FAZENDO MÚSICA


Em um prédio residencial. Seattle, EUA.

A madrugada parecia calma e silenciosa, mas Sophi T. Spears conseguia distinguir cada ruído mínimo ao seu redor. Sentada no parapeito do prédio onde morava, ela tomou alguns goles de cerveja e deixou a brisa agitar os seus cabelos vermelho-escuros. Após apreciar a vista e dar um sorriso, ela permitiu que sua mente unisse cada som da noite de Seattle numa melodia bem inusitada.

Uma goteira marcou o ritmo, juntamente com uma janela aberta que batia ao sabor do vento. Depois, as cigarras e o farfalhar de uma árvore próxima entraram também na composição, seguidas pelo barulho do caminhão que passava lentamente pela avenida. Vozes vindas de um beco próximo formaram um coro que, para a jovem, parecia até bem afinado. Outros sons variados foram se agregando à melodia, e, num determinado instante, Sophi pegou a sua guitarra.

_Hora do show – ela disse e iniciou um solo perfeito com seus dedos precisos e ligeiros.

O som elétrico e alucinante se propagou pela noite, amplificado também pelo cosmo da guitarrista. As luzes dos prédios vizinhos começaram a acender. Pessoas vieram até as janelas para vê-la, e alguns passantes surgiram na rua para escutá-la. Dentre eles, estava Mu de Áries. Curiosamente, o cavaleiro conseguia ouvir a mesma melodia que "tocava" na mente de Sophi.

_Incrível. Euterpe consegue ordenar e reger qualquer som ao seu redor – disse ele, sentindo-se inspirado por ela.

E a melodia que havia começado somente com os sons de Seattle ganhou proporções inimagináveis. Era como se o universo inteiro estivesse agora também fazendo música.

Monte Olimpo.

Ártemis andava com passos furiosos de um lado para o outro. Apolo conhecia o temperamento forte da sua irmã gêmea, mas achou que tinha de dividir com alguém o pesado segredo que Hermes lhe revelara. No entanto, a reação da deusa da caça fez com que ele se arrependesse disto:

_O que o irresponsável do nosso irmão fez?! Apolo... Tens noção da gravidade disto?!

_Ártemis, fale baixo. Zeus não precisa saber ainda.

_Como não?! É nosso dever contar este segredo infame ao Senhor do Olimpo agora mesmo!

_Não, minha irmã. Nós sequer conhecemos as razões do Mensageiro e...

_Razões? Hermes já deu provas suficientes da própria irresponsabilidade! Não te lembras de que nos tempos mitológicos...

Apolo a interrompeu:

_A questão não é essa, Ártemis.

_E qual é?

Colocando-se diante da irmã, Apolo disse algo que captou a atenção dela:

_Quando tentei atacar o Destino, me dei conta de algo muito importante: ele nunca faz algo sem ter um propósito. Nunca.

_Então pode haver uma razão maior que justifique a atitude do Mensageiro?

_Isso mesmo.

Pensativa, Ártemis determinou:

_Perguntemos ao próprio Hermes, então.

Apartamento de Sophi. Seattle, EUA.

Com a guitarra nas costas, Sophi voltou ao apartamento pela escada de incêndio. Além dos cabelos vermelhos, ela tinha 1,63m, 57kgs, seios ligeiramente fartos e lábios carnudos. Ao ligar a luz da sala, seus olhos azuis contemplaram todos os seus CDs e discos de vinil, os quais enchiam várias prateleiras e formavam uma coleção valiosíssima.

_O que eu vou escutar hoje? Ah! Metallica... Venha para a mamãe.

Tomando o Black Album nas mãos, ela ligou o som num volume não muito alto e foi até a cozinha para pegar outra cerveja. Ao fechar a geladeira, leu os lembretes escritos por Layla, a amiga com a qual dividia o apartamento, mas que passava muito tempo ausente por trabalhar como comissária de bordo:

Não acordar os vizinhos no meio da madrugada com solos alucinantes de guitarra. É sério, Sophi. O síndico nos ameaçou de despejo da última vez.

Tomar cuidado com o seu fã misterioso.

