Cap.. 9 – Can you move on ?"

Singelos raios de sol atingiram os olhos de Cuddy, fazendo com que ela acordasse. Seu olhar pousou sobre o rádio-relógio sobre o criado mudo. Seis da manhã. Ela estava deitada de bruços, então inclinou o corpo para poder levantar, apoiando os cotovelos no colchão. House dormia tranquilamente ao seu lado. Minutos se passaram enquanto ela olhava atenciosamente a barba por fazer, seus lábios finos e rudes, seus cabelos desalinhados. O peito dele arfava, e ela perdeu-se na própria linha de pensamento.


Flashback on

Ele a encostara na fria parede do banheiro, enquanto a água quente caía sobre eles. Os braços dela cruzaram-se por trás do pescoço dele, enquanto ele gentilmente eliminava a distância entre os lábios. Suas línguas não brigavam mais, tudo não passava de uma carícia gentil e apaixonada.

Flashback off


Ela levantou-se, e passou a vasculhar o quarto em busca das suas roupas. Merda, sua calcinha havia se tornado apenas um retalho. Ela foi até a sala, e encontrou todas as peças que procurava espalhadas pelo chão. Vestiu a saia, e o sutiã e imaginou o que iria fazer, já que sua camisete fora destruída; não restava sequer um botão para contar a história. Ela vestiu a camisete, mesmo assim. Colocando sua jaqueta por cima e fechando-a.

Um problema fora resolvido. Ela vestiu os sapatos e voltou ao quarto. Apoiada no batente da porta, ela o fitou mais uma vez. Ele dormia calmamente, o semblante mostrava uma serenidade quase inacreditável.

Cuddy pegou a bolsa, à procura do celular.

Seis chamadas perdidas.

Algo estava errado. Ela pressionou o botão, abrindo a lista de chamadas. Noah [3], Hospital [3]. Cuddy sentiu um arrepio correr sua nuca. Um arrepio ruim, um gelo insuportável. Seu estomago contorceu-se. Noah. Noah estava ligando para ela enquanto ela estava nos braços de outro. Ela se dirigiu à porta ainda mais rápido. Precisava ir pra casa. Precisava explicar a ele porque ela estava chegando àquela hora, porque ela estava cheia de marcas e hematomas. Teria que confessar a ele sua enorme traição e enfim, despedir-se. Ela não esperaria dele nada menos do que isso.
Provavelmente, ele sequer a olharia nos olhos. Ele a odiaria.

Cuddy jogou-se dentro do carro.


Flashback on

Ela virou-se de costas para ele. House pegou a esponja, imersa em sabonete liquido e passou a massageá-la. Pelos ombros, delicadamente, e então trilhando caminhos pelas escápulas, descendo a raiz de sua espinha dorsal. Naquele momento, eles não tinham a menor pressa em saciar a fome que tinha um do outro. Um intervalo entre a paixão e a fúria, onde o afeto misturava-se ao amor e a sensibilidade. Cuddy deu meia volta e passou a ensaboar o tórax dele, levando a mão aos cabelos dele e fazendo uma leve massagem. Ele riu e a abraçou. Ela abraçou de volta e alguns segundos se passaram. Deliciosos segundos. Ele a afastou para tomar seus lábios novamente. O beijo já não era rude nem sequer violento, era saborosamente macio, uma carícia típica de eternos amantes. Ele a puxou pela cintura, mantendo-a colada a ele durante todo o ósculo.

"Eu estou enlouquecendo por você." – sussurrou ele, e a sentiu estremecer em seus braços. "Queria que essa noite durasse para sempre, Lisa."

"Não sei o que te disseram, mas meu amor não termina à meia noite." – brincou ela.
Ambos riram, enquanto a água quente do chuveiro caía sobre eles.

Flashback off


Cuddy acelerou o carro pela Avenida East End. Ao chegar a casa, ela acionou a secretária eletrônica, enquanto vestia-se para trabalhar.

"Querida, estou voltando hoje à noite. Tenho uma enorme surpresa pra você. Você vai adorar. Me liga assim que puder. Te amo."

Noah.

"Dra. Cuddy, sua paciente Stacy já teve alta. Ela disse que vai esperar a sua visita antes de sair do quarto. Aguardamos orientação. Obrigada."

Stacy já havia recebido alta? E o que ela tanto precisava falar? Com que cara ela iria encontrá-la, sabendo que esteve com House na noite passada?

"Onde você está, Lisa ? Mark já esta aqui e eu queria conversar algo com você antes de eu vou voltar a Baltimore. Vou ficar esperando, beijos."

Cuddy voltou ao primeiro recado. Noah.

