Capítulo IX – David e o Senhor Coelho descobrem a arma secreta dos Gigantes


Mas ao contrário do que David esperava não encontraram mais Batalhões de Baratas Assassinas, Gigantes e outras coisas do género. Na verdade, a única vez que voltaram a encontrar um ser vivo foi quando pernoitaram em casa de uma Andorinha Falante, amiga do Senhor Coelho e que vivia ali em baixo nos meses de maior frio por já se sentir muito velha para andar sempre a voar para cá e para lá.

- Essas coisas são para os jovens – dissera ela. – Uma andorinha velha como eu precisa de alguma estabilidade. Alguém quer umas bolachinhas de sésamo? Mandou-mas a minha filha!

Depois disso tinham voltado à sua empreitada e David voltara a perder a noção do tempo. O Caminho das Necessidades parecia querer facilitar-lhes o trabalho que tinham em mãos, abrindo-lhes passagens que lhes permitia cortar caminho e oferecendo-lhes o comer e beber, mas mesmo assim David sentia que faltava algo e começava, pela primeira vez desde que ali estava, a desejar acabar rápido a tarefa que Aslan lhe dera.

Foi quando o Senhor Coelho interrompeu a sua própria narração de uma partida que tinha feito em criança aquela que seria a sua primeira namorada que David percebeu que tinham chegado.

- Chiu – fizera o Senhor Coelho um pouco desnecessariamente, visto que David não estava nem pretendia fazer o mais pequeno barulho. Também ele conseguia ouvir os estranhos barulhos metálicos que vinham da rede de túneis poucos metros à sua frente.

Com um sinal para que David o seguisse, o Senhor Coelho começou a avançar muito devagarinho e a fazer o mínimo de barulho possível, um pouco como nós fazemos quando queremos ir buscar uma bolacha à cozinha a meio da noite e sabemos que não podemos ser apanhados.

- Por Aslan! – Não conseguiu deixar de exclamar o Senhor Coelho, embora o fizesse num sussurro. – O que é isto? Nunca em toda a minha vida vi algo igual ou que se parecesse!

Por sua vez, David Cartairs sabia perfeitamente o que aquilo era. Só não sabia como é que tinham ido ali parar!

- Armas! – sussurrou o Filho de Adão, esclarecendo o Senhor Coelho sobre o assunto. – Aquilo são armas do meu mundo! Os homens usam-nas para se matarem muito rápido uns aos outros. Acho que foi daquelas que usaram durante a Guerra. Não percebo, como é que Gigantes de Nárnia aprenderam a fabricá-las?

- Com certeza que alguém lhes ensinou…

- Mas como? Precisava de ter vindo do meu mundo. Ou pelo menos de ter estado lá! Não é Aslan quem tem o poder de nos fazer viajar entre Nárnia e o meu mundo?

- Existem outras maneiras para além da intervenção directa de Aslan, como achas que os piratas antepassados do Rei Cáspian chegaram cá? Não foram todos transportadas por Aslan, isso garanto eu, rapazinho.

- É sobre isto que temos de avisar Cáspian?

- Julgo que sim… Mas vamos, rapazinho, não façamos muito barulho e coloquemo-nos a caminho. Ainda temos de encontrar o Rei e o seu exército.

Com muito cuidado para não serem vistos ou ouvidos pelos Gigantes (embora isso fosse pouco provável porque estes estavam tão ocupados a fazer as armas que nem se apercebiam do que acontecia à sua volta, um pouco como quando estamos tão distraídos com uma brincadeira que nem ouvimos a nossa mãe a chamar-nos), David e o Senhor Coelho afastaram-se daquela caverna a que o Senhor Coelho chamara de "antro de perdição, berço da praga e da desonra, ninho de cobardes sem dignidade e caverna amaldiçoada"o que em outras palavras quer dizer que ele não gostou mesmo nada do que viu.

- Como saberemos chegar ao Rei Cáspian? – perguntou David assim que já estavam suficientemente longe dos Gigantes.

- O Caminho das Necessidades tratará disso, rapazinho – respondeu o Senhor Coelho. Desta vez não estava com vontade de contar uma qualquer história a sua juventude.

