Um susto interrompeu os seus tristes pensamentos. Alguém ou alguma coisa caminhava a seu lado. Nas trevas não podia ver nada. E a coisa (ou pessoa) ia tão silenciosamente que ele mal podia ouvir suas pisadas. Ouvia, sim, uma respiração: o invisível companheiro de fato respirava com vontade; devia ser uma criatura enorme. Foi um grande choque.

Relampejou na sua cabeça uma lembrança: ouvira dizer que existiam gigantes nos países do Norte. Mordeu os lábios, apavorado. Mas, agora que tinha um motivo real para chorar, parou de chorar.

A coisa (se é que não era uma pessoa) ia tão silenciosa que talvez fosse mera imaginação. Já estava certo disso, quando ouviu ao seu lado um suspiro grande e profundo. Não era imaginação! O fato é que sentiu o hálito quente desse longo suspiro na mão direita.

Se o cavalo fosse mesmo bom - ou se ele soubesse como fazer o cavalo tornar-se bom - teria arriscado tudo numa corrida desabalada. Como isso não era possível, seguiu a passo, com o companheiro invisível caminhando e respirando a seu lado. Acabou não agüentando mais:

- Quem é você? - murmurou baixinho.

- Alguém que esperava por sua voz – respondeu a coisa. O tom não era alto, mas amplo e profundo.

- Você é... um gigante?

- Pode me chamar de gigante – disse a grande voz. – Mas não me pareço com as criaturas que você chama de gigantes.

- Não consigo vê-lo – falou Shasta, depois de muito tentar. Uma coisa terrível lhe passou pela cabeça. Com a voz quase trêmula de choro, perguntou:

- Você não é... não é uma coisa morta... é? Vá embora, por favor. Nunca lhe fiz mal. Ó, sou o sujeito mais desgraçado do mundo!

Sentiu novamente o hálito quente da coisa no rosto e na mão.

- Morto não respira assim. Pode me contar as suas tristezas, rapaz.

O hálito deu a Shasta um pouco mais de confiança. Contou então que jamais conhecera pai e mãe, que fora criado por um pescador muito severo. Contou sobre como fugira, sobre os leões que os perseguiram, os perigos em Tashbaan, a noite entre os túmulos, as feras que uivavam no deserto, o calor e a sede durante a caminhada, e o outro leão que surgiu quando estavam quase chegando, Aravis ferida... Contou, por fim, que estava com fome, pois não comia nada havia muito tempo.

- Não acho que seja um desgraçado – disse a grande voz.

- Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?

- Só há um Leão – respondeu a voz.

- Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite...

- Só há um Leão, mas tem o pé ligeiro.

- Como sabe disso?

- Eu sou o Leão.

Shasta escancarou a boca e não disse nada. A voz continuou:

- Fui Eu o Leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui Eu o Gato que o consolou na casa dos mortos. Fui Eu o Leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui Eu o Leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui Eu o Leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, o acolhesse.

- Então foi Você que machucou Aravis?

- Fui Eu.

- Mas por quê?

- Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence.

- Quem é você?

- Eu mesmo – respondeu a voz, com uma entonação tão profunda que a terra estremeceu. E de novo: – Eu mesmo – com um murmúrio tão suave que mal se podia perceber, e parecia, no entanto, que esse murmúrio agitava toda a folhagem à volta.

Shasta já não temia que a voz pertencesse a alguma coisa que o devorasse; nem temia que fosse a voz de um fantasma. Uma coisa nova aconteceu, um tremor que lhe deu certa alegria.

A névoa passou do pardo para cinza e do cinza para branco. Devia ter começado pouco antes, enquanto ele estava absorvido conversando com a coisa.

A brancura ao redor já começava a fulgir. Passarinhos cantavam em algum lugar. A noite estava por um fio. Já enxergava bastante bem a crina e as orelhas do cavalo. Uma luz dourada surgiu à esquerda, e Shasta pensou que fosse o sol.

Caminhando a seu lado, maior do que o cavalo, estava um Leão. O cavalo não parecia ter medo, ou talvez não o visse. Era Dele que vinha a Luz dourada. Ninguém jamais viu algo tão belo e terrível.

