[Avengers] Shadow Of The Day

Sinopse: Steve não estava nem um pouco contente com aquilo, mas não havia nada que pudesse ser feito. Era uma ironia cruel que tivesse de viver sob o mesmo teto daquele homem com quem tanto brigava, e que ele fosse o único que podia ajudá-lo. Adaptação, era o que Fury dizia. Ao Inferno com a adaptação! Steve não gostava do cara, e nada o obrigaria a mudar de ideia. O que ele talvez esteja prestes a descobrir, é que por trás da armadura de ferro, talvez exista apenas um homem perdido à procura de seu destino.

Disclaimer: Marvel's The Avengers (Os Vingadores) é um filme de ação americano de 2012 produzido pela Marvel Studios e distribuído pela Walt Disney Pictures. Baseado na equipe de super-heróis homônima da Marvel Comics, o filme foi escrito e dirigido por Joss Whedon. Ficção de fã para fã, sem fins lucrativos.

Classificação: NC-17

Gênero: Angst / Darkfic / Romance / Slash

Avisos: Homossexualidade / Linguagem Imprópria / Álcool / Lemon.

Capítulo 9. So go ahead and cry. (Então vá em frente e chore.)

O salão de festas estava um verdadeiro alvoroço, lotado de pessoas, cheio de vida. Uma pequena banda clássica tocava a um canto, fazendo-se ouvir acima das conversas e risadas. As moças usavam os vestidos típicos da época, com algumas rendas e floreados; algumas acompanhadas, outras não. Os homens trajavam ternos, e os militares, seus uniformes para ocasiões formais.

Sentado à mesa, Steve sentia-se finalmente em casa. O calor era um pouco desconfortável, mas nada ao qual não estivesse acostumado, ou não pudesse lidar com ele era o Capitão América, afinal. Saudoso, permitiu-se observar o ambiente, cumprimentando de forma simpática todos aqueles que lhe dirigiam a palavra. E então, foi que ele percebeu-a pela primeira vez, e seu coração acelerou no peito.

Ela era linda. Usava vestido vermelho-escuro, simples, mas que realçava sua pele clara. O batom destacava o formato dos lábios, e os cabelos estavam soltos sobre os ombros. Andava lenta, mas decididamente, em sua direção, com a bolsa de couro em mãos, e sua postura rígida de sempre. Dessa vez, no entanto, algo nela lhe dava um ar mais relaxado, confortável.

Peggy era a coisa mais linda que ele já vira em toda sua vida.

Boa noite, Capitão. ela fez uma mesura suave, um sorriso delicado iluminando seu rosto.

Boa noite, senhorita. ele devolveu o sorriso.

Gostaria de dançar comigo? a expressão dela continuava doce. Viu-o entreabrir os lábios para protestar, e logo completou: Não precisa se preocupar. Eu te ensino, Capitão.

Seria uma honra. devolvendo-lhe a mesura, o soldado levantou-se, pegando-a pela mão e conduzindo-a até a parte onde casais dançavam. Está linda, Peggy.

Obrigado.

Durante alguns instantes, permaneceram em silêncio, balançando-se suavemente de lá pra cá. Um pé, e depois o outro. Um passo, um giro, uma balançada gentil. Um passo, e novamente outro. Um passo, e novamente outro. Era mais fácil do que Steve acreditava que seria.

Então, a música e as danças pararam. Peggy encarou-o seriamente, e ele aproveitou o momento para observar as íris escuras da mulher. Elas refletiam sentimentos mais que conhecidos por ele, porém que, de algum modo, não conseguia compreender. Não ali, não agora. Não nos olhos da pessoa por quem se apaixonara, não naqueles olhos sempre esperançosos, sempre decididos e determinados.

Porque refletida em Peggy, havia uma tristeza incomensurável. Uma saudade que não podia ser exposta em palavras. Uma decepção que ia além de qualquer coisa que ele já tivesse visto.

Por que você nunca voltou pra me encontrar, Steve?

Tony não tinha um motivo certo para ter acordado àquela hora da madrugada. Algo se agitou em seu sono tranquilo, e o despertou para uma realidade fria e uma noite escura. Nem um pouco surpreso, constatou que tinha jogado as cobertas pra longe de si. Outra vez. Só que agora, esse era um fato estranho, porque apenas o fazia quando tinha pesadelos. E a menos que sua memória houvesse sido magicamente apagada, ele realmente não se lembrava de ter sonhado com algo.

