Disclaimer: Twilight não me pertence, mas essa história sim, assim como a filha da Bella e do Edward, portanto respeitem!

Obrigada a Cella por ter que me betar em seus dias de folga, ao invés de ficar de bunda pro ar comendo um tacacá com caruru. lol


Capítulo 8: Contratempo

Bella

Não foi fácil acordar na segunda-feira tão cedo. Quando sentei na cama, minha vontade era de deitar de volta e me enrolar nas cobertas. Cada parte do meu corpo protestava contra os movimentos, e eu sentia meus ombros arderem ao espreguiçar. Sem contar a ressaca que martelava meu cérebro.

Me levantei e andei lentamente até o quarto de Claire para acordá-la, e em seguida voltei de uma vez para o banheiro antes que eu perdesse a coragem. Minhas coxas estavam doloridas, assim como meus ombros e braços. Esticava o pescoço em frente ao espelho enquanto observava o estrago causado: duas manchas levemente avermelhadas em cada topo dos meus ombros, além do meu nariz rosado, comose eu não tivesse usado filtro solar fator 50. Ótimo. Quem mandou ficar brincando na piscina como uma criança? Você não tem mais dezoito anos, Bella.

Gemendo de dor e frustração, entrei debaixo do chuveiro quente após tomar uma aspirina, com esperanças de relaxar para iniciar bem a minha semana.

A importância e significado do dia de hoje só começaram a pesar quando o café que eu tomava passou a fazer efeito na minha mente. Apesar de eu estar preparada e com quase tudo em ordem, ainda assim sentia um frio na barriga pelo inesperado que me aguardava em meu novo cargo.

Enquanto eu bebericava meu café, Claire apareceu na cozinha vestindo seu uniforme, mas despenteada, dando o maior bocejo possível. A minha pequena continuava quase a mesma menininha de cinco anos, sonolenta e calada pela manhã. Assim como eu, ela nunca foi uma pessoa do dia.

– Bom dia. – cumprimentei quando Claire passou por mim na bancada. Ela parou e envolveu os braços no meu pescoço num meio-abraço, encostando a cabeça no meu ombro e murmurando um "hmm, dia". Ela parecia estar a ponto de voltar a dormir a qualquer minuto, então eu deixei um beijo em sua têmpora e me afastei para despertá-la.

Ela parecia ainda mais cansada do que eu, se é que isso era possível. Tínhamos saído da festa de Esme por volta das oito da noite, mas o domingo tinha sido intenso. Claramente por razões distintas para mim e para ela. Ainda era difícil acreditar em tudo o que havia ocorrido naquela estúpida brincadeira na piscina. Onde eu estava com a cabeça para aceitar uma coisa dessas?

– Café? – ofereci. Claire assentiu enquanto colocava fatias de pão na torradeira, e eu servi o líquido em sua xícara. Ela sentou-se quando as torradas pularam e começou a passar cream cheese sobre os pães, parecendo perdida em pensamentos.

Terminamos o café da manhã em silêncio e logo estávamos a caminho de sua escola.

– Vai voltar de carona com Alice hoje, certo? – eu quis certificar.

– Ah, não. Vou ensaiar depois da aula na casa da Rachel. O irmão dela leva a gente. – avisou Claire antes de abrir a porta do carro, quando paramos em frente ao seu colégio.

– Está bem. Mas e os seus equipamentos?

– A gente passa lá em casa pra pegar, ué. – ela deu de ombros.

Não acha que está na hora de deixar a bateria montada no estúdio da Rachel logo? Vai facilitar a vida de vocês. – era impressionante como adolescentes conseguiam ser enrolados e não-práticos.

– Nem pensar! Só eu posso cuidar dela. Além disso, é divertido te encher o saco de vez em quando tocando alguma coisa. – ela riu enquanto eu rolava os olhos, e saltou do carro.

Voltou correndo antes que eu desse a partida.

– Ah! E boa sorte hoje, mãe.

– Obrigada, filha. – eu sorri e vi quando ela girou nos calcanhares para entrar na St. Patrick.

Quando entrei na redação, meia hora depois, uma sensação que misturava liberdade, euforia e receio me atingiu em cheio.

Sentia-me como se pudesse fazer tudo o que eu quisesse, tentar tudo o que tinha para tentar - embora eu tivesse plena consciência de que era nada menos que utópico da minha parte pensar dessa forma. Sentia as possibilidades abrindo-se com cada passo, como um leque, e de alguma maneira eu sabia que era apenas o começo. Nunca aspirei a exorbitantes feitos na minha carreira jornalística, mas havia em mim a ambição de conquistar ao menos algo que deixasse a minha marca em algum canto do mundo. Não sei se conseguiria fazer tudo isso na New York Week, mas esse era um primeiro e pequeno passo.