Não matar o gato de fome.

_Ah, é. Nós temos um gato. Cadê ele?

Sophi pegou a ração e começou a procurar o felino batizado em homenagem ao ex-guitarrista do Guns n' Roses:

_Cadê você, Slash? Hora da comida.

De repente, o gato persa de pelo escuro e bagunçado apareceu e deu um miado. Sophi bagunçou-o ainda mais e disse:

_Pronto. Come ai que eu vou dar uma relaxada.

Jogando-se no sofá, ela fechou os olhos para ouvir melhor a música, mas acabou adormecendo. Na manhã seguinte, acordou num sobressalto ao ver que estava atrasada para o seu trabalho no mundo dos mortais:

_Puta merda! O chinês tenebroso vai me despedir do restaurante se eu não chegar em... Cinco minutos!

Correndo para o banheiro, ela lavou a cara em três segundos, escovou os dentes, colocou parte do uniforme de ajudante de cozinha e saiu correndo. Ao abrir a porta, encontrou uma caixa com donuts e uma mensagem a qual dizia que ela era a melhor guitarrista do mundo. Era mais um presente do fã misterioso.

_Boa! Café da manhã! – Sophi disse e ignorou as recomendações de Layla ao morder um dos doces deixados pelo desconhecido que se considerava o seu fã número um. Ao sair desembestada pelo corredor, ela deu de cara com o chato síndico do prédio, que disse:

_Ontem eu estava no melhor do meu sono quando acordei ouvindo o som da sua maldita guitarra!

Sophi deu um sorriso descarado e perguntou:

_Arrasei, não arrasei? Sim, eu sei – beijou as próprias mãos num gesto convencido.

O homem revirou os olhos e deu um ultimato:

_É a última vez que serei condescendente com este comportamento fora dos padrões, senhorita Sophitia.

_Para que tanto formalismo? Pode me chamar só de Sophi – ela tocou o ombro do síndico, num gesto de camaradagem. – Mas... Agora eu preciso ir, ou serei demitida pelo meu chefe comunista. Alguém se esqueceu de avisar para ele que aqui neste país nós somos pessoas livres.

Ignorando os outros avisos do síndico, ela teve uma ideia e voltou ao apartamento. Olhando para o relógio da sala, Sophi decidiu pegar a motocicleta de Layla. Munida das chaves, ela desceu até a garagem do prédio, deu a partida e fez o motor da grande máquina roncar.

_Adoro esse barulho – a Musa da Música acelerou pelas ruas de Seattle. E algumas multas por excesso de velocidade acabariam chegando dias depois.

Templo de Apolo. Delfos.

Hermes despertou ao ouvir uma voz que conhecia bem:

_Acorde-o, Apolo. O nosso irmão não merece dormir enquanto o Caos que ele liberou se espalha – disse Ártemis devido ao seu rígido senso de justiça.

_Calma, minha irmã. Ele já está acordando.

Hermes abriu os olhos e respirou fundo ao ver os outros dois deuses. Torcendo os lábios e massageando a testa, ele falou num tom irônico:

_Muito bem, Apolo. Por que não revelaste o meu segredo primeiro ao grande Zeus? Juro que eu preferiria levar um raio no meio dos olhos do que ouvir as repreensões de Ártemis.

A deusa em questão logo rebateu em seu tom mais sério:

_Não é hora para brincadeiras, Hermes.

_Eu juro que não estou brincando.

Apolo resolveu ir direto ao ponto antes que os dois se estranhassem:

_Hermes... Na realidade, Ártemis e eu viemos até aqui para ouvir o que tu tens a nos dizer sobre o Caos. Por que tu o libertaste? Isto não faz nenhum sentido para nós!

O Mensageiro ficou de pé com dificuldade. O ferimento em seu peito latejou fortemente, mas ele disse apesar da dor:

_Eu quero contar tudo. Porém, desejo fazer isto também na presença de Athena.

Ártemis bufou e jogou a sua trança loira para trás. Depois, desapareceu antes mesmo que Hermes abrisse com o seu caduceu um portal para o Santuário. Apolo, então, advertiu:

_Peço para que tu não a provoques, meu irmão. Lembre-se de que Ártemis é severa quando se sente afrontada.

