Os exames finais tinham finalmente terminado quando os meninos me contaram sua proposta. Primeiro eu achei que eles estavam brincando, mas duas expressões sérias me convenceram.
- Vocês só podem estar loucos. – eu disse a eles.
O dia estava quente, faltavam praticamente duas semanas para as aulas terminarem e os alunos estavam aproveitando o sol nos jardins e festejando o fim dos estudos incansáveis.
Apesar de as provas finalmente terem terminado, eu estava cada vez mais nervosa. Não conseguia pensar no que fazer durante o verão, como ia me virar, e a ideia dos meninos viria a calhar, se não fosse tão maluca.
- Meus pais concordaram. – afirmou Carter, passando a mão pelos cabelos muito louros – Já está tudo certo, é só você dizer que sim.
Eu olhei para ele incrédula.
- Carter, não posso ir morar com você!
- E por que não? – foi Blake quem perguntou – Como eu disse, não é como se você tivesse outra escolha, outro lugar para ficar. – ele deu de ombros.
- Mas mesmo assim, não posso incomodar sua família, Carter. – insisti. Eu não podia simplesmente invadir a casa dele assim do nada. A família dele nem me conhecia!
- Não vai incomodar! – rebateu o loiro – Eu falei, meus pais já disseram que não tem problema, você é mais que bem vinda!
- E meus pais falaram que se você se encher do Cartie, você pode ficar com a gente! – Blake deu um de seus enormes sorrisos contagiantes, e eu tive que me segurar para não sorrir de volta. Carter lançou um olhar mortal ao amigo e eu me limitei a revirar os olhos.
- Vocês não podem estar falando sério. – eu apenas me joguei de costas na grama, tentando absorver tudo o que eles me disseram.
Então os Malfoy tinham me aceitado na casa deles pelo verão. Nesse ponto, eu já tinha aprendido a não acreditar em tudo o que crescera ouvindo. Sempre me foi dito que os Malfoy eram terríveis, que seguiram Voldemort o tempo todo, mataram e torturaram um monte de pessoas inocentes e que no final se acovardaram. Mas quão terríveis eles poderiam ser se estavam me acolhendo bem quando minha própria família me rejeitava?
Eu não sabia mais o que pensar.
Na manhã seguinte, recebi uma carta da própria senhora Malfoy, me convidando formalmente para passar as férias com a família. Ela dizia que estavam ansiosos para conhecer a amiga de quem Carter tanto falava e que eu era muito bem vinda. Foi muito gentil da parte dela, de fato.
Mesmo depois de tudo o que Andy tinha me dito, senti que ainda tinha alguns assuntos para resolver com a minha família antes de decidir o que eu ia fazer. No fundo, esperava que eles fossem dar para trás na decisão de me expulsar de casa e que mais cedo ou mais tarde os meus primos viriam me dizer que eu estava perdoada e podia voltar para casa.
Pensando bem, não sei se voltaria mesmo que eles me pedissem.
Resolvi falar com o Phil. Ele era um pouco mais equilibrado que Andy, então talvez me ouvisse. Além do mais, ele estivera tão preocupado com os N.O.M.s que era possível que estivesse de bom humor com o final deles.
Ele ficou surpreso quando chamei seu nome. Ele estava sozinho, indo em direção ao campo de Quadribol com uma vassoura no ombro. Apesar de a Copa já ter acabado (a Corvinal fora a campeã), o time da Grifinória já estava montando planos de jogo para o ano seguinte. Meu primo era mais uma vez o favorito para a posição de um dos batedores.
Antes mesmo que eu pudesse dizer alguma coisa (na verdade eu nem sabia direito o que eu iria dizer), ele deu um suspiro cansado e olhou para mim desanimado.
- Olha, Ju, eu sinceramente não me importo de você ser da Sonserina, - começou ele – apesar de ter ficado meio chateado por você não acompanhar a gente, mas não posso convencer ninguém a te aceitar de volta.
Eu apenas olhei para ele.
- Não me olhe assim. É verdade, eles não me ouvem, você sabe. Não vou conseguir convencer ninguém, principalmente depois que os resultados dos N.O.M.s chegarem. – ele passou a mão livre pelos cabelos castanhos claros.
Eu não sabia o que dizer, então apenas concordei com a cabeça.
- Então você acha que não foi bem nos exames? – foi tudo o que eu consegui pensar.
Ele balançou a cabeça.
- Eu não sou nenhum gênio, sabe. – ele arregalou levemente os olhos – Não podem esperar que eu vá bem nesses troços, eles são muito difíceis.
Eu sorri. Apesar de tudo que estava acontecendo, sempre podia contar com meu primo para ser, bom, meu primo.
- É o que dizem. Mas aposto que você se deu bem. – eu assegurei – No final, você acaba tendo sorte.
Ele deu de ombros.
- Tenho que compensar a falta de inteligência com alguma coisa, né? Melhor que seja sorte. – ele sorriu para mim, de um jeito descontraído que era muito familiar – Sinto muito tudo o que está acontecendo. Todo mundo está sendo muito idiota com isso. - eu apenas concordei com a cabeça. Ele colocou a mão livre sobre o meu ombro – Você pelo menos tem onde ficar?
Eu poderei por um instante. Tinha duas opções: aceitar a oferta extremamente generosa dos Malfoy ou... Ou o quê? O quê?
- Tenho, - respondi por fim, com um pequeno sorriso brotando em meus lábios – tenho sim.
Ele sorriu para mim.
- Que bom então. – ele me deu um abraço desajeitado com o braço que não estava segurando a vassoura – Vou sentir saudades, priminha.
Eu sorri.
- Eu também, Phil.
