Olá pessoal, antes de mais nada, queria pedir desculpas por uma coisa: esse capítulo teve que ser dividido em dois porque havia muita coisa. Espero que vocês gostem
Guest: Esse capítulo de hoje vai ter ainda mais surpresas! espero que você goste.
Asuen: Triste mesmo, mas esse amor ainda vai durar muito tempo. Dohko e Alexis viveram algo que poucas pessoas conseguiram na vida.
Krika Haruno: hahahah gostou? Pois é o Dohko e a Alexis se apaixonaram perdidamente um pelo outro, mas os deuses não gostam de ser contrariados. Mas a Agnes é filha do Saga mesmo, e nesse capítulo você descobrirá como ela foi concebida. Espero que goste.
Cap. 9 – Alexis Demopoulos parte 2
Alexis chegava `a sua antiga casa, usava as roupas chinesas características e os olhos tinham fundas olheiras. O rosto estava magro e exausto. Abriu a porta com tudo e foi lentamente para o quarto, quase nada havia mudado em todos aqueles anos. Se jogou na cama com tudo.
- Dohko, que saudades.
Segundos depois a porta abriu com tudo, a fazendo pular da cama. Talia estava parada na entrada com o rosto suado e uma expressão surpresa.
- Quando me falaram eu não acreditei.
Sorriram uma para a outra. A semideusa correu da cama e se arremessou na amiga que correspondeu o carinho na mesma intensidade.
- Sua louca, como você não me avisa que está de volta!?
- Eu senti a sua falta Talia.
Ficaram abraçadas por um longo tempo. Então a moreno olhou para o rosto dela.
- Alexis, o que aconteceu com você?
- Nada, eu estou bem.
- Alexis...
A recém-chegada desmoronou na frente da amiga, finalmente liberando toda a dor que vinha sofrendo desde deixara Rozan. Foi de joelhos ao chão, levando a outra junto. A morena fazia carinho nos fios loiro, primeiro com uma expressão supresa, e depois com carinho.
- Isso, meu amor. Coloque tudo para fora. Não precisa bancar a forte, não comigo.
Oooo
Alexis estava sentada na mesa, tinha um taça de vinho nas mãos. Os olhos estavam inchados de tanto chorar e ela parecia, de certa forma, aliviada. Os cabelos loiros estavam presos em um coque mal feito, fazendo pequenas mechas douradas delinearem o rosto.
Talia estava na sua frente, também estava bebendo, mas parecia preocupada.
- Colocou tudo para fora?
- Sim, obrigada. Eu estava precisando.
Ficaram em silêncio.
- Não quer me contar o que houve? Você parecia tão feliz na China, e agora brota no Santuário nesse estado.
Tomou um gole lento, como se estivesse organizando os próprios sentimentos.
- Eu me apaixonei.
A outra parecia chocada.
- Sua pulseira quebrou?
- Aí está o problema.
Novamente o silêncio.
- Não podíamos ficar juntos, mas ficamos. E antes que meu pai matasse ele, eu fugi.
- Quem era essa pessoa?
Ela deu uma risadinha.
- NÃO!
Pulou da cadeira, fez uma cara de nojo.
- Ele é velho! Você tem noção que ele tem mais de 200 anos?
Alexis deu um sorriso triste, um brilho surgiu nos olhos verdes, como se estivesse perdida nas próprias memórias. As lágrimas voltaram a escorrer.
- Ele foi a pessoa mais incrível que eu conheci, Talia. Bom, gentil, honesto, humilde, forte e inegavelmente apaixonado pela vida.
A amiga parou com as brincadeiras ao perceber a profundida daquele sentimento.
- Meu Deus, você o ama.
- Estar com ele me fazia feliz de um jeito tão leve que nem parecia verdade. Eu me sentia fora do corpo, como uma pessoa que vê o sol pela primeira vez. Talvez essa seja a melhor descrição para ele: meu sol.
- Mas e a aparência dele?
Ela tomou um novo gole.
- Ele não era sempre assim. Mas isso não me importava muito. Na verdade incomodava ele, que se recusava a me tocar daquele jeito.
A morena continuou analisando tudo o que ouvia.
-Hoje, olhando para trás, percebo que meu sentimento surgiu bem antes de eu descobrir que ele rejuvenescia. Eu sentia, sabe, uma admiração quando ele falava. Não, acho que essa não é a melhor palavra, eu me sentia simplesmente... eu não consigo explicar.
Olhou para a pulseira e tocou o objeto.
- E quando nós realmente ficávamos juntos parecia tão certo sabe? Como se eu existisse para estar ali para ser amada com tanta intensidade por ele.
Alexis olhou para a amiga e levou um susto ao perceber que ela chorava.
- Talia?! O que houve?
- Desculpa, eu só fiquei um pouco emocionada. Nunca vi alguém tão apaixonada. Você o ama de verdade.
- Amo.
Talia abraçou a loira e beijou os cabelos dela.
- Me fale mais.
Sorriu.
- Ele se preocupava, tinha medo que eu parasse de voar por causa dele. Mas a verdade é que eu só voei alto porque ele estava lá. Quando estava na outra forma, ele me acordava com beijos, e me fazia dormir com carinho nos cabelos. E o cheiro dele , Talia, era tão bom. E quando a gente...
Parou a frase no meio ficando da cor de um pimentão.
- OPA! REVELAÇÕES! Desculpa, pode me contar, juro que vou parar de rir.
- Sempre que a gente dormia juntos, logo depois de... né, ele sempre deitava a cabeça no meu peito e ficava alguns segundinhos parado. Um dia eu perguntei porque fazia isso, e ele respondeu: Gosto de saber que sou eu quem faz seu coração acelerar.
Talia suspirou.
- Que amor, eu estou muito feliz por você.
O sorriso dela se desmanchou e uma lágrima voltou.
- Mas agora tudo isso é passado. Eu nunca mais vou vê-lo.
- Não é justo um amor desse acabar assim.
- Os deuses não são justos Talia. E se a minha felicidade for o preço a se pagar pela alegria de um mundo todo, como eu posso dizer não?
Elas deram as mãos.
Ooooo
Alexis caminhou calmamente até a arena, viu o treino do pequeno Aiolia com o irmão. Ele estava maior e parecia determinado em tentar acertar o mais velho. Sem que fosse percebida, ela sentou em um degrau e ficou assistindo. Um sorriso bobo surgiu do seu rosto.
O leonino caiu mais uma vez no chão.
- Irmão, não consigo.
- Aiolia, a queda só serve para a gente valorizar o recomeço. Sem abaixar a cabeça.
Ficou em pé, determinado, seus olhos pousaram nos dela. Um sorriso surgiu em seu rosto.
- Lele!
Saiu correndo, a mulher levantou e também foi até ele. Se abraçaram e sentaram no chão. Ela segurou o rosto dele com delicadeza reparando nas sardas que começavam a surgir no nariz e nas bochechas. O rosto estava mudando seu formato, estava menos redondo e já revelava algumas feições de um adolescente. Estava mais alto também.
Ela deu um sorriso emocionado enquanto via seus dedos sumirem no meio dos cachos bagunçados. Parecia tão emocionada que estava quase chorando.
- Meu Deus, olhe só para você. Está gigante!
Aiolos, que até o momento assistia tudo em silêncio, se aproximou com um sorriso discreto. Já o aprendiz não queria soltar a serva de jeito nenhum.
- Agora eu sou um aprendiz, Lele! E vou te proteger de todo o mal.
Ela o beijou na testa e se levantou, indo até o cavaleiro que usava vestes de reino. Estava todo suado e os cachos castanhas estavam grudados no rosto.
- Como você está, Alexis?
- bem e você?
Por um minuto o rosto do cavaleiro de sagitário mostrou dúvida, como se algo acabasse de surgir em sua mente.
- Aiolia, vá buscar água, não esqueça que tem que se manter hidratado.
Ele saiu correndo, os dois ficaram em silêncio por um tempo. O cavaleiro a guiou até um banco onde sentaram juntos.
- Como foi em Rozan? Gostou de lá?
- Sim, é um lugar maravilhoso. Sinto que cresci muito lá.
Começaram a conversar tranquilamente.
Oooooo
Alexis estava caminhando até em casa quando viu Aiolia surgir.
- Lele!
- Oi meu amor, o que está fazendo aqui?
- O Saga e o Kanon me levaram para tomar um sorvete. Daí eu vi você e vim correndo.
Ela usou a manga da roupa para limpar um pouco do sorvete que ele tinha no rosto.
- Quem são Saga e Kanon?
- Você não os conhece? Saga é o cavaleiro de gêmeos e o Kanon é o seu irmão. Gosto muito deles. Vou apresentar vocês.
Segurou a mão da mulher e começou a guiá-la pelas barracas.
- O Kanon é bem brincalhão e fala um monte. O Saga é bem quieto e quase nunca sai de casa, mas sempre me trata muito bem. Olha, eles estão alí.
