— Eu não disse que estava. Disse apenas que devia entrar. E quero saber por que mandou o pacote.
— Você vivia pedindo sua camiseta de volta.
— E nunca consegui recuperá-la. Nós dois sabemos que eu só insistia para provocá-la. Por que decidiu devolvê-la agora?
— Porque achei que devia.
— Por quê?
— Por causa de Bridgit. Eu...
— Bridgit não faz parte da minha vida há meses. O que deve ter visto...
Lily não queria saber.
— James, a Sra. Vance está esperando. — E ajudou-o a colocar o vestido. — Parece perfeito.
— Ainda não terminamos nossa conversa — ele avisou, embora a seguisse para fora do provador.
— Oh, que encantador! — A Sra. Vance sorriu, levantando-se da cadeira. — Mas... Veja, Lily, a barra parece um pouco torta.
— Tem razão. Posso arrumá-la num instante. Sempre achei que um modelo de carne e osso é melhor do que os manequins. — Munida de uma almofada de alfinetes que foi buscar atrás do balcão, ela sorriu. — James, será que pode subir no banco? Preciso acertar uma parte da barra.
Ele atendeu ao pedido.
— O que quis dizer quando mencionou Bridgit?
— O quê? — Por que ele não a deixava em paz?
— Quem é Bridgit? — quis saber a Sra. Vance.
— A mulher que ele ama. — Suspirando, Lily desfez a costura da barra. — Eu o tirei da cidade pensando em ajudá-lo a superar o fim do relacionamento. James passou meses deprimido, buscando consolo no trabalho, e enquanto estávamos lá nós... James e eu... Bem, não tem importância. Ela voltou, e logo James vai superar a culpa por termos... por mim.
— Ele não me parece culpado, querida.
— Mas está. Ele quer Bridgit, mas não quer me magoar. No entanto, logo descobrirá o que é importante de verdade, e então voltaremos a ser amigos. — Não podia chorar. Não ia chorar. Passara dias chorando, e não conseguira melhorar. Era hora de parar.
— E o que é importante de verdade? — A Sra. Vance parecia muito interessada.
— Sim, o quê? — James também estava atento.
Lily respirou fundo e começou a marcar o local para a nova costura. Era hora de revelar toda a verdade.
— Bridgit e James. Eles são importantes. Planejei afastá-lo daqui para ajudá-lo a esquecê-la, mas compreendi que estava sendo egoísta.
— Como? — os dois perguntaram ao mesmo tempo.
Se confessasse o que havia feito, talvez James não se sentisse tão culpado. Talvez reatasse com Bridgit e fosse viver feliz longe dela.
— Eu o levei para aquela ilha porque o queria. Sempre o quis para mim. É claro que nossa amizade sempre esteve acima de tudo, mas desejei James desde o ginásio, e com uma força que chegava a ser assustadora. Pensei ter superado a atração. Namorei muitos homens depois da adolescência, alguns mais atraentes que James...
— Puxa, é difícil de acreditar! — a Sra. Vance exclamou.
— Acha mesmo? Edward era modelo. Devia tê-lo conhecido.
— Por que terminou com ele?
— Porque, apesar da beleza impressionante, ele não tinha senso de humor. Imagine só! Ele ficou furioso só porque tomei seu carro emprestado e arranhei a porta num acidente sem importância. Edward nem quis ouvir meus argumentos. James sempre me ouviu. Quero dizer, até agora. Ele teria entendido que o galho de árvore havia riscado a porta quando a abrira. E quem poderia ter plantado uma árvore na beirada da calçada? Tive outros namorados, todos interessantes, mas nenhum como James. Ted, o último rapaz com quem estive envolvida, era maravilhoso. Perfeito a ponto de ser enjoativo. Mas ele pediu fetuccine e não beijava como James.
— E o que tudo isso tem a ver com Bridgit e minha camiseta?
Lily levantou a cabeça assustada. Havia quase esquecido que ele estava ali, usando o vestido de Emmeline.
Bem, era hora de confessar todos os pecados.
