Capítulo 9

Notes:

The word "camareira" is translated as "maid" but should be translated to "dresser".
The word "Mamã" should be translated to "Mama", but is being translated to "Mommy" and "Mom".

Passaram-se mais duas semanas.

A vida de Victoria seguia agora entre uma relação não conflituosa com Albert, mas para a qual ambos tinham construído uma imagem pública; e as reuniões habituais com Lord M onde aparentemente tudo estava bem, embora ela tivesse um problema ainda não abordado com ele.

O facto de não estar a ser pressionada por Albert trouxe a Victoria uma tranquilidade temporária e diminuiu a necessidade de contar a Lord M que não tinha vida íntima com o marido. Por outro lado, a coragem para contar a verdade diminuiu perante a insistência constante de Lord M na ideia de que Albert era o marido dela e que ele não podia substituí-lo. Menos coragem ainda depois de Lord M ter dito que não pretendia mais problemas na vida por causa de mulheres…

Todavia, ela tinha encontrado uma serenidade agradável naquela rotina de, com frequência, passar algumas horas reunida com Lord M. Ainda que isso não acontecesse diariamente. Era muito confortante passar aquele tempo na companhia dele e confiar que, se ela necessitasse, ele iria ouvi-la e compreendê-la. Coisa que Albert nunca conseguiria fazer.

Em outras circunstâncias ela poderia permitir que Albert assistisse às reuniões dela com Lord M, pelo menos a algumas. Mas nestas circunstâncias, em que ela e Albert tinham uma relação distante e em que ela precisava do máximo de tempo possível a sós com Lord M, isso era impensável. Nem ela nunca sugeriria isso, nem Albert alguma vez tinha ousado pedir para assistir a uma reunião dela com o Primeiro-ministro.

Quando Lord M saía, após as reuniões, havia uma sensação de perda e instalava-se uma angústia pela espera, a que ela seria submetida nos próximos dias, até que ele regressasse de novo. Ela ficava a contar os dias. Depois começava o empolgamento! Porque só faltava um dia, porque ele viria amanhã, porque era hoje que ele vinha, porque só já faltava uma hora, meia hora, quinze minutos! Nos últimos momentos a ansiedade quase a matava! E finalmente a porta abria e o mundo brilhava!

Melbourne tinha ficado preocupado com a angústia estampada no rosto e impressa na voz de Victoria, durante a conversa que tinham tido sobre casamento. E alguma coisa não batia certa naquela história: Emma dizia que agora Victoria e Albert já não discutiam e já trabalhavam juntos, mas a Rainha mostrava claramente ter ciúme dele…

Todavia, nas semanas seguintes ela parecia mais tranquila. Embora ele sentisse que havia algum assunto subjacente que nunca era abordado, parecia que ela estava mais conformada. Talvez agora a relação dela com Príncipe tivesse encontrado o caminho certo…

Ele gostaria de passar muito mais tempo com ela, mas não era possível mais do aquele que gastavam em reuniões e ele era grato por isso. Aquelas horas em que estavam juntos eram só deles. Albert nunca mais fora um assunto entre os dois e quando ele ia ao palácio não costumava cruzar-se com o Príncipe. Por isso ele tentava abstrair-se da existência de Albert.

Naquele dia após a reunião Victoria tinha um convite para fazer.

"Lord M!"

"Sim, Senhora! Mais alguma questão?" Ele perguntou pensando que ela ia falar de algum dos assuntos da reunião.

"Amanhã à noite, após o jantar, haverá uma pequena orquestra aqui no palácio que vai apresentar-se na Corte. Gostaria que nos fizesse companhia para assistir."

"Senhora, eu peço desculpa, mas já tínhamos falado sobre isto… Eu gostaria que você não insistisse. O Príncipe não concorda…"

"Albert já não é um obstáculo! Eu falei com ele…"

Melbourne levantou as sobrancelhas e perguntou:

"E o que foi que você lhe disse?"

"Eu expliquei que nós somos amigos e que, por isso, você deve poder frequentar o nosso círculo mais próximo da Corte. E ele concordou."

Melbourne fez um ar surpreendido.

"E você já não está connosco há tanto tempo…Passaram-se semanas deste que você jantou aqui pela última vez…" Ela acrescentou.

Perante a explicação dela, ele concordou:

"Muito bem, se Vossa Majestade garante…"

Victoria sorriu.