_Ácteon que o diga. Não era este o nome do mortal que uma vez ousou espiar a nossa irmã enquanto ela se banhava?

_Sim, creio que era mesmo este o nome dele. Lembro-me apenas de que ela o transformou em animal e deixou que ele fosse caçado por engano pelos próprios amigos e morto pelos seus próprios cães.

Os dois deuses se entreolharam e seguiram a deusa da caça e da lua até o Santuário.

Em Seattle, EUA.

Sophi olhava fixamente para o relógio na parede da cozinha do restaurante onde trabalhava. Impressão sua, ou os ponteiros dos segundos pareciam se mover em câmera lenta?

_Cinco, quatro, três, dois... Um!

Apressada, ela largou a faca com a qual cortava algumas verduras e desamarrou o avental. Saindo da cozinha, ouviu a voz e o sotaque carregado do chefe:

_Amanhã não chegar atrasada de novo. Olho da rua se isso acontecer, me ouviu?

_Ok, Mao.

Sophi saiu do restaurante correndo e esbarrou em alguém que estava parado na porta:

_Foi mal – ela se desculpou sem olhar direito para Mu, tamanha era a sua pressa.

O cavaleiro de Áries respondeu:

_Não tem problema, mas eu preciso falar com...

Fazendo-se de surda, Sophi deu a partida na moto de Layla e se foi em alta velocidade, avançando alguns sinais vermelhos até alcançar uma via de trânsito mais rápido. Ela estava atrasada para o show que daria com a sua banda naquela noite, e ainda teria de passar em casa.

_Droga! Se eu não tivesse sido obrigada a compensar o meu atraso da manhã... – ela disse e acelerou ainda mais, desviando-se de alguns carros com manobras ousadas.

Quando chegou ao seu apartamento, Sophi correu para tomar banho sem imaginar que Mu acabara de surgir em sua sala. Ao se lembrar das informações que recebera sobre a Musa da Música, ele olhou para a guitarra que estava numa espécie de pedestal e disse:

_Estranho... Ela não deveria tocar flauta?

Percebendo que Sophi estava prestes a sair do banheiro, Mu desapareceu. Ficou esperando-a parado na rua, para poder segui-la até o lugar da apresentação da banda, um lugar conhecido por dar oportunidades a novos nomes do underground. E o cavaleiro nunca havia ido a um show de rock antes. Nunca. Logo na entrada ele teve de se desviar de um grupo que brigava por qualquer coisa. Garrafas se quebraram aos seus pés, mas a serenidade dele não foi abalada, é claro.

_Ei, hippie... Tá perdido por aqui? – um cara provocou ao notar as roupas do ariano, que se vestia à moda de Jamiel.

_Na verdade, eu estou no lugar certo. Agora, com licença – disse Mu num tom firme o suficiente para evitar confusão.

_Não tá mais aqui quem perguntou – o homem deu passagem ao cavaleiro e se foi cambaleando enquanto tomava uma bebida.

Ao entrar, Mu teve de se acostumar ao ambiente barulhento e confuso. A banda de Sophi já estava no palco, mas ela ainda abria caminho através da multidão para chegar até lá.

_Cadê a Sophi? – perguntou o baterista, impaciente diante do público que começava a perceber o atraso.

_Tou aqui. E... Afina direito esse baixo, Cliff – ela disse ao subir no palco dando um pulo.

_Porra, Sophi! Como você diz que o meu baixo está desafinado se eu não toquei nota nenhuma?

_Eu simplesmente sei. Anda logo e faz o que eu digo. O show já vai começar agora – ela plugou a guitarra e deu um sorriso cheio de confiança.

As luzes dos refletores, então, acenderam. O baterista começou a tocar, acompanhado do baixista. Sophi dedilhou as cordas da guitarra sabendo muito bem o que estava fazendo. Parado num canto, Mu prestava atenção em tudo enquanto o público ia à loucura com o som.

_A Musa da Música é bem... Elétrica. Mas como direi que ela é uma deusa a qual perdeu a memória sem assustá-la?

