Nota da Autora: Os personagens aqui mencionados não me pertencem, mas sim a nossa ilustre e maravilhosa J.K Rowling. A história original desse livro pertence a Tawny Weber, não estou recebendo lucro nenhum ao fazer essa adaptação, é apenas por diversão e hobby, por isso não é plagio, e sim uma transposição da trama para o mundo Potteriano, como Universo Alternativo. Então, divirtam-se!
Capítulo 8
Oito Meses Depois...
– Cara, você se transformou por completo em um monge. Só falta a vestimenta.
As palavras de Ron ecoaram pelas barracas vazias no Quatar. O restante da tropa estava fora, celebrando o retorno da Síria. Harry havia recusado o convite para se reunir a eles, querendo dormir e descansar primeiro.
– Desculpe se não estou à altura dos seus padrões de diversão – resmungou ele sem se dar ao trabalho de abrir os olhos.
– Você está na fossa. Tem que esquecer essa garota.
– Estou dormindo. Descansando depois de três semanas árduas dessa última missão, lembra?
O suspiro de Ron deveria ter sido dado no meio de um palco, alto, sonoro, profundo, carregado de uma quantidade de exasperação que nem mesmo um adolescente resmungão teria usado numa semana inteira.
Harry quase sorriu. Mas continuou de olhos fechados. Queria dormir. O sono e o trabalho eram ótimos. O que acontecia nos intervalos entre ambos? Nem tanto.
Não que estivesse na "fossa". Isso seria estupidez. E não era do tipo que perdia tempo com coisas estúpidas.
– Você tem que esquecê-la, já falei mil vezes.
– Esquecer quem?
O silêncio foi uma bênção.
Se ao menos durasse.
– Já faz meses. E você continua com a ideia tão fixa nela que quase não faz mais nada. Para você só há as missões, a academia, o dojo, o campo de provas. Essa é a sua vida. Você virou um clichê, cara.
O mais triste era que, ele estava certo.
Colin estava com a razão. Depois de ter batido a porta na sua cara, Ginny não falou mais com ele. Telefonou. Foi até o apartamento dela. Fez todo o possível, exceto falar com o almirante para que intercedesse.
Enfim, não restou escolha a não ser desistir.
Não perderia tempo tentando uma reaproximação com uma mulher que não conseguia superar os assuntos mal resolvidos com o pai.
– Não sou um clichê. Não estou na fossa, e nem me tornei um monge. – Pronto. Defendeu-se de todas as acusações recorrentes de Ron. Talvez agora conseguisse dormir um pouco.
– Não é o que as suas atitudes demonstram. Um pouco de sexo seguro com desconhecidas ao acaso só para aliviar a pressão não lhe faria mal. Mas isso não faz o seu estilo, certo?
– Por que não escreve logo uma coluna sentimental, ou algo assim? – retrucou Harry, farto de pensar em Ginny e do fato de Ron persistir no assunto.
– Sabe, até que não é uma má ideia. "Caro Conselheiro, enviado por HP. Eu me apaixonei por uma garota que não posso ter e, agora não consigo esquecê-la. Como faço para curar o meu coração partido?"
Poderia ter sido engraçado, se não fosse algo tão próximo da verdade.
– Prewett, você é insuportável!
– Potter!
Felizmente, uma interrupção de outro oficial que não pôde ser ignorada por Ron.
– Senhor! – Harry levantou-se de imediato, colocando-se em posição de sentido, apesar do fato de estar de folga, usando apenas uma cueca boxer e realmente estar tentando dormir.
– Novas ordens. Reporte-se ao capitão.
Com os olhos focados na águia de prata da insígnia da Marinha dos Estados Unidos numa placa na parede, Harry manteve-se em posição de sentido. O oficial detrás da mesa ignorava a sua presença, dividindo a atenção entre uma papelada à sua frente e um telefonema.
Com os ombros retos e firmes, o queixo erguido e os sentidos em alerta, ele sabia que seu rosto não contraía irritação alguma por ser deixado à espera, embora já tivessem se passado dez minutos. As perguntas que lhe povoavam à mente também não transpareciam em sua expressão impassível.
Não estava se perguntando por que fora retirado da missão em que estivera e, recebera ordens para retornar à base naval de Coronado sem o restante da equipe.