'Tenho uma enorme surpresa pra você. Você vai adorar. Me liga assim que puder. Te amo.'

Lágrimas alagaram seus olhos azuis. Ela também tinha uma surpresa para ele, e ele não ia adorar.


House entrou no hospital com um sorriso aberto. Era quase inacreditável vê-lo de bom humor, ainda mais depois de tudo que havia acontecido. Ele nem sequer se dirigiu à sua sala, direcionou-se até a sala da diretoria. Ele empurrou as portas, que fizeram um rangido agudo ao rasparem nos pisos cerâmicos.

Ela não estava lá.

Uma enfermeira passou por ele e deixou uma pasta volumosa sobre a mesa dela.

"Hey, você. Onde está a Cuddy?"

"No leito daquela advogada... como é mesmo o nome dela?"

"Stacy."

"Isso mesmo. Como a advogada já recebeu alta, ela está fazendo as últimas recomendações."

"Entendo. Você poderia me avisar quando ela voltar?"

"Sim. Eu aviso."

"Você conseguiu falar com o Greg?"

Stacy parecia muito mais revigorada. Um sorriso lindo lhe caía sobre os lábios e Mark a acompanhava de um lado para o outro. Cuddy sentia que suas maçãs do rosto queimavam, mas ela precisava manter a calma.

"Sim, ele está lidando com isso da melhor maneira possível."

"Caso eu não o encontre, diga que não ficou nenhum mal entendido entre nós. Eu o amo" – disse ela, olhando para Mark com ternura, abrandando o ciúme que crescera em seus olhos – "mas é impossível viver apenas de brigas e raiva. Espero que ele seja feliz."

"Eu direi a ele."

Stacy tentou pegar a mala, mas Mark a pegou de suas mãos.

"Eu levo até o carro." - E ele saiu.

Stacy deu uma última olhada no quarto e deu um leve puxão na camisa de Cuddy, que parecia estar meio distante.

"E você, bitch, case-se logo com o Noah. Um partidão daqueles não se encontra aos montes por aí. Ele adora você."

Cuddy sorriu e ninguém sequer imaginava que por trás daquele sorriso, havia uma dor insuportável.


Quando Cuddy conseguiu sentar-se, dentro do seu escritório, já era tarde. Havia se passado a hora do almoço, e ela nem comera nada. Ela não se sentia bem, e não era físico. Ela queria poder resolver tudo sem magoar ninguém, queria descobrir as respostas sem se machucar nesse processo. Ela precisava de uma solução e nenhuma lhe vinha à mente.

House entrou na sala sorridente e por um milésimo de segundo, ela agradeceu à Deus por ele estar ali. Mesmo com tudo o que estava acontecendo, a presença dele lhe fazia bem.

"Baby, você vem jantar lá em casa?" – perguntara ele, brincalhão. Ele sorria como um menino e aquilo apertava o coração dela.

Ela levantou-se da cadeira, indo até ele, que estava divertidamente parado em frente à mesa dela. Quando chegou perto dele, House se debruçou e tentou beijá-la, mas ela apenas virou o rosto.

"Não faça isso." – disse ela, quase sem forças.

"Por quê?" – o tom dele já não era de brincadeira. Ele estava sério.

"House, nós não... devemos."

Ele a segurou pelos dois pulsos, com firmeza, mas sem machucá-la de modo algum. Ela desviara o olhar. Não conseguiria encará-lo.

"Não me diga que você se arrependeu."

"Eu não estou arrependida."

"Então qual é o problema? Porque você não pode simplesmente deixar as coisas transparecer? Eu vou me esforçar se é isso que te preocupa."

Cuddy desvencilhou os pulsos e se afastou dele. Ele a olhou sem entender. Ela podia dizer não, mas seu corpo dizia sim a ele. Mas ele não a queria apenas fisicamente. A queria por inteiro, e não se contentaria com metade disso.

"Você esqueceu que eu tenho namorado?"

O olhar dele endureceu. Ela sentiu que a respiração dele havia diminuído. Remorso tomou conta do seu corpo, e ela questionou se devia mesmo ter falado isso.

"Agora você lembrou-se disso?"

"House... eu..."

"Você também não se lembrou disso quando estava tendo orgasmos estruturais, gritando meu nome a todos os meus vizinhos."

"Não jogue isso na minha cara."

"E você pode jogar na minha cara que foi até a minha casa, transou comigo, fez o que bem entendeu, acordou e agora tem namorado?"

"House, não é tão simples assim."

"Na verdade é. Você me ama, e por um medo estúpido de tudo dar errado, decide recuar. Não seja tão covarde."

"Não me trate como uma das suas prostitutas."