A minha nova sala era quase do mesmo tamanho que a de Carmen, com a diferença de que o sofá daqui era um simples e pequeno off white, ao invés do seu arrojado estampa de zebra. A mesa da minha assistente Emily era certamente menor que a minha, mas nós dividíamos o espaço igualmente - ao contrário da mesa que eu usava quando ficava confinada como assistente de Carmen.

Após desejar bom dia para quem encontrei no caminho até minha sala, logo dei início ao que era preciso organizar para o que já estava previsto esse mês à minha seção de reportagens especiais. Minha seção. Ainda era surreal sequer pensar isso.

Por volta de onze e meia, Emily saiu para almoçar e alguém bateu em minha porta. Pedi para que entrassem.

– Laurent. – falei, e minha voz saiu mais monótona do que eu pretendia. Ele se sentou sem precisar ser convidado.

– Como vai, Bella? Já está sentindo o peso da responsabilidade sentada nessa cadeira? – ele brincou, e sorriu, mas seu sutil tom de sarcasmo não escapou aos meus ouvidos.

– Como se eu fosse a presidente da editora. – murmurei, evitando rolar os olhos para ele.

– Mas quem sabe um dia você chega lá, não é mesmo?

A cada palavra sua, as alfinetadas impostas não passavam despercebidas. E me incomodavam. Eu abri um sorriso amarelo.

– Você precisa de alguma coisa, Laurent?

– Na verdade, sim. Eu tenho umas ideias pra discutir. Grandes ideias. Acho que vão ser muito úteis, e algo me diz que pode nos trazer uma capa inédita e muito emblemática para a New York Week.

– Laurent, a nossa reunião de pauta é apenas na próxima segunda. Você pode dizer suas ideias à vontade quando for o momento certo.

– Oh, Bella, veja bem. Esse é o tipo de matéria que não se joga fora, quanto antes começarmos a nos organizar, melhor. – a fala de Laurent assumiu um tom conspiratório. Inconscientemente, me peguei inclinando-me para prestar atenção ao que ele falava. O cara tinha um dos maiores poderes de persuasão e lábia que eu já encontrara, isso eu tinha que admitir. Meu bom senso me alertou para tentar evitar quaisquer possíveis desventuras em que ele estivesse envolvido.

– Ok… – arrastei a palavra enquanto olhava para o relógio. Era meio-dia, e se eu não saísse nesse exato momento para almoçar, eu iria atrasar todo o meu dia de trabalho. Debati internamente se sairia agora ou daria chance para que Laurent ao menos falasse sua opinião, já que ele parecia ter tanta certeza da sugestão que daria.

A minha curiosidade foi maior.

– Eu não posso prometer nada por você, já que as pautas das duas próximas semanas já estão definidas. Mas você pode dizer do que se trata.

Ele me encarou por um segundo, parecendo surpreso por eu ter aceitado tão rapidamente ouvir o que ele tinha a dizer, mas logo se recuperou e se pôs a falar.

– As maiores personalidades de Nova York. – proclamou. Eu assenti para que ele continuasse, mas nada prosseguiu.

– Só isso? Eu tenho a ligeira impressão de que esse assunto já foi abordado em algum momento. – ponderei. Ele me entregou algumas folhas que continham diversos gráficos históricos, números comparados, muitos nomes, e reportagens antigas. Passei meus olhos sobre as informações enquanto ele falava.

– Não, não é só isso. A minha proposta é trabalhar com pessoas de verdade, Bella. Gente que fez essa cidade crescer e acontecer, e que não está nos jornais todos os dias. Gente que construiu as bases do que somos hoje.

– Bem, e demandaria uma grande pesquisa, eu acho? – indaguei, não achando uma ideia brilhantemente boa, porém vendo alguma luz no fim do túnel. - Levaríamos meses trabalhando numa pauta dessas.

– Confie em mim, Bella. Eu sou o melhor que tem nessa revista, talvez de toda a cidade, quando o assunto é confirmar fatos e investigar entre as pessoas comuns. Eu dou conta do recado se tiver a equipe certa ao meu lado.

Me senti impelida a recostar na cadeira, tamanha era a sua falta de humildade.

