A semana de provas tinha finalmente chegado ao fim. Apesar do conteúdo consideravelmente fácil das primeiras provas do ano, acho que eu podia afirmar que todo mundo no colégio estava aliviado. Eu não era uma exceção. Era maravilhoso poder voltar a conversar descontraidamente sobre assuntos banais durante o almoço, não ter que chegar em casa querendo dormir, mas sabendo que você tem ainda muita coisa para estudar e não ter que lidar com o nervosismo na manhã da prova.
James, porém, não parecia ficar nervoso nunca. Nós tínhamos desenvolvido um tipo de tática de estudo – o qual se consistia em um jogo de perguntas e respostas sobre o conteúdo no café da manhã e no caminho da escola – que servia tanto para testar o que nosso conhecimento para a prova quanto para suprimir minha ansiedade.
Certo, eu tinha que admitir que as coisas estavam meio estranhas entre eu e James depois de todas as humilhações que eu tinha me submetido na sua frente. Entretanto, nós tínhamos conseguido agir como nada tivesse acontecido. James tinha obtido mais sucesso, é óbvio, já que eu ainda corava cada vez que pensava no assunto. Nós estávamos cada vez mais acostumados com a presença constante um do outro e, consequentemente, mais próximos.
Marlene e eu também parecíamos estar mais próximas depois da nossa conversa de algumas semanas atrás. Eu ainda não tinha conseguido arrancar dela o que quer que estivesse acontecendo entre ela e Sirius, mas com certeza com a ajuda do James eu atingiria meu objetivo. Por mais que eu não achasse que ela iria falar tão fácil, não custava tentar extrair alguma coisa.
- Então... – falei, enquanto nós duas caminhávamos em direção ao refeitório distraidamente. – Você e o Sirius.
Marlene revirou os olhos, prevendo onde eu pretendia chegar.
- Hum – murmurou e pegou o celular, fingindo não estar prestando atenção, quando eu sabia que, na verdade, estava.
- Você tem falado com ele? – perguntei, no tom mais inocente que consegui.
- Sobre o que, exatamente?
- Sei lá – falei, dando de ombros. -, sobre as provas, sobre música, sobre a obviedade da sua paixão incondicional por – ouch! Pra que tanta violência?
Marlene sorriu angelicalmente para mim, como se nem tivesse acabado de chutar minha canela com mais força do que eu imaginava ser possível para alguém tão pequena, e fez um sinal discreto (ou pelo menos tão discreto quanto Marlene conseguia ser) com a cabeça para trás.
Era óbvio que Sirius estava em algum lugar atrás de nós. Não perto o suficiente para que Lene interrompesse minha frase na parte mais comprometedora, mas o suficiente para que me desse um aviso.
- Não fique nervosa – sussurrei para ela, sorrindo. – Talvez ele ainda não tenha percebido.
Eu já estava preparada para o seu chute dessa vez.
Nós pegamos comida e sentamos na nossa mesa de sempre enquanto eu continuava provocando Lene e continuava sendo ignorada. Nada além de um dia comum. Severus provavelmente sentaria conosco, como fazia normalmente, mas hoje ele estava na biblioteca ajudando uma garota da sua classe de biologia ou algo do tipo.
- Você conhece essa garota que Sev está ajudando? – perguntei, desistindo do assunto Sirius. Por hoje, é claro.
- Yep, a Gio. Ela faz cálculo comigo – Marlene sorriu maliciosamente. – Eles estão saindo, você não sabia? Ouvi ela comentando com algumas amigas.
- Se eles estão saindo, porque Severus não nos falou nada? – perguntei, franzindo a testa. Eu não era exatamente o tipo de amiga super ciumenta, mas seria legal saber quando o seu melhor amigo de infância está com alguém.
Lene bufou.
- Não sei, talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de que a gente não ia largar do pé dele se ele contasse – falou sarcasticamente.
Sorri para ela.
- É por isso que você não quer me contar sobre Sirius? – eu perguntei, levantando as sobrancelhas sugestivamente.
Ela só revirou os olhos para mim e voltou a comer. Certo, a estratégia de insistir até que ela falasse não iria funcionar. Suspirei, tentando pensar em outra coisa que eu pudesse fazer para descobrir o que ela não estava me contando.
Quando olhei de volta para Lene, notei que ela estava comendo rápido. E quando eu digo rápido, eu quero dizer numa velocidade que antes eu não achava humanamente possível. Marlene sempre comia rápido - ela fazia tudo rápido, na verdade -, mas nunca daquele jeito. Metade de seu prato já estava vazio e nós tínhamos acabado de pegar a comida.
Apertei os olhos na direção dela.
- Posso saber por que você está com tanta pressa? – perguntei, desconfiada.
Marlene corou levemente, mas sorriu como se estivesse animada para alguma coisa.
- Tenho que ir para a biblioteca – disse e acrescentou quando viu minha cara: - Fazer uma pesquisa. Para um trabalho. Sabe como é.
Ela desviou o olhar de volta para a comida.
- Eu posso te ajudar – falei, ainda desconfiada. -, se você quiser.
