Capítulo 8
Meu corpo estava impregnado com cheiro de canela e pimenta, eu gostei disso. Edward, seu filho da puta. Por que não me contara que era possível beijar um vampiro com tanta vontade? Por que não me mostrara o que é beijar de verdade? Agora a única coisa que eu penso, não é em seus olhos dourados ou em seu cabelo cor bronze, é no corpo de Demetri contra o meu.
Com esses pensamentos, adormeci.
[...]
Estava no meu quarto lendo um livro que peguei na biblioteca, sentada na cama, com os cobertores até a cintura. A lareira estava acesa e o cômodo estava quente. Agradeci por isso. Vestia uma camisola preta de renda. Ouvi uma batida na porta. Seria Gianna com meu jantar? Mandei entrar. Demetri entrou no quarto silenciosamente e se postou em frente à minha cama. Tudo bem, isso era novo. Fechei o livro e observei. Ele me olhava com olhos tranqüilos. Vestia o manto preto de sempre, com o capuz jogado para trás. Perguntei o motivo da sua presença.
- Aro pediu que eu a recompensasse pelo trabalho feito hoje com os vampiros sulistas.
Ele abriu o manto. Demetri estava nu. Olhei-o, não podendo acreditar no que via, desci meus olhos para seu corpo e meu queixo caiu. Balbuciei alguma coisa sem sentido. O manto caiu no chão e o sorriso torto dele voltou. Os olhos escureceram. Eu engatinhei até a beirada da cama. Ouvi uma batida na porta. Ele olhou para mim.
- Não atenda.
Mas a batida era constante, e muito alta. Parecia que vinha de outra dimensão...
[...]
Abri os olhos assustada. Já era dia. Estava toda suada. A batida na porta continuava.
- Entre.
Gianna entrou com a bandeja, como sempre.
- Bella? Está toda suada e demorou a abrir a porta. Você está bem?
- Eu estou bem, só dormi pesado, estava tendo um pesadelo.
Pesadelo. Essa foi boa. Repeti isso mentalmente para mim, várias vezes, tentando me convencer de que não havia gostado. Peguei a bandeja com meu almoço. Viver com vampiros era muito ruim. Você dormia muito de dia e pouco à noite. Não sei por que. A movimentação do castelo era constante à noite. Devia ser pelo fato deles não poderem sair no sol em Volterra.
- Aro solicitou sua presença hoje.
Estremeci. Já? Achei que não seria a boneca de Aro tão cedo. Comecei a formar na minha mente imagens de vampiros de olhos vermelhos e poderosos tentando me machucar com seus dons cruéis. Mas tudo bem. Eu precisava de distração. O beijo com Demetri estava na minha cabeça. Eu só conseguia pensar no seu corpo frio, nos seus cabelos sedosos, no seu sorriso maldoso. O que estava acontecendo comigo? Eu não conseguia mais pensar no beijo de Edward, aquele beijo ridículo e cauteloso. Apenas no beijo voluptuoso de Demetri.
- Bella?
A voz de Gianna me acordou dos meus devaneios. Eu teria muito tempo para pensar nisso. Levantei e fui tomar um banho. Mudei de roupa. Gianna me esperava no sofá.
- Coloque isso.
Era um manto preto. O porquê de vesti-lo eu ainda iria descobrir. Segui Gianna até a sala branca e entrei. A sala estava cheia. Aro estava conversando com Caius e Marcus. Seu rosto era de concentração. Tinha dois vampiros na entrada e vários perto dos tronos. Percorri a sala com meus olhos, mas não vi Demetri. Ainda bem. Corar era a última coisa que eu queria em uma sala cheia de vampiros.
- Bella! Boa tarde, querida!
Aro vinha flutuando em minha direção. Engoli em seco. Eu detestava quando ele caminhava assim. Ele pegou minha mão e abriu um sorriso para mim.
- Frustrante, mas instigante. Bella, você se lembra quando lhe falei sobre os recém criados?
Assenti tornando a passar os olhos pela sala.
- Não tem nenhum aqui, querida. Creio que quando você vir um, irá reconhecer a diferença. Mas estamos esperando Demetri e Felix. Alec e Jane já estão na outra sala nos aguardando.