Com um suspiro cansado, estava pronto para voltar a se cobrir e tentar dormir novamente, quando ouviu uma movimentação do lado de fora da porta de seu quarto — o som de passos pelo corredor. Aquilo obviamente significava que havia alguém andando pela casa, e ele duvidava muito que fosse Pepper. Porém, se não era a ruiva, só podia ser Steve, e foi esse fato que lhe deu coragem e ânimo pra se mover, unindo-se à confusão e à dúvida dos motivos pelos quais o Capitão América estava acordado até agora.

Resmungando brevemente, levantou-se, sentindo o corpo tenso, e a visão ainda meio borrada por ter acabado de acordar. Esfregando de leve os olhos, caminhou até a porta e abriu-a, saindo de seu quarto sem se importar em fechá-la; não havia motivos pra isso.

Em silêncio, o Homem de Ferro seguiu os ruídos que Steve fazia pela casa, até finalmente chegar na cozinha, e a luz repentina do ambiente fez com que seus olhos ardessem. Cobriu os olhos com as mãos até que se acostumassem, para então abri-los novamente e perceber o Capitão América apoiado no mármore da pia, bebendo um copo de água de costas para ele.

— Steve? — questionou, percebendo pelo modo com os ombros do soldado ficaram tensos, que ele o havia pegado de surpresa. — Desculpe. Não queria te assustar.

Rogers colocou o copo — agora vazio — sobre o mármore à sua frente, para então se virar. Tony imediatamente percebeu que havia algo nele que não estava certo. Steve tinha os ombros caídos. Toda sua postura decidida, aquele jeito que muitas vezes o irritava de tão arrogante que parecia, e toda aquela confiança haviam se esvaído dele. Os olhos estavam um pouco avermelhados, como se tivesse chorado, e a dor contida neles era tão profunda que Stark sentia como se fosse quebrar caso olhasse por muito tempo dentro deles.

— Tudo bem. — a resposta do Capitão América saiu num fio de voz, e o louro pigarreou, permanecendo silencioso logo em seguida.

Um tanto desconfortável, Tony se remexeu, sem, no entanto, sair do lugar. Sua vontade imediata era perguntar o que havia acontecido, mas ele não sabia se deveria. Se Steve resolvesse que não queria responder — ou pior: se respondesse como se tivesse a obrigação de fazê-lo — o clima ficaria definitivamente estranho. Porém, eles já estavam convivendo há um tempo juntos — não tanto, mas ainda assim... O Homem de Ferro achava que uma pergunta como essa não machucaria ninguém. O pior que poderia acontecer era Steve se irritar e voltar para o quarto, deixando-o ali sozinho com suas dúvidas e arrependimentos. Sendo assim, não se reprimiu quando as palavras escaparam-lhe dos lábios:

— Está tudo bem com você? O que aconteceu?

Atento às expressões do louro, Tony viu-o comprimir os lábios e respirar de forma truncada. As mãos dele tremeram levemente, e Steve apoiou-se na pia novamente. Algo em seu olhar endureceu, como se estivesse sendo forçado a viver uma situação da qual preferia fugir. O Homem de Ferro não estava com vontade de brigar, e aceitaria pacificamente se o soldado lhe desse uma resposta como "Nada", porém, a reação de Steve o surpreendeu — como sempre acontecia, aliás.

— Pesadelo. — foi o que o Capitão América respondeu num sussurro. E, bem, isso era algo que Tony entendia.

Stark nunca esperaria que Steve lhe respondesse algo como isso. Ele até suspeitava, ás vezes, que quando estava sozinho o soldado passava um bom tempo lembrando de sua antiga vida. Quem não o faria, afinal? Mas a postura decidida do louro estava sempre lá. Sua fé, sua força, e tantas outras qualidades que Tony não acreditava ter. Era como se Steve enfrentasse suas dores — ao contrário dele, que permitia quebrar-se e cair aos pedaços cada vez que acreditava não suportar mais. Mas onde estava isso agora? Onde estava a determinação, a coragem, a suposta arrogância que o Homem de Ferro via no soldado? Pela primeira vez desde que o conhecera, Steve parecia quebrado, cansado. Parecia estar entregando os pontos, como ele fizera tantas vezes; parecia estar deixando levar-se pela dor. E Rogers não era assim. Era um dos motivos porque tanto irritava Tony antes. Porque ele passara por tanta coisa, e continuava lá: inabalável e inatingível. Porque mesmo depois de tudo, o Capitão América era como uma rocha. Ele possuía uma força interior que o Homem de Ferro nunca teria.

