CAPÍTULO VIII
— Eu gostaria de falar com a enfermeira Isabella Marie Swan — Edward disse à enfermeira baixinha que fazia a lista dos doadores de sangue. A moça fitou-o da cabeça aos pés.
— É amigo de Bella? — perguntou.
Não, mas fizemos sexo juntos.
— Somos conhecidos.
— Ah, um momento... O senhor é o oficial que quase a fez perder o emprego?
— Sou. — Ele sorriu. — Mas tenho outros qualificativos mais interessantes.
— Garanto que tem. Por aqui, oficial Cullen.
Edward seguiu-a, espantado por ela conhecer tão bem a vida de Bella. Ocorreu-lhe que a moça poderia lhe ser útil.
— A senhora é a amiga dela que vai se casar?
— Oh, não, essa é Rosalie Hale. Eu sou Alice. Alice Brandon.
— Prazer em conhecê-la, Alice. — Ele sorriu.
— Igualmente.
Ele viu Bella antes de ela vê-lo. Ela colocava o curativo no braço de uma senhora de meia-idade que acabara de doar sangue. Sorria para ela. Edward sentiu uma ponta de inveja. Queria ser a razão daquele radiante sorriso. O perfil de Bella era classicamente lindo, e ele se perguntava pela vigésima vez por que o tal de Jake não enfiara logo uma aliança no dedo da moça.
— Bella — Alice disse —, veja quem apareceu.
Bella virou o rosto e o sorriso sumiu de seus lábios.
— Oi — ele disse.
— Alô.
Se a cidade pudesse engarrafar aquele gelo, a onda de calor melhoraria.
— Bella, você não me falou que seu oficial era tão atraente — Alice comentou.
— Ele é? Eu não tinha reparado.
Alice fitou a amiga com olhar estranho e retirou-se.
— Não sou atraente? — perguntou a ela, fingindo desaponto.
— O que faz aqui, oficial?
— Vim cumprir meu dever de cidadão.
— Tem certeza de que seu sangue não está quente demais depois da pequena celebração de aniversário que acabou de acontecer?
— Desculpe-me sobre o que houve. Meu amigo às vezes vai longe demais com as brincadeiras. Na realidade, procurei-a depois, mas você havia desaparecido.
— Olhe, oficial, estou muito ocupada. Se quer doar sangue, sente-se aí.
Ele obedeceu, achando que seria a única oportunidade de ficar perto de Bella. Ela auscultou-o com o estetoscópio. Ele riu, dizendo:
— Pela sua cara, eu diria que estou morrendo!
— Não, mas sua pressão arterial está acima do normal. É típico em você?
— Não. Minha pressão sempre foi perfeita. Provavelmente a excitação do dia. Posso doar sangue?
— Sim. Mas verifique sua pressão arterial daqui a uns dias. Agora enrole a manga da camisa, por favor.
Enquanto fazia isso, Edward insistia:
— Ainda não comemos aquele cachorro-quente. A que horas você está livre?
"Desconte cada minuto em que estivermos falando ao telefone", ele pensou.
— Não antes de algumas horas — ela respondeu, não demonstrando o menor interesse.
A mulher o mataria se adivinhasse que o oficial Cullen sabia os sons que ela emitia quando entrava em orgasmo.
— Mas você — Bella acrescentou — precisa comer alguma coisa quando sair daqui.
Edward não se preocupou, pois sabia que ela telefonaria outra vez à noite, a menos que descobrisse que estivera discando o número errado. Havia também o perigo de Jake telefonar.
Ela amarrou a tira de borracha um pouco acima do cotovelo de Edward.
Ela mantinha os cabelos presos no alto da cabeça, não caindo pelos ombros como estariam à noite, quando telefonasse.
Os dedos dela tocaram-lhe ligeiramente a pele, como asas de uma borboleta e, para o próprio espanto, sentiu que se excitava. Embaraçado, tentou esconder a evidência de sua reação colocando o boné sobre o colo, mas ela notou o movimento e franziu a testa.
Ela apertou uma veia com os dedos; e disse, com um sorriso maldoso nos lábios:
— Aqui está uma muito boa. — E ergueu a mão para espetar a agulha sem dó nem piedade.