Atravessando a enorme praça estavam os gêmeos sentados em um banco. Kanon usava uma roupa típica dos moradores da vila mas na cor azul e parecia muito distraindo vendo alguma coisa do lado oposto que estavam. Saga usava uma roupa semelhante, mas branca e tinha seus olhos focados em procurar alguma coisa na multidão. Seu olhar finalmente caiu sobre a serva e foi naquele momento que ela pode ouvir o som de algo quebrando.
Alexis abaixou os olhos, mirou a pulseira em seu pulso e parecia não acreditar no que via: o vidrinho transparente estava partido ao meio. Parou de andar e ficou pálida no mesmo instante. A respiração ficou pesada e olhou novamente para o homem, ele continuava a observá-la.
- Lele, está tudo bem?
Perguntou com uma vozinha preocupada. Os olhos dela refletiam toda a confusão que permeava a sua mente. Então, se abaixou e olhou o pequeno nos olhos.
- Desculpa, meu amor. Lembrei que eu tenho umas coisas para fazer em casa. Vou ter que conhecer os seus amigos outro dia, ta?
- Lele, você não me parece bem.
Ela o beijou na testa e depois fez carinho nos cabelos cacheados.
- Está sim, mas agora eu tenho que ir. Vá lá ficar com Saga e Kanon.
Saiu de perto, mas antes de sumir na multidão, voltou a observar o banco. Aiolia corria e se jogava entre os dois. Kanon dava risada e começava a bagunçar os cabelos do pequeno, que ria de alguma coisa que ele falava. E Saga, continuava a observá-la.
Começou caminhando tranquilamente pelas várias barracas, mas depois de apenas alguns metros, ela corria de forma tão desesperada que parecia que sua vida toda dependia daquilo. Saltou algumas coisas e finalmente entrou na vila das servas, abrindo a porta da sua casa correndo e a fechando com tudo.
Parou e começou a tentar regular a própria respiração. Encostou a testa na madeira.
- Alexis?! O que houve?
Talia correu do seu quarto, indo até ela em poucos segundos. A guiou com muito cuidado até o pequeno sofá. A amiga estava com um olhar perdido e algumas lágrimas começavam a escorrer do rosto branco.
- Alexis, você está me deixando preocupada.
Com dificuldade, a serva finalmente olhou para a amiga. Então começou a levantar os braços e apontou para a pulseira quebrada.
- Aconteceu.
Talia ficou parada com a boca aberta, como se estivesse assimilando aquilo. Então passou os dedos pelo pequeno vidrinho partido.
- Quem?
- Saga de gêmeos.
- O que?!
Ela parecia tão chocada quanto a amiga, mas depois de alguns minutos ela sorriu.
- Ele é um cara muito legal, Alexis.
- É? Porque eu literalmente sai correndo quando a pulseira estourou.
Riram juntas, a semideusa limpou as lágrimas.
- Isso significa que eu vou ter que deixar o Dohko para trás. E eu não quero isso.
Tampou o rosto com as mãos e deixou o corpo tombar no sofá, repousando a cabeça no colo da amiga. Sentiu carinho em seus cabelos loiros.
- Meu pai morreu quando eu tinha 7 anos em um acidente de carro.
Talia começou com um olhar vago, como se estivesse entrando em um novo mundo, completamente recheado de boas memórias.
- Ele e a minha mãe eram aqueles casais de filme, sabe? Completamente apaixonados um pelo outro. Tanto que ela quase morreu junto com ele, mas de depressão.
Alexis voltou a se sentar, prestando atenção em tudo o que a amiga falava. Colocou os pés em cima do sofá e abraçou as pernas.
- Quando eu tinha 13 ela se apaixonou de novo. E foi muito feliz com ele até o dia que morreram também em um acidente de carro. O que eu quero dizer com isso é que você pode amar novamente, e isso não faz com que aquele sentimento tenha sumido ou diminuído. É possível amar mais de uma vez, principalmente se o seu antigo amor for arrancado de você do jeito que o Dohko foi. Não veja o Saga como uma penitência, ele é um ser humano incrível, pelo menos é o que o Shura fala. Veja ele como uma nova chance de sorrir mesmo depois de tudo o que você passou.
Oooooo
Era noite e Alexis estava sentada no pequeno sofá de sua casa lendo um livro, o rosto estava próximo `as páginas e ela parecia totalmente submersa naquele mundo. A porta abriu em um rompante e Talia surgiu, o rosto estava vermelho de raiva.
- O que é isso?! O que aconteceu?!
Perguntou a amiga, quase caindo de onde estava. A morena andava de um lado para o outro do pequeno cômodo.
- Para mim chega, Alexis. Ele pode até ser um cabrito teimoso, mas eu sou pior!
- Meu Deus! Me explica o que está acontecendo!
A amiga entrou no quarto, mas continuava respondendo.
- O Shura! A gente brigou! Conheço ele há 10 anos e as vezes parece que ele... ahhhhh! Que vontade de esganar!
- Calma, respira e me explica o que houve.
- Mas ele pensa que eu vou ficar aqui chorando as pitangas ele está MUITO enganado! Eu não sou mulher de ficar abatida por marmanjo!
Saiu do quarto usando um lindo vestido negro que delineava o corpo e mostrava as belas pernas da serva. Ela jogou os cabelos para trás, mostrando a cascata negra que deslizava pelos ombros bronzeados.
- Vai se arrumar. Nós vamos sair.
- Sair? Do Santuário?
Alexis foi arrastada até o próprio quarto e sentou na cama enquanto a amiga mexia em seu armário com pressa.
- Você só tem roupa de serva ou roupa chinesa! Te empresto uma minha.
Correu para o outro cômodo novamente, mas a outro ficou sentada na própria cama com olhar avoado. Segundos depois Talia entrega um vestido azul marinho.
- É meu vestido santinho. Relaxa. E o único que vai caber esses peitões.
Foi até o banheiro e se trancou enquanto a outra usava um espelhinho para terminar de se maquiar. Depois de poucos minutos as duas corriam pela vila e gargalhavam.
- Corre! Vamos perder o ônibus!
Aceleraram o passo e gargalharam juntas. Corriam de mãos dadas e de forma leve, de um jeito que só quem não tem grandes preocupações consegue. O ônibus parou no ponto quando ainda estavam longe e por isso tiveram que correr ainda mais, entrando suada e esbaforida no veículo.
Sentaram em um banco perto da porta e trataram de tentar regular a respiração. Alexis aproveitou a oportunidade para trançar uma parte do cabelo, fazendo uma delicada tiara que realçava ainda mais os traços perfeitos.
- Sempre pensei que você ia de carro até a cidade.
- Todo cavaleiro pode usar os carros do Santuário e os cavaleiros de ouro tem o seu próprio carro. Shura sempre me levava mas eu não quero falar dele.
A loira gastou alguns segundos observando a outra atentamente enquanto ela enrolava uma mecha do cabelo nos dedos finos.
- Você ama ele.
Constatou em choque.
- Sim, muito mais do que eu imaginava e gostaria.
Oooo
A música tocava alto naquela festa, o local consistia em um bar a céu aberto, e duas pistas uma coberta e outra livre. Talia dançava muito empolgada e tentava fazer a amiga relaxar. Uma dançava com a outra e riam muito, era visível notar que estavam levemente alteradas.
- Mais uma bebida!
A morena declarou enquanto corria pegar mais shots. Alexis prendeu o cabelo que já começava a grudar na testa e na nuca. A noite estava muito quente e abafada.
- Olá.
Virou para ver quem falava com ela e se surpreendeu ao notar Aiolos ao seu lado com um sorriso animado. Diferente dos trajes típicos que usava, dessa vez usava uma calça jeans e uma camiseta larguinha preta.
- Aiolos?! O que você faz aqui?
A voz saiu bem mais animada que normal devido as várias doses que havia tomado.
- Shura precisava encontrar a Talia e arrastou todos nós para cá.
Ela seguiu a direção que o amigo olhava e notou Shura e Talia em um canto perto do bar, os dois gesticulavam e pareciam irritados. O cavaleiro a segurava com delicadeza pela mão e ela fingia não se importar com nada do que ele falava. Foi então que notou os gêmeos perto do bar fazendo seus pedidos.
- Conseguimos arrastar até o Saga.
Ao notar o geminiano, a serva pareceu ficar levemente desconfortável. Novamente os olhares se encontraram. Pouco tempo depois, Kanon surgia perto deles com uma bandeja repleta de pequenos copos coloridos.
- Aiolos você nunca sai, vamos compensar o tempo perdido. Peguei bebida para todos.
Falou com um sorriso travesso para a loira. Sem nenhuma cerimônia, pegou dois vidrinhos e entregou para o sagitariano que pareceu confuso.
- Você sabe que eu não bebo.
- Hoje você bebe sim. Existe vida além do pequeno Aiolia.
Pegou no ponto fraco, então ele virou um copinho seguido do outro, fazendo uma careta e balançando a cabeça. O outro gargalhou e comemorou enquanto Saga bebia calmamente uma cerveja.
- Sua vez.
- Melhor não.
- Olha, a sua amiga me falou que você queria bebidas e se depender dela vai demorar um monte. Quando o cabrito encasqueta com alguma coisa não tem deusa que o faça mudar de ideia.
