CAPÍTULO 9

Crescente

A Magia do Aprisionamento prossegue com suas conseqüências...

-Anda, pega nos meus peitos.

-Vai recusar e não ser uma boa aluna?

...e a lua inicia a contagem regressiva para o fim da magia...

-Eu não vou enviá-los a você.

-RESPONDA DE UMA VEZ!!

...novos detalhes sobre um mistério ocular...

-Qual maldição teria o poder de ferir um olho a ponto de torná-lo vermelho?

...é crescente a lua, são crescentes os desejos e a sede de vingança.


-Augusto não tinha o direito de me escolher como par para o baile! – reclamou Lanísia. Ela e as amigas ocupavam suas carteiras para a aula de Defesa contra as Artes das Trevas. – Não tinha!

-Pare de fazer "cena" – disse Mione. – Ainda não tem ninguém na sala além de nós quatro... – lançou um olhar depreciativo para Serena, que afundava a cabeça nos braços para tirar um cochilo. – Ou melhor, nós três e a loura pinguça aqui do lado... Mas, sério, pode admitir que adorou a idéia do Augusto.

-Adorei? Por que ia adorar uma insanidade dessas? Não percebem a grande burrada que ele está cometendo? Já tem professor desconfiado de que existe algo entre nós dois, então é evidente que o certo seria nos evitarmos o máximo que pudéssemos... Só nos prejudicamos com essa atitude dele! As suspeitas vão aumentar.

-Você está exagerando muito, mané – observou Alone. – O que tem de mal em dançar com o professor? Não podem provar nada com isso. Só vão dançar juntinhos.

-Do jeito que o Augusto está? Ah, eu duvido muito que vamos apenas dançar... Tremo só de pensar na mão boba percorrendo meu corpo, dando apertões inadequados diante de todos...

-Você treme de expectativa, certo?

-Não, Mione! Tremo de medo! – ela sacudiu-se num calafrio.

Hermione olhou para Alone.

-Será que o flagra na casa da Joyce causou esse quadro de cautela excessiva?

-Digamos que pelo menos no Expresso ela não estava tão preocupada com isso – lembrou Alone. – Acredito que seja a sensação de estar em Hogwarts que trouxe essa mudança. A maior ameaça aos dois é o Flitwick, que está por aqui vinte e quatro horas por dia. E anões são perigosos...

-Ele não é um anão.

-Mas tem altura pra isso, Mione. E, como ia dizendo, anões são ameaçadores porque podem se esconder em lugares inesperados. Outro dia tinha um lá em casa, eu entrei no quarto da minha mãe e o encontrei escondido dentro do lustre, pelado, uma vergonha!

Ela não deu a impressão de que ia prosseguir; Mione, então, resolveu perguntar.

-E... você sabe o que ele estava fazendo lá dentro, não sabe?

-Sei sim. Mas não era nada interessante não. Ele falou que tinha confundido a casa, na verdade devia ir numa festa. Ao ver que tinha se enganado, ficou sem graça e se escondeu no lustre.

-Hum... – suspirou Mione, ciente de que o anão devia estar no quarto da mãe de Alone por outro motivo. – Ele ia pra festa pelado?

-Tem doido pra tudo, não é mesmo? Eu não duvidaria se a Joyce programasse uma festa dessas. Vai ver era festa de algum Meadowes.

Lanísia estalou os dedos.

-Será que podemos voltar ao meu problema?

-Não se trata bem de um problema – disse Mione. – É um fato, você vai ter que se conformar. Augusto já assinou na lista, e ele não vai trocá-la por nenhuma garota.

-Não posso desistir tão facilmente... Provavelmente não vai dar em nada o que estou pensando em fazer, mas é melhor tentar. Conhecendo o Augusto como eu conheço, ele vai ficar nervoso e mudar de idéia na mesma hora.

-O que está planejando? – perguntou Alone.

Não recebeu resposta, pois naquele momento todos os colegas irromperam pela porta, ansiosos pela aula. Em seguida, entrou Augusto, com seu novo estilo despojado, sorrindo para a turma. Todos se acomodavam, numa confusão de vozes e cadeiras sendo arrastadas. Enquanto mexia em sua pasta, Augusto piscou e acenou para Lanísia.

O coração da garota disparou. Ela mexeu no cabelo, constrangida, brincando com uma mecha enquanto olhava para os lados. Felizmente, os colegas não pareceram perceber, exceto Alone e Hermione, cujas expressões de assombro revelavam o espanto diante da ousadia do professor.

Lanísia evitou fitá-lo até que Augusto pediu silêncio e retomou as explicações da aula anterior sobre defesas contra maldições. Ela sentiu que seria ainda mais suspeito fingir-se desinteressada, então jogou os cabelos negros para os lados do rosto, tentando formar uma barreira contra os olhares dos colegas. Qualquer rubor ou emoção que transparecesse em seu olhar não poderiam ser presenciados.

A aula seguiu tranqüila nos primeiros minutos, Augusto explicando diante dos alunos silenciosos, envolvidos por suas palavras.

De repente o professor puxou um lenço do bolso, o que todos encararam com naturalidade. Era um hábito de Augusto secar a testa durante as aulas, não só quando Lanísia o provocava – embora, ela adorava perceber, suas investidas o faziam transpirar ainda mais.

Só que Augusto não levou o lenço à testa. Com um sorriso enviesado, comentou com a classe:

-Está muito quente, não acham?

Ele abriu outro botão da camisa. Mesmo sem querer, os olhos de Lanísia reviraram-se, e seu peito subiu e desceu quando ela puxou com mais força a respiração.

Ali a visão era perfeita. Ela sentiu vontade de que ele abrisse todos os outros botões, era muito tentador ver o peitoral parcialmente revelado. A pele morena de Augusto... que vontade de tocá-lo, sentir aqueles músculos rígidos com seus dedos... Ela começou a salivar...

Mas, claro, o lenço tinha um propósito.

Propósito que fez um calor súbito subir pelas pernas de Lanísia.

Augusto começou a secar-se. Ergueu a cabeça e fechou os olhos. Para muitos, poderia parecer aliviado em refrescar-se do calor. Mas aquele olhar bruto, concentrado, de lábios entreabertos... Tudo isso dizia muito mais para Lanísia.

Era sexy. Como se ele estivesse sentindo prazer. Aquele era o jeito que Augusto tinha quando faziam amor. Ele respirou fundo. O som daquele suspiro era idêntico ao que ela ouvia quando mexia com os desejos do professor.

Aquilo tudo era muito indecente. Constrangida e ruborizada, Lanísia olhou para os colegas, esperando encontrá-los em choque diante das atitudes de Augusto. Surpreendeu-se; todos aproveitaram a pausa nas explicações para conversarem um pouco. Mais uma vez, somente suas amigas – incluindo Serena, que deixou o esconderijo dos braços – compreenderam o que estava acontecendo. Elas pareciam estátuas assustadas.

Quando olhou novamente para o professor, ele guardava o lenço no bolso, sorrindo matreiro para ela. Notou, é claro, o nervosismo que provocou nela, e estava contente com isso. Irritada, Lanísia abriu o livro e ocultou o rosto por trás de suas páginas. Não queria que Augusto sentisse o gostinho dos efeitos que causou nela...

Serena tossiu. Alone e Mione olharam para ela; Lanísia, ainda sustentando o livro diante do rosto, girou o corpo para trás para olhá-la.

-Vocês viram que indecência? – ela indicou o professor; sua boca permanecia escancarada enquanto falava, os olhos cheios de pavor. – Nunca imaginei que secar o peito fosse tão gostoso. Vou fazer isso mais vezes.

-Era como se ele estivesse... transando com o lenço! – observou Alone. – É a única palavra que pode explicar tudo isso, desculpem. Se fechasse os olhos podia visualizá-lo "mandando ver", só ouvindo esses sons.