Chegou finalmente uma carta de Coburgo.

Albert leu-a interessado. Ernest fazia explicações interessantes no que dizia respeito ao assunto que mais o preocupava: como evitar que uma mulher ficasse à espera de uma criança.

Não era possível prever em que altura do mês seria seguro ter uma relação íntima com uma mulher sem que ela ficasse à espera de um bebé. Mas existiam duas opções para tentar evitar que isso acontecesse, embora ambas fossem falíveis. Ou ele teria de sair de dentro da mulher em causa antes do momento final ou ele teria de usar uma proteção: "as cartas francesas". O primeiro método exigia uma experiência que Albert não tinha e quanto ao segundo Ernest advertia que podia ser desconfortável ou doloroso e limitar o prazer.

Por exclusão de partes, ele teria de usar o segundo método.

Ele não iria explicar a Victoria que o procedimento podia falhar nem que podia ser doloroso para ela, pois dessa forma ela iria recusar-se a permitir a sua utilização…Aliás, se aquilo falhasse ele teria conseguido atingir o seu maior objetivo. Além de consumar o casamento ele produziria um herdeiro! Um orgulho para qualquer homem. Sobretudo para um homem que era marido da Rainha de Inglaterra. Talvez ele até pudesse fazer algo para que o uso daquela coisa falhasse…

Naquela noite Melbourne regressou ao palácio para dar resposta ao convite da Rainha. Obviamente, ele não se sentia tão confortável naquele espaço como se tinha sentido no passado. O Príncipe estaria lá e, embora Victoria tivesse dito que Albert não se importaria com a presença dele, não era possível prever qual seria a reação do marido da Rainha.

Nesta noite, por causa da apresentação musical após o jantar, havia mais pessoas convidadas para partilhar a refeição com o casal real do que no último jantar em que Melbourne tinha estado presente no palácio. Por isso, Albert não teve oportunidade de falar com o Primeiro-ministro nem antes, nem durante a refeição.

Após o jantar todos os presentes se dirigiram para o salão de baile onde seria feita a apresentação.

Albert aproximou-se de Melbourne e fez questão de cumprimentá-lo quando Victoria o observava do outro lado do salão.

"Lord Melbourne, seja bem-vindo!"

"Obrigado Vossa Alteza!" Melbourne agradeceu surpreso.

"Não sei se lhe pareceu que eu possa ter sido indelicado da última vez que jantou no palácio…. mas eu só estava a defender o espaço privado da Rainha…Você entende…" Albert explicou num tom de voz mais baixo.

Melbourne não esperava este, quase, pedido de desculpa. Ele respondeu:

"Claro…"

"No entanto, a Rainha falou comigo e mostrou-me como a vossa presença é muito importante para ela, mais do que um Primeiro-ministro você é um amigo…E, se isso faz a Rainha feliz, eu só posso concordar."

Albert estava a fazer um retrocesso, a mudar de estratégia. Uma conversa intencional para agradar a Victoria. Ele não sabia o que ela conversava com Lord Melbourne e, provavelmente, o Primeiro-ministro teria contado a ela que ele mostrara desagradado pela presença dele no palácio. Por alguma razão Melbourne nunca mais tinha aparecido para jantar! Então, talvez agora Lord Melbourne fosse contar a Victoria que ele tinha sido gentil! E isso estava de acordo com o que ele prometera a Victoria: aceitar a relação dela com aquele homem. Com isto Albert esperava capitalizar afetos por parte de Victoria.

Melbourne achou que aquela inversão era estranha, mas condizia com que Victoria lhe tinha dito. Parecia que o Príncipe tinha reconsiderado a sua posição.

Vitoria e Albert sentaram-se nas cadeiras centrais da primeira fila da pequena plateia para assistir à interpretação dos músicos.

Melbourne ficou num lugar lateral, na primeira fila também.

As cadeiras estavam dispostas em formato de meia-lua o que permitia que Victoria observasse Lord M facilmente, e que ele observasse a Rainha.

Num gesto discreto, Albert movimentou a mão direita sobre o braço da cadeira para alcançar a mão esquerda de Victoria que pousava sobre o braço da cadeira dela.

Ela permitiu que ele tocasse a mão dela. Estavam em público. Ela não podia retirar a mão ou isso seria notado.

