Capítulo Nove - Aceitação

- Ai! Isso dói!
- Levanta!
- Pare com isso. O que você quer?
- Quero que saia da cama, e vá embora. É isso o que eu quero, anda, sai do canto!
- Ai! Pare com isso, está me machucando. Aliás, o que está fazendo aqui? Como chegou aqui?
- Ah, cala a boca Rony! Levanta e sai, ates que Harry acorde.
- Eu não vou a lugar algum, e não acho que a mamãe gostaria que eu deixasse você e Harry sozinhos aqui encima.
- Rony, eu vou te bater, e a mamãe sabe que estou aqui. Eu preciso falar com Harry. Agora sai.
- Que horas são? Está escuro.
- É a hora de você sair.
- Para de me empurrar, Gina. Sabia que um pouco de delicadeza seria...
Rony nunca terminou aquela frase pelo fato de Gina ter fechado a porta do dormitório na cara dele.
Harry tentou não rir. Parecia que Gina estava querendo fazer uma surpresa a ele, e ele não queria decepcioná-la. Ele se segurou o máximo que pôde e esperou ela aproximar-se dele. E continuou esperando. Sem entender, ele virou e olhou para a porta, de onde ele ouvira a voz de Gina pela última vez.
Ela estava lá, se apoiando na parede com uma mão, ele achou que ela parecia lânguida.
- Gina! - ele pulou rapidamente da cama e correu até ela. - Você está bem?
- Ah, hum... Sim, fiquei um pouco sem fôlego. Só isso. - ela tremia, e realmente precisava apoiar-se na parede.
- Venha, sente aqui. - ele disse guiando-a até a cama de Rony.
- Ah, por favor, Harry. - ela brincou. - Qualquer lugar, exceto a cama desse idiota. Isso é culpa dele.
Eles andaram adiante e sentaram-se na cama de Harry.
- O que houve? - ele perguntou gentilmente.
- Ah, eu precisava falar com você, e ele agiu como um idiota, não queria sair. Eu só... Não estou acostumada a lidar com ele. Ele me chateou muito. - ela disse, apoiando a cabeça nos ombros de Harry e respirando fundo.
- Venha, deite um pouco, eu vou descer e...
- Não, fique comigo, preciso falar com você. Deite comigo, por favor.
Gina e Harry deitaram na cama dele. Ele a acolheu em seus braços, tentando confortá-la ao máximo. Não sabia o que dizer a ela - não esperou que ele estivesse ali - e ele teria dito isso a ela se ela não estivesse tão fraca. Ele a abraçou forte, adorando o fato de ela estar ali com ele, deitada com ele, não conseguia evitar que o sorriso lhe escapasse.
Eles tinham tido tão pouco tempo juntos desde que ela voltara à escola. Enquanto Gina estava na ala hospitalar, Madame Promfrey tinha sido bem liberal com as suas visitas e eles tinham passado horas e horas juntos. Após o Natal, ele só tinha-na visto nos passeios a Hogsmeade, e esses tinham sido raros.
Após ela ter acordado no dia da batalha final, levara vários dias para recuperar a voz. Harry não entendera, mas por alguma razão a garganta dela estava arranhando, como se ela tivesse gritado por muito tempo. Depois daquilo, Harry percebera que Gina estava fisicamente mais fraca também, e não por está deitada na cama por meses. A enfermeira tinha trabalhado para prevenir que os músculos de Gina atrofiassem. Ela executava exercícios especiais todos os dias, para que quando Gina acordasse, ela não tivesse que lidar com outro problema. Mas era como se Gina estivesse acordada em outro lugar durante todo aquele tempo e estivesse lutando para voltar. Quando ela acordou estava à beira do esgotamento, da desnutrição, o que não fazia nenhum sentido, e o mais surpreendente é que ela estivera saltitante, o que não tinha nada haver com ela.
Enquanto as semanas passavam, Harry achou que ela fosse melhorar, e ela tinha melhorado, mas muito lentamente. Ele ficara aliviado quando ela contou que voltaria às aulas após o feriado de Natal. Esperou que ela não tivesse perdido muita coisa. Mas isso se tornou um problema. Ela dissera-lhe em uma das visitas a Hogsmeade no começo de Maio que teria de ter aulas no verão, e faria os N.I.E.M's no fim de Agosto. Por mais que quisesse ficar com ela, sabia o quão importantes aqueles testes eram para ela, e se precisasse de mais tempo, que assim fosse. Não iria pressioná-la. Afinal, tinham o resto da vida pela frente. O que seria mais um mês ou dois?
Harry percebeu o sol na janela do quarto e notou o quão cedo era. Aconchegou-se próximo a ela, sabendo que não podiam ficar assim por muito tempo.