O ariano passou a observar os pulos e giros que Sophi dava ao tocar. Não demorou e ela pulou do palco para cima da considerável multidão, que a amparou de braços abertos. Mu se transportou para "salvá-la", pensando que ela se lançara ao perigo sem motivo aparente. Tirando-a dos braços que a erguiam no ar, ele perguntou:

_Eu... Poderia falar com você?

_Autógrafos só depois do show, cara – Sophi disse e correu de volta para a banda. E a música seguiu.

Em algum lugar do Santuário.

Ártemis surgiu e seguiu na direção das Doze Casas com o intuito de não perder tempo algum. No entanto, uma perturbação caótica materializou-se perto de onde ela estava. Tomando o seu arco prateado e tirando uma flecha da sua aljava, a deusa caçadora viu o Leão de Neméia, o primeiro monstro que Hércules matara ao realizar os seus Doze Trabalhos. Ela mirou precisamente na perturbação e disse num sussurro:

_Desapareça, ó fera renascida do Caos.

Porém...

_Excalibur!

O golpe de Shura de Capricórnio rasgou a terra e atingiu o alvo em cheio antes que a deusa liberasse a flecha. O Leão de Neméia chegou a rugir furiosamente, mas foi despedaçado e desapareceu.

_Quem ousou roubar a presa que estava na mira da minha seta? – gritou Ártemis ao revelar a sua presença, antes ocultada para não atrapalhar a caçada.

Shura logo percebeu que estava diante de uma divindade do Olimpo, e isto, no imaginário de qualquer cavaleiro de Athena, significava problemas. Sendo assim, quando Hermes e Apolo também surgiram, o cavaleiro de Capricórnio se viu numa situação por demais delicada. Sério e buscando as suas melhores palavras, ele disse:

_Era meu dever como protetor de Athena aniquilar a perturbação que estava dentro dos limites do Santuário.

Apolo não entendeu o contexto da situação, mas percebeu a contrariedade da irmã e perguntou:

_Algum problema, Ártemis?

A deusa encarou o cavaleiro de ouro por alguns instantes. Podia ser excessivamente severa quando se considerava afrontada, mas as palavras de Shura fizeram sentido. Portanto, ela respondeu utilizando-se de bom senso:

_Não há problema algum, Apolo. Este humano apenas cumpriu com o seu dever ao destruir uma perturbação do Caos e agora nos conduzirá até Athena.

Percebendo que os visitantes divinos vinham em paz, Shura os acompanhou através das Doze Casas e enviou um servo diante de si para avisar Shion. Durante todo o caminho, os quatro não trocaram uma palavra sequer, mas o capricorniano percebeu a tensão do Mensageiro e o ar de superioridade divina de Ártemis.

"Mais problemas", pensou o cavaleiro de ouro.

Santuário. Salão do Grande Mestre.

Desde que voltara à vida, o antigo cavaleiro de Áries sofria de insônia. No entanto, ele costumava aproveitar o tempo que passava longe do travesseiro para resolver os assuntos pendentes do Santuário. Sendo assim, estava concentrado na leitura de alguns papéis quando a voz aveludada da deusa Afrodite lhe falou:

_Sozinho à uma hora dessas?

Sentindo o doce aroma que ela exalava, o Grande Mestre respondeu:

_Eu tenho muito trabalho a fazer.

_Ah, querido... Existem coisas muito mais interessantes para fazer numa noite tão estrelada como essa.

Ciente da atração que exercia, a deusa do amor e da beleza aproximou-se de Shion e tentou massagear-lhe os ombros. Porém, ele se levantou num sobressalto e se afastou dizendo:

_Isto não é apropriado.

Ela, então, sentou-se sobre a mesa do Grande Mestre, enrolou uma mexa de cabelo ruivo nos dedos e falou:

_Eu estou me sentindo... Sozinha – fez beicinho.

_E onde está o deus Dionísio?

_Por aí. Mas isto não me impede de buscar companhias mais... Interessantes.

Shion teve uma ideia enquanto tentava não reparar muito na pele macia da deusa:

_Athena também anda com insônia ultimamente. Talvez ainda esteja acordada. Não imagino companhia melhor para você.