Lene olhou para mim enquanto mordiscava o lábio.
- Eu ia adorar, claro – falou, mas começou a levantar. – Mas sabe o que é? Eu preciso ir agora e você nem comeu quase nada.
Franzi o cenho.
- Mas... você nem terminou de comer e-
- Lils, depois a gente conversa – ela me cortou. – Eu realmente preciso ir agora. Desculpa por te deixar sozinha.
Então ela saiu quase correndo, antes que eu tivesse a oportunidade de falar mais alguma coisa.
Eu fiquei entre a vontade de seguir ela e, bom, terminar de comer. É claro que eu estava muito curiosa sobre o que ela estava indo fazer e até um pouquinho ofendida por ela ter me abandonado, mas eu também estava faminta. Suspirei e me voltei a comida. Talvez ficar um pouco sozinha não fosse tão ruim, era até meio relaxante.
Já estava puxando um livro da mochila quando alguém sentou do meu lado, seguido por mais duas pessoas. Levantei a cabeça para encontrei James sorrindo para mim e fazendo meu estômago revirar por causa do nervosismo irracional que ele me fazia sentir sempre que aparecia.
- Parece que você foi abandonada – disse ele, puxando sua cadeira mais para perto de mim.
- Parece que você veio me fazer companhia – falei, levantando uma sobrancelha, e James riu.
Alguém pigarreou. James e eu nos afastamos na mesma hora e por um momento eu pensei ter visto uma sombra de embaraço no seu rosto. Minha imaginação, é claro. James Potter nunca ficava minimamente envergonhado, nunca.
Voltei minha atenção para as duas pessoas que estavam sentados na minha frente. Eu conhecia o garoto apenas de vista, já que ele sempre estava com James e até tinha aparecido lá em casa uma vez, mas pela expressão corporal, eu conseguia deduzir que a garota era sua namorada.
- Lily – disse James -, esses são Remus e Emmeline.
Sorri para eles, mas Emmeline não parecia estar prestando atenção. Na verdade, ela tinha seus olhos fixados no meu livro, que no caso era mais uma obra da Jane Austen.
- Meu Deus – falou ela, levantando os olhos e sorrindo para mim. – Eu amo Jane Austen. Você já leu?
- Sim – falei, rindo da empolgação dela. –, só trago ele para escola para reler quando eu estou entediada.
- É, eu entendo – ela riu. Eu tinha achado que Emmeline poderia ser uma daquelas garotas que tinham cara de anjo, mas na verdade não passavam de uma grande vadia, mas eu mal a conhecia por dois minutos e já estava gostando dela. – Sempre tenho um desses na bolsa.
A partir daí a conversa se voltou totalmente para o meu assunto favorito: livros. Remus e Emmy eram muito mais legais do que eu poderia ter imaginado e quando o sinal tocou anunciando o fim do intervalo, eu sentia como se não tivesse passado mais de cinco minutos.
Eu estava quase deixando a mesa quando percebi uma coisa.
- Ei, James – falei, andando no lado dele, mesmo sabendo que deveria ir para a outra direção, assim como Remus e Emmeline. – Sirius não deveria estar com vocês?
Ele deu de ombros.
- Ele disse que precisava ir fazer alguma coisa – disse, parando de andar. – Só pegou alguma comida e foi embora.
E então ele viu minha expressão.
- Marlene não está com o Snape?
- Nope – falei, estreitando os olhos. – Ela disse que ia para a biblioteca, mas não quis que eu fosse junto.
Um sorriso malicioso se formou no seu rosto.
- Tive uma ideia.
James demorou menos de cinco minutos para me convencer a ir procurar por Lene e Sirius no colégio. Deveria ter sido mais difícil, considerando a minha constante relutância a perder aulas, mas alguma coisa na sua voz ou talvez na sua animação quase infantil fez com que eu aceitasse sem muita dificuldade.
E, é claro, eu me arrependi alguns minutos mais tarde. James não lembrava qual era a próxima aula de Sirius após o intervalo, então nós ficamos perto da sala onde eu sabia que Lene deveria ir assim que tocasse o sinal, tentando não chamar muita atenção. James também era melhor do que eu nisso, enquanto eu tinha que me controlar para começar a roer as unhas de ansiedade.
Eu queria desistir assim que os corredores começaram a ficar realmente vazios e nós pudemos ter certeza que Marlene estava de fato faltando aula.
- Sabe, talvez ainda dê tempo de a gente voltar para aula – murmurei, enquanto a gente se dirigia para o segundo andar. James me ignorou.
Olhei para trás pela décima vez para ter certeza de que Filch, o zelador, não estava por perto. Ele era conhecido por colocar alunos em detenção por qualquer motivo e nós estávamos, definitivamente, dando um motivo.
- Onde nós estamos indo, de qualquer maneira? – perguntei, ainda aos sussurros, sabendo que James nunca ia desistir.
Ele revirou os olhos para mim.
- Você sabe que não precisa sussurrar, não é? – ele riu, alto demais para o meu gosto. – Parece que você nunca fez algo errado na vida.