- De que horas chegou aqui? - perguntou enquanto beijava o topo da cabeça dela.
- Às cinco. O professor Snape fez uma chave do portal para mim, e estou com outra para me levar de volta no domingo.
- De que horas?
- Na hora que eu quiser. - ela disse virando-se e olhando cheia de amor para os olhos verdes dele. - Feliz aniversário. - ela se inclinou e o beijou.
Foi um beijo legal, mas tinha algo estranho. Harry sentiu-a retraída, talvez não estivesse se sentindo bem. Não iria questioná-la. Estava emocionado de tê-la ali consigo. Ela era o melhor presente que podia receber naquele dia, e era só nisso que ele queria pensar.
- Harry, preciso falar com você. - seu corpo enrijeceu. - Eu não te contei tudo que aconteceu na escola, eu precisava me acalmar um pouco. - ela abaixou a cabeça e disse sincera: - Sinto muito. - não pôde conter as lágrimas que saíram de seus olhos.
- Gina, você pode me contar qualquer coisa. Meu amor, o que aconteceu?
- Eu não vou prestar os N.I.E.M's em Agosto. - ela disse, procurando manter-se firme.
- Ah. - ele hesitou, sem saber se devia perguntar mais a ela. Desde Setembro ela tinha mudado, não de uma maneira ruim, mas ela estava mais emotiva do que costumava ser antes do confronto com Voldemort. Cautelosamente ele continuou: - Pensei que só não tivesse feito os secundários. Não era o que estava fazendo nas aulas de verão?
- Acho que vou começar do início. - ela disse solenemente.
Harry apenas olhou para ela enquanto ela deitava perto dele. Não fazia idéia do que ela iria lhe dizer, mas sabia que nada que dissesse poderia mudar o que sentia por ela. Nunca esqueceria a experiência de achar que tinha-na perdido, e jamais queria sentir aquilo de novo. Ele acariciou sua mão, e olhou fundo nos olhos dela, esperando que ela explicasse.
- Quando voltei às aulas em Janeiro, todos pensaram que eu iria entrar no meu sétimo ano. Sempre fui uma boa aluna, e até a professora McGonagall pensou que eu me daria bem. Algumas semanas, ainda no prazo, a professora McGonagall me chamou em sua sala, ela disse que eu estava apenas assistindo às aulas. Ela sabia que eu estava lutando, e os professores tinham dito a ela que eu estava me esforçando nas aulas como fazia na dela. Pensei que minha força voltaria com o tempo, mas isso não estava acontecendo. Assistir às aulas era uma luta diária. Eu não podia mais esconder isso nem de mim mesma, eu simplesmente não podia continuar com aquela carga horária. Madame Promfrey disse que o incidente com Tom enfraqueceu meu corpo e minha habilidades mágicas mais do que alguém poderia ter imaginado. McGonagall ofereceu uma solução. Eu fiquei envergonhada de contar a qualquer um e pedi aos meus pais para não dizer aos meninos, especialmente a você.
- Por quê, Gina? - Harry estava chocado. - Você achou que eu pensaria diferente de você? Você não pode acreditar nisso.
- Desculpa... - lágrimas saíam dos seus olhos de novo. - Sei que não iria me julgar, mas...
- Mas o quê? - perguntou gentilmente.
- Eu não tenho uma boa opinião sobre mim agora, e acho... Achei difícil acreditar que alguém pensaria melhor.
- Mas não eu, Gina. Sabe disso, não é? Sabe o que acho de você. Você é corajosa e talentosa, a pessoa mais maravilhosa que conheci na minha vida.
- Não sou mais talentosa.
- É sim! Dumbledore disse no outono que talvez levasse tempo para a sua força voltar. Você não perdeu suas habilidades mágicas. - disse decidido.
Ela ficou quieta por um tempo e Harry fez a única coisa que pensou confortá-la: coloco-a em seus braços e abraçou-a o mais forte possível. Como ela pensara que ele teria vergonha dela? E ainda tinha algo diferente com ela. Há um ano atrás ela teria dito a qualquer um que a desaprovasse para deixá-la em paz, mas não essa Gina. Essa Gina iria pensar duas vezes. Ela nunca contava o que acontecera no espaço de tempo entre o seu segundo juramento e a derrota de Voldemort, mas ele arriscaria dizer que o que quer que fosse, teria destruído parte dela. Tinha certeza que fora horrível. Por mais que quisesse saber, não perguntaria. Quando estivesse pronta contaria e ele estaria ali para escutá-la.
