Olha só quem tá de volta! E não demorou quase nada, né?
Bem, esse é mais um dos velhos/novos capítulos! Espero que vocês curtam e segurem o coração, afinal, temos mais Dadward!
Vou deixar o blá-blá-blá pro final, onde vou precisar a ajudinha de vocês!
Boa leitura!
O dia já havia nascido. A forte luz do sol era perceptível dentro do quarto mesmo que houvessem cortinas, com o intuito de impedir com que isso acontecesse. Eu tinha falado que essa merda não adiantaria muita coisa, mas como eu tinha me casado com a pessoa mais teimosa do mundo, ela apenas deu de ombros e tinha adquiro essa porcaria assim mesmo.
O pior foi ter que escutá-la dizendo semanas depois que eu deveria ter avisado antes. Como se eu não tivesse feito porra nenhuma...
– Baby, acorda... – Bella pediu com a voz ainda pesada de sono. – Nós precisamos nos levantar.
Resmunguei um palavrão em resposta e puxei seu corpo quente para mais perto do meu. Aproveitei sua proximidade para aspirar profundamente seus cabelos castanhos que agora, estavam bem mais curtos do que quando eu a conhecera, porém mantinham aquele mesmo perfume de morangos que me enlouquecia há tanto tempo.
– Edwaaaard... – ela cantarolou manhosa, cutucando o canto dos meus olhos, coisa que eu odiava pra cacete. – O avião sai as onze, amor. E eu ainda nem sequer terminei de arrumar minhas coisas.
– Porra, eu não quero que você vá embora. – balbuciei como o idiota egoísta que eu era. Se não bastasse ter que acordar cedo pra caralho durante minhas férias, o fato de que passaria três malditos dias longe da minha mulher, fazia com que meu mal-humor matinal ficasse pior do que de costume.
Senti uma de suas pernas se enlaçando sobre a minha pélvis, fazendo com que Bella ficasse montada sobre o meu colo. – Você sabe o quando isso é importante para mim... Eu tenho esperado esse dia por centenas de anos. Eu preciso ir para Nova Iorque de todo jeito.
Suspirei pesadamente antes de finalmente abrir minhas pálpebras e encontrar o rosto da mulher mais linda do meu mundo pairando sobre mim. Sua face inchada, os fios de seus cabelos que pareciam mais um ninho de ratos e olhos brilhando, eram as provas de que a noite mal dormida tinha valido a pena. Não pude evitar abrir um sorriso sonolento em resposta; não importa quanto tempo tinha passado, Bella continuava a me afetar da mesma maneira há mais de 10 anos.
Sua mão macia acariciou minha mandíbula antes de segurar o meu queixo e selar nossos lábios rapidamente – Bom dia, bonitão.
– Dia. – sussurrei conta seus lábios cheios, arrastando minhas mãos por sua coluna, chegando até o amontoado de lençóis em volta do seu quadril.
Bella deixou um último selinho em meus lábios e deu um tapinha na mão que arriscava ser boba além da conta – Não comece o que você não pode terminar. – ela ralhou, antes de se afastar completamente, para minha total frustração.
– Sempre temos tempo para uma rapidinha, linda.
Ela rolou os olhos, pegando as peças de roupa que ela havia separado na noite anterior.– Acho que eu e minha amiga não aguentamos mais qualquer tipo de coisa, depois de ontem à noite, Edward.
Sorri satisfeito ao lembrar das três rodadas de sexo que tivemos aquela madrugada - Amiga? É assim que você a chama, agora? Porque ontem à noite eu bem me lembro de você gritando outro nome...
– Outro?
– Arram.
– Eu não disse nada, seu pervertido!
Sorri de canto, vendo-a ficar sem graça. – Ah, disse sim, baby. Eu escutei em alto e bom som você me pedindo para meter mais forte em sua...
– Não ouse completar essa frase, Edward! – ela sibilou, seu rosto ficando com um tom vermelho beterraba.
– Qual é o problema, baby? Não vejo mal algum em dizer a palavra buc..– e então, minha frase foi interrompida por uma camiseta jogada bem na minha cara
– O que foi, Bells?!
– Eu te avisei... – ela retrucou, com aquela cara de gatinha enfezada que tanto gostava.
Eu ri, aproveitando a deixa e vestindo a peça que ela havia me jogado, ao mesmo tempo em que ela cruzava os braços sobre o peito e me encarava com um das sobrancelhas erguidas.
– Por que você não faz alguma coisa útil como acordar as meninas?
– Eu posso ser bem mais útil no banho com você...
Bella deu as costas e antes de fechar a porta da suíte, onde a escutei resmungando algo como marido, estúpido e provocador na mesma sentença. Em tanto tempo juntos, eu nunca tinha conseguido entender essa frase direito... Talvez fosse hora de finalmente desistir de tentar compreender e deixar que ela continuasse me xingando dessa forma pelos próximos cinquenta anos.
Como já não tinha mais motivos para continuar na cama sem Bella, resolvi levantar minha bunda preguiçosa e fazer o que ela havia pedido. Peguei a boxer e a calça de moletom que haviam sido espalhadas pelo quarto na hora da empolgação e, não pude evitar que meu coração sentisse um desconforto quando notei a mala da minha esposa no canto.
Era inevitável para mim que essa viagem acabasse me fazendo recordar daquela fase obscura de meu casamento, quando Bella tinha cogitado a possibilidade de desistir de nós.
Apesar das circunstancias agora serem completamente diferentes, o fato de ela ir para um lugar tão longe e sem a minha companhia, me deixava desconfortável. Não por questões machistas, mas sim pelo fato de eu mesmo não me sentir completo sem a companhia dela.
Mas se existia algo que me deixava puto em relação a esta viagem, era o fato de me sentir frustrado por que Bella atravessaria o país tudo por conta da bosta de um show da Madonna.
Na verdade não era somente um show, como minha mulher fazia questão de ressaltar; era o encerramento da turnê onde a cantora se despediria definitivamente dos palcos, coisa que na minha modesta opinião, seria um bem para a humanidade, afinal de contas, aquela velha desafinada devia ter ficado nos anos 80. Mas nunca comentaria isso com minha esposa; afinal, eu amo as minhas bolas e quero que elas permaneçam comigo até o dia em que eu morra.
Enfim, mesmo que tivesse que assistir à porra de uma apresentação da Madonna, caso eu fosse para a Big Apple como gostaria, achava que esse pequeno passeio de três dias seria perfeito para que relaxássemos só nós dois. De repente, poderíamos visitar os locais que gostávamos na metrópole onde nos conhecemos. Quase uma oportunidade de fuga da rotina pela qual todo casal passa ao se transformarem em pais.
Não que estivesse reclamando da paternidade; só Deus sabe o quanto eu sempre quis ter minhas próprias crianças. Porém, haviam momentos em que eu apenas desejava mais tempo a sós com minha mulher, seja somente para conversar, trocar carinhos ou namorar. Esse era um aspecto do qual eu sentia falta pra caralho desde que nossas filhas haviam entrado em nossas vidas. A ida até Nova Iorque parecia ser a oportunidade perfeita para isso, mesmo que de quebra, eu tivesse que encarar duas horas de lixo musical.
Então tinha resolvido fazer uma surpresa para minha mulher, em comemoração pelos dez anos de casamento que faríamos no próximo mês. Como eu estava de férias do hospital e as crianças ainda não estavam na idade escolar, a data se encaixaria perfeitamente. Meus pais tinham se disponibilizado para ficarem com minhas filhas durante o final de semana, daí foi só comprar as passagens e os ingressos e reservar o hotel. Bella praticamente quicou de felicidade quando eu lhe contei a novidade. Acho que nem quando eu a pedi em casamento, ela tinha ficada tão animada assim, no entanto, não me importei... muito. Se tinha a oportunidade de causar aquele sorriso exuberante e fazer seus olhos resplandecerem daquele jeito, talvez eu fosse capaz até de ir a um clube de strippers masculinos.
Ok, talvez nem tanto.
No entanto, como nada nessa vida pode ser perfeito, dias atrás minha mãe havia pegado uma gripe filha-da-puta que a tinha deixado de cama até então. E, por mais que ela insistisse que poderia cuidar das minhas crias, eu sabia o que era melhor; Esme precisava de repouso e de dos cuidados do meu pai, não de duas crianças de quatro e cinco anos para tirar toda energia que ela necessitava para poder se recuperar.
Quando avaliamos nossas opções de última hora, entramos em desespero; Charlie havia sofrido um acidente ao tentar limpar as calhas de sua casa no mês passado e estava com a perna engessada e sendo assim, os pais de Bella não eram uma opção viável. Quanto a Alice e Jasper, eles tinham se mudado há oito meses para o sul do país: meu cunhado tinha recebido uma proposta para comandar um batalhão militar no Texas e Alice a chance de gerenciar uma dessas lojas de grife que ela tanto gostava. As duas coisas mais importantes nisso tudo eram que a família deles estava feliz e que de forma alguma os dois poderiam salvar nossa viagem.
Quanto à Emmett e Rose, estava fora de cogitação pedir qualquer coisa para eles. Como aqueles dois poderiam lidar com dois pré-adolescentes e quatro crianças debaixo do mesmo teto por três dias? Sem contar que minhas filhas já escutavam palavrões demais vindos do pai delas e não precisavam fazer um curso intensivo durante um único fim de semana.