-Isso não foi por acaso, meninas – disse Lanísia. Chamou-as para mais perto e, com a voz baixa, sussurrou. – Ele quis me provocar.

-Quanta pretensão a sua! – comentou Serena. – Augusto nunca ia provocá-la aqui na sala. Ele só acha gostoso secar-se, qual é o problema?

-Tem gente que sente tesão nas coisas mais absurdas – falou Alone. – A Serena, por exemplo, adora quando recebe uns tapinhas.

-É... – Serena confirmou e recebeu um tapinha no braço, aplicado por Alone. – Ui, danada... – murmurou, deslizando pela carteira enquanto seu corpo estremecia de desejo.

-Isso é diferente – retrucou Lanísia. – Mas, tudo bem, eu saquei quais são as intenções do Augusto. Vou deixá-lo sem ação com a minha próxima manobra.

-O que vai fazer? – perguntou Mione.

-Esperem pra ver.

Elas separaram o grupinho quando Augusto abriu um caderno com desenhos e começou a levitá-lo pela sala, para que todos os alunos pudessem ver as ilustrações.

-As figuras trazem exemplos claros dos danos causados pela defesa incorreta. Estão vendo a mulher com o buraco no rosto? Pois é, o ricochete da maldição foi suficiente para isso.

Hermione ergueu a mão. Aquela era a última aula que envolvia aquele tema; não poderia desperdiçar essa oportunidade. Joyce não estava na sala, o que lhe proporcionava o momento perfeito para que Augusto esclarecesse uma dúvida que vinha lhe incomodando.

-Pois não, Srta Granger? – perguntou o professor, sempre atencioso.

-Qual maldição teria o poder de ferir um olho a ponto de torná-lo vermelho? – ela tentou ser mais clara; colocar para fora todas as sensações que o olho de Celine lhe provocou. Recordou o momento no quarto, quando foi flagrada na leitura do poema e a mãe de sua amiga se revoltou de maneira assustadora. – A ponto de... De deixá-lo como uma ferida aberta, que nunca se fecha, e que despeja sangue como se... como se fossem lágrimas?

-Bom, vou fazer com que vocês mesmos cheguem à resposta – Augusto se sentou sobre o tampo de sua mesa. – O que os obriga a fecharem os olhos? Ou pelo menos semicerrá-los, deixá-los entreabertos, de uma forma bastante incômoda?

-A luz? – supôs Mione, com um leve balançar dos ombros.

-Correto! A luz! Quando bate em nossos olhos com intensidade chega a nos cegar por alguns segundos. Quantos bruxos não perdem o rumo e acabam caindo da vassoura ao serem cegados pela luz do sol? Muitos! Agora podem calcular os danos que uma luz carregada de magia negra poderia provocar em nossos olhos já tão sensíveis à luminosidade?

Mione engoliu em seco.

-Então a luz transformaria o olho nessa... bola de sangue permanente?

-Isso. Mas a íris, além de adquirir essa cor rubra, guarda uma herança desagradável ao portador do mal. O dano não é apenas externo. O portador do olho vermelho precisa conviver com efeitos terríveis.

-Que tipo de efeitos? – questionou Mione. – E o que faz o sangue escorrer por ele?

-A... – mas Augusto se interrompeu e, quando olhou para Mione, ela sentiu que ele finalmente notou quais eram suas intenções. Não era uma curiosidade teórica; ela queria desvendar o que havia acontecido com Celine Meadowes. Quando Augusto recompôs-se e voltou a falar, ela sabia que não teria as suas respostas. – Vamos prosseguir com a aula e...

-Mas ainda não chegamos à resposta da minha pergunta, professor... – insistiu Mione. – Você disse que nós acabaríamos alcançando a solução, mas ainda estamos sem saber a quais maldições esse efeito da luz está relacionado!

-Srta Granger, sugiro que faça uma pesquisa individual. Preciso continuar a aula...

-Mas...

Ele debruçou-se sobre a carteira de Mione e falou, baixinho:

-Não vou passar a você informações que envolvem pessoas importantes para mim.

-Por que não pode falar o que aconteceu com Celine?

-Porque ela quer que isso seja esquecido no passado e eu devo respeitá-la.

Endireitando-se, Augusto sorriu para a classe e continuou a aula. O tema era muito interessante, de modo que logo ele conseguiu prender a atenção dos alunos, que se esqueceram de supor o que ele teria conversado com Mione em voz baixa.

Alone cutucou o ombro de Mione.

-Ele foi colega de Celine nos tempos de Hogwarts, são amigos até hoje, mané. Até parece que ia te liberar uma informação desse calibre.

-Não foi em vão. Ele me deixou mais perto da resposta. Talvez com as leituras certas eu consiga descobrir sozinha.

-É tão importante descobrir isso?

-A agonia de Celine e o poema que eu li me fizeram sentir que sim. O mal que atingiu Celine não é coisa do passado.

-Shhhh... – fez Serena, pedindo silêncio às amigas. – Não atrapalhem a aula!

-Parem, porque agora quem vai atrapalhar sou eu – anunciou Lanísia, antes de erguer a mão no ar e estalar os dedos, pedindo a atenção do professor.

-Qual seria a dúvida? – ele perguntou, risonho, para a garota.

Lanísia falou numa tacada só.

-Eu não quero ir ao baile com o senhor, professor Augusto. Quero que arranje outra companhia.

Foi a vez de Lanísia sorrir da reação dele. Diante de todos os alunos, Augusto não teria desculpas para prosseguir com aquela bobagem.


-Juca, espere um pouco... Espere... – Joyce pedia sem parar, enquanto corria atrás do garoto.

-Esperar por quê? – perguntou Juca sem olhar para ela. – Para conversarmos sobre o tempo? Para estudarmos juntos? Porque é só isso que fazemos ultimamente, parecemos dois amiguinhos...

-Não... – Joyce apressou o passo, tomou a dianteira e estendeu a mão para forçá-lo a parar. Assim ela podia ver o estrago que havia feito; os olhos de Juca estavam inchados sob as lentes dos óculos, o nariz muito vermelho. – Não, está entendendo tudo errado.

-Posso não ter experiência em relacionamentos, mas eu já entendi tudo, Joyce – disse ele, a voz lacrimosa. – Na verdade, estava esperando que algo assim acontecesse. Você cansou de ter um cara só...

-Não...

-Então se cansou de se relacionar com um nerd... Chegou a hora de variar um pouco, como você sempre fez. Já provou do tipo esquisito que eu sou, já se divertiu bastante, e agora quer descartar, jogar fora...

-Juca, vamos pra um lugar mais sossegado – disse Joyce, observando as pessoas que passavam e olhavam curiosas. – Está todo mundo olhando...

-Me iludiu, me deixou apaixonado e agora me faz passar esse vexame, chorando igual um bebezão, em pleno corredor...

-Ai, nem me fale, bota vexame nisso... – ela agarrou o braço dele. – Vamos, vamos procurar uma sala e resolver essa situação...

-Não, eu não quero... – reclamou Juca, mas sem oferecer resistência à Joyce. – Eu quero chorar! – e de repente gritou. – OLHEM, VEJAM UM ALUNO DO SÉTIMO ANO CHORANDO, ELE FOI MANIPULADO E ESTÁ DE CORAÇÃO PARTIDO...

-A sua tendência para o drama me torce as tripas – disse Joyce, abrindo uma sala vazia e empurrando Juca para dentro. – Nossa, até eu estou dramática perto de você...

Joyce bateu a porta da sala às suas costas. Juca parou abaixo da janela e reclamou:

-Não é assim que deve tratar alguém que quer consolar.

-Eu sei, mas...

-Isso só piora as coisas pra você. Está perdendo ponto.

-Tenho uma pontuação de "noiva" agora?

-Não, mas a partir de hoje passou a ter.

-Então não posso perder pontos que nem ganhei!

-Pode sim. Você está no setor negativo. Agora com -2.

-Precisa ser intelectual até nas nossas discussões?