Harry notou mais ainda quando olhou para ela mais de perto. Podia ver nos olhos dela. Não tinha-na visto desde Junho, quando fora com a família dela até King's Cross apanhá-la. Não tinha passado muito tempo analisando-a desde então. Estavam muito ocupados tentando ficarem juntos antes que ela partisse novamente. Na verdade ela devia ter ficado na escola, mas ela dissera que não agüentaria passar o verão todo sem vê-lo. Agora ele tinha percebido sua pele pálida e o olhar receoso. Suas mãos estavam frias, e ele as apertou com força, tentando compartilhar seu calor com ela.
Quando ela relaxou nos braços dele, ele decidiu perguntar qual era a solução da professora McGonagall. Queria que contasse tudo. Queria dividir o fardo com ela.
- Ela sugeriu que eu me concentrasse em adquirir minhas habilidades de volta, como elas eram antes do... - ela não terminou.
Na verdade, ela não precisava terminar. Harry sabia do que ela estava falando. Ela tentou dizer antes do encontro com Voldemort. Ele deu-lhe um aperto tranqüilizador, torceu que ela visse que ele entendera, e esperou ela continuar.
- Primeiro ela quis que eu deixasse Feitiços e Transfiguração, uma vez que essas aulas são onde eu preciso mais das minhas habilidades. Disse que eu poderia continuar com as outras aulas e prestar os N.I.E.M's nelas. Então eu poderia assistir às aulas de verão e fazer os dois que faltavam.
- Parece legal, mas acho que não foi isso que aconteceu. - Harry disse suavemente.
- No lugar dessas duas aulas, eu encontraria a professora McGonagall reservadamente. Tentei continuar, mas não consegui. Estava sempre cansada, e qualquer magia que eu conseguia executar me enfraquecia de maneira que eu tinha que descansar por um bom tempo. Ela decidiu que seria melhor eu deixar todas as aulas. - ela fechou os olhos e torceu as mãos, nervosa.
- Quando foi isso? - Harry perguntou.
- Na primeira semana de fevereiro.
- Você sabia disso no dia dos namorados e não me disse? - ele não estava zangado, e sim decepcionado.
- Desculpa, eu devia...
- Você não confiava em mim...
- Não, não era isso. - lágrimas deslizavam de seus olhos. - Não queria que se decepcionasse comigo.
- Eu nunca me decepcionaria com você. Estou triste, mas não porque não me disse, mas pelo fato de você não confiar em mim.
- Não é você, Harry, sou eu. Eu não confio em mim.
- Então, o que houve depois daquilo? O que esteve fazendo desde fevereiro? Quero dizer... Desculpa, não quis dizer isso. Você disse que estava tendo aulas de verão. Você está inventando as aulas? Eu não consigo entender.
- Depois que deixei as aulas, comecei a ter aulas privadas com a professora McGonagall, Flitwick e Snape. Basicamente comecei do primeiro ano e trabalhei tudo que já tinha aprendido desde então. Eu não perdi o conhecimento, mas minha habilidade de executar feitiços e encantamentos foi minimizada. Eles foram maravilhosos. Não tinha obrigação de fazer isso por mim, mas fizeram. Eu até passei a ter outra opinião sobre Snape. - ela notou a expressão de espanto e horror na face dele. - Não me olhe assim, - ela riu. - ele ainda é horrível, mas é brilhante.
- Então não preciso me preocupar sobre você e Snape fugirem juntos?
- Não! Ele nunca teria algo comigo. Parece, - ela riu baixinho. - que eu estou contaminada. Eu tive contato com um Potter.
- Você riu. É a primeira vez desde que chegou aqui. Não me leve a mal, eu amo seu sorriso, mas me dá a sensação de que Snape tem algo haver com isso.
Ele não conseguiu esconder o risinho - ela sabia que ele estava brincando - e isso a tranqüilizou. Ela se aconchegou nos braços dele e o abraçou apertado por um bom tempo.
- Então, você quer me contar o resto? - Harry perguntou algum tempo depois.
- Eu estou quase de volta a onde eu estava no meu sexto ano. Eu... - ela parou e Harry esperou que ela continuasse.
- Eu vou ter que continuar com as aulas de verão até a terceira semana de agosto. Vou passar uma semana em casa e no dia 1º de setembro eu voltarei a Hogwarts como uma setanista.
- Ok, então a única coisa a se fazer é pensar no que vamos fazer nessa semana que você ficará em casa. Deveríamos fazer algo especial, não acha? - Harry disse pensativo.
- Você não se incomoda com isso?
- Claro que não. - ele estava sendo sincero. - Não importa o que tenha que fazer. Gaste o tempo que precisar. Eu estarei aqui quando quer que esteja pronta.
- Você é maravilhoso.
Ela o puxou para si e o beijou como costumava fazer, com tanta paixão e amor. Não hesitou em nada, e Harry sabia que tinham atravessado um limiar. Estavam voltando a ser o que eram, e fariam isso juntos.


- Sr. Potter. - uma voz dura chamou-o do nada.
