Ninguém o valorizava, muito pelo contrário, sempre o desvalorizavam e criticavam. Como poderia ele dar um sorriso verdadeiro se a sua vida não lhe dava motivo para isso? Hermione abanou a cabeça. O que estava a sentir por Snape? Pena?

-Importa-se de voltar à realidade ou é pedir muito?

-Desculpe, distrai-me.

-Diga-me algo que eu não saiba. – ironizou Snape.

Hermione decidiu ignorar o comentário e deu consigo a contemplar o seu professor. Decididamente não estava normal nesse dia. Porque tinha de o observar tão minuciosamente afinal de contas? Aquilo era estranho… Era melhor concentrar o olhar em algum outro ponto. Sim era melhor.

-Quanto estaria disposta a fazer pela Ordem? – inquiriu Snape mudando radicalmente de assunto.

Tinha de abordar o assunto do filho em alguma ocasião e já que ela estava ali, porque não aproveitar? Não tinha muito jeito para comunicar coisas daquele género e era sempre de forma fria e crua que dizia as coisas, mas isso não lhe parecia uma boa ideia nesse momento. O objectivo era fazer com que ela aceitasse e o assunto já de si era complicado. Como dizer-lhe que pelo bem de todos deveriam ter um filho? Como dizer-lhe que teriam de ter relações sexuais se ela nem sequer o suportava?

Aquela pergunta apanhou Hermione de surpresa. Não é que fosse algo sobre o qual nunca tivesse pensado mas… Se Snape lhe perguntava aquilo era porque esperava alguma coisa dela. E isso era assustador… não, na realidade era aterrador. O que levaria o seu professor a perguntar-lhe algo semelhante?

-Isso é uma pergunta difícil. Se me tivesse perguntado o que seria eu capaz de fazer por Harry, responderia que por ele sacrificaria a minha própria vida mas quanto à Ordem… A verdade é que não pertenço a ela e, como tal, não sei como funciona. Posso não concordar com certas decisões que a Ordem tenha tomado… Como me pode perguntar o que faria por uma coisa sobre a qual pouco sei?

-Ora, não se faça de inocente! Sabe perfeitamente que o objectivo máximo da Ordem é proteger o idiota do Potter! – Snape posou o copo em cima de uma mesinha no meio dos sofás e subiu o tom da voz. Pelos vistos não havia maneira de tratar aquele assunto com delicadeza.

-E a que custo? Tratam o Harry como uma criança que não sabe decidir o que é melhor para ele! Mantêm-no na ignorância quando o mais certo a se fazer é informar-lhe do que se passa ao seu redor. Ele é quem vai decidir o destino de todos nós! Como pode ele vencer se não lhe dizem tudo o que ele precisa saber?

-Como pode ser tão egoísta?

Hermione ficou sem saber o que dizer. Talvez tivesse exagerado. Durante os últimos dias a sua vida tinha mudado de rumo drasticamente e tudo isso estava a afectar a sua forma de raciocinar. Estava a ser injusta, tinha consciência disso. Talvez estivesse com medo de se arriscar. Talvez fosse uma cobarde! Sentiu os olhos a arderem. Snape tinha razão. Estava a ser egoísta. Os membros da Ordem eram capazes de tudo para que Voldemort e os seus seguidores não fizessem coisas piores do que as que já faziam. Não concordava sobre ocultarem coisas de Harry mas se calhar o faziam com um propósito… Se não fosse a Ordem a realidade era bem pior. O próprio Snape morreria para salvar o seu amigo…

-Tem razão. Desculpe. – declarou pausadamente e com arrependimento enquanto fixava os sapatos sem se atrever a olhar novamente o seu professor. – Eu… eu faria qualquer coisa se isso ajudar Harry. Ele já sofreu muito e eu… eu sou sua amiga… quero o melhor para ele. Não me quero arrepender por não ter feito tudo para o ajudar.

Snape suspirou e as suas feições se suavizaram.

-Mesmo se isso significar termos um filho?

-Ter um… um filho? Mas… Não estou a perceber.

Dizer que o que sentia era confusão, era dizer pouco. Como assim? De que maneira ter um filho com Snape ajudaria a Ordem? Qualquer coisa ali não encaixava, não fazia qualquer sentido. O impacto era tão grande que nem sequer conseguia pensar com coerência.

Snape contou toda a conversa com o Lord e os conselhos de Dumbledore. Também referiu que ela não era obrigada a aceitar nada que não quisesse pois ter um filho era um assunto muito sério.

-Mas eu sou muito jovem ainda. Não estou preparada…

Sentiu uma coisa estranha no estômago. À sua frente não estava a Gryffindor insolente que pensava saber tudo, que gostava de ter sempre razão, que era irritantemente madura demais para a sua idade. Não, à sua frente encontrava-se uma rapariga assustada, frágil, resignada… que contorcia as mãos enquanto deixava o cabelo ocultar-lhe os olhos.

Snape levantou-se do sofá onde permanecia sentado enquanto conversava e aproximou-se de Hermione. Queria a proteger… por algum bizarro motivo não a queria ver assim. Estava com medo dele próprio, de verdade estava mesmo muito assustado com o que ia fazer mas… Aquilo era o que tinha de fazer. Ajoelhou-se em frente à sua sabe-tudo e num impulso expontâneo abraçou-a.

Hermione surpreendeu-se quando sentiu uns braços a rodearem-na e a puxarem-na em direcção a outro corpo. Snape a estava a abraçar? Não queria pensar no que significava aquilo, não queria pensar em nada. Só sabia que se sentia bem sendo abraçada por ele. Era estranho mas, mesmo assim, era verdade pura. Queria ficar assim durante muito tempo… entre aqueles braços não teria de se preocupar por nada. Deixou escapar um soluço. Tentou impedi-lo mas eram tantas mudanças que vivia, tantos problemas que não aguentou mais. Outro soluço seguiu-se ao primeiro e depois outro e outro… e as lágrimas acabaram por cair também.

Snape passou uma mão pelas costas de Hermione, acalmando-a.

-Ninguém a está a obrigar a fazer nada, tem todo o direito a não aceitar. – repetiu mas desta vez com uma voz longe de ser fria. - Trata-se da sua vida… da nossa vida.

Hermione afastou-se, limpou as lágrimas e sorriu. O sorriso era triste. Tinha tomado uma decisão, só esperava não se arrepender depois.


Aí está o 9º capítulo… espero que tenham gostado! Obrigada por lerem e também por deixarem reviews, claro!

Quanto às grandes demoras em postar… pois… eu realmente tento, juro que tento mesmo não demorar muito tempo, mas há sempre tanta coisa para se fazer que vou adiando e adiando… Também admito que a minha inspiração não é das melhores por isso passo minutos atrás de minutos em frente a uma página do Word totalmente em branco!