-Desceu pra -3.

Joyce grunhiu, puxando os próprios cabelos, raivosa.

-Não precisa ter chilique...

-Não é um chilique! – ela exclamou, olhando para ele. – É que me sinto frustrada! Nesses três meses não consegui provar pra você que o meu amor é verdadeiro.

-Sei que o amor é real... – explicou Juca – ...mas não é mistério pra mim o quanto você sente desejo. Seu corpo está falando mais alto do que o coração, você quer ter novas experiências, com parceiros diferentes...

-Isso não tem sentido.

-Não tem? Então por que não quis dormir comigo desde que voltamos das férias?

-Não senti vontade...

-Comigo.

-Está errado, Juca. Não queria com ninguém. Estava fria, sem disposição.

-Um "vulcão" como você jamais esfria, Joyce. Estamos na idade dos hormônios descontrolados, não tem como aceitar que não tem vontade de transar. Ainda mais você, que sempre gostou muito disso!

-Então diga de uma vez... Qual é a teoria que a sua cabeça abitolada formou?

Juca respirou fundo.

-Que você já esteve por tempo demais comigo. Inventamos posições diferentes, tudo bem, variamos bastante, mas ainda assim, é o mesmo corpo. O seu desejo por mim mudou. Se tentar dormir com outro garoto, seu desejo vai voltar a acender.

-É isso que você quer?

-Não – ele adiantou-se e tomou uma das mãos de Joyce; as lágrimas voltaram. – Porque eu amo você. Você me basta. Satisfaz-me totalmente...

-Você também a mim...

-Prove – pediu Juca. – Mostre pra mim que eu ainda consigo preencher todas as lacunas do seu ser. Se eu não sentir isso... se não formarmos um só quando estamos juntos... essa aliança não faz sentido.

O dedo de Juca tocou a aliança de Joyce. Ela fechou os olhos e pousou a cabeça no ombro dele. Juca era ótimo com as palavras, e a maneira como expôs seus pensamentos a fez encarar sua falta de desejo por outro ângulo.

O casamento seria para toda a vida. Não era suficiente que ela o amasse, era preciso um entendimento total, inclusive debaixo dos lençóis. Se fingisse sentir prazer ali, e o seu desejo nunca voltasse, jamais seria a esposa perfeita para ele. O casamento seria um desastre...

A verdade não era importante para um matrimônio?

Ela não podia mentir... Não podia fingir...

-Agora já perdemos muito tempo, Juca. Mas à noite eu provarei a você.

-Por que não agora?

-Eu... eu... estou com uma dor de cabeça tão forte... – ela esfregou as têmporas para dar maior veracidade.

Juca fez bico.

-Essa é a pior das desculpas que as mulheres dão quando não estão com vontade.

-É, pelo que estou vendo vou ter que provar agora mesmo... – resmungou Joyce, erguendo a blusa. – Anda, pega nos meus peitos.

Juca negou com a cabeça.

-Não, porque eu sei que não está com vontade.

-Tem certeza de que não quer me tocar? – ela começou a acariciar-se para provocá-lo, as mãos descendo pelo umbigo, depois subindo de volta aos seios.

A resistência de Juca foi quebrada.

-Ai, isso é golpe baixo – ele protestou, acompanhando as mãos de Joyce com um olhar cobiçoso. – Me deixou na "seca" esses dias, agora se aproveita da minha fraqueza, mas eu ainda estou bravo, Joyce, ainda não entendi...

-Vem cá, Juca, estou fervendo tanto quanto você.

-É, uma pegadinha não faz mal a ninguém – ele disse antes de avançar sobre ela, agarrando-a pela cintura e beijando-a com firmeza.

Suas mãos exploraram o corpo da amada, e em poucos segundos ambos se livraram de todas as roupas. Encaixaram os corpos ainda em pé, Joyce com as pernas encolhidas, entrelaçadas em Juca. Ele movimentou o quadril em ritmo acelerado, dominado pela força do desejo acumulado, querendo matar a falta que sentia em possuí-la. Joyce dava urros prazerosos, o que fazia sua vontade aumentar ainda mais.

Com os corpos unidos, eles se agacharam no chão. Ao tocar o carpete da sala, Joyce relaxou as pernas, abrindo-as. Juca agarrou-lhe a nuca e, enquanto a beijava, prosseguia com os movimentos ritmados, o compasso do amor sendo executado com maestria.

Depois do beijo, Joyce pousou a cabeça sobre o carpete e fechou os olhos, ainda gemendo alto.

Estava muito bom, ou, ela pensou, deveria estar. Ela adorava quando Juca se mostrava afoito, a maneira como ele dominava a situação na hora de amá-la. Era gostosa a sensação de cada toque e de cada movimento, mas não a fazia delirar como acontecia antes, e ela sabia o motivo: ela não estava com vontade. Fria como gelo. Nem Juca poderia dar jeito nisso.

Mas era melhor fingir. Sentiu a empolgação dele diante de seus gemidos e demonstrações de prazer, então, ia permanecer dessa forma até que ele terminasse.

A mente viajou e ela esqueceu-se de Juca; apenas gemia automaticamente, na escuridão das pálpebras fechadas. Pensou primeiro na aula de Augusto... Não era bom perder uma aula no último trimestre em Hogwarts. Mas poderia pedir explicações à Hermione, caso surgisse alguma dúvida... Só que, pensando bem, Hermione não era mais um ótimo exemplo; as confusões pessoais da garota acabariam afetando seu rendimento escolar, Joyce não tinha dúvidas disso... Mas ela ainda seria a fonte mais confiável na hora de lhe explicar as matérias. Ou ela ia seguir as orientações de Serena, cujo Patrono era uma anta?

"Mas Serena não é burra. É lerda. Devagar para entender as coisas. Mas, depois que entende, lida com tudo. Tanto que jamais teve problemas para passar de ano"...

-Ohhh.... Ahhh... – gemia, e os pensamentos continuavam...

"É, talvez até Serena possa me explicar o que Augusto ensinou, não vou me prejudicar... Ah! Acabei de me lembrar, hoje preciso pedir para Alone me ajudar a pintar as unhas..."

-Uii... Isso... Ahhh, meu Juca...

Ela o ouviu pigarreando. Saiu de seus devaneios e perguntou:

-Juca? Ahh.. Por que está tão quieto?

-Porque estou observando você gemendo sozinha aí no chão.

Ela abriu os olhos. Juca não estava mais dentro dela, sequer sobre ela. Estava parado perto da porta, já vestido e com as sobrancelhas tão franzidas que fizeram dos olhos minúsculas fendas.

-Ah... Puxa, Juca... – ela sentiu o rosto esquentar. – Viu só como você anda poderoso? Prolonga o meu prazer por segundos...

-Minutos – ele corrigiu, seco. – Você está aí se debatendo e gemendo há exatos dois minutos.

-Humm... Isso só revela que seus poderes sobre mim são ainda maiores... – ela disse, mordendo o dedo indicador para parecer sensual.

-Você estava fingindo, Joyce. Fingindo! – vociferou Juca. – Na certa pensando em coisas que não tinham nada a ver com o que estávamos fazendo, porque se desligou tanto que nem percebeu que me afastei! Vê o quanto isso revela sobre você? Se nem percebeu é porque estava indiferente a mim. Não estava sentindo nada!

-Você... Você está certo... – ela levantou-se, envergonhada. – Desculpe. Eu avisei a você antes...

Juca olhou-a com raiva.

-Como é que vou casar com uma mulher que não me quer?

-Eu te quero, Juca – ela abraçou-o, embora os braços dele não a envolvessem em resposta. – O momento é que foi errado...

-Joyce...

-Não, me deixe falar! – ela interrompeu-o. – Me dê mais uma chance de provar o quanto eu ainda amo e quero você. Só preciso de dois dias! Isso! Estaremos bem relaxados e dará tudo certo!

Juca não podia dizer "não" àqueles olhos súplices...