Felizmente o menino vivera toda a sua vida no Sul, e não havia escutado os casos, cochichados em Tashbaan, sobre um tétrico demônio de Nárnia que costumava aparecer na forma de leão. E, naturalmente, também tudo ignorava sobre as verdadeiras histórias de Aslam, o Grande Leão, o filho do Imperador-dos-Mares, o Rei dos Grandes Reis de Nárnia. Mas, depois de espiar mais uma vez o Leão, pulou do cavalo. Não conseguia dizer nada, mas também não queria dizer nada, e sabia que nada precisava dizer.

O Grande Rei encaminhou-se para ele. A juba e um perfume estranho e solene, que nela pairava, cercaram o menino. O Leão tocou a fronte de Shasta com a língua. Os olhos de ambos encontraram-se. Depois, instantaneamente, a brancura da névoa misturou-se com o brilho ardente do Leão, num redemoinho de glória, e os dois sumiram. Shasta se viu só, com o cavalo, na relva de uma colina, sob um céu azul. Todas as aves do mundo cantavam.

"Foi tudo um sonho?", indagava Shasta para si mesmo. Mas não podia ter sido um sonho, pois via na relva a grande e penetrante marca da pata direita do Leão. Que peso devia ter! O mais espantoso, porém, veio depois: a depressão começou a encher-se de água e transbordou, formando uma correnteza que começou a descer pela relva.

Shasta matou a sede com um bom gole, molhou o rosto e a cabeça. Era uma água fria e clara como o cristal. Sacudindo a cabeça molhada, começou a observar o que se passava em redor.

Parecia ser ainda muito cedo. A paisagem era completamente nova a seus olhos, um vale verde, respingado de árvores, através das quais pôde ver o reflexo de um rio que seguia para o noroeste. Serras rochosas alteavam-se na distância. Virando-se, viu que a elevação na qual se encontrava pertencia a um bloco montanhoso bem mais alto.

- Estou entendendo: aquelas são as montanhas entre Arquelândia e Nárnia. Eu estava do lado de lá, ontem. Devo ter passado pelo desfiladeiro durante a noite. Que sorte! Sorte coisa nenhuma, foi Ele. E agora estou em Nárnia.

Tirou a sela e o freio do cavalo, dizendo: "Eta cavalinho ruim!" Sem tomar conhecimento, o animal começou a pastar; ele também não tinha uma boa opinião sobre Shasta.

- Ah, se eu gostasse de grama! Bem, não adianta nada voltar a Anvar, toda sitiada. É melhor procurar alguma coisa para comer lá embaixo no vale.

Sentindo o orvalho gelado nos pés descalços, chegou a uma mata. Passou a seguir uma espécie de trilha sob as árvores e logo depois ouviu uma vozinha:

- Bom dia, vizinho.

Tentou localizar quem falara e acabou descobrindo uma criatura toda espinhenta que acabava de enfiar a carinha escura entre as árvores. Era um porco-espinho. Shasta respondeu:

- Bom dia, mas não sou vizinho. Sou um forasteiro por estas bandas.

- Hum? – fez o porco-espinho, inquisidor.

- Vim pelas montanhas... Lá de Arquelândia, sabe?

- Uma boa caminhada! Nunca fui lá.

- E acho que alguém deve saber que um exército de ferozes calormanos está atacando Anvar neste instante.

- Não diga! Que coisa! E contam que os calormanos habitam a centenas ou milhares de quilômetros daqui, lá no fim do mundo, depois de um marzão de areia!

- Não é tão longe quanto você pensa. Alguma coisa precisa ser feita. O seu Grande Rei precisa saber...

- É claro, é preciso fazer alguma coisa. Acontece que estou indo para a cama tirar uma soneca. Alô, vizinho.

As últimas palavras foram endereçadas a um coelho cor-de-sorvete-de-nata, cuja cabeça acabara de apontar ao lado do caminho. Pelo porco-espinho, o coelho ficou a par da situação. Concordou também que eram notícias graves e que alguém tinha de procurar alguém para que alguma coisa fosse feita.