- E é bom confiarmos sempre que outros tratem disso?

-Que queres dizer, rapazinho?

- Bem, desde que saí do Labirinto que há sempre alguém a dizer-me o caminho que devo seguir. Primeiro Avelã, depois as Gárgulas, Aslan, Lomocambúzio, tu e agora o Caminho das Necessidades…

- Primeiro não tenho a tua idade para me tratares por "tu", rapazinho…

- Desculpe.

- E segundo, ainda és uma criança, Filho de Adão. É normal que precises de alguém mais velho e mais sábio que te indique e ensine os caminhos a percorrer. Quando foi a última vez que escolheste um caminho sem ajuda de ninguém?

- No Labirinto, quando fui parar à aldeia dos Carquilhos. – Essa altura parecia-lhe agora tão longe!

- E que aconteceu?

- Segundo Avelã, e vendo o que ele me mostrou, queriam fazer-me mal.

- Queiram matar-te de uma maneira muito dolorosa – completou o Senhor Coelho. – Tudo porque escolheste o teu caminho ao acaso. Não que isso seja mau, rapazinho, não penses que é. Mas às vezes é preciso pensar nas coisas antes de as fazeres e tu ainda estás a aprender a fazê-lo. É por isso que precisas de um guia em algumas alturas da tua vida. E especialmente numa aventura, nada acontece por acaso.

- Como é que sabe o que os Carquilhos me iam fazer?

- Tenho as minhas fontes, rapazinho, tenho as minhas fontes.

- Aslan?

- Aslan não é um velho coscuvilheiro, rapazinho! Nunca fala a cada um mais do que a sua própria historia, já o deverias saber! Mas uma vez que estamos a falar nisso, lembra-te de que ele nunca te deixará sozinho.

David ia perguntar o que o Senhor Coelho queria dizer com aquilo mas não chegou a ter tempo de o fazer, pois foi nessa altura que chegaram a um túnel mais estreito do que os que tinham percorrido até então.

- Parece-me – disse o Senhor Coelho – que é uma passagem para um palácio de Gigantes.

- Um palácio de Gigantes? Capturaram o Rei Cáspian?

- Talvez sim talvez não, rapazinho. Só há uma maneira de saber e julgo que o Caminho das Necessidades concorda comigo. Estás a ver aquela linha de musgo ao longo das paredes do túnel? Está claro que é para o seguirmos!

David encolheu os ombros. Já tinha chegado até ali, não iria recuar, embora não conseguisse deixar de se sentir um pouco desiludido. Como já foi dito muitas vezes ao longo da nossa história, David era um rapaz que se admirava com muito pouco, mas quando isso acontecia, gostava muito da sensação que tinha. Desde que abrira a porta do dormitório e se encontrara no Labirinto, tinha tido esperanças de que aquela aventura lhe desse muitas oportunidades para se admirar, mas mesmo com as coisas estranhas e perigosas que lhe tinham acontecido, ainda não tinha conseguido ficar admirado com nada.

- Ouves, rapazinho? - perguntou de súbito o Senhor Coelho num sussurro. Das paredes do túnel ouviam-se vozes alteradas, percebendo-se o som mas não que era dito.

- Uma discussão –sussurrou David.

- Por mais estranho que pareça este tipo de Gigantes não costuma discutir muito entre si – explicou o Senhor Coelho. – Apressemo-nos, rapazinho. Cheira-me a esturro. – E desatou a correr, deixando David ali especado, tentando perceber o porquê da súbita pressa do Senhor Coelho (e confesso que também eu fiquei um pouco surpreendida). Quando finalmente o Filho de Adão conseguiu alcançar o Coelho Falante, já este tinha saído do túnel estreito e escuro e estava agora numa cozinha enorme, suficientemente grande para dois ou três Gigantes andarem por lá, como é natural, a olhar esgazeado para um Lingrinhas, um Gigantes amarrado e uma Filha de Eva gordinha, cansada, a respirar com dificuldade mas muito feliz consigo mesma.

- Cartairs! – Exclamou Kim. – Começava a pensar que ia ter de te buscar por uma orelha!