Sem ninguém que pudesse tomar conta das nossas meninas, a solução mais viável seria o cancelamento da viagem, contudo, quando eu percebi Bella fungando escondida dentro do quarto há quatro dias atrás, soube que não poderia fazer algo assim com a minha mulher. Por mais que ela tivesse dito que não tinha necessidade, resolvi ficar em casa e deixar com que ela viajasse sozinha e apreciasse aquele que – graças aos céus – seria o último show daquela maldita velha.
Lógico que eu estava apreensivo, entretanto, Bella não era uma criança indefesa solta na cidade grande. Ela era independente, inteligente, sagaz e hoje em dia sabia se defender melhor do que muitos marmanjos. Eu sempre fui otimista e sabia que nada iria acontecer com a minha esposa. Além do show, ela poderia usar seu tempo na cidade para fazer suas primeiras compras de Natal e rever algumas amigas da época de pós-graduação.
Parei de devanear, uma vez que eu não poderia fazer mais nada sobre isso. Sai do quarto e fui em direção ao final do corredor, onde estavam as razões pela quais eu acordava todos os dias e enfrentava o que quer que fosse. As duas coisinhas pelas quais poderia lutar contra o mundo inteiro sem possuir nenhuma arma. Os motivos que fizeram minha existência muito mais significativa do que poderia imaginar: minhas filhas.
Abri devagar a porta do primeiro quarto e senti o sorriso se fixar em meu rosto; a criança ali dentro dormia profundamente, agarrada a uma zebra de pelúcia que eu lhe dera em seu último aniversário. Sua respiração cadenciada era algo hipnótico para mim, uma coisa que me faria passar horas e horas apenas observando desde quando ela nascera. Não cansaria nunca de ficar só admirando toda a beleza da minha primogênita.
Elizabeth tinha completado cinco anos três semanas atrás e estava cada dia mais esperta. E diferente da bebê calma durante o primeiro ano, ela se transformara na criança mais curiosa e moleca que eu tinha conhecido. Para seu azar, Lizzie tinha herdado meu espírito aventureiro e o jeito atrapalhado da mãe, o que era uma receita infalível para joelhos ralados, tropeções e algumas contusões de tempos em tempos. Entretanto, ela continuava com seu jeito encantador e sorridente, e eu não podia deixar de me sentir realizado a cada gargalhada sua. Acho que essa era um das minhas missões de minha vida; fazer com que nenhum mal pudesse chegar até ela, somente para que ela continuasse espalhando sua alegria.
Era foda ter que atrapalhar o seu sono e eu odiava ter que fazer isso, no entanto sabia que era necessário, uma vez que tínhamos um horário a cumprir. Entrei no quarto devagar e abri a janela que dava de frente para o quintal de nossa casa. Retirei o lençol que cobria sua figura pequena e me sentei na cama bem ao seu lado, passando minha mão devagar por seus longos cabelos ruivos.
– Hey, filhota – arrulhei baixinho, afastando os fios de cabelo de sua face redonda – Tá na hora de acordar, gatinha.
Lizzie se espreguiçou, e como o bobo que eu era, fiquei só apreciando a forma com que seu corpinho se esticava, quase atingindo o limite da mini-cama onde dormia. Somente em momentos como esse é que eu percebia o quanto ela estava crescendo rápido, para a minha mais pura decepção. Porra, parecia que foi ontem que ela era somente um bebê indefeso em meus braços e hoje eu sempre acabo resmungando de dor quando tento colocá-la em meu colo.
Devagar, ela piscou ao se adaptar a realidade de uma nova manhã. Não sabia mensurar a quantidade de emoções que sentia todas as vezes em que olhava para aquela miniatura aprimorada de mim mesmo. Os mesmos olhos verdes que havia herdado de minha mãe, a mesma cor esquisita e avermelhada nos cabelos e a idêntica personalidade curiosa e arteira de quando eu tinha a idade dela. Elizabeth era definitivamente a realização de tudo aquilo que um dia eu mais desejei ter em minha vida; a prova tangível do amor verdadeiro que eu sentia por aquela morena que aceitara ser minha para sempre.
Aos poucos suas orbes finalmente se focaram e um sorriso lento pintou seu lábios rosados.– Bom dia, papai.
Meu coração se inchou de orgulho só com o simples fato de ouví-la me chamando assim – Bom dia, princesa. – respondi, me inclinando levemente para deixar um beijo sobre sua testa.
Seu corpo rolou de lado e abraçou minha perna, repousando seu rosto em minha coxa para depois fechar os olhos outra vez. Eu ri e fiz cócegas com meus dedos em suas costelas – Que preguiça é essa hein?
Lizzie começou a gargalhar alto, chutando suas pernas para o ar ao tentar desviar do meu ataque.– Para, papai! Para! – ela arfava, respirando pesadamente
– Eu acho que não – eu comentei, enquanto continuava meu ataque à sua barriga.
– Pára, papai! Eu vou fazer xixi!
Com um beijo, pus fim às minhas provocações e a puxei da cama, deixando-a de pé a minha frente – Ok, nós não queremos que aconteça um acidente bem aqui na sua cama, certo? Vá para o banheiro e aproveite também para escovar seus dentes enquanto eu acordo sua irmã.
Ela assentiu e imediatamente saiu correndo desengonçada, em direção ao corredor onde ficava o toalete. Não pude segurar meu riso à medida em que saia do seu quarto e partia para o esconderijo da outra bonequinha que eu havia ganhado, sem querer, em minha vida.
Lizzie tinha menos de três meses de vida quando para nossa surpresa, Bella descobriu que estava grávida outra vez. Apesar de estarmos felizes com a notícia, tivemos que aturar um monte de piadinhas dos nossos familiares por conta de finalmente termos descoberto "como" fazer bebês. E após a empolgação inicial, tenho que admitir que ficamos meio que receosos com a ideia de termos dois bebês com diferença de apenas 11 meses entre eles.
Para complicar ainda mais as coisas, o final da gestação não foi um dos mais fáceis. Bella teve algumas complicações na placenta e precisou ficar de repouso absoluto,o que a impediu até mesmo de carregar Elizabeth em seu colo por muito tempo. Consequentemente, isso tinha ocasionado um estresse ainda maior à minha mulher, que acabou tendo um aumento significativo em sua pressão arterial, ocasionando assim um parto algumas semanas antes do esperado.
Durante o nascimento, eu quase me desesperei e acabei sendo expulso da sala de cirurgia depois de saber que Bella estava com pré-eclâmpsia. Foram as horas mais torturantes de minha vida; minha recém-nascida tendo que ficar na encubadora porque apresentava dificuldades para respirar enquanto a mulher de minha vida permaneceu internada por doze horas na CTI. E assim, e depois de praticamente ter infartado aos 35 anos, uma vez que eu tinha passado por essa montanha-russa de emoções em um espaço tão curto de tempo, eu pude trazer para casa minha mulher e a caçulinha da família: Louise Janis Cullen.
No início, eu estava tão certo de que a segunda gestação seria de um menino, ao ponto de já estar apegado a ideia de ser pai de um garotinho. No entanto, quando descobrimos que seria outra menina, não houve uma única célula em meu corpo que se sentisse decepcionada. Descobri que não havia nem um mal em ter mais uma mulher em minha vida e que um super-herói não era tão diferente de um príncipe encantando… Pelo menos na visão das minhas garotas. Hoje em dia, sinceramente eu não me vejo sendo pai de um garoto.
Já que tinha escolhido o nome da primogênita, achei mais do que justo que Bella nomeasse nossa próxima filha como bem entendesse. Porém, quase me arrependi dessa decisão quando a vi brincando com os nomes de nossos pais; Charlisla, Esmelie, Carlie, Renesmee... estes foram alguns dos nomes sem noção, que ela quase pôs na nossa pequena.
Foi um alívio quando certo dia, enquanto eu tentava fazer um bolo de chocolate, só porque ela estava com desejo, Bella virou-se para mim e comentou que gostava de Louise. Quando eu lhe perguntei a razão, ela somente deu de ombros, falando que este era o nome do meio da Madonna. De brincadeira, comentei que o segundo nome da nossa filha poderia ser o da Rainha do Rock, Janis Joplin somente para que ela tivesse referência de duas grandes mulheres da música na carteira de motorista. No entanto, quando vi o imenso sorriso que minha mulher me lançou depois que eu tinha dito aquilo, eu sabia que tinha me fudido.
E assim, nossa pequena rock ou pop star foi batizada. Mesmo sendo uma combinação um tanto diferente, eu havia gostado de verdade; era um nome simples porém bonito, exatamente como esperava que fosse a minha próxima garotinha. Mas desde então, eu rezava todas as noites para que a única coisa que minha filhinha tivesse em comum com a Madonna ou a Joplin fosse o nome.
O engraçado era que com um pouco mais de um ano, minha primogênita não sabia pronunciar o nome da sua irmãzinha. Weezy, Izzy…. tudo era parecido demais com Lizzie o que deixou Bella e eu um tanto que malucos, sem saber se Elizabeth se referia a nova bebê ou a si mesma. Então, não demorou muito para começarmos a chamar nossa nova bebê de Loulou e que logo foi adaptado para Lola. É frustrante dizer, mas uma das primeira palavras que Elizabeth falou perfeitamente foi o apelido de sua irmãzinha.
