For your disease
Drinking scorn like water
Cascading with my tears
Beneath the candle bed
Two saddened angels in heaven, in death
Now let us lie
Sad we lived sad we die
Even in your pride
I never blamed you-Nightwish
Fazia muito tempo não sonhava com Jamie Parkers.
Ele estava andando numa plantação de repolhos cheia de vacas e cabeças humanas cujos rostos Sirius não conhecia. Na distância, Cotswolds ardia em chamas, e ele via a silhueta de Mulciber no alto de uma escada de bombeiro, regando o incêndio com gasolina.
O fogo já saía dos limites da vila, aproximando-se da plantação de repolhos. À volta de Sirius, as cabeças humanas começaram a falar, primeiro numa fala engrolada, incompreensível, mas ele logo conseguiu distinguir uma ou outra frase.
"Está cheirando a fumaça," dizia uma delas.
"Você sempre diz isso," disse uma vaca. Ela regurgitou o que tinha no estômago em cima de uma folha de repolho, quando um bezerro natimorto caiu dentre suas pernas e ficou estendido junto de seus cascos.
Ele ouvia Jamie gritando de algum canto da plantação, enquanto o ar ia ficando escuro e pegajoso, e a fumaça irritava os olhos de Sirius. Jamie gritava o nome dele, mas ele não conseguia distinguir os repolhos das cabeças humanas. As vacas se inclinavam sobre as golfadas de vento, a fumaça envolvia tudo. Logo os gritos de Jamie cessaram, e ele se sentiu aliviado quando as chamas começaram a lamber suas pernas. Então se sentou no meio da plantação para recuperar o fôlego e olhar o mundo se incendiar à sua volta, enquanto as vacas pastavam, balançando-se para a frente e para atrás, recusando-se a fugir.
Sirius acordou com a sensação de estar sufocando e o cheiro de carne queimada ainda em suas narinas. Ficou olhando o lençol tremer sobre o coração disparado e jurou nunca mais ir beber com Beijo e Gideão.
Ele caíra na cama às quatro da manhã, fora acordado pelo sonho estilo Salvador Dalí lá pelas sete horas e só conseguiu dormir de novo por volta das oito.
O que não significou nada para Lyle. Exatamente às nove horas, Lyle ligou o radio, ou qualquer porcaria do tipo que os trouxas usavam para ouvir música, e um cara com voz grossa começou a gritar e o rangido que parecia o de unhas arranhando um quadro negro chegou até a janela de Sirius e fez seu cérebro vibrar.
Sirius se levantou, enfiou a cabeça entre a persiana e a tela da janela e viu Lyle de costas para ele enquanto pintava a parede de sua casa que dava para os jardins. A música era tão alta que ele jamais iria conseguir ouvi-lo, por isso Sirius fechou a janela, depois foi aos tropeços fechar as outras janelas, reduzindo a gritaria a apenas uma vozinha ressonando em seu cérebro. Em seguida arrastou-se de novo para a cama, fechou os olhos e rezou para ter um pouco de sossego.
Mas aquilo nada significou para Dorcas.
Ela o acordou pouco depois das dez, fazendo a maior barulheira na casa, preparando o café, abrindo as janelas e dando as boas vindas a mais um dia frio de outono e mexendo na geladeira, enquanto as unhas no quadro e a gritaria atravessavam as paredes e invadiam o quarto de Sirius.
Como aquilo não conseguiu o tirar da cama, ela abriu a porta do quarto e disse: "Levante-se."
"Vá embora," Sirius puxou o lençol e cobriu a cabeça.
"Levante-se, menino. Estou ficando aborrecida. Agora."
Sirius jogou um travesseiro em sua direção. Ela se esquivou, ele passou por cima de sua cabeça e terminou por quebrar alguma coisa lá em baixo.
"Você não gostava mesmo daqueles vasos, não é?" Ela disse.
Ele levantou-se, enrolou o lençol em volta da cintura para cobrir o short fosforescente de lutador de boxe de Marvin, o Marciano, e desceu aos tropeções.
Dorcas estava de pé no meio da sala, segurando uma xícara de café com as duas mãos. No chão e no sofá havia cacos de vasos quebrados.
"Café?" Ela perguntou.
Sirius lembrou-se que sua varinha tinha ficado em algum lugar no quarto, lá em cima, e estava zonzo demais para travar uma discussão com Dorcas sobre se ela lhe emprestaria ou não a dela, de modo que encontrou uma vassoura e começou a dar um jeito naquela bagunça. Dorcas pôs sua xícara na mesa da cozinha e quando voltou fez sumir o montinho de cacos que Sirius recolhera em cima do tapete, com um gesto de varinha.
"Você ainda não entendeu muito bem o que significa sono, não é?"
"As pessoas dão importância demais a ele," ela voltou para a cozinha.
"Como você sabe? Você nunca experimentou."
"Sirius," ela abriu as cortinas da janela, e a luz acertou em cheio os olhos dele, "não tenho culpa se você ficou bebendo até tarde com seus amiguinhos."
Seus amiguinhos.
"Como você sabe que eu estava bebendo com alguém?" Perguntou Sirius, protegendo os olhos com uma mão.
"Porque sua pele está com um tom esverdeado que nunca vi antes. Além disso, hoje de manhã tinha uma mensagem de um sujeito totalmente bêbado na minha lareira."
"Ahn." Agora que ela estava falando, ele se lembrou vagamente de uma lareira e de uma mensagem a certa altura da noite. "E o que dizia a mensagem?"
Ela abriu o armário, tirou uma barra de chocolate, a desembrulhou, jogou leite quente e esfumaçando na xícara de Sirius e foi descendo aos poucos o chocolate dentro dela. "Alguma coisa do tipo: 'Onde você está? São três da manhã, aconteceu um troço fodido, a gente precisa conversar'. O resto eu não consegui entender, porque a certa altura você resolveu falar em suaíle."
Sirius levou a vassoura para a área de serviço e se serviu de chocolate quente. "Então, onde você estava às três da manhã?"
"Agora você é meu pai?" Ela franziu o cenho e beliscou a cintura de Sirius um pouco acima do lençol. "Você está começando a ficar com pneuzinhos."
Sirius baixou a xícara. "Não tenho pneuzinhos."
"E sabe por quê? Porque você continua a beber como se ainda estivesse com os colegas da escola."
Ele lançou-lhe um olhar duro, pôs mais um pouco de leite na xícara. "Você não vai responder a minha pergunta?"
"Sobre onde eu andava ontem à noite?"