Era impossível não reconhecer que Laurent sempre fora um profissional excelente – ao menos era isso que sempre se ouvia nos corredores. O que mais me incomodava, entretanto, era que sua promoção estava a um passo de ser concluída antes de Jessica sair, o que certamente me tornava, para ele, uma inimiga perigosa – afinal, eu havia tomado a sua tão almejada vaga. Estava mais do que óbvio que sua sutil hostilidade para comigo era uma consequência disso.

O que ele tinha acabado de sugerir, apesar de quase banal, seria ótimo para o tipo de reportagem que a minha seção cobria. A New York Week não se tratava de uma revista sensacionalista, e nem costumava se envolver em escândalos. Uma reportagem como essa atingia o ponto certo da nossa essência: o cotidiano nova-iorquino.

Era uma grande ideia, e que tinha o potencial de gerar uma grande matéria. Grandes matérias, porém, tinham a característica de serem muito amplas e detalhadas, algo que eu sempre acompanhei com dó da equipe que trabalhava dia e noite para que se chegasse à quase perfeição. Sem dúvidas era um desafio, mas o tema soava poderoso demais para não aceitá-lo. Meu instinto dizia o mesmo, e assim fiz minha decisão.

Suspirei fundo para me pronunciar.

– É uma ótima ideia. Vejo que você já tem alguma pesquisa, e eu autorizo a continuar com elas. Faça um relatório sobre tudo o que for encontrando, e então poderemos debater o assunto logo na reunião da próxima segunda.

Lentamente, Laurent abriu um sorriso satisfeito para mim. Levantou-se enquanto eu me erguia da cadeira, estendendo a sua mão para a minha. Seu aperto era forte, decidido e beirava o esmagador. Eu apertei tão forte quanto.

– Você não vai se arrepender, Bella. – falou com um brilho extremamente ambicioso no olhar que era quase incômodo, mas eu apenas assenti a cabeça.

Assim que ele saiu pela porta, me joguei de volta na cadeira e soltei a respiração numa lufada forte. Era a minha primeira grande decisão como editora subchefe, me pegando desprevenida logo no primeiro dia.

Rezei para que eu estivesse fazendo a coisa certa em permitir as ideias de alguém que, com certeza, não queria me ver sentada naquela cadeira, nem pintada de ouro.

Era tudo o que eu nãoprecisava nesse momento.

xxxx

Tinha decidido aproveitar meu almoço com calma, mesmo sozinha, depois que lembrei que eu agora era basicamente a minha própria chefe, e tinha total liberdade para levar para casa qualquer coisa que estivesse acumulada. Não que eu fosse otária de preferir trabalhar em horas extras não-pagas, mas me prometi que isso não seria um hábito - apenas um pequeno privilégio para usufruir vez ou outra.

Quando estava retornando da cafeteria onde eu havia comido um sanduíche quase-natural e um café gelado, decidi parar para tomar um frozen yogurtem uma das mil lojinhas que ficavam próximas ao prédio da New York Week. O quarteirão era essencialmente povoado por empresas e comércio, e o movimento nessa hora do dia era intenso.

Qualquer morador dessa cidade sabia disso, mas de algum jeito, naquele instante, eu me esqueci que estava andando num fluxo contínuo de um mar revolto de gente e não passeando em uma pracinha tranquila.

Nada me preparou para o que aconteceu no momento em que eu tinha minha grande bolsa aberta e procurava meu celular que tocava, enquanto equilibrava na outra mão o pote do sorvete de iogurte, e andava em direção ao semáforo para atravessar.

Primeiro senti o impacto me atingindo pela lateral esquerda e todo o ar sair de meus pulmões. Em seguida, senti o chão sob mim - e o impacto do cimento sobre as minhas mãos e cotovelos. Em terceiro senti um rastro molhado que percorreu meu peito e meu braço inteiro, e o meu grito rasgando o ar.

Por último, ouvi risos.

Risadas que eram familiares demais.

Eu não posso acreditar que isso está acontecendo comigo. De novo.

Uma mão estendeu-se na frente do meu rosto, e pertencia a alguém inconfundível. Ignorei a oferta de ajuda, e ergui a cabeça para, inutilmente, ter certeza de que era ele.

– Você. Fez. De propósito! – berrei entre dentes para Edward, que chegava a se curvar devido as gargalhadas irritantes.

– Não, eu juro. – ele falou rindo e balançando a mão na minha frente. Do que esse babaca estava rindo tanto?

Eu bati sua mão para longe e tentei me colocar de pé, porém fui traída pelo meu salto e pela bolsa, que me jogaram para trás novamente. Maldita e estúpida bolsa gigante demais.