Minha Lola era uma menina extremamente calma, se comparada com as outras que eu havia conhecido nesses anos todos de profissão. Comportada e tímida, ela era o completo oposto da irmã mais velha, preferindo ficar colorindo seus livrinhos ou assistindo algum desenho à ficar correndo ao redor da casa. Lógico no alto dos seus quatro anos, ela já havia se metido em algumas peraltices, entretanto nada que pudesse nos causar muito prejuízo.
Assim que abri a porta, encontrei a outra ruivinha (sim, eu tinhas genes fortes pra caralho) de costas para mim e coçando os olhinhos de forma graciosa. – Já acordada, princesa?
Lola virou o rosto para mim e foi como me apaixonar pela enésima vez em minha vida; o mesmo rosto em formato de coração, os lábios cheios e os profundos olhos castanhos que me intrigavam desde que os tinha visto pela primeira vez, na face de minha mulher. Eu tinha pena do pobre filho-da-puta que viesse a gostar dela, porque eu bem sabia o poder que existia naquele olhar.
Se bem que antes de qualquer molequezinho ousasse se apaixonar por minha bebê, eu daria um jeito nele, com certeza!
– Acordei já sim, papai.– respondeu com uma voz pequenina e rouca, imediatamente fiquei preocupado.
– Aconteceu alguma coisa? Você está dodói? – perguntei, me tornando pediatria enquanto me aproximava dela.
– Eu tive um sonho ruim.
Devagar, a ergui em meus braços, puxando seu corpinho para o meu colo. Louise trancafiou suas pernas ao redor de minha cintura enquanto eu questionei – E por que você não foi até o meu quarto?
– Eu foi só que a porta tava trancada... Aí eu foi pro quarto da Lizzie mas ela ela não acordou também. – ela choramingou escondendo o rosto no vão de meu pescoço.
– E a babá-eletrônica? Você podia ter chamado.
– Eu chami, mas só que num tá pegando!
Quis me chutar mentalmente por não ter verificado isso ontem a noite. Aconcheguei-a melhor e lhe perguntei – Você quer dizer para mim como foi esse sonho, bebê?
– Eu tava lá no jardim da casa do vovô, – ela começou, balbuciando rapidamente – e aí tinha um cachorro bem grandão que vinha correndo atrás de mim e aí eu corria e ele corria também e ficava falando: au au bem alto e eu tava medo pu quê não tinha ninguém pra cuidar de eu.
Eu tive vontade de rir, no entanto, desde muito antes de ter meus próprios filhos, tinha aprendido a respeitar os temores de uma criança. Isso sem contar que eu achava bonitinho a forma como ela falava sem a mínima noção de conjugação verbal ou colocação dos pronomes corretos. Bella era quem sempre a corrigia, mas eu não fazia a mínima questão de mudar isso por achar fofo pra caralho.
Enxuguei as primeiras lágrimas que haviam começado a cair e respondi – Eu sinto muito, filhota. Foi apenas um pesadelo; já passou.
Senti seu assentimento contra o meu peito enquanto eu a embalava por mais alguns segundos até que me lembrei de mais um detalhe que era imprescindível quando se tratava dela. – Lola, você precisou usar a bombinha?
Ela negou com a cabeça – Não, papai. Eu fizo como você disse pra eu.
– Puxa arzinho e solta devagarinho. – nós repetimos juntos o mantra, para logo depois assistir minha filha aspirar profundamente e exalar pela boca bem devagar.
O karma era uma coisa foda mesmo: eu vivia reclamando do exagero de certos pais quando os filhos sofriam de asma e praticamente invadiam a emergência por uma simples crise alérgica. Eis que, alguns anos mais tarde, acabei tendo uma filha asmática e pude sentir na pele o quão angustiante era ver alguém tão pequeno lutando para encontrar forças para fazer algo tão simples, como respirar normalmente.
– Você aprendeu mesmo, hein, princesa? – eu disse, apertando a ponta de seu nariz arrebitado.
Ela esboçou um sorriso, pronunciando a pequena covinha que ela tinha na bochecha, herdada de minha mulher. – Fizo direitinho, né?
– Aham. Mas se você tivesse que usar o remédio, onde é que estava?
Ela apontou para a gaveta do criado-mudo, e fui até lá, e usando a mão que estava livre para abrí-la e encontrar o medicamento. Um misto de alívio e orgulho tomou conta de mim: mesmo que minha garotinha fosse tão nova, ela era mais responsável com sua saúde do que muitos adultos que eu conhecia.
– Eu estou muito orgulhoso de você, meu amor. Agora, quer ajudar o papai a fazer panquecas?
– Pode ser com calda chocolate? – ela indagou curiosa.
– E com pedaços de morango dentro?
– Sim! – ela praticamente gritou, para logo depois me dar um beijinho de esquimó pelo qual eu me derreti por completo. – Vâmo, papai. Eu vai ajudar a fazer panquecas.
E, por essas e outras, que eu não me importava tanto de não ir para Nova Iorque com a Bella. Lógico que eu sentiria demais a falta dela, contudo, enquanto eu tivesse aqueles dois pedacinhos de nós dois ao meu lado, eu poderia sobreviver àqueles três dias sem minha esposa.
[...]
– Lembrem-se; nada de bagunçar no jardim do Sr. Marshall e nem ficar assistindo televisão até tarde da noite. – Bella retrucou, ajoelhada de frente para nossas meninas no saguão do aeroporto.
As duas garotas assentiram igualmente, parecendo dois robozinhos. Segurei a vontade de rir para não levar mais nenhuma bronca de minha esposa, que já estava apreensiva demais por deixar nós três sozinhos por tanto tempo pela primeira vez.
– E nada de espalhar os brinquedos pela casa, nem mexer nos fios das tomada e muito menos brincar de comidinha na cozinha da mamãe, entenderam?
– Sim, mamãe. – responderam, com a maior cara inocente.
Minimamente, Bella virou a atenção para nossa filha mais velha e falou – Lizzie, não coma chocolate escondido, não brinque com minhas roupas e ajude a cuidar da sua irmãzinha.
– Tá bom, mamãe.
– E Lola, – ela começou, falando agora exclusivamente com a nossa pequena, arrumando o laço torto do vestido dela. – Nada de ir para garagem por conta do poeira, ok? E não esqueça de tomar todos os remedinhos, e qualquer coisa estranha que você sentir, vá correndo dizer para o papai, está bem?
Ela assentiu levemente e Bella a agarrou para um abraço apertado, arrastando Lizzie para os seus braços também. – Mamãe ama muito, muito e muito vocês duas – ela murmurou já meio chorosa e eu não pude evitar de rolar os olhos.
Se havia uma coisa que eu temia no futuro era isso: como lidar com três mulheres de TPM dentro casa daqui a alguns anos?
Depois de deixar um beijo estalado na bochecha de cada uma, Bella se ergueu e se aproximou de mim, – Edward, se acontecer qualquer coisa…
– Não se preocupe, baby. Eu vou ligar para você.
– Ah, não esquece de pentear o cabelo delas pelo menos duas vezes ao dia. Do jeito que elas correm o dia todo, é fácil de ficar tudo embolado e cheios de nós. E o shampoo delas é o lilás meio transparente que fica dentro do armário do banheiro.
– Hey! – eu disparei indignado - Eu sei o que é um shampoo, Bella!
– Não sabe não, papai! – Lizzie se intrometeu. – Se lembra o dia que meu cabelo duro?
Lola assentiu e complementou – E o de eu também!
– Mas na porrrrrr...caria da embalagem dizia que era shampoo!
– Sim, um shampoo anti-resíduos, que é mil vezes mais forte do que shampoo infantil – minha mulher disparou presunçosa. – E isso sem contar que você usou meio litro no cabelos de cada uma.
– O cabelo de eu e da Lizzie ficou engraçado não foi, mamãe?
Bella assentiu, sem parar de olhar para mim – Sim. E o certo é meu cabelo, não cabelo de eu,filhota .
– Foi uma única vez… – retruquei, enquanto escutava as risadinha das três mulheres que me cercavam. – Não vai acontecer de novo.
– Outra coisa: – Bella disparou – tente não dar tantas besteiras para elas comerem, sim?
Lacei sua cintura, puxando-a para mim. – Quem te viu e quem te vê, hein? De uma viciada em fast-food para uma mamãe toda preocupada com a alimentação das filhas.
– É sério, Edward.
– Tudo bem, amor. Eu farei isso.
– Ah, – ela continuou, agora arrumando o colarinho de minha camisa – por favor, não deixe que elas destruam nossa casa, está bem?
– Sem problemas, patroa.
Ela me deu um beliscão na altura do quadril e quase saltei de dor. – Você é um estúpido mas eu te amo.
– Eu também te amo, baby – sibilei, antes de juntar nossos lábios em um beijo casto, afinal, nós estávamos em público e ladeados por nossas filhas. Não dava para jogá-la contra a parede e enfiar minha língua em sua boca até que ambos estivéssemos sem fôlego.
E isso, eu já tinha feito na garagem de casa, quando as meninas foram buscar seus agasalhos e nós pudemos ficar completamente sozinhos por 30 segundos .
Anunciaram o voo dela mais uma vez e Bella deixou mais um beijo em cada um de nós. – Comportem-se.
– Não esquece do meu presente, mamãe! – Elizabeth completou.
Louise aproveitou a deixa e completou – E de eu também!
– Só se vocês forem boazinhas, ok? – ela replicou, arrumando a bolsa nos ombros – E você? Quer alguma coisa, baby?
