IX.
No dia seguinte, Olivia se levantou profundamente abatida. Parecia que algo dentro dela havia se quebrado. A pouca esperança que um dia tivera, parecia perdida definitivamente. Fez todas as suas tarefas habituais, mas com o espírito em outra parte. Peter, Charlie e até mesmo o jovem Raoul, todos perceberam que ela estava diferente. Aquele silêncio prolongado e o rosto impassível, desanimado incomodavam Peter sem que ele soubesse a verdadeira razão. Por outro lado, Charlie estava aflito, pois temia que ela tivesse escutado alguma parte da conversa da véspera. Resolveu que distraí-la talvez fosse a atitude mais acertada e, fingindo ignorar os sinais de tristeza, começou a ocupá-la com os preparativos da pequena viagem até Arras.
-Livia, finalmente alguém vai poder vê-la em seu vestido novo.
Ela balançou a cabeça afirmativamente, mas os olhos estavam presos no chão. Aquela tristeza muda cortava o coração de Charlie. Olivia reuniu suas coisas numa pequena trouxa. Depois foi se sentar num banco perto do fogo. Sentia muito frio.
-O que você tem? Será que vai ficar doente?
Peter havia se sentado aos pés dela. Ela respondeu sem olhar para ele.
-Não, estou só cansada. Nunca adoeci até hoje.
Os olhos dele, de um azul profundo, sorriam com simpatia. Olivia era uma boa moça. Gostaria de vê-la bem, confortável e segura.
-Então o que é?
Ela encolheu os ombros, pensativa. Continuava a fitar o fogo. Peter resolveu respeitar aquele silêncio. Chegou mais perto e deitou a cabeça em seu regaço. O coração de Olivia chegou a saltar, parecia que ia sair pela boca. Sabia que o melhor, o certo, seria dar uma desculpa e se afastar. Involuntariamente suas mãos a traíram, desobedientes, elas começaram a acariciar os cabelos castanhos.
-Como isso é bom, Livia. O céu deve ser algo parecido com isso.
Olivia retraiu as mãos, interrompeu o gesto e ele levantou a cabeça. A fisionomia dela estava cansada. Prontamente ela se ergueu.
-Boa noite, Peter.
Ao amanhecer se puseram a caminho. Peter ia em seu cavalo, Charlie e Olivia em dois burros arranjados pelo jovem Raoul, que ficara de encontrá-los na bifurcação da estrada. Peter estava bastante tranquilo, mas ficou um pouco contrariado ao encontrar no local marcado, além de Raoul, o irmão mais velho, ambos acomodados em um velho carro de madeira puxado por dois bois. O veículo estava cheio de mercadorias para serem comerciadas na feira. Bernard ficou de olho alegre quando avistou Olivia.
-O vestido não ficou bom?
Ela olhou-o um pouco surpresa.
-Ficou sim. Deixei para usá-lo quando chegarmos a Arras. Diga à sua mãe que agradeço o presente.
-Eu direi quando voltarmos. Meu pai tem a senhorita em grande consideração.
Olivia corou com o cumprimento. Peter não perdia uma só palavra da conversa. Absteve-se de qualquer comentário, mas não gostou.
Lá pela metade da viagem, quando pararam para comer alguma coisa, Peter se aboletou ao lado dela. No íntimo justificava sua atitude como uma precaução, temendo algum desrespeito avanço por parte do tal Bernard.
-Está cansada, Livia?
-Estou. Gostaria de dormir um pouco.
-Vamos dar um jeito nisso.
Na hora de partir, pressentindo o convite do jovem Bernard para que ela continuasse a viagem no carro de bois, Peter se adiantou. Colocou-a sentada em seu cavalo. Depois montou e prendeu os braços dela em torno da sua cintura.
-Agora pode ir mais descansada, até cochilar, se quiser.
Charlie não entendeu nada. Raoul olhou espantado e o irmão fechou a cara. Seguiram assim até chegar à cidade, que estava movimentadíssima com os preparativos da feira e da apresentação de teatro que se realizaria diante da catedral.
Olivia adormecera com o rosto afundado no ombro de Peter. Parecia perfeitamente serena. O cheiro dele, o calor que emanava de seu corpo, o sabor da proximidade – tudo parecia parte de um sonho bom.
-Olivia... Chegamos. Era a voz de Charlie, bem perto. O cavalo parou. Ouviu a voz de Peter.
-Está acordada?
-Sim.
Ele desmontou com agilidade e ajudou-a a descer. Olivia pousou no solo suavemente, com as mãos dele em sua cintura, os rostos muito próximos. Ela tomou coragem e olhou para ele bem dentro dos olhos. Peter olhou-a com franqueza, mas ao senti-la tão próxima, percebeu que os olhos tinham uma linda cor, que a pele era macia e alva, que ela era bonita. Sim, era esquisita, única, via e fazia coisas estranhas, mas era bela. E as coisas impossíveis que ela realizava eram parte integrante de seu encanto.
O momento durou pouco, infelizmente. Charlie entregou-lhe uns embrulhos volumosos; Olivia abraçou sua trouxa. Começaram a montar acampamento. Desfeito o deslumbramento anterior, Olivia finalmente olhou ao seu redor: a catedral de linhas verticais dominava a vista. Ao seu redor barracas com produtos. Tudo parecia colorido e alegre; ninguém a percebia com desconfiança. Sentiu o inexplicável prazer da consciência de poder se perder na multidão.