E assim foi. A cada instante novas criaturas surgiam, algumas dos galhos das árvores, outras de debaixo da terra, até que a reunião ficou integrada por cinco coelhos, um esquilo, duas gralhas, um fauno e um camundongo. Todos falavam ao mesmo tempo e todos estavam de acordo com o porco-espinho.

A verdade era esta: naquela era de ouro e paz, quando a feiticeira e o inverno não reinavam mais, e o Grande Rei Pedro governava em Cair Paravel, os serezinhos dos bosques de Nárnia se sentiam tão felizes e seguros que acabaram se tornando descuidados.

Mas naquele momento duas pessoas mais práticas chegaram à mata. Uma era um anão vermelho cujo nome parecia ser Dufles. A outra era um cervo, uma bela e senhorial criatura de olhos límpidos, com flancos e pernas tão esguios que pareciam poder quebrar-se à força de dois dedos.

- Salve o Leão! – exclamou Dufles, ao inteirar-se das notícias. – O que estamos fazendo aqui parados, batendo boca? Inimigos em Anvar! A notícia tem de ser enviada imediatamente a Cair Paravel. O exército deve ser convocado. Nárnia deve levantar-se para socorrer o rei Luna.

- Ah! – exclamou o porco-espinho. – Mas você não vai achar o Grande Rei em Cair. Foi para o Norte, dar uma tunda naqueles gigantes. Aliás, por falar em gigantes...

- Quem levará a nossa mensagem? – interrompeu o anão. – Existe alguém aqui mais veloz do que eu?

- Eu sou veloz – respondeu o cervo. – Qual é a mensagem? Quantos calormanos?

- Duzentos, chefiados por Rabadash. Além disso...

Mas o cervo já estava longe, batendo de uma só vez no chão com as quatro patas.

- Não sei para onde ele vai – disse o coelho –, pois não encontrará o Rei em Cair Paravel.

- Encontrará a Rainha Lúcia – disse Dufles. – E... o que está havendo com o humano? Está verdinho. Está desmaiando e deve ser de fome. Quando você comeu pela última vez, jovem?

- Ontem de manhã – respondeu Shasta, fracamente.

- Venha comigo – falou o anão, passando o seu bracinho pela cintura de Shasta a fim de ampará-lo. – Vizinhos, que vergonha!

Murmurando acusações a si mesmo, o anão conduziu Shasta para dentro da mata. As pernas do menino tremiam quando chegaram a uma casinha com chaminé e fumaça. Entraram pela porta aberta e Dufles gritou:

- Alô, irmãos, temos uma visita para o café. – Um cheiro simplesmente delicioso chegou até Shasta. Era a primeira vez que sentia o aroma de ovos com lombo defumado e cogumelos a estalar na frigideira.

- Cuidado com a cabeça – disse Dufles. Mas já era tarde, pois Shasta acabava de meter a testa na verga da porta. – Sente-se agora, rapaz. A mesa é um pouco baixa para você, mas o banquinho também é baixo. Perfeito. E aqui está o mingau... e aqui uma jarra de creme de leite... e aqui uma colher.

Shasta já havia terminado o mingau quando os dois irmãos do anão – Rogin e Deduro – serviram o prato de lombo com ovos e cogumelos. E mais ainda: café, leite e torradas.

Era um paladar novo e delicioso para Shasta. Era a primeira vez que via torradas. Também pela primeira vez via aquela coisa macia e amarela que passavam na torrada, pois os calormanos usam, quase sempre, óleo em vez de manteiga. E a própria casa era muito diferente da choupana escura e cheirando a peixe de Arriche, como também era diferente dos salões atapetados dos palácios de Tashbaan. O teto era baixinho e tudo era feito de madeira. Havia um relógio-cuco, uma toalha de mesa com quadradinhos vermelhos e brancos, uma jarra de flores silvestres e cortinas alvas nas janelas. O que atrapalhava um pouco era ter de usar os talheres e as xícaras dos anões. Mas o seu pratinho estava sempre cheio, e a todo instante os anões diziam "manteiga, por favor", ou "uma outra xícara de café", ou "um pouco mais de cogumelo", ou "que tal se a gente fritasse mais uns ovinhos"...