– Só você de volta. – retruquei, sentindo meu peito já se apertar de saudade. Ela ficou na ponta dos pés e se inclinou para deixar um último beijo em meus lábios.
– Volto o quanto antes, você vai ver.
Bella começou a caminhar até o portão de embarque e meu coração ficava cada vez menor a cada passo de distância que ela colocava entre nós. Ela nos olhou por cima do ombro mais uma vez antes de acenar levemente, fazendo com que nossas meninas retribuíssem o gesto freneticamente. Permanecemos os três ali, até que ficou impossível conseguir ver a forma de minha mulher através das grossas portas da sala de embarque.
Suspirei pesadamente e peguei a mão de cada uma de minhas garotas. – Vamos, meninas. Nós temos um montão de coisas para fazer.
Lizzie abriu um sorriso travesso, eu só podia imaginar o que se passava por aquela cabecinha. – O que é que a gente vai fazer agora, papai?
Comecei a caminhar em direção ao estacionamento, diminuindo minhas passadas largas para pequenos passos para que elas pudessem me acompanhar. – Bem, agora nós vamos no mercado porque não temos nada para comer em casa.
Senti um puxão na barra da minha camisa, e olhei para baixo para ver minha pequena me encarando com seus olhos de chocolate. – A gente pode comprar pizza?
Por mais que eu odiasse negar qualquer coisa para ela, eu precisava ser pai de vez em quando. – Bebê, você ouviu o que sua mãe disse, não foi?
– Mas é só uma pizzazinha de nada, papai! – Elizabeth comentou, me olhando de um jeito que deveria ser injusto para qualquer um.
Destravei a porta do carro e carreguei cada uma delas para o banco traseiro e me certificando que elas estivessem bem presas em suas cadeirinhas. – Eu vou pensar no caso. – respondi casualmente, e fui agraciado pelos gritinhos empolgados daquelas duas meninas.
E por mais que isso fosse estranho para mim, que nunca tolerei muito bem o fato de mimar uma criança, não pude deixar de sorri comigo mesmo, tendo em mente que não existia nada que me impedisse de fazer alguma coisa para ver aquelas duas criaturinhas sorrindo.
[...]
Depois de uma guerra para saber quem iria ficar dentro do carrinho de compras, eu consegui pegar tudo o que precisaria para sobreviver durante aquele fim de semana sem Bella. Após ter andado o supermercado inteiro, a parte mais crítica da empreitada havia chegado: enfrentar a fila em um daqueles malditos corredores da entrada para o caixa, abarrotado de guloseimas. Eu quase enlouqueci na espera, tendo Lizzie e Lola me interrogando a cada trinta segundos se elas poderiam levar algum chocolate de terceira que tinha a porcaria de um desenho bem chamativo na cor rosa, mas como Bella havia pedido, resisti bravamente.
Ou quase.
Paguei pela compras, colocando todos os pacotes em meus braços enquanto as meninas seguiam à minha frente se lambuzando com um salgadinho de soja que havia comprado para elas. O gosto não era um dos melhores, porém minha consciência não estava tão pesada, uma vez que este era um pouco mais saudável do que os voltados para o público infantil.
Já estava praticamente no porta-malas do carro quando ouvi a voz de uma mulher chamando – Edward Cullen?
Virei-me para o lado e me deparei com uma loira siliconada, de rosto não muito estranho, vindo em minha direção. Ela ostentava um sorriso enorme em seu rosto, andando com um rebolado exagerado que chegava ao ponto de ser engraçado. Coloquei algumas das compras no teto do veículo, tentando me lembrar de onde eu a conhecia.
– Oh meu Deus, há quanto tempo não nos vemos! – ela exclamou e me pegou de surpresa me puxando para um abraço.
– Olá... – murmurei ao retribui o gesto formalmente, tentando processar em minha mente quem diabos era essa pessoa. A mãe de um antigo paciente? Alguma enfermeira com a qual eu havia trabalhado? Amiga de algum dos meus irmãos?
– Quem é essa, papai? – escutei a vozinha de Lola me interrogar a medida em que eu me afastava daquela desconhecida.
– Err... essa é...
A mulher formou um biquinho com seus lábios, a expressão perfeita da decepção. – Você se esqueceu de mim, Eddie?
Fiquei sem jeito ao coçar minha nuca e lhe dizer – Desculpe, mas sinceramente eu não consigo me recordar.
- Sou eu, Lauren! Lauren Mallory!
Mallory, Mallory, Mallory. Porque a porra desse nome não me era estranho? Eu me perguntava, sem parar de encarar aquela estranha que estava começando a me assustar.
– Baile do segundo ano, – ela murmurou parecendo receosa. – Você foi meu acompanhante e depois nós... – acrescentou, erguendo as sobrancelhas sugestivamente.
Como um estalo, eu me lembrei: Lauren Mallory, que havia estudado comigo no ensino médio aqui em Seatlle. A líder de torcida mais desejada da classe, que tinha mania de ir pro vestíario do time de futebol e chupar os caras depois do jogo. E bem, eu também não escapei de sua boca depois do baile, onde pude comprovar a razão do seu apelido nos tempos de colégio.
– Lauren Engole Tudo? – Senti meu rosto esquentar de constrangimento quando percebi que tinha dito essa porra em voz alta.
– A própria. – Ela respondeu enquanto um sorriso de satisfação se desenhava nos lábios dela.
– Er... bem, é... olá Lauren, – retruquei sem fazer ideia da merda que estava dizendo. Notei outro puxão na barra da minha camisa e olhei para baixo para vez Lizzie com as mãos na cintura minuscula.
– Papai, quem é essa? – ela perguntou de forma tão séria, que seria cômico se não fosse trágico.
– Essa é Lauren, uma... colega do papai da época em que eu estava no escola. – murmurei, querendo arrumar uma desculpa urgente para fugir o quanto antes dali.
– Oh meu Deus, essas duas coisinhas lindas são suas? – ela praticamente soltou um grito de empolgação fingido pra cacete. Ela se agachou na frente das meninas para apertar as bochechas de cada uma antes de comentar – Oh, Edward, deve ser tão difícil ser pai solteiro...
Antes que eu pudesse perguntar que merda ela quis dizer com aquilo, Lola soltou um espirro alto, sujando de saliva o rosto de Lauren, que se afastou imediatamente de minha filha. Mal registrei o rosto de choque daquela mulher, devido ao fato de já estar preocupado com minha menina.
– Lola, bebê, você está bem? – perguntei ao me aproximar dela.
Ela fungou antes de murmurar – Eu acho que... atchim!... essa moça... atchim!...Dá alergia em eu.
– Alergia? – A mulher e eu perguntamos ao mesmo tempo porém minha filha não pode dizer mais nada por que simplesmente os espirros a impediam.
– Papai, eu acho melhor a gente ir. – Lizzie acrescentou. - A bombinha dela tá em casa com a mamãe.
Durante aquele momento, meu cérebro trabalhava com o intuito exclusivo de proteger minha filha. Joguei as compras de qualquer jeito dentro do porta-malas e em seguida, prendi as meninas no banco traseiro. Virei-me para a loira que ainda limpava seu rosto com a manga da blusa que usava, com um ar de nojo que poderia ter me feito rir em outras circunstâncias.
– Desculpe por isso, Lauren. – retruquei o mais rápido possível. – Louise é alérgica a quase tudo e a mínima coisa pode desencadear uma crise asmática nela.
– Tudo bem, Eddie... Mas será que eu poderia pegar seu telefone, só para não perdemos o contato?
Antes que conseguisse arrumar uma desculpa educada o suficiente, Elizabeth colocou a cabeça do lado de fora da janela e gritou. – Papai, vem logo porque a Lola tá ficando roxa!
– Caralho! Desculpe, Lauren. – comentei de sopetão e fui direto para o volante, dando partida no Volvo.
Fui rápido ao manobrar, acelerando diretamente para a saída do mercado, pouco me lixando se eu estivesse quebrando algumas regras de trânsito por conta disso.
No entanto, não precisei nem sequer virar a esquina para perceber que a súbita crise da minha filha havia parado. Olhei pelo espelho e percebi que ambas as garotas tinham as mãos sobre suas bocas, tentando segurar seus risinhos entusiasmados. Só então eu me dei conta que Louise teve uma reação alérgica a uma "pessoa". Não comentou do perfume, como já acontecera antes, ou de uma poeira ou seja lá o que fosse. Sua alergia foi a Lauren.
Aquilo me intrigou pra cacete; e sem contar que Elizabeth fez questão de ressaltar que Bella estava em casa, algo que era uma mentira deslavada. Mesmo que no fundo eu estivesse verdadeiramente agradecido, não poderia deixar de interrogar.
– Lizzie, amor, porque você mentiu para aquela moça lá no estacionamento?
Ela abriu um sorriso e comentou. – Foi a mamãe que mandou!
– A mamãe?
– Humrum.– ela assentiu – Mamãe disse que Papai do Céu não ia ficar triste se a gente contasse uma mentirinha pra não deixa as mulher ficar querendo te agarrar.
– Mas que mer...– engoli o palavrão antes de completar – Bem, como foi que ela explicou isso?
– Ela disse que a gente tinha que te proteger. – minha filha mais velha comentou como se fosse uma banalidade, pegando uma das bonecas que havia na bagunça do meu carro.
– E aí, – Lola continuou – ela dizêu pra gente que se uma mulher feito Barbie ficá pertinho de você, era pra eu dizê que tava dodoi.