-Está bem. Mas não quero saber de mentiras. Quero que faça por prazer.

-E assim será! – ela disse, animada.

Juca abriu a porta, mas lembrou-se de algo e encostou-a novamente:

-Uma última coisa.

-O quê?

-Sua pontuação como "noiva" caiu para -120.

-Tudo isso?

-É, um ponto perdido para cada gemido falso.

-Eu gemi tanto assim??

-Agora foi pra -121 – ele irritou-se.

-Ei! Por que fui descontada agora?

-Porque não tem nem idéia de que gemeu sem parar! E olha que eu só contei depois que me levantei! Se não sabe, é mais uma prova do quanto estava desligada – ele suspirou. – Quero ver como vai reverter esse quadro.

-Estarei tão insaciável na próxima vez que meu índice irá a níveis estratosféricos!

Juca não resistiu; sorriu e criticou:

-Exagerada.

-Dramático.

Eles se beijaram. Como não havia mais tempo para irem até a aula de Augusto, separaram-se nos corredores. Juca seguiu para a biblioteca e Joyce foi para a sala comunal. Precisava ficar sozinha e imaginar como se tornaria insaciável em dois dias.


Augusto se recompôs muito rápido. Em um segundo, já não estava mais surpreso com o pedido de Lanísia. Sorriu desdenhosamente.

-Parece que algumas pessoas andam esquecendo-se de sua posição aqui na escola. Eu gosto de manter boas relações com meus alunos, tratá-los como amigos, mas vejo que estou em um momento no qual precisarei dar alguns lembretes – e seu olhar firme fixou-se em Lanísia. – Eu sou o professor aqui, Srta Burns. Selecionei você como meu par no baile, portanto isso não deixa de ser uma ordem do seu mestre de Defesa contra as Artes das Trevas. A hierarquia escolar funciona de uma forma bem simples: professor ordena... – ele baixou o braço que estava no alto. – ...aluno obedece.

Lanísia fechou as mãos nas dobras da carteira.

-O baile não é uma atividade escolar...

-Não deixa de envolver a escola! – ele riu para a classe, zombando da bobagem dita por Lanísia. – Não se trata de um baile de formatura?

Ela corou enquanto os colegas davam risadinhas.

Lanísia levantou-se da cadeira para encarar o professor.

-Eu não vou acompanhá-lo no baile. Estou decidida.

-Então insiste em enfrentar as minhas ordens?

-Isso...

-Necessita de demonstrações mais claras sobre a hierarquia escolar, Srta Burns – disse Augusto, divertindo-se com a situação. – Neste caso, vou colocá-la em detenção...

-O quê?

-...para que aprenda o seu lugar. Terá uma detenção comigo, e através dela aprenderá a me respeitar. Vou fazê-la lembrar-se do que parece ter esquecido.

Ela congelou com o duplo sentido presente na frase de Augusto.

-Poderia se sentar, por favor? Quero continuar a minha aula sem mais interrupções. Só se manifestem com dúvidas referentes às defesas contra maldições.

Lanísia olhou irritada para as amigas; Serena fechou o punho direito e bateu na palma da mão esquerda por diversas vezes, no claro sinal de que Lanísia tinha se dado mal. Depois que Augusto descontou pontos pelo gesto indecente de Serena, as Encalhadas mantiveram a mesma postura concentrada dos colegas de turma.

O sinal tocou, encerrando a última aula sobre as maldições. Mione levantou-se, desanimada; havia conservado uma esperança mínima de que Augusto deixasse escapar algo que a aproximasse do mistério do olho de Celine, mas obviamente ele foi cuidadoso com as palavras desde que percebeu aonde ela queria chegar. Lançou um olhar pesaroso ao professor ao passar por ele, ajeitando a mochila, e saiu da sala acompanhada por Serena e Alone.

Lanísia deixou-se ficar para trás propositalmente. Fingiu ter problemas com o fecho da mochila, depois derrubou o livro no chão. Quando viu o último aluno passando pela porta, jogou o livro de qualquer jeito no interior da mochila e deixou a raiva espalhar-se por seu rosto.

Apoiado sobre a mesa dele, Augusto já lhe sorria com desdém.

-Alguma coisa incomodando você, Srta Burns?

Ela verificou mais uma vez se não havia ninguém na porta e, ao confirmar que estavam realmente a sós, despejou o discurso que ficou entalado durante a última hora.

-Está me decepcionando, Augusto. Está brincando com a nossa relação de uma forma que eu jamais esperei...

-Brincando do mesmo jeito que você sempre brincou.

-Eu nunca cheguei a esse ponto.

-Não venha com essa, Lanísia! Você usava tudo o que tinha a seu alcance para me enlouquecer. Só não usou esse truque da detenção porque não tem cacife para isso, ao contrário de mim... – o sorriso se alargou. – Foi uma idéia incrível, não concorda comigo? Será a melhor das detenções – ele estendeu a mão e tocou-lhe a curva da cintura.

Lanísia deu-lhe um tapa na mão e se afastou.

-Vai apenas reforçar as desconfianças. Vamos ao baile juntos, cumpro minha detenção sozinha com você... Está colocando o nosso amor em corda bamba.

Ele ficou sério.

-Preciso dessa detenção. Ter algumas horas de privacidade ao seu lado. Algo mudou entre nós...

-Nada mudou...

-...sim, houve uma grande mudança, tão intensa que a faz negar aqui, diante de mim. Vou provar que sou único. Aliás... – o divertimento voltou – ...o truque de esconder-se atrás do livro é muito antiquado. E nem foi capaz de esconder o quanto suas pernas tremiam ao ver-me secar com o lenço.

Ele abriu mais um botão da camisa.

-Daqui a pouco está nu para a sua próxima aula – retrucou Lanísia, mas incapaz de desviar os olhos do corpo do professor.

-Durante a detenção, vou deixá-la secar cada centímetro do meu corpo.

-Quem disse a você que tenho vontade?

Ele puxou-a para perto. Lanísia esbarrou as mãos na pele do professor, e ofegou antes que conseguisse refrear-se. Piscou confusa, erguendo a cabeça para fitar o rosto de Augusto, que a abraçava pelas costas.

-Pode tocar. Vamos, estou lhe oferecendo esse aperitivo. À noite, na detenção, me deitarei nu, afastarei os braços e assim terá acesso a tudo o que você quiser...

-Ah, nossa... – ela suspirou, sem fôlego, sentindo a pele quente de Augusto com as pontas dos dedos.

-Estarei entregue às suas mãos durante a detenção, para realizar os seus sonhos mais eróticos e íntimos...

A boca de Lanísia chegava a salivar diante de tal possibilidade. Aquele homem inteirinho, o homem que desejava e amava, submetendo-se a todos os seus caprichos? Seria difícil resistir, até mesmo para uma mulher como ela, avessa à loucura e à ousadia...

Ela ouviu passos se aproximando. Deixou os braços de Augusto e voltou para a sua mochila. Ele fechou dois botões e ajeitou a camisa. Quando os alunos apareceram, Lanísia despediu-se de Augusto.

-Bom, então... O senhor me avise quando tiver decidido o dia e horário da detenção...

-Claro, Srta Burns.

-Com licença.

Lanísia deixou a sala. Alone, Hermione e Serena aguardavam mais adiante, e a expectativa para descobrir o motivo da demora de Lanísia era tanta que não se seguraram; correram ao encontro da amiga.

-O que aconteceu? – perguntou Mione.

-Ele apenas deixou bem claro o tipo de detenção que eu vou ter que cumprir... Ai, esse Augusto está me dando nos nervos!

-E por enquanto nem sinal da Joyce – disse Alone, tentando localizar a garota entre os inúmeros alunos que percorriam o corredor. – Será que ela conseguiu se acertar com o Juca?

-O rosto dela diz "não" – falou Serena.

Joyce acabava de aparecer no final do corredor. Andava lentamente, o lábio inferior projetado para a frente como em uma criança emburrada. Seu olhar vagava perdido no teto.

