Capítulo 09
A noite da festa sediada por Dino Cavallone chegou antes do que Hibari gostaria. As quase duas semanas que a antecederam pareciam minutos se comparadas às horas de sofrimento que ele enfrentaria naquela noite.
Diante do enorme espelho, o Guardião da Nuvem ajeitava a roupa extremamente cara e elegante que vestia. O fraque, ou algo parecido, o deixava ainda mais formal, e enquanto abotoava a camisa branca o moreno tentava se focar nas agradáveis horas que passou durante aquele dia ao invés de pensar nas horas que ainda teria pela frente.
Após aquela exagerada noite, a relação entre ele e Dino basicamente voltara ao que era antes. Os sorrisos, os olhares apaixonados, os pequenos toques e beijos inoportunos estavam de volta. O italiano o procurava todas as noites, permitindo que Hibari se sentisse amado e desejado como sempre se sentiu na companhia do louro.
Os únicos momentos em que os dois divergiam de opinião eram com relação ao trabalho. O Guardião da Nuvem foi totalmente contra o plano e a festa. Ambos pareciam dois grandes problemas que deveriam ser excluídos o quanto antes.
Como de costume Dino apenas sorriu com suas preocupações, complementando com "Vai dar tudo certo, Kyouya", todas as vezes em que o moreno apontava o quão perigoso aquilo poderia ser. No final das contas, a festa - que na verdade mais parecia um baile - aconteceria, e não havia nada que Hibari pudesse fazer além de ficar em cima do muro.
Bem, isso na teoria, claro.
A caríssima vestimenta foi deixada em cima da cama por um convidativo e sedutor Chefe dos Cavallone, que cruzou o quarto usando apenas uma apertada roupa de baixo vermelha. Os olhos do Guardião da Nuvem não ousavam desviar-se de sua figura, e seus ouvidos apenas capturaram as palavras "roupas" e "festa". Dino lhe oferecia a oportunidade de descer se quisesse, mas em momento algum chegou a mencionar a ideia diretamente. Ele conhecia seu amante bem demais para saber que tais convites diretos eram infrutíferos.
No final do dia, o moreno terminava de se vestir, erguendo os olhos ao ver a porta do quarto sendo aberta para que o anfitrião daquela noite entrasse.
O Chefe dos Cavallone adentrou lentamente. Sua atenção estava na rosa vermelha que permanecia imóvel no bolso de seu terno. Hibari precisou virar a cabeça diretamente. A imagem refletida no espelho era completamente injusta a visão original.
O italiano estava todo de branco, com exceção da rosa vermelha. Seus cabelos estavam perfeitamente ajeitados, e quando ele ergueu a cabeça para finalmente encarar Hibari, o Guardião da Nuvem precisou apertar os punhos ao lado do corpo. Suas mãos queriam automaticamente tocar o homem a sua frente, como uma criança cuja visão na verdade localiza-se junto com o tato.
Era tentador e perigoso. Tanto Dino quanto seus pensamentos.
- Você ficou bem... - O louro sorriu dando um passo a frente e ajeitando a gravata borboleta nas vestes do Guardião da Nuvem.
Hibari não respondeu. Nenhuma palavra que ele dissesse poderia fazer juízo a real figura do Chefe dos Cavallone, além do simples fato de que observá-lo era bem mais interessante do que travar uma conversa.
- Os convidados começaram a chegar então subirei com menos frequência. De qualquer forma, sinta-se a vontade para descer se quiser. Um dos subordinados ficará encarregado da sua comida, então peça o que preferir, pois ele o servirá com o maior prazer. - Dino tocou de leve as bochechas do moreno.
- Eu sei me virar sozinho. - Hibari subiu os dedos, tocando uma das pétalas da rosa vermelha. Ela estava perigosamente na direção do coração do louro.