Melbourne olhou para o casal real naquele momento e viu perfeitamente o gesto de aparente cumplicidade entre ambos.

Instintivamente, Victoria também olhou para Lord M naquele instante. Ela sentia que ele não devia ver aquele gesto. E, no entanto, era óbvio que ele pensava que ela e Albert tinham consumado o casamento…

Depois da apresentação musical, foram servidas algumas bebidas às pessoas presentes que se mantinham a conversar.

A Rainha aproximou-se do Primeiro-Ministro e perguntou num tom de voz baixo:

"Eu reparei que Albert falou consigo… Está tudo bem?"

"Sim, Senhora! O Príncipe mudou de posição quanto à minha presença no palácio…"

"Eu não lhe disse? Você pode estar connosco frequentemente!"

A companhia dela era viciante! Ele não podia recusar essa possibilidade! Era melhor agarrar isso do que não ter nada.

"Então eu fico grato, Senhora!"

"Você poderia dormir aqui no palácio hoje!" Ela sugeriu naturalmente.

Se ele concordasse em dormir no palácio, hoje ela poderia ter a presença dele até mais tarde e amanhã ele tomaria o pequeno-almoço com ela.

Ele ficou surpreendido com a proposta.

Victoria continuou:

"Já é tarde e as ruas são um perigo... Você tem aposentos em Buckingham, mas nunca os usa…"

"Não há necessidade, Senhora! Eu chegarei a casa rapidamente." Ele fundamentou a recusa. E depois acrescentou num tom humorado: "E não convém abusar da boa vontade do Príncipe!"

Victoria sorriu. Sim, não convinha abusar…

Lord M não dormiu no palácio, mas já tinha sido muito bom ter a companhia dele hoje à noite!

Segundo as informações que Albert pôde apurar, existiam algumas lojas onde se vendiam "cartas francesas" em Londres. Mas ele não podia ser visto a comprar tais artefactos. Seria um escândalo. Tais coisas estavam associadas à luxúria e à imoralidade, ao pecado e à vergonha. Além disso, o marido da Rainha, cuja função era dar um herdeiro ao trono de Inglaterra, não podia evitar que uma nova criatura fosse concebida. Isso seria traição! Sobretudo, se ele comprava tais atavios com o dinheiro do subsídio que lhe fora concedido pelo próprio Parlamento britânico!

Albert deslocou-se numa carruagem discreta até um dos bairros de Londres onde existia uma dessas lojas.

Chegado ao bairro, ele pediu ao cocheiro que parasse numa rua próxima da loja pretendida e aguardou.

Não foi necessário esperar muito até que passasse pela carruagem um menino pobre, igual a tantos outros que povoavam as ruas de Londres. Provavelmente ele era órfão e devia dedicar-se a pequenas tarefas (como fazer compras e entregar cartas a pedido de terceiros), a mendigar e a roubar, como formas de ganhar dinheiro. Uma criança daquelas que Dickens tão bem retratava nos seus romances. Só Lord Melbourne não queria ler Dickens!

Albert chamou o menino para que se aproximasse da carruagem:

"Pst! Tu aí! Chega aqui!"

A criança ficou um pouco apreensiva, mas achou que aquele senhor bem vestido e, por certo, rico podia ser uma ajuda para as suas necessidades. Por isso, aproximou-se da janela da carruagem.

"Sim, meu Senhor?"

Albert colocou o braço do lado de fora da janela e estendeu uma moeda que o garoto agarrou de imediato, embora um pouco desconfiado.

"Se me fizeres um favor dar-te-ei mais moedas destas. Fazes?"

"O que o Senhor deseja?"

"Entra aqui dentro para que eu te possa explicar." Ordenou Albert enquanto abria a porta.

O garoto hesitou um pouco, mas decidiu entrar.

Albert fechou a porta e explicou:

"Preciso que vás à loja que fica na esquina já ali em baixo e vás pedir que te deem uma daquelas coisas que só os homens usam. Eles saberão o que é."

O rapaz acenou afirmativamente com a cabeça.

"Tens aqui o dinheiro para pagar. Se voltares com o que te peço dar-te-ei mais dinheiro."

O rapaz voltou a movimentar a cabeça em sentido afirmativo.

Albert abriu a porta e o garoto saiu.

O pior que podia acontecer era o rapaz desaparecer com o dinheiro que ele lhe tinha dado e nunca mais voltar.