-Que visão deprimente – comentou Mione.

Elas alcançaram Joyce e logo a cercaram de cuidados. Afastaram-se até o pátio, longe da agitação dos corredores. Sentada entre as garotas, Joyce finalmente conseguiu desabafar.

-Foi um fracasso. Tentei fingir que estava interessada, mas o Juca percebeu que eu estava fingindo. Só serviu pra deixá-lo ainda mais desconfiado.

-Desconfiado?

-Sim, Lanísia. Ele está pensando que eu quero outro, ou outros, porque na minha vida tudo sempre foi no plural. Juca acha que eu voltei aos velhos tempos. Tenho certeza de que o que ouviu no nosso noivado... e o que ainda deve escutar dos garotos aqui da escola... tudo isso influi nesse tipo de pensamento paranóico. Juca já é inseguro por natureza, e se relacionando com uma garota como eu... Acho que ele sempre terá esse medo de me perder. Medo de achar que só quero me divertir com o maior número de homens possível.

-Mesmo um cara seguro não ia aceitar sua mudança com facilidade, mané – disse Alone. – Perder a vontade de ter relações passa a impressão de que você perdeu o desejo por ele!

-Querem saber a verdade? Eu perdi o desejo por todos. Não tenho vontade. Estou fria como um cubo de gelo. Não é um problema com Juca, é um problema com todos os homens.

-Será que você está virando um "pantufão"? – perguntou Serena.

-Ãh? – indagou Joyce, perdida com a pergunta.

-É... As mulheres que gostam de outras mulheres... É só um sinônimo pra lésbica.

-Não seria "sapatão"? – indagou Joyce.

-Cada um usa o calçado que quiser... – retrucou Serena, fechando a cara.

-Nunca. Jamais. É inadmissível pensar que eu, a número 1 no fã-clube Pênis Forever, vou passar a gostar de seres que tem carência delas.

-Existe mesmo esse fã-clube? – perguntou Mione.

-Claro que não – riu Serena. – Isso é brincadeira da Joyce, só pode...

-Brincadeira? – questionou Joyce. – Isso é uma ofensa às penisitas...

-Penisitas? – perguntou Mione.

-É assim que chamam as integrantes do clube – explicou Joyce. – Ele existe e é formado em sua maior parte por mulheres da minha família. Mas existem outras participantes, a mãe da Alone faz parte também.

-Ela tem até carteirinha – suspirou Alone.

-O que fazem nesse lugar? – perguntou Lanísia.

-Várias coisas... As mulheres reunidas analisam fotos de bilongas, e às vezes assistem a exibições ao vivo, porque tem muito cara exibicionista por aí, alguns nem cobram nada... Tem até a eleição da "vara do mês".

-Aí a vencedora recebe uma fitinha azul em torno dela – riu Lanísia.

-Não...

-Ah bom!

-...a fitinha é laranja.

Lanísia olhou para Joyce com a testa franzida.

-Sério?

-Pode acreditar. Mas não costumamos falar sobre o fã-clube. Tanto que nunca contei nada a vocês. É algo bem secreto. A paixão por bilongas não é algo bem aceito pelas pessoas.

-E você freqüentava o clube?

-Sim, Mione, mas freqüentei muito pouco. Porque só aceitam maiores de idade e logo depois que eu ganhei permissão, me apaixonei pelo Juca. Agora não penso só na bilonga dele; gosto do conjunto completo. Mas ainda dou muito valor a essa parte do corpo, por isso, negativo, não virei lésbica.

-Mesmo se tivesse se tornado lésbica, poderia contar com o nosso apoio – disse Alone. – Porque para nós sempre será nossa amiga, mesmo que vire um "tamancão"...

-Ou um "chinelão" – apoiou Lanísia; ela e Alone caíram na gargalhada, zombando de Serena, que lhes mostrou a língua.

-Eu tive uma idéia, Joyce – disse Mione. – Teria como comparecer a uma reunião do fã-clube?

-Sim, eles têm reunião amanhã à noite.

-Conte sobre seu problema às "penisitas"! Talvez elas te ajudem a reacender esse fogo que está adormecido.

-E ver algumas bilongas deve ajudar também – concordou Alone.

-Tem razão. Vou visitá-las e pedir alguns conselhos. Não posso continuar assim, o Juca quer que eu prove que ainda sinto desejo por ele...

-Quem vai acompanhar a Joyce? – perguntou Mione às amigas.

-Eu vou – ofereceu-se Alone. – Assim posso conversar um pouco com a mamãe.

-Por que não vamos todas?

-Porque amanhã começaremos a seguir a Rebecca – informou Mione à Serena. – Hoje vamos ficar na sala comunal para estudarmos, mas amanhã iniciaremos as perseguições à nossa inspetora. Combinamos de fazer isso em dupla, então, como a detenção da Lanísia pode ser marcada para amanhã à noite, provavelmente sobrará para nós duas.

-Ah, certo... – suspirou Serena, nem um pouco satisfeita.

Naquele momento, elas escutaram as vozes exaltadas de duas pessoas que se aproximavam. Logo as palavras tornaram-se audíveis:

-...é inaceitável! Onde já se viu uma coisa dessas? Deixar a namorada de lado para ir ao baile de formatura com a irmãzinha!

Gina e Lewis chegaram ao pátio. A garota parou com os braços cruzados, sem olhar no rosto do namorado.

-Gina, eu não tive nada a ver com aquilo! Foi a Serena quem escreveu, eu não imaginava que ela me colocaria como par...

-Então a procure e diga que não quer ir com ela!

-Eu... Não posso – disse Lewis, indeciso, coçando os cabelos claros. – Ela tem namorado, se achou que seria importante ir comigo, deve ter suas razões...

-Adoraria saber quais são essas razões!

-Não seja por isso, Gina. Estou aqui para explicá-las.

Só nesse momento eles se tornaram cientes da presença de Serena ali no pátio. A garota deixara o canto em que estivera sentada com as amigas. Agora, reunia-se ao irmão e à cunhada para solucionar aquele impasse.

Gina suspirou, ligeiramente constrangida.

-Sinto muito, Serena, mas creio que pode entender porque estou assim...

-Sim, posso imaginar – ela sorriu. – Mas são tão nobres os sentimentos que me levaram a ter essa idéia... – Serena entrelaçou o braço direito com o esquerdo de Lewis. – Eu e Lewis perdemos muito tempo de nossas vidas desconhecendo o nosso parentesco. Incontáveis momentos e ocasiões especiais foram perdidos graças a esse mistério que só desvendamos há alguns meses – seus olhos encontraram os de Lewis e ela contornou a face do rapaz com os dedos, de modo carinhoso.

As outras Encalhadas viram, mesmo à distância, os punhos de Gina se fecharem.

-Pensei que o Baile de Formatura seria uma ocasião perfeita para celebrar nosso reencontro e... de certa forma... compensar tantos momentos que foram perdidos.

Ela colou-se ao corpo de Lewis e o abraçou pelo pescoço. O rapaz riu com a animação da garota; Serena, sorridente, perguntou à Gina:

-Não ficamos lindos juntos?

Gina mordeu o lábio.

-Entende agora por que é tão importante estar com o Lewis durante o baile? – perguntou Serena, apertando ainda mais as costas do irmão.

O rosto de Gina estava lívido. Mione, Alone, Joyce e Lanísia ergueram-se, preparadas para apartarem uma possível briga; não duvidavam que Gina fosse capaz disso.

-Eu ainda quero ir com ele – falou Gina, depois de alguns segundos de silêncio. – Acredito que terão outras oportunidades de estarem juntos. Mas à formatura eu faço questão de estar com o meu namorado. Devia fazer o mesmo, Serena, e ir com o seu.

Uma ênfase fria foi colocada na palavra "seu".

Lewis pigarreou.