- Ah, Professora, não tinha visto você. Como está?
- Estou bem, Sr. Potter, obrigada por perguntar. Entretanto, quero deixa uma coisa bem clara.
- Hum... O quê?
- Não importa que você não seja mais aluno desta escola. Eu não repetirei o que aconteceu no último baile que você e a Srta. Weasley compareceram.
Harry sentiu um calafrio na espinha. Do que McGonagall estava falando? Ela ouvira algo? Tinha alguém atrás de Gina? O último baile... Ele não queria nem pensar nele. Tinha sido o Baile de Formatura, uma semana antes de deixar Hogwarts para sempre. Já tinham passado oito meses? Não parecia possível. Ele tinha-na alcançado antes que Voldemort a matasse, mas não chegara a tempo de evitar que ela se machucasse. Ele a trouxera para Hogwarts, onde ela ficou inconsciente na ala hospitalar até o dia da batalha final. Ela ficara deitada lá até Voldemort ser destruído e levado pelas Furies. Do que diabos McGonagall estava falando? Palavras não vinham, ele apenas olhava para ela com uma expressão de horror em seu rosto.
- Ah, Sr. Potter, sinto muito. Não quis dizer isso. - ela segurou seu cotovelo e levou-o a um canto, onde ninguém pudesse ouvi-los. - Não pensei que lembraria do ocorrido. Eu nunca teria...
- Eu não entendo, Professora. - Harry disse, ainda chocado.
- Anteriormente ao desaparecimento da Srta. Weasley, Sr. Potter, eu tive de dar-lhe várias advertências sobre seu modo de dançar. Lembro-me de alerta-lhe mais vezes que normalmente faria, e acabei dando-lhe uma detenção.
Harry engoliu em seco. McGonagall estava lembrando-lhe de uma detenção que não tinha cumprido? Ela não podia... Podia?
- Não, não terá de cumprir aquela detenção. Honestamente, Potter! Eu iria pedir para controlar-se mais esse ano do que no ano passado no Baile de Formatura.
- Ah, sim, Professora. Eu irei, da última vez... Bem, da última vez eu pensei... Mas é diferente, então... Sim, Eu irei... Hum... Me controlar.
- Obrigada, Potter. - a Professora sorriu, dando-lhe um de seus sorrisos extremamente raros.
Ela começou a se afastar, e de repente mudou de idéia e virou para Harry.
- A propósito, Harry, você soube? Fizeram um feitiço no Salão Principal. Você pode ouvir música do lado de fora, e também tem um feitiço de aquecimento em todo o terraço. Imagino que seria adorável dançar sob as estrelas.
Harry olhou para sua Diretora atordoado. Ela estava dizendo o que ele pensava?
- Boa noite, Potter. - E mais uma vez ela virou e foi embora.

Ele não precisou esperar muito por Gina descer; ele a vira no momento em que aparecera no topo da escada. Como não poderia notá-la? Seu deslumbrante cabelo ruivo cascateando sobre seus ombros e suas vestes verde-claras completando sua aparência de marfim tão perfeitamente. Deus, ela era linda! Mal podia esperar para tê-la em seus braços. Rapidamente ele foi ao seu encontro no pé da escada.
- Você está linda. - ele disse enquanto a acolhia em seus braços.
- Você também está. - ela disse beijando-o docemente.
Ela o guiou pela mão até o Salão Principal e depois para uma mesa com alguns grifinórios que ele mal se lembrava de quando estivera ali. Olhou em volta em busca de algum rosto familiar, mas viu apenas um ou dois. Dennis Creevey foi um deles, e por um minuto achou ter visto Colin, mas não era ele; tinha terminado no ano anterior, com toda a turma original de Gina. Falando em antigos colegas de escola, Harry lembrou de contar a Gina que esbarrara com Olívio Wood há algum dias no Beco Diagonal. Para a surpresa de Harry, e mais ainda para a de Gina, ele vira Ash Montrel, uma das antigas companheiras de classe de Gina. Ela dissera que iria mandar uma coruja a ela assim que chegasse em casa.
O baile estivera completamente cheio por duas horas. A refeição estava deliciosa, como ele esperava, mas agora queria mais. Harry contara a Gina que tinha planejado ficar no castelo aquela noite e que tinha permissão para embarcar no trem com ela. Adorava ficar com ela, e embora fosse legal ficar sentado ali, segurando a mão de Gina e conversando com ela, o que ele realmente queria era dançar. Era estranho: há alguns anos atrás não dançaria nem que pagassem a ele, mas agora, ali com ela, era tudo que ele queria.
- Harry, você está bem? Parece que está em outro mundo. - ela perguntou delicadamente.
- Estou bem. - disse sorrindo. - É só que... - ele corou.