Depois de comerem até não poder mais, os anões tiraram a sorte para saber quem lavaria os pratos. Rogin deu azar.

Dufles e Deduro levaram Shasta para um banco rente à parede externa; espicharam todos as pernas, com grandes suspiros de satisfação; os anões acenderam seus cachimbos. O sol estava quente e o orvalho desaparecera da relva: chegaria a ser quente demais se não soprasse uma leve viração.

- Agora, forasteiro – disse Dufles –, vou mostrar-lhe a terra. Daqui se pode ver praticamente todo o sul de Nárnia, e temos certo orgulho da nossa paisagem. Ali à esquerda, depois daquelas serras, você pode apreciar as montanhas do Oeste. Aquela colina arredondada à direita é a Colina da Mesa de Pedra. Logo ali...

E aí foi interrompido por um ronco de Shasta, morto de sono pela viagem noturna e pela excelente refeição. Os anões fizeram sinais um para o outro para não despertá-lo. E cochicharam tanto, e tantos gestos fizeram enquanto se retiravam, que Shasta teria despertado, se não estivesse exausto.

O menino dormiu o dia inteiro e só acordou para cear. As camas eram pequenas demais para ele, mas os anões arranjaram-lhe uma cama de urze no chão. Shasta nem sequer se virou no leito, nem tampouco sonhou durante toda a noite. Na manhã seguinte, haviam acabado de tomar café quando ouviram um barulho empolgante:

- Trompas! – disseram os anões. Saíram todos correndo para fora.

As trompas soaram de novo: não tão solenes como as de Tashbaan, não tão alegres quanto as do rei Luna – claras, agudas, empolgantes. O ruído, vindo das matas do oriente, logo se misturou ao barulho de cascos de cavalos. Logo depois surgiu à frente deles um batalhão.

Vinha em primeiro lugar o Senhor de Peridan, montando um cavalo baio, empunhando o grande pavilhão de Nárnia: um Leão vermelho em campo verde. Shasta o reconheceu imediatamente. Depois, três cavaleiros, dois em cavalos de batalha e um sobre um pônei. Os dois primeiros eram o Rei Edmundo e uma dama de cabelos negros, com um rosto muito jovial, usando elmo e malha de ferro, levando além disso um arco cruzado nos ombros e um carcás cheio de flechas ("A Rainha Lúcia", murmurou Dufles.). O do pônei era Corin. Seguia-se o principal corpo do exército; homens em cavalos comuns, homens em cavalos falantes (que não se incomodavam de ser montados em ocasiões especiais), centauros, ursos, grandes cães falantes e, por fim, seis gigantes. Pois há gigantes bons em Nárnia. Apesar disso, Shasta mal teve coragem de olhar para eles; leva muito tempo para a gente se acostumar com certas coisas. Pensou somente aonde estaria a Rainha Luanna.

Assim que o Rei e a Rainha chegaram à cabana, os anões começaram a fazer profundas reverências, e Edmundo tomou a palavra:

- Alto! Aqui, amigos, vamos ter um pequeno descanso.

Foi uma algazarra: gente descendo dos cavalos, conversas, mochilas sendo abertas... Corin veio correndo e agarrou Shasta pelas mãos.

- Não é possível! Você por aqui! Que alegria! Mas a coisa está feia. Mal tínhamos chegado a Cair Paravel, ontem pela manhã, quando encontramos o cervo com as novas de um ataque a Anvar. Você não imagina...

- Quem é o amigo? – perguntou o Rei Edmundo ao apear.

- Não está vendo, senhor? É o meu sósia: o rapaz que foi confundido comigo em Tashbaan.

- Olhe só! – exclamou a Rainha Lúcia. – Parecem gêmeos. Que coisa mais fantástica!

- Majestade, por favor – disse Shasta para o Rei Edmundo. – Não fui um traidor, não mesmo. Tive que ouvir os planos. Mas jamais passou pela minha cabeça contar para os inimigos o que ouvi...