Nem tampouco curioso quanto à razão para essa reunião com o oficial ter sido assinalada como confidencial.
Ambas as coisas faziam parte do procedimento padrão de operações.
A pergunta que o intrigava, era por que estava se reportando diretamente ao contra-almirante Shacklebolt.
Muitas das ordens vinham de Shacklebolt, mas passavam pela cadeia de comando. Ele nunca se reunira com o contra-almirante. Nem sequer vira mais Shacklebolt pessoalmente desde a festa de aposentadoria do almirante Weasley em setembro, meses antes.
A raiva se reavivou em seu peito como sempre acontecia quando relembrava aquela noite.
Como já fizera inúmeras vezes anteriormente, lembrou a si mesmo que era um absurdo ficar tão melancólico por causa de uma mulher que mal conhecia. O único motivo para Ginny continuar a lhe despertar interesse, era porque não havia passado tempo o bastante com ela para que o gosto de novidade tivesse passado. Sexo sensacional, um corpo que atormentava seus sonhos eróticos e uma personalidade que quase o convencera que relacionamentos eram possíveis, fora da cama também... Apenas isso, nada com que devesse ficar obcecado.
Dormira com mulheres o bastante antes dela e, embora não se lembrasse de nenhuma que o tivesse afetado tanto, tinham sido encontros passageiros e não havia razão para que, o que acontecera entre ambos também não tivesse sido. Não era do tipo sentimental e não nutria paixão por nenhuma mulher que ficara no passado – ou deveria ter ficado.
Não. Não havia razão para estar zangado.
E nem para se lembrar da textura dos lábios dela, da fragrância floral de seu cabelo, ou da maciez das curvas junto a seu corpo. Era ridículo desejar poder vê-la, apenas mais uma vez, nua acima do seu corpo, ondulando na mesma cadência que a sua rumo ao auge do prazer. A última coisa de que precisava na vida era da distração de se perguntar como Ginny estaria se saindo no novo emprego, se já se adaptara à vida em San Diego, ou se ainda sentia falta de Nova York. Se acabara de desempacotar tudo e, se já fora à praia nesse ano.
Com a mesma disciplina que usava para levar seu corpo aos limites, para treinar com a elite e ser bem-sucedido nas missões que a maioria das pessoas julgaria impossíveis, Harry afastou da mente as lembranças e toda a tensão emocional que as acompanhava.
Era melhor se concentrar na pergunta mais imediata, em tentar entender por que, afinal, estava ali. Mais a título de distração do que por achar que encontraria a resposta, fez mentalmente uma lista de todos os conflitos conhecidos que poderiam requerer uma missão de, um só homem.
Ainda não tinha a menor ideia quando, enfim, o contra-almirante terminou o telefonema.
– Potter – disse ele quando recolocou o fone no gancho.
Já em posição de sentido, Harry concentrou toda a sua atenção no oficial comandante.
– Senhor.
– Você esteve na Síria recentemente.
Uma vez que foi uma declaração, não uma pergunta, ele não respondeu. Ainda olhando para a águia, teve noção de que sua mente se acelerou. A mais recente missão fora um sucesso. A equipe foi, inclusive, elogiada pelo chefe comandante pelo serviço benfeito. Aonde aquilo levaria?
– Ao longo de um ano, você passou seis meses a serviço no Oriente Médio, completou 72 missões e ganhou três condecorações.
Eram os dados exatos. Mas, o contra-almirante não estava à espera de uma confirmação.
– Você tem a reputação de ser um forte membro de equipe. Um homem que entende ordens, mas, que também pensa rápido e tem iniciativa quando é necessário.
E qual fuzileiro não era dessa maneira?
– Você provou que respeita as regras e as segue meticulosamente.
Harry teve de se conter para não revirar os olhos.
Qualquer integrante de sua equipe poderia estar ali ouvindo as mesmas palavras. Nenhum dos comentários era exclusivo à carreira dele. Assim, aonde, afinal, o seu superior queria chegar? Não estava avaliando o seu histórico de serviço por falta de assunto. Era algum tipo de teste.
Era um teste que já ganhara, deduziu Harry – ou perdera, dependendo da perspectiva – levando em conta que ainda estava ali.
Mas, o que estaria em jogo?
