"Todo mundo precisa de inspiração,
Todo mundo precisa de uma música
Uma linda melodia
Quando a noite é longa
Porque não há garantia
De que essa vida é fácil

Quando o meu mundo está desmoronando
Quando não há nenhuma luz para quebrar a escuridão
É aí que eu
... eu olho para você
Quando as ondas inundam a costa
E não consigo mais encontrar o meu caminho para casa
É aí que eu
... eu olho para você

(...)

Você apareceu simplesmente como um sonho para mim
Como as cores de um caleidoscópio
Que provam para mim,
Que tudo de que preciso
Cada respiração que eu dou
Você não sabe?
Que você é maravilhosa"

Miley Cyrus – When I Look At You.

Eu acordei sem nem saber que eu tinha dormido.

Graças a Deus foi um daqueles sonos que eu não sonhei com nada.

Acredite, é raro isso acontecer.

Olhei o visor do meu celular e marcava 8 da manhã.

Só então eu percebi o quanto eu havia dormido.

Deveria ser umas 5 da tarde quando eu expulsei Kitty do meu quarto.

Eu dormi mais de 12hs seguidas e sem pesadelos.

Acho que o mundo está acabando.

Me levantei e fui procurar Kitty. Eu devia desculpas a ela por ter sido tão grosso.

Eu sei que ela está acostumada com isso, com as pessoas se aproveitando dela e também sei que será difícil ela se livrar dessa "imagem" que ela tem dela mesma.

Eu precisava deixar claro, mais uma vez, o porque de ela estar aqui.

Segurança e proteção.

Fui até seu quarto, mas ela não estava lá.

Olhei em todos os cômodos da casa e nada.

Fui até a cozinha e Lita estava sozinha por lá.

- Bom dia Lita! – a cumprimentei.

- Bom dia Sr. Cullen.

- Você viu a Kitty? – perguntei a ela.

- Vi sim. Ela saiu senhor. – me respondeu.

- Ela disse pra onde ia?

- Não. Apenas disse que era pra eu avisar o senhor que ela havia saído. – ela disse.

- Obrigada Lita.

Tomei meu café-da-manhã por obrigação.

Meu coração estava inquieto.

E se ela tivesse ido embora?

E se ela me odiasse por ontem à noite?

Merda!

Saí da cozinha deixando minhas torradas e meu café quase pela metade e fui até o quarto pegar meu celular.

Ela não me atendeu.

Perdi as contas de quantos cigarros eu fumei e quantas doses de whisky eu bebi às 11 da manhã.

Tentei me acalmar tocando piano, mas nem ele conseguiu essa façanha.

Meu celular tocou.

Eu atendi tão eufórico achando que era ela que nem olhei o visor pra confirmar.

- Kitty? – atendi.

- Não. – ela riu. – É a mamãe querido, sinto muito.

- Ah...hum...oi mãe. Eu não olhei antes de atender. – disse sem graça.

- Onde está a Kitty pra você achar que é ela? – quis saber.

- Não sei... eu... nós meio que discutimos ontem e eu fui um grosso e agora ela sumiu. – disse triste.

- Edward! – ela me repreendeu. – Não foi pra isso que eu lhe criei, as mulheres merecem respeito. – ela disse séria.

- Eu sei mãe, foi justamente por isso que brigamos. – eu disse. – Ela acha que não tem valor.

- Vocês iram a Coral Way no final de semana? – quis saber.

- Vamos mãe, mas só vou poder ir no sábado pela manhã. Tenho plantão na sexta. – eu disse.

- Tudo bem querido, nos vemos lá então, certo?

Nos despedimos e eu desliguei.

Chegou à hora do almoço e eu almocei sozinho.

Tentei mais uma vez ligar pra ela, mas não obtive resposta.

Resolvi mandar uma SMS.

"Anjo, onde você está? Me desculpe por ontem."

Também não tive resposta.

Eu toquei piano, fumei, bebi, revi uns prontuários, fumei, bebi, transcrevi umas receitas, fumei, liguei pra Emmet, bebi... nisso se resumiu minha tarde.

Jessica me ligou também. Disse que não tinha ligado antes porque queria me dar espaço.

Eu resolvi ir atrás dela.

Eu iria procurá-la. Não sei como, mas ia.

Quando eu estava me arrumando um frio percorreu a minha espinha ao pensar que Jacob podia ter pegado ela.

Agora além de preocupado eu estava desesperado.

Lita já tinha ido embora, já estava anoitecendo quando cheguei a sala e peguei minha carteira e a chave do meu carro.