Sem pensar nas consequências ela pegou mais um vidrinho e o bebeu com rapidez, fazendo uma careta ainda pior.
- Essa é das minhas.
Kanon bebeu quatro daqueles em uma sentada e começou ir em direção pista arrastando os dois pela mão. Começou a dancar e sorrir para um pequeno grupo de meninas que estavam por perto.
- Acho que eu e Saga vamos para lá, juízo vocês dois.
Viu o homem surgir no grupinho e todas as garotas abrirem um sorriso. Novamente olhou para a amiga, que continuava conversando, mas pareciam mais calmos e muito mais próximos um do outro.
- Sua amiga está enlouquecendo o Shura.
Ela olhou para Aiolos, notando aconfusão no rosto da serva, continuou.
- Ela sempre faz o Shura, que é o cara mais discreto e contido que eu conheço sair da zona de conforto.
- E isso é ruim?
- Na verdade é bom, o Shura é meu melhor amigo, conheço ele a vida toda. E ele é assim, super sensível e se joga de cabeça, mas ele gosta de passar essa fachada de homem na dele e meio frio. E a Talia sempre fez ele ser ele mesmo. Eu acho que a gente tem que se relacionar com quem nos enxerga de verdade.
Ele a pegou pelo braço com cuidado e foram até o bar.
- Aquele negócio que o Kanon deu era horrível, se for para beber que seja outra coisa. Vou pegar uma cerveja, quer alguma coisa?
- uma cerveja também. Tomei muitos copinhos hoje.
Oooo
Aiolos e Alexis pulavam e cantavam uma música a plenos pulmões dando risada quando acabou e indo até um dos vários banquinhos. O cabelo do cavaleiros estava completamente bagunçado dando um ar mais sensual do que o normal.
- Meus pés estão me matando.
Ela falou rindo.
- Minha garganta está me matando.
Ele completou terminando mais um copo, mas dessa vez de uma outra coisa com uma cor dourada. Ela olhou para ele.
- Você está me olhando com uma cara engraçada.
Ela tomou mais um gole.
- Para mim você era o irmão mais sério e focado do Aiolia. Você é muito divertido! Quero ser sua amiga pra sempre!
- Exatamente! Precisamos sair ainda mais vezes. Você é minha companhia número um de festas a partir de hoje. Pelo menos você não me larga e volta para casa que nem o Shura.
Iam continuar a falar quando Saga surgiu e sentou no banco, tinha uma garrafinha de água nas mãos e estava um pouco suado. Alexis ficou muda, mas o sagitariano mudou o foco ao começar a cantar a música que tocava no ambiente.
Kanon vinha olhando fixamente para o grupo, ao se aproximar, segurou a mão da garota e começou a arrastá-la.
- O Aiolos monopolizou você a noite toda, nem pudemos dançar.
Ele a girou em um movimento muito dramático, provocando um riso espontâneo nela. Entrando na brincadeira, Alexis começou a fazer o mesmo. Durante toda a música eles brincaram, gargalharam e improvisaram. Kanon eram um excelente parceiro de dança e ficou surpreso com a voz da serva quando ela começou a cantar o refrão.
Oooo
Os quatro subiam de forma desajeitada até a casa de gêmeos. Saga carregava o irmão enquanto ele cochilava baixinho. Tinha uma cara cansada pelo esforço. Já Alexis e Aiolos se seguravam e gargalhavam a cada degrau conquistado.
- Cuidado até a casa de sagitário.
- Pode deixar, pai.
Soltou o sagitariano enquanto eles continuavam o caminho. Passaram pela outra casa ainda com dificuldade até que, frustrado, o cavaleiro a carregou e subiu tudo em uma velocidade fora do comum.
Chegaram e o amigo caiu sentado no chão, tinha uma expressão confusa no rosto. Depois de soltar uma risada alta e quase infantil, se levantou, sendo aparado pela amiga até o quarto.
Tirou a camisa, caiu na cama fazendo um barulho alto e se afundando no colchão macio. Soltou um suspiro e arrancou os sapatos de qualquer jeito. Naquele momento ele parecia e muito com o irmão caçula que devia estar dormindo tranquilamente na casa da mestra de Marin.
- Eu vou indo.
Comentou e se preparou para sair, mas foi segurada pelo pulso voltando para cama, onde sentou e afagou os cabelos cacheados.
- Durma aqui. O quarto do Aiolia está livre.
- Quero dormir na minha caminha.
- Não vou deixar você sair sozinha a noite. Não posso perder mais ninguém.
Ela pareceu confusa.
- Quem você perdeu?
- Não vamos falar sobre isso.
Continuou o carinho pois notava que ele quase apagava. Os olhos estavam entreabertos e a respiração se tornava tranquila.
- Está quase dormindo.
- Mentira.
Segundos depois o cavaleiro estava completamente desmaiado, sua respiração fazia um som baixinho muito semelhante ao ronronar de um gato. Com dificuldade, a loira se levantou e começou a descer as suas casas zodiacais.
Quando finalmente passou por gêmeos, andava com muita dificuldade e ria de qualquer coisinha que encontrava pelo caminho. Estava tão concentrada em não cair das escadarias que nem percebeu Saga a olhando com preocupação.
- Alexis? Onde você vai?
- Para casa.
Ele se posicionou na sua frente, a obrigando a parar.
- Achei que fosse dormir em sagitário. Que tipo de namorado deixa a namorada sozinha nesse estado?
A gargalhada que ela soltou foi rápida e alta, como se tivesse tentado se conter.
- Por que as pessoas não podem entender a amizade de um homem e uma mulher?
- Não estão juntos?
- Não.
Respondeu de uma forma dramática e cômica ao mesmo tempo. Parecia tão sincera em sua resposta que ele não conseguiu não dar um sorriso suave e espontâneo.
Ela tentou sair da casa novamente, mas foi segurada pelo pulso, fitou os olhos verdes que pareciam brilhar.
- Eu vou levar você para casa.
- Não! Você não!
Ele pareceu meio magoado, ela aproveitou a deixa para descer as escadarias. Sentou em áries porque estava muito tonta. Fechou os olhos e focou na sua respiração. Era um longo caminho para uma pessoa normal, principalmente se ela estiver bêbada.
- Eu vou levar você para casa de qualquer jeito.
Ela soltou um grito de susto ao notar o cavaleiro ao seu lado, perdendo o equilíbrio e quase rolando nas escadas.
- Você não está conseguindo sozinha.
- Tudo bem.
Com cuidado ele a pegou no colo, mesmo com os braços envolta do pescoço dele, ela permanecia em silêncio e com uma expressão desconfiada. Foram caminhando normalmente e nenhum dos dois emitia nenhum som.
A noite estava estrelada e com uma bela lua, assim o Santuário estava com uma perfeita iluminação.
- Eu fiz algo para você, Alexis?
- Por que?
- Aquele dia com Aiolia você saiu correndo depois que me viu e hoje fez o possível para evitar qualquer tipo de contato.
Ela não respondeu e ele achou que ela dormia. Continuaram o caminho, Saga olhando para frente enquanto a serva olhava para o céu agarrada ao pescoço dele.
Passaram pela vila que estava na completa penumbra, e poucos passos depois chegaram a região das servas. Sem nenhum aviso, Alexis saiu do colo dele e saiu tonteante em direção a sua casa.
- Aqui está bom, obrigada.
Seca e sem nenhum tato ela tentou abrir a porta trancada, deu um grunhido.
- A chave está com a Talia, não está?
- Está, mas eu me viro, não preciso da sua ajuda.
- Sério, eu te carreguei por 6 km e você me trata como se eu tivesse, sei lá, xingado o seu pai.
Ela fez um careta e abriu a janela lateral.
- Me desculpe se você é um cavaleiro de ouro e tudo o que faz precisa ser aplaudido.
Ela se pendurou na janela e então caiu com tudo lá dentro, o som de coisas quebrando inundou o local e o cavaleiro arregalou os olhos.
- Por Athena, o que ela aprontou agora?
Com graça e confiança, Saga entrou no local com um único pulo. Encontrou Alexis caída entre o sofá e uma mesinha, uma das pernas estava esticada para cima e um filete de sangue escorria por ela.
Um vaso estava quebrado no chão e uma quantidade considerável de livros também. Ele a ajudou a sair do buraco onde havia se enfiado. O tornozelo esquerdo estava inchado e tinha um belo corte na panturrilha também.
Ela estava em silêncio e o observava. Sem nenhum aviso a carregou nos braços.
- Qual é o seu quarto?
Apontou para o cômodo mais próximo a colocando sentada na cama. Saiu e foi até o banheiro abrindo diversos armário. Depois, voltou para a cozinha onde, depois de muito procurar, encontrou um kit de primeiros socorros.
Sentou na cama e colocou as pernas dela em seu colo. Enquanto limpava, passava um remédio e enfaixava os locais machucados, ele falava quase em um resmungo.
- Eu não sei o que eu fiz para você me odiar tanto, pensei que podia ter sido o Kanon, mas dançou com ele e deu altas risadas. Você deve ser louca, porque eu nunca vi você antes daquele dia na feira. E acho que eu sou mais louco ainda porque estou aqui cuidando de uma bêbada que me enche de desaforos.