— James, fiquei com sua camiseta todos esses anos, dormi com ela quase todas as noites, porque... Porque... Não importa. Vi você e Bridgit juntos e sei que esteve miserável sem ela. Sente-se culpado por mim, mas não devia. Volte para ela. Sei que está zangado por Bridgit tê-lo deixado, e acha que tem o dever de encontrar-se comigo porque nós... Bem, você sabe... Sendo assim, é melhor nos afastarmos por um tempo.
Amor. James tinha quase certeza de que era esse o ponto. Lily o amava. Agora sabia disso, e o alívio era tão grande que temia cair.
— Lily, Bridgit e eu...
— Por favor, James, vá embora. — E saiu da sala correndo.
— É melhor ir atrás dela. Aquela jovem tola não sabe que a ama. Ela pensa que você ama Bridgit. Lily está confusa, mas logo compreenderá toda a verdade. — James pulou do banco e correu atrás dela, obrigado a reduzir o tamanho dos passos por conta do vestido. Encontrou-a no escritório, olhando pela janela para o estacionamento.
— Vá embora — ela repetiu sem encará-lo.
— Só depois de terminarmos nossa conversa.
— Não temos mais nada para conversar. Bridgit voltou. Nossa amizade é um obstáculo para o relacionamento. E agora que...
— Agora que fizemos amor?
— Sim, agora que fizemos amor, posso ver a situação com clareza assustadora. Decidi levá-lo para aquela ilha porque queria ajudá-lo a superar a dor de um romance desfeito, mas o fato é que nunca perdi a esperança de tê-lo para mim. Usei sua vulnerabilidade para seduzi-lo.
— Lily, não foi bem assim. Nos últimos dias, desde que depilei suas pernas, comecei a perceber alguns... sentimentos novos. Ou velhos, mas até então desconhecidos para mim. — Era ridículo, mas estava prestes a confessar seu amor por Lily usando um vestido de seda azul. — Sempre me considerei esperto, mas precisei de todos esses anos para perceber... — Ele hesitou. O momento era grandioso, e as palavras tão novas que teve de saboreá-las por um instante antes de dizê-las. — Levei todo esse tempo para enxergar o que sempre esteve diante do meu nariz.
— Percebeu que sou um fardo que não quer mais carregar. É isso?
Ele a abraçou.
— Não. Percebi que você é meu grande amor. Quando penso em todo o tempo que perdemos...
Ela balançou a cabeça e soluçou.
— Oh, não! Não faça isso, James. Está com pena de mim, mas seu amor pertence a Bridgit.
— Lily, Bridgit esteve na ilha. Você estava dormindo quando ela telefonou para o nosso quarto. Queria que eu soubesse que havia ficado noiva e...
— Noiva?
— Sim, noiva. Depois do acidente, Bridgit e eu tivemos de passar um bom tempo juntos, e foi então que percebemos que a relação havia terminado. Éramos amigos, mas não havia amor entre nós. Talvez nunca tenha havido. Nós nos acostumamos à idéia de estarmos juntos.
— Quer dizer que não ama Bridgit?
— Não. Devia ter conversado com você sobre o assunto, porque assim teríamos evitado toda a confusão que criamos, mas como admitir, mesmo que para a melhor amiga, que joguei fora os melhores anos de minha vida? Durante os últimos meses, desde que mergulhei no trabalho como se não restasse mais nada a fazer, andei analisando minha vida, tentando descobrir o que faltava nela. Não conseguia entender aquela sensação de vazio, porque tinha você a meu lado, mas o fato era que sentia falta de algo mais.
— James, não diga nada de que possa arrepender-se depois. Está abalado, nervoso...
— E você não ajudou em nada. Se houvesse me beijado no ginásio, em vez de passar um ano treinando com outros rapazes, eu já teria enxergado a verdade.
— Vai dizer que a culpa é minha? Já esqueceu que foi para a universidade e começou a namorar toda a população feminina do país?
— Você era a menina da casa vizinha. Minha irmãzinha. Éramos amigos. Nossa amizade é um tesouro que quero preservar para sempre, mas também quero que tenha a coragem de reconhecer a verdade. Acha que isto retrata piedade? — E beijou-a.
Lily tinha a sensação de estar voltando para casa.