- Claro que sabe. - O Chefe dos Cavallone sorriu - Quando essa noite terminar poderemos combinar nosso retorno a Namimori. Eu agradeço sua presença, mas acredito que você esteja saudoso em relação ao Japão.
- Kusakabe me mantém informado. Nada acontece sem que eu não tenha conhecimento. - O Guardião da Nuvem desviou levemente os olhos.
- Apenas esteja aqui quando eu retornar, ok?
O italiano aproximou-se, beijando delicadamente os lábios de Hibari.
O beijo que era para ser apenas uma rápida despedida, não contava com uma rápida retribuição. O moreno moveu os lábios e Dino não poderia desperdiçar oportunidade tão valiosa. Seus pés moveram-se um pouco mais à frente, suas mãos abraçaram a cintura do homem à sua frente, e sentindo seu pescoço ser puxado um pouco mais para baixo, o Chefe dos Cavallone intensificou o beijo como gostaria.
O Guardião da Nuvem manteve o beijo o máximo que conseguiu. Seus lábios moviam-se no mesmo ritmo que os do italiano. As pontas de seus dedos perdiam-se pelo cabelo louro e macio, e por alguns minutos tudo o que Hibari fez foi pensar que quando a noite terminasse, ele teria aquele homem novamente em seus braços, e poderia aproveitar toda aquela roupa, ou a falta dela.
Quando os dois se afastaram, houve uma rápida troca de olhares. Dino sorriu de canto e deu as costas, caminhando na direção da porta.
Era mútuo. Aparentemente a verdadeira festa aconteceria somente entre eles.
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Hibari permaneceu em um dos quartos de hóspedes durante o começo da noite. O quarto do Chefe dos Cavallone foi trancado, e sua companhia durante àquelas horas resumia-se a mesa cheia de comidas, petiscos e bebidas, além da enorme janela que dava para a entrada da mansão. Através daquele pedaço de vidro o Guardião da Nuvem pôde ver os convidados que chegavam. Ricos e aparentemente poderosos Chefes desciam de suas imponentes limousines, desfilando com roupas que eram visivelmente caras e na maioria das vezes exageradas.
Foi através da mesma janela que o moreno presenciou duas cenas que chamaram sua atenção por motivos completamente distintos. A primeira foi quando Tsuna chegou acompanhado de dois de seus Guardiões. Hibari sorriu para si mesmo ao ver Reborn em um dos ombros do Décimo Vongola, imaginando que ele não importaria de passar o restante daquela noite conversando com o bebê. Excetuando-se Dino, o Arcobaleno era a única companhia que ele chamaria de interessante.
A segunda cena foi um pouco mais peculiar. Uma limousine negra, como todas as anteriores, parou em frente ao chafariz em forma de pegasus e uma mulher desceu, sendo seguida automaticamente por meia dúzia de subordinados. Pela maneira como era tratada, não deixava dúvidas de que assumia um cargo importante.
Independente de seu cargo, o que chamou a atenção do Guardião da Nuvem foi o simples fato de que Dino só deixou a mansão para receber Tsuna e a tal mulher. Os subordinados dos Cavallone eram responsáveis por levar as pessoas para dentro da mansão, mas nessas duas vezes o italiano em pessoa foi responsável por recebê-los. Ao ver o louro subindo as escadas com seu largo sorriso enquanto a mulher apoiava-se em seu braço, o moreno desencostou-se da janela e deu um longo gole na taça de champagne em sua mão.
Era hora de seu sacrifício pessoal.
Hibari odiava pessoas e multidões. Era de sua natureza. Era parte de seu ser.
Então, como explicar os passos que foram dados do quarto para o corredor, e do corredor através da longa escadaria?
O Guardião da Nuvem simplesmente diria que estava ali por motivos profissionais. Ele não sabia quem era o tal homem que Dino procurava, mas isso não significava que ele não pudesse dar uma olhada. O plano ainda não parecia convincente aos seus ouvidos, e uma parte do moreno gostaria de estar presente quando algo acontecesse. Seus tonfas estavam fielmente escondidos dentro da camisa, esperando a melhor oportunidade para usá-los.