"Pelo menos elas não voltam atrás dos seus atos dizendo que são comprometidas."

Ela não pôde segurar a mágoa que aquele comentário causou. Sua palma voou no ar e atingiu em cheio o rosto dele. Ele a olhou nos olhos, e ela viu uma raiva tão dura que a fez recuar na mesma hora. Ele sequer proferiu uma palavra, apenas se retirou.


Já era pelo menos uma 7h da noite. Cuddy chegou exausta, e seu emocional mais se parecia com os entulhos de um prédio demolido. Ela precisava dormir, mas notou o carro de Noah estacionado na sua garagem. A noite seria longa e ainda mais destrutiva.

Ela entrou e lá estava ele, vestido de smoking, perto da escada. O cabelo arrepiado brilhava, e ela sentiu o cheiro do perfume dele. Um típico Hugo Boss. Ele levantou-se e trouxe uma rosa vermelha até ela, beijando-lhe a maçã do rosto.

Oh vey. Ela sentiu sua garganta fechando-se, queria ajoelhar e pedir desculpas a ele.

"Noah, seu idiota." – Ela riu, os olhos brilhavam.

Ele segurou a mão dela e a levou até a sala, onde uma mesa a dois, romanticamente decorada esperava por eles. A voz de Aretha Franklin os acompanhava, num embalo quase secundário. Meia luz, um tom de luar caindo sobre eles. Tudo estava perfeito. Na verdade, apenas uma coisa estava errada.

"Lullaby."

Ele sorrira, desde a primeira vez que ela o havia apelidado disso, nunca havia soado tão melancolicamente sensual.

"Sim, amor."

"Preciso te contar uma coisa. E você não vai gostar. Na verdade, esse pode ser o fim de nós dois."

Noah entrelaçou seus dedos nos dedos dela. Ele a olhou nos olhos, por algum tempo, estudando a reação dela.

"Lisa, eu não quero saber."

"Lully, você precisa. Você não iria gostar de saber que eu escondi isso."

Ele a puxou para mais perto. Os dedos entrelaçados estavam quentes, enquanto ele depositou um leve beijo nos lábios dela.

"Lisa, nessa viagem eu tive uma única certeza. É você. Não me interessa o que você tenha feito. Não me interessa se seja algo sério, se você me traiu, se você tem algo horrível no seu passado, o que for. Eu tenho certeza que é esse rosto que eu quero ver todas as manhãs quando eu abrir os olhos. Eu nunca estive tão feliz na minha vida, e não quero perder essa oportunidade única. Eu te amo como nunca amei outra mulher. Eu quero que você case comigo. Hoje. Agora, se possível."

"N-Noah... você não sabe tudo o que aconteceu. Você não vai querer casar comigo depois de tudo."

"Lisa, dane-se o que passou. Dane-se o que você pode ter feito. Eu te quero para sempre, do jeito que for."

Lágrimas brotaram dos olhos dela e lavaram sua face. Ele sorria e ajoelhou-se na sua frente. Num movimento devagar e calmo, ele tirou uma pequena caixa azul-celeste do bolso. Uma caixinha de presente que tinha um laço branco como fecho. Ele estendeu a ela, e ela abriu, deparando-se com o mais incrível anel de noivado que ela já vira. Um anel delicadamente desenhado, com um botão de rosa esculpido sobre o ouro. As pétalas eram vermelhas, intensas, e ela sabia que eram rubis legítimos. Pequenas folhas foram esculpidas na lateral da rosa, e ela notou pelo brilho que eram esmeraldas. Provavelmente aquele anel custava mais do que a sua casa.

Cuddy o abraçou e os lábios se encontraram em um beijo suave, um beijo de reconciliação.


Flashback on

"Na verdade é. Você me ama, e por um medo estúpido de tudo dar errado, decide recuar. Não seja tão covarde."

"Não me trate como uma das suas prostitutas."

"Pelo menos elas não voltam atrás dos seus atos dizendo que são comprometidas."

Flashback off


Ela o amava, mas eles eram como fogo e gasolina. As explosões podiam ser lindas, mas as cicatrizes eram as mais dilacerantes possíveis. Ela acreditava cegamente que o amor não ia mudá-lo, e ela não teria forças o suficiente para agüentar as terríveis oscilações da vida dele.

Era um amor impossível e proibido.

"Case-se comigo, Lisa."

Noah a puxou pelo pulso e eles embalaram uma dança, encaixados levemente um no outro, valsando harmoniosamente pela sala dela. Ele beijou-lhe o pescoço e ela suspirou, para enfim sussurrar o que ele tanto ansiava obter.

"Sim."