Capítulo 9- Reencontro

"Ela está logo ali na emergência do hospital".

Jack ouviu as palavras de Sawyer e mal podia acreditar. Kate estava ali no mesmo local que ele, naquele exato momento. Isso era maravilhoso e desesperador ao mesmo tempo.

James notou o quanto àquela revelação mexera com Jack, mas tentou ignorar isso. Ele não podia mais tirá-la dele, estavam casados há cinco anos e ela esperava um filho. O pretenso romance que houvera entre eles na ilha agora era coisa do passado, e ele não tinha razão para se preocupar.

- Quer vê-la? Tenho certeza que ela ficaria feliz em ver você.

Jack hesitou, lembrando da última vez em que se falaram quando ela foi até o seu apartamento do nada e os dois acabaram na cama. A despedida não foi pacífica, os dois trocaram ofensas, resolvendo que nunca mais iriam se falar e que seria melhor assim.

(Flashback)

Jack sentia seu corpo pesado sobre o colchão. Estava suado e o cheiro característico do amor recém-feito enchia o ambiente. Kate estava prostrada ao seu lado, respirando pesadamente, ainda sob o efeito do prazer provocado pelo rompante de paixão que a acometera ao chegar ao apartamento de Jack.

Ele respirou fundo e virou para o lado. Quase não podia respirar ante à visão do corpo nu de Kate em sua cama. Os seios ainda arrepiados e gotas de suor deslizando por suas belas coxas. Tocou-lhe os cabelos esparramados pelo travesseiro e enrolou os dedos nos cachos castanho-avermelhados.

- Kate...

- Eu vou me casar com o Sawyer.- ela disparou, assim sem mais nem menos deixando-o completamente perplexo e sem ação.

- O quê?

- Eu vou me casar com o Sawyer!- ela repetiu, convicta.

Jack sentou-se na cama e passou as mãos pela cabeça.

- Por que está me dizendo isso?

- Porque você tem o direito de saber.

- Eu acho que está havendo falta de comunicação aqui. Você vem até a minha casa, vai pra cama comigo e agora me diz que vai se casar com o Sawyer.

- Jack, você não entende? É o único jeito! Uma das cláusulas da minha sentença e passar a levar uma vida honesta e respeitável daqui pra frente. Me casar, arranjar um emprego fixo, ter filhos, uma casa seria uma forma de cumprir isso.

- Se precisa tanto se casar e ter filhos porque não se casa comigo?

- Oh Jack, por favor não diga isso!- os olhos dela se encheram de lágrimas.

- E por que não se eu...- ele hesitou um pouco, mas completou. – Se eu te amo.

Kate soluçou, não conseguindo mais conter o choro.

- Eu não posso! Não posso destruir sua vida. Preciso reconstruir a minha e o Sawyer, ele não tem nada e nem ninguém, assim como eu, somos uma dupla de perdedores!

- Você o ama?- Jack indagou, as lágrimas também tomando conta de seus olhos.

- Sim.- ela respondeu. – Mas não como amo você, ele é muito especial pra mim e sei que serei feliz com ele, mas sempre irei pensar em você, sempre!

- Por que veio afinal?- ele indagou com os lábios tremendo.

- Eu já disse a você, eu vim me despedir.

- Òtimo! Agora que se despediu vá embora e não volte nunca mais!- Jack gritou, decepcionado e magoado.

- Jack, por favor me entende...

- Vá embora Kate, vá embora!- ele repetia pegando as roupas dela que estavam espalhadas pelo chão e jogando-as na cama. – Vista-se e suma da minha vida.

Chorando, Kate começou a se vestir. Jack estava arrasado, a tristeza corroia seu coração, mas a raiva também começava a inundá-lo e ele precisava ofendê-la para que pudesse esquecê-la. Por isso, vestiu-se e pegou sua carteira na gaveta, tirou várias notas de cem dólares e as jogou sobre a cama.

- O que é isso?- ela questionou sem entender.

- Foi o Sawyer quem te mandou aqui não foi? Pra conseguir dinheiro para irem embora. Pois bem, mostre pro seu cafetão o quanto eu sou generoso.