"Sim."
Dorcas tomou um pouco de café e olhou para ele por cima da xícara. "Negativo. Mas acordei me sentindo ótima e com um sorriso enorme no rosto. Enorme."
"Do tamanho deste que você está dando agora?"
"Maior ainda."
"Humm."
Ela se debruçou sobre a mesa. "Imagino que quando você tentou falar comigo às três horas da manhã de cara cheia não foi só para se inteirar de minha vida sexual. Que está havendo?"
"Lembra que Anne Longbottom estava desaparecida?"
"Sim."
"Acharam o corpo dela ontem à noite."
"Não," disse ela arregalando os olhos.
"Sim," com todo aquele leite, o chocolate de Sirius estava com gosto de mamadeira. "Foi morta dentro de casa, enquanto preparava o jantar."
Ela fechou os olhos por um instante, depois os abriu. "Me diga que não houve nada no céu."
"Um símbolo em forma de caveira, verde, entre as nove meia e dez da noite. Anne morreu às nove e quarenta." Sirius derramou seu chocolate na pia.
Com toda a calma, ela disse: "Você já descarregou toda a bílis por hoje?"
Sirius encheu a xícara de leite novamente. "Não sei. Ainda é cedo," deu uma volta pela cozinha e Dorcas se afastou da mesa e se pôs de pé na frente dele.
Ele viu o rosto magro de Franco, os olhos vazios, cada vez mais vazios, a medida que via o corpo da irmã sendo levado embora, dentro de uma lona, enquanto a chuva caía ácida e fria sem parar.
"Outro dia topei com ela na porta do Três Vassouras. Tive a impressão de que ela estava com algum problema ou coisa assim, mas deixei para lá. Tirei o corpo fora, entendeu?"
"E daí?" Disse ela. "Você acha que tem alguma culpa?"
Ele sacudiu os ombros.
"Não, Sirius," ela passou a mão no lado do pescoço dele, obrigando-o a fitá-la. "Entendeu?"
Ninguém devia morrer como Jamie havia morrido.
"Entendeu?" Insistiu ela.
"Sim," Sirius respondeu. "Acho que sim."
"Não tem essa de achar," ela afastou a mão, tirou um envelope branco das vestes e o passou para ele. "Isto estava colado na porta." Ela apontou para uma caixa de papelão em cima da mesa da sala. "E aquilo estava no chão."
O envelope era simples, branco, com as palavras sirius black gravadas no centro. Ele o abriu, tirou um pergaminho e o desdobrou. Não havia cabeçalho, nem data, nem saudação, nem assinatura. No meio da página estava escrito apenas:
Olá!Nada mais.
Ele passou o pergaminho para Dorcas. Ela o olhou, virou-o para ver o verso, virou-o novamente. "Olá," leu em voz alta.
"Olá," Sirius repetiu.
"Não," disse ela. "Acho que a gente deve dizer 'olá!' como uma menina a beira de um ataque de risos."
Ele tentou fazer o que ela sugeriu.
"Sofrível," comentou.
Olá!
"Você não acha que foi uma das garotas com quem você sai?" Perguntou Dorcas, verificando o envelope.
"Tenho certeza que não. As garotas com quem eu saio não dizem 'olá' desse jeito, pode acreditar."
"Então quem poderia ser?"
Ele não tinha a menor idéia. Era uma mensagem tão inócua e ao mesmo tempo tão estranha. "Quem quer que tenha sido, é um mestre na arte da concisão."
"Ou então tem um vocabulário muito limitado."
Sirius jogou o pergaminho na mesa, tirou a fita adesiva colada em volta da caixa e a abriu, enquanto Dorcas olhava por cima de seu ombro.
"Que diabo é isso?" Disse ela.
A caixa estava cheia de impressos. Sirius os tirou da caixa e os colocou em cima da mesinha de centro. Eram mais de quinhentos, alguns já amarelados de tão velhos, alguns amassados, outros pareciam não ter nem dez dias. Todos traziam no alto, no canto esquerdo, fotos de crianças trouxas desaparecidas, seguidas da lista de suas características físicas, e todas traziam a legenda 'Você me viu'?
Bem, não, Sirius não tinha visto. Ao longo dos anos que morara naquela casa ele recebera centenas desses impressos pelo correio e sempre os examinara com atenção antes de jogá-los no lixo, mas em todos aqueles anos nunca vira um rosto conhecido. Como só os recebia mais ou menos uma vez por semana, era fácil esquecê-los. Agora, porém, que os recebia numa caixa, em centenas, junto com uma mensagem anônima de "olá!", a coisa era assustadora.
Milhares de crianças. Desaparecidas. Uma população inteira, uma legião de pequenos seres desgarrados, antes de terem tido tempo de viver. A essa altura, quase todos mortos, Sirius pensou. Outros certamente haviam sido encontrados, sempre num estado muito pior do que quando desapareceram. Os demais andavam à deriva, vagando, atravessando o coração das cidades como pontos luminosos no canto dos olhos das pessoas, dormindo em cima de pedras, de caixotes e de colchões velhos, faces encovadas, pele amarela, olhos esbranquiçados e cabelos cheios de lêndeas.
A Ordem tinha dado um duro danado para identificar as outras pessoas que haviam matado Jamie junto com Mulciber, mas era como se eles tivessem surgido do nada e para o nada tivessem voltado. Mulciber também estava desaparecido, o que provava que eles eram no mínimo muito excêntricos, pensava Sirius. Dorcas lhe contara, na tarde de alguns dias atrás, sentada no sofá de sua sala e com uma tigela de pipoca doce entre as coxas, que todos os assassinos pervertidos com quem tivera de lidar antes tinham a decência de esconder suas identidades verdadeiras das vítimas. Tom Riddle se apresentara como o tal para Jamie Parkers. Não fizeram questão de apagar a memória de Sirius.
"É como se eles estivessem pedindo para serem descobertos," dissera Dorcas.
"Então acho que vamos estar livres no fim de semana," disse ela de repente, ficando de pé. "O que você vai fazer?"
"St. Mungus," disse Sirius, afastando-se dos impressos.
"Você está frito."
"Estou mesmo. E você?"
"Não vou contar."
"Tenha juízo."
"Não," disse ela.
"Não se arrisque."
"Certo."
Logo depois que Dorcas saiu, Sirius escutou um barulho na sala. Alice Longbottom estava na lareira. Seu genro iria fazer o favor de falar – por telefone – durante cinco minutos com Sirius, a partir das onze horas.
"Cinco minutos completos?" Ironizou ele.