Parou de falar ao vê-la a pouco centímetros do seu rosto, segurava ele pelo queixo e parecia analisar cada detalhe de seu rosto. Saga estava paralisado analisando cada atitude que ela tinha.
- Você é bonito. Na verdade você é um das pessoas mais bonitas que eu já vi na minha vida. O seu cabelo é azul e os olhos verdes.
Alexis segurou uma mecha e brincou com ela entre seus dedos. Depois, com as duas mãos segurou o rosto do cavaleiro.
- Mas não importa o quanto você é lindo, digno e corajoso. Você nunca vai ser ele.
- Quem é ele?
Não deu tempo de responder, ela saltou da cama e voou para o banheiro onde pode ser ouvido o som de alguém vomitando. O cavaleiro estava parado, parecia estar digerindo todo aquele final de noite fora do comum. Pegou a mecha de cabelo que ela havia tocado antes e a analisou.
Então seus olhos foram para o quarto onde estava, haviam muitos livros nele e estavam em todos os lugares: na mesinha de cabeceira, dentro do armário e do lado da cama. Finalmente o som de vômito parou e foi substituído por um choro baixinho e sentido.
Levantou e finalmente acendeu a luz, depois foi a passos lentos até o local onde a serva estava. A encontrou sentada no chão abraçando as pernas e corando igual a uma criança. A expressão dele não era mais de raiva ou confusão, era de pura preocupação.
Com cuidado ele se abaixou, ficando em frente a ela e começou a acariciar os cabelos loiros. Seus olhos se encontraram. Era fácil de notar que ela ainda estava muito bêbada. Começou a ajudá-la a ficar em pé, quando saindo do local ela se soltou e foi até a pia, começando a escovar os dentes.
Quando finalmente terminou, permitiu que Saga a levasse até a cama e a deitasse. Ainda derramava algumas lágrimas, mas o cavaleiro não dizia nada.
- Eu estou tão confusa. Eu tenho tanto medo. Tudo o que eu mais quero é ficar com ele de novo, sentir o seu cheiro, a sua risada. Meu Deus, como eu queria.
- E por que você não vai atrás dele?
- Porque eu não posso. Principalmente agora que eu encontrei você.
Ele parecia mais confuso, abriu a boca para tentar falar alguma coisa, mas não conseguiu.
- Por que eu?
- Você é o único que pode me fazer esquecê-lo, mas eu não quero. Eu não quero esquecer, eu quero viver tudo aquilo de novo.
Enxugou as lágrimas e o olhou, estava com uma aparência cansada.
- Não se apaixone por mim, Saga. Seja indiferente, por favor.
- Você é indiferente para mim.
Ela deu um sorriso fraco.
- Se eu fosse, você não estava até agora aqui.
Aquilo parecia ter pego ele desprevenido. Sem saber o que fazer, apenas a abraçou e a deixou chorar mais um pouco. Enquanto ouvia os soluços baixinho, Saga parecia distante, ainda tentando digerir tanta informação que havia recebido.
Ela finalmente dormiu, ele a deitou e a cobriu. Levantou e foi até a porta, mas parou e voltou. Sentou na ponta da cama e ficou velando seu sono até acabar dormindo de qualquer jeito.
Ooooo
Saga acordou na manhã seguinte, demorou alguns segundos para lembrar onde estava. Seus olhos foram para a mulher dormindo.
- Ela só pode ser louca.
Se levantou de qualquer jeito e foi embora. O som da porta batendo fez Alexis acordar. Colocou a mão na cabeça e soltou um grunhido. Voltou a deitar, mas com os olhos fitando o teto, parecia tentar se lembrar de tudo o que havia acontecido na noite passada. Então suas mãos foram até a boca e uma expressão de horror passou pelo rosto pálido.
- o que foi que eu fiz!?
Se levantou e quando saiu da cama quase caiu no chão, o tornozelo estava pior, ficando impossível de encostar para andar. Com cuidado ela foi até o banheiro, onde tomou um banho. A porta é aberta e Aiolos entra, tinha uma expressão cansada e preocupada no rosto.
- Alexis?
- Já vou.
Ela gritou do banheiro seguido de um gemido de dor. O cavaleiro sentou na cadeira e deitou a cabeça na mesa e também soltou um resmungo. Alguns minutos depois, Alexis surgiu na porta. Os cabelos estavam molhados e ela usava uma de suas vestes chineses. O pé não tocava o chão e ela sorriu ao ver o amigo quase dormindo em sua cozinha.
- Longa noite?
Ele seu uma risada baixa e levantou a cabeça.
- Diga que você tem remédio para dor de cabeça.
- Na segunda gaveta, pega um para mim também.
Ele se levantou pegou as cápsulas no local indicado, em seguida, pegou a jarra de água e encheu dois copos. Enquanto fazia isso ele falava.
- Levantei e corri para cá. Fui um idiota em deixar você voltar sozinha. Me desculpa.
- Está tudo bem, você não tinha nem condições de vir até aqui.
Finalmente os olhos do cavaleiro foram para o pé da amiga.
- Meu Deus, Alexis! O que aconteceu com o seu pé?!
Ele levantou em um salto e, antes que ela pudesse protestar, já havia a carregado até uma das cadeiras. Ficou de joelhos observando o local ferido, estava muito inchado e de um roxo escuro.
- Você deve ter quebrado.
- Eu estava sem a chave e resolvi que era uma boa ideia pular a janela.
Olharam para a janela e encontraram o vaso destruído. Começaram a rir igual a dois idiotas.
- Vou levar você até a clínica. Isso está feio.
- Podemos tomar um chá antes?
- Podemos.
Sem que ela precisasse pedir, Aiolos começou a preparar. Esquentou a água e então serviu o líquido em duas canecas. Ela escolheu chá verde e ele camomila. Esperaram o tempo da infusão e retiraram as ervas.
- Aiolos, me lembrei de algo que você falou ontem.
Ele parou de beber no mesmo instante, era óbvio que ele se lembrava daquela parte da conversa.
- Quem era?
Ficou em silêncio, as duas mãos envolta da caneca. Não se mexia, como se fazer qualquer movimento fosse lhe causar dor. Respirou fundo, totalmente imerso em lembranças. Ela esticou o braço e segurou a mão dele, trocaram um olhar. Aiolos soltou a xícara e segurou a mão dela também.
- Minha irmã, Alana.
- Eu não sabia que você tinha uma irmã.
O cavaleiro deu um sorriso muito fraco.
- Ela era a caçula, minha mãe morreu no parto dela. Tinha dois anos.
Esticou o braço livre e acariciou os cabelos cacheados, da mesma forma que fazia quando queria acalmar o Aiolia.
- Quando meu pai morreu, dois anos depois, fomos jogados na rua. E esse não é um bom lugar para três crianças sozinhas. Eu tinha 14(N/A: Nessa fic, Aiolos morreu com 19, ou seja, é um ano mais novo que Alexis), o Aiolia 3 e ela 2. Eu fiz o possível para cuidar deles. Uma semana antes de sermos trazidos para o Santuário, Lala começou a ter tosse e febre, eu tentei aquecê-la e mendigar algum remédio, mas não deu certo.
Seus olhos agora só focavam a mesa, a voz era baixa e contida. O rosto pareceu ter envelhecido muitos anos.
- Ela piorava cada dia mais e chorava desesperadamente. Uma noite, seus choros eram tão altos, e eu não sabia mais o que fazer. Só consegui acalmá-la quando o sol estava nascendo. A mantive nos meus braços o tempo todo. Pouco tempo depois, eu vi um homem andando na rua, ele parecia tão diferente dos outros. Corri e implorei ajuda, ele era um dos recrutas do Santuário. Ele teve pena de mim e trouxe nós três para cá.
Ele respirou fundo, as lágrimas caíam livres pelo rosto bronzeado de sol. Alexis agora estava mais próxima e ouvia tudo com atenção. Ficou um tempo em silêncio tentando lutar contra todas as emoções afloradas. Finalmente conseguiu continuar.
- Assim que chegamos, o Grande Mestre nos mandou para a clínica. Quando a enfermeira pegou Alana nos braços, disse que ela já estava morta a algum tempo. O momento que ela parou de chorar não foi porque dormiu, e sim porque não estava mais lá.
Alexis chorou junto com ele. O abraçou com força.
- Eu falhei com ela, não posso permitir que o mesmo aconteça com o Aiolia.
- Não vai acontecer, você é um irmão maravilhoso. Você criou ele sozinho e olha como ele é uma criança esperta e amorosa.
Ficaram parados e juntos durante muito minutos. Aos poucos o som do choro foi diminuindo e sendo preenchido pelo silêncio.
- Só você, Shura e o grande mestre sabem disso.
- Obrigada por me contar.
- Você é minha amiga, eu sei que posso confiar.
Ele limpou o rosto molhado e deu um sorriso fraco.
- mas agora não é hora de chorar, é hora de arrumar esse pé.