-Ei, Gina, pega leve... – pediu. – Serena passou por meses muito difíceis. Ela perdeu os pais, o que aumenta a importância dos nossos laços de sangue. Você não acha que ela merece um momento de felicidade depois de tanto sofrimento?

Gina olhou brevemente para Serena. Ela podia jurar que captou um sorriso torto nos lábios da jovem, antes que ela ficasse cabisbaixa e abraçasse Lewis novamente. Gina encarou o olhar firme de Lewis, depois a feição tristonha de Serena.

-Será muito bom pra mim... – gemeu Serena.

-Tudo bem – disse Gina, relutante. – Com licença... Vou aproveitar o intervalo das aulas para tentar encontrar um par disponível. Espero que ainda tenha algum.

-Tem sim, só não digo que encontrará o par perfeito porque ele já vai comigo – disse Serena, beijando o rosto de Lewis.

Muito vermelha, Gina deixou o pátio sem olhar para trás.

-Eu... Vou tentar ajudá-la, acho melhor... – disse Lewis à irmã.

-Como quiser, nos vemos mais tarde – falou Serena, dando-lhe outro beijo na bochecha.

Ela ficou parada, triunfante, até sentir a mão de uma das amigas sobre seu ombro.

-Pensei que consertaria o erro provocado pela sua bebedeira – disse Mione. – Mas não, só colocou mais lenha na fogueira!

-Vocês não escutaram direito, só pode – retrucou Serena. – Ela concordou! Isso significa que também acha certo que eu vá com o Lewis...

-Você jogou sujo, Serena – acusou Joyce. – E por sorte Gina foi lerda demais para não se tocar quanto às suas reais intenções. O jeito que você abraçou ele... Francamente, foi entusiasmada demais, irmãos não se abraçam dessa forma!

-Claro que não. Na hora em que o puxei pra perto de mim estava vendo-o como homem, deixando de lado esses detalhes insignificantes...

-Deve ter um pouco de álcool fazendo efeito ainda – disse Alone. – Está muito atrevida!

-Não, estou muito bem e nem me arrependo de nada. Gina ainda terá muitos motivos para sair bufando de raiva... – ela riu. – Vou me deleitar com essa proximidade tão íntima que terei com o Lewis.

-Vamos, ou nos atrasaremos para a próxima aula – falou Lanísia, após consultar o relógio de pulso.


Ipcs chegou adiantado ao campo de quadribol. Apertava sua pasta com força, ansioso para que Marjorie chegasse logo e aquilo tivesse fim.

Finalmente ele viu a garota atravessando o gramado, as vestes negras de Hogwarts movimentando-se com o vento. O cabelo castanho cobria o rosto pálido de Marjorie, e ela não parava de afastá-lo com impaciência.

Era carregado de concentração o olhar com que ela fuzilou o professor Ipcs.

-Analisou bem o meu horário?

-S-sim...

-Não começa a gaguejar agora, velho estúpido, não estou com paciência. Quanto menos você falar, melhor! – ela fez sinal para a pasta. – Está aí dentro? Está aí o que você fez pra me ajudar? Então tire e me dê logo, lembre-se, só fale quando for necessário.

Ipcs abriu a pasta e tirou do interior uma concha de praia.

-Uma concha? – perguntou Marjorie, tirando-a da mão do professor. Passou os dedos pela superfície. – É uma concha comum. Em que isso será útil?

-Não é u-uma concha c-c-comum. Nem ela, nem esta – ele revelou uma pequena concha em formato de brinco. – Estão ligadas p-por um fe-feitiço. Você usará um p-par de brincos, um deles se-sendo enfeitiçado. Todos os sons ca-captados pela c-concha menor chegarão à m-m-maior.

-Humm... – fez Marjorie, animando-se. – Entendi qual é o truque. Você vai escutar a minha aula e, a qualquer pergunta do professor, irá sussurrar em meu ouvido a resposta certa?

-Isso m-mesmo.

-Gostei da idéia, velhote. Acha que nenhum professor vai desconfiar?

-A-acredito que não. Use os ca-cabelos para esconder os b-b-brincos o máximo que pu-puder...

-Tá, tudo bem, velho. Pare de falar. E não gagueje quando me soprar as respostas! – ela deu uma risada maldosa. – Se começar a emperrar dessa forma, quando eu erguer a mão levará séculos para dar a resposta aos professores.

-D-dará tudo certo.

-Torça por isso – disse Marjorie, gélida.

Ela deixou o campo às pressas. Ipcs também teria que correr para dar a sua próxima aula, mas havia algo a ser feito antes. Ele entrou no vestiário deserto e, em frente ao espelho, montou o falso curativo na orelha esquerda, ocultando a concha. Era desconfortável e estranho escutar os ruídos captados por Marjorie, assim tão altos, em contraponto com o silêncio do vestiário, mas ele precisava suportar. Durante as aulas, seria ainda mais difícil lidar com aquilo...

Só que tudo devia funcionar. Por Aaron. Para ele mesmo ver-se livre da maldade de Marjorie... de seus escorpiões... suas aranhas...


-Hoje vamos iniciar a aula com uma revisão – informou Sprout aos alunos do sétimo ano da Grifinória e da Lufa-Lufa, que assistiam à aula de Herbologia juntos. – Alguém pode me informar quais são os cuidados exigidos no cultivo da avessania?

Mione, naturalmente, levantou a mão, mas, ao fazer isso, já havia uma erguida no ar. A mão de alguém que jamais se manifestava durante as aulas, dessa vez, passara à sua frente.

-Por favor, Srta... eh... – Sprout precisou de alguns segundos para recordar. – Srta Crane!

Marjorie escutou atentamente a voz de Ipcs, felizmente livre da gagueira; pertinho do ouvido, era como se ele estivesse lhe sussurrando a resposta...

-A avessania pode diminuir e passar o crescimento para o lado contrário. Se estiver enterrada quando isso acontecer, a planta acaba morrendo, não encontrando espaço para crescer sob a terra. Por isso, é preciso ficar atento a qualquer diferença no tamanho da muda. Se olhar e notar que a planta está mais miudinha, deve-se aguardar porque o processo contrário começa em questão de horas. É preciso, então, plantá-la novamente.

Mione olhou para as amigas. Joyce, Alone, Lanísia e Serena piscavam admiradas.

-Correto. Dez pontos para a Lufa-Lufa.

Os colegas da Lufa-Lufa, tão desacostumados a receberem pontos – principalmente em uma aula onde Hermione Granger estava presente – comemoraram com palmas. Marjorie sorriu timidamente.

Mione respirou fundo.

-Preciso de concentração... – suspirou, apertando os olhos.

Preparou-se para dar a próxima resposta, mas algo no lado de fora da estufa fez com que esquecesse a grande necessidade de ser a melhor. Aaron Raccer, cujo curativo feito por Madame Pomfrey continuava na testa, caminhava para a aula de Trato das Criaturas Mágicas, puxando um unicórnio por uma corda. O unicórnio não estava disposto a acompanhá-lo, de modo que Aaron precisava fazer esforço para puxá-lo e convencê-lo. A visão de seus braços fortes, retesados no esforço, com os músculos juvenis saltados, atraiu Mione. Ela sentiu a pulsação se acelerar...

A face estava ainda mais máscula, bruta, na luta contra a indisposição do unicórnio. Ela viu os dentes luminosos morderem o lábio inferior, ornados pelo belo cavanhaque...

Depois voltou aos braços. E às mãos, agarradas à corda, mãos grandes e fortes, com veias saltadas. Mesmo através do vidro ela conseguiu registrar que ele estava molhadinho de suor...

-Acorda, Mione! – pediu Joyce, empurrando-a.

Mione desequilibrou-se e caiu de cara num vaso cheio de terra. Os colegas caíram na gargalhada.

Ruborizada, ela aceitou o pano oferecido por Joyce.

-Ah, foi mal, amiga, mas estava muito óbvio o que você estava pensando! Se Rony percebesse...