"Para o Sr. Oliver isso já é muito. Eu lhe dei o número do... da - como chamam mesmo? Cabine telefônica? Que coisa esquisita – mais próxima da sua casa. Ele vai ligar às onze em ponto. O Sr. Oliver é pontual."
Dez para as onze, Sirius já estava na esquina de sua rua, encostado à cabine e sentindo tanto frio que mesmo dentro dos bolsos suas mãos doíam. Alguns vizinhos mais audaciosos haviam posto cadeiras do lado de fora e tomavam chocolate quente usando luvas de lã coloridas.
Mesmo antes de ele próprio completar dez anos, seu pai falava sobre Oliver. A única vez que fora na casa de Franco, soube que seu pai podia estar falando a verdade quando dizia que Oliver era desses que carregam bandeira e batem de porta em porta, porque o pára-choque da Chevy que os Longbottom tinham era coberto de adesivos que mostravam sua opção partidária. Para seu pai, política – fosse trouxa ou não – nada tinha a ver com mudança social. A política era como uma bela casa na árvore e, se você subisse nela com os meninos mais espertos da vizinhança, podia recolher a escada e deixar os outros idiotas lá em baixo.
Quando eram mais novos, Franco repetia tantas vezes que seu pai tinha subido de cargo que parecia ser um tique nervoso, e Sirius ficava imaginando quantos níveis havia para se subir num partido. Tinha uma vaga lembrança de Oliver à época da infância, mas não conseguia distinguir bem daquela figura narrada por Franco. Então, quando sua voz soou no telefone da cabine, ela parecia estranhamente imaterial, como se fosse uma gravação.
"Black?" Disse ele em tom caloroso.
"Sirius, senhor Longbottom."
"Como vai, Sirius?"
"Vou bem. E o senhor?"
"Ótimo. Não podia estar melhor," disse Oliver, no que Sirius corou. Esquecera que o cara tinha acabado de perder a filha. "Alice me falou que você queria me fazer algumas perguntas."
"Sim, quero."
"Então diga, meu filho."
Oliver era só uns quinze anos mais velho que Sirius. Ele não entendia como podia ser chamado de filho.
"Sei que é difícil falar desse assunto agora, mas entenda, Sr.Oliver, queremos pegar os caras que..."
"Claro que querem, Sirius. Mas não posso ajudar vocês em nada. Anne tinha pouco contato comigo, ela morou com a mãe na Escócia desde os seis anos."
"O senhor não teve nenhum contato com ela nos últimos dez anos?"
"Não," disse Oliver, mas então acrescentou de repente: "No natal. Eu os visitei no natal."
"Como ela parecia estar?"
"Bem. Mas mesmo que não estivesse, Sirius, ela não me diria. Pessoalmente, acho que obteria mais resultados falando com Franco."
"Já falamos, senhor, foi a primeira pessoa com quem falamos. Anne lhe contou alguma coisa sobre sua vida pessoal?"
Oliver riu, e as entranhas de Sirius se remexeram desconfortavelmente. "Fotos."
"Perdão"?
"A única coisa que ela me permitiu saber sobre a vida dela era que estava recebendo fotos pelo correio, mas somente porque sentei acidentalmente em cima do envelope."
"Ela estava recebendo fotos."
"Acredito que tinha um amigo fotógrafo obcecado por ela ou coisa do tipo. Isso é coisa de cinema, não é, Black?"
"Como eram essas fotos?"
"Me diga que irão proteger Franco."
"Por que está dizendo isso, Sr. Oliver?"
"Porque é seu trabalho."
"Estamos tentando. Mas não vamos poder fazer isso se..."
"Sabe o que eu acho que é? Vou lhe falar com franqueza: é um daqueles malucos de Diana. O cara esqueceu de tomar Prozac e resolveu assustá-la. Dê uma olhada na lista dos pacientes dela, filho. É o que eu sugiro."
"Se o senhor pelo menos..."
"Black, me escute. Estou separado de Diana há quase vinte anos. Quando ela me ligou ontem a noite fazia seis anos que eu não ouvia a sua voz. Pouca gente sabe que um dia fomos casados. Pouca gente sabe de Anne e Franco. Na última campanha eleitoral, estávamos esperando que explorassem o caso, mostrando que abandonei minha primeira mulher e meus dois filhos ainda crianças, que não mantenho nenhum contato. Mas a coisa não aflorou. Ninguém sabe da relação entre eu, Diana, Anne e Franco."
"E quanto a...?"
"Foi um prazer falar com você, Black. Diga a seu pai que Oliver mandou lembranças. Sinto saudades do velho. Onde ele anda atualmente?"
"No cemitério Cedar Grove."
"Arrumou um emprego de zelador, não é? Bem, tenho que desligar. Cuide-se."
O St. Mungus era um hospital bruxo, mas afora o método que usavam para tratar das pessoas, não diferenciava quase nada de um hospital trouxa; durante a semana eles atendiam urgências do tipo fraturas, queimaduras, acessos contínuos de riso, azarações e feitiços mal feitos, e no fim de semana o corredor dos fundos abarrotava de bêbados e malfeitores de quatorze anos com cara de bebê dando coices nos paramédicos enquanto alguma parte de seu corpo guinchava sangue feito tinta, então Sirius já se conformara a muito tempo que nos sábados e domingos suas noites eram ali, segurando uma prancheta na mão e tentando obter o máximo de informações possíveis sobre os acidentados, que em geral não colaboravam, fosse por impossibilidade de responder ou não - a verdade é que os pacientes quase sempre chegavam lá gritando e brigando com os enfermeiros, porque, afinal de contas, seus corpos estavam doloridos por terem apanhado, estavam perdendo sangue por terem sido menos cuidadosos com as facas de cozinha, se é que as mesmas não estavam enfiadas até o talo em suas carnes, e os únicos pobres coitados que estavam por perto para se descarregar aquela culpa e aquela dor eram os enfermeiros, ou, quase fatalmente, os assistentes sociais.
Sirius viu Dan conversando com um grupo de enfermeiros no final do corredor. Ele também lhe viu e fez um pequeno aceno. Quando Sirius passou por ele indo em direção ao primeiro andar, onde uma garota com um rasgo na panturrilha vertendo alguma coisa verde-vômito o esperava, foi retido por uma exclamação e em seguida Dan chamou seu nome.
"Diga, Dan," fez Sirius, voltando-se.
"Que é que você fez durante a semana?"