Oooo
Alexis estava sentada na grama, usava um vestido curto azul marinho, os cabelos estavam presos em uma tiara de trança e o seu pé estava engessado. Lia um livro com muita curiosidade e nem parecia se importar com o sol forte que a iluminava. Estava tão alheia a tudo que nem percebeu quando Saga se aproximou.
- Então você realmente quebrou o pé.
Deixou o livro cair, olhou para o homem e seu rosto ficou vermelho.
- Sim, dois meses de repouso.
Ele sentou ao seu lado, usava as roupas de treino e o cabelo estava preso em um rabo de cavalo baixo.
- Que livro você está lendo?
- Uma gramática em espanhol.
Fez um careta.
- É o melhor jeito de aprender sozinha um idioma.
- Você fala como se falasse muitos.
- E falo: grego, grego antigo, francês, inglês e chinês.
Abriu a boca, visivelmente surpreso.
- Nada mal para uma serva. Foi isso o que você pensou.
Ficou em silêncio, constrangido por ela ter percebido seus pensamentos de forma tão simples. Alexis fechou o livro e o colocou com cuidado ao seu lado.
- O Santuário é em homenagem a uma deusa, mas todas as suas mulheres são menosprezadas. E as servas são as piores, para muitos aqui somos apenas um corpo, e não uma cabeça e um coração.
- Não é assim.
Ela riu, um sorriso contido e com um leve sarcasmo.
- O Santuário possui uma biblioteca com mais 30 mil livros. Somente pessoas com armaduras podem usá-la, ou melhor, as amazonas não podem. Na verdade eu conheci algumas amazonas que mal sabiam ler.
Olhou para o céu e fez uma careta, seus braços branquinhos começavam a ficar vermelho. Começou a se levantar, pegando sua muleta. Saga a ajudou pegando o livro. Foram até embaixo de uma árvore, o cavaleiro a olhava com curiosidade.
- Mas você tinha muitos livros em casa.
- Comprei todos com meu dinheiro em uma feira que tem todo sábado ou quando estava na China.
O homem passou os dedos pela capa gasta do livro, conhecia aquela feira, era um sebo.
- Sempre gostou de ler?
- Sim, meu pai sempre dizia que o homem precisava de duas coisas para ser plenamente feliz: bons livros e boa música. Mas aqui não é um lugar muito musical.
Ficaram em silêncio.
- Existe um piano em aquário. Sabe tocar?
- Sei sim, mas prefiro ainda a minha harpa.
Saga suspirou, apesar de conversar com ele de forma gentil, era nítido o receio que ela tinha em se aproximar dele.
- Muito obrigada por ter cuidado de mim e desculpa por tudo o que eu falei.
Ele deu um sorriso fraco, mas sincero.
- Já estou acostumado, sou irmão do Kanon.
Riram um pouco juntos, o vento batia de forma suave proporcionando uma clima refrescante naquele dia tão quente.
- Amigos?
- Amigos.
OOOO
Alexis andava com dificuldade no meio das pessoas da feira, as muletas atrapalhavam muito. Parecia irritada com tudo aquilo, mas as expressão se suavizou ao achar o que queria: a barraca recheada de livros de todas as espécies.
- Imaginei que você estaria aqui.
Se virou e encontrou Saga, no lugar das roupas típicas do Santuário, usava calça jeans e uma camiseta preta. Ela parecia surpresa.
- Você falou tanto sobre essa feira que eu fiquei curioso.
Uma mulher esbarrou nas muletas, fazendo a serva perder o equilíbrio e sendo amparada por ele. seu braço a envolveu com carinho e cuidado, ela se afastou um pouco, constrangida.
- Então venha conhecer.
Foram até o local, onde ela começou a falar de todos os autores que gostava e admirava. Tudo enquanto folheava livros de várias línguas diferentes. Era nítido que ele tinha na sua frente uma mulher muito mais inteligente do que podia imaginar.
Pegou um exemplar com capa vermelha, dura e gasta. Passou os dedos pelas folhas, não entendia o que estava escrito. Alexis se aproximou.
- Isso é Jane Austen, orgulho e preconceito.
- É um bom livro?
- Maravilhoso. E essa versão está em inglês.
Pegou o livro com muito cuidado como se fosse a obra prima mais valiosa de todo o mundo, seus dedos acidentalmente esbarrando nos dele. Foi até uma das últimas páginas e leu em voz baixa mas de maneira direto um pequeno trecho. A medida que as palavras fugiam de seus lábios, seu sorriso aumentava, como se aquilo fosse seu texto favorito em todo o mundo.
- O que significa?
- A senhorita é generosa demais para divertir-se as minhas custas. Se os seus sentimentos são ainda os mesmos de abril passado, diga-me isso agora. Minha afeição e minhas aspirações permanecem as mesmas, mas uma palavra sua me levará a silenciar para sempre esse assunto.
Ficou parado. E foi ali, naquele momento na feira barulhenta e no meio de vários exemplares empoeirados, ouvindo ela recitar de forma tão leve e apaixonada, foi naquele momento que ela o conquistou.
Deu um sorriso encantado e pegou novamente o livro.
- É lindo.
- É a história de uma mulher que faz o próprio destino. Sempre admirei isso.
Trocaram um olhar, ela abriu um sorriso.
- Eu já decidi o que vou levar, e você?
Sacudiu o livro.
- Também.
Ooooo
Alexis estava sentada em uma clareira, olhava para as constelações deitada na grama. Usava as vestes chinesas e o cabelo estava grande novamente. Parecia completamente relaxada.
- Hoje você não vai me assustar, Saga.
Ele surgiu na estrada com um sorriso relaxado.
- Eu fui até a sua casa mas não tinha ninguém lá.
Ela deu um sorrisinho.
- Talia deve estar com o Shura, hoje parece que faz 11 anos que eles se conheceram. Iam jantar em algum lugar.
Sentou ao lado dela, usava calça jeans e uma jaqueta preta. Ela estranhou, ele só usava isso quando ia sair do Santuário.
- Vou passar um tempo fora. O Grande Mestre me designou uma missão.
- Quanto tempo longe?
- Algumas semanas.
Ela pareceu meio triste, mas disfarçou.
- Espero que dê tudo certo.
Oooo
Alexis estava deitada de qualquer jeito no sofá, usava uma roupa chinesa e os cabelos presos em um coque mal feito, fazendo pequenos fios loiros caírem em seu rosto. Estava com os pés para cima, apoiados na janela que havia caído quando ficou bêbada com Aiolos, Kanon e Saga. Ao lado, na mesinha estava uma taça vazia de vinho.
Parecia completamente distraída enquanto olhava para fora e analisava as constelações no céu da noite. Deu uma respirada lenta, como se estivesse desanimada. Talia entrou e viu ela com uma expressão estranha.
- Hoje nem o Aiolia e o Aiolos conseguiram animar hein?
- Estou meio para baixo.
Ela se serviu e bebeu na taça da amiga.
- Desde que Saga saiu em missão você anda para baixo.
- Você está falando besteira, sabe a quem pertence o meu coração.
A amiga soltou um suspiro frustrado. Obrigou Alexis a sentar e a olhou no fundo dos olhos com um sorriso.
- Dohko pode realmente ter sido o grande amor da sua vida, mas ele não está mais aqui. Vocês foram separados. E não é pecado você gostar de alguém depois de tudo o que você passou. Na verdade é normal! E você gosta do Saga.
- Não é verdade.
- Certeza? Porque você anda pelos cantos desde que ele saiu. Nem no seu aniversário você ficou empolgada.
Ficaram em silêncio. Era possível ver o quanto a semideusa se esforçava para por os próprios pensamentos em ordem.
- Eu conheço você, Alexis, e sei que está com saudade.
Alexis olhou para a pulseira em seu pulso.
Ooo
Talia usava os trajes tradicionais de serva, estava saíndo da casa carregando um monte de sacolas.
- Eu não sei que horas eu volto. Então não me espere acordada, vai ser um caos arrumar toda a bagunça desses arruaceiros.
- Ok, boa sorte.
Ficou sozinha, olhou a cozinha vazia, a casa ficava absurdamente silenciosa quando estava só ela. Foi até a pia e começou a lavar algumas vasilhas que haviam deixado do almoço. Cantarolava uma canção baixinho enquanto terminava a limpeza e se assustou quando ouviu a batida na porta. Secou as mãos e abriu a porta, encontrando Saga parado, não conseguiu evitar o sorriso.
- Saga, você está de volta.
Ele a abraçou com cuidado, parecia emocionado. Usava roupas comuns e carregava uma mochila nas costas.
- Acabei de chegar, tenho que falar com o Grande Mestre, mas quis te ver antes.
Entrou no local e sentou na cadeira, tirando o peso das costas e colocando em cima da mesa. O homem parecia genuinamente feliz em estar alí, mas cansado ao mesmo tempo.
- Quer beber alguma coisa? Está com fome?
Perguntou indo em direção a geladeira, mas sentiu seu pulso ser segurado. Ele a olhava com um sorriso.
- Eu estou bem, apenas fique aqui comigo.
Ela sentou na sua frente, continua com o pulso preso pela mão do cavaleiro, mas não tentou se soltar. O silêncio se instalou, mas não parecia incomodar nenhum deles
- Senti a sua falta.