Desviei os olhos dele para os meus sapatos, em silêncio.
- Espera, você não fez? – falou James, parando de andar e virando para mim. Eu continuei em silêncio, evitando olhar para ele. Então ele riu da minha óbvia falta de experiência nesse tipo de coisa. Lancei um olhar ofendido para ele. – Por favor, Lily, me diga que você já pegou pelo menos uma detenção na sua vida.
Foi minha vez de revirar os olhos.
- Qual o problema de me manter longe de problemas? – perguntei dando de ombros. James só riu e balançou a cabeça em negação.
- Vamos ter que dar um jeito nisso mais tarde, Evans – falou e voltou a andar.
Eu bufei.
- Nem pensar, Potter.
Ele levantou uma sobrancelha para mim.
- Pensei que a gente tinha superado isso – falou, com um sorriso divertido no seu rosto.
Dei de ombros e tentei me manter séria, sem muito sucesso.
- Talvez – falei. – Mas você ainda não respondeu minha pergunta.
- E qual era a pergunta?
- Para onde você está levando essa pobre e inocente garota – falei, do jeito mais dramático que consegui.
- Que pobre e inocente garota? – perguntou, mas eu ignorei. - Tem uma sala vazia por aqui onde algumas pessoas costumam se encontrar.
Franzi o cenho.
- Para...? – perguntei e notei o quão o idiota tinha sido a pergunta no segundo que ela saiu da minha boca. – Oh. Certo.
James riu.
- Entendi porque você se diz inocente – provocou.
Nós já tínhamos procurado em várias salas e estávamos indo em direção ao ginásio quando eu percebi uma coisa. Se James conhecia várias salas que as pessoas podiam usar para se agarrar com outras, ele provavelmente já tinha usado. Várias vezes. Com várias garotas. Eu sei que aquilo não devia me deixar incomodada, mas deixava.
Antes que eu pudesse pensar mais sobre o assunto, James abriu a porta do ginásio e eu fiquei paralisada por um momento. De todas as coisas que eu tinha imaginado que Sirius e Marlene podiam estar fazendo – e eu tinha imaginado várias, a maioria envolvendo muita pegação, é claro – aquela nunca passaria pela minha cabeça.
Sirius estava com uma bola de futebol na mão, gesticulando enquanto falava, e eu nunca tinha visto Lene prestando atenção em algo na vida. James olhou para mim com confusão e nós caímos na gargalhada simultaneamente.
- Hum, Lily – Marlene falou, soltando um risinho nervoso, quando nós paramos de rir. – Você não devia estar na aula?
- Tanto quanto vocês dois – falei, dando de ombros, como se eu não ligasse para faltar aula, mesmo sabendo que Lene me conhecia o suficiente para saber que era mentira. – E vocês estavam...?
- Não se agarrando, para a decepção de todos – completou James, antes que algum dos dois tivesse oportunidade de responder.
Marlene ficou vermelha, mas Sirius apenas riu.
- Não por minha opção, é claro – falou Sirius, conseguindo deixar Marlene ainda mais irritada.
- Cala boca, Sirius – resmungou Lene, depois se voltou para mim e James. – A gente só estava, hum, treinando – franzi a testa para ela, confusa. – Eu vou tentar entrar para o time de futebol feminino da escola na próxima sexta-feira, então Sirius estava me ajudando para o teste.
Eu estava pronta para reclamar por ela não ter me contado antes quando ouvimos outra voz se pronunciar, me fazendo trancar a respiração por um momento.
- Sinto muito, senhorita Mckinnon, mas acho que essa desculpa não vai impedir você e seus amigos de pegar uma detenção – disse Filch, cheio de deboche.
N/a: Okay, gente, eu nem sei como começar a me desculpar. Eu fiquei um ano (ou mais?) sem postar mais nenhum capítulo e, sinceramente, eu não tenho uma boa desculpa. Eu me mudei pela milionésima, mas dessa vez eu estava morando sem os meus pais, só com a minha irmã, então talvez isso tenha deixado as coisas mais difíceis, porque eu tinha mais responsabilidades que normalmente. E também tem a coisa da criatividade, né. Acho que eu não escrevi absolutamente nada aquele ano inteiro, na verdade.
Enfim, nada justifica um ano inteiro sem postar, eu sei, mas agora eu vou trabalhar bastante para deixar um ou dois capítulos prontos para postar durante o ano (porque agora no terceiro ano, com todas as aulas e provas, vai ficar muuuito difícil).
Também queria agradecer a todas as pessoas que me deixaram reviews durante esse tempo em que eu não postei (amo amo amo vocês) e as minhas três amigas lindas e maravilhosas que leram a fic antes de eu postar, corrigiram os erros e me deram ideias (no caso, a Lizzie - que eu acho que ainda não tem conta aqui -, a Brosallie e a Filha de Apolo).
Então é isso, espero que vocês gostem do capítulo :) Deixem reviews falando sobre como vocês odiaram/amaram, me dando ideias e tudo o mais.
Beijos!