– Você me jogou no chão! É claro que você me viu antes. Foi de propósito! – acusei. Eu nunca senti um acesso de raiva borbulhar com tanta força dentro de mim.

– Bella, me deixe ajudar. – ele se abaixou para pegar minha bolsa antes que eu impedisse.

Sentada, via os pés dos passantes desviando de mim no chão; uma única senhora parou para perguntar se eu estava bem, mas Edward dispensou sua ajuda.

– Sai daqui! – exclamei a ele, e dessa vez consegui me levantar. Olhei para baixo para analisar o estrago e senti que um rugido de fúria chegou a sair do meu peito quando vi que toda a parte de cima da minha blusa de seda preta estava manchada com o iogurte branco que havia derretido enquanto eu caminhava. Minha blusa, pobre blusa, acabada com uma porção inteira de iogurte derramada em cima.

– Tome isso, pode melhorar. – Edward me ofereceu um lenço que ele tirou de algum lugar, e eu arranquei de sua mão para passá-lo no meu braço, que além de encharcado de frozen yogurt, estava também melado pela única cobertura doce de morango. Eu me sentia nojenta.

– Eu não acredito nisso, Edward. Eu não acredito. Olhe como ficou minha blusa! – esbravejei enquanto esfregava com força o lenço de pano sobre meu braço.

Ouvi uma risada abafada e olhei para ele. Sua mão encobria sua boca e a forma como seus olhos se espremiam não escondiam o humor que ele achava na situação. Como se não bastasse os infortúnios de ontem naquela maldita piscina.

– E por que você está rindo, hein? Não é você que vai ter que voltar para o trabalho desse jeito.

Ele tirou a mão da boca, se recompondo por um segundo para falar.

– Eu sei disso. Não tem… graça. – ele falou, parecendo engolir de volta o riso. - E nem vou te dizer o que esse jato branco no seu cabelo parece, mas eu preciso me desculpar.

Eu arregalei os olhos e olhei para uma parte que escapara da minha inspeção em meu cabelo, e de fato estava completamente melada e branca. Bufei de raiva novamente.

– Mas que porra! – xinguei.

Exato. – ouvi ele murmurando antes de cair em gargalhadas de novo. Eu franzi o cenho pela audácia. Quantos anos você tem para fazer esse tipo de piada, Edward? Quinze?

– Está bem, você já se divertiu às minhas custas, agora devolva minha bolsa. Eu tenho muito a fazer.

– Não, não. – ele sacudiu a cabeça, colocando a bolsa para longe e pegando o lenço que eu acabara de usar. - Eu faço questão de te comprar uma blusa nova. Foi minha culpa, afinal.

– Eu não preciso que você me compre qualquer coisa. O que preciso agora é ir sozinha procurar por uma blusa nova, então devolva minha bolsa e desapareça.

– Sempre tão orgulhosa. – ele falou em tom de reprovação seguido por um "tsc tsc", mas sua expressão era de provocação. - Mostre o caminho.

– O quê?

– Mostre o caminho até a loja onde você deseja comprar, e eu vou segurando sua bolsa. Afinal, você não vai querer manchar esse couro com todo o sorvete espalhado por você, não é?

Eu bufei mais uma vez, apenas porque ele tinha razão. Ou quase.

– É frozen yogurt.E isso é couro falso. Você sabe que eu jamais usaria couro legítimo. – resmunguei as informações, mas a contragosto, dei meia volta e segui até a loja de departamentos mais próxima que pude avistar.

As pessoas na rua sequer dispensaram um olhar para mim, porém ao chegarmos dentro da loja, quase todos prestaram atenção na dupla, sem dúvidas, interessante que Edward e eu fazíamos. Um homem de terno carregando uma enorme bolsa feminina azul marinho no ombro e uma palhaça que parecia ter acabado de fugir de um número de tortadas na cara. E nem mesmo uns trocados consegui.

Estava procurando furiosamente por uma blusa social básica quando meu celular tocou de novo, lembrando-me de que não havia atendido quando o imbecil do meu ex-marido trombou em mim. Edward estava plantado feito um dois de paus ao meu lado o tempo todo.

– Eu preciso atender, passa isso pra cá. – ordenei. Ele sacudiu a cabeça como uma criança insolente, mas fuxicou dentro da minha bolsa até tirar o celular e me entregar. Eu peguei o aparelho boquiaberta.

– Eu não acredito que você mexeu nas minhas coisas. – reclamei enquanto atendia.

