Aproveitem gente, que a história vai ficar cada vez melhor. (Culpem o Pedro Bandeira)
Francis! Era ele. Era ELE! E queria falar com ele. Pedira segredo e que ele o encontrasse em meia hora no parque de diversões. Seria melhor assim, pois se ele viesse à sua casa, sua mãe ocuparia todos os espaços, ofereceria lanches, não os deixaria conversar a sós.
A sós! Por que a sós? O que haveria para segredar? Será... será que ele tinha conseguido ler nas entrelinhas das cartas que Feliciano entregava? Será que ele pudera descobrir... Não! E se ele e Feliciano tivessem brigado e ele afinal descobrira que Arthur era o seu verdadeiro amor? Bem, isso até que seria de se esperar porque... Que nada! Impossível! Como o amor dele por Feliciano poderia diminuir depois de todas aquelas cartas e poemas? E Feliciano não lhe tinha dito que era impossível encontrá-lo sem alguma cartinha? Que "Onde está a cartinha?" era a primeira frase que Francis dizia logo ao se encontrarem? Depois, mesmo que os dois tivessem brigado, por que haveria Francis de lembrar-se dele? Nunca mais haviam se falado desde aquele maldito encontro no laboratório...
"Não. É melhor esquecer as esperanças. Mesmo que ele desista de Feliciano, por que haveria de olhar para mim? Por que para o feioso? Para a "menina"? Você não vai desistir de Feliciano, Francis. Eu não vou deixar. Eu vou continuar te amando, Francis. E você vai me amar cada vez mais através das minhas cartas. Mesmo que você nunca venha a saber disso, meu amor..."
Num dia de meio de semana como aquele, o parque de diversões estava quase deserto. Uma babá uniformizada trocava sorrisinhos com o sorveteiro enquanto a criança de quem ela deveria estar cuidando aproveitava para verificar de que cor ficariam seus sapatinhos brancos depois de mergulhados na lama até os tornozelos.
Ele chegou lindo como nunca. Ou como sempre. Como sempre chegava e nunca saía do pensamento de Arthur.
- Oi, priminho!
- Oi, Francis...
Lá vieram os beijos estalados e lá ficou Arthur recordando, num breve momento em que se permitiu fechar os olhos, aquela noite, aquele jardim e aquele beijo tão diferente destes estalos reservados ao priminho... Naquela noite, no escuro, ele não fora o priminho para Cristiano. Fora amado. Depois... bem, depois era agora.
- Priminho...
Arthur ficou ouvindo, quase sem prestar atenção, as palavras que pareciam um discurso de introdução a algo mais importante. Francis falava da sua adaptação à cidade, de todas as cidades onde estudara por causa das viagens do pai, da turma boa que já conseguira formar, tudo entremeado por risadas e "priminhos queridos".
- Quer um cachorro-quente, priminho querido?
- Não, eu... Estou de regime. ,.
Atrás da montanha-russa, vazia e parada, parecia um bom lugar para conversar. Ali, os dois estariam protegidos dos poucos olhares indiscretos que aparecessem. Um ventinho frio começou a soprar e a enorme estrutura de ferro rangeu enferrujadamente. Francis tinha acabado de devorar o cachorro-quente e de limpar com as costas da mão um bigode de mostarda.
- Priminho, como da outra vez, eu quero lhe falar de Feliciano... Arthur sentiu-se arrepiar com o vento e com o rangido irritante dos ferros.
- Sabe? Nunca encontrei alguém como ele. Nunca pensei que eu pudesse apaixonar-me desse jeito. Não ria, primo, com você eu me sinto tranqüilo. Não tenho vergonha de confessar o que sinto. Feliciano é lindo, mas é muito mais...
As palavras de Francis tornavam-se cada vez mais claras para Arthur, e o rapaz encolheu-se para se proteger de algo mais assustador que parecia estar por vir.
- Eu não esperava que ele tivesse tanta sensibilidade, priminho. Além da beleza.
Engraçado... Você o conhece há tempos, e deve saber disso melhor do que eu: Feliciano é tímido como um coelhinho. Quando estamos juntos, ele quase não fala. Apenas sorri. É muito carinhoso, é claro, mas pessoalmente quase não dá pra notar a cabecinha maravilhosa que ele tem. Só que, quando ele escreve...
- Quando ele escreve? O que é que tem?
- O mundo todo se enche de luz, priminho! Você nem pode imaginar. Todos os dias Feliciano chega com uma carta, com um poema, com uma prova de amor que me tira o fôlego. Bem, eu nunca fui muito ligado em literatura, sabe? Mas Feliciano abriu para mim um mundo diferente. Um mundo de pensamentos, de palavras, de emoções... Um mundo que eu desconhecia.
- Verdade? Você está gostando deste novo mundo?
- Você deveria ler o que ela me escreve, priminho. Eu leio e releio cada carta cem vezes e não me canso. Acho que nunca li coisas tão lindas em toda a minha vida...
- Ora, que exagero...
- Exagero? Se você diz isso é porque não sabe do que Feliciano é capaz. Ele é muito mais lindo escrevendo do que pessoalmente!
- Oh, você acha mesmo?
- Feliciano e você são amigos há muito tempo. Na certa você já deve ter lido algum poema dele, não?
- Bem... alguns...
- E o que acha deles?
- Hum... não são maus...
- Não são maus? São maravilhosos! São as palavras mais puras e verdadeiras que eu jamais li!
- Ah, Francis, você acha isso mesmo?