- Estou vendo agora que você não é um traidor, rapaz – disse o Rei Edmundo, colocando a mão sobre a cabeça de Shasta. – Mas, se não quiser passar por traidor, da próxima vez não ouça o que não é para os seus ouvidos. Mas está tudo bem.

Eram tantas ordens e idas e vindas que, por uns minutos, Shasta perdeu Corin de vista. Depois ouviu o Rei Edmundo dizer bem alto:

- Pela Juba do Leão, príncipe, já é demais! Será que Vossa Alteza jamais tomará jeito? Você dá mais trabalho do que todo um exército!

Shasta embarafustou-se pela multidão e viu que o Rei Edmundo parecia de fato muito zangado. Corin, por sua vez, mostrava-se um pouco envergonhado; e havia um estranho anão sentado no chão, fazendo caretas, enquanto dois faunos o ajudavam a livrar-se da armadura.

- Se tivesse trazido meu tônico – disse a Rainha Lúcia –, daria um jeito nisso. Mas o Grande Rei não quer que eu o leve às guerras comuns; devo guardá-lo para os casos de extrema necessidade.

Acontecera o seguinte: depois de falar com Shasta, Corin fora puxado pelo cotovelo por um anão-soldado que se chamava Espinhei.

- Que há, Espinhei? – Corin perguntou. O anão respondeu:

- Alteza, nossa marcha de hoje nos levará ao desfiladeiro à direita do castelo de seu pai. Podemos estar lutando antes do anoitecer.

- Sei disso – respondeu Corin. – Sensacional!

- Sensacional ou não – retornou Espinhei –, tenho ordens estritas do Rei Edmundo para impedi-lo de entrar na luta. Mas você poderá assistir à batalha, e isso já é o suficiente para a sua idade.

- Que besteirada! – explodiu Corin. – É claro que vou entrar na luta. Até a Rainha Lúcia vai formar com os arqueiros.

- A Rainha pode fazer como ela quiser – respondeu Espinhei. – Vossa Alteza é que está sob a minha guarda. E tem de jurar solenemente que ficará ao meu lado, até que lhe dê autorização para partir. Do contrário – é a palavra de Sua Majestade – teremos de seguir com os punhos amarrados como dois prisioneiros.

- Eu lhe sento a mão na cara se tentar me amarrar – disse Corin.

- Gostaria de ver Vossa Alteza fazer isso.

Era o suficiente para um rapazinho como Corin. Em um segundo ele e Espinhei estavam embolados no chão. Teria sido uma boa luta: Corin era mais alto e de mais envergadura, mas Espinhei era mais velho e mais forte. Mas não houve luta: por pura falta de sorte, Espinhei pisou numa pedra solta e tacou o nariz no chão. Quando tentou levantar-se, viu que havia torcido o tornozelo, uma torção que o impediria de andar ou cavalgar durante umas duas semanas.

- Veja o que fez – disse o Rei Edmundo. – Privou-nos de um guerreiro experimentado na hora da luta!

- Eu tomo o lugar dele, Majestade – disse Corin.

- Escute! – falou Edmundo. – Ninguém duvida da sua coragem. Mas um rapazinho numa batalha só é um perigo para o seu próprio lado.

O Rei foi chamado para decidir outra coisa, e Corin, após desculpar-se cavalheirescamente com o anão, correu até Shasta e murmurou:

- Depressa! Há um cavalo sobrando e a armadura do anão. Meta-se nela antes que alguém veja.

- Para quê?

- Ora bolas! Para que possamos entrar na batalha! Não vai querer?

- Oh, ah... é... claro... quero – Shasta não contava com essa e começou a sentir um calafrio na espinha.

- Ótimo – disse Corin. – Levante a cabeça. Agora, o cinto da espada. Devemos ir no fim da fila e mais quietos do que camundongo. Depois que a batalha começar, não terão tempo de se lembrar de nós.

Lá pelas onze horas todo o exército estava em pé de guerra, marchando para oeste, com as montanhas à esquerda. Corin e Shasta iam na retaguarda, logo depois dos gigantes. Lúcia, Edmundo e Peridan estavam entretidos com os planos da batalha. Assim, quando Lúcia perguntou: "Mas onde está aquele principezinho levado da breca?", Edmundo simplesmente respondeu: "Na vanguarda é que não está, e isso já é uma boa notícia. Deixe pra lá".