– Enquanto a sua ficha de serviço mostra uma afinidade com o trabalho em equipe e a liderança, a sua avaliação psicológica indica uma inclinação para a autonomia e a autoconfiança. Isso sugere que trabalha bem sozinho, possivelmente até melhor do que em equipe.
A avaliação psicológica dele? Ora, o contra-almirante havia esmiuçado todos os registros até chegar à avaliação psicológica inicial dele para saber se estava apto para aquela nova incumbência. O que, afinal, estava acontecendo?
Pela primeira vez desde que havia entrado no gabinete, Harry olhou atentamente para o contra-almirante. Franzindo a testa, estudou o cenho carregado do homem mais velho, o brilho frio como o aço nos olhos que estreitava.
O que quer, que estivesse acontecendo, era algo grande.
– Vou ser retirado da minha equipe.
– Vai ser temporariamente realocado.
Com um movimento rápido de queixo, Harry fez sinal de assentimento quanto à nova missão e aguardou novas ordens. E esperou esclarecimentos.
O contra-almirante olhou pela janela por alguns momentos, como se estivesse decidindo quais informações deveria partilhar. Então, apertando os lábios com força, tornou a lhe encontrar o olhar. Com ar grave, respirou fundo antes de falar:
– Houve um sequestro. Uma civil com laços militares e, informações potencialmente perigosas, foi retirada à força de sua residência dois dia atrás. Investigações identificaram o grupo por trás do ato e indicaram a localização dela.
As palavras, dela e laços militares, acrescentaram uma dimensão de urgência a uma missão já incerta.
– O cativeiro se encontra dentro da área continental dos Estados Unidos – informou-o o contra-almirante. – O líder dessa facção de terroristas, como também muitos dos que o servem, é um cidadão americano.
Delicado. E estava fora do habitual modus operandi dos fuzileiros navais.
– Dentro de dois dias, uma equipe neutralizará esse cativeiro. Todos os esforços serão feitos para manter os alvos vivos.
Harry fez uma careta mentalmente. Infelizmente, alvos tinham o potencial de se tornarem perdas indiretas. E reféns corriam igualmente o mesmo risco.
– A sua ordem é retirar a refém do cativeiro. Você irá sozinho, reportando-se apenas a mim. Terá vinte minutos antes que a equipe desembarque e ataque. Não informará a ninguém sobre esta missão, nem trabalhará em equipe com os homens designados para ela.
A mente de Harry tomou diferentes rumos. Uma parte questionava, por que, afinal, seu papel na missão ficaria oculto. Outra parte avaliava o que precisaria fazer sem arriscar a missão da equipe ou a segurança da refém. Uma terceira parte já entrava na função missão, distanciando-se emocionalmente ao mesmo tempo em que incorporava as expectativas de vitória.
– Você foi requisitado especialmente para essa missão, Potter.
Harry franziu a testa.
Como fuzileiro, seu treinamento era intenso e suas habilidades, diversificadas. Mas, o mesmo se dava com o restante da equipe. Era o comandante da Força de Ataque, o rádio operador e linguista. E era excelente no que fazia. Mas novamente podia dizer o mesmo de muitos dos demais companheiros. Assim, por que ele especificamente? Aguardou. Se Shacklebolt quisesse deixá-lo saber por que fora requisitado, diria.
O contra-almirante encarou-o. Não era o uniforme, a patente, nem o contraste do cabelo grisalho, com o rosto de cor negrume que o tornavam intimidante. Era a fria expressão de determinação que dizia que esse era um homem que faria o que fosse preciso para que o trabalho fosse realizado, não porque achasse que as consequências valiam a pena, mas porque nem sequer via consequências. Apenas a meta.
Depois de estudar Harry por alguns momentos, apertou o botão do interfone na mesa. Mas, não disse nada. Apenas aguardou.
Harry também aguardou. Por menos tempo, porém, do que levou para respirar fundo. A porta privada à direita do gabinete do contra-almirante se abriu.
Seu mentor, o homem que o recrutara, que moldara a direção da carreira de Harry e era pai da mulher mais sexy do mundo, entrou no gabinete. Weasley não disse uma palavra. Apenas ficou olhando para Harry com uma expressão indecifrável.
O contra-almirante, que se levantara, ergueu uma pasta de arquivo da mesa, bateu-o na perna algumas vezes e tornou a estudar Harry. Finalmente, com um longo olhar na direção do almirante, entregou-lhe a pasta.