Entretanto, aquele era apenas um dos motivos que fazia com que Hibari estivesse suportando estar no meio de pessoas desconhecidas, permitindo que seus olhos corressem através do local, procurando o anfitrião da festa ao mesmo tempo em que evitava ser visto. Uma estranha e incomoda curiosidade se instalou em seu peito ao ver o italiano adentrar a casa ao lado de uma companhia feminina. O Chefe dos Cavallone sempre foi gentil, era de sua personalidade possuir encantos que chamavam a atenção de ambos os sexos. Porém, havia algo incomodando o Guardião da Nuvem, e quando seu instinto gritava era porque alguma coisa estava acontecendo ou aconteceria.
Não foi fácil para o moreno encontrar um local quieto e digamos solitário para ficar. O primeiro andar havia sido consideravelmente arrumado para aquela noite. As estátuas, os quadros e qualquer mobília que geralmente decorava o hall foi retirada para acomodar aquela multidão. Havia garçons perambulando entre as pessoas, servindo boa comida e bebidas caras. Em um dos lados da enorme sala havia uma orquestra, e provavelmente era a única coisa interessante naquele momento. O som do piano e dos violinos ocultava as vozes irritantes e as risadas grotescas que Hibari pudesse ouvir.
Parado próximo a porta de madeira escura da biblioteca, o Guardião da Nuvem deixava seus olhos correrem pelo local, esperando ver algo suspeito. Nada. Nada além de pessoas de várias idades se divertindo.
A espera e curiosidade de Hibari seriam respondidas após alguns minutos. Seu local confortável e excluído próximo a biblioteca precisou ser trocado, já que aparentemente Yamamoto "Pensei ter visto alguém parecido com o Hibari, certo, Gokudera?". A resposta do Guardião da Tempestade foi um rápido olhar na direção em que Hibari deveria estar. Não havia ninguém. Entre palavras feias e meia dúzia de insultos, Gokudera voltou para o lado de Tsuna, avisando que se Yamamoto o atrapalhasse com mais alguma bobagem ele explodiria o idiota sem pensar duas vezes.
O Guardião da Nuvem precisou novamente perder-se na multidão, mas dessa vez seus passos não duraram muito. As pessoas pararam de se mover, abrindo um estranho espaço no meio do Salão. A atenção do moreno foi total. O que estava para acontecer necessitava de espaço e uma nova música por parte da orquestra.
Dino foi para o centro do Salão ao som de uma chuva de aplausos. O Chefe dos Cavallone riu, corou e sorriu o tempo todo, agradecendo em italiano por toda aquela atenção e exclusividade. Se aquela cena em particular fazia parte de seu plano, Hibari não sabia. Entretanto, havia um número grande de subordinados da Família espalhados em pontos estratégicos. Mesmo sabendo que por baixo da roupa o louro estava com um resistente colete à prova de balas, segurança nunca era demais.
A razão que levou Dino ao centro do Salão não era relacionada ao seu atentado ou ao plano que realizariam naquela noite. O Guardião da Nuvem não precisou pensar muito para perceber que o louro era responsável por incentivar as pessoas a dançarem, e esse era o único motivo que o levava a estar sozinho naquele momento. Por alguns segundos o Chefe dos Cavallone olhou para todos os lados, como se procurasse por alguma coisa. As moças soltavam gritinhos baixos quando os olhos cor de mel paravam em suas figuras, imaginando se seriam as escolhidas daquela noite. Aparentemente aquela não era a primeira que o italiano fazia aquilo.
Hibari mentiria se dissesse que seu coração não bateu mais rápido quando Dino o olhou, ou melhor, quando ele achou que o louro o tivesse visto. Por um instante o moreno pensou em dar um passo para trás. Talvez aquilo não fosse uma boa ideia. Talvez ele devesse retornar ao quarto e aguardar como fora sugerido.