Shasta contou a Corin suas aventuras, explicando que aprendera a montar com um cavalo e que não sabia usar o freio. Corin deu-lhe instruções, relatando ainda tudo sobre a viagem por mar, quando fugiram de Tashbaan.

- Por onde anda a Rainha Luanna?

- Em Cair Paravel. O Rei Edmundo achou melhor deixá-la no castelo, para que Rabadash nada fizesse com ela. Ela bem que tentou ir, mas o Grande Rei havia pedido que não se envolvesse muito em guerras. Ela não é como Lúcia, que desobedece o Rei sempre que vê que nada tem de mais a não ser lutar por Nárnia. A Rainha Luanna também não deveria aparecer em guerras, coisa que ela já fez algumas vezes, mas sempre em companhia do seu esposo. Suas feições são para as damas e demais rainhas, apesar de ser bem geniosa. Mas ela é muito boa no arco e flecha.

Com o caminho ficando mais estreito e escarpado, passaram a desfilar em fila indiana ao longo da borda do precipício. Shasta estremeceu ao pensar que passara pelo mesmo lugar na noite anterior, e viu que não correra perigo porque o Leão permanecera a seu lado.

Duas águias giravam lá em cima no azul.

- Sentem o cheiro da batalha – disse Corin. – Sabem que estamos preparando comida para elas.

Shasta não gostou.

Ao atingirem o fim do desfiladeiro, o panorama abriu-se um pouco mais e Shasta pôde descortinar toda a Arquelândia, nevoenta e azul.

O exército fez alto e abriu-se em linha, executando novos arranjos de formação. Só então Shasta se deu conta do impressionante destacamento de feras falantes (leopardos, panteras, etc.) que foram postar-se à esquerda. Os gigantes foram enviados para a direita, mas antes de assumirem suas posições, sentaram-se para calçar as enormes botas com ponteiras que vinham carregando nas costas e que lhes chegavam aos joelhos. Puseram então seus pesados cajados nos ombros e formaram para o combate. Os arqueiros, com a Rainha Lúcia, caíram para a esquerda, e Shasta os viu – tiiim... tiiim... – experimentar as cordas dos arcos. Por toda a parte era a mesma coisa: gente colocando elmos, puxando espadas, cingindo cintos, quase sem dizer palavra. Era tudo muito solene e dava medo.

"Agora não tenho saída", pensou Shasta, "agora estou aqui." De longe chegava o som de gritos e um surdo tontom.

- Golpes de aríete – murmurou Corin. – Estão forçando as portas. – E acrescentou, com uma expressão agora muito séria: – Por que o Rei Edmundo não parte para cima deles? Não agüento essa demora. É de morte!

Shasta concordou com a cabeça, esperando não aparentar todo o medo que sentia.

Por fim, a trompa! O pavilhão desfraldou-se no vento, com o trote dos cavalos. Todo o cenário abriu-se de repente: um pequeno castelo de muitos torreões, com o portão à frente deles. Não tinha fosso, infelizmente. Sobre as muralhas viam-se os defensores. Embaixo, cerca de cinqüenta calormanos, desmontados, forçavam os portões com um vasto tronco de árvore. Mas bem depressa a cena mudou. O grosso dos homens de Rabadash estava a pé, pronto para invadir os portões. E tinham acabado de perceber os narnianos que desciam da serra.

Sem dúvida alguma, os calormanos eram muito bem exercitados. Em um segundo, toda uma linha do inimigo estava novamente a cavalo, rodopiando para enfrentá-los, saltando de encontro a eles. E um galope agora. O espaço entre os dois exércitos diminuía de momento a momento. Rápido, mais rápido. Espadas nuas, escudos à altura do nariz, orações feitas, dentes cerrados. Shasta estava morrendo de medo. Mas de repente pensou que ter medo naquele momento era sentir medo em todas as outras lutas de sua vida. "Agora ou nunca!"