Redenção
Adriana Swan
Capítulo 8 – A Tale of Two Cities
Draco olhava para Ginny sem acreditar no que ouvia.
A Weasley realmente havia dito que estava começando a gostar dele?
Ele a estudou por alguns segundos tentando compreender a margem de verdade nas palavras. A garota o olhava com seus grandes olhos castanhos incrivelmente abertos e seu rosto corava violentamente. Estava com vergonha. Muita vergonha.
É, a frase com certeza era verdade.
Mas como isso era possível?
- Wealsey... – ele balbuciou dividido entre a surpresa e o susto – eu...
Ginny o olhava com claro assombro. O que dissera? Como diabos fora dizer isso a ele? Malfoy a olhava consternado, não parecia ter absorvido a informação que ela mesma não absorvera.
Um arrependimento imenso surgiu na garota, algo parecido com grandes e sinistras borboletas revoltadas em seu estômago. Os dois se encaram calados por alguns segundos antes que a garota tomasse a atitude mais racional que tivera em toda aquela conversa: correr.
Draco viu a ruiva dar meia volta e sair correndo de volta para a torre da grifinória e não se moveu. O que exatamente estava acontecendo com a vida dele nos últimos tempos? De alguma forma não explicável, tudo que era, todas as suas certezas pareciam incertas desde que fora marcado.
Continuou olhando para o corredor onde a pequena Weasley sumira. A ruivinha gostava dele. Nem Pansy gostava dele naquele momento, mas a ruivinha gostava. A Weasley nunca fora muito inteligente mesmo. No dia anterior ela o havia beijado, agora se declarava.
É, ela não era muito inteligente.
Draco ficou ali parado, sem saber o que fazer com as palavras que ela havia jogado sobre ele.
Ginny entrou correndo na Torre de Grifinória pouco depois que Hermione havia ido se deitar. Correu para seus aposentos ainda vazios e se jogou sobre a cama, puxando as cortinas para esconderem-na e se agarrando com o travesseiro.
O que fizera? Sob hipótese alguma podia ter dito a Malfoy sobre as coisas que estava sentindo e das quais nem tinha certeza. O que ele faria agora? Com alívio ela pensou que pelo menos contar ao trio não era uma opção. Ele usaria isso contra ela? Com certeza. Ele a odiaria ainda mais? Com certeza também. Ela conseguiria encará-lo depois de ter se declarado a ele? Provavelmente não.
Seu coração se apertou só de pensar na possibilidade de ter que levar a poção para ele no dia seguinte. Não podia. Mlafoy riria dela, de seus sentimentos. O melhor agora era ficar o mais longe do rapaz possível. A primeira coisa que faria ao amanhecer seria procurar Madame Promfrey e dizer a ela que não entregaria mais a poção dele.
As borboletas revoltadas em seu estômago voltaram a bater as asas inconformadas. A idéia de não vê-lo mais era ruim. Muito ruim.
Ginny já estava acostumada com a idéia de que Malfoy dependia dela para alguma coisa. Ele fora gentil com ela no corredor, mesmo quando ela pensara que ele fosse estar uma fera por conta do beijo.
Não devia tê-lo beijado.
E não devia mesmo ter se declarado a ele.
E agora não podia mais vê-lo.
Draco Malfoy voltou para a Sonserina a passos lentos, perdido em pensamentos confusos. A idéia de uma Weasley estar gostando dele não era agradável.
Mas também não lhe parecia ruim como achou que deveria parecer.
O rapaz alimentava uma estranha indiferença ao fato, como se não parecesse ter importância. Era só uma paixonite adolescente. Era passageiro. Nunca ia acontecer nada. Era completamente normal coisas assim acontecerem em escolas sem nunca tomar uma proporção maior.
Exceto pelo fato de que ela era uma Weasley e ele era um Malfoy.
Porque ela tinha que inventar isso justo agora que ele já tinha tanta coisa para se preocupar? Achava pouco que fosse um Comensal da Morte condenado a uma missão impossível e com arte das trevas corroendo suas veias? A Weasley não pensa.
Se pensasse não estaria apaixonada por ele.
Chegando a sala comunal da Sonserina ele apressou o passo para atravessar a sala ainda repleta de colegas e entrar em seu dormitório que para sua sorte ainda estava vazio. Tirou a roupa e sentou na beirada da cama. Devia estar na Sala Precisa. Perdia um tempo precioso pensando na Weasley.
Aliais, porque diabos estava dando tanta atenção a pequena Weasley?
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Harry sentou em uma cadeira diante do birô do professor, onde Pansy havia sentado e cruzado as pernas diante dele, deixando a saia curta ainda mais curta e suas pernas convidativamente expostas demais.
- Parkinson, você não acha que ficarmos sozinhos nessa sala escura a essa hora da noite pode parecer... um tanto... – ele procurou apalavra certa, evitando olhar para a garota que não parecia ter consciência da forma sensual que estava sentada – íntimo demais.
- Podemos usar isso como álibi, Potter – ela argumentou séria – Se alguém nos pegar aqui, podemos dizer que só estávamos nos pegando.
Harry piscou sem acreditar no que ouvia.
- E quem em toda Hogwarts ia acreditar em algo assim, Parkinson? – perguntou impaciente.
- E porque não acreditariam? – ela retrucou surpresa.
- Como assim por quê? Porque eu sou Harry Potter e você é a Pansy Parkinson. – Ele falou de forma lógica.