Felizmente, era apenas Emily informando que os relatórios das últimas cinco reuniões que eu havia pedido já estavam sendo impressos, e que se eu precisasse deles para agora, ainda demorariam mais alguns minutos. Eu agradeci, mas desliguei dizendo que estava tendo um contratempo na rua, e mais tarde pegaria as cópias.

Tudo o que eu queria era voltar correndo para a segurança do meu escritório, e talvez chorar um pouquinho pelo iogurte derramado. Era a segunda vez em menos de 48h que acontecia algum incidente envolvendo Edward e eu. Me perguntei se era esse o preço a pagar por tudo o mais que estava dando certo para mim. Maldito Karma, destino, ou chame como você quiser. O universo parecia não suportar a minha felicidade completa - ele tinha que conspirar contra mim em ao menos algum aspecto da minha vida.

– Essa. – falei ao arrancar do cabide uma blusa de manga curta cinza de botões pretos. Eu nem precisava experimentar para saber que caberia.

Me virei para andar até o caixa, e Edward me seguiu.

– Não vai experimentar? – ele questionou ao paramos na fila. Eu o encarei esperando transmitir todo meu instinto assassino no olhar. E deve ter funcionado, já que ele assentiu quando não houve resposta, e calou-se.

– Próximo! – ouvi a caixa anunciar e fui em frente. A mocinha deu uma espiada com uma sobrancelha arqueada para a minha blusa estragada que ainda vestia, e eu rolei os olhos.

Ela terminou de arrancar a etiqueta de segurança, e me virei para Edward.

– Já que você não vai devolver minha bolsa, pode fazer a gentileza de pegar a minha carteira? – pedi com falsa doçura na voz.

– Tem certeza que não quer que eu pague? – perguntou novamente.

– Absoluta. – falei enquanto resgatava minha carteira que já estava em suas mãos.

Ao sairmos da loja, parei e olhei para o relógio, que agora marcava quase duas da tarde. Merda.

Marchei de volta para o edifício da New York Week, furiosa por ter perdido quase uma hora de trabalho, além de tudo. Edward irritantemente seguiu ao meu lado, e mesmo que eu tentasse andar mais rápido, eu jamais superaria as passadas largas de suas longas pernas. Estava quase chegando na minha rua quando ele decidiu bater papo, como se não tivesse visto a expressão nada amigável em meu rosto.

– Como está indo o seu primeiro dia no novo cargo? – inquiriu ele. Virei minha cabeça para encará-lo e franzi os olhos.

– Quem foi que te disse isso? – eu não lembrava de ter dito quando, exatamente, eu começaria a trabalhar como editora subchefe.

Ele deu de ombros. – Ah, Alice comentou. Ontem. Então, como está indo?

Claro. Eu tinha a sensação de que Alice estava levando informações demais da minha vida para o irmão. Seja lá o que ela estava querendo com isso, eu fiz uma nota mental para tomar cuidado e chamar sua atenção.

– Estava indo muito bem até você me atrasar em uma hora para voltar do almoço. – falei, e andei mais rápido até o meu destino, encerrando a conversa. Paramos em frente a portaria, e me virei. - Pronto, Edward, você já conferiu tudo o que tem dentro da minha bolsa e já se certificou que eu não vou ficar com essa blusa manchada o dia inteiro.

– Está bem. – ele disse ao libertar minha bolsa, e eu finalmente a tomei de volta. - Novamente, eu sinto muito por tudo isso. Eu estava tão distraído quanto você, realmente não te vi.

– Que seja. – falei enquanto a porta de vidro automático abria e fechava atrás de mim.

Ambos ficamos parados desconfortavelmente calados, até que eu bufei e estendi minha mão livre; coincidentemente, a que estava mais melada de doce.

– Tenha uma boa tarde, Edward.

– Igualmente, e… – ele começou a dizer enquanto apertava minha mão. Vi lentamente surgir em seus lábios aquela porcaria de sorriso irregular que um dia conseguiu me amolecer o coração e os joelhos. Me preparei para a canalhice qualquer que ele falaria a seguir.

– Foi um prazer te ver toda afobada e irritada mais uma vez. – falou com uma piscadela. - Nunca perde a graça.

Com isso Edward foi embora, me deixando boquiaberta e com as orelhas pegando fogo.

Embora eu tivesse o impulso de gritar com ele, e espernear como uma criança por toda a provocação, eu não consegui. Estava paralisada.