- Você só o quê? - ela sorriu de volta.
- Eu quero muito te abraçar. - ele sussurrou no ouvido dela.
Ela levantou da cadeira e estendeu a mão para ele.
- Está um pouco quente aqui. Venha comigo. - ela disse para que todos escutassem, enquanto guiava-o para o terraço. Teve certeza que ninguém protestaria. Gina não parecia envergonhada, e aquele caroço formou-se em seu estômago novamente, mas quando ela sorriu para ele lutou contra aquela sensação.
McGonagall estava certa. Era perfeito dançar sob as estrelas, mas Gina parecia ter outra idéia. Ela o guiou até a extremidade do terraço, onde a luz era pouca, mas o efeito de aquecimento ainda estava ali. A música começara a tocar lá dentro quando ela virou para encará-lo. Ela levou as mãos até o peito dele e moveu-as lentamente, até que estivessem em seus ombros. Enfiou as mãos no cabelo dele. Não precisava dizer a ele o que fazer; levou a boca até a dela e a beijou.
Os beijos tornaram-se desesperados instantaneamente. Ela parecia necessitar dessa proximidade tanto quanto ele. As mãos dele pousaram sobre sua cintura, mas não ficaram lá por muito tempo. Queria tocá-la, sentir seu corpo sob suas mãos. Ele lentamente subiu com as carícias e ela soltou um gemido de aprovação que só fez aumentar a ousadia dele. Pouco depois ela soltou uma exclamação de surpresa. Ele tinha-na empurrado contra a parede do terraço e se postado entre as suas pernas. Ele ia se desculpar quando ela sorriu e segurou a cabeça dele, beijando-o outra vez.
Ele não soube dizer quanto tempo ficaram daquele jeito. As mãos dela estavam tão ocupadas quanto as dele, e isso o estava deixando bem distraído. Sua boca achara o pescoço dela e ele se ocupou em apreciar aquela suavidade, mas as palavras dela fizeram com que ele parasse chocado.
- Vamos para o nosso quarto.
- O quê...
- Vamos! Eu quero fazer amor com você. - ela se jogou contra ele e segurou sua mão, guiando-o até a porta do Salão Principal.
Sua cabeça estava girando; eles estavam a caminho da Sala Secreta, a sala que ninguém conhecia. Bem, exceto Dumbledore. Harry lembrou de tê-lo encontrado do lado de fora na primeira vez que estivera ali procurando Gina. Mas não se importava com aquilo agora, na verdade, nada importava agora. Não tinha os irmãos dela para mandar Berradores ou colegas grifinórios para espalhar rumores sobre onde estavam e o que fizeram. Seria perfeito. Esperava que Gina sentisse o mesmo.
Felizmente ele estava preparado no caso de isso acontecer, mas não seria ele que pediria. Tinha tanta coisa acontecendo na vida dela, ela não precisava de um namorado a importunando. Não que isso não estivesse matando ele, porque estava; afinal, ele era feito de carne e osso, e aquele maldito livro tinha ajudado no assunto também.
Aquele livro. Ele lembrou que há algumas semanas atrás estava no quarto de Rony relaxando após chegar em casa do treino de Quadribol. A Sra. Weasley tinha-lhe oferecido um outro quarto da casa, até mesmo o de Gina, se ele quisesse, mas na verdade ele adorava dividir o beliche com Rony, assim ele se mantinha acima do chão. Rony ainda estava no trabalho, e Harry não conseguia relaxar. Foi então que avistou o livro na mesa de cabeceira de Rony. De início pensou ser um livro de Quadribol, mas então percebeu que "Todos os feitiços contraceptivos que você precisa saber, mas não foram lecionados nas aulas de feitiços" não era um livro sobre esportes. Ele o apanhou rapidamente. Onde Rony estava com a cabeça para deixar um livro daquele exposto para a Sra. Weasley ver? Às vezes ele o surpreendia. Não tinha o intuito de ler o livro - apenas aconteceu - e estava tão concentrado naquilo que não notou quando alguém entrou no quarto.
- Dando uma lidinha, Harry? - Rony perguntou, quase sem conseguir conter a risada.
- Rony! Hum... Eu vi isso na sua mesa, e... Eu… Hum… - ele mudou de tática. - Onde você estava com a cabeça para deixar isso aqui, onde sua mãe poderia ver!
- Duvido que ela ficasse surpresa. Esse livro já fez um circuito por todos os quartos da casa. Bem... Quase todos. - ele ficou sério. - Deixei ai para você.
- Você o quê?
- Você escutou. Você vai encontrar a Gina em algumas semanas no Baile, não vai?
- Sim, mas... Nós não... Quero dizer, ela... Você deixou o livro para mim! - Harry estava sem palavras.