Disse com a voz firme, ela abaixou o rosto e concordou.
- Eu também. Como foi a viagem?
Se afastaram um pouco, o viu se esparramar na cadeira. Passou os dedos pelo cabelo antes de responder.
- Tudo bem, dentro do esperado. Como foi o seu aniversário?
- Talia fez uma festa surpresa para mim. Aiolos e Aiolia também vieram. Acho que nunca vi tanta comida no mesmo lugar. Eles me enganaram direitinho, não imaginava.
Pegou a mochila e a abriu, retirando um pequeno embrulho dourado. Esticou o braço e o depositou nas pequenas mãos da amiga.
- É um presente de aniversário atrasado.
O segurou com cuidado, tentando não rasgar o papel enquanto o abria. O presente era um livro em capa dura azul e vários detalhes em preto. As partes mais detalhadas possuíam um relevo especial. Era uma edição especial de Ilíada.
- Meu livro favorito. Eu nunca vi uma versão assim, é lindo Saga. Muito obrigada.
Ele parecia um pouco nervoso com alguma coisa que ela não entendia. Abriu e começou a folhear as páginas, chegando na contracapa e encontrando uma dedicatória.
"Estou escrevendo isso no dia do seu aniversário no quarto do hotel. Queria estar aí para comemorar com você, mas sei que não está sozinha. Essa distância me fez perceber uma coisa, mas você me conhece e sabe o quanto é difícil colocar isso para fora. Por isso resolvi escrever: quebrei a promessa que te fiz, eu me apaixonei por você."
Terminou de ler e o olhou, ele analisava a expressão dela. Parecia confusa, não sabia direito o que fazer com aquela informação. Sentiu a mão dele na sua.
- Isso é verdade?
- Me prometi que a primeira coisa que faria quando chegasse ao Santuário seria contar a você tudo o que eu estou sentindo.
Ele puxou a sua cadeira, fazendo um ficar de frente para o outro. Olhou no fundo dos olhos verdes e continuou.
- Você é a mente mais inteligente que eu já conheci. Você é divertida, rápida, sarcástica, gentil e me traz esse sentimento de paz que eu não entendo muito bem.
Passou os dedos pelo rosto dela em uma espécie de carinho tímido, demorando um pouco mais no canto da boca.
- Eu sei que existe uma parte de você que ainda está superando um coração partido, mas se houver uma parte sua, por menor que seja, que queira ficar ao meu lado, eu seria o homem mais feliz desse Santuário.
Alexis respirou fundo e de forma contida segurou a mão dele, entrelaçado seus dedos nos dele. Saga abriu um sorriso gigantesco e a beijou.
Ooooo
Aiolos e ela estavam na cozinha de sagitário, ele preparava um lanche para os dois enquanto ela arrumava as coisas para o chá, seu olhar estava vago e quase perdido.
- Essa carinha tem alguma coisa haver com o namorado misterioso?
Alexis se assustou, virando água quente no chão. O cavaleiro conseguiu desviar no último minuto. Ela pediu desculpas e foi buscar um pano, ele a segurou.
- tudo bem você não me contar, mas saiba que estou aqui se precisar de algo.
- Não tem nada haver com essa pessoa, na verdade sou eu.
Se soltou e limpou a sua sujeira com rapidez. Finalmente sentou na mesa e olhou para o amigo, estava tremendo.
- Eu estou com um mau pressentimento. Sinto que algo muito ruim vai acontecer e só de imaginar isso meu coração se aperta. Não quero perder ninguém.
Chorava baixinho como se tudo fosse um segredo. Ele tirou o pano das mãos dela e a abraçou com força. A permitiu soluçar alguns minutos em seus peito enquanto tinha os cabelos acariciados com cuidado. Então finalmente falou.
- Em breve, Athena voltará para esse mundo e vamos passar por muitas provações. Mas eu não quero que esqueça de uma coisa: você e Aiolia são a minha família e vou protegê-los custe o que custar.
O olhou no fundo dos olhos.
- E quem vai proteger você? Te adoro como um irmão e não quero que se machuque.
- Shura e Saga, somos cavaleiros da mesma hierarquia e devemos nos ajudar. Vai ficar tudo bem.
Ela o apertou.
- Mas Alexis, quero que me prometa uma coisa: se um dia algo me acontecer, você vai cuidar do Aiolia.
- Nem precisava pedir.
A beijou na testa.
- Obrigado.
Ooo
Saga e Alexis entravam na casa dela, riam igual a dois bobos. Ela usava um vestido curto azul marinho, mas podia notar o biquíni marcando por baixo da roupa. Os cabelos estava presos em um rabo de cavalo mas estavam molhados. Já o cavalheiro usava uma bermuda e uma camisa verde. Era noite.
- Eu adorei o dia de hoje, Saga. Principalmente aquele seu tombo.
Ele deu um beijinho rápido nos lábios da namorada.
- Isso que dá tentar ficar me exibindo.
Ligaram as luzes que estavam apagadas, o silêncio no local era extremo.
- Pelo visto alguém foi dormir em capricórnio hoje.
- Você não se sente sozinha?
- Um pouco, odeio solidão.
Sentiu os braços dele a envolverem. Saga deslizou o nariz pela linha do pescoço, sorriu.
- Não está sozinha.
Deram as mãos.
- Eu sei.
Ele apenas a aninhava em seus braços quando o beijo se tornou mais desesperado. Segurou o rosto do namorado entre as mãos.
- Se quiser, posso dormir aqui.
O olhou com desconfiança, Saga riu.
- Tenho as melhores das inteções.
- Isso é um problema. Porque eu não.
No segundo seguinte ele a levantava e a levava até o quarto.
Ooooo
Era uma noite chuvosa e Alexis se esforçava para voltar para casa, o guarda-chuva balançava no vento e ela mal enxergava um palmo a sua frente. Estava no meio da mata quando parou, havia uma pessoa sentada no meio da chuva.
- Quem está ai?
Quando o vulto finalmente se virou percebeu que era Saga. Sem nem pensar, ela correu até ele.
- Saga, o que houve?!
- Eu estou enlouquecendo, Alexis.
Tremia e parecia desorientado. A serva passou o braço envolta dele e o guiou até a sua casa. Todas as luzes estavam apagadas, Talia não estava. O fez sentar na cama e foi buscar uma toalha, ajudando-o a secar os cabelos.
Foram precisos muitos minutos para finalmente acalmá-lo, mas agora ele estava sentado na cama com uma xícara de chá quente nas mãos. O rosto estava pálido, magro e as olheiras chamavam a atenção naquele rosto perfeito.
- Eu e Kanon fomos criados pela minha mãe em Atenas. Tínhamos uma boa vida, mas eu sempre me senti diferente.
Começou, a voz ainda tremia um pouco. Ele tentava transparecer calma, mas era difícil demais.
- As vezes eu sentia que estava sendo sugado para um buraco negro, como se o meu próprio corpo não me pertencesse. Minha mãe sempre teve medo disso, dizia que eu tinha algo de muito ruim dentro de mim.
Falava isso enquanto usava a mão livre para brincar com os dedos da namorada.
- Minha mãe tinha medo do que esse mal poderia causar a mim e ao Kanon. Por isso, se mudou para o Santuário e fez de tudo para que eu virasse um aprendiz. Ela acreditava que a disciplina me faria uma pessoa melhor. E de certa forma fez mesmo, mas ainda tenho essas crises e elas tem ficado cada vez mais fortes.
Colocou a caneca no chão, agora tapava o rosto com as suas mãos, fazendo a voz grossa soar ainda mais distante.
- Eu não consigo comer ou dormir. E eu estou tão cansado.
Alexis o fez deitar na cama, ficaram um de frente para o outro enquanto ela acariciava os cabelos azuis.
- Toda vez que você for sugado para a escuridão eu vou te trazer novamente para a luz. É uma promessa.
Oooo
Saga estava parado no meio do quarto de Alexis, o olhar vidrado era assustador. Fitava com uma expressão assassina para a namorada dormindo na cama. Ela finalmente acordou e se assustou com a figura parada do lado da cama.
- Saga, você me assustou.
Ele não respondeu. Se aproximou com cuidado, segurando a mão cheia de calos.
- Saga, o que houve?
Ela foi empurrada de volta para a cama com violência, ficou parada sem saber o que fazer, os olhos estavam arregalados e com lágrimas.
- O que foi isso?
- Alexis, não chegue perto.
Ela sentou.
- Acabou tudo entre nós. Eu sou um cavaleiro de ouro, estou sendo cotado para a vaga de Grande Mestre, não posso perder tempo com uma serva vadia.
- Você não pode estar falando sério.
Saga soltou uma gargalhada alta e muito assustadora.
- Sério? Dormir abraçadinho? Era assim que você ia me salvar da escuridão? Eu vou te dizer o que anima qualquer homem: uma boa trepada. E olha que você é boa nisso.
Começou a chorar baixinho, não estava entendendo o que acontecia, onde estava o homem gentil que ela conhecera? Se levantou novamente e parou em frente a Saga.
- Esse não é você.