Tinha dias que Dan estava de tão bom humor que saía perguntando para todos no hospital o que eles haviam feito durante a semana, só para dar às pessoas a emoção de acharem que suas vidas importavam para alguém.
Sirius deu de ombros. "Algumas coisas."
"Onde é que você está indo?"
"Seção de Ferimentos causados por Bichos, uma moça de..."
"Ora, deixe disso," ele tirou a prancheta da mão de Sirius e a observou, embora parecesse não ter lido nada do que havia escrito nela. Depois a passou para um cara de jaleco verde atrás de si que Sirius nunca tinha visto por ali antes. "Roy vai substituir você esta noite, ele está louco para começar logo a trabalhar."
Roy fez que sim com a cabeça, leu a prancheta e caminhou para a escada que levava ao primeiro andar.
"Ei, Roy," disse Sirius. "Tente não levar tudo isso muito a sério."
"Ah, é?" Disse Dan, lançando-lhe um olhar coagente.
Sirius deu-lhe um de seus sorrisos mais ingênuos. "Ou então você pira," e foi para os fundos do hospital, temendo contar com a certeza de que caminhava para uma noite de sábado livre.
Uma equipe de enfermeiros veio em sua direção no corredor escuro e de paredes frias, trazendo uma pessoa na maca, que vinha trepidando pelo piso. Sirius encostou-se à parede para dar passagem, e sentiu uma coisa quente arrastar em sua barriga no momento em que a maca passou correndo em sua frente. Antes de olhar para baixo, ele olhou para a maca - o braço de quem quer que fosse estava pendurado para fora dela, a mão fazendo um ângulo de mais de cento e noventa graus com o pulso aberto e jorrando sangue.
Sirius sentiu-se como se tivesse deitado de costas no asfalto, no centro da rua, enquanto pintavam as faixas de ultrapassagem com tinta cor de vinho. Sem olhar para baixo, foi até o armário, pegou um saco, tirou o jaleco verde-claro do hospital, o enrolou e o colocou lá dentro. Levantou-se e passou na frente da janela para ir ao banheiro. Lá fora alguma coisa se moveu de repente no pátio da escola, do outro lado da rua. Os vagabundos de Londres tinham chegado para se esconder nas sombras, sentar-se nos bancos de pedra sob as janelas, fumar um pouco e tomar umas cervejas. Por que não? Era uma bonita noite de sábado.
Entrou no banheiro e, sem acender a luz, lavou as mãos e o rosto. Acima do espelho da pia havia papéis com escritos do tipo "Tão frágil quanto você são as pessoas" e "Da próxima vez que tiver um problema, chame um liberal."
Então Sirius teve uma resposta para uma pergunta do tipo "descubra o erro da gravura" sem nem ao menos ter feito a pergunta conscientemente. Não estava vindo nenhuma música do pátio da escola. Pouco importa se a música denuncia a sua presença, os jovens trouxas não vão a lugar algum sem seus aparelhos de som. É uma coisa que não se faz.
Sirius olhou para o pátio da escola mais uma vez. Não havia mais nenhum movimento brusco. Nem brasa de cigarros nem tilintar de garrafas. Olhou com toda atenção para a área onde tinha visto o tal movimento. A escola era em forma de E. As barras das extremidades iam além da barra central uns bons dois metros. Havia sombras espessas no canto formado pelo ângulo de noventa graus da parede esquerda. Então Sirius se deu conta do exagero que estava fazendo com aquelas bobagens. Achou que o que tinha visto era um gato.
Atirou o saco com a roupa suja dentro do armário e desceu.
"E aí, Black?" Cumprimentou Tommy quando passou por ele no bebedouro.
"E aí."
Tommy se deteve na calça de Sirius. "Que houve aí em baixo?"
"Acidente de percurso."
"Seu?"
"Não. Da maca."
Tommy arqueou uma sobrancelha e seguiu pelo corredor. Sirius saiu para a noite fria da Reester Street, imaginando como estaria o movimento no Cabeça de Javali àquela hora da noite, quando seus olhos, já habituados à escuridão, se viraram novamente na direção do pátio da escola e conseguiram ver uma grande forma no meio dele. Animal, vegetal ou mineral, não dava para dizer, mas havia alguma coisa ali, e havia ainda aquela inconfundível sensação que você tem quando sabe que está sendo observado.
Certo, algum engraçadinho estava tentando afetar a recente felicidade dele naquela noite, isso não podia ficar assim. Sirius pôs as mãos no bolso, baixou a cabeça e tentou andar como um trouxa que está apenas pensando em todas as ligações DDD que vieram por engano em sua conta telefônica. Chegou até a esquina e atravessou o sinal, que estava verde para ele, mas não fazia diferença se estivesse vermelho, porque às duas da manhã não havia carros na Reester Street. No caminho, encontrou alguns desgarrados da noite, um ou outro conhecido, cumprimentou-os rapidamente com a cabeça, mantendo a capa bem fechada com a mão; nenhum deles iria gostar de vê-lo com uma varinha.
Pulou a cerca da escola e entrou sorrateiramente no pátio, pisando de leve com seu tênis Avia, e foi deslizando, colado na parede, até o primeiro ângulo formado pelas paredes do edifício. Ele estava num ângulo do E, e a coisa estava três metros adiante, atrás de outro ângulo, no escuro. Sirius perguntou-se como devia se aproximar dele. Pensou em simplesmente andar depressa até onde ele estava, com a varinha em punho, mas as pessoas tendem a morrer quando agem assim. Pensou também em ir rastejando, contudo ele nem ao menos tinha certeza de que havia alguém ali, e se ele terminasse se deparando com um gato ou um casal de adolescentes dando um beijo de língua, ia passar um mês sem ter coragem de mostrar a cara.
A decisão foi tomada à sua revelia.
Não se tratava de um gato nem de um casal de adolescentes. Era um homem, e ele estava segurando uma metralhadora ao invés de uma varinha. Ele saiu de seu esconderijo no ângulo à frente de Sirius e apontou a terrível arma contra seu esterno e Sirius esqueceu como se fazia para respirar.
O homem estava de pé em meio à escuridão, trajava roupas negras sob a pele cinzenta, e isso foi praticamente tudo que Sirius podia dizer a respeito dele.
Ele começou a ponderar o fato de que naquele bairro dificilmente um trouxa usaria aquele tipo de capa estilo Quasímodo e que dificilmente um bruxo andaria armado com uma metralhadora quando algo rápido e duro atingiu sua boca, e de novo algo igualmente duro atingiu sua têmpora e jogou sua cabeça contra a parede, e Sirius lembrou-se de ter pensado antes da explosão em seu crânio acontecer: devia ter ido para casa.