Albert esperou.

Passado pouco tempo o rapaz apareceu de novo com uma pequena caixa. Estendeu o braço para a janela e entregou a caixa.

Como prometido Albert deu-lhe mais moedas e disse:

"Obrigado! Espero que hoje possas ter uma refeição melhor!"

O garoto arregalou os olhos quando viu a quantidade de dinheiro que ele lhe colocava nas mãos e disse:

"Obrigado, Senhor! Já fui àquela loja mais vezes comprar coisas destas para outros cavalheiros e eles nunca me deram tanto dinheiro!"

Albert sorriu e o miúdo desapareceu em corrida pela rua abaixo.

Ao final da tarde Victoria e Albert tinham regressado de uma visita ao Hospital. Ele quisera acompanhá-la e ela permitira.

Quando Victoria acabava de trocar de roupa com a ajuda de Skerrett, Albert surgiu na porta do quarto de vestir e perguntou:

"Victoria, eu posso falar com você?"

"Claro…" Ela respondeu e olhou para Skerrett para que a camareira se retirasse.

Skerrett fez uma vénia e saiu, fechando a porta atrás dela.

Victoria esperou que ele falasse.

Albert hesitou. Mas depois ele começou:

"Eu tenho procurado uma solução para o nosso problema…"

"Uma solução?" Ela perguntou intrigada.

"Sim, alguém tinha de fazer alguma coisa para que você possa ultrapassar o seu receio de ter filhos."

Victoria sentiu um baque no peito. O que é que ele tinha feito? E o que é que ia surgir agora que viria estragar esta paz tácita em que viviam havia semanas?

"O que é que você fez, Albert?" Ela perguntou num tom nervoso.

"Eu pedi ajuda a Ernest."

"O quê? Você contou a Ernest o que se passa connosco?" Victoria perguntou preocupada.

"Não! Não, Victoria! Claro que não!" Albert garantiu a ela. E depois explicou: "Eu apenas lhe perguntei se ele sabia o que se pode fazer para evitar que uma mulher fique à espera de um bebé… depois dela…"

Victoria levantou as sobrancelhas em interrogação.

"Bem Victoria…há umas coisas…" Ele não sabia bem como explicar. Então ele recuou um pouco para começar uma explicação de raiz: "Você já sabe que eu terei de entrar em você…"

Sim, ela sabia isso desde a noite de núpcias, mas a ideia de Albert fazer tal coisa era repugnante aos olhos de Victoria.

"Quando isso acontecer é provável que seja depositada uma semente que dê origem a um bebé…" Ele continuou.

"Eu sei…"

"Então, o que nós temos de fazer é usar uma forma de evitar que isso aconteça."

"E que forma é essa?" Ela perguntou, expectante para saber que novas informações ele tinha para lhe dar.

"Eu devo usar uma proteção… uma capa no meu… membro viril…Assim, nós podemos consumar o casamento, mas a semente não se deposita em você…"

"Você fala de semente…Como é que isso é? É um grão?" Ela perguntou curiosa.

Ele achou a pergunta surpreendente, mas é claro que ela não sabia nada sobre aquilo e ele não podia ridicularizá-la, ele tinha de ser compreensivo se queria que ela colaborasse.

"Não…Aquilo que devemos evitar é que um líquido seja derramado dentro de você…O líquido contém as sementes. Mas nós não vimos as sementes."

Sementes que nem se viam…O que ela estava a aprender!

"E você tem essa proteção?" Ela perguntou curiosa.

"Sim."

"Você tem aí?"

"Eu tenho."

Albert tirou do bolso uma pequena caixa e abriu-a. No interior havia algo com o formato de uma manga de pequena dimensão. Era fechada num dos extremos e aberta no outro, onde possuía uma fita. Victoria não identificou o material de que era feita, mas aparentava uma textura seca, era algo parecido com papel. A caixa continha ainda um papel com algumas inscrições.

Então Albert explicou:

"Isto é a proteção que nós devemos usar. É feita de tripa de ovelha. Tem de ser ensopada por algumas horas antes de ser usada, para torná-la flexível e fácil de colocar. A fita serve para atá-la ao redor da base e prendê-la com segurança. Depois de usada a proteção deve ser lavada, colocada a secar e guardada de novo para outra utilização."

