O rei acabara de montar, estava prestes a sair acompanhado por Bontemps e alguns Mosqueteiros. Foi quando Monsieur apareceu trotando garboso em seu tordilho. Vinha sorridente e muito bem disposto, o longo cabelo ondulando ao vento matinal. Coisa bastante anormal para quem detestava acordar cedo. Louis logo ficou desconfiado. Eram anos de convivência. Bontemps, que estava perto e conhecia cada expressão do rei, foi acometido por uma súbita vontade de rir. Mas manteve a cara séria e ficou observando a dinâmica fraternal.
-Bom dia, irmão!-saudou Monsieur com um ar angelical.
-Bom dia!-respondeu Louis secamente.
Philippe percebeu de imediato que a cara do irmão ficara azeda, mas ignorou aquela expressão arrevesada que conhecia desde que nascera e propôs, cheio de jovialidade:
-Aceita companhia no passeio?
Louis teve a certeza de que aquela simpatia e espírito fraternal não eram naturais, mas que tinham algum propósito específico. Mas, como da última vez que haviam se falado o diálogo tinha sido áspero, julgou ser uma tentativa de reconciliação. Como amava sinceramente Philippe, a despeito da involuntária tendência à competição que o irmão lhe despertava, sentiu-se inclinado a fazer as pazes. Família era família. Aquiesceu.
-Claro, irmão. Vamos, sim.
Partiram e cavalgaram com boa disposição por quase meia hora. Eram seguidos de longe por Bontemps e os Mosqueteiros. O bosque estava cheio de recordações da infância. Era um lugar que dava a ambos a sensação de segurança, apesar de seus riscos naturais.
Apearam à beira de um regato. Louis, a essa altura já estava relaxado e contente. As faces estavam coradas pelo exercício.
-Que boa ideia,Philippe. Se tivéssemos combinado previamente não teria sido tão agradável, concorda?
-É certo. Quando a coisa é decidida ao acaso ou ao sabor do momento, acaba dando mais certo.
Sorriram os dois, sentados lado a lado. Monsieur tirou as botas e as meias, enfiando os pés no riacho. O rei prontamente fez o mesmo.
-Que delícia.-disse Louis.
Philippe sorriu gentilmente. Percebia que o irmão era oprimido pelo protocolo rígido que ele mesmo implantara.
-Quero agradecer a sua grande consideração, consultando-me sobre Madame e o destino de meu casamento...
Louis percebeu que aquela conversa o motivara, contudo não se aborreceu, ao contrário, ficou curioso em saber o que o irmão diria.
-Eu decidi que aconteça o que tiver que acontecer, continuarei casado com Madame.
O rei ficou surpreso, mas armou um sorriso de satisfação meio artificial.
-Isso muito me alegra, Philippe. Quando eu a escolhi para você, algo me dizia que teriam um bom entendimento.
-Agradeço mais uma vez. E digo até que temos um excelente entendimento, melhor do que muitos casais que tiveram a chance de escolher e de conviver previamente.
-Teve muita sorte com Liselotte, irmão. - o rei dizia isso sem um pingo de ironia, apenas com uma certa pena de si mesmo por não ter tido a mesma boa fortuna. Em casamentos por conveniência, a compreensão e a lealdade são mais benéficos até do que a paixão.
-Bom, agora nos estamos pensando no nome do bebê.
Louis deu um sorriso enorme. Não lhe ocorria outro nome que não fosse o do avô e do tio, no caso, ele: Louis. Não havia o que pensar.
-Sim, o meu sobrinho, o novo Duque de Valois.
Monsieur olhou-o de esguelha. Não resistiu e resolveu irritá-lo um pouco.
-Bom, tem "Louis" como você e nosso pai, tem "Gaston"como o meu finado padrinho...
-"Gaston"? Que ideia absurda! O tio Gaston só nos criou problemas, um golpista de marca maior...É só lembrar o que nossa mãe passou por causa dele...
Philippe estava dando risadas por dentro.
-Soube que nossa prima, a Grande Mademoiselle, acha que seria uma bela homenagem a seu falecido pai.
O rei expressou sua revolta. A prima era muito intrometida desde sempre.
-Se ela quiser algum "Gaston", que trate ela de ter um filho e colocar o nome do avô.
-Liselotte gosta de "Louis". É a forma francesa de um dos nomes do pai dela.
-Bom, o filho é de vocês, mas desaconselho "Gaston". Nome horroroso, traz péssimas recordações à nossa família. E... pode vir também outra menina.
-Virá um rapaz. Finalmente.-o tom de Monsieur era de absoluta convicção.
-Como pode ter certeza? Com Henriette só vingaram as duas meninas. Penso que a sua especialidade são garotas. Não vê? Marie-Louise é a sua cara -falou com malícia.
Monsieur não se abalou. Sorriu, aparentando estar muito seguro de si.
-Tenho tanta fé que estou disposto a apostar, se assim o desejar, meu caro.
O rei olhou-o, entre divertido e desconfiado. Ali havia algo que Philippe estava escondendo.
-Como pode afirmar com tanta segurança?
-Bem, primeiro vem a questão do método de realização.- Monsieur falava com ares de cientista experimentado. No entanto, jamais divulgaria que o método consistia em imagens da Virgem Maria espalhadas previamente sobre o leito conjugal e o uso de um terço antigo, abençoando partes específicas da anatomia masculina, destinadas à reprodução da espécie.
-E o sucesso da empreitada foi confirmado através de certos costumes germânicos, nos quais fui iniciado por minha segunda esposa.
O rei não estava entendendo nada. Imaginou alguma grossa safadeza praticada pelo irmão e a cunhada. Aquela Liselotte, ao final, de ingênua só ficaria com a cara. Ficou sem jeito de pedir detalhes. Optou em fazer uma expressão de grande conhecedor.
-Já tive notícia desses procedimentos, mas seria de grande utilidade se a nossa querida Princesa Palatina nos inteirasse sobre os hábitos de fertilidade de sua terra natal.
Monsieur fez um ar reservado. Não revelaria ao irmão que andara apalpando o ventre de Madame na calada da noite e nem que seu tom categórico derivava da abundância de chutes desferidos pela criança. Fez um expressão reticente.
-Será impossível. Madame é demasiado tímida.
O rei ficou decepcionado.
-Vai querer apostar ou não?-pressionou Philippe.
-Aposto que virá outra menina. Para completar um harmonioso grupo de três. Não que eu torça por isso, irmão...
Philippe calçava as botas.
-Está feito. Se vier menino, você me passa um belo saco de ouro.
Apertaram-se as mãos para selar o combinado.
-Feito.-disse o rei com certeza íntima que seria tio de mais uma garotinha.
Montaram seus cavalos e puseram-se em marcha de volta a Versailles. O mais feliz de todos era Bontemps, que os via, enfim, reconciliados.