Estava sobre um tapete. Pelo menos isso ele sabia. Havia um sujeito vestido de verde-claro ajoelhado ao seu lado, e aos poucos uma britadeira começou a girar e perfurar seu crânio no lado esquerdo. Ou ele fora internado, ou estava recebendo os primeiros socorros. Ele segurava um copinho com um líquido roxo brilhante na mão, e Sirius se deu conta de que estava com um gosto nojento na boca. "Você quer vomitar?" Perguntou o homem.
Sirius balançou a cabeça e vomitou no tapete.
Alguém começou a vociferar com ele numa algaravia estridente que entrou pela rachadura no crânio de Sirius e espetou seu cérebro bem fundo. Então ele a reconheceu. Gaélico. Ela se lembrou do país em que se encontrava e passou a falar em inglês com um forte sotaque irlandês. Aquilo não fazia muita diferença, mas pelo menos Sirius sabia onde se encontrava.
Na casa de Dorcas. A harpia vociferante era Delia, sua mãe. De um momento para outro ela podia começar a bater nele.
"Lupin?" Falou o homem. E Sirius ouviu Lupin mandando Delia sair da sala. "Você terminou?" Ele dava a impressão de ter outras coisas para fazer. Um verdadeiro anjo da misericórdia, pensou Sirius.
Virou o corpo e se levantou. Mais ou menos. Passou os braços em volta dos joelhos e ficou assim agarrado, a cabeça girando. Diante de seus olhos as paredes se mexiam numa dança psicodélica, e a impressão que ele tinha era de que sua boca estava cheia de moedas ensangüentadas.
"Ai," fez ele.
"Você tem o dom da palavra," disse o paramédico. "Você também tem uma leve contusão cerebral, alguns dentes moles, um lábio cortado e uma baita marca roxa se formando em volta do olho esquerdo."
Ótimo. Ele e a Ordem iriam ter do que falar no dia seguinte. "É só isso?"
"É só," respondeu ele, fechando a maleta. "Eu poderia lhe dizer para vir comigo ao hospital, mas como você trabalha lá, imagino que vai querer dar uma de machão e se recusar."
"Humm," fez Sirius. "Como vim parar aqui?"
Lupin, atrás dele, disse: "Tommy encontrou você na porta do hospital." Ele passou com a varinha de Sirius e a metralhadora e as colocou com cuidado no sofá em sua frente. "Junto com isto."
Dorcas entrou na sala e remexeu alguma coisa na gaveta do móvel que sustentava o relógio em forma de meia circunferência.
"Desculpe pelo tapete," disse Sirius.
"Delia está preparando uma cama para você," disse ela.
"Obrigado, mas acho que se posso ir andando para o quarto, posso pegar a Rede de Flu e ir dormir em casa."
Ela saiu da sala.
"Aquele assaltante ainda pode estar por aí," disse Lupin.
O paramédico pegou a maleta que estava ao lado de Sirius e falou: "Divirta-se."
"Foi muito legal para mim também."
Sirius estendeu a mão , Lupin a pegou e o ajudou a se levantar. No momento em que fez isso, Sirius teve a sensação de estar num barco que oscilava num mar revolto. "Eu não fui assaltado, Aluado."
Ele arqueou as sobrancelhas. "Algum marido enfurecido?"
"A coisa tem a ver com eles. Acho." Ele nem tinha certeza. "Foi um aviso."
Sirius foi andando apoiado nele até o sofá da sala. A sala continuava tão estável quanto os camarotes do Titanic. "Que belo aviso," Lupin comentou.
Ele balançou a cabeça, concordando. Foi uma péssima idéia. O Titanic tombou e o quarto pendeu para um lado. A mão de Lupin o empurrou de volta para o sofá.
Dorcas estava novamente parada na porta. Seus cabelos estavam totalmente revoltos, com mechas caindo na frente dos olhos e na boca; aquilo a fazia ficar ainda mais sexy, como se tivesse acabado de acordar. Ela estava com um sobretudo largo por cima do babydoll de cetim verde-escuro.
"Você está em boas mãos," Lupin deu um tapinha de leve no braço de Sirius.
"Lupin..." Sirius estranhou o som da própria voz ecoando em seus tímpanos. "Precisamos falar com o resto da Ordem, eles..."
"Certo, certo," disse Lupin, quando Dorcas soltou um suspiro.
Ele foi embora, e ela sentou-se ao seu lado. "Isto aqui não está nada bonito," disse, pondo a mão no queixo dele e o levantando. "Nossa, Sirius... com quem você cruzou? Algum marido enfurecido?"
Aquele não era o dia de Sirius. "Acho que foi um parente do Mike Tyson."
Ela olhou para ele. "Ora, você não tem mão?"
Sirius afastou a mão dela. "Ele estava com uma metralhadora, Dorcas. Com certeza foi com ela que me bateu."
"Desculpe-me," ela disse. "Estou um pouco preocupada, não queria aborrecer você," ela olhou para os lábios dele. "Isso não foi feito com uma metralhadora. O golpe na têmpora, talvez, mas o dos lábios não. Para mim parece mais o golpe de um soco inglês, pela forma como cortou a pele."
Dorcas, a especialista em escoriações.
Ela chegou bem perto. "Você conhece o sujeito?"
"Não," Sirius respondeu num sussurro, evitando gemer de dor quando ela colocou um dedo em cima do corte em seu lábio e tocou o sangue.
"Nunca o viu antes?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Dorcas, se eu quisesse responder a um interrogatório teria chamado o Ministério."
Quando estavam subindo a escada para o quarto, Dorcas lhe disse: "Você sabe porque isso aconteceu com você, não sabe?"
"Não, por quê?"
"Porque você não vai mais à igreja."
"Ah," fez Sirius.
Foram para o quarto, e uma vez lá dentro, Dorcas lhe entregou um saco de gelo e começaram a pensar em quais os motivos que uma metralhadora tinha para estar nas mãos de um bruxo.
"Você sabe como é fácil conseguir um brinquedo desses hoje em dia," disse Sirius, deitando e colocando o gelo no hemisfério que parecia estar aberto de seu crânio.
"Muito," concordou Dorcas. "Fique sentado."
Ele se sentou na cama.
"Eles querem ser os diferentes, só isso," continuou ela, jogando o sobretudo na poltrona e atravessando o banheiro."
"Dorcas, venha aqui," disse Sirius.
Ela parou no meio do quarto e girou nos calcanhares. "Hum?"