Victoria achou aquela coisa esquisita e não ousou mexer naquilo. Mas ela tinha outra curiosidade. Então ela perguntou:

"O seu…membro masculino…é desse formato e desse tamanho?"

Ele hesitou, mas respondeu:

"Sim, é desse formato…E… mais ou menos desse tamanho…"

Ela não sabia como seria ter um homem dentro dela, mas ela não queria Albert em tal local! Ela também não sabia como seria experimentar aquela coisa. Talvez aquilo até nem fosse totalmente desagradável…Mas ela não podia permitir que a ideia dele fosse posta em prática.

"Nós não podemos usar isto!" Ela exclamou decidida.

"Porque não?" Ele perguntou surpreendido.

"A Igreja não permite. Eu ouço os sermões. Os homens não devem evitar os filhos. Eles são a vontade de Deus."

Albert não podia acreditar no que ele estava a ouvir! Depois de tanto trabalho para conseguir aquela coisa! Agora que ele tinha achado que o problema deles podia ser resolvido, pelo menos em parte…

"Mas isto será usado apenas durante algum tempo, até que você sinta que está preparada para ser mãe…" Ele explicou.

"Não, isso não está certo!"

Victoria tinha-se interessado sobre o pensamento religioso nesta matéria nos últimos meses porque era algo que estava diretamente relacionado com a situação em que ela se encontrava: casada, virgem, com o desejo de impedir a consumação do casamento e a necessidade de gerar um herdeiro…Todas realidades incompatíveis!

"E o que você está a fazer…Isso é certo? Você nem consumou o seu casamento porque você não quer ser mãe!" Albert reclamou falando alto.

"É diferente! O que eu estou a fazer é abstinência." Victoria justificou. E depois ela acrescentou: "A abstinência dos prazeres da carne é valorizada, mas impedir a conceção é um pecado. Eu sou o Governador Supremo da Igreja de Inglaterra, não posso compactuar com isso!"

Albert estava chocado! Ele não estava à espera desta argumentação. Ele tinha pensado que tinha obtido a solução perfeita! O máximo que ele tinha imaginado que ela poderia colocar como obstáculo era o receio de usar aquela coisa…

"Victoria! Eu não sei mais o que fazer com você!" Ele exclamou.

"Aguarde! Quando eu achar que está na altura de termos um filho eu direi. Nesse momento iremos consumar o casamento."

Aquilo era tão frustrante que ele nem conseguiu dizer mais nada. A desilusão, depois daquela esperança, impediam-no de falar. E se ele dissesse as várias coisas em que ele pensava naquele momento eles iriam discutir de novo…

Victoria observou Albert a guardar aquela coisa que parecia tão importante para ele e ficou a vê-lo afastar-se. Depois ela respirou fundo para se recuperar deste novo episódio de pressão.

A duquesa de kent vivia agora em Clarence House. Um benefício do casamento de Victoria tinha sido a possibilidade de se livrar da presença constante daquela mulher! Mas a presença da mãe da Rainha era frequente no palácio e não podia ser evitada.

Hoje à tarde Victoria e a duquesa tomavam chá.

"Está tudo bem com você, Drina?" A duquesa perguntou olhando Victoria por cima da chávena de porcelana.

"Sim, Mamã! Porque não haveria de estar?"

"Não sei Drina…Você agora é uma mulher casada. É normal que haja uma alteração no seu estado…"

"Uma alteração?"

"Você poderá já estar à espera de um herdeiro."

"Ah…"

"Você ainda não tem sintomas? Não notou nenhuma alteração no seu corpo?" A duquesa perguntou muito interessada.

"Não, Mamã!"

"Estou ansiosa para ver esse bebé!"

Victoria fez um esforço para sorrir.

Não bastava Albert a pressioná-la outra vez com aquela insistência para ter filhos, agora era a mãe dela que também falava neste assunto!

O tio Leopold escreveu a Albert. Ele desejava tanto bem para o sobrinho como se ele fosse um filho, e perguntava-lhe se já havia um pequeno Coburgo a caminho.

Albert já achava que tinha de voltar a insistir naquele assunto junto de Victoria e agora ainda chegava esta carta do tio a inquirir sobre o mesmo assunto. Claro! Era normal. As pessoas esperavam uma criança!

Aquilo tinha de acontecer!

Albert foi à sala de trabalho de Victoria durante a tarde. Ele entrou sem fazer barulho, para não a incomodar, e sentou-se perto dela com um livro na mão.

