Sasha teve pesadelos a noite toda. Em seus sonhos ela viu homens estranhos num campo de batalha e aos seus pés centenas, não, talvez milhares de corpos.
Havia doze no total, e seus corpos cobertos por armaduras que pareciam ser feitas de ouro, reluziam sob a luz daquele crepúsculo sangrento.
Dentre eles homens que ela nunca tinha visto antes, mas também alguns que não lhe eram estranhos.
Lá estava Saga, o guardião de olhar severo que a havia flagrado com Kamus a alguns dias naquele beco atrás da boate do agora falecido Nikolas. Seu olhar era agora ainda mais severo e sua figura mais imponente, seus cabelos se moviam ao sabor do vento e sobre eles um elmo dourado onde duas faces pareciam lhe sorrir.
Também reconheceu entre eles o homem chamado Máscara da Morte, com um sorriso tão cruel e sádico nos lábios, quanto no dia em que a atacou. Ele ainda tinha as mãos sujas de sangue e seu sorriso aos poucos se tornava um riso sarcástico, de quem parecia estar feliz com toda aquela chacina.
Não muito longe estava Milo, cujo elmo se estendia sobre seu longo cabelo escuro, como a cauda de um escorpião em cuja ponta brilhava mortalmente um ferrão venenoso.
Sentiu então um frio mortal tomar seu corpo, se virou para ver de onde vinha aquele sopro gelado e então se deparou com ele. Kamus, envolto em uma luz tão dourada quanto a armadura que usava, com ambos os braços erguidos e unidos sobre a cabeça formando a figura de um jarro, de onde uma poderosa energia parecia brotar.
"Morra assassina!", disse ele, agora abaixando os braços em sua direção.
"EXECUÇÃO AURORA!"
- KAMUS! – gritou sem perceber.
Olhou em volta e percebeu que tudo havia desaparecido. Estava em um quarto desconhecido.
Levantou-se devagar e sem fazer barulho, sentiu uma leve pontada de dor, e concluiu que pelo menos uma parte não havia sido sonho.
Procurou pelo quarto por qualquer coisa que pudesse lhe servir como arma, mas o lugar parecia ter sido preparado para recebê-la.
- Vou ter que me virar! – disse para si mesma fechando os punhos.
Saiu do quarto e não demorou a ouvir alguém cantarolando, muito mal por sinal. Era um homem, e aparentemente havia acabado de sair do banho já que tinha os cabelos molhados e desfilava apenas de toalha pelo lugar.
Deu uma olhada ampla no lugar e viu que ele estava de costas para o que parecia ser a única saída.
"Não posso me arriscar, assim que ele...",
- Olá, não devia estar na cama descansando?
Sasha parecia incrédula, desviara seu olhar por apenas alguns segundos, e lá estava ele agora bem atrás dela, como se tivesse se teletransportado.
Ela nem perdeu tempo em olhar para ver quem era, seu instinto imediatamente a fez partir para o ataque.
- Não devia atacar assim seu anfitrião!- disse o homem em questão se desviando facilmente da seqüência de socos e chutes com que ela o atacava.
Ela nem se dignou a responder e continuou atacando.
- Ta legal, eu tentei ser bonzinho, mas você não me deu outra escolha! – disse ele que com um único dedo conseguiu derrubá-la no chão.
- Ta mais calma agora?
Novamente o silêncio dela foi seguido por um chute, que dessa vez acertou em cheio a área de recreação de seu suposto anfitrião.
-Uhhhhhhhhhhhhhhh! – gemeu ele caindo por cima dela e só então Sasha pode perceber de quem se tratava.
- Eu te conheço. – disse ela no exato instante em que um Kamus preocupado apareceu.
- MILO O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?!
Depois das devidas explicações, Kamus ainda olhava com certa desconfiança para o cavaleiro de escorpião, principalmente conhecendo a fama nada boa que ele tinha. Mas Sasha tomada de dúvidas sobre quem eram aqueles homens na verdade não estava disposta a deixar Kamus sair dali sem esclarecer cada ponto desse mistério.
- Bem, agora que os mal entendidos já foram esclarecidos, eu acho que vou deixar o casal sozinho, já vi que estou sobrando aqui. – disse Milo saindo ainda com as mãos no seu "parquinho", e deixando um constrangedor silêncio atrás de si.
Nenhum dos dois parecia disposto a dar o primeiro passo, sempre que estavam a sós pareciam entrar em combustão instantânea, mas ali depois de tudo que havia sido revelado e com tanto ainda a ser contado, tudo parecia diferente.