- Primo, eu estou cada vez mais gamado por Feliciano. No começo, foi aquele rostinho que me atraiu, mas o rostinho era pouco perto do espírito que Feliciano escondia dentro dele. Agora, nem penso mais na beleza de Feliciano. As cartas dele me emocionam até mais do que quando eu o beijo. Quase que prefiro estar no meu quarto, relendo as cartas, do que junto dele...
- Oh, Francis, não fale assim...
- Ah, priminho, eu vou amar Feliciano enquanto viver! Não me importa se ele é lindo ou se ele é feio. Importa que...
- Você o amaria, mesmo se ele fosse feio?
- É claro que sim!
Freneticamente, Arthur agarrou os dois braços de Francis.
- Diga: você o amaria? Mesmo se ele fosse gordo? Me diga: mesmo se...
- Mesmo se eu fosse cego! Bastaria que alguém lesse para mim o que ela escreve!
Aos poucos, Arthur afrouxou a força dos dedos nos braços de Francis.
- Você... você não sabe o que está dizendo, Francis...
Uma garoa fina e gelada começou a se fazer sentir. Os rangidos dos ferros da montanha-russa percorriam a espinha de Arthur de alto a baixo. Atrás do sorriso que ele conseguiu representar a custo, seu rosto estava branco.
- E você... me trouxe aqui só para dizer isso, Francis?
O rapaz baixou os olhos. Num momento, toda aquela paixão, todo aquele entusiasmo, deu lugar a certo desânimo.
- Não... na verdade eu fico até contente ao lhe contar tudo isso. Eu quero que você saiba da minha felicidade. Afinal, foi você que me abriu um novo mundo ao trazer Feliciano à minha festa, não foi? E, depois, ajudou nosso primeiro encontro. Eu lhe devo muito, priminho.
A garoa estava gelada e, caindo vagarosamente, já tinha encharcado os dois.
- Você prometeu nos ajudar, lembra-se? Eu lhe pedi, naquela manhã, no laboratório...
- Sim, eu me lembro...
- Você é o padrinho deste amor maravilhoso, primo...
- O que você quer que eu faça? Que os abençoe?
- Eu agora preciso de um pouco mais. Sabe? Eu nunca fui um bom aluno. Eu só sei jogar futebol...
- Como? Mas a tia Adelaide disse...
- Isso são coisas de mãe. Ela vive fazendo uma propaganda maluca, onde eu apareço como ela gostaria que eu fosse, não como eu sou. Eu sempre passei raspando, primo. Principalmente em português e literatura. E me sinto um pouco humilhado diante do talento de Feliciano. O que ele há de pensar de mim?
- Ele te ama, Francis...
- Disso eu sei. Só quem ama muito pode escrever o que ele escreve. Mas, e eu? Eu não sei mexer com as palavras. Não sei responder a ele com a mesma... a mesma...
- Ternura...
- É. Ternura. Eu sinto essa ternura, mas não sei como demonstrar. Eu quero me mostrar a ele, sem qualquer vergonha, Arthur. Mas na hora acho que falta... falta aquela...
- Paixão...
- Isso. A paixão está por dentro, é tão grande quanto a dele. Mas...
Arthur sugeria cada palavra, cada sentimento, como se fosse um jogador a descartar sobre um pano verde. E o rapaz comprava todas as cartas.
- Será que não falta amor, Francis?
- Não. Isso não falta. Eu quero aquele menino como ninguém há de querer. Tenho certeza. Mas, quando estou com ele, só consigo contar piadas...
- Pode ser um novo estilo de namoro. Piadas de amor...
- Não brinque, primo. Eu não posso parecer ridículo diante daquele garoto maravilhoso...
- Fique tranqüilo, então. Tenho certeza de que ele o ama como você é.
- Mas eu queria poder amar Feliciano do jeito que ele me ama. Eu queria poder escrever para ele com a mesma ternura, com a mesma paixão com que ele me escreve. Mas eu não tenho jeito, priminho...
- Ah, Francis... você tem tantos jeitos...
O rapaz tomou nas suas as mãos de Arthur e trouxe-as ao peito. Olhou profundamente ao rapazinho.
- Arthur, me disseram que você é ótimo em redação. Foi por isso que eu lhe pedi esta conversa. Preciso de mais um favor.
Arthur deixou as mãos apoiadas sobre o peito do rapaz. Sentiu pulsar-lhe o coração, num dueto com o seu.
- Primo, você poderia escrever alguma coisa para eu dar a Feliciano?
A ferragem rangeu de novo, quase abafando a surpresa de Arthur.
- Como?
- Só de vez em quando, priminho. Ajude-me! Uma cartinha ou um verso, para que Feliciano não se decepcione comigo...
- Mas como é que eu posso...
- Escrever uma carta de amor para seu melhor amigo? Você pode tentar, não pode? Talvez escrevendo como se fosse para o seu namorado. Depois eu copio. Você tem namorado, não tem?
- Eu? Tenho... é claro...
- Como é o nome dele?
- O nome dele? É... Alfred...
Alfred! Droga! Foi o primeiro nome de que ela se lembrou. Se Alfred soubesse...
- Então escreva uma carta de amor bem bonita para Feliciano como se fosse para o Alfred. Vai dar certo, você vai ver. Será o nosso segredo!
- Francis, eu...
- Ah, você prometeu, priminho! Me ajude!
-... sim, eu prometi...
- Pois prometa de novo!
Segurando-lhe os ombros, o rapaz o olhava fixamente nos olhos. Arthur deixou que um arrepio lhe percorresse todo o corpo molhado e murmurou:
- Eu... eu prometo, Francis...