— Uau! — Qualquer comentário mais complexo estava além de sua capacidade naquele momento. Sentira falta dos braços de James, de seu senso de humor, do companheirismo... Sentira falta dele.
— Quero você, Lily. Quero...
Batidas na porta interromperam a conversa.
— A Sra. Vance! — ambos exclamaram ao mesmo tempo.
— Tudo bem? — a cliente perguntou preocupada.
James e Lily trocaram um olhar de cumplicidade e um sorriso radiante.
— Sim, finalmente estamos bem, Sra. Vance — ela respondeu.
— Já estamos saindo — James acrescentou.
— Preciso voltar ao trabalho. Terminaremos nossa conversa assim que a Sra. Vance for embora.
— Só quero ter certeza de que sabe o que vamos terminar aqui. — Tentou abraçá-la, mas ela o empurrou com firmeza.
— Espero não ter manchado o vestido com minhas lágrimas ou restos de maquiagem — disse, verificando a confecção em busca de possíveis danos. Aliviada por não encontrar nenhuma mancha, ajoelhou-se no chão. — Fique quieto. Preciso terminar esta barra.
— Trate de apressar-se, porque vai tirar o resto do dia de folga.
— Não posso, James. Agora sou responsável pela Encore e...
— Lily, sabe o que Eloise diria se estivesse aqui. Ela mesma trancaria a porta.
— Talvez, mas eu não sou Eloise.
Sabia que o trabalho era um aspecto importante da vida de Lily, e não devia pressioná-la. Afinal, também valorizava a carreira que escolhera.
— Alguém já lhe disse que é uma mulher muito teimosa?
— Talvez tenham mencionado... — Ela se levantou para analisar o trabalho pronto. — Acho que terminei.
— Quer dizer que posso tirar o vestido?
— Pode, embora seja uma pena. Você ficou muito sexy nesse vestido, James. Turquesa é sua cor.
— Lily, pense no que isso faria com minha carreira. Posso até ver as manchetes. Pernas de advogado são mais interessantes que seus argumentos.
Lily ainda estava rindo quando abriu a porta.
— E então, Sra. Vance, o que acha?
— Acho que este vestido testemunhou um pouco de ação, e espero que minha Emmeline também se divirta nele. Se puder concluir a venda, srta. Evans... Imagino que tenham assuntos importantes a discutir.
Lily empurrou James para o provador.
— Obrigada, Sra. Vance, mas James já sabe que não costumo tratar de questões pessoais durante o expediente. Sei que o arrastei para dezenas de aventuras ao longo dos anos, mas nunca o tirei do tribunal no meio de um julgamento.
— Ela tem razão, Sra. Vance — James confirmou de dentro do provador. — Terminaremos nossa conversa à noite, talvez no clube, durante o jantar. Aposto que Lily não tem se alimentado bem.
— Por que diz isso?
— Se tem feito a própria comida...
— Ela cozinha tão mal assim? — Quis saber a Sra. Vance.
— Pior! — James confirmou ao sair do provador.
Ele entregou o vestido a Lily, que sorriu ansiosa.
— Bem, até mais tarde — disse.
Precisava entender tudo que acabara de ouvir, e para isso tinha de se afastar dele.
— Até mais tarde. — James sorriu e saiu sem olhar para trás.
— É um homem e tanto! — A Sra. Vance não escondia sua admiração.
— É verdade. Lamento que tenha testemunhado nosso... — Como poderia chamar o que acontecera ali, diante de uma cliente?
— Não se desculpe, querida. Ver um homem ir tão longe para declarar seu amor foi uma das cenas mais românticas que já tive oportunidade de testemunhar.
— Talvez tenha sido romântico, mas não é assim que costumo administrar meus negócios.
— Se oferecesse uma performance como essa todos os dias, a loja estaria sempre cheia. Ah, se minha Emmeline encontrasse um homem como James! — Ela suspirou. — Tenho tentado ajudá-la, mas ela se recusa a cooperar. Quero vê-la casada, e como seu James já tem dona, creio que terei de prosseguir com o plano original. Quero dizer... James já tem dona, não?
— Talvez — Lily sorriu com o coração leve. — Normalmente tentamos atender a todos os pedidos de nossos clientes, mas James não faz parte do estoque da Encore.
