Capítulo IX
- É necessário? - perguntou ao fitá-lo atentamente.
- Dumbledore acha melhor – disse-lhe desviando pretos e concentrando-se em sua valise – Estará mais segura lá.
- Não sei se isso é um grande alento – sorriu - Ele não me parece a pessoa mais indicada para proteger alguém...
- Ele protegeu o Potter até hoje – ponderou Snape colocando um último par de meias pretas dentro da valise, sem no entanto fitá-la.
- Algo está te incomodando – Anne se pôs de pé e foi até ele – Depois de tantos anos sobre o mesmo teto, é impossível não lhe conhecer melhor do que a mim mesma.
- Não há nada... - ele murmurou de volta.
- Tem medo que eu veja o que realmente me aconteceu? - disse num tom calmo, colocando sua mão por cima da dele e continuou suavemente: – Não achou que fosse impedir que eu me confrontasse com a verdade para sempre, achou?
- A verdade continua a mesma. Você é muito bonita, Anne – ele a fitou carinhosamente, retirando a mão debaixo da dela e passando-a suavemente por seu rosto.
Anne sorriu deixando-se ser acarinhada pelas mãos fortes de Snape. Há nove anos convivia com aquele homem sobre o mesmo teto, impedida de ver o mundo porque para todos estava morta. Não se incomodara com o fato de não ter um espelho para saciar sua vaidade feminina, na realidade nunca dera importância ao fato. Snape a fazia sentir-se feliz, cuidava dela com carinho e nunca a fitara diferente do que da primeira vez que se viram.
O fato de haver cicatrizes em seu rosto não a abalava, nem a sua relação com Severus, muito pelo contrário, Anne se quer pensava nelas quando estava com ele. Tinha que admitir, Snape era um excelente amigo de reclusão, por mais incrível que isso pudesse lhe parecer há um tempo atrás, e ainda custava a crer o quanto se divertiam juntos. Snape conseguira até mesmo sorrir diante dela, então, por que se lembrar das marcas? Mas algo o inquietava, e Anne poderia apostar sua vida que tinha relação direta com isso. Seu coração estremeceu com medo da verdade, mas firme prosseguiu:
- Um elogio do Mestre de Poções? - sorriu-lhe marota, e de súbito, beijou-lhe a face.
Ele recuou incerto e Anne desviou seu olhar, balbuciando:
- É melhor irmos. Dumbledore deve querer me colocar na torre mais alta, tendo apenas uma janela para acesso. Com certeza iria evitar quaisquer perguntas sobre mim – gracejou, mas viu o olhar frio que Snape lhe dirigiu, e sem jeito completou: - É uma boa forma de proteção...
- Você vai ficar em meus aposentos – rebateu seco – E quem a protegerá serei eu, não Dumbledore.
Anne o fitou atordoada, mas Snape não deu-lhe tempo para argumentar, completando no mesmo tom:
- Vamos!
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- É um bom quarto – disse-lhe ela – Eu não diria aconchegante, mas é bom... - sorriu, e completou divertida: - Eu fico com a poltrona!
- Venha – retrucou seco. Anne se levantou da beirada da cama e o seguiu.
A parede ao lado do armário se moveu dando lugar a um confortável quarto com janelas encantadas e cortinas de um veludo adamascado. Ele apontou a varinha para a lareira e acendeu-a, dizendo:
- Esse é seu quarto...
- Presa nas masmorras – ela murmurou para si mesma – Mesmo assim, obrigada pela preocupação em colocar a minha cor preferida nas janelas. Mostra que em todos esses anos, aprendeu algo sobre meus gostos.
Snape não lhe respondeu, apenas caminhou de volta para a passagem, mas estacou antes de transpô-la com a voz fria de Anne acertando-o em cheio:
- Não precisa usar sua máscara diante de mim, Severus – O tom dela soava mordaz dentro das paredes de pedras – Não sou um de seus alunos a quem precisa manter longe, aterrorizando-os... Sou a mulher com quem compartilhou sua casa durante nove anos!
- Não precisa me agradecer por isso... - rebateu impassível e deixou o quarto, fechando a passagem atrás de si.
Seu semblante estava contraído numa expressão que oscilava entre a tristeza e raiva latente, e pode ouvir apenas o vidro quebrando-se contra a parede atrás de si. A passos largos deixou seus aposentos.
A noite já ia alta quando ele voltou, a capa encharcada de orvalho e abriu a passagem. Anne estava deitada de bruços sob o lençol, os cabelos ruivos encobriam-lhe o rosto parcialmente e Snape se aproximou silenciosamente da cama. Ele nunca ousara naqueles anos todos entrar no quarto dela, mas precisava se desculpas pelas palavras rudes que dissera a tarde, mesmo que ela nunca viesse, a saber, que ele havia feito isso.
Snape sentou-se na beirada da cama, levantou hesitante a mão e a levou até os cabelos dela, acariciando-os. Anne não se mexeu e ele deixou-se ficar assim algum tempo.
Quando o sol jogou seus raios dourados sobre a pele clara de Anne, ela abriu os olhos preguiçosamente, fitando o cômodo a sua volta. Tudo o que viu foi o lençol amarfanhado ao canto da cama, e um sorriso brincou em seus lábios.
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Snape estava de frente para Dumbledore, encarando azuis em pretos cintilantes ao dizer:
- Vai esperar que mais alguém morra, Diretor?
- Severus, a morte de Credrico foi um lamentável incidente – rebateu num tom calmo -, mas é a prova definitiva que Voldemort está de volta. Não há como contestá-la, e em breve, meu amigo, você será chamado para se reunir ao seu Mestre.
Snape ponderou as palavras do diretor por minutos, e num tom relativamente baixo, respondeu-lhe:
- Já fui...
- Perdão? - disse-lhe o velho de barbas prateadas, estreitando seu olhar sobre o professor.
- Estou dizendo que já fui chamado por ele – rosnou em bom tom.
- Eu creio que deva comparecer tão logo seja possível, Severus – retrucou Albus – Não se esqueça de manter sua mente limpa em relação à Anne... - e tomando o caminho da porta, completou: - Vamos até a enfermaria ver como está Harry, e depois você segue como o combinado.
- Sim, senhor... - murmurou de volta, seguindo Dumbledore.
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Quando Snape voltou ao seu quarto aquela noite, encontrou Anne sentada em sua cama. As roupas de Comensal sobre o lençol e um olhar escuro observando-o. Ela sabia, assim como ele, que Voldemort havia voltado, e que não estavam mais seguros. Snape a fitou por instantes, castanhos baixaram ao chão, enquanto ela se colocava de pé e tomava a direção da passagem. Ele não conseguia pronunciar uma palavra de alento ou irritação por ela ter se antecipado a ele e pego suas roupas, só havia silêncio. Antes, porém, de entrar em seu quarto, Anne murmurou sem fitá-lo:
- Boa sorte, Severus...
Ele desviou o olhar das roupas para a parede que se fechava, observando-a, e minutos depois, vestia mecanicamente a roupa seguindo seu rumo incerto...