Tudo era familiar demais e sem dúvidas o senso de nostalgia que me atingia nos últimos dois dias era tão forte que estava conseguindo até mesmo mascarar ressentimentos. Não ajudava, também, o fato de que há tempos eu não tinha tanto contato com Edward dessa forma. Eu não estava delirando, eu vi um brilho diferente em seu olhar. Isso deixava tudo tão confuso…

– Edward, aqui não!sussurro para o breu da sala cheia de gente.

O filme está quase acabando. Eu sei, pois já tinha visto. Uma senhora volta do banheiro, e a mão persistente dele continua a vagar pelas minhas pernas. Ela ia ver. Merda, ela vai ver.

Como eu pude achar que era uma brilhante ideia ir de vestido para o cinema? Ah sim, porque Edward me induziu a vesti-lo. Como sempre. Ele tem as piores ideias possíveis, e eu as sigo feito uma idiota.

– Vai ser rápido, eu prometo.ele murmura contra meu pescoço. Seus lábios percorrem, provocam, sugam, mordiscam. Meu lóbulo da orelha, minha nuca e,merda,aquele lugar que me fazia gemer baixo.

– Por favor.eu imploro. Seus dedos são espertos e ágeis. Já conhecem o caminho de cor. Minhas coxas se separam ao seu comando. Ele entra em contato com minha pele mais quente e vulnerável, e tudo o que eu posso fazer é morder minha boca para não atrair olhares para o fundo do cinema.

– Edward, eu… vou…balbucio quando a pressão se torna intensa e insuportável.

– Isso. Vem.ele aguça e toma meus lábios, me deixando usar os seus para silenciar uma lamúria de alívio enquanto cravo minhas unhas sobre o antebraço que me manipula com maestria. Eu me solto e deixo ser levada.

Mas a sala se acende antes que eu sequer termine de beijá-lo, e eu me afasto como se dele saísse uma descarga elétrica.

– Se alguém viu isso, você vai ver só uma coisa.protesto indignada e me levanto para sair correndo. Ouço seus risos. Ele vem atrás e me obriga a diminuir o passo quando sussurra no meu ouvido.

– Eu adoro te ver toda afobada e vermelha. E só de saber que eu causei isso… é a coisa mais sexy.ele ri e beija minha bochecha enquanto me arrasta para longe dali para podermos terminar o que começamos. Em nossa casa.

– Com licença, senhorita? Senhorita Bella? Pode desobstruir a passagem? – ouvi Santiago, o porteiro do edifício, chamar minha atenção e o presente se revelou diante dos meus olhos, quebrando a fábula da minha memória. Meu peito estava comprimido e pesado, e minha respiração irregular. Era um truque.

Tudo não passava de um truque que minha mente impunha contra mim ao resgatar uma lembrança tão remota e inapropriada. Uma falha.

– Desculpe, já estou entrando. – falei abrindo caminho para os carregadores que levavam um móvel até o elevador de serviço, e aproveitei para me refugiar na segurança do meu escritório.

No espelho do banheiro onde me lavava para trocar de blusa, joguei água gelada no rosto para tentar conter o rubor que aquecia minhas bochechas e pescoço. Há anos eu não enrubescia com tamanha intensidade, e eu já não sabia se estava corando pela fúria, por esforço físico depois de marchar por cinco quadras, ou por ebulição de emoções.

Edward Cullen havia flertado comigo, e havia me feito corar novamente. Da última vez que isso aconteceu, o cenário envolvia uma cama, o meu corpo nu e o dele. E era tudo o que eu não precisava me recordar nesse momento.

Engoli em seco para travar novas memórias que pudessem emergir, e sequei meu rosto afim de voltar ao trabalho, esperando me concentrar o suficiente para seguir em frente com minha rotina.

Não é nada além de nostalgia. Ele foi embora, ele me traiu. Ele não vai me quebrar dessa vez. Porque eu o odeio, furiosamente. Foi o que eu repeti a mim mesma durante grande parte do resto do dia.

xxxx

Manter o foco foi um pouco mais complicado do que eu previa, mas não me deixei abalar. Canalizei minha concentração nos documentos que havia pedido para Emily, e quando chegou a hora, fui para casa satisfeita com meu dia de trabalho. Meu primeiro dia coordenando uma equipe.

Cansada, entrei em casa e sentei no sofá, tentando achar forças para subir as escadas e tomar um banho. A casa silenciosa me convidou a refletir sobre os muitos acontecimentos de hoje, até o ponto em que minha mente ficou alta demais para perceber que minha filha descera até a sala.

– Mãe? Alô-ou? – ela estalou um dedo em frente a mim, fazendo-me voltar ao presente pela segunda vez no dia. Imediatamente, me recuperei para não mais me perder em pensamentos.