Rony riu e Harry sentou chocado. Esse tinha sido o mesmo cara que quase arrancara a cabeça dele quando pensou que ele e Gina tinham dormido juntos? Harry estava completamente confuso.
- Rony, eu não entendo. Você não ficou tão satisfeito com o meu relacionamento com Gina quando soube... Bem... E isso. - ele segurou o livro para que Rony visse.
- As coisas mudam. - Rony falou sério. - Eu não fiquei feliz em pensar que minha irmã de dezesseis anos estava transando com seu namorado de apenas quatro meses. Você entende, não é? Mas agora é diferente. Vocês dois passaram por tantas coisas, e você ficou ao lado dela durante todo o tempo. Não vou impedir que sejam felizes, é só que...
- Só que o quê?
- Depois de tudo que ela passou, ela não precisa adicionar o fardo de ter uma criancinha com cabelos negros desarrumados. Então, se você sabe o que é bom para si, lerá esse livro e irá decorá-lo.
Harry não acreditava que Rony estivesse sendo tão compreensivo, but he chalked it up to growing up. Ele fez o que Rony pedira, leu o livro e releu, se preparando para qualquer coisa que Gina quisesse.
E agora estavam de frente a porta do quarto deles. Ela parecia um pouco abatida, e ele esperava que estivesse se sentindo mais forte. Ela não tinha falado muito sobre isso depois da conversa deles no aniversário de Harry, mas todas as vezes que a vira achou que ela estava melhor do que na vez anterior.
Eles entraram no quarto, e Gina rapidamente conjurou um feitiço para acender a luz e acendeu o fogo. Harry estava atordoado. Não acreditava que aquilo estava acontecendo, e esperou que ela viesse em sua direção novamente, mas ela ainda estava ocupada. Ela, então, fez algo que acelerou o coração dele: transfigurou o sofá numa cama de quatro colunas. Não era luxuosa, mas era como Gina, básica e simples, mas elegante.
Ela sentou na cama e ele considerou isso como um convite, fazendo o mesmo. Acolheu ela em seus braços e a beijou até que não conseguisse mais respirar. Podia sentir o coração dela acelerado como seu, e subiu mais na cama, levando-a consigo. Segurou-a junto dele e logo ela estava deitada por cima dele, com seus olhos penetrando nos dele. Algo em seu olhar fez com que ele parasse. Precisava saber se era aquilo mesmo que ela queria. Ele virou levemente, ainda com ela em seus braços, e os dois ficaram se encarando. Ele levou a mão ao rosto dela - ela estava quente - e inclinou-se para beijá-la. O compasso da respiração dela o assustou: ou ela estava mais excitada que ele, ou algo de errado estava acontecendo.
- Gina, você está bem?
Ela hesitou antes de olhar nos olhos dele e confirmar.
- Se você não quiser, então nós não...
- Não, não... Não é isso. Eu quero.
- Então, o que é Gina? Por favor, fale.
Ela se posicionou na cama, de forma que ficou de costas, com a cabeça apoiada em um travesseiro.
- Eu estou melhorando, estou mesmo. - ela disse, segurando a mão dele.
- Ok. - Harry não sabia se acreditava ou não.
- Só preciso descansar um pouco. Acho que conjurei muitos feitiços, meu corpo não está acostumado a fazer isso ainda. Eu posso fazer tudo. - disse orgulhosamente. - Apenas preciso me ritmar melhor.
- Ah, Gina, me perdoe. Sou tão imbecil. Eu não pensei... Desculpa. - ele se inclinou para beijá-la de novo. - Vamos descansar um pouco, e se... Se não quiser...
- Eu quero, Harry. - seus olhos estavam penetrando nos dele. - Quero isso mais que tudo. - ela o puxou para si e começou a beijá-lo novamente. Seus mãos passaram a explorar as costas dele e ele se entregou as sensações que ela estava causando nele.
Ela respirava com dificuldade novamente, e ele começou a se preocupar. Levou a boca ao pescoço dela e diminuiu o ritmo. Ela relaxou enquanto ele a beijava e a acariciava, ele olhou para ela e sentiu prazer ao ver o sorriso nos lábios dela. Ele continuou a amá-la, e percebeu que seu coração e sua respiração diminuíram o ritmo. Suspirou o nome dela enquanto voltava sua atenção ao seu pescoço, mas quando ela não respondeu, ele parou o que estava fazendo e ficou desapontado ao ver que ela adormecera.
- Ah, Gina. - ele suspirou. - Eu te amo, e esperarei você para sempre. - beijou-a novamente, um beijo doce, e então a segurou junto ao seu corpo, desejando que algum dia um momento daqueles terminasse de forma diferente.