Mal ele acabou de proferir tão ofensivas palavras quando o barulho estridente de um tapa soou no quarto. A mão de Kate atingiu certeira a face dele. Jack não revidou, ficou lá parado, sentindo o rosto arder e o seu coração quebrar aos pouquinhos. Kate abaixou a cabeça e murmurou baixinho.

- Desgraçado!

Deu-lhe as costas e saiu correndo para fora do quarto, para fora do apartamento, para fora de sua vida para sempre. Sozinho, Jack gritou de raiva e de dor e socou a parede com o punho direito. Logo uma dor lancinante dominou-lhe e sangue escorreu entre seus dedos, mas a dor em seu punho não era maior que a dor que sentia dentro do peito.

(Fim do Flashback)

- Jack?- chamou Sawyer vendo que o médico parecia distraído.

- Por que a Kate está na emergência?

- Ela se sentiu mal depois de conversar com a mãe, você sabe que elas tinham problemas não é segredo pra ninguém. A mãe dela está aqui no hospital com câncer terminal, viemos de Bexar County porque ela manifestou o desejo de pedir perdão a Kate antes de morrer, você sabe como a sardenta é, ela se faz de forte, mas precisa de apoio, ainda mais agora com o bebê...

- Bebê?- questionou Jack.

- Sim.- respondeu Sawyer, sem esconder seu orgulho. – A Kate e eu vamos ter um bebê.

- Parabéns!- Jack respondeu em tom seco.

- Por que não diz isso a ela? Venha!

Sawyer puxou Jack pelo braço antes que ele pudesse protestar. Ele o seguiu demonstrando naturalidade, mas não era o que sentia por dentro e quando adentrou a sala de emergência sentiu que parou de respirar por alguns segundos ao vislumbrar Kate sentada na cama, ainda mais linda do que da última vez em que a vira. Estava mais corada, o corpo mais cheio, os cabelos mais longos, cuidadosamente escovados, com cachos que se moldavam apenas nas pontas e mais vermelhos do que ele se lembrava. Mas os olhos, ainda eram os mesmos e pareciam lhe dizer as mesmas coisas.

- Jack!- ela balbuciou ao vê-lo e conteve imensamente a vontade de se jogar nos braços dele e chorar como uma criança.

- Como vai?- ele indagou polidamente lhe estendendo a mão.

- Ah que é isso, doutor? Pra que tanta formalidade.- falou James. – Se abracem por Deus, faz anos que não se vêem.

Jack se aproximou dela meio sem jeito e a abraçou, Kate fechou os olhos ao sentir o corpo dele colado ao seu outra vez, o coração batendo forte. Então não tinha se enganado, Jack estava ali no mesmo lugar que ela. Era uma coincidência maravilhosa e desesperadora.

Quando o abraço findou, ela parou para vislumbrá-lo melhor. Ele estava definitivamente diferente com os cabelos longos e um brinco de pedrinha charmoso na orelha direita, estava mais para astro do rock do que para médico.

- Como se sente?- ele perguntou para cortar o silêncio desconfortável que se estabeleceu depois que eles se abraçaram.

- Eu estou bem, não foi nada...

- Que bom!- ele respondeu. – Fico feliz pelo bebê.

- Oh!- Kate exclamou, então Sawyer já havia contado a ele. – Obrigada. E como você está? O que tem feito? Tem encontrado com o pessoal? Nós encontramos o Sayid e a Shannon quando chegamos aqui em LA.- disse ela tentando manter uma conversa.

- Mesmo? Como eles estão?

- Eles estão ótimos!- disse James. – Se casaram e tem dois filhinhos.

- Bom, eu fiquei em LA desde que recebi a indenização da Oceanic e voltei pro antigo hospital onde trabalhava, tenho mantido contato com a Claire e o Charlie. Descobri por acaso que eu e ela somos meio-irmãos.

- Como é?- indagou Sawyer, surpreso. – Você e a mamacita?

- Pois é, ela é filha de um romance do meu pai com uma mulher australiana. Uma coincidência absurda, mas é verdade. Ela e o Charlie se casaram.