Eu não fazia idéia do que ele estava falando. Mas meu coração acelerou ao som do nome de Demetri. Perguntei-me novamente o que estava acontecendo de errado comigo.
- Aro, por que exatamente me chamou?
Aro olhou para mim pensativo. Sentia que ele estava medindo as palavras que ia me dizer no momento que abrisse a boca. Essa era nova. Aro nunca media suas palavras. Depois de observar que eu gemia demais na parte da noite, eu não me assustava com mais nada.
- Bella. Poderíamos falar quando saíssemos da sala? Caius e Marcus já estão de acordo, mas creio que os vampiros presentes não precisam escutar o que eu tenho a dizer.
Assenti. A porta se abriu e Demetri e Felix entraram. Usavam roupas pretas com os colares de sempre e os mantos. Isso me fez lembrar do sonho. Corei sem Demetri sequer ter chegado perto de mim. Aro me olhou de relance. Conversava com Demetri baixo e rápido demais para qualquer ouvido humano escutar. Comecei a ficar nervosa. Aro olhou para Marcus e Caius. Eles acenaram com a cabeça.
- Me acompanhe Bella. Sim?
Segui Aro até a porta da sala. Vi que Demetri e Felix estavam atrás de mim. Eu andava de cabeça baixa. Achei estranho, nunca havia visto Aro fora da sala branca. Ele parou em frente a uma porta enorme de madeira escura e a abriu. Entramos em uma sala completamente diferente da que tínhamos saído.
Essa era aconchegante. Parecia um escritório. Possuía muitos tapetes e livros. As paredes eram cobertas de um veludo escuro. Parecia que era à prova de som, muito útil para quem precisa de uma conversa particular, sem vampiros com ouvidos afiados do outro lado da porta. Vi uma escrivaninha dourada e várias poltronas. Jane e Alec estavam no fundo da sala conversando, mas logo se calaram quando Aro entrou. Ouvi o estalo da porta se fechando.
Demetri passou por mim e eu senti o cheiro de canela. Meu coração se acelerou. Merda! Eles perceberiam tal reação no meu corpo. Demetri e Felix se postaram atrás de Aro e eu podia jurar que tinha visto sua boca se curvar milimetricamente para rir. Ele olhou para mim. Todos na sala olhavam para mim. Eu não estava entendo nada. De certa forma, a sala parecia menos aconchegante do que quando entrei.
- Bella, creio que pelo fato da família Cullen nunca ter cogitado a possibilidade real de te transformar, eles não lhe mostraram como se comporta um recém criado. Correto?
Assenti.
- Nós em Volterra temos algumas regras básicas. Você quando se tornar um membro Volturi estará ciente de todas elas. Como controlamos a sociedade vampírica, temos que dar um bom exemplo. Veja Bella, quando percebemos um humano que pode ter potencial para se tornar vampiro, a partir do dia que ele é transformado, ele passa a ser controlado por nós e seguir nossas regras.
Comecei a entender o porquê da minha presença na sala.
- Mas com você, teremos um pequeno problema. Com base em estudos e casos já vistos, você tem grande potencial parar se tornar um vampiro com o dom de criar um escudo. Eu tenho quase certeza de que será mais poderoso do que o de Renata. Quando ela era humana, não conseguiu bloquear Jane nem Demetri de qualquer modo.
Não entendi o porquê do problema em me tornar vampiro.
- Bella, quando você se tornar vampira, sua força vai ser gigantesca, você não terá a habilidade de controlá-la, nem de controlar sua sede por sangue. Sua garganta vai arder mais do que o normal por meses. Mas o problema Bella, é que se você não fosse imune, com um rápido olhar de Jane, poderíamos te controlar.
Entendi. Eu me tornaria vampira. Mais forte que Felix, e nada me atingiria. Comecei a pensar nas possibilidades, isso seria trabalhoso. Com minha sede fora do controle, eu poderia matar muito. Estremeci com a idéia. Será que não tinha uma floresta para eu caçar animais perto de Volterra?