Mione olhou para o namorado; ele fingiu assustar-se com seu rosto sujo de terra, mas o sorriso que Mione lhe lançou de volta era cheio de constrangimento, e não humor. Limpando-se, ela olhou brevemente para o exterior da estufa. O barulho lá dentro havia chamado a atenção de Aaron, que não puxava mais o animal e acenou para ela. Mione ignorou e, rapidamente, voltou a concentrar-se na aula.

-Pode responder agora, Srta Crane – pediu Sprout. – O tombo da Srta Granger acabou atrapalhando a sua resposta.

-Como eu ia dizendo, professora, o chá de avessania pode curar problemas de crescimento, de peso e até mesmo queda de cabelo. Muitos bruxos enriquecem com o cultivo de avessania, comercializada ilegalmente para os trouxas com rótulos de essências milagrosas.

-Muito bem! – Sprout bateu palminhas. – Vinte pontos para a Lufa-Lufa, pela sabedoria da colega de vocês!

Marjorie foi ovacionada com mais entusiasmo do que a primeira vez.

O resto da aula foi uma tortura para Hermione. Além de culpar-se pela maneira como admirou Aaron, tinha que agüentar Sprout fazendo perguntas diretamente a Marjorie (perguntas sempre respondidas corretamente). No final da aula, a adulação atingiu o ápice; Sprout citou Marjorie como um exemplo a ser seguido por todos os alunos do sétimo ano.

Quando o sinal tocou, Mione foi a primeira a sair da estufa. Rony saiu correndo para acompanhá-la.

-Está nervosa pela preferência da Sprout pender para o lado da esquisitona da Marjorie – não era uma pergunta; Rony a conhecia muito bem.

-Sim. É estranho demais... E irritante. Do nada, a garota apagada começa a se destacar...

-É fim da nossa vida escolar, Mione, acho que ela cismou de se esforçar só agora. O Baile de Formatura também pode tê-la empolgado. As notas vão garantir pontos!

-Pois é! Um péssimo momento para eu começar a ficar dispersa nas aulas...

Ele franziu a testa e fez Mione perceber que tinha falado demais.

-Por que está se distraindo assim?

-Ah... é a expectativa com o fim do ano letivo... os N.I.E.M.s... Só isso... – ela beijou-o. – Pode reparar, fiquei num estado de nervos tão destrutivo que até critiquei a garota que salvou a minha vida no trem... Droga, preciso ser menos invejosa.

-Não é invejosa. Só quer ser a melhor aluna. E preservar esse posto – ele riu.

-Hoje à noite vou estudar com as meninas, na sala comunal. Quer se juntas a nós?

-Minhas notas também poderão fazer a diferença na hora de vencermos o baile, por isso, sim, eu vou estudar com vocês hoje.

-Ótimo, ficaremos bem juntinhos.

Ela o beijou novamente, apertando-lhe o braço. Mas os braços que queria tocar não estavam ali...


No dia seguinte, o ótimo desempenho de Marjorie nas aulas prosseguiu. Era fácil perceber isso, mesmo sem estar presente nas aulas, porque os alunos da Lufa-lufa não paravam de comentar sobre a responsável pelo aumento da pontuação no Campeonato das Casas. A ampulheta com a pontuação da Lufa-lufa enchera-se de tal forma que, no final do dia, eles saltaram do último para o segundo lugar, só perdendo para a Grifinória.

Hermione, por sua vez, não conseguia manter o bom desempenho. Perdia-se em pensamentos calorosos envolvendo Aaron Raccer, a sensação de culpa assolando-a, o amor por Rony duelando com seus desejos carnais.

A noite chegou e as Encalhadas prepararam-se para se separar por algumas horas. No dormitório, Lanísia vestiu-se com o suéter que mais detestava e uma calça jeans desbotada. Diante do espelho, arrepiou os longos cabelos escuros, utilizando os dedos.

-O que está tentando fazer? – perguntou Alone. – Ficar tão feia até que consiga quebrar o espelho?

-Não. Só quero ir para a detenção mais feia que eu puder. Quero minar o desejo do Augusto com uma aparência desagradável.

-Será que é possível mesmo quebrar um espelho se a pessoa for muito feia? – perguntou Serena.

-Por que acha que eu não deixo você usar meus espelhos? – indagou Alone, fazendo piadinha.

-Para que eu não veja que ele já está trincado de tanto ver seu reflexo – respondeu Serena.

Alone levantou-se da beira da cama.

-Eu não quebro espelhos! – empurrou Lanísia e posicionou-se diante do espelho oval. – Viu?

PAF!

Ela saltou para trás quando o vidro se partiu, os cacos espalhando-se pelo chão.

-Oh! Não... – Alone recuou com a mão no coração. – Sou horrível! Viram? Viram o poder da minha feiúra? Não basta ser feia! Sou destruidora!

Ela desabou sobre a cama, respirando aceleradamente. As amigas se entreolharam; Alone estava mesmo fazendo uma cena por causa daquilo?

-Alone...

-Não, Lanísia. Não fale nada! Nem olhe pra mim! Talvez minha feiúra também pode matar...

-Você não quebrou o espelho... – disse Joyce, mas foi interrompida.

-Não?? Eu estourei o espelho! Sou horrível. Daqui a pouco vou andar pelos corredores de Hogwarts e as janelas vão se explodir à minha passagem...

-Alone, fui eu quem estourou o espelho – informou Mione, sentando-se ao lado da garota e apertando seu ombro.

Alone parou de choramingar e olhou para ela.

-Foi a sua feiúra que ele captou?

-Não... mas não gostei da sua sugestão – reclamou Mione. – Executei um feitiço enquanto você estava de costas. Era só uma brincadeira!

Alone deu um tapa na perna da garota.

-Que brincadeira de mau gosto, mané! Isso não se faz!

-Pensei que ia achar engraçado – explicou-se Mione. – Você sempre é tão segura de si. Não ia acreditar que o espelho tinha se partido por sua causa... Bom, foi o que achei que aconteceria...

-Nós também – comentou Lanísia por todas as outras. – Você conhece tão bem sua beleza, sua atração, sua personalidade única.

Alone concordou.

-Sim, tem razão. Mas não me critique, Lanísia, e nenhuma de vocês – ela levantou-se para terminar de se arrumar.

Serena abriu sua mala, analisou as peças e reclamou com Mione:

-Poxa, Mione, é preciso mesmo usar roupas escuras?

-Sim – confirmou Mione, terminando de vestir um suéter preto. – Essa estratégia nos manterá camufladas na noite. Se Rebecca tiver o mínimo vislumbre de que está sendo seguida, e que as pessoas que a seguem são duas Encalhadas, damos adeus à esperança de descobrir alguma coisa.

-Daqui a pouco ela sai – informou Lanísia, consultando o relógio.

-Ela já sabe que não abriremos o grupo de ajuda hoje – disse Mione. – Eu avisei a ela. Mas ainda assim irá a Hogsmeade, ela é freguesa assídua do Lorenzo´s.

-Vão segui-las do castelo até lá?

-Não, Joyce. Eu e Serena sairemos antes da hora. Ficamos escondidas perto da entrada do povoado e passamos a acompanhar Rebecca.

-Se ela encontrar-se com o Ted, nós confirmarmos a teoria – disse Serena, vestindo o sutiã.

-A lingerie não precisa ser escura – avisou Mione. – Ou você pretende tirar a roupa pra segui-la?

-Vai saber aonde aquela mulher vai entrar, não é? Ela já dança na Mansão Lingüiça, pode freqüentar lugares piores...

-Ah, querida, pior que a Mansão Lingüiça, só mesmo o fã-clube Pênis Forever – riu Mione. Viu que Joyce não gostou da brincadeira. – Opa, desculpe, amiga.

-É um clube de muito respeito, sabia? Devia visitá-lo primeiro antes de formar uma opinião!