Quando eu estava colocando minha carteira no bolso de trás da calça a porta abriu.

- Oi. – ela estava séria.

Entrou colocou sua bolsa no sofá e prendeu os cabelos em um coque.

- Você está bem? – perguntei.

- Estou. – ela pegou de novo sua bolsa e foi pro corredor.

Eu a segui.

- Eu sei que você não me deve satisfações, mas... onde você estava? – mordi meus lábios me achando um idiota por ter perguntado.

- No Broklyn. – ela respondeu.

- Kitty... eu pedi pra você não ir lá. – eu disse decepcionado.

- Eu sei, mas hoje era dia da minha terapia e eu não podia falta ou saio do programa. – ela finalmente me olhou.

- Você não precisa mais ir lá, ok? – ela ficou quieta. – Vou pedir pra Jasper te atender no centro e te digo o novo dia da consulta.

- Eu não tenho dinheiro pra pagar a terapia Edward. – ela disse. – Por isso vou continuar indo nela no Broklyn.

- Kitty, Jasper é meu irmão e ele não nos cobraria pra te atender no centro. – a lembrei. – E mesmo se ele cobrasse eu pagaria pra você.

Ela ficou em silêncio fitando os pés.

- Como foi a terapia? – perguntei curioso.

- Legal, mas como sempre não me serviu pra muita coisa. – ela disse. – Jasper é um médico maravilhoso, mas o problema é comigo, não com ele. – ela suspirou. – Falamos sobre você.

Ela me olhou.

- Bem? – perguntei divertido.

Ela assentiu e mordeu os lábios.

Eu me ajoelhei a sua frente. Ela estava sentada na beirada da cama.

- Kitty, me perdoe por ontem. Eu perdi o controle, por raiva. – passei a mão pelo cabelo. – Eu... eu odeio quando você se refere como objeto. Eu fico com raiva quando você pensa isso sobre mim, me desculpe.

- Está tudo bem Edward. – ela disse triste.

- Não, não está. – eu disse. – Você é maravilhosa Kitty, só precisa ver isso. Só precisa se sentir assim. Não é que eu não deseje você... eu desejo, mas eu quero que você me veja como Edward e não como um cliente. Eu quero te ver como meu anjo e não como Kitty, entende?

Ela assentiu.

- Eu não quero mais te chamar de Kitty. – falei. – Eu quero que você enterre a Kitty. Eu não quero mais que você seja a Kitty, mas você também tem que querer isso. Eu não posso lutar contra isso sozinho...

- Eu sei... – ela sussurrou.

Eu me sentei ao seu lado e a abracei.

- Eu quero que você seja a menina que você era a 2 anos atrás. Eu quero que você seja a filha do xerife da cidade. Eu quero que você seja a amiga da Sue ou a professora de literatura, menos a Kitty...

- Me desculpe por fazer tudo errado, você é tão bom pra mim. – ela fungou.

- Vamos começar de novo, ok? – a olhei. – Me diz seu nome... – pedi.

- Eu tenho medo... – ela mordeu os lábios.

- De mim? – perguntei magoado.

- De tudo. Eu tenho medo de confiar nas pessoas e... – sua voz morreu.

- Hey! – ergui seu queixo fazendo ela me olhar. – Sou eu, Edward, lembra? Eu não vou te machucar anjo, não vou te forçar a nada, ok?

Ela assentiu mais uma vez.

- Está de saída? – ela perguntou.

- Estava. – sorri. – Eu ia atrás de você.

- Me desculpe. Eu fui a terapia e depois liguei pra Angela, viemos pro centro, conversamos por algum tempo e perdi a hora.

- Porque não me atendeu? – perguntei colocando uma mecha do seu cabelo atrás da sua orelha.

- Porque eu estava magoada com você. – mordeu os lábios.

- Me desculpe, ok? – ela assentiu. – Prometo não gritar com você se você prometer parar de falar aquelas coisas.

- Prometo! – ela sorriu.

Eu dei um beijo em sua testa e levantei.

- Vamos jantar. – eu disse.

- Vou tomar um banho. – ela também se levantou. – Estarei lá em 10 minutos.

Eu saí do seu quarto e fui esquentar a comida que Lita havia deixado na geladeira.

Enquanto ela tomava banho eu liguei pro celular do meu gerente no banco.

Pedi a ele outro cartão múltiplo no meu nome. Disse pra ele manter a mesma senha que eu uso e ele disse pra eu passar lá amanhã no final do dia pra pegá-los. Quando ela me dissesse seu nome, eu passaria o cartão pro nome dela.