- Disso nós soubemos pela tv.- falou Sawyer. – O hobbit retomou a banda dele.

- E além deles.- continuou Jack. – Eu falei recentemente com a Ana-Lucia. Por intermédio dela acabei reencontrado o Hurley, a Libby e o Eko. Mas não foi por uma coisa boa, fomos ao enterro do marido da Ana-Lucia, ele era policial como ela, morreu carbonizado salvando pessoas de um carro em chamas.

- Que horror!- exclamou Kate.

- Eu li sobre isso no jornal hoje.- comentou Sawyer. – Achei uma coisa terrível. E ela ficou viúva com uma filha pequena, não foi?

- Sim.- respondeu Jack, olhando no relógio. – Bem, foi um prazer rever vocês, mas tenho que iniciar meu expediente de consultas em dez minutos. Mais uma vez parabéns pelo bebê!

- Valeu, doutor!- disse Sawyer apertando-lhe a mão.

- O Sawyer me contou sobre sua mãe Kate, espero que fique tudo bem. Tchau.- Jack deu um beijo rápido na face da Kate e se retirou sem olhar para trás.

Kate sentiu um vazio terrível dentro de si, Jack não se mostrara nem um pouco emocionado em vê-la, apenas foi educado. Ele já não a amava mais, melhor assim. Mas ela nunca deixou de amá-lo, pensou nele todos os dias durante aqueles cinco anos e agora sentia-se decepcionada.

- James!

- Eu esqueci sua água amor, desculpe, eu vou buscar de novo.

- Não, me leve embora daqui! Eu bebo água no hotel!

- Tem certeza?

- Sim, eu estou cansada, só me leve embora.

James assentiu e foi buscar a médica para liberarem Kate.

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Libby terminou de atender seus pacientes e foi até o banco Cradock Mariner receber o dinheiro da pensão de Clementine Philips. Lisa havia lhe dito que o dinheiro havia sido depositado recentemente pelo próprio James Ford, pessoalmente nesta agência. Pelo visto ele estava em Los Angeles e isso seria a salvação da pequena Clementine, já que se nenhum membro da família de sua mãe pedisse a guarda da menina, ela seria enviada a um orfanato e Libby não queria esse destino para a pobre garotinha.

Desde que sua mãe morrera no acidente de carro a menina não dizia nada. A única pessoa com quem se comunicava, mesmo que através de gestos era Libby. Por isso, depois que Lisa lhe procurara aquela manhã para dizer que Clementine tinha um pai, ela decidiu que não pouparia esforços para fazer com que esse pai, mesmo sendo Sawyer, assumisse a sua responsabilidade. Talvez ele tivesse mudado, pois já faziam cinco anos que eles deixaram a ilha, não era possível que algum juízo não tivesse entrado na cabeça dele.

Enquanto esperava pelo gerente do banco, Libby inevitavelmente pensou em Ana-Lucia. Deveria contar a ela que Sawyer tinha uma filha e estava em Los Angeles? Não sabia como ela reagiria a essa notícia. Provavelmente com desdém falso, pois Libby acreditava que lá no fundo Ana nunca esquecera o rápido e bombástico caso que tivera com Sawyer ainda na ilha, do qual ela havia sido sua única confidente.

(Flashback)

- Ana? Ana você está aí?- indagou Libby à porta da tenda da amiga, com o semblante preocupado. Há dois dias que Ana-Lucia não saia de lá.

- Estou sim.- ela respondeu com a voz fraca, de dentro da tenda.

Libby entrou e encontrou-a pálida e fraca deitada no chão.

- Você não está passando bem? O que aconteceu? Não sai da sua tenda desde que o Jack e os outros voltaram.

- Eu estou bem, só estou cansada e com muito sono.

Libby tirou-lhe os cabelos negros do rosto e viu que seus olhos estavam inchados de tanto chorar.

- Ana, por que não se abre comigo?

- O quê?

- Você não está bem, está muito triste com algo. Por que não me conta o que é, Deus, isso está te consumindo.