– Mas e então? Depois de ficar dodói, o que era para acontecer? – inquiri, fazendo uma curva e entrando na avenida principal que nos levaria de volta para o nosso bairro.
Lizzie abriu um sorriso sabichão e concluiu – Mamãe falou que era pra eu te dizer que ela tava lá em casa te esperando com o remédio da Lola!
Sinceramente, a única coisa que eu pude fazer foi gargalhar, alto pra cacete. Não sabia se eu ria mais da sagacidade de minha esposa, que tinha essa maneira deliciosa de ser ciumenta, ou da inocência infantil de minhas meninas que se disponibilizaram a fazer isso pela mãe.
Talvez muitos caras se sentissem sufocados por conta disso, mas eu não me incomodava. De uma forma estranha, era bom saber que mesmo depois de tanto tempo juntos, Bella ainda sentia essa necessidade de marcar território, não importando a distância que eu estava dela. Não que precisasse, afinal, eu ainda era um imbecil apaixonado por aquela morena de olhos castanhos.
– Papai, – Lola disse, após eu conseguir controlar um pouco minha risada. – Aquela mulher lá no mercado é comilona, é?
– Comilona? – eu indaguei intrigado, enquanto me preparava para trocar de faixa – Eu não sei, meu amor.
– E pu quê você dizêu que ela engole tudo?
Sério, meu despreparo para aquela pergunta de sopetão da Lola fez com que eu descontrolasse a embrenhagem, fazendo o carro dar um solavanco no meio da pista. Com isso, o carro desviou um pouco para o lado e por pouco eu não acabei invadindo a contra-mão.
– Jesus do Céu! – eu retruquei, enquanto escutava várias buzinadas de reclamação ao meu redor. – Você não pode me fazer uma pergunta dessa enquanto eu estou dirigindo, Lola!
– E pu quê, não? – ela perguntou inocente e eu quis me chutar por conseguir deixar a situação ainda pior.
– Bem, não se pode falar com alguém quando uma pessoa está dirigindo. – eu disparei, tentando fugir da situação. – É perigoso.
– Mas você conversa o tempo todo com a mamãe! E só com a gente é perigoso? – Lizzie se intrometeu, esperta demais para meu desespero.
Olhei de relance para um outdoor cheio de bichos, e imaginei que talvez aquela poderia ser minha tábua da salvação. – Quem quer ir pro zoológico amanhã?
A gritaria animada em resposta à minha pergunta veio como um alívio para mim. Escutei as meninas balbuciando milhares de planos para o dia seguinte, esquecendo por ora as respostas que eu estaria lhes devendo. Cacete, eu nunca me senti tão feliz por ser evasivo com as pessoas que eu amo!
Não importa há quantos anos eu já lide com esses pequenos, mas crianças em geral sempre arrumam um jeito de nos colocar em alguma situação constrangedora. Eu só podia esperar para que a cota para esse final de semana já tenha se encerrado com a questão da Lauren.
E também torcia para que isso nunca chegasse ao ouvido da mãe delas, ou então quem acabaria engolindo alguma coisa seria eu. Como terra e concreto por exemplo.
[...]
Eu não sei quem foi o filho-da-puta que disse que a vida de dona-de-casa era fácil. Tinha passado apenas um único dia sozinho com as minhas filhas, mas já planejava construir um altar em adoração à Bella; ela era uma santa e eu não tinha noção disso até então. Entre cuidar da casa, de duas crianças, cozinhar, se manter atualizada o suficiente para continuar escrevendo sua coluna semanal no News Tribune, e ainda manter a mesma disposição para nossas noites de amor, mesmo após ter lidado com isso o dia todo, tinha certeza de que minha mulher seria canonizada ainda em vida pelo Vaticano.
Entre ter que intermediar as briguinhas entre irmãs e organizar a bagunça que elas faziam, a sexta-feira passou sem mais problemas, exceto quando eu quase estraguei o jantar, deixando-o cozinhar além da conta. Em tese, era um refeição balanceada com carboidratos, fibras e proteínas na medida certa, algo que deixaria o meu eu como pediatra muito orgulhoso e minha mulher satisfeita por não encher nossas garotinhas de porcarias. O único problema era a aparência repugnante pra cacete.
Mas o foda mesmo foi quando chegou a hora de convencer as meninas de que aquele macarrão grudado e a papa-de-legumes estavam comestíveis. Elas fizeram careta ao enfiarem os garfos naquela gororoba gosmenta e laranja. Foi preciso usar todo o meu estoque de paciência e ainda persuadi-las com uma porção dupla de sobremesa para que comessem a refeição, que apesar de feia pra caralho, não estava tão ruim assim.
Mais tarde, depois que Bella havia ligado, eu tive a árdua missão de levá-las para a cama, coisa que não foi nada fácil depois de todo o consumo de chocolate correndo em seus sistemas. Não houve leite quente, banho morno e nem estórinha de princesa que as fizessem cair no sono. A minha única alternativa era partir para uma ação mais drástica, fazendo com que elas gastassem toda a energia acumulada pelo chocolate logo depois do jantar. E então, partimos para uma guerra de travesseiros.
Devia me sentir culpado, no entanto não conseguia me sentir assim uma vez que eu estava me divertindo tanto quando elas, espalhando todas as almofadas da casa por cada canto do quarto. Podia parecer imbecil um cara de quase quarenta anos agindo como um retardado diante de suas filhas, porém faria tudo de novo só para escutar as gargalhadas delas com cada bobagem minha.
Por fim, elas finalmente ficaram tão cansadas que mal deu tempo de fazê-las tomarem um outro banho e então, um pouco depois das onze da noite, Elizabeth e Louise caíram no sono.
Mesmo sendo tão tarde, eu estava completamente sem sono. Como não podia ligar para Bella novamente, já que ela estava três horas à minha frente devido à diferença de fuso horário, decidi responder alguns e-mails e ler algumas novidades no mundo da pediatria. Não era por que estava de férias que iria deixar de me atualizar no meu campo profissional. Na verdade, haveria um congresso no início do próximo mês, na Califórnia e eu já estava vendo a possibilidade de irmos até lá. Seria uma ótima oportunidade para as meninas verem uma praia de verdade, e não aquela coisa cinza e congelada que existia em Forks.
Mais ou menos uma hora depois, eu já não tinha mais saco suficiente para ficar encarando a tela do laptop. Desliguei o equipamento e resolvi zapear por alguns canais no televisor. Sabia que precisava descansar, no entanto, minha mente não desligava para que eu pudesse finalmente ceder ao sono. A cama estava fria e isso não a deixava apelativa para mim, já que sentia falta da pessoa que dividia o leito comigo há tanto tempo. Meu corpo e minha mente estavam sentindo a falta de Bella ao meu lado, e eu cheguei a conclusão de que não conseguiria dormir nem tão cedo.
[...]
Depois de ter passado praticamente toda a madrugada em claro, uma vez que tinha ido dormir as quatro da manhã, fui acordado por duas molecas pulando na cama, me lembrando de que eu tinha prometido que as levaria ao zoológico. Eu estava acabado, mas estampei um sorriso no rosto e levantei da cama, começando a nos preparar para mais essa empreitada.
Cinco copos de café, dois rabos-de-cavalo mal feitos e vários pedidos de "apressem-se" depois, consegui levar minhas meninas para o jardim que ficava bem no centro de Seatlle. Foi engraçado ver as reações de cada uma diante de cada bicho diferente que elas viam, desde os pequenos primatas até os grandes felinos. Lola, acho que talvez pelo fato de ser muito envergonhada, não teve coragem de alimentar os pinguins, preferindo se esconder atrás de minhas pernas. Já Lizzie, que sempre foi mais corajosa pareceu se divertir bastante fazendo aquela tarefa, sempre sendo tão destemida.
Saí de lá com alguns dólares a menos, uma vez que as meninas tinham descoberto alguns bichinhos de pelúcia que eram vendidos com a intenção de arrecadar fundos para a manutenção do parque. Já que eles eram hipoalergenicos, eu não vi mal nenhum em mimar um pouco mais minhas garotas e ao mesmo tempo ajudar uma boa causa. Nós tivemos cachorros-quente e refrigerante para o almoço, onde as fiz prometerem que este seria nosso segredo, afinal de contas, se Bella soubesse que eu havia dado comida de rua para nossas filhas, definitivamente eu dormiria na casinha do cachorro.
E olha que nós nem sequer tínhamos um cachorro.
O restante da tarde passou tranquilamente, uma vez que eu tinha colocado todas as porcarias de filmes de princesa para que elas assistirem. Para minha sorte, elas pareceram bastante entretidas com aquelas porcarias, o que me deu tempo suficiente para não queimar o jantar desta vez. Estando tudo pronto, deixei tudo mais ou menos arrumado para ter que somente esquentá- lo quando fosse a hora e fui para a sala com um pote de pipoca ao meu lado.
Lá, vi que Elizabeth tinha dormido, e estava encolhida em um canto do sofá,enquanto Louise continuava prestando atenção no televisor a sua frente. Sentei-me entre elas e puxei a mais velha para pousar sua cabeça em meu colo, para depois esticar meu braço e puxava a mais nova para o meu lado. Algum tempo depois, quanto estávamos na metade de um dos filmes que falava de um sapo e uma princesa, percebi que a respiração de Louise estava alterada; algo como um leve chiado que sempre acontecia antes de ela entrar em crise.