– A sua missão. – Por, dizer, ficou a ordem de que o conteúdo da pasta fosse, lido e memorizado, ali no gabinete. Harry tinha acesso às informações, mas os dados ficariam sigilosamente guardados.
Acostumado a isso, Harry lançou um novo olhar ao almirante, mas não descobriu nada. Em seguida, soltou o cordão que fechava a pasta e retirou dela um pilha de papéis. Acima, havia uma foto colorida de 20x25cm. Nesse momento, o coração dele quase parou. O ar ameaçou lhe faltar. Um sentimento que mal reconheceu como medo contraiu-lhe o estômago.
Olhou imediatamente para o almirante.
– Senhor?
Weasley endureceu o maxilar. Baixou o olhar por um segundo para as mãos e, então, voltou a lhe sustentar o olhar.
– Estou solicitando um favor neste caso. Vários, na verdade. Tenho certeza de que entende a razão.
Chocado, Harry olhou outra vez para a pasta, mas, não respondeu.
Weasley contornou a mesa com passos rápidos, determinados. Só parou quando seu rosto ficou a poucos centímentros do de Harry.
Por entre dentes, ordenou:
– A partir deste momento e até que a missão seja concluída, você se reportará diretamente a mim e ao contra-almirante Shacklebolt. Você irá resgatá-la. E a manterá a salvo.
Frios olhos azuis fixaram-se em Harry como se estivessem gravando as ordens em seu cérebro.
– Traga a minha filha de volta. Sã e salva, tenente.
A parte do "senão" não precisou ser acrescentada. A mensagem ficou implícita na maneira como o almirante enrijecia o maxilar, na furiosa veemência de suas palavras.
– Você a resgatará antes que a equipe estoure o local do cativeiro. Vai tirá-la de lá em total segurança. E vai mantê-la escondida e a salvo até que receba a minha ordem para trazê-la de volta para casa.
Harry não teve que perguntar se a missão era autorizada. Sabia que o contra-almirante se encontrava numa linha bastante tênue, fazendo um favor ao velho amigo. Mas, não a ultrapassara. Mesmo que ele próprio o tivesse feito...
Tornou a olhar para a foto. O rosto de Ginny o olhava de volta. Uma foto de identificação oficial do governo. O cabelo ruivo vibrante estava penteado para trás, mas mechas errantes escapavam para brincar alegremente em torno do seu rosto. A foto captava o castanho avelã brilhante de seus olhos, os mesmos olhos que povoavam os seus sonhos. O sorriso sexy parecia um tanto maroto. Lembrava-se bem do contato daqueles lábios nos seus, do seu gosto doce.
Tentou conter a onda de fúria que o percorria. Não havia lugar para emoções numa missão. Não em uma missão bem-sucedida. E essa seria, prometeu a si mesmo.
Encontrou os olhos do almirante com os seus, que estavam igualmente duros e determinados.
– Eu a trarei de volta, senhor. Sã e salva.
Quase sem continuar respirando, jurou para si mesma que sobreviveria, mantendo intactas a sua vida, sanidade e talvez – por algum milagre – a sua fé na humanidade.
De olhos fechados, inspirando cuidadosamente pelos dentes para tentar bloquear o odor rançoso do recinto, concentrou-se em acalmar a mente.
Respire devagar. Relaxe. Não pense em mais nada a não ser na respiração.
– Vai acabar hiperventilando se continuar puxando o ar desse jeito.
Ginny emitiu um som sibilante por entre dentes durante a expiração seguinte e, entreabriu os olhos para encarar o homem sentado diante dela à mesa.
Fonte do odor rançoso, seu cheiro se encaixava perfeitamente em sua personalidade. Memorizara os traços dele como parte da promessa a si mesma de que não apenas sairia desse pesadelo, mas, assim que conseguisse, teria o máximo de munição possível para levá-lo à uma devida punição.
Baixo, com provavelmente cerca de 1,60m, ele tinha aquela síndrome de homem pequeno, flexionando sua força para a esquerda e a direita. Cabelo loiro-escuro, calvo, olhos castanhos, um rosto comum marcado por uma pequena cicatriz no queixo, tinha o olhar vidrado como de um rato. O que fazia sentido, uma vez que tinha a personalidade de um roedor raivoso.