Ele riu de forma sarcástica.
- Esse sou eu quando estou irritado. Qual é o problema de querer o que todo mundo já teve? Ou esse rabinho agora é exclusividade do cavaleiro de sagitário?
O som do tapa que Saga recebeu no rosto escoou por todo o quarto. A expressão de dor dela havia sumido, sendo substituída pela raiva.
- Saia já da minha casa.
Começou a empurrá-lo para fora, ele ria do esforço dela. Travou na porta olhando-a com desgosto.
- Eu vou ser Grande Mestre e você? Não importa o quanto estude, vai continuar sendo uma serva de quinta que precisa de um cavaleiro para ter alguma dignidade dentro do Santuário. Melhor começar a abrir as pernas.
Ela bateu a porta e se encostou nela, desmoronando no chão e se entregando a um choro compulsivo. Talia saiu de seu quarto com uma expressão assustada.
- Meu Deu, Alexis?! O que houve?!
Não conseguia falar de tanto que soluçava, abraçou a amiga como se toda a sua vida dependesse disso.
Oooo
Alexis e Aiolia estavam sentados envolta da mesa da casa da serva, ele comia um sanduiche e tomava um suco enquanto ela saboreava um delicioso chá. Ouviram batidas na porta e Aiolos entrou: estava sorridente e trazia um bolo enorme na mão.
- Irmão, você demorou!
Ele colocou o bolo na mesa e levantou o irmão no ar, que gargalhou com o ato.
- E esse bolo?
Perguntou, curioso.
- Hoje é dia de comemorar.
A serva levantou da mesa, se aproximando com uma expressão de curiosidade. Ele botou o pequeno no chão e começou a explicar.
- O Grande Mestre acabou de me chamar. Fui escolhido como o seu sucessor.
- O QUE?!
Gritaram juntos. O mais novo abraçava o irmão com carinho e dava pulinhos de alegria. Alexis o abraçou e foi levantada do chão.
- Eu estou tão orgulhosa de você!
Oooo
Era noite quando Alexis e Talia voltavam para casa, carregavam várias sacolas cheias de compras e conversavam animadamente. Pelo caminho notaram uma movimentação estranha de guardas, mas estavam tão empolgadas que nem se deram o trabalho de perguntar o que estava acontecendo.
Foi quando chegaram na porta de casa que tudo mudou. Shura estava caído na porta delas, usava a sua armadura e estava ensopado de sangue. A cabeça estava baixa e olhava para algum ponto no chão. Talia jogou as sacolas e correu até ele.
- Shura?! Meu Deus, o que houve?!
Se olharam, ele abriu a boca para falar mas tudo o que saiu foi um choro desesperado. A namorada o envolveu em um abraço e o balançava igual a uma criança.
- Shura, meu amor, fala o que está acontecendo.
- Eu tive que fazer, era pelo bem do Santuário.
Segurou o rosto molhado pelas lágrimas com as duas mãos. Alexis olhava tudo com medo.
- Me fala.
- Eu acabei de matar o meu melhor amigo.
O choro aumentou ainda mais. Talia olhou para a amiga e viu a cor sumir de seu rosto. As sacolas que Alexis carregava foram ao chão, fazendo um som alto. Em seguida, ela caiu de joelhos. A mão tapava a boca, mas não conseguia impedir os sons que saiam dela.
- Não... não... não...
- Aiolos tentou matar Athena, eu tive que fazer.
- NÃO!
Alexis começou a gritar e então olhou para o homem.
- onde está o Aiolia?!
- Com o Grande Mestre.
Quando percebeu, ela já estava correndo, ignorou completamente o som da amiga gritando o seu nome, ignorou as pessoas que a olhavam com desconfiança, ignorou o longo trajeto repleto de escadas, ignorou o cansaço, ignorou a respiração que ficava ainda mais difícil com as lágrimas. Ignorou tudo e se focou em chegar até a Sala Principal.
Quando finalmente cumpriu seu objetivo, tinha o corpo completamente encharcado de suor e lágrimas, o tosto estava vermelho e parecia desorientada. A enorme porta de aço se abriu e o patriarca saiu por ela, ficou parado observando o estado da serva, finalmente falou.
- Prepare o corpo para o enterro, ele não será velado como um cavaleiro de ouro.
Entrou na grande sala e sentiu todo o seu mundo despencar. No meio no lugar, jogado de qualquer jeito, jazia o corpo de Aiolos de Sagitário. O pequeno Aiolia colocava a cabeça do irmão no colo e chorava alto.
- Não me deixa sozinho irmão! Irmão!
Fazia carinho nos cabelos cacheados, agora grudados com sangue. Com a manga de sua roupa tentava limpar a lama que estava espalhada no rosto daquele que havia sido o seu maior herói.
Alexis não conseguia dar um passo sequer, seu corpo todo tremia e as lágrimas caiam com mais rapidez. A boca estava aberta mas nenhum som saia por ela.
Com um esforço sobre humano, se aproximou e o som de sua presença fez o pequeno se virar, os olhos estavam inchados e o olhar vazio, tinha um roxo no lado esquerdo do rosto. Parou de chorar por alguns segundos e o silêncio invadiu a sala.
- Lele... o Lolos.
Ele voltou a gritar, apertando o irmão entre seus braços, o pequeno corpinho tremia compulsivamente. Ela abraçou os dois, respirava fundo tentando se acalmar, ele precisava dela naquele momento.
Segurou o rostinho com as mãos e beijou a testa.
- Eu estou aqui aqui, estamos juntos nessa.
Ele afirmava com a cabeça enquanto chorava. Ficaram assim por muito tempo até ela finalmente ter forças para parar de soluçar.
- Aiolia, meu amor, nós temos que levar ele para a preparação. Ok?
Apenas afirmou com a cabeça. Completamente entregue a própria dor.
- Vou chamar as servas para me ajudarem, vem comigo?
- Não vou deixar ele.
- Ok.
Se levantou e foi até o corredor onde três mulheres estavam paradas assistindo toda a cena.
- Sarah, Mia, Guta vocês podem me ajudar a levar o corpo dele?
- O Grande Mestre nos proibiu.
Respondeu a primeira, com desprezo.
- E eu não vou sujar as minhas mãos com sangue de traidor.
Completou a outra. Alexis cambaleou com tamanha frieza que recebia, parecia não acreditar em tudo aquilo que estava ouvindo.
- Quando lutou por vocês, ele era válido. Quando sangrou por vocês, ele era válido. Quando passou noites sem dormir, ele era válido. Quando ele era a chance de vocês tentarem subir na vida, ele era válido. QUE TIPO DE SER HUMANO NÃO SE COMPADECE DE UMA PESSOA QUE DEDICOU A VIDA A CUIDAR DE TODOS NÓS!?
Berrou.
- Entendo a sua frustração, você realmente achou que tinha tirado a sorte grande. Você não é mais especial, Alexis. Sabe o que você é agora? Menos do que nada. E eu não vou seguir ordens de putinha de traidor.
Ficou parada, enquanto elas riam de seu desespero. Voltou para a sala, e se abaixou, depositando um beijo na testa de seu amigo.
- Vamos continuar a ter a dignidade que Aiolos sempre teve, me ouviu Aiolia?
Ele afirmou com a cabeça.
- Me faz um favor?
- Sim.
Se abaixou novamente pegando o braço do cavaleiro e jogando em seus ombros, então ficou de joelhos no chão.
- Me ajude a colocar ele nas minhas costas.
Sem dizer nada, Aiolia começou a ajudá-la. Depois que finalmente conseguiram, ela respirou fundo e levantou. Era nítido o esforço que fazia para permanecer em pé, mas mesmo assim não se deixou abater.
- Vamos.
Chegaram ao corredor e o silêncio se instaurou. Continuavam a andar com dificuldade, Alexis parecia exausta. Aiolia tentava manter a cabeça erguida, mas o choro quase escapava pela garganta. Finalmente se aproximaram da enorme sala de preparação que ficava no último cômodo do templo, quando ouviram passos de alguém correndo.
- Alexis, chegu...
Talia não conseguiu terminar a frase quando viu aquela cena, cambaleou. Foi na frente e abriu a porta para depois, ajudar a outra a deitar o cavaleiro em uma maca.
- Me deixe te ajudar.
- Talia, leve o Aiolia até Sagitário e faça as malas dele. Com certeza vão querer se livrar de tudo.
- Eu quero ficar, não vou deixar ele sozinho.
Falou chorando, ela o abraçou com força.
- Me amor, você não precisa passar por isso. Pode deixar, eu vou cuidar dele com o mesmo carinho que ele sempre cuidou de mim, ta?
Talia pegou o pequeno pela mão e o tirou do local, Alexis trancou a porta e voltou para a maca. Ficou alguns segundo olhando o corpo sem vida na sua frente até cair no chão e se entregar a um choro desesperado quase compulsivo.
Oooo
Alexis chegava em casa, usava os trajes de serva, mas a roupas estava abarrotada e rasgada. Tinha uma expressão muito exausta no rosto e as mão estava enfaixadas, podendo ver pequenas gotas de sangue manchando as tiras do tecido branco.