- Bella, se você quiser seguir uma dieta igual à dos Cullen, eu não vou te impedir, apesar de achar que isso é tolice. Mas se você quiser se alimentar de sangue humano, teremos que te controlar de alguma forma. Eu estou selecionando a guarda mais forte para lhe acompanhar na sua primeira caçada, sendo essa à procura de animais ou humanos. Você não poderá ficar na sala branca quando Heidi chegar, seus sentidos estarão aguçados e você irá sentir o cheiro de sangue rápido, atacará antes do previsto, e as conseqüências seriam caos e medo antecipados. Não queremos isso. Como deve saber, nós não caçamos perto de Volterra. Então teria que ser algo perto e rápido. Com você fora do controle, poderá matar muitas pessoas dentro dos limites da cidade, e se isso tomar proporções grandes, eu vou autorizar a guarda a interferir.
Eu já estava desistindo de me tornar vampira.
- Você passará por várias fases enquanto humana. Você verá como nos alimentamos, quando Heidi chegar com uma nova caçada. Você verá como um recém criado se comporta, Demetri e Jane estão encarregados disso. E alguém lhe ensinará nossas regras e leis, para quando for vampira, não ficar totalmente sem orientação. Já nos basta um escudo, um recém criado sem regras seria inaceitável. E eu não toleraria isso.
Eu perdi minha voz. Apenas pelo fato de que eu não queria estar na sala branca quando os vampiros estivessem se banqueteando. Eu não suportaria ver Demetri ou qualquer um da guarda drenando alguém. Mas eu teria que encarar isso, afinal. Edward drenava pobres cervos, certo? Eu sabia que não era a mesma coisa, seres humanos, vidas sagradas e tudo isso. Mas eu acho que conseguiria encarar uma rápida visita a um recém criado. As regras eu já estava ciente de algumas, mas deveria haver muitas. Depois de pensar sobre isso tudo, apenas uma pergunta pairava na minha cabeça.
- Aro, quando me transformará?
- Ah Bella! Não se preocupe. Eu ando ocupado. Os sulistas já estão saindo do controle. E passar por essas fases é bem difícil, eu sei. Eu não vou te transformar enquanto não estiver preparada, querida.
Assenti. Isso era bom. Ser forçada a me transformar seria muito ruim. Eu sentiria falta das massas no jantar e das noites longas na minha cama gigante. Por outro lado seria legal meu coração não saltar até a boca quando Demetri me olhasse. E como eu não dormiria, adeus pesadelos. Sim, definitivamente eu era a favor da transformação. Mas pelo que Aro me falou, eu teria que passar por muita coisa.
- Pode ir Bella. Gianna está esperando-a fora da sala para te levar ao quarto. Creio que não gostará de andar pelo castelo hoje. Os corredores estão cheios. Queremos evitar seu desconforto, certo?
- Claro.
Eu não ficaria feliz de encontrar diversos pares de olhos vermelhos me fitando com curiosidade em todo corredor que entrasse. Gesticulei e saí da sala, encontrando com Gianna.
- Reunião tensa, certo?
Olhei para Gianna, ela sorria. Eu realmente nunca tinha visto uma humana tão bonita, às vezes eu esquecia de que ela era humana.
- Você está azul Bella, respire.
Lembrei-me de respirar. Gianna parou na familiar porta do meu quarto e abriu.
- Alguém virá entregar o jantar. Estarei ocupada recebendo alguns vampiros que chegarão a Volterra.
Assenti. Entrei no quarto e deitei na cama, relaxei, olhando para o teto. Contabilizei os fatos do dia. Eu me tornaria vampira. Ninguém conseguiria me controlar por eu ser imune a todos. Eu iria ver um recém criado pela primeira vez. Eu estudaria regras e leis dos Volturi. Eu teria muita sede. E depois de pensar um pouco nisso tudo, o que mais me intrigava era o fato de Demetri não ter me olhado diferente hoje na sala. Nem feito brincadeiras.
Será que o beijo fora ruim para ele? Ou era algo tão corriqueiro que não fazia diferença? Se isso era um assunto que incomodava mais do que minha transformação, já estava ficando muito preocupante.