"Venha aqui," repetiu ele, e só voltou a falar quando ela estava suficientemente perto. Falou bem devagar e baixo, para não dar mais motivos para sua dor de cabeça aumentar. "O que faria você se borrar mais rápido: uma varinha apontada para você ou uma metralhadora Uzi?"
"Ah, certo"
"O que você acha que causaria mais estrago, uns cutucões com a varinha ou umas porradas com o cabo da metralhadora?"
"Mas não faz sentido."
"Olhe pra mim, Dorcas," disse Sirius, tirando por um momento o saquinho de gelo da cabeça.
Ele esperava que ela fosse se penalizar e chegar a conclusão de que realmente, para aqueles caras que trabalhavam para Tom Riddle, o que importava não era o modo como machucavam as pessoas, mas a intensidade da dor que iriam fazê-las sentir. Ele esperava que ela fizesse uma careta e chamasse um palavrão diante daquela constatação. Mas ele não esperava que ela fosse rir.
"O que há de engraçado nessa merda?"
"Ei, ei," disse ela, levantando as mãos. "Sem defensiva, OK?"
Ele não queria mais falar naquele assunto, nem continuar trabalhando no escuro. Precisava descobrir o nome de todos os Comensais, agora mais do que depressa, porque ainda não tinha se olhado no espelho, mas quando o fizesse sentiria uma necessidade quase obsessiva de saber o nome do cretino que fizera aquilo com ele. Tinha uma maneira de descobrir, embora ele soubesse de antemão que não era uma garantia, só uma possibilidade. Belatriz.
Sua cabeça latejou com tanta força que ele trancou os dentes e deixou o gemido de dor preso no meio da garganta. Ele sentiu a cama ondular a seu lado quando Dorcas engatinhou sobre ela e apanhou da mão dele o saco de gelo.
"Deixe-me fazer isso."
"Por quê?" Perguntou Sirius, imaginando que aquela não era sua maneira mais cortês de falar com as pessoas.
"Porque você não sabe, mas ter um cara como você machucado e gemendo na minha cama sempre foi uma das minhas fantasias sexuais."
Ele abriu um olho. "Puta."
"Sem-vergonha," ela mostrou a língua para ele.
"Venha para casa comigo."
Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo, e centralizou melhor o gelo no ferimento dele.
"Vamos. Vamos beber um pouco, conversar..."
"Tem uma cama em algum lugar nessa história. Eu sei."
"Só como um lugar para dormir. A gente pode se deitar e... conversar."
Ela sorriu. "Hum hum. E o que vamos fazer com todas aquelas coisinhas lindas que costumam ficar plantadas na sua porta e ocupar seu boxe no banheiro?"
"Quem?" Perguntou ele inocentemente.
"Quem? Donna, Beth, Ivy, a garota da bunda, Lauren..."
"Que garota da bunda?"
"Você sabe quem é. A italiana. Aquela que faz," sua voz subiu umas duas oitavas, "'ooooooh, Sirius, a gente pode tomar um banho de espuma agora? Hiiii'. É essa."
"Linda."
Ela fez que sim com a cabeça. "Liiinda. É essa mesmo."
"Eu trocaria todas elas por uma noite com..."
"Sei disso, Sirius. Você sempre troca todas elas por uma noite com alguma outra."
"Bem, mamãe..."
Ela sorriu. "Sirius, o principal motivo que o faz pensar que está apaixonado por mim é que nunca me viu nua."
"Não penso que estou apaixonado por você."
Ela se curvou e beijou de leve o local onde a pouco o saco de gelo estava encostado. "É, não está não. Eu me enganei."
"Boa noite," Sirius teria lhe atirado um travesseiro, mas temeu que sua cabeça rachasse de vez com o esforço.
Dorcas acenou com dois dedos antes de sair pela porta e desligar as luzes do corredor.
Sirius fechou a porta atrás de si, levantou a cabeça acima da pia e se olhou no espelho.
Se ele não fosse ele, não teria reconhecido o próprio rosto. Seus lábios tinham quase dobrado de volume, e a impressão que se tinha era que ele havia trocado um beijo com uma colheitadeira. Em volta do olho esquerdo havia uma larga faixa marrom-escura e a córnea estava estriada de filetes de sangue vermelho vivo. A pele da têmpora rachou quando o cabo da Uzi a acertou, e enquanto ele estava inconsciente o sangue coagulara em seus cabelos. O lado esquerdo da cabeça, com o qual tinha batido no muro da escola, estava esfolado e dava para sentir, colocando-se a ponta dos dedos entre a raíz dos cabelos, a pele cortada e dolorida. Se ele não estivesse prestando serviços para uma associação como a Ordem da Fênix e não fosse muito viril, talvez tivesse chorado.
A vaidade é uma fraqueza. Ele sabia disso muito bem. É uma frívola dependência em relação à própria imagem, à forma como parecemos, e não àquilo que somos. Ele sabia disso muito bem. Mas ele já tinha no abdômen uma cicatriz do tamanho do Chile, e você ficaria surpreso ao ver como a sua percepção de si mesmo muda quando já não pode tirar a camisa na praia. Em seus momentos mais íntimos, ele tirava a camisa e olhava para ela, dizendo a si mesmo que não tinha importância, mas toda vez que uma mulher a sentia na palma da mão, tarde da noite, apoiava-se no travesseiro e perguntava sobre ela, ele dava suas explicações o mais rápido possível, fechava as portas de seu passado tão logo elas eram abertas. A vaidade e a desonestidade podem ser vícios, mas foram os primeiros meios de proteção que ele conheceu na vida.
Seu pai sempre lhe dava um tapinha de desprezo em sua nuca quando o pegava se olhando no espelho. Já Régulo dizia "Os homens fizeram esse troço para que as mulheres tivessem alguma coisa para fazer." Régulo. Filósofo. Por onde ele andaria?
Aos dezesseis anos Sirius tinha os olhos escuros, mas não chegavam a ser negros. Era o tipo de olhos que você olhava e via que tinha alguma coisa brilhando lá no fundo, um risco azul de inocência misturado ao cinzento da insolência, absorvida de casa, mas nada que interferisse na sua autoconfiança. E se ele ainda tivesse dezesseis anos, olhando o espelho, querendo tomar coragem, dizendo a sim mesmo que esta noite ele faria enfim alguma coisa em relação à sua família, com certeza estaria perdido.