Eu sorri de leve e estendi uma mão para que ela sentasse ao meu lado.

– Oi, filha. – falei envolvendo seus ombros e lhe dando um beijo na bochecha. Em um velho hábito, ela logo pegou minha mão que estava dependurada e começou a brincar com meus dedos.

– Quando você fica desligada assim é porque tá com algum problema. Sua estreia como chefona babou? – perguntou Claire, e eu tive que rir do seu vocabulário.

– Chefona? – sacudi a cabeça. - Estou apenas a frente de uma pequena equipe. A chefona ainda é Carmen.

– Ok, mas não por muito tempo. Não dou nem três meses pra que eles se toquem da chefe em potencial que eles têm. Quer dizer, pelo menos aqui em casa você já adora ficar mandando em mim, né, deve ser a mesma coisa lá.

– Eu não mando em você. – falei fingindo espanto. - Eu apenas dou algumas ordens pra essa casa não virar uma bagunça, e nem isso eu tenho feito direito. Chama-se ser mãe.

– Que seja. – ela deu de ombros, mas cutucou minha lateral, me fazendo soltar um grito de surpresa com as cócegas repentinas. Ela parou segundos depois que eu implorei. - Mas e aí, como foi?

– Foi bom. E não vale me pegar desprevenida de novo. – eu avisei agarrando a mão que ameaçava me cutucar de novo.

Foi bom. Só isso? Que resposta mais sem graça.

– Foi como um dia de trabalho comum, só que um pouco melhor, Claire. Correu quase tudo como eu esperava.

– Quase? – ela me olhou inquisitiva. - O que teve de errado? Algum dos seus empregados fez 'm'? Ah, já sei! Foi aquele mala do James?

– Não. E ele não é meu empregado, sequer está na minha equipe. – eu ri, mais para disfarçar a apreensão que tomou conta de mim do que por humor.

Se eu contasse a Claire sobre o encontro infeliz que tive com o pai dela hoje, ela poderia interpretar de outra forma; se eu não contasse, ela acabaria sabendo por ele

e, além de tudo, eu seria motivo de chacota entre os dois por muito tempo. Quando minha filha se juntava a Edward para ficarem contra mim, era o jogo mais injusto que eu podia enfrentar. Ela é uma bela traidorazinha, isso sim.

Claire ficou esperando pela minha elaboração, mas se cansou e bufou.

– Bom, já que você não vai me contar nada… – falou enquanto se levantava do sofá. Eu a impedi pegando seu pulso, e tentei achar uma forma despojada de contar sobre o incidente.

– É sério, Claire. Não aconteceu nada demais no trabalho. Ah, e eu inclusive encontrei seu pai na rua no horário do almoço.

– Ai, mãe. – ela gemeu voltando a se sentar. - Não vai me dizer que vocês fizeram barraco no meio da rua?

– Claro que não. – esclareci. Bem, não tecnicamente. Afinal, ele tinha me dado um banho de iogurte gelado, o mínimo que eu podia fazer era reclamar meus direitos. Mesmo que talvez me exaltando um pouco a mais do que o necessário.

– Tá bom, vou fingir que acredito. – ela cruzou um braço e me olhou curiosa. - Então, vocês almoçaram juntos?

– Claro que não, Claire.

– Ué, por que "claro que não, Claire"? – disse jocosamente imitando minha voz.

– Por acaso você se lembra de alguma vez que eu e seu pai tenhamos almoçado juntos, sozinhos, sem você por perto? – perguntei e ela balançou a cabeça, comprovando a negativa.

– Mas e daí? – suspirou. - Mãe, sem querer dar uma de filha intrometida, mas eu acho que já está mais do que na hora de vocês voltarem a se falar. Todos os pais das minhas amigas que são separados se falam e convivem numa boa.

Me contorci ligeiramente no sofá, tentando achar uma posição que aliviasse o desconforto proporcionado pela conversa. Não tinha nada mais estranho e delicado do que bater um papo com a filha do homem que por pouco não tinha destruído a minha vida – que por acaso era minha filha também - enquanto tentava explicar o motivo de eu querer tanta distância dele.

– Claire, você sabe que não é tão fácil assim… – sibilei. Ela era jovem demais para entender a profunda marca que Edward havia deixado em mim quando partiu, e todas as consequências.

– É fácil sim, mãe! Se eu consigo falar com ele, você também consegue. – argumentou. Eu senti meu coração se contrair com sua persistência.