Fazia horas que estavam no trem, quando Harry decidiu que precisava conversar com ela. Queria saber o que estava acontecendo com ela. Por mais que entendesse o que ocorrera na noite passada - ou o que não ocorrera - foi estranho ela adormecer tão rápido.
Não sabia como abordar o assunto. Gina ficara quieta a maior parte do percurso. Decidiu que a melhor maneira era agir com sinceridade. Diria o que o estava preocupando, e esperaria que ela não se zangasse com ele.
- Gina, posso perguntar uma coisa?
- Lógico. - mas ela soou tímida.
- É sobre ontem de noite. Você está bem ou deixou de me contar algo importante?
Ela não respondeu; manteve-se cabisbaixa, e torceu as mãos sobre o colo.
- Gina, você está doente? Quero dizer, está mais do que pensávamos?
Ela não respondeu novamente.
- Gina! Fale comigo, por favor. Você não está… Você não está morrendo, está? Por favor, Gina, eu preciso saber, por favor?
As lágrimas caíam pela face dela quando ela virou para encará-lo.
- Não, não estou morrendo. Apenas fico cansada rapidamente, não tenho a força que costumava ter. Não sou mais a mesma pessoa, eu te disse isso.
- Então... Quem é você? Diga-me, por favor. - ele estava implorando.
- Não sei mais quem sou. A pessoa que eu era morreu há dezoito meses atrás, e eu ainda não entendi quem sou. A garota que enfrentou Tom Riddle e o segurou por dez meses... Aquela garotinha não existe mais. Entretanto, Tom não era nada comparado a elas. - ela sussurrou as últimas palavras.
- Gin... - a voz dele soou em pânico. - Amor, eu não entendo elas. Quem? O que aconteceu na noite que Voldemort te raptou?
Ela soltou uma risada irônica, e balançou a cabeça.
- Naquela noite eu encontrei a epítome do mal, Harry, se você acha que Tom era mal, ele não era nada comparado às Furies. Eu fiz um juramento a elas, mas impus condições, eu não confiava nelas. Elas tentaram me submeter a elas, fazer com que me juntasse a elas. Eu agüentei, mas não sei quanto tempo eu teria durado.
- Você lembra do que aconteceu?
- Eu lembro de cada segundo que passei com elas. Meu corpo pode ter estado na cama da enfermaria por dois meses, mas minha alma, minha mente e meu ser estavam com as Furies. Eu não dormi naqueles dois meses, eu não fiz nada além de lutar com elas.
Harry não sabia o que fazer. Ele não fazia idéia que ela tinha enfrentado algo assim. Sentiu a dor por ela. Por que ela não contara a ninguém? Por que não contara a ele?
Ele se aproximou dela, sem saber se deixaria que ele a confortasse, mas quando o fez ela se aconchegou em seus braços. Ele a abraçou forte e tentou acalmar o corpo trêmulo dela. Beijou a cabeça dela gentilmente, e falou palavras de carinho para ela.
Após um tempo decidiu fazer-lhe mais perguntas. Esperou que quando começasse a contar-lhe sobre a experiência com as elas, ficasse mais fácil de contar tudo.
- Gina, elas te machucaram? Ou elas fizeram brincadeiras com sua mente?
- Ambos, Harry... Você não vai querer saber, não mesmo.
- Vou sim, Gina. Quero saber de tudo da sua vida. Preciso saber. Como posso te ajudar se eu não sei pelo o que você passou? Se você me contar, talvez não pareça tão ruim.
- NÃO PARECER TÃO RUIM! - ela gritou e se afastou dele. - Quer saber o que elas fizeram? Acha que pode agüentar a verdade? Eu vou te dizer, Harry, mas juro que se contar aos meus pais ou meus irmãos, eu nunca te perdoarei. - ela o avisou.
- Sim! Eu quero saber! Diga, Gina!
- Elas tentaram roubar minha alma; tentaram arrancá-la do meu corpo, e quando eu não permiti, elas resolveram tornar minha existência um inferno. Sabe a sensação do Cruciatus? Imagine isso diversas vezes no dia, todo e cada dia. Mas não como o Cruciatus, que não dói tanto quanto o que fizeram comigo. Então, quando você achava que não agüentava mais, elas paravam, deixavam que se recuperasse, e quando a dor começava a passar, elas começavam de novo.
Harry ficou pálido, mas Gina ficou lívida e continuou o discurso.
- Alguns dias elas brincavam com minha mente. Pense nos Dementadores, Harry, pois era exatamente o que eu enfrentava alguns dias. Sabia que eles foram criados pelas Furies, uma experiência frustrada? - ela riu. Harry se assustou.