Aproximei meu ouvido de seu rosto, onde constatei que havia algo de errado por ali. – Lola, você está sentindo alguma coisa?
Ela negou, me empurrando para o lado e voltando a prestar atenção no filme –Eu tô boa, papai.
– Louise Janis...
Ela virou seu rostinho para mim, fazendo uma careta adorável. – Eu tô bem, paizinho. Num tô sentindo nadinha.
Respirei fundo quando me encontrei diante do dilema entre acreditar no que minha filha dizia ou confiar no médico que existia dentro de mim. Contudo, bastou apenas uma única frase dela para que eu tomasse minha decisão.
– Pu favô, papai, – ela pediu baixinho, quase que choramingando. – Não coloca eu pra respirá lá na fumacinha... Eu num quero.
E porque eu era um molenga de primeira, não pude resistir àquele pedido. Louise já estava crescendo e com isso, sabia que ela mesma poderia "prever" uma nova crise chegando. Então, por ora, não faria com que minha pequena passasse por um desconforto só porque talvez eu estivesse exagerando na minha super proteção. Só esperava não me arrepender desta decisão.
[...]
Depois do jantar, as meninas como sempre estavam esperando por alguma brincadeira. Eu estava morrendo de sono e sem a mínima disposição para alguma atividade, porém, depois de escutar Lizzie propor abrir a porta do freezer para gelar a cozinha e imitar Frozen, resolvi intervir. Decidi que seria legal mostrar para as duas as estrelas, coisa que eu era meio fissurado quando era criança. Na minha opinião, essa era uma atividade que não exigiria tanto como a da noite anterior, onde tive prejuízo com algumas almofadas. Peguei uma manta velha no armário e a estendi no meio do quintal, onde fiquei deitado com cada uma das garotas ao meu lado, tentando relembrar as constelações que eu conhecia e apontar para elas.
– Papai, pu quê as estrelinhas só aparece de noite? – Louise perguntou, seus olhos castanhos bastante atentos no firmamento.
– Elas estão o tempo todo no céu, bebê. – expliquei – Mas nossos olhos só consegue vê-las no escuro, porque de dia, o sol meio que tapa elas por causa da claridade.
– Verdade?
– Humrum.
Lizzie mudou para uma posição sentada, e indagou. – É verdade que quando uma pessoa morre, ela vai pro céu e vira uma estrelinha?
Intrigado pela pergunta dela, eu indaguei. – Quem te disse isso, filha?
– Lembra quando a mamãe da tia Rosie morreu? A Pauline disse que a vovó dela tinha virado uma estrelinha.
– Nossa, e tem esse tantão de gente morrida lá no céu? – Lola se intrometeu, com muita curiosidade. – E pú que as pessoas morre, papai?
Aí caralho… Pergunta existencial agora não!
Para minha sorte, o telefone tocou naquele instante e nunca fui tão grato por uma interrupção.
– Venham até os degraus da varanda, meninas. – comandei, enquanto me levantava. – Papai só vai ver quem está ligando e volta em um instante.
Observei minhas filhas me obedecendo e sentarem o primeiro degrau que dava acesso ao quintal, olhando para mim ansiosas. Acenei brevemente e parti para a sala, em busca do maldito aparelho.
– Alô? – eu atendi, sem nem me preocupar em olhar a agenda no visor.
– ATCHIM!
Eu ri – Boa noite pra você também, mãe.
– Oh, Edward, me desculpe. – minha mãe perguntou com a voz fanhosa.– Só liguei para saber como vocês três estão.
– Bem, estamos vivos ainda. E a casa também não tem grandes danos.
– O que deve ser milagre. Nunca pensei que me filho mais organizado pudesse ficar tão bagunceiro depois de velho.
– Eu não tô velho. – reclamei como sempre fazia quando alguém questionava minha meia idade – E a bagunça foi um hábito adquirido com a Bella, então você tem que reclamar com ela.
– E por falar na minha nora, Bella está bem? Você já falou com ela agora à noite?
– Não, o show é hoje, lembra? A essa altura ela já deve está escutando a porra da música velha desgraçada.
– Edward, não foi assim que eu te eduquei!
– Desculpe, mas você sabe que eu tenho razão.
– Tem certeza de que você não precisa de qualquer coisa? – minha mãe insistiu com a voz esganiçada para logo em seguida ser acometida por uma crise de tosse.
– Não, mãe. Tenho tudo sob controle aqui em casa. Não precisa se preocupar.
– As meninas estão aí ao seu lado? Será que eu poderia falar com elas?
– Elas estão lá fora no quintal, mas eu posso chamá-las para você.
– No quintal a essa hora?! – A voz de Esme gritou do outro lado da linha–Você tem noção do perigo de deixá-las lá a essa hora da noite?!
Rolei os olhos para todo o seu drama. – Mãe, eu estava lá ao lado delas até agora e o tempo está agradável, não está frio. Eu só saí para vir atender a porcaria desse telefonema.
– Sim Edward, só que nesse exato momento, você as deixou sozinhas no meio de um lugar escuro! Como eu não posso ficar preocupada?
– Eu pedi que elas ficassem na varanda dos fundos me esperando.
Ela bufou antes de voltar a me questionar – E conhecendo suas filhas, você realmente acredita que elas estão lhe obedecendo?
Olhei de relance pela janela e de fato percebi a ausência das meninas. Segurei a ponte do meu nariz, tentando não ficar com raiva de minha mãe – Isso quer dizer então que eu posso encerrar a ligação e ir ver o que elas estão aprontando?
– Você já deveria ter feito isso! Desligue agora mesmo esse telefone e vá vê-las! – Esme sibilou e por si mesma pôs um fim naquele telefonema.
– E para que diabos você ligou, mãe? – resmunguei para mim mesmo, colocando o aparelho de volta no suporte e partindo mais uma vez lá para fora.
Ao chegar na varanda, não encontrei por perto nem Lizzie e nem Lola, exatamente como minha mãe previra. Caminhei pelo quintal, apanhando a lanterna e a manta que estavam lá, a medida que tentava enxergar um pouco além do que a escuridão permitia.
Começando a ficar preocupado por não conseguir vê-las, eu falei – Meninas, onde estão vocês? – no entanto, o único som que me saudou foi o canto de alguma coruja que havia por perto.
Joguei de todo jeito a manta no alpendre e decidi dar uma volta ao redor da casa, só para ver onde as duas teriam se escondido.– Papai não está afim de brincar de esconde-esconde, meninas! Apareçam agora!
A falta de suas risadinhas naquele silêncio escraboso era preocupante; sinal óbvio de que elas não estavam por perto. De repente, meu ritmo cardíaco aumentou, e as minhas passadas ficaram mais rápidas a medida que minha mente tentava averiguar todos os locais possíveis onde duas crianças com menos de 1,20m pudessem se esconder.
Assim que cheguei de volta ao ponto de partida, escutei um grito vindo de trás da macieira que havia no nosso quintal. Aquele som, que parecia mais um pedido de socorro fez com que minhas pernas acelerassem naquela direção a medida que meu peito começava a se apertar só imaginando o que poderia ter acontecido.
– Elizabeth, Louise, onde estão vocês? – Eu gritei, enquanto me aproximava da cerca-viva que separava o nosso quintal com o do nosso vizinho, o Sr. Marchall. Ele era um velho viúvo meio excêntrico que vivia para cultivar flores e cuidar dos gatos de sua falecida esposa, mas que adorava minhas filhas, sempre enchendo-as de doces e presentes.
– Elizabeth Audrey e Louise Janis! Alguma de vocês apareça agora!
Nesse meio tempo, vi Lizzie se arrastando por uma abertura por baixo muro de plantas, – Papai, vem logo! A Lola tá ficando dodói!
Ao chegar mais perto, pude perceber que minha filha estava tendo uma crise asmática, ao notar os chiados e a dificuldade com que arfava para conseguir respirar. Voltei-me para Lizzie, que tinha seus olhos amplos e assustados. – Fique exatamente aqui, mocinha! – eu sibilei, antes de pular a cerca, sem me importar de estar invadindo uma propriedade alheia.
Eu a peguei em meu colo imeditamente, ofegante e mais pálida do que o normal. No mesmo instante, quis me chutar mentalmente por não ter confiado em mim mesmo e ter feito a maldita nebulização no início da tarde
– Pa-pai... num... consigo... res-...pi-pirar.
– Shhh, bebê, acalme-se. – eu murmurei, meio que para nós dois. – Onde está sua bombinha?
Foi a voz de Lizzie que me respondeu do outro lado da cerca – A gente deixou lá em casa, papai. Quer que eu vá buscar?
– Fique exatamente onde você está, Elizabeth! – respondi de volta, já com raiva porque a conhecia o suficiente para saber que ela havia aprontado das suas.
Sem ter muito mais o que fazer, acomodei Lola da melhor forma em meu colo e decidi atravessar a cerca assim mesmo, não me importando com alguns arranhões que levaria enquanto destruía o trabalho de anos do meu vizinho. Quando já estava do outro lado, peguei a mão de Lizzie e voltei apressado para casa, sentindo a respiração da minha caçula vindo curta e rápida de encontro ao meu pescoço.