_Athena e eu não temos muitos assuntos em comum.

Afrodite fixou seus olhos azuis em Shion, que, por alguns instantes, ficou sem saber o que fazer para "escapar" dali. Pigarreando, ele disse ao forçar um bocejo:

_Perdão, mas... Eu devo me retirar agora.

_Fique à vontade, querido.

O Grande Mestre fez uma ligeira reverência e tomou o rumo dos seus aposentos. No entanto...

_Para onde você pensa que está indo, deusa Afrodite?

Ela deu uma piscadela charmosa como resposta. Fazendo-se de desentendido, Shion caminhou apressadamente pelo corredor e se trancou sozinho em seu quarto. Do lado de fora, a deusa se divertia com a atitude do lemuriano. Não demorou e o servo enviado por Shura apareceu e chamou Shion após três batidas reverentes na porta:

_Grande Mestre, fui enviado pelo santo de Capricórnio com uma mensagem urgente.

A porta se abriu e o ariano forçou um bocejo ao ver que Afrodite ainda estava ali perto. Dirigindo-se ao servo, ele disse:

_Seja breve e diga-me o teor da mensagem.

_Mais três divindades do Olimpo vêm para cá, Grande Mestre. Desejam ver Athena.

Shion massageou a testa e quis ter certeza do que ouvira:

_Mais três?

_Sim.

_Era só o que me faltava. Sequer aguento as duas que já estão aqui e mais três me aparecem? – Shion resmungou baixinho, referindo-se à Afrodite e Dionísio.

_Disse alguma coisa, senhor? – perguntou o servo.

_Nada. Você pode ir agora.

O homem assentiu numa reverência e se foi. O Grande Mestre, então, foi até a câmara de Athena para chamá-la. No caminho, murmurava:

_Só me falta Hades aparecer qualquer dia desses também.

Templo de Posseidon.

Os mares estavam revoltos, tamanha era a contrariedade de Posseidon. No entanto, ele deveria suportar a presença dos descendentes do Caos em seus domínios se quisesse manter a sua postura de traidor do Olimpo. Sendo assim, ele controlou o seu ânimo e saudou ao Destino:

_A presença dos meus aliados é sempre bem-vinda.

O ser caótico deu um sorriso sinistro e respondeu referindo-se a si mesmo e as três Erínias:

_Não nos veja como espiões, deus dos mares. Érebo é quem tem as desconfianças, não eu.

_É natural que ele ainda não confie na nossa recente aliança – Julian Solo ponderou.

_De fato. Mas digo que tu terás a chance de demonstrar a tua lealdade em breve.

A forçada cortesia de Posseidon desvaneceu. O que o Destino queria dizer com isso?

Hemera surgiu inesperadamente e informou:

_Sinto a aproximação do primeiro invasor. É o cavaleiro de Athena.

_Vá até ele e cumpra com o teu dever – ordenou o Destino.

Ela assentiu e Posseidon quis saber:

_O que está havendo?

_Os teus domínios serão invadidos, mas nós já estamos preparados para isto.

As três Erínias se entreolharam, sedentas para saciar sua fúria. Elas desapareceram para assumir seus postos, e ao Destino cabia apenas esperar.

Live Music Club. Seattle, EUA.

Ao final da apresentação, Sophi tirou o cabelo vermelho do rosto e enxugou o suor da testa. Aproximando-se do microfone, ela controlou a respiração ofegante e disse erguendo a guitarra no ar:

_Ei, motherfuckers... Foi muito bom tocar para vocês hoje. Até a próxima!

O público gritou e s luzes do palco apagaram segundos depois. Não demorou e uma nova banda subiu para se apresentar após certa de preparação.

_Arrasou como sempre, Sophi – um barbudo e cheio de tatuagens disse ao avistar a guitarrista.

_Eu sei disso, Brian. Qualquer dia desses, eu vou passar no seu estúdio para finalizar a minha tatuagem nova – ela fez questão de mostrar a fênix inacabada que tinha num dos ombros.