Agora, à sua frente, esse homem caía aos pedaços. E Tony, como nunca antes acontecera, quis tirar aquela dor dele. Quis colocar todas as peças do quebra-cabeça que era Steve Rogers de volta no lugar, e colá-las se fosse necessário.

— Quer conversar sobre isso? — antes que pudesse se perguntar se aquilo era realmente certo, as palavras já haviam se formado em sua boca.

Stark não sabia que aquela reação vinda dele apenas fazia com que Steve apenas se magoasse mais, com que tivesse vontade de voltar para seu quarto e fingir que aquilo nunca acontecera. O Homem de Ferro já tinha problemas demais para preocuparem-no sem um soldado emocionalmente abalado depois de um sonho ruim, era assim que ele pensava. Tony tinha suas próprias dores pra lidar, e não precisava que Steve começasse a cair aos pedaços também. Ele não tinha decidido que seria o contrário? Que ele ajudaria o moreno? Que ele o faria sorrir, que ele o faria feliz outra vez? Se Stark estava se preocupando, era porque a dor em seus olhos era mais que evidente. Era porque estava estampado em sua cara o quão perdido ele se sentia, o quão desamparado estava. Era porque estava mais que claro o quanto ele precisava de um ombro amigo naquele momento; e, afinal, o quão patético isso não era? Steve nunca se permitira ser frágil assim. Ele cresceu levando surras nas ruas e becos de sua cidade natal, e nesse tipo de ambiente não podia se mostrar vulnerável; caso contrário, seria esmagado como um inseto. Quantas vezes ele se permitira chorar como havia feito pouco tempo antes em seu quarto? Muitas poucas, e tê-lo feito agora... Bem, isso, de certa forma, o envergonhava um pouco.

Ele não devia chorar suas dores, ele não devia expor seus temores.

— Steve? — a voz preocupada de Tony quebrou toda sua linha de pensamento, e o soldado se encontrou encarando-o fixamente, como se buscasse as respostas de seus problemas nas íris escuras* do moreno.

Aquela provavelmente não era a primeira vez em que percebia que Stark começara a prestar mais atenção em si, mas era a primeira vez que o Homem de Ferro o encarava de uma forma tão... Protetora. Como se quisesse abraçá-lo, como se quisesse confortá-lo. Tony caía aos pedaços à sua frente, e ainda assim preocupava-se em impedi-lo de sangrar. E que sentido isso tudo fazia?

— Está tudo bem. — Rogers balançou a cabeça, resolvendo que era melhor voltar logo para seu quarto antes que mudasse de ideia. — Eu só... Clarear um pouco as ideias... Ficar sozinho.

O louro não saberia dizer ao certo como entendeu, mas soube — assim que as palavras terminaram de sair — que havia dito aquilo de um modo um tanto rude. A si mesmo, apenas parecia algo normal, e que diria a qualquer outra pessoa em uma situação como essa, mas a expressão de Tony mudou imediatamente com o término de sua frase. Algo se agitou em suas íris; algo perigosamente parecido com mágoa. Porém, o moreno logo encobriu seus sentimentos com um sorriso. Aquele sorriso rasgado em sua face, um sorriso tão falso que doía. E seu quase desespero em querer fazer parecer que tudo estava bem, aquilo fez com que Steve pensasse que havia estragado tudo. Tudo o quê, exatamente, ele não sabia, mas, de algum modo, ele acabara de arriscar o que vinha conquistando desde o momento em que propôs uma "trégua" entre eles: a confiança de Tony.

— Ok. — foi a resposta que recebeu, e o Homem de Ferro logo virou as costas para si, começando a caminhar em direção às escadas. — Só tente não fazer tanto barulho se isso acontecer outra vez; eu tenho sono leve.