-Não, Mione conhece outro dia, eu é que vou com você – disse Alone. – Ninguém vai tomar meu lugar! Tem um encontro entre mãe e filha pra acontecer.

-Só na sua família mesmo pra ter reunião de pais e filhos num lugar de adoração ao falo – zombou Lanísia. Desviou-se dos tapas de Alone, saltando duas camas, e parou à porta. – Vou para a detenção. Acho que já fiquei feia o suficiente. Nos vemos mais tarde!

Ela desceu até a sala comunal. Cumprimentou alguns colegas enquanto passava:

-Oi, Dino! Oi, Simas!

-Uau, Lanísia, como você está gostosa! – elogiou Dino, encarando seus seios sem a menor cerimônia.

-Ah, não pode estar falando sério! – ela reclamou, frustrada. – Esse suéter diminui meus seios!

-Podem parecer pequenos, mas é o par de montinhos mais lindo que eu já vi – comentou Simas, lambendo os lábios.

-Droga. Não adiantou nada... – ela suspirou, sentindo os olhares cobiçosos de outros rapazes que estavam na sala comunal. Aparentemente, seu visual "largado" não causava repulsa, e sim interesse. – Bom, não dá mais tempo de me trocar... Boa noite, garotos!

Ela deixou a sala comunal e rumou até a sala onde teria lugar a sua detenção. Arrastou-se até lá, na verdade, porque perdera o ânimo. Era evidente que Augusto também não se importaria com seu visual. Colocar na cabeça dele os riscos de agarrar-se dentro da escola? Ela já estava desistindo disso...

Diante da sala do professor, ela bateu.

Augusto abriu uma fresta. Por ela surgiu sua mão, que segurava uma taça de vinho. A sala às suas costas estava escura.

-Pode entrar – ele informou, recuando e deixando uma passagem para ela.

-Augusto... O que... O que está aprontando? Por que está tudo escuro?

-É só a sua detenção... – respondeu a voz matreira do professor.

-Não... Tem algo diferente... Está tudo apagado... Aaaah!

Augusto abriu a porta e puxou-a para dentro da escuridão. Trancou-a e, com um movimento da varinha, acendeu inúmeras velas, trazendo a luz para dentro da sala.

Lanísia ofegou com o que viu.

Rosas espalhavam-se pelo chão, cobrindo-o de ponta a ponta. O doce aroma penetrou em seus pulmões, tocando seu coração e roubando-lhe o fôlego. Os castiçais dourados estavam postos em cada canto da sala, as chamas das velas emprestando um fulgor dourado à cena. As velas também pareciam desprender um aroma de rosas. Lanísia fechou os olhos, absorvendo aquela essência...

De repente, sentiu o cheiro adocicado de vinho. Abriu os olhos. Augusto, parado diante dela, oferecia-lhe a taça.

-Conhece professor mais bondoso do que eu? Acredite, não existe detenção tão boa quanto esta... Vai recusar e não ser uma boa aluna?

Encarando os olhos de Augusto, ela tirou a taça da mão dele e deixou-a sobre uma prateleira.

-Há uma hierarquia escolar que precisa ser obedecida – sussurrou Lanísia. – Professor manda, eu obedeço... – ela deslizou os lábios sobre os dele. – O perfume... sua presença... drenaram a minha resistência...

-E o vermelho das rosas...

-A cor do amor... Vermelho-Lanísia... – ela mordeu a orelha dele, de leve, e depois foi à porta.

-Vai sair?

-Não – ela experimentou e girou a maçaneta. – Só verificar se está trancada... E que comece a nossa detenção.


Marjorie sentou-se no largo peitoril da janela do dormitório e apanhou uma das folhas da cópia do diário de Hermione. Concentrada, lia sobre a rotina de monitora...

"É prazeroso organizar os alunos, ter um distintivo que leva ao respeito e à admiração de muitos. Sempre me recordo dos grandes bruxos que já carregaram o distintivo de monitor, o que indica o brilhantismo necessário para conquistá-lo! Será que é o anúncio de um futuro promissor? Acredito que sim!".

Havia palavras importantíssimas naquele relato. Respeito... Admiração... Brilhantismo... Tudo levando a um futuro promissor. Marjorie buscava tudo isso. Queria ser monitora.

Ela olhou para o céu estrelado. Como tornar-se monitora da Lufa-lufa de uma hora para outra? Estava se tornando a melhor aluna da casa, mas já era tarde para tomar posse de um distintivo.

"A não ser que, subitamente, seja preciso uma nova monitora".

Era esse o caminho. Mas como tirar o cargo de uma monitora?

Precisava considerar com cuidado a questão... Olhou para a lua crescente, que iniciava seu ciclo naquela noite. A Magia do Aprisionamento fora executada na lua nova; a mudança significava que o prazo para que as qualidades das garotas se perdessem para sempre começava agora. Quando a lua nova retornasse, completando o ciclo lunar, as qualidades roubadas desapareceriam...

Lembrou-se dos dois dias magníficos que teve. Os elogios às respostas precisas; a euforia dos colegas diante de seu desempenho. Ela era popular! Era alguém, pela primeira vez na vida!

Recordou que, no dia anterior, na aula de Sprout, só conseguiu responder à segunda pergunta antes de Hermione porque ela distraíra-se com Aaron Raccer.

Hermione Granger estava cobiçando outro homem. Fruto da fidelidade roubada é claro! Estava enfraquecendo Mione, como Ted previra; e não seria a fraqueza de Hermione também uma vantagem para ela?

A aula de Sprout provou que sim. Seria muito mais fácil ser a nova Hermione se ela estivesse incompleta. De olho na lua crescente, Marjorie tomou a decisão sobre qual caminho seguir: ia contrariar as vontades da mãe.

Subitamente, lembrou-se de que havia marcado de conversarem através da lareira da sala comunal. Levantou-se de um salto. A sala comunal estava vazia devido à hora do jantar. Marjorie sentou-se diante do fogo e, num piscar de olhos, a cabeça de Mégan Crane flutuava diante dela.

-Por que ainda não recebi os frascos com os fragmentos das almas?

Marjorie nem pestanejou para responder:

-Eu não vou enviá-los a você.

-Como?

-Não quero que elas recuperem as qualidades perdidas... – ela fitou as próprias mãos, vacilando; ainda sofria o peso do olhar da mãe, mesmo à distância. – Preciso que uma delas continue dessa forma.

-Não seja ridícula... Sabe que eu preciso de todas as cinco para ajudar o seu irmão.

-Claro, o seu favorito – seus olhos ficaram úmidos de rancor, mas ela forçou-se a não despregá-los do rosto envolto pelas labaredas. –Pois saiba que essa magia vai me ajudar a provar que posso ser tão boa quanto ele...

-Você... vai... me... enviar... esses... FRASCOS! – berrou Mégan.

-NÃO VOU!

-Eu preciso desses frascos para...

Ela viu quando a cabeça da mãe se entortou. Desapareceu em seguida.


Na cabana, bem longe de Hogwarts, Mégan era erguida pela força bruta de Ted Bacon.

-Por quê você precisa tanto desses frascos? Hein?

Ele apertou com mais força o pescoço da bruxa.

-Existe algo sobre a Magia do Aprisionamento que eu não saiba? RESPONDA! RESPONDA DE UMA VEZ!!

Seus olhos irados tinham um brilho assassino; ser enganado era inadmissível para Ted Bacon.


N/A: Esse capítulo demorou um pouquinho mais pra sair, mas espero que entendam; provas, correria, feriado, etc. A visita ao fã-clube, Mione e Serena seguindo Rebecca e outras emoções no próximo capítulo! Obrigado por tudo, pelo apoio, pelas reviews. Sem palavras pra agradecer! Desculpem pelos eventuais erros de digitação, mas acabam passando na minha pressa pra atualizar assim que termino de escrever. Obrigado pela compreensão. Ah! Parabéns, Brino! hehehe. Não esqueci! Valeu!

Pensei que conser