_Vou te esperar. Mas... E as novidades? Ainda trabalhando lá no restaurante chinês?

Sophi deu um suspiro desapontado e respondeu:

_É o jeito. Eu amo tocar, mas isso não paga as minhas contas. Ainda.

_E o fã misterioso? Já descobriu quem é o tarado?

_Ih... Tá difícil. Ele sempre vem quando eu estou dormindo, e o porteiro não me diz muita coisa. Mas não é um tarado, Brian.

O tatuador riu e olhou ao seu redor antes de dizer:

_E se ele estiver por aqui? Já imaginou?

_Será? Você dá algum palpite? – ela desafiou numa brincadeira. Na realidade, Sophi pouco ligava para o estranho que apenas deixava mensagens de incentivo e presentes na sua porta quase todas as manhãs.

_Hum... Eu acho que pode ser... Aquele ali – ele apontou para Mu, que observava a Musa da Música à distância enquanto pensava numa maneira de se aproximar.

_Aquele?

_Sim. Aquele. Não vê como ele é...

_Bonito? Dono de um visual exótico? – ela sugeriu.

_Não. Eu ia dizer esquisito. Já vi e fiz muitas tatuagens na minha vida, mas aquelas que ele tem na testa são novidade para mim.

A mente agitada de Sophi desacelerou um pouco, e ela acabou fazendo uma breve retrospectiva do seu dia. Num estouro, ela concluiu:

_Ei! Ele é mesmo o meu fã misterioso! Só hoje eu o encontrei duas vezes: a primeira na saída do trampo e a segunda na hora em que pulei do palco!

_Mesmo?

_Sim! E quer saber? Eu vou lá falar com ele!

_Tá maluca, Sophi?! E se ele for tipo aquele cara que matou o John Lennon?!

_Não, não. Ele parece ser um cara tímido, e eu adoro caras tímidos e tranquilos. Hahaha!

_Ei... Eu não acho uma boa ideia você ir até ele. Sophi... Volte aqui!

Destemida, ela não deu atenção ao conselho e foi em direção ao cavaleiro. Diante dele, jogou o cabelo para trás e disse:

_Oi.

_Oi – Mu repetiu.

_E aí...? Gostou do show?

_Devo dizer que foi algo bem... Diferente do que eu estou acostumado a ver. Mas de uma forma... Boa, eu acho.

_Legal.

O ariano assentiu tranquilamente. Porém, Sophi não se conteve. Ela resolveu ir direto ao ponto e disse com um sorriso sabichão nos lábios:

_Eu sei quem você é.

_Mesmo? – Mu não esperava por tal afirmação. – Eu acho que não.

_Ah, eu sei sim.

Ela falou de forma tão convicta que o ariano pensou um pouco e não a tomou por mentirosa:

_Se você sabe quem eu sou, deve saber também quem voc motivo para eu estar aqui. Certo?

_Ah... É claro que eu sei quem eu sou... E também sei o motivo para que você esteja aqui.

Mu realmente estava surpreso:

_Eu não esperava por isto. Mas... Tudo parece bem mais fácil agora.

Sophi começou a estranhar a conversa. Ela se perguntou mesmo se o cavaleiro não seria "tipo aquele cara que matou o John Lennon":

_Mais fácil como? – quis saber.

_Bom... Eu acho que nós já podemos ir ao Santuário agora, deusa Euterpe. O deus Dionísio aguarda o seu retorno para que você volte ao convívio dos deuses o quanto antes, pois o Caos se espalha a cada dia que passa.

_Ah... Cara... Você tá doidão?

Percebendo o mal entendido, Mu tentou remediar a situação:

_Eu acho que não estamos falando do mesmo assunto.

Sophi tinha a certeza disso, e quis logo sair dali:

_Ah... Não mesmo. E eu vou cair fora agora. Até... Nunca mais. E você não precisa mais ficar deixando coisas e mensagens na minha porta, beleza?

_Escute, eu... – o ariano ainda tentou conversar, mas ela já ia embora. Será que o mal entendido acabaria por dificultar a sua missão?


Oi! Aqui está a sétima Musa. Espero que vocês tenham gostado da Sophi também. :)