Ela não disse nada.

Vendo que ela estava a demorar a finalização das tarefas ele interrompeu-a:

"Victoria…Será que você me podia dar um pouco de atenção?"

Ela pousou a caneta de aparo na mesa e olhou para ele dizendo:

"Sim, Albert…O que você quer?"

Ele suspirou e depois disse:

"Eu sei que você não quer que eu fale deste assunto, você quer que eu espere, mas…

Ela percebeu onde ele queria chegar. Ficou à espera que ele continuasse.

"Victoria eu recebi uma carta da Bélgica que me pergunta se já temos um herdeiro a caminho…"

Victoria suspirou e virou o rosto para não continuar a olhar para ele.

"As pessoas estão ansiosas…O tio Leopold…"

Victoria perdeu a paciência. Ela levantou-se da cadeira, olhou para ele e reclamou:
"O tio Leopold, a minha mãe, você, a Inglaterra! Todos exigem um herdeiro! Eu estou farta! Eu estou farta, Albert! Eu não sou apenas uma vaca reprodutora! Eu sou mais do que isso!"

"Victoria. Tenha calma, por favor." Ele pediu falando calmamente enquanto também se levantava da cadeira.

"Eu não sou uma imbecil! Eu sei que a Constituição exige que eu tenha um herdeiro e que eu devo produzi-lo! Mas isso faz-me sentir que eu não tenho outra função!" Ela continuou a reclamar irritada.

Albert engoliu.

"Antes de ser uma Rainha, eu sou uma mulher, Albert! Eu não posso ser apenas livre durante algum tempo? E eu não posso viver sem essa sombra do medo da morte sobre a minha cabeça?"

"Victoria, eu estou a esforçar-me para lhe dar tempo, mas está a passar demasiado tempo. Eu não me sinto bem com esta espera e ambos estamos a ser pressionados, o que implica agir para dar uma resposta!"

"O parto é um negócio perigoso! Eu não vou fazer isso! Nem porque você quer, nem porque eles nos estão a pressionar!"

"O seu comportamento não é normal, Victoria! Eu quero ter muitos filhos! Você precisa de ajuda médica!" Ele exclamou num tom de voz elevado.

"Não!"

"Você deve falar com o Dr. James Clark ou com outro médico!"

"Não, eu não vou falar com ninguém! E você também não!"

"Isso só pode ser um distúrbio mental, Victoria! Você não está a cumprir os seus deveres de esposa e de Rainha! Você está a ficar louca?"

"Que conversa é essa Albert?" Ela perguntou atónita.

"Você é neta de um rei louco! Você herdou a loucura do seu avô?"

A sombra que sempre tinha pairado sobre ela desde a infância! A acusação que surgia recorrentemente quando ela seguia o seu instinto e não agia de acordo com as regras e as expectativas das pessoas!

"Eu não posso acreditar que o meu próprio marido me está a acusar de loucura!"

"Marido? Desde quando é que eu sou o seu marido, Victoria? Eu sou um fantoche neste palácio!" Albert gritou.

"Albert!" Ela exclamou indignada.

"Não diga mais nada, Victoria! Eu já não posso ouvir as suas justificações!" Ele exclamou e saiu.

Victoria ficou a respirar de forma ofegante com os olhos na porta que ele deixara aberta quando ele saiu.

Albert fechou-se nos seus aposentos com uma garrafa de vinho.

Se o casamento não fosse consumado a situação dele era complexa! A única função dele era produzir um herdeiro e ela estava a impedi-lo disso.

Ele devia falar com o tio Leopold, ele devia saber aconselhá-lo. Mas se ele fizesse isso, seria uma vergonha.

Como é que o tio o tinha casado com uma mulher perturbada que não queria ter filhos? Victoria só podia estar louca!

Ele esperava poder dominá-la na cama! Diziam que era assim que os homens dominavam as mulheres! No caso dele, casado com a Rainha de Inglaterra, esse seria mesmo o único local onde ele a dominaria, mas nem assim ela estava a permitir que ele a dominasse! Ele queria experimentar algo que lhe permitiria ser superior, estar acima dela, estando literalmente por cima dela.

Um herdeiro era uma necessidade premente e as suas necessidades como homem estavam à beira da explosão!

Era frustrante! Que raio! Ela era a mulher dele! Ela era a Rainha, mas ela era também a mulher dele!