Kitty precisaria do cartão pra fazer compras na sexta. Ela iria precisar de roupa de banho e de frio na viagem do final de semana.

Miami tem um tempo louco. De dia faz 24º e a noite 7º. Então, ela teria que estar preparada pra passar 3 dias por lá.

- Quer ajuda? – Kitty perguntou entrando na cozinha.

Ela vestia uma camiseta branca e justa e um short jeans minúsculo.

Aquilo me deixou nervoso apesar de eu já ter visto ela seminua.

- Não, só estou esquentando o que Lita deixou. – eu disse.

Ela sentou num banco, eu coloquei seu prato no balcão e me sentei de frente pra ela.

- Posso te fazer uma pergunta? – ela quebrou o silêncio.

- Claro.

- Como você conseguiu essas cicatrizes de tiro? – ela apontou pro meu ombro.

- Eu não quero falar sobre isso Kitty. – fui sincero.

- Tudo bem. – ela voltou a comer.

Ficamos em silêncio de novo, até eu me incomodar e falar com ela.

- Vamos pra Miami no sábado. – comecei. – Lá faz sol e frio. Eu pedi um cartão do banco pra você hoje e sexta você fará compras com Alice. Gaste quanto for preciso e compre coisas necessárias pra viagem, tudo bem?

- Eu não preciso fazer compras Edward. – ela franziu a testa.

- Apenas faça Kitty. Você também precisa de lingeries. – a avisei. – Eu joguei algumas suas fora.

- É... eu percebi. – ela riu.

Mas silêncio.

Eu me levantei quando acabamos de comer e recolhi os pratos.

- Pode deixar que eu lavo. – ela pulou do banco.

- Eu lavo.

- Então eu vou secar. – ela insistiu.

Tive que revirar os olhos. Teimosa.

- Ok, tem uma toalha na primeira gaveta. – apontei pra gaveta.

Ela foi até lá e pegou a toalha, enxugando os pratos que eu lavava.

Quando acabamos nos sentamos na sala e ela escolheu um filme pra assistirmos.

- Jason x Freddy? – perguntei me segurando pra não gargalhar.

- É um clássico do terror! – ela disse animada sentada no sofá com as pernas cruzadas estilo borboleta.

Eu peguei um cigarro e acendi.

Ela se afastou de mim.

- Te incomoda a fumaça? – perguntei balançando o cigarro.

- Humm... não. A fumaça não. – ela gaguejou um pouco pra falar.

- Porque se afastou de mim então? – perguntei confuso.

- Eu... eu não gosto de cigarros. – ela mordeu os lábios.

Sua expressão lembrava um animal acuado, encurralado pelo seu caçador.

- Quer que eu apague? – ela assentiu. Eu puxei o cinzeiro e apaguei o cigarro. – Pronto.

- Obrigada, mas eu me sinto horrível por fazer isso, a casa é sua e... – eu a corrigi.

- A casa é nossa anjo. – ela sorriu.

Nós começamos a assistir o filme e logo ela estava agarrada a mim com medo. Morria de rir quando ela dava um gritinho e escondia o rosto no meu peito.

Ela tentava interagir com a televisão. Hilário.

Ela dizia coisas como...

"Não! Não entra ai!"

"Ele está ai dentro!"

"OMG! Ela vai morrer agora"

"Corre menino"

E eu só ria. Cada vez mais.

Até que ela ficou em silêncio e eu senti seu corpo relaxar nos seus braços.

Desliguei a TV e a peguei no colo.

Tive todo o cuidado do mundo pra não acordá-la e a coloquei em sua cama.

A cobri com uma colcha e sai, fechando a porta atrás de mim.

Quando voltei pra sala acendi o cigarro que eu havia apagado por causa dela e liguei pra Jasper.

- Fala mano. – ele atendeu.

- Oi Jazz. Ocupado? – perguntei.

- Não, estava passando a limpo as anotações das consultas de hoje. – ele disse.

- Kitty me disse que esteve lá hoje. – falei.

- Sim, ela esteve. Ela vai todas as quartas.

- Ela disse que vocês falaram sobre mim. – mordi meus lábios.

- Ela falou de você. – ele riu. – Eu apenas ouvi.

- Falou bem? – eu me detestava por perguntar essas coisas a ele, mas era mais forte que eu.

- Edward, você sabe que eu não posso contar o que os meus pacientes me falam. É antiético. – ele me lembrou.

- Eu sei... – suspirei derrotado.

- Ela falou bem Edward. – ele disse e eu não pude conter um sorriso.

- Obrigado Jazz.