Até hoje eu agradecia aos céus por Claire ser tão centrada e bem-resolvida. Era quase um milagre. Não foram poucas as pessoas que me alertaram dos problemas que ela poderia vir a enfrentar por ter vivenciado uma separação com tenros sete anos de idade; Sentimentos de abandono, de rejeição, e depressão eram apenas alguns deles.

Eu só podia lhe oferecer muito amor para assegurá-la de que eu jamais sairia de seu lado. E apesar disso, Claire nunca pareceu duvidar do amor do pai - algo que contribuía naturalmente com os meus esforços de protegê-la contra a rejeição.

Para ser sincera, eu ainda achava difícil compreender esse fato, de tão inimaginável e contraditório que era. Nos meses seguintes à nossa separação – à fuga covarde de Edward -, tudo o que Claire fazia era me consolar enquanto perguntava quando ele iria voltar. Mas nunca com revolta, apenas com uma certeza inabalável e uma segurança incrível.

Entre a partida de Edward, e a primeira vez que ele fez contato pedindo para visitar Claire, nunca três meses me pareceram tão longos. Aconselhada pelos meus pais e encorajada por Carlisle e Esme, eu havia permitido que eles se encontrassem brevemente na casa dos Cullen.

Me recusei a estar presente, já que eu sentia que encontrá-lo poderia me destruir de vez. Tudo ainda doía demais naquele momento, e qualquer desculpa que ele pudesse dar, não faria o menor sentido para mim. Meu coração e ouvidos estavam trancados. Entretanto, quando Claire voltou para casa naquele dia, ela parecia contente, como se nada tivesse acontecido, me deixando repleta de dúvidas sobre o que havia se passado naquele reencontro. Eu queria questionar, porém preferi me distanciar de qualquer artifício que Edward tivesse usado para se safar e parecer inocente aos olhos da filha.

Algum tempo depois, ela acordou no meio da noite, indo até a minha cama e afirmando com a maior convicção do mundo que "um dia o papai vai voltar".

E, até ali, eu nunca tinha desejado com tanta força para que algo fosse verdade.

Partia meu coração entender que ainda hoje ela tinha esperanças de nos ver juntos novamente.

– Mãe? – chamou-me com a voz mais tímida depois de um momento de silêncio. - Me desculpe por ter tocado nesse assunto. Eu sei que você não gosta, mas é qu-

Eu não permiti que ela terminasse a frase, apenas envolvi meus braços ao seu redor e a puxei para um abraço. Engoli de volta o nó que se formou em minha garganta.

– Shh, você não tem culpa de nada. – falei baixinho em seu ouvido, e ela assentiu, mas se afastou em seguida.

– Eu tenho uma ideia! – exclamou, sua típica efervescência de volta.

– Sim?

– Acho que já passamos pela sessão deprê do dia, então que tal um sorvete agora?

– Hm… – falei com uma mão no queixo, fingindo pensar. - Ok, eu aceito.

Ela sorriu e eu a segui até a cozinha. Lavei minhas mãos na pia enquanto Claire pegava talheres e tirava um pote novo do congelador, cujo sabor não identifiquei, além de uma calda.

– É de quê? – perguntei me sentando na bancada, observando-a colocar duas bolas em cada cumbuca, na pia.

– É um novo, vi na mercearia daqui da rua quando voltava do ensaio e resolvi comprar.

Ela se virou, trazendo os dois potes igualmente preenchidos, com coberturas de morango em cada, e sorriu brilhantemente.

– É de iogurte, seu preferido!

Mas é claro que seria de iogurte. Sorri achando imensa graça na ironia, enquanto Claire me olhava como se eu fosse louca.

Aceitar a grande teimosia do destino era tudo o que eu podia fazer para me manter sã. Certas coisas acontecem comigo.


N/A: O que eu posso dizer? Eu AMO frozen yogurt!

Quero dizer que eu leio todas as reviews com um sorrisão bem assim :D Respondo sempre a quem é possível responder, ou seja, quem tem conta no FF e permite PM. Se você se encaixa nesse perfil, lembre-se de checar seu email ou inbox do profile, pode ser que tenha uma resposta lá. Se você tem alguma pergunta mas não possuiu conta ou não permite PM, podem me perguntar pelo twitter hohcarol.

Ah! E hey, você que sempre me visita de Moçambique, Portugal, etc: se manifeste! É muito legal ver que tem gente de outros países da língua portuguesa lendo a fic. De verdade!

Próximo capítulo é a vez de Claire e sua tão esperada festa.

Beijos, e até.