- Quando eles não fizeram o que deveriam fazer, as Furies decidiram deixá-los por aqui, livres para fazerem o que quisessem. Primeiro eu revivi os momentos com Tim, mas depois de um tempo até aquilo era um conforto, então elas decidiram me mostrar partes do futuro, do destino que elas decidiram que eu devia ver.
Harry pensou em pedir para que parasse, mas talvez ela precisasse desabafar, e desejou que ela não o odiasse por deixá-la continuar.
- Eu vi sua morte, Harry, e elas me mostravam uma morte diferente cada dia da semana, cada uma mais terrível que a outra. Vi meus pais e meus irmãos morrerem, vi o mundo morrer. Eu não sabia o que era real, e o que não era. Estava tentando acabar comigo, e quase conseguiram.
- Como você fez isso? - perguntou cuidadosamente.
- Pensei no juramento, eu precisava deter Tom, precisava livrar o mundo dele. Mesmo que elas fossem mil vezes pior do que ele, não estavam na Terra aterrorizando as pessoas que eu amo. Eu me segurei até o momento em que Tom viesse para me matar, só então eu iria me entregar a elas.
Harry não sabia o que dizer. Ela era de longe mais corajosa que qualquer um, até ele lhe dava crédito. E ela não queria ser reconhecida, não queria compartilhar aquilo com ninguém. Por quê?
- Como acordou naquele dia?
- Não sei ao certo. As Furies tendem a perseguir aqueles que maltratam as crianças. Algo aconteceu para chamar a atenção delas para Tom.
Harry lembrou da garotinha que foi capturada.
- Elas pareciam preocupadas naquele dia, vieram até mim e disseram que o juramento fora revocado. Elas não tentariam me levar e eu poderia voltar ao meu mundo, à minha vida. Disseram que minha alma seria eternamente minha, e que não as veria mais. Eu estava em choque, meses de tormento e elas pareciam quase legais. No momento em que elas me deixaram, eu abri meus olhos e vi a mamãe. Segurei a mão dela e acho que você sabe do resto.
Ele sabia do resto, parte que gostaria de esquecer, aquela sensação de saber que tinha-na perdido. Aquela era a pior memória de todas. Ele lembrou de quando ela estivera inconsciente. Parecia que ela estava tendo pesadelos, mas agora ele sabia que ela estivera vivendo no inferno, lutando pelo o que achava certo. Precisava fazer algo por ela, mostraria a ela que não estava sozinha, que sempre teria ele.
Olhou para ela cuidadosamente. Era estranho, o olhar tenso que ela ostentara nos últimos meses não estava mais ali. Era como se contar a ele o que passara tivesse aliviado a dor que sentia. Ele sabia que ela tinha modos de se restabelecer, mas agora ela estava sentindo-se melhor, e juntos eles fariam tudo voltar ao que era.
Mais uma vez ele a puxou para si. Quando a segurou em seus braços, ele sentiu orgulho dela e algo mais. Precisava mostrar a ela que a amava, ou talvez mais: precisava saber que ela o amava. Levou a mão à face dela e acariciou seus lábios com o polegar. Ela virou e olhou para ele com seus olhos brilhantes.
- Eu te amo, você sabe disso, não é? - ele perguntou.
- Por quê? - ela perguntou sincera.
- Pelo o que você é. Você é corajosa, você é nobre, você é a pessoa mais carinhosa e gentil que conheci. Só a sua presença acelera meu coração, e me faz sentir amado. Você me fez sentir merecedor de tudo que tenho. Eu preciso de você na minha vida. Quero acordar todos os dias com você nos meus braços e adormecer da mesma forma. Quero que seja a mãe dos meus filhos, quero envelhecer com você. Você é tudo com o que sonhei e mais do que achei possível possuir. Casa comigo.
As lágrimas estavam jorrando dos olhos dela, ela estava confusa.
- O quê? - ela gaguejou.
- Casa comigo, Gina. Eu quero te pedir antes... Bem, antes de tudo isso começar. Eu quis te perguntar tantas vezes.
- E o que te impediu? - ela parecia assustada.
- Não pensei que fosse me querer. Tive medo de te afastar. Então, eu resolvi esperar.
- Você é tão idiota!
- Hum... Isso é um "você é tão idiota, sim eu vou casar com você" ou "você é tão idiota, não, eu não vou casar com você"?
Ela se jogou nos braços dele e o beijou como na noite anterior. Ele se perdeu no toque dela e não queria ser achado nunca mais. Após longos minutos e muitos beijos depois, ele olhou nos olhos dela novamente.
- Bem... E então? - ele perguntou.
- Você tem certeza? - ela estava nervosa.
Ele sorriu e assentiu.
- Então, sim, eu vou casar com você. - ela se inclinou e segurou o rosto dele, beijando-o em seguida.
Ficaram daquele jeito, até o trem chegar na Estação King's Cross, duas horas mais tarde.