Sabendo o que ia acontecer, pela expressão do rosto dela, Ed pediu:
— Cuidado, madame. Sou muito sensível. Aiiiiiii…
— Agora fique quieto, ok? — Após uma pausa, ela resolveu perguntar: — Afinal, encontrou o dono do cachorro?
— Telefonei. Mas Crash não era o cachorro deles.
— Crash?
— Decidi dar um nome a ele, imaginando que pudesse ficar em meu apartamento por algum tempo.
— Está causando problemas para você? Problema de espaço, por exemplo?
— Bem, não. Meu apartamento é velho, mas bastante grande. E moro sozinho.
— Oh!
— E você, mora sozinha?
— Isso não é de sua conta.
— Eu quis dizer, mora com sua família?
— Não.
Não tem nada de faladeira, essa gata, ele disse a si mesmo.
— Sua família é grande, madame?
— Uma irmã, duas sobrinhas. Moram em Denver em Denver. Meus pais moram em Forks. E você, Edward?
— O que tem eu?
— Tem uma família grande?
— Um irmão, quatro irmãs, dez sobrinhos e sobrinhas.
— É?
— Meus pais moram em Chicago. Os filhos, nós todos, estamos espalhados pelo país, mas tentamos nos encontrar pelo menos uma vez por ano.
— Isso é bom! — Bella comentou, com sinceridade. Ela retirou a seringa e deu a ele uma gaze para pressionar no ponto onde entrara a agulha. Depois escreveu qualquer coisa num caderno.
— Quer jantar comigo algum dia? — ele lhe perguntou.
— Não posso. Jake e eu temos… exclusividade.
Porém nós dois somos bons juntos, Edward teve vontade de gritar. Você tem partilhado suas fantasias comigo, sabia?
— Seu namorado já voltou? — ele sabia que entrava em terreno perigoso, mas não pôde evitar a pergunta.
— Voltou. Mas esqueci-me de mencionar seu nome a ele.
— Não se preocupe com isso — sussurrou. Teve vontade de agarrá-la para lhe dar um longo beijo. Jake e as enfermeiras presentes que fossem para o inferno.
Mas, em vez disso, desenrolou a manga da camisa. Teve dificuldade em abotoar o punho.
— Deixe-me fazer isso para você — ela disse.
E num gesto que pareceu erótico para ele, ela inseriu o disco de ouro na estreita casa para a abotoadura. Ed enxugou a transpiração da testa.
— Pronto! — Bella sorriu e agradeceu: — Obrigada por ter doado sangue. O banco está na verdade muito baixo em reserva.
— E eu fico contente por ter ajudado. Gostaria de poder fazer muito mais.
— Talvez possa encorajar seus companheiros de trabalho a vir aqui.
Não perca essa oportunidade, ele disse a si mesmo.
— De quanto mais você precisa?
— Quanto mais, melhor. — Os dentes dela eram muito brancos, e como brilhavam!
— Posso conseguir uma centena de doadores. Depois disso, você jantará comigo?
— Não. Mas pagarei um cachorro-quente para você.
Ken alegrou-se com essa parca possibilidade.
— Combinado! — Ele levantou-se. — Espero que você tenha suficientes bolsas para sangue.
— Acho que ficarei trabalhando até muito tarde hoje — ela comentou.
Ed hesitou. Significaria aquilo que ela não telefonaria naquela noite?
— Você tem planos para mais tarde? — lhe perguntou. Bella sacudiu a cabeça.
— Não, apenas preciso telefonar para Jake quando chegar em casa. Só isso.
Edward esboçou um sorriso de satisfação.
— Bem, quando falar com ele esta noite, diga-lhe que o considero um homem de muita sorte. — Ele pôs o boné na cabeça, tocou na aba e disse: — Madame…
***
Mais tarde, naquela mesma noite, Bella, ao telefone, tentou falar num tom de voz natural, para que Jake não pensasse que ela estava interessada no homem.
— Ele me pediu que eu lhe dissesse que você era um homem de muita sorte.
Edward riu, mas brevemente.
— Não me lembro desse homem lá da academia. Devo ficar com ciúme?
— Claro que não. Quer dizer, o homem não é repulsivo, mas também não é meu tipo.
— Oh?
— É sarado demais — ela falou depressa. — E insistente. E a chamava de "madame" como se ela fosse… especial.