Abriu a porta e encontrou Talia cozinhando, ao ver a amiga, foi até ela e abraçou.
- Obrigada por estar segurando as pontas por mim. Eu sei como é difícil para você ficar longe do Shura nesse momento.
- Não tem problema, Shura precisa de mim, mas você e o Aiolia também. Principalmente agora que o grande Mestre só passa as piores tarefas para você. Eu não entendo.
- Amiga do traidor, lembra?
Despencou na cadeira, fechou os olhos por alguns minutos.
- Ainda parece que é mentira, Talia. Parece que eu vou acordar desse sonho e vou encontrar o Aiolos com aquele sorriso de sempre.
A morena desligou o fogo e colocou a comida na mesa, depois segurou o rosto da amiga com as mãos.
- Você é tudo o que o Aiolia tem, não pode fraquejar.
A outra afirmou com a cabeça.
- E o Shura?
- Ele tenta parecer bem, mas eu sei a verdade.
O som de uma porta abrindo fez a conversa se encerrar, Aiolia aparecia de pijama e com os cabelos molhados. Estava mais magro e parecia triste, mas deu um sorriso fraco ao ver Alexis.
- Venha comer, amor. Talia fez o seu favorito.
- Muito obrigado, Talia.
Oooo
A sala de estar dos aposentos particulares do Grande Mestre estava imunda. Alexis estava de joelhos esfregando o chão com um pano, estava tão concentrada no que fazia que nem notou que era observada pelo impostor. Usava os trajes típicos e a máscara.
- Está fazendo errado.
- Me perdoe, Grande Mestre.
Sentou na poltrona e colocou os pés para cima.
- Já está tarde, você deve estar cansada. Faça seu trabalho direito e você vai poder ir para casa.
Ela continuou o que estava fazendo, ao ver que a serva parecia calma e concentrada no que fazia, Saga foi até uma mesa limpa e passou o dedo.
- Está sujo de pó.
Antes que ela pudesse responder, teve os seus cabelos puxados e o rosto quase esfregado na madeira.
- Está vendo?
- Por que está fazendo isso comigo?
- Porque é muito divertido.
Ela começou a tentar empurrá-lo, com a batalha, a máscara voou longe. Ficou paralisada ao ver o rosto de Saga surgir: olhos vermelhos, cabelos brancos e um sorriso quase assassino brotando nos lábios.
- Saga...
- Ele não está mais aqui para te proteger.
Sem que Alexis esperasse, Ares fechou o punho e a acertou no rosto, com o impacto foi jogada para o outro lado do cômodo. Ficou um tempo sem se mexer, e quando levantou, o rosto estava encharcado de sangue, que se misturava com as lágrimas.
- Você não faz ideia de como é divertido ouvir o quanto ele grita aqui dentro toda a vez que eu te machuco.
Falou apontando para a cabeça enquanto se aproximava dela, que tentava fugir se arrastando. Foi levantada pelos cabelos.
- Ele chora igual a uma criança quando eu destruo você e esse cosmo de merda.
Agora foi o estômago o alvo, caiu novamente no chão, tentando recuperar todo o ar que havia perdido.
- Quem é você?
- Não te interessa.
Ela chorava baixinho quando ele a acertou pela última vez, na cabeça. Alexis apagou no chão.
Ooooo
Alexis abriu os olhos com dificuldade, estava na sala das banheiras do Santuário, um lugar exclusivo do Grande Mestre. Seus ferimentos estavam mais em evidência naquele momento: o corte profundo no lábio estava inchado e com um enorme roxo ao redor, o cabelo loiro tinha uma mancha de sangue. Parecia confusa, ainda meio tonta caminhou até a porta, tentou abrí-la mas estava trancada.
- Merda!
Caiu sentada.
- SOCORRO!
Gritou a plenos pulmões. Pode ouvir passos, e a porta se abriu. Saga não usava os trajes de Grande Mestre e sim uma calça branca e uma espécie de bata. Deu um sorriso cínico.
- Dormiu bem?
Não respondeu, apenas se afastou um pouco, se encostando na parede. Seus olhos traziam uma mistura de medo e ódio.
- Pode gritar, já é tarde e não tem ninguém por perto.
Ela abraçou as pernas e começou a chorar, naquele momento não parecia uma mulher de 20 anos e sim uma garotinha completamente assustada.
- Hoje tivemos uma coisa bem legal aqui no Santuário: o seu enterro.
Levantou a cabeça, os olhos verdes estavam confusos.
- Matei uma serva que era meio parecida com você, a vesti com as suas roupas e a queimei. A vadia oficial do traidor foi vítima de um crime de ódio causado por dois guardas que confessaram o crime. Parece até manchete de jornal.
- Você não está falando sério.
- Muita coisa pode acontecer em dois dias, que foi o tempo que ficou desacordada a propósito. Achei que tinha morrido, e fiquei decepcionado: tenho tantos planos para você.
Ela tentou correr para a porta, mas foi segurada por ele, soltando um grito de dor e frustração. Saga a pegou no braços e a levou até a água, afundando a sua cabeça. Segundos depois a soltou, ela vomitava água e tentava respirar.
- Isso é o que acontece quando alguém me desobedece.
Fez isso novamente, mas dessa vez a manteve muito tempo mergulhada. Saga a soltou em um solavanco e se atirou na borda. Os olhos estavam fechados e parecia confuso.
- Ele realmente quer proteger você. Acho que vou ter que te matar agora mesmo.
Tentou correr novamente, mas ele era muito mais rápido, a arrastou pelo chão e sentou em cima dela que gritava e se debatia histericamente. Com as duas mãos agarrou a sua garganta e pressionou. Alexis quase desmaiava quando o agressor caiu com tudo no chão, seu corpo convulsionava e gritava em duas vozes diferentes, a serva reconheceu uma delas na hora: era Saga.
O cabelo aos poucos foi se tornando levemente azul, o cavaleiro caiu exausto no chão, seu corpo tremia muito.
- Alexis..
Disse com um fio de voz, ela parecia aliviada.
- Saga, você conseguiu.
Tentou se aproximar com um sorriso.
- Não! Não se aproxime.
Ele gritou, a deixando paralisada. Viu as lágrimas escorrerem pelo rosto forte e belo.
- Eu não vou conseguir segurar ele por muito tempo, você tem que correr.
Ela ainda estava parada, tremendo de medo e de dúvida.
- Por favor, Alexis, vá.
- Saga...
Levantou em um salto e correu pelos aposentos, depois de alguns minutos, finalmente alcançou a casa de peixes. Desceu as escadarias com um desespero que parecia lhe dar mais forças. Foi quando chegou até Capricórnio que ela invadiu a casa de Shura.
- Shura!Talia!
O local estava vazio, voltou a correr como se toda a sua vida dependesse daquele momento. Em poucos minutos finalmente conseguiu passar pela primeira casa zodiacal, foi em direção a vila e chegou em casa. Pulou a janela e caiu por cima do sofá.
- Talia? Aiolia?
A voz tremia quando uma luz se acendeu e a amiga surgiu na cozinha. Um sorriso sincero misturado com lágrimas surgiu em seu rosto, correu e a abraçou. Beijava os cabelos loiros com carinho quando notou o estado em que ela se encontrava.
- O que aconteceu com você?! Meu Deus!
- Foi o Saga, ele tomou o lugar do Grande Mestre. Ele me torturou, mas não era o Saga, era outra pessoa em seu corpo. Onde está Aiolia?
- No hospital, ele se entregou depois que você foi dada como morta, parou de comer. Eu só tinha vindo trocar de roupa, mas acabei dormindo. Precisamos falar com o Shura ele vai...
Não terminou a frase, parecia compenetrada em algo que rolava fora da casa. Alexis a olhava assustada.
- Estamos cercadas, Alexis. 3 guardas e dois cavaleiros de prata.
- O que vamos fazer?
Com passos curtos, lentos e cuidadosos, Talia foi com a amiga até a janela do quarto com a luz apagada. Ficaram alguns segundos em silêncio antes da morena chutar o objeto e as duas saltarem para fora, correndo em direção a mata que tinha perto.
Escutaram os gritos e os passos atrás delas, ouviram também as ameaças e o barulho metálico das armaduras na pequena estrada. A escuridão piorava a fuga, as fazendo um pouco menos velozes que o normal.
Talia parou e assumiu uma posição de ataque, Alexis tentava leva-la.
- Vamos!
- Continue até o fim do Santuário, vou distraí-los.
- Não! Não vai!
Talia a empurrou e então sorriu.
- Eu fui treinada para ser uma amazona de ouro, confia em mim.
- Eu te amo, Talia.
-Isso não é uma despedida, eu vou te encontrar em breve. Agora, vai!
Voltou a correr pela estrada, mas conseguiu ouvir o som de explosões e de briga. Sentiu o cosmo dourado da amiga se acender de forma plena e se surpreendeu com tamanho poder, poderia facilmente ser confundida com Shura.
Estava cruzando os portões quando sentiu. O cosmo que antes era tão forte e brilhante agora havia se extinguido. Caiu de joelhos e começou a chorar.
- NÃO! TALIAAA!