Ao observar o moreno desaparecer, o Capitão América teve que controlar a vontade insana que sentia de socar alguma coisa.

Por que as coisas sempre tinham que ser tão complicadas pra ele?

Tony bateu a porta de seu quarto, mordendo os lábios para não gritar de frustração.

Maldito, maldito, maldito! Por que Steve sempre complicava tudo? Por quê?! Tony estava aberto pra ele quando perguntou se queria conversar. Pela primeira vez em um bom tempo, estava realmente preocupado com alguém, e queria ajudar. Ele queria tirar a dor dos olhos de Steve, ele queria fazer o soldado se sentir melhor, nem que fosse para voltar a ter aquele comportamento que o irritava. Qualquer coisa serviria!

Mas não, o Capitão América tinha que tratá-lo como se fosse um estorvo. Ele sabia que estava incomodando — ele sempre incomodava, e isso era uma característica que não podia evitar —, e também entendia que o louro tinha o direito de não querer falar sobre o assunto, mas, ainda assim... Droga.

As repentinas batidas na porta o assustaram.

— Tony? — a voz de Steve, do outro lado, soava abafada. — Desculpe pelo meu comportamento lá embaixo. É só que... Eu realmente não quero falar sobre isso agora. Não é nada com você, sério. Na verdade, eu... Eu agradeço que esteja preocupado, e que queira tentar me ajudar... Só não acho justo que tenha de ser você a fazer isso... Por favor, não fique irritado comigo.

Respirando ruidosamente, Stark caminhou até a porta e encostou a testa contra ela, sentindo a aspereza da madeira. O moreno nem duvidava que, do outro lado, o Capitão América fazia a mesma coisa.

— Por que não seria justo?... Eu não entendo. Eu sei o que você está tentando fazer, Cap. Não vai dar certo. Você não pode me consertar, porque eu já estou quebrado demais pra que você possa encontrar todos os pedaços e colar eles de volta. Você sabe disso, não é idiota. Mas... Ainda assim... Você continua tentando se aproximar. De novo, e de novo... Por que eu não posso fazer a mesma coisa que você?

— Porque você já está quebrado demais pra ainda ter que se preocupar comigo, Tony. — pelo suspiro que ouviu, o Homem de Ferro soube que todas aquelas palavras eram verdadeiras. — Eu não quero deixar você sofrer mais do que já sofreu. Eu quero ajudar você a superar isso. Você não pode desistir de si mesmo, nunca. Por maior que seja a dor, por mais que você acredite que não pode superar, acredite: você pode. Sempre há uma escolha.

Em silêncio, Stark abriu a porta de seu quarto, apenas para encontrar Steve ali, parado, em pé, encarando-o seriamente. O soldado deu um meio-sorriso sem-graça, e entreabriu levemente os braços, como que oferecendo um abraço.

— Se você cair, nós vamos te levantar outra vez; não importa o quão difícil isso possa ser, ou quanto tempo demore. Não estou falando apenas por mim, estou falando por todos aqueles que te amam, e se importam com você. Pepper é uma dessas pessoas, e eu realmente acredito que não importa o que aconteça ela vai estar do seu lado. Então, vá em frente. Grite o que precisar gritar, chore o que precisar chorar. Só não deixe isso tomar conta de você, Tony.

Não importava se aquilo era apenas uma força de expressão ou um verdadeiro convite, Tony Stark abraçou Steve Rogers como um homem que se agarra a uma tábua de salvação, com um desespero quase palpável. E o Capitão América não reclamou; apenas devolveu o abraço, procurando oferecer e receber um conforto pelo qual os dois ansiavam. Era uma busca mútua por sentimento, por carinho, por coisas das quais eles se privavam quase irracionalmente.

Aquele seria apenas o primeiro de muitos abraços que se seguiriam. Porque uma vez sozinho, você chora suas dores sozinho. Na companhia de alguém, você se torna verdadeiramente forte. Porque você ama, você vive, você entende. Você tem seus momentos de alegria, e de tristeza. Mas por pior que esteja a situação, um amigo sempre pode colocar um sorriso em seu rosto.

E eles entenderiam isso. De uma maneira... Ou de outra.