— Insistente? Bem, acho que foi por ser insistente que ele conseguiu que tantos policiais fossem doar sangue, conforme você me contou.
— Suponho que sim — ela disse, apoiada nos travesseiros que colocara atrás da cabeça.
De fato, fora algo surpreendente de ser visto, Bella pensou, todos aqueles uniformes azuis enfileirados. Cento e seis doadores. Edward Cullen parecia estar bastante interessado em conseguir o tal do cachorro-quente, e a atenção dela. O problema era que ela também estava querendo o cachorro-quente, querendo passar algumas horas com ele.
— Jake — ela disse com calma, incapaz de identificar as emoções que tomavam conta de si — sei que estamos nos… divertindo… no telefone ultimamente, mas que tal esta noite apenas conversarmos?
Bella pensava em como Edward Cullen desejara falar com ela naquela tarde, sobre família e coisas talvez não muito importantes, coisas leves. Ela recusara conversar com ele acerca do assunto porque não quisera investir num estranho, mas adoraria essa camaradagem com Jake.
— Fale — ele sussurrou. — Do que deseja falar?
— Não sei. Que tal de nós?
— O que… de nós?
— Bem, o que primeiro chamou sua atenção sobre mim?
— Fácil. Você é linda, inteligente…
— É muito amável de sua parte me dizer isso, Jake. Mas eu não estava procurando elogios. O que você acha que vai contribuir para que sejamos felizes juntos, como marido e mulher?
— Não é suficiente eu ser louco por você?
— Sente-se feliz pelo modo como as coisas estão se encaminhando entre nós dois?
— Acho… que sim. Sim. Sim, muito feliz.
— Bom. Eu também, Jake. — Lembrando-se de sua conversa mais cedo com Edward, ela disse: — Fale-me mais de sua família e de onde você é.
— Quer saber de que cidade?
— Isso eu sei. — Bella riu muito. — Explique-me como foi sua infância! Nem sei se você tem irmãos e irmãs.
— Oh, bem, sabe de uma coisa? Eu preferia ouvir falar sobre você.
— O que sobre mim?
— Já me contou por que resolveu ser enfermeira?
— Acho que não. — Ela sorriu.
— Então, conte-me agora.
Bella acomodou-se melhor nos travesseiros enquanto as lembranças do passado voltavam.
- Quando eu tinha dezessete anos, era apaixonada por fotografia. Um dia, testemunhei uma cena de acidente e fotografei. Mas, quando revelei, vi que usara um filme inteiro focalizando o trabalho dos paramédicos e de uma enfermeira que apareceram logo no local. Foram fabulosos…. altruístas.
— Houve sobreviventes?
— Sim — ela respondeu. — Todos se salvaram. Decidi então que, na próxima vez em que presenciasse uma emergência, queria poder fazer mais do que apenas tirar fotos. Queria cuidar das pessoas.
— E conseguiu — disse ele.
— Se não for mandada embora por cuidar de cachorros…
— Mas isso foi culpa daquele policial, não sua culpa.
Ela suspirou.
— Bem, ele tentava fazer uma boa obra, e me apanhou de mau humor. Pensando bem, eu não devia ter agido com tanto… rigor.
— Garanto que ele pensa da mesma forma. Não perca seu sono por causa disso.
Não, ela não perderia. Embora a lembrança do homem escondendo sua ereção com o quepe poderia fazê-la contar carneirinhos para poder dormir.
— Nada mais de interessante aconteceu hoje? — ele lhe perguntou.
Bella estava adorando aquela mudança em Jake. Ele nunca fora de conversinhas, e ela apreciou poder falar do que se passara durante o dia.
— Nada de importante aconteceu hoje. Mas recebi uma carta de minha mãe ontem.
— Oh?
— Mesmo a léguas de distância, ela tem a terrível habilidade de me fazer sentir com doze anos de idade.
— Todas as mães são assim. Ela atormenta você por ainda não ter se casado?
— Bem… mais ou menos.
— É… Está fazendo o trabalho dela, de qualquer mãe.
— Suponho que sim. — Bella suspirou. — Sua mãe também é assim?
— Bem… não são todas iguais?
— Quando vou conhecer seus pais, Jake?