Mas agora, diabos, ele tinha mais uma morte para resolver, nomes para descobrir, uma arma que ele nem sabia manusear para examinar e uma Belatriz para localizar. Nada daquilo ia se resolver por si só ou de um dia para o outro, mas Sirius particularmente achou que tinha uma baita sorte ao entrar em casa e encontrar Belatriz o esperando na cozinha, parecendo que tinha acabado de sair do banho, usando um short de flanela vermelho que ondulava em volta das coxas e uma camisa pólo preta. A camisa era de Sirius, mas macacos o mordessem se não ficava muito melhor nela. O cabelo dela estava molhado, e quando ela enfiou a cabeça dentro da geladeira, fingindo não tê-lo visto chegar, Sirius não soube dizer de onde vinha o cheiro de maçã que invadiu suavemente suas narinas; se dela ou da geladeira.
Era incrível como tudo podia perder a importância de repente.
Ela fechou a porta da geladeira e foi até ele. "Você não para de se meter em problemas, rapaz?" Disse.
Belatriz encostou um copo de água gelada no peito dele, o que era a única coisa que ligava seus corpos enquanto ela examinava de perto o rosto dele.
Sirius a beijou e ela correspondeu. Por um momento, tudo adquiriu uma extraordinária intensidade – a buzina de um carro passando a dez metros lá fora, o cheiro do ar fresco do inverno misturando-se à luz matinal do outono, o odor salgado da transpiração do cabelo deles, a dor aguda e ao mesmo tempo leve que Sirius sentia em seus lábios inchados, o gosto dos lábios dela e do sangue e de sua língua ainda um pouco fria da água gelada que ela tinha bebido minutos antes.
"Isso deve ter doído," disse ela quando se afastou.
"Não muito, você teve cuidado."
Ela se sentou e ficou olhando para o copo de água em sua frente enquanto Sirius não conseguia conter sua mania involuntária de começar a calcular em sua mente quanto tempo ela ficara sem dar as caras.
"Que é que há, minha linda?"
"Hã?" Ela fez.
"Eu disse: 'Que é que há, minha linda?'."
Ela afastou o copo. "Ei," disse.
"O quê?"
"Não faça mais isso, está bem?"
"Sumir e ficar meses inteiros sem aparecer?"
Ela voltou a cabeça e seus olhos encontraram o dele. "Essa história de minha linda. Pelo menos não agora."
"Mas que é isso..."
Ela deu uma volta completa na mesa para o olhar bem na frente. "E também não diga essa merda de novo. Essa história de 'ficar meses inteiros sem aparecer', como se você fosse muito inocente. Você não é inocente," ela olhou para a janela atrás de Sirius por um instante, depois voltou a olhar para ele. "Às vezes você é capaz de agir como um bom filho da puta, Sirius. Sabia disso?"
"De onde você tirou isso?"
"De lugar nenhum. É isso e pronto," disse ela. "Está bem? Não é... eu venho da porra da minha casa, e a única coisa que quero... Merda. E eu, eu tenho que agüentar você me chamando de 'minha linda' e olhando para mim da forma como me olha e eu... simplesmente... quero acabar com isso," ela esfregou o rosto vigorosamente e passou as mãos nos cabelos, gemendo.
"Bela..." Sirius principiou.
"Não me chame de Bela, Sirius," ela deu um chute na cadeira que estivera sentada ainda pouco. "Sabe de uma coisa? Entre homens como Tom Riddle, Rodolfo e você, eu simplesmente não sei."
Sirius sentiu como se tivesse um poodle entalado na garganta, mas conseguiu falar: "Não sabe o quê?"
"Nada!" Ela enfiou o rosto nas mãos, depois levantou a vista novamente. "Já não sei mais." Ela se dirigiu à porta. "E já estou cheia dessas perguntas ridículas." E saiu.
O som de seus passos nos degraus ecoava como projéteis, uma crepitação que subia e entrava pela porta da cozinha. Ele sentiu uma forte e dolorosa pressão atrás de seus olhos, como a de um mecanismo de aço que sustenta as comportas de uma bagagem. O barulho dos passos dela cessou. Ele olhou pela janela, mas ela não estava lá fora.
Sirius desceu as escadas de três em três degraus; o espaço estreito e íngreme abria-se diante dele como um abismo. Ela estava a alguns passos além da esquina, sentada num hidrante, terminando de mastigar a maçã que levara da casa de Sirius e a arremessando no container de lixo quando ele emergiu.
"E então?" Disse ela.
"Então o quê?"
"Estou vendo que esta conversa vai ser um sucesso."
"Por favor, Belatriz," disse Sirius. "Ponha-se no meu lugar. Essa coisa toda de certa forma me pega de surpresa," ele recuperou o fôlego enquanto ela o olhava com olhos de lince, o tipo de olhar que dizia que um desafio fora lançado e que ele deveria descobrir do que se tratava, e rápido. "Eu sei o que está errado com Tom Riddle, com Rodolfo e comigo. Você tem um monte de homens babacas em..."
"Meninos," ela disse. "Você e Rodolfo."
"OK," ele disse. "Um monte de meninos babacas em sua vida agora, mas, Belatriz, o que há de errado?"
Ela deu de ombros.
Sirius esperou.
"Tudo está errado, Sirius. Tudo. Quando penso em você quase morrendo todos os dias, acabo refletindo sobre um monte de coisas. E fico me perguntando que vida é esta minha? Eu venho ver você, você se diverte, eu vou para casa, levo umas broncas uma ou duas vezes por mês, faço amor com aquele filho da puta às vezes na mesma noite e... é só isso? É isso que eu sou?"
"Ninguém diz que tem que ser assim."
"Oh, está certo, Sirius. Vou me tornar uma jogadora de quadribol."
"Eu posso..."
"Não," ela caminhou de volta para a casa dele. "Para você, isto é uma brincadeira. É 'queria saber como ela continua sendo na cama'. E então, quando você fica sabendo, passa para seguinte." Ela balançou a cabeça. "Isto é a minha vida. Não é brincadeira."
Sirius fez que sim com a cabeça, embora ela não estivesse vendo.
Quando chegou à escada novamente, ela se virou, deu um sorriso triste e Sirius viu seus olhos ficarem úmidos na luz alaranjada daquela manhã de fim de estação.
"Você lembra como era?" Ela perguntou.
Ele fez que sim com a cabeça. Ela falava de antes. Antes, quando não havia limites e o ódio se dissolvia no suor produzido pelo amor deles. Antes, quando viver se tratava de uma coisa fácil, romântica, um tanto entediante e miserável, e não uma simples realidade.