Sasha esperou que Kamus desse o primeiro passo ou que dissesse algo. Em seu peito o coração batia acelerado, como uma adolescente diante de uma declaração apaixonada.
Mas Kamus não disse nada, ao invés disso ele se aproximou se ajoelhando diante da poltrona onde ela ainda estava sentada. Sem conter seus próprios impulsos ela deixou sua mão correr pelo rosto dele.
- Como pode ser tão bonito? – ela disse quase sem querer.
Ele sorriu, como ela nunca havia visto antes, primeiro porque esse não era o forte dele, segundo porque havia muito de um Kamus ainda desconhecido para ela naquele sorriso, de um Kamus capaz de sorrir.
Sem querer seus olhos se encontraram, e como se olhassem para duas janelas abertas, eles puderam ver perfeitamente o sentimento que compartilhavam.
Seus rostos se aproximaram e seus lábios se tocaram suavemente.
- Eu quero lhe mostrar uma coisa! – Kamus então se levantou e se afastou e em segundos seu corpo começou a emanar uma forte luz dourada.
Sasha não soube ao certo como aconteceu, mas no instante seguinte a mesma armadura que viu em seu sonho reluzia no corpo dele, com a diferença que ali ele não lhe pareceu nem um pouco ameaçador, ao contrário, ela sentia uma força protetora vinda dele, algo acolhedor, algo que só poderia vir de alguém que com certeza poderia salvar o mundo.
- É isso o que sou Sasha. Não podia esconder isso de você, não depois de ter certeza do que sinto por você.
- E o que você é? – perguntou Sasha ainda confusa com aquela aparição – um Santo, um Deus?
- Não, sou apenas um guardião, mas não o guardião de uma simples mulher e sim de uma deusa.
- Então.......... Saori Kido é uma........
- É a sagrada Athena que Deus envia à Terra a cada duzentos anos, a quem eu sirvo e protejo.
Kamus novamente se aproximou, dessa vez para beijá-la, ela correspondeu sentindo algo diferente, pois não havia apenas paixão ali, era um beijo carregado de sentimento. A luz que o envolvia aos poucos foi cedendo e a armadura deixou o corpo dele, para se tornar uma guardiã vigilante daquele momento.
Sem oferecer resistência Sasha deixou que ele se colocasse sobre ela. Então percebeu que ele já estava nu, sentiu o desejo dele latejar entre suas pernas e afastando-o por um instante arrancou a camisa que cobria seu próprio corpo, para poder senti-lo em cada centímetro de sua pele.
Mas uma dor forte fez com que se lembrasse que ainda não estava completamente recuperada e mesmo sem querer deixou escapar um gemido.
Kamus se afastou preocupado.
- Está tudo bem?
- Não se preocupe. – mas ela não havia sido muito convincente.
Kamus então sentiu o sangue quente dela escorrer pelas suas mãos, da ferida que reabria com o esforço.
Deu-lhe um beijo no pescoço e lhe disse com os lábios colados em sua orelha.
- Não há porque apressar este momento, - disse ele de forma gentil – no momento certo você será minha e eu serei seu, mas antes disso quero você curada, para que eu possa amá-la com toda a intensidade do meu desejo.
- Ao menos fique comigo. – disse ela com um ar carente ao qual Kamus não pode resistir. Aconchegou o corpo dela ao seu e deixou que ela dormisse em seus braços.
Lá fora, amazonas e cavaleiros treinavam, servos continuavam com suas funções e na porta da casa de escorpião, Milo permanecia sentado, velando pelo casal de amantes.
- Ei Milo o que está fazendo aqui fora?- perguntou Shura que subia na direção do templo de Atena.
- Apenas aproveitando um tempo ao ar livre.
No quarto de um luxuoso hotel, no centro da cidade, um homem de meia idade contemplava em silêncio o monitor de seu laptop. No centro da tela a imagem antiga de um jornal vinha com uma manchete em destaque:
"Acidente mata família de juiz russo"
Na foto uma menina de seus sete anos sorria abraçada ao pai.
- Já faz dez anos Sasha! – diz para si mesmo para logo em seguida voltar seus olhos na direção da porta, onde pode ouvir claramente o som de passos se aproximando.
- Entre. - disse de forma seca para o visitante.
- Porque me chamou, por acaso sua favorita não está dando conta do trabalho?
Quem dizia isso era um jovem mais ou menos da mesma idade de Sasha, mas que diferente dela não fazia questão de esconder o belo rosto que tinha.
- Tenho um trabalho para você.