Albert não apareceu para jantar e Victoria foi informada de que o Príncipe tinha pedido o jantar no quarto.

Quando Victoria já estava sozinha nos seus aposentos, em camisa de noite e robe, alguém bateu à porta.

"Sim."

Albert entrou, de camisa de noite e robe, e fechou imediatamente a porta à chave.

O coração de Victoria caiu! Algo dizia que as coisas não iam decorrer bem. A forma como ele vinha vestido e a expressão no rosto! O olhar vermelho e vítreo de quem estava bêbedo!

"O que é que você quer?" Ela perguntou, tentando mostrar uma voz firme.

"Eu venho reclamar aquilo a que eu tenho direito!" Albert exclamou determinado.

Ela engoliu. Claramente, ele tinha perdido a paciência! Pela primeira vez, ela sentiu medo dele!

"Albert, por favor…eu…"

Ela não tinha justificação!

Ele caminhou até ela sem ouvir o que ela dizia, agarrou-a e beijou-a na boca à força. Ele cheirava e sabia horrivelmente mal, por causa do vinho!

Ela tentou recuar, empurrando-o no peito com as mãos, mas ele apertava-a com força não lhe permitindo libertar-se.

Ela afastou a boca da boca dele, mas ele beijou-a no pescoço e no peito enquanto a empurrava para que caminhasse em recuo na direção quarto.

Ela não queria que isto acontecesse!

"Albert!" Victoria exclamou alto.

Ele não parou de apertá-la e de beijá-la enquanto a apalpava nas nádegas.

Ela sentiu-se desrespeitada, invadida, abusada…

Victoria começou a bater-lhe com os punhos nos ombros dele, enquanto exigia:

"Largue-me, Albert! Largue-me!"

Mas isso não teve qualquer efeito para detê-lo.

Ele derrubou-a em cima da cama e com a mão esquerda segurou-lhe os pulsos juntos acima da cabeça.

Ela debateu-se com as pernas e continuou a exclamar com determinação num tom de voz elevado:

"Albert! Eu não vou fazer isso! Eu não quero!"

Com a mão direita ele abriu as duas partes do robe dela, afastando o tecido.

"Albert! Por favor!"

Ele estava agora a pressionar o peso do corpo sobre ela na tentativa de imobilizá-la. E ela sentiu a dor nos pulsos onde ele apertava.

"Eu vou gritar Albert!" Ela avisou.

"Você não vai passar por essa vergonha! Eu sou o seu marido, eu tenho direitos!" Albert falou pela primeira vez, enquanto levantava a camisa de dormir dela para cima com a mão direita.

"Se você não parar agora eu vou gritar!" Ela insistiu, continuando a debater-se debaixo dele na tentativa de se libertar.

"O que é que as pessoas vão dizer, Victoria? Que a Rainha de Inglaterra se recusa a conceber um herdeiro?"

Era verdade! Como Rainha ela não podia assumir que se negava a conceber um herdeiro! Como é que ela iria justificar isso? Mas aquilo não podia acontecer!

Ele passou a mãos pela coxa dela, por cima do tecido das cuecas. Ele subiu na direção da cintura dela com intensão de desatar as fitas e de puxar as cuecas para baixo.

"Eu vou chamar a guarda! Os guardas aparecerão rapidamente e eu direi a toda a gente que você me bateu! Você será preso!" Ela gritou determinada.

Perante a ameaça, ele parou. Ele queria-a, mas não queria que a imagem dele ficasse manchada, nem queria que a imagem da família perfeita, que ele ainda desejava que pudesse ser possível, ficasse enlameada por causa disto.

Albert largou as mãos dela, levantou o corpo para cima, ficando de joelhos, e saiu da cama.

Ela levantou-se de imediato, sentando-se na cama com os pés para fora. Os pulsos dela estavam a doer.

Ele ajeitou o cabelo, arrumou melhor o robe, dirigiu-se à porta, abriu-a e saiu, batendo-a de seguida com força.

Victoria estremeceu com o estrondo e começou a soluçar sentada na cama.

Depois ela deixou-se cair de lado sobre a cama, enrolou-se sobre si própria e, enquanto chorava, ela disse baixinho:

"Oh, Lord M! Onde é que você está?"

Note: At the time condoms were known in England as "French letters" and in France they were called "capote anglaise".