Um roedor raivoso com um grande contingente de malfeitores na sua folha de pagamento. Os mesmos malfeitores que a haviam levado à força da calçada em frente ao seu apartamento. Que colocaram um capuz na sua cabeça, que a levaram para as regiões nevadas do meio do nada, ou mais especificamente, em alguma parte do Alasca. Que se revezavam para a vigiarem, depois que foi trancada, em um quarto, ou no laboratório improvisado que haviam montado. Ou na grande e precária, sala de jantar, onde se encontrava no momento, pensou, olhando de soslaio para o brutamontes que montava guarda junto a uma parede suja. E havia vários outros tipos de malfeitores no bando, os que serviam, os que cuidavam da parte "administrativa" e os encarregados exclusivamente de vigiar o perímetro congelado das instalações. Avistara-os ao longe quando subira na cadeira, em seu "quarto" para espiar o lado de fora, pela pequena janela gradeada.
– É melhor dizer alguma coisa – instruiu-a o rato. Seu tom entediado destoava da irritação com que tamborilava com a unha grossa e comprida no braço da cadeira, enquanto comia com a outra mão. – Não vai voltar para o seu quarto aconchegante, enquanto não detalhar o progresso que fez no laboratório hoje.
Um espaço de dois metros quadrados, sem aquecimento, mobiliado com um pequeno leito de lona, sem lençóis, apenas um cobertor, uma velha cadeira e um abajur que mal ficava de pé, estava longe de ser considerado aconchegante. Mas, para um rato, talvez fosse acomodações de luxo.
Ginny respirou fundo deliberadamente, soltando o ar devagar, mas, não disse nada.
Ele tamborilou mais alto com a unha.
Ela quase sorriu. Essas ínfimas rebeliões eram inúteis, mas, eram tudo o que tinha. Fazia quatro dias. Quatro longos dias de extrema tensão desde que fora raptada. Alguém já devia ter notado seu desaparecimento àquela altura. Colin teria alertado o pai de ambos. O almirante podia não ser um pai exemplar, mas quando se tratava de proteger os interesses dos Estados Unidos e seus cidadãos, ele era imbatível. O que significava que a tiraria dali logo. Ao menos era o que estivera dizendo a si mesma.
Ao longo de, exaustivos quatro dias.
No primeiro dia, esgotada devido ao terror e à viagem, implorou para saber por que fora sequestrada e para ser libertada. O rato lhe dissera que a informaria na manhã seguinte sobre o que precisaria fazer para permanecer viva. Depois que descansasse e tivesse tempo para pensar em todas as possibilidades, acrescentara ele para provocá-la. Em seguida, a havia trancado no quarto escuro, frio e aconchegante.
No dia seguinte, com a fúria encobrindo o pavor, ela tentou rebater com ameaças tão logo o rato destrancou a porta. Ele riu na sua cara e a instruiu para segui-lo até a sala de jantar. Não podia deixá-la morrer de fome antes que ela realizasse o seu novo trabalho.
Uma vez que o Instituto de Ciência havia recusado suas muitas solicitações legítimas, ele decidiu que era tempo de obter o que queria através de meios ilegítimos. Através da força e do sequestro. Como ela era o rosto público do projeto de mensagens subliminares do instituto, era claramente – ao menos na opinião dele – a especialista. Seria dever dela, explicou o sequestrador durante uma refeição composta de peixe defumado, ovos moles demais e bacon mal passado, desenvolver um novo programa de mensagens subliminares. Um programa que usasse a tecnologia que ela estivera desenvolvendo para cura sexual e, a voltasse para o estímulo e o aumento da raiva.
Ginny tentou argumentar com ele. A ciência em torno do uso de mensagens subliminares para o estímulo e aumento de reações emocionais era nova, explicou. Ao contrário das fitas cassete de anos antes, com mensagens sussurradas em meio a música relaxante que haviam obtido mudanças emocionais específicas através de ondas cerebrais. O foco psicológico dela era a sexualidade, não a raiva. Nunca estudara como o som se relacionava à percepção humana de emoções negativas. Não era neurologista. Não sabia em que ponto do cérebro a raiva era desencadeada e, portanto, não podia criar um programa que a estimulasse.