"Quem diria, hein?" Disse ela. "Engraçado, não?"
"Não," Sirius respondeu.
Não sonhara novamente com Jamie Parkers porque não dormira na noite passada, apenas ficou escutando o ronco do motor da geladeira de Dorcas lá em baixo, até se dar conta de que o ruído vinha na verdade de seu crânio que batera contra a parede, como um caracol que guarda o barulho do mar.
Mas agora que estava deitado em sua cama, sentindo o leve torpor do prazer e o contato frio dos lençóis em suas costas, com o corpo nu e quente de Belatriz a menos de um palmo de distância, o cansaço começava a chegar como a água percorrendo uma mangueira que acabou de ser ligada. Era um cansaço diferente de todos os outros que ele já sentira. Não se parecia com a exaustão das noites de domingo, quando ele chegava de madrugada em casa com os berros dos acidentados ainda ressonando em seus ouvidos e que só iam embora quando ele se enfiava debaixo do chuveiro, sendo substituídos pelas marteladas da água em sua cabeça. Não era um cansaço que aflorara pelo sexo, porque Belatriz agira com ele como se ele fosse um objeto frágil de porcelana que já estava rachado e era melhor tocar de leve e muito devagar para não se quebrar completamente. Vinha de dentro. E era contaminado pela tristeza e por anos de solidão.
Ele olhou para Belatriz. Ele gostaria de dormir como ela, mas precisavam conversar antes que ela se escondesse dentro de sua névoa prateada e sumisse outra vez, deixando-o com a sensação de que dessa vez era para sempre. Ela estava deitada de barriga para baixo, abraçada ao mesmo travesseiro que apoiava a cabeça, seus cabelos estavam puxados para cima da cabeça, deixando livre a nuca aveludada, e uma de suas pernas estava dobrada, despontando para fora do lençol, e Sirius não viu mais nela nenhum vestígio da garota de quinze anos que parecia pesar pouco mais de quarenta quilos, isso quando estava molhada.
Sirius ergueu-se sobre os cotovelos devagar e encostou de leve os lábios nos pêlos da nuca dela. Ela se moveu e murmurou alguma coisa que ficou abafada no travesseiro, então ele chegou um pouco mais perto.
"O quê?"
"Faça de novo."
"O que eu ganho em troca?"
Ela colocou o travesseiro entre o pescoço e o queixo. Suas costas ondularam brevemente quando suspirou. E de repente Sirius não ligava mais para as negociações. Ele expirou com o nariz próximo à nuca dela. Belatriz estremeceu, riu e Sirius se pegou observando o fenômeno de um caminho de pêlos branco-prateados irem se erguendo ao longo de sua coluna.
"Fique aqui para sempre," disse ele.
"Na sua cama?" Perguntou ela.
Ele deu de ombros. "Pode ser."
"Eu não posso."
"Mande-os para o inferno."
Ela se virou parcialmente de frente. "Eles são o inferno."
"E quanto a Tom Riddle?"
Belatriz piscou, inclinando um pouco a cabeça. "O que tem ele?"
"Qual a relação de vocês?"
"Difícil de explicar."
"Ele dá serviços a vocês?"
"Não," ela disse, e Sirius teve a leve impressão de ouvir um tom ácido escondido em algum lugar daquele não. "Ele não dá serviços, ele nos consente que o façamos."
"Hummm," fez Sirius. "Vocês pedem para estriparem as pessoas e ele deixa, é isso?"
Ela ficou o olhando.
"Quero saber como funciona a coisa toda. Só isso."
"Não, você quer obter respostas para as suas perguntas de um modo fácil," disse ela.
"O que há de errado nisso?"
"Não posso responder a nenhuma delas," Belatriz afastou o lençol com tanta brutalidade que produziu um som cortante. Sirius a observou entrar no banheiro.
Ele vestiu um short o mais rápido que o sangue em sua cabeça permitiu e foi atrás dela. "Quantos são?"
Belatriz passou a mão pelos cabelos enquanto abria o chuveiro. "Vá se danar, Sirius."
"Sabe o que é mais excitante nisso tudo? Quando você mente na cama."
"Você acha excitante?"
"Muito."
"E então, qual o seu palpite?"
"Acho que você é um cavalo-de-tróia."
Belatriz balançou a cabeça, parecendo ponderar a afirmação, e Sirius a viu desaparecendo dentro do vapor quente que tomava conta do banheiro.
"E o que mais a sua cabeça de merda acha?"
"Belatriz, não vai adiantar nada você não me responder, porque nós vamos descobrir, cedo ou tarde."
"Então qual é o problema? Vão em frente."
Sirius chamou um palavrão. O vapor em seus olhos parecia fumaça poluída, e ele sentiu a cabeça começar a arder tanto que parecia que haviam injetado álcool láurico dentro dela e chacoalhado com anzóis. Ele tentou respirar devagar, tentou empurrar para longe, como se empurra um cachorro inoportuno que tenta morder seu tornozelo, o fato de que estava indo, e pretendia ir muitas outras vezes, para a cama com uma Comensal da Morte e, embora achasse que não corria o risco de acordar sem um olho, aquela constatação já era o bastante para fazer suas glândulas supra-renais produzirem uns bons miligramas de adrenalina.
Ele já tinha vivido tempo demais com ela, já tinha tido momentos íntimos demais com Belatriz para ter certeza de que ela em si não lhe representava perigo – mas e os outros? E, do seu lado, ele a colocava em risco também. As pessoas que trabalhavam na Ordem eram conhecidas por terem a impetuosa capacidade de odiar quando eram traídas. Eles podiam hesitar um pouco na hora de lhe darem o troco, mas não teriam nenhuma dúvida antes de matá-la.
"Ei."
Sirius olhou para trás, viu Belatriz recém-saída do banho e enrolada numa toalha parada em pé ao lado da cama.
"Descanse um pouco, está bem? Esqueça tudo isso. Não sei em que pé as coisas ficam para você, mas Tom Riddle sabe sobre nós dois. Ele sempre soube."
E Sirius tinha se esquecido que Belatriz podia ler mentes e escutá-las muito bem, ainda que o barulho da água em seu crânio e as vozes dos vizinhos lá em baixo atrapalhassem um pouco.
"Ele vai tomar uma providência," isso não pretendia ser uma pergunta. Sirius estava afirmando.
"São dezessete," murmurou ela no ouvido dele, enquanto procurava suas roupas entre os lençóis e, tendo-as achado, voltou para o banheiro, que de tanto vapor parecia que as paredes haviam tomado uma forma gasosa.