Nunca a distância do final do nosso terreno até a porta dos fundos pareceu tão longa; por mais que eu tentasse acelerar meus passos, eu trazia Elizabeth à reboque, que praticamente corria para me acompanhar e acabava tropeçando por conta disso. Por fim, acabei arrumando Louise em um dos meus braços e trouxe Lizzie para o outro. Subi os três degraus que davam na varanda e chutei a porta da cozinha com força para podermos entrar.
Lá dentro, coloquei as duas meninas em cima da mesa e comecei a procurar o aparelho para nebulização que ficavam na cozinha. Abri a pequena maleta de remédios que havia em cima do armário e preparei a solução necessária para amenizar a crise respiratória dela. Arrastei uma cadeira e puxei-a para o meu colo, onde pude colocar a máscara sobre sua face e esperar para que finalmente sua crise melhorasse e sua respiração voltasse ao normal. Lizzie apenas se mantinha observando todas as minhas condutas com os olhos espantados, apesar de já ter visto a irmã em uma situação parecida como esta anteriormente, ela não conseguia deixar de ficar aterrorizada, assim como todos nós.
Ao observa-la tão assustada, eu me lembrei que deveria haver alguma razão para ter acarretado aquela crise em Louise. Tentando parecer o mais calmo possível, eu pedi. - Elizabeth, você pode me contar o que aconteceu lá fora?
Ela mordeu o canto de sua boca antes de respirar fundo e dizer – A gente só queria brincar um pouquinho, papai…
– Não foi isso o que eu lhe perguntei, mocinha! – a cortei rapidamente. – O que vocês duas estavam fazendo no quintal de nosso vizinho?
Seus olhos ficaram cheios de água e seu lábio inferior começou a tremer, no entanto, minha súbita ira me impediu de que eu amolecesse diante daquela cena. – Eu só quis mostrar pra Louise o novo gatinho do Sr. Marshall, papai. Mas aí o gatão preto e malvado apareceu na frente da gente e aí porque tava escuro, ela teve um susto e começou a ficar assim.
Não houve maneira alguma de que eu pudesse controlar minha raiva e acabei descarregando tudo ali mesmo. falando mais alto do que pretendia – E você acha que o que você fez foi certo, Elizabeth? – comecei, vendo as primeiras lágrimas descerem pelo rosto dela – Você invadiu o quintal de alguém no meio da noite, levando sua irmã que é alérgica a gatos só para ver a porcaria de um filhote? É assim que você promete que irá cuidar de sua irmãzinha?
Com o rosto abaixado, olhando para o chão, ela começou a soluçar baixinho – Eu num quis...
– Você está de castigo! – eu trovejei. – Vá para o seu quarto, troque de roupa e vá dormir agora mesmo!
– Mas papai…
– Suba agora, Elizabeth!
Seu choro ficou mais evidente, porém Lizzie fez exatamente o que eu tinha dito, partindo da cozinha com a face voltada para o chão. No mesmo instante, me arrependi amargamente do que havia dito, uma vez que eu tinha sido muito duro com uma criança de apenas cinco anos. Contudo não podia voltar atrás nas minhas palavras, por enquanto. Pelo menos por ora, enquanto tinha Louise em meu colo lutando para conseguir respirar um pouco melhor.
Aos poucos, a medicação começou a fazer efeito e a respiração de minha filha foi se acalmando. Em consequência, seus olhinhos foram ficando pesados e seu corpo menos alerta sobre o minhas pernas. Por via das dúvidas, deixei-a respirando durante o tempo indicado até que finalmente percebi que o ritmo da sua respiração havia se estabilizado outra vez.
Retirei a máscara de seu rosto, enxugando excesso de líquido que havia se acumulado ao redor de sua boca e nariz após a inalação. Logo após ter guardado de volta tudo o que tinha utilizado, eu vi Louise com os bracinhos esticados me pedindo para carregá-la, o que fiz no mesmo instante. Ela deitou seu rosto sobre o meu ombro e eu comecei a acariciar suas costas levemente.
– Disculpa, papai. Eu num queria ficá dodói.
– Eu sei, bebê. – murmurei, ninando-a em meus braços. – Você não tem culpa de ficar assim.
Fomos até seu quarto onde coloquei seu pijama e a levei-a para a minha própria cama, só por precaução, uma vez que eram raras as vezes em que ela tinha crises respiratórias sucessivas. Pousei seu corpo ssobre os lençóis, ainda trêmulo pela medicação,mas ao mesmo tempo quase inerte pelo esforço de tentar respirar melhor e afastei os grandes fios acobreados de sua face.
– Papai? – Lola me perguntou com a voz sonolenta.
– Sim, filha?
– Num fica brabo com a Lizzie não.– ela me pediu, e o remorso que já me consumia pareceu triplicar de tamanho. – A culpa foi de eu. Só queria ver o filhotinho...
– Eu sei, meu amor. Já passou. – sussurrei, colocando um beijo em sua testa. – Só nunca mais faça algo parecido com isso, entendeu?
Seu leve assentimento foi o último gesto que eu vi, antes que Lola caísse em um sono profundo. Liguei a babá eletrônica, deixando o aparelho bem próximo dela enquanto carregaria a outra peça comigo para o quarto de Lizzie. Afinal, eu havia machucado o coração de uma outra garotinha e nem sabia o que fazer para arrumar a merda que havia feito.
Eu me senti péssimo por ter falado rudemente com Elizabeth; ela tinha apenas cinco anos e não merecia ter esse tipo de responsabilidade, como tomar conta da irmã mais nova. Afinal, eu deveria ser o adulto ali, uma vez que era o pai delas. Porém, tinha feito a merda de ter deixado as duas sozinhas do lado de fora da casa quando já havia escurecido. E para completar, descarreguei todo o estresse da situação em uma menina inocente que ainda nem sequer sabia amarrar seu próprio tênis.
Eu era um pai de bosta.
Respirei fundo e abri a porta do quarto de Elizabeth, me preparando mentalmente para me desculpar com a minha garotinha. No entanto, eu nunca esperei encontrar a cena que vi se desenrolando ali dentro.
Lizzie, que continuava chorando, estava vestida com uma calça jeans e jaqueta pesada e com uma sacola de compras do Target em cima da cama, abarrotada com suas roupas e brinquedos. Fiquei observando sua ação pelo vão da porta por um tempo, intrigado pela forma com que ela fazia tudo aquilo.
Não aguentando mais de curiosidade, eu perguntei – Elizabeth, o que você está fazendo?
Finalmente, minha filha percebeu a minha presença, titubeou por dois segundo mas por fim continuou retirando suas roupas do guarda-roupas. – Eu vou embora! Vou fugir de casa e nunca mais, nunquinha vou voltar pra cá!
Lizzie definitivamente era uma Cullen. A tendência para o drama só constatava ainda mais esse fato.
Finalmente entrei no quarto e me sentei na cama, ao lado da sacola de compras. – Eu acho que nós precisamos conversar antes disso, filha. – comentei, observando seus movimentos agora no baú de brinquedos no canto do seu quarto.
– Eu num q-quero conversá! Vo-você g-gritô com-migo, e, e fez eu chorá! –Ela gaguejou, as lágrimas descendo mais forte pelo rosto fazendo meu coração se apertar em meu peito.
Não aguentando mais, fui até perto dela e a puxei para um abraço, fazendo com que Lizzie chorasse ainda mais forte contra o meu peito. – Me desculpe, princesa. – eu comecei sem jeito – Papai foi um bobão por ter gritado com você. Eu não devia ter deixado vocês duas sozinhas lá fora e nem ter te culpado por conta do que aconteceu com a Louise.
– Foi a Lola que q-queria ver o ga-ga-tinho, papai. Eu ia buscar e voltá ra-rapidinho, mas aí a boboca veio atrás de mim.
Lizzie se afastou minimamente e pude perceber seus cílios molhados pelas lágrimas que desciam livremente por sua bochecha rosada, ao mesmo tempo que suas mãos pequenas tentavam afastá-las. E eu estava com raiva de mim mesmo por ter sido quem provocara sua tristeza
Passei meus polegares sobre sua face, enxugando um pouco do seu choro. – Você não deveria ter saído da varanda, Lizzie. Fiquei preocupado quando não vi nenhuma de vocês por lá.
Como ela continuou apenas fungando, eu acrescentei – Você não faz ideia de como eu ficaria se eu perdesse alguma de vocês. Você e sua irmã, são as pessoas mais importantes do mundo inteiro para mim, Lizzie.
– Verdade?
– Sim, meu amor. Eu te amo.
– Eu também te amo, papai. – ela murmurou baixinho, me abraçando com toda a força que existia em seus pequenos bracinhos.
– Você me perdoa por ter gritado com você? – eu inquiri com um sorriso.
Ela assentiu e depois retrucou. – Eu também num quero fugir mais de casa, papai. Quero fica aqui com você e a Lola.
– Tudo bem, Lizzie. – eu sorri,antes de beijar sua face molhada.
Quando eu pensei que o pior tinha passado, o rosto da minha menina voltou a ficar enrugado e um soluço desencadeou escapou de seus lábios. E para o meu grande desgosto, do nada minha filha começou a chorar novamente.
– O que foi, meu amor?
– Eu quero a mamãe! – Lizzie disparou, se agarrando ao meu pescoço e voltando a chorar alto, o que me deixou completamente desnorteado.
– Shhh, princesa. Amanhã ela estará aqui com a gente.
– Eu tô com saudade dela, papai. – ela choramingou contra o meu ombro.