Ele apontou o garfo respingando gordura de bacon e ovo na direção dela e sugeriu que tratasse de aprender aquilo antes que lhe esgotasse a paciência. Em seguida, providenciou para que fosse acompanhada até o que ele chamava, de seu novo laboratório. Era um cômodo apenas um pouco maior do que o quarto, continha uma mesa e uma bancada de trabalho e duas cadeiras. Uma pilha de equipamento de áudio e digital, usado e de aspecto um tanto gasto, espalhava-se pela bancada, incluindo um processador de dados, e um estimulador neuromuscular. Ao lado, havia uma grande variedade de livros de Psicologia e um tablet.
Depois de lhe ordenar que trabalhasse, ele a deixou lá até o final de mais esse dia. Com um pilha de equipamento de segunda mão, adquirido em alguma venda de garagem, que não a ajudaria em nada, uma porção de livros sem significado algum e nenhum meio de pesquisa acessível, Ginny teve muito tempo livre para que a sua mente se alternasse entre imagens assustadoras do que poderia acontecer em seguida e, a esperança de que alguém a salvasse antes que tivesse de enfrentar o rato novamente.
Porém, ali continuava, começando a perder a esperança.
Assim, só lhe restou tentar bloqueá-lo de sua mente enquanto ele fazia mais uma refeição. Os jogos, as ameaças, o medo. Quatro anos de yoga, técnicas de respiração e de meditação há tempo abandonadas, foram tudo com que pôde contar.
Com isso em mente e, sim, por ter visto a irritação no rosto do seu sequestrador, tornou a fechar os olhos e respirou fundo através dos dentes.
– Está fazendo isso do jeito errado – retrucou a voz lamuriante. – Você tem que inspirar pelo nariz. É um filtro. Tem certeza de que é cientista? Parece não saber de muita coisa.
Ginny abriu os olhos de repente, preparada para responder à altura. Felizmente, viu o brilho maldoso nos olhos do roedor, antes de replicar em defesa própria. Comprimiu os lábios.
– Não estou surpreso, para dizer a verdade – prosseguiu ele, contemplando o grande pedaço de bife quase cru que tinha espetado no garfo. – Desapontado, claro, mas depois de sua falta de progresso nos últimos dias, nem um pouco surpreso.
Desviando aquele mesmo olhar contemplativo para o rosto dela, o raptor envolveu o pedaço de bife mal passado de uma só vez com os lábios gordos e o mastigou. Uma trilha de sangue e gordura escorreu pelo canto da boca até o queixo retraído e foi parar na frente da camisa branca. Ele pareceu não notar.
Estava esperando que Ginny mordesse a isca.
Ela se recusou.
Os olhos do rato brilharam novamente, como se, quanto mais se mostrasse desafiadora, mas o alegrasse.
– Achei que uma mulher como você, com todos esses diplomas pomposos e que não fez segredo sobre o jeito como torce o nariz para a família, seria um pouco mais esperta.
Ginny sentiu seu sangue gelar. Achou que esse sequestro estava totalmente relacionado à sua pesquisa. Mas, se o raptor sabia quem era a sua família com tais detalhes, isso mudava as coisas. Aquilo tudo tinha mesmo algo a ver com a criação de um "botão da raiva"? Ou estava relacionado ao seu pai? Se esse fosse o caso, qual a razão de toda aquela presepada?
– Por favor – disse, tentando soar razoável e calma em vez de apavorada e ansiosa. – Deixe-me ir. Não posso fazer o que está me pedindo. É esperto o bastante para ter pesquisado a tecnologia por si mesmo. Sabe que o equipamento que tem aqui é inadequado. E a pesquisa nesse sentido não é coesiva o bastante para se trabalhar.
Ela não estava poupando falsos elogios e nem hesitando em desmerecer sua pesquisa, mas, concluiu que salvar sua vida era justificativa o bastante para isso.
– Você está à beira de uma inovação. Acabou de dar uma entrevista na TV no mês passado. Está nos jornais, outros cientistas estão comentando a respeito em seus blogues – declarou ele, sacudindo o dedo na frente do rosto dela como se tivesse feito uma travessura.
Blogues? Seria verdade? Ginny sentiu os nervos ainda mais em frangalhos, acabados por se alternar entre a preocupação por sua vida e a esperança de que poderia haver câmeras escondidas ali que acabariam provando, que tudo aquilo, não passava de uma brincadeira de muito mau gosto.