Ana-Lucia sentou-se com dificuldade e olhou para Libby, novas lágrimas tomaram seu rosto. Ela precisava desabafar com alguém, não agüentava mais toda aquela pressão.

- Eu acho que estou grávida.

- Como é que é? Mas como...de quem?- Libby estava estupefata.

- Do Sawyer.- ela respondeu enxugando as lágrimas.

- Ana, como isso aconteceu?

- Aconteceu quando fui pedir uma arma para ele porque queria matar o Ben. Como ele não queria me dar a arma, eu apelei para o sexo, na hora nem pensei em nada.

- Então só aconteceu uma vez?

- Não.

- Não? Vocês estão tendo um romance, é isso? Mas eu pensei que ele estivesse com a Kate, eu vi os dois se beijando...

- Durante todo esse tempo em que fomos prisioneiros dos Outros, presos naquelas jaulas, muita coisa aconteceu. Eu e o Sawyer passamos por muita coisa juntos e eu...

- Se apaixonou por ele? Oh não, Ana, você deveria saber como o Sawyer é...

- Eu sei que pareço uma estúpida agora, mas não pude evitar, e aí quando vi que ele estava com a Kate eu enlouqueci. Mas quando nós voltamos e ela largou tudo para voltar e ir atrás do Jack, eu tive esperanças de que...

Libby a abraçou compadecida.

- Eu fui até a barraca dele no meio da noite e me ofereci pra ele, sem dizer nada porque eu queria provar pra mim mesma que o Sawyer é um cafajeste e que ele trairia a Kate comigo. E foi o que ele fez. Depois que isso aconteceu achei que seria mais fácil lidar com a situação porque eu simplesmente poderia odiá-lo. Mas aí comecei a enjoar e vomitar, os meus seios estão diferentes e eu sinto muito sono, a menstruação parou de vir e eu não sei o que fazer! Não tenho nem como ter certeza se estou grávida ou não. Se eu estiver será absurdo Libby, porque eu sou estéril!

A psicóloga arregalou os olhos, impressionada.

- Só existe uma pessoa que pode responder às suas perguntas aqui nessa ilha e te dar certeza se está grávida.

- Quem? O Jack? Não acho que ele possa.

- Não estou falando do Jack e sim da Juliet.

(Fim do Flashback)

- Dra. Thompson, desculpe fazê-la esperar.- disse o gerente do banco gentilmente ao cumprimentar Libby.

- Tudo bem.

- Eu sou Gary Stuart, gerente da agência. Em que lhe posso ser útil?

- Na verdade é um assunto delicado Sr. Stuart.

- E do que se trata?

- Preciso de informações sobre um cliente do banco chamado James Ford.

- Dra. Thompson, como psicóloga a senhora deve entender muito bem sobre a questão da ética no trabalho não é mesmo? Não posso passar nenhum tipo de informação sobre os clientes do banco.

- Lhe asseguro que é uma por uma boa causa. Eu tenho uma paciente chamada Clementine Philips, ela tem apenas oito anos e sua mãe morreu há dois dias num terrível acidente de carro. A assistente social que está cuidando do caso descobriu que a menina recebe uma pensão mensal promovida por James Ford, que por acaso é seu pai. Se eu não conseguir falar com o James, a Clementine irá para um orfanato em alguns dias e o senhor pode imaginar como isso será difícil para ela.

O homem tinha um semblante apreensivo para Libby.

- Na verdade eu sei exatamente como é, sendo órfão de pai e mãe, eu mesmo fui criado em orfanatos.

- Então o senhor sabe como essa situação é delicada. Devo lhe dizer que eu mesma conheço James Ford, ele, assim como eu é sobrevivente do vôo 815.

- Nossa! Os sobreviventes que passaram meses numa ilha deserta e foram vítimas de uma organização científica criminosa?

- Isso mesmo!

- Por Deus, pode contar com a minha ajuda Dra. Thompson, vou lhe passar todos os telefones e endereços para que a senhora encontre James Ford e faço votos de que a garotinha fique bem na companhia do pai.

- Obrigada.- respondeu Libby, cantando a sua primeira vitória.

Continua...