- Preciso desligar. – ele disse.

- Na verdade eu liguei pra te pedir um favor. – falei.

- É só falar.

- Queria pedir pra você encaixar Kitty no consultório do centro, eu não quero que ela vá mais ao Broklyn. – eu disse. – Já conversei com ela e ela está de acordo. Dê a vaga dela no programa pra quem precisa.

- Ok, mas você sabe que vou ter que confirmar com ela antes de tirá-la do programa, certo?

- Pode ligar pra ela amanhã. Ela está dormindo agora. – eu disse.

- Tudo bem, amanhã eu falo com ela. Eu tenho um horário livre na sexta a tarde, talvez ela se interesse. – ele disse.

- Reserve pra ela. – eu disse. – Ela vai querer.

Nos despedimos, eu mandei que ele desse um beijo em Alice por mim e desliguei.

Eu tinha fumado dois cigarros enquanto conversava com Jasper.

Eu estava sem sono e todo o trabalho que eu tinha pra fazer eu fiz a tarde enquanto estava preocupado com o sumiço de Kitty.

Eu resolvi tocar. Meu piano me acalmava como nenhuma outra coisa fazia.

Não que eu estivesse nervoso, mas meu coração ainda estava acelerado por conta do susto que ela deu em mim hoje.

Eu estava tocando uma música que adorava. Era Kiss the Rain do Yiruma.

Foi uma das primeiras que Esme me ensinou. Era simples e fácil de ser tocada e me dava paz a cada nota que eu tocava.

Me servi de whisky e sentei ao meu piano.

Fechei os olhos absorvendo cada nota e instantaneamente meu coração se acalmou.

O medo que eu havia sentido durante todo o dia passou.

Ela estava em casa.

Quando eu toquei a última nota dei um gole no meu whisky e meu corpo gelou.

Mas não foi pela temperatura da bebida e sim pela voz dela.

- Eu achei que ele fosse apenas parte da decoração. – sua voz suave ecoou pelo cômodo.

Eu sorri. Eu podia sentir da onde eu estava o seu cheiro.

Me virei no banco pra ficar de frente pra ela.

- Não, às vezes eu toco. – sorri sem jeito.

- Foi lindo! – ela assentiu. – Nunca tinha escutado nada tão... lindo.

- Obrigado.

Então eu reparei nela. Ela estava com a mesa camiseta branca, mas tinha tirado o short e ficado somente com uma calcinha rosa com branco.

- Não vai deitar? – ela mordeu os lábios.

- Estou sem sono. – respondi.

Ela se aproximou e colocou suas duas mãos nos meus cabelos, massageando meu couro cabeludo e minhas temporas.

Tem certeza que estava ronronando como um gato manhoso.

Ergui minhas mãos e pousei nas suas coxas. Deslizando por elas até chegarem na sua cintura.

- Isso é bom. – sussurrei.

- Eu sei. – ela também sussurrou. – Vem deitar comigo.

Eu tirei minhas mãos da sua cintura e segurei seus braços, fazendo com que ela parasse a massagem.

Me levantei e a peguei no colo.

Quando coloquei ela na cama do meu quarto, eu me afastei e tirei minha roupa, ficando só com uma boxer preta.

Deitei ao seu lado e nos cobri.

- Boa noite Edward. – ela disse me olhando nos olhos.

- Boa noite meu anjo.

Dei um beijo suave na sua testa e logo ela dormiu.

Eu ainda fiquei um tempo acordado.

Eu estava deitado de frente pra ela e seu rosto sereno enquanto dormia estava a centímetros do meu.

Cada vez que ela expirava seu hálito me invadia, me acalmando e relaxando meu corpo.

Eu fiquei ali, olhando seu rosto perfeito. Seus cabelos ondulados e castanhos, metade espalhados pelo travesseiro e metade caídos em seu ombro.

Eu desejei que as coisas fossem diferentes pra ela.

Por mais que eu fosse egoísta e quisesse que ela ficasse aqui comigo. Eu desejei que seu pai não tivesse morrido e que ela estivesse na sua cidade pequena do interior, cursando faculdade pra ser professora de literatura.

Um dia ela seria amada por uma pessoa e formaria uma família.

Se por um milagre ela pudesse ter tudo de volta eu abriria mão de tê-la comigo, eu abriria mão de ter conhecido ela.

Se tudo fosse como antes, seu corpo não teria sido agredido de tantas formas e ela não precisaria ser protegida.

Sua alma estaria intacta e não partida como agora.

E se eu pudesse, eu daria minha vida pra que a dela fosse como a 2 anos atrás.

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