– Assim sendo, não há motivo para você não pegar essa mesma pesquisa e fazer uns pequenos ajustes. A paixão pode ser canalizada tão facilmente para a raiva, quanto é, para algo tão trivial como sexo.
– Já lhe disse, não é algo assim tão simples como se apertar um botão. A minha pesquisa tem se concentrado no corpo físico e na cura. Não nas emoções. Não sei como dirigi-la para a raiva, fúria ou quaisquer outras emoções destrutivas que queira.
O olhar contemplativo dele não mudou. Nem sequer piscou os olhos. Talvez estivesse mais para serpente do que rato.
– Bem, talvez você só precise de um pouquinho de motivação. – Ainda com o garfo em uma mão e tamborilando na cadeira com a maldita unha, na outra, inclinou a cabeça para o lado e inspecionou-lhe o corpo com um longo olhar.
Ginny sentiu calafrios, como se alguém a tivesse mergulhado num poço cheio de lesmas.
– Você é uma bela mulher. Sem dúvida. Vicent ali – ele fez um gesto para indicar o brutamontes que a vigiava com mais frequência –, manifestou um interesse especial pelos seus encantos. Talvez eu deva recompensá-lo pelo serviço exemplar, que tal?
Com os olhos anuviados pelo medo, ela acompanhou-lhe o gesto até o capanga cujos próprios olhos redondos de roedor, brilhavam com lascívia. Sentiu a bile subir de imediato pela garganta, mas estava paralisada demais pelo pavor para sequer vomitar.
– É claro que Vicent foi um pouco longe demais com a sua última recompensa. – continuou o líder do bando num mesmo tom contemplativo. – Ela se tornou inútil para nós quando ele terminou. É difícil enxergar muita coisa através da tempestade de neve, mas, se olhar pela janela, poderá avistar a sepultura dela logo do outro lado da cerca elétrica.
Pontos pretos dançaram diante dos olhos de Ginny, e o ar pareceu lhe faltar de repente, como se nem sequer houvesse o bastante para oxigenar seu cérebro.
– Estou mais propenso a esperar a minha própria recompensa – prosseguiu ele devagar, fazendo uma pausa para tomar um gole de vinho, dando-lhe tempo para dar um pequeno passo de volta para trás da beira do penhasco de horror em que estivera prestes a mergulhar. – Eu mesmo acho o estupro um tipo inútil de persuasão. Se a mente estiver arruinada, o corpo não será bom para muita coisa, não é mesmo? E eu preciso que a sua mente esteja funcionando perfeitamente bem.
Ginny não soube se a mente voltaria a funcionar perfeitamente bem outra vez, mesmo enquanto se desviava das imagens hediondas que ela não conseguia parar de formar.
– Tantas possibilidades a levar em conta. – Ele bateu com o dedo indicador no lábio inferior, como se isso o ajudasse a tomar uma decisão. – Vou ter que pensar a respeito hoje à noite e informarei à você pela manhã.
Seu sorriso adquiriu um ar zombeteiro.
– Nesse meio tempo, sugiro que vá até o laboratório e veja o que consegue fazer, agora que está um pouco mais motivada.
– Você não pode fazer isso – replicou ela ofegante, num tom que era parte negação, parte prece.
– Posso fazer tudo que eu quiser. – disse ele sacudindo a mão no ar. – Vá. Vicent levará você até o laboratório.
Ginny levantou-se, apoiando sutilmente a ponta dos dedos na beirada da mesa até que os joelhos parassem de tremer o bastante para a sustentarem.
– Vamos, vá! – ordenou o rato, sacudindo os dedos na direção da porta. – Ao trabalho.
Sim, concluiu ela, tentando encontrar a fúria em meia às ondas intensas de pavor que ameaçavam sufocá-la.
Seu sequestrador era decididamente uma serpente.
N/A: E aqui estou novamente... Me contem, vocês esperavam por essa reviravolta? Pois é... Uma missão ao resgate!
Vamos torcer para que o Harry chegue logo, porque, a coisa tá feia para Ginny... Sequestrada por ratos e serpentes, realmente, isso não é nada bom... Com certeza, pior que um pesadelo.
Então, como já disse muitas vezes, e provavelmente, vocês já cansaram desse clichê, mas, como sou uma chata persistente: aguardem para saber no próximo capítulo.
Um grande abraço, e até lá!