Edward teve um acesso de tosse.
— Bells, de repente não estou me sentindo muito bem. Acho que meu remédio não está fazendo efeito. Poderíamos… terminar esta discussão em outra oportunidade? — Ed forçou uma tosse de novo, dessa vez mais demoradamente.
— Claro — ela murmurou. — O que acha…
— Preciso desligar — ele interrompeu-a. — Telefone-me amanhã à noite, ok?
— Ok, ok. — Mas ele já havia desligado.
Afinal, Bella pensou, teriam muito tempo para conversar no sábado, no casamento.
Achando que um sorvete a ajudaria a dormir, em vez de um orgasmo, ela foi à cozinha de camiseta e calcinha, ficou em frente da geladeira aberta durante alguns minutos a fim de se refrescar, e depois levou o sorvete para a sala. Sentou-se no sofá.
Começou a pensar no que Jake vira nela. Dissera que ela era linda, mas não conhecia o outro lado de sua personalidade, como por exemplo o de andar pela casa só de calcinha e camiseta!
Dias atrás pensara em acabar tudo com Jake, mas agora… agora que descobrira esse lado erótico e vulnerável dele, mudara de idéia. Estava ansiosa por vê-lo no sábado, para constatar se iria agir diferentemente, mais relaxado. Por certo os telefonemas quentes abririam ainda outras portas de comunicação; já acontecera isso, não? Talvez descobrissem que tinham mais coisas em comum do que o gosto por filmes estrangeiros.
O telefone tocou. Bella atendeu:
— Alô?
— Você está escondendo algo de mim — Alice acusou-a.
— Do que está falando? — Bella riu.
— Estou falando daquela delícia de homem que trouxe um batalhão inteiro aqui no hospital para doar sangue. Ele é fabuloso, e você está se portando com ele como uma bruxa!
— Edward Cullen quase me fez perder o emprego, não se esqueça disso — Bella insistiu.
— Mas ele aumentou três vezes nossa reserva do banco de sangue, em questão de horas.
— Fez isso apenas porque quer que eu lhe pague um cachorro-quente amanhã à tarde.
— Oh, que romântico!
— Alice, o homem me irrita. E eu aceitei que ele me fizesse a corte por que se tratava de uma causa nobre.
— Acho que ele adora você, Bella!
— Pare com isso, Alice!
— Tudo por causa dos telefonemas de sexo com Jake. Esses telefonemas estão produzindo vibrações em você. E essas vibrações chegam até o oficial Cullen. Sexo atrai sexo, você sabe, não?
— Acho que o que atrai sexo é fazer sexo — disse Bella.
— Bem, você entende o que quero dizer.
— Bem, mas não estou interessada em Edward Cullen.
— Por quê?
— Porque tenho Jake e acho que finalmente nós dois chegamos a um platô emocional pelo qual esperávamos havia muito. Ele está começando a se abrir.
— Isso é bom… acho…
— É claro que é bom. Por que não seria bom?
— Não sei… A expressão do rosto daquele policial quando olha para você é tão diferente da expressão de Jake... — Alice comentou. Em seguida riu muito e disse:
— Se você me perguntar, acho que esse Cullen está preparando você para o amor, está te excitando e Jake é quem está recebendo os benefícios.
— Que absurdo! — Bella quase derrubou a colher com o sorvete. — E não posso aceitar conselhos de amor de uma mulher que permite que um homem a chame pelo nome errado só para não desapontá-lo.
— Vou contar meu nome ao dr. Whitlock amanhã sem falta. — Alice suspirou.
— Bom.
— Vou lhe dizer que troquei meu nome legalmente de Aline para Alice.
— Você não tem jeito, mesmo.
— Bem, vou desligar agora a fim de que você descanse para seu encontro amanhã com o oficial Cullen.
— Não é um encontro de namorados. Vamos a um parque público comer um cachorro-quente.
— Contou isso a Jake?
— Não! — Bella hesitou antes de responder.
— Conte-me depois como foi — Alice pediu. — Boa noite.
Antes de desligar, a imagem de Edward pulou diante de Bella.
Ela franziu a testa. Por quê? Mas por que teria ele de se imiscuir em sua vida justamente agora quando as coisas começavam a ir tão bem com Jake?