A garota levantou uma sobrancelha cética.
- Isso quer dizer que você não me pegaria, Potter? – o tom da garota era descrente.
Ele abriu a boca para argumentar e voltou a fechá-la. De onde diabos ela tirava aquelas idéias, afinal?
- Como chegamos a essa conversa? – ele perguntou abrindo os braços, numa tentativa frustrada de mudar de assunto.
Ela riu divertida, erguendo cabeça e fazendo aqueles curtos cabelos negros brincarem, prendendo toda atenção de Harry. Ele engoliu em seco.
- Tudo bem herói, se prefere fugir da pergunta – falou, divertida.
- Não estou fugindo da pergunta, Parkinson, mas a considero uma pergunta idiota – ele completou, encabulado. – O que você diria se eu perguntasse a você se seria capaz de ficar comigo?
A pergunta era retórica, muito mais exemplo do que pergunta e o rapaz não esperava uma resposta, mas Pansy a deu mesmo assim.
- Simples, eu diria que não – ela respondeu com simplicidade.
Harry a olhou e seus olhou verdes tiveram um brilho intenso que para sua sorte foram disfarçados pela escuridão. Não que ele se importasse com Parkinson, não que ele se importasse com a resposta, mas quando ouvira as palavras dela sentira uma sensação estranha, frustrante e confusa.
Sentira decepção.
Pansy o olhava divertida diante de seu não, mas havia algo nela que estava errado.
Porque dissera "não"? Porque era óbvio, é claro, ela não ficaria com Harry Potter. Ou pelo menos, achava que não. Na verdade, nunca havia pensado na possibilidade (que não era uma possibilidade) de ficar com Potter.
Agora que já havia dito seu divertido "não" a garota parou para o observar como nunca havia feito. Magro, alto, popular. Era bem seu tipo de homem. Apesar dos óculos e da estranha cicatriz na testa, não era feio. Jogava Quadribol e tinha olhos verdes, mais dois pontos a favor.
E era um dos rapazes mais decentes da escola inteira.
É, pensando dessa forma, não parecia tão absurda a idéia de ficar com ele. Não quer dizer que fosse casar ou ser um grande amor de sua vida, mas quem sabe num baile, com um pouco de firewhisky e música...
Por Merlin, ela realmente estava pensando em Potter como uma possibilidade?
Harry não queria a Parkinson. De modo algum.
Mas todo o blá, bla, blá de Hermione sobre eles e sobre seus encontros deixaram a mente dele confusa, aberta. O que estava pensando afinal? Que Parkinson responderia que sim, ficaria com ele?
E se a resposta tivesse sido "sim", o que mudaria?
Harry realmente tinha que parar de pensar nisso.
- Bom, estamos aqui para falar do Malfoy, certo? – falou numa segunda tentativa de mudar de assunto.
- Humm – ela murmurou sendo arrancada de seus estranhos pensamentos sobre o rapaz a sua frente – É... certo.
Antes de entrarem no assunto "Malfoy", trocaram um olhar cheio de culpa. Culpa de quê nenhum dos dois sabia, mas ambos pareciam constrangidos.
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Quando o sol nasceu Ginny foi a enfermaria e conversou com Madame Pronfrey, alegando que não estava conseguindo conciliar seus horários de estudo com a poção de Malfoy. A enfermeira não pareceu convencida, mas aceitou a desistência de Ginny, provavelmente pensando que nenhuma grifinória suportaria Draco Malfoy por muito tempo.
Pouco depois, na mesa de café, Ginny mantinha a cabeça baixa, evitando olhar para a mesa da Sonserina do outro lado do salão. Não veria mais Malfoy. Seu coração reclamava querendo ter pelo menos aqueles segundos de olhar para o rapaz sentado do outro lado do salão.
Draco a olhava.
Seu olhar se prendia a mesa de Grifinória onde os longos cabelos vermelhos se destacavam a distância.
A Weasley era estranha.
Há dois dias o beijara, no dia anterior se declarara e agora evitava olhar para ele.
Draco não sabia exatamente porque a estava olhando, curiosidade talvez. Reparava nas vestes de segunda mão, nas sardas quase invisíveis aquela distância, na proximidade que ela sentava (talvez inconscientemente) de Potter. Era bonita. Apesar das roupas velhas, apesar do vermelho, apesar das companhias, era bonita.
E admitir isso o agradou.
A poucos lugares de distancia, Pansy comia calada seu café da manhã. Evitava ao máximo olhara para a mesa de Grifinória, demonstrando assim sua indiferença a Potter. Levantou os olhos alguns segundos e o olhou. Potter a viu, os olhos verdes encontrando os dela por alguns segundos. Ela baixou a cabeça de novo. Merda, ele a viu olhando. Agora ia achar que ela se importava. Olhou de novo. Merda, ele ainda a olhava. E ela também.
Harry comia seu café em silêncio, evitando olhar a mesa da Sonserina. Será que Parkinson estava olhando para ele? Pouco provável. Ela só faria isso se se importasse e ela não se importa com ninguém.
Olhou.
Pansy o olhava.
Seu olhar distraído se prendeu ao dele por alguns segundos para logo em seguida se desviar. Aquilo queria dizer que ela se importava? Ele continuou a olhando, procurando algum sinal, alguma indicação de que não era o único dando mais atenção do que deveria a conversa da noite anterior.
E ela o olhou pela segunda vez.
E dessa vez, nenhum dos dois desviou o olhar.