– Eu também, filha, mas amanhã ela estará de volta. – para o bem da minha sanidade, acrescentei mentalmente.
– Promete? – ela perguntou, erguendo seu dedo mindinho em minha direção.
Entrelacei meu dedo ano dela, deixando um pequeno beijo lá. – Prometo. Agora, que tal se trocar, colocar o pijama e ir dormir lá no meu quarto?
– Eu posso mesmo?
– É claro, princesa.
– Yaaay! – E no mesmo instante ela saiu correndo do meu abraço e foi até a bolsa aberta em cima da cama, caçando de volta o seu pijama e o vestindo sem cerimônias, deixando a roupa anterior jogada pelo chão.
Jesus, sério que com cinco anos minha filha já era temperamental desse jeito?! O que seria de mim quando ela chegasse na adolescência?!
Não tive coragem de fazer com que Lizzie reorganizasse a bagunça que havia ficado em sua cama e preferi deixar para arrumarmos tudo amanhã, antes que Bella voltasse para casa. Carreguei Elizabeth em meu colo e fui em direção ao meu quarto e, ao chegarmos lá vimos que Louise continuava a dormir tranquilamente, como eu a havia deixado. Devagar, pousei Lizzie no centro da cama, com cuidado para não acordar a sua irmã, que tinha um sono muito leve.
– Eu só vou trocar de roupa. – falei, depois que ela já tinha puxado um dos travesseiros. – Tente não fazer barulho, ok?
– Tá bom, papai. – Ela sussurrou de volta, me fazendo sorri.
Deixei outro beijo em sua testa e parti para o banheiro, onde tomei o banho mais rápido de toda a minha vida. Conclui o processo escovando os dentes e pegando a camiseta e o calção velhos que usava para dormir desde sempre, e parti de volta para o quarto onde minha garota ainda esperava acordada. Ela me olhava com um sorriso travesso e eu podia notar suas pernas balançando por debaixo do lençol, provavelmente ansiosa por dormir em um lugar diferente por essa noite.
Apaguei as luzes, e fui me deitar no meio da cama, e aquele mínimo movimento fez com que Lola rolasse para o lado e se aninhasse contra a lateral do meu corpo, voltando a dormir no mesmo instante. Lizzie imitou o gesto da irmã, vindo também se aconchegar perto de mim, que as abracei com força, me sentindo em paz tendo-as tão perto
– Papai? – Lizzie sussurrou, atrapalhando o silêncio do quarto.
– Sim, filha?
– A mamãe vai voltar mesmo amanhã né?
– Sim, amanhã, gatinha. – respondi com um sorriso, ao perceber que menos de 20 horas me separavam da minha esposa.
– Será que ela vai se lembrar de comprar meu presente?
- Eu não sei, Lizzie. - respondi, fazendo cafuné em seus cabelos - Pode ser que a mamãe não tenha tempo de fazer essas coisas. Eu acho melhor você não ficar esperando afinal você já tem uma montanha de brinquedos lá no quarto, não é?
- Ah, é...
- Vamos dormir, Lizzie. Boa noite.
- Boa noite, papai.
Nem um minuto depois, o silêncio do quarto foi interrompido outra vez - Papai?
- Hum, Elizabeth?
- Depois que a mamãe chegar, a gente pode ir pra casa da vovó Esme?
- A vovó está dodói, lembra? Só depois que ela melhorar.
- Ah é...
Dei um último beijo em sua testa antes de dizer - Agora chega de conversa, princesa, porque se continuarmos desse jeito tenho certeza de que sua irmã vai acabar acordando.
- Tá bom. Boa noite, papai.
- Tenha bons sonhos, meu amor.
Enfim, não sei se foi o fato de não ter conseguido dormir na noite anterior ou se era a presença daquelas duas criaturinhas, que eram parte da mulher que eu amava, ali na minha cama, só sei que fui sucubindo ao cansaço, onde o sono foi me tomando por completo. Fechei os olhos, respirando fundo e relaxei ainda mais ao sentir o cheiro infantil de minhas meninas.
Tê-las ali, seguras em meus braços, significava absolutamente tudo para mim. E amanhã, minha vida estaria ainda mais completa com a chegada da minha esposa.
[...]
BPOV
Foram seis horas em uma poltrona pequena de avião, tendo que ficar entre uma senhora que deveria ter incontinência urinária e um homem com mal-hálito; contudo eu não me importei. Se essa era minha chance de chegar várias horas mais cedo em casa, eu passaria por qualquer desconforto só para ficar mais perto das razões de minha existência.
Eram cinco da manhã, o dia ainda estava escuro pelas ruas de Seattle, a cidade que desde que eu fora para a faculdade havia se tornado meu lar. Foi aqui que Edward e eu resolvemos recomeçar nossa relação e onde as maiores surpresas de nossas vidas haviam nascido. Olhava ansiosa pela janela do táxi, e a cada rua que passava, eu me sentia cada vez mais próxima de onde meu coração se encontrava.
Não tinha sido fácil me afastar das minhas filhas; desde que elas nasceram, nunca tinha as deixado longe de mim por mais de algumas horas, quando Edward e eu necessitávamos de um tempo sozinhos. No entanto, eu nunca tive nenhum dos três longe de mim por tanto tempo e por causa disso, fiz questão de trocar minha passagem de volta assim que cheguei em Nova York. Gastei alguns dólares a mais e praticamente tive que sair correndo até o aeroporto assim que acabou o show no Madison Square Garden. Mas eu tinha certeza que tinha valido a pena.
Finalmente, o carro tinha entrado na rua onde moro e eu apontei para o taxista a localização correta de minha casa. Paguei pela corrida e o motorista foi gentil ao levar a minha mala até a varanda, onde cacei as chaves dentro de minha bolsa até encontrá-las e abri a porta de entrada.
Assim que entrei em casa, rolei meus olhos ao perceber alguns copos e uma tigela enorme pousadas no centro da sala. Não sabia dizer se era meu vício em bagunça que havia passado para o meu marido ou se isso era algo herdado pelas minhas filhas;
Subi as escadas rapidamente, uma vez que tinha deixado todas as minhas coisas no andar de baixo. No corredor, abri a porta à direita, que era o quarto da minha pimpolha mais velha, porém a única coisa que eu vi pousada em cima da cama de minha filha foi uma mochila plastica e um monte de roupas espalhadas por lá. Suspirei porque eu conhecia aquela cena. Elizabeth tinha tentado fugir. De novo.
Sai dali e fui em direção ao quarto de Lola, sabendo que provavelmente Lizzie tinha ido dormir ali, como ás vezes acontecia. Eu era grata como mãe por minha filhas serem tão grudadas, mesmo que houvessem momentos em que fosse quase infernal apartar as brigas entre as duas. Porém, qual foi a minha surpresa ao entrar no quarto e ver a cama da minha caçula intocada.
Naquele instante, milhares de coisas passaram por minha cabeça; Edward tinha um sono pesado e quem sabe lá o que poderia ter acontecido com as garotas enquanto ele dormia. Lizzie, por ser tão atrevida, poderia ter convencido Louise a sair de casa como pelo visto, ela tinha planejado.
Já preocupada, sai do outro quarto e fui imediatamente acordar Edward. Se algo tivesse acontecido com nossas meninas, só ele seria capaz de pensar racionalmente naquela situação. Apressei meu passos em direção ao nosso quarto e percebi minha mão já trêmula enquanto eu abria a maçaneta No entanto, toda a preocupação que havia começado a se instalar em mim foi imediatamente apaziguada quando eu olhei para a cama.
As três cabeças ruivas que eu tanto amava dormiam abraçadas uma a outra. Meu marido tinha os braços envolvidos protetoramente em torno de cada uma de nossas filhas, que dormiam calmamente com as cabecinhas pousadas no estômago dele. E, por mais incrível que fosse, nem mesmo o ressonar suave dele conseguia despertar aquelas duas coisinhas preciosas em minha vida.
Permaneci no mesmo lugar, apenas apreciando aquela cena. E enquanto admirava aquela imagem tão linda do pai de minhas filhas, eu não podia deixar de pensar o quão acertada foi a minha decisão de ter adiantado o meu voo. Nada valia mais do que chegar mais cedo em casa e me deparar com aquilo depois de uma viagem, que mesmo que curta, me deixou morrendo de saudades
Podia até ser uma grande fã da Madonna, a ponto de atravessar o país só para assistir o último show dela. No entanto, a única certeza que eu tinha era que só existiam três pessoas que eu idolatrava, e elas estavam dormindo naquela mesma cama. Por eles, eu poderia cometer as maiores loucuras e nunca me arrepender disso.
Nhaaaaiiiii, não é porque escrevi não, mas eu amo/sou um Dadward pai de menininhas! *_*
Bem, a ajuda que preciso é a seguinte: tenho umas ideias para a próxima postagem, no entanto, gostaria que vocês escolhessem qual! Vou dar três opções e nos comentários vocês respondam por favor qual é a que você mais gostaria de ler por aqui, ok?
1 - A crise dos sete anos. (Sdds, escrever drama, sdds)
2 - O pedido de casamento. (E a Bella sendo absurdamente lesa)
3 - As loiras de minha vida (Sabe quando a Esme apresenta as fotos do baile do Edward pra Bella? Bem isso...)
4 - Keeping up with the Hale-Cullen (Emmett, Rose e seus filhos encapetados e Paoline 3)
Agora deixo com vocês a escolha! Beijos e até breve!