Ou talvez ele pudesse permanecer e assistir, já que após alguns segundos de busca, o Chefe dos Cavallone pareceu ter escolhido sua companhia para a primeira dança. E o Guardião da Nuvem não se surpreendeu ao ver a mulher que entrou de braços dados com Dino tomar novamente a mesma posição. Ela corava, ela ria, ela sorria... Ela era provavelmente a mulher mais invejada da noite.
Longos e ruivos cabelos presos em uma bela e decorada trança desciam pelas costas da mulher. O vestido, este também vermelho, parecia ter sido feito sobre metida para o seu corpo. Ela era mais baixa que Hibari, e possivelmente mais jovem também. Seus passos - elegantes e leves - seguiam perfeitamente os passos de Dino durante a dança. A orquestra tocava uma bela valsa, e mesmo que o par não fosse aquele, seria impossível e impolido desviar os olhos de tal cena.
O moreno estava atrás de algumas pessoas, mas conseguiu assistir a tudo. Seus olhos seguiam os passos enquanto seus ouvidos devoraram a música. O italiano sorria o tempo inteiro. Seus olhos estavam fixos na mulher, e durante toda a música eles não a deixaram um segundo se quer. A jovem mulher sabia disso, pois seu olhar também não saiu da figura em seus braços. E pudera. Quem em sã consciência olharia para outro lugar quando a pessoa a sua frente parecia tão perfeita?
Durante os curtos minutos que permaneceu ali Hibari pôde entender coisas que até aquele momento haviam passado despercebidas. O sentimento em seu peito o corroia conforme a música se prolongava. Suas mãos estavam fechadas em forma de punhos e seus dentes rangiam. Ele queria acabar com aquilo. Ele queria terminar com aquela noite cheia e barulhenta. Ele queria separar aqueles dois exibicionistas e morder Dino até a morte por fazê-lo sentir algo totalmente negativo.
O moreno não sabia o que era ciúmes até o dia em que viu o Chefe dos Cavallone sorrir para uma moça na rua anos atrás. Aquela estranha sensação em seu peito surgia sempre que alguém parecia ganhar a atenção do italiano. A sua atenção.
Quando o louro disse naquela tarde no Templo que estava com ciúmes da relação entre Chrome e o próprio Hibari, o Guardião da Nuvem não entendeu qual sentido tais palavras poderiam conter. Era trabalho. Ele jamais teria algum tipo de contato com aquela mulher se não envolvesse dinheiro ou algum beneficio pessoal. Porém, vendo Dino dançar tão livre e alegre ao lado de uma mulher que lhe era totalmente estranha, o moreno entendeu o sentido das palavras "quero monopolizar você". Pois era exatamente o que ele sentia.
Ela não tinha o direito de tocar o que era seu. As mãos, os olhos, o sorriso... Eles pertenciam à outra pessoa.
A música parou e Hibari abaixou os olhos e deu as costas. Seus passos foram pesados e diretos, tendo como música de fundo os muitos aplausos que as pessoas ofereciam ao Chefe dos Cavallone e sua companhia. Seu humor estava péssimo, e era preciso se afastar da multidão antes que as pessoas começassem a dançar. Tsuna e os dois Guardiões estavam próximos a escadaria principal, tornando o caminho inviável. Era preciso encontrar refúgio em algum lugar até que ele pudesse retornar ao andar de cima, e nada parecia mais convidativo do que o largo jardim da mansão.
O Guardião da Nuvem passou sorrateiramente por uma das extremidades, saindo pela lateral sem ser visto diretamente.
Entretanto, havia uma pessoa que não tirou os olhos de sua pessoa desde que descera, e que sorriu ao vê-lo visivelmente transtornado com a dança de Dino. Romário ajeitou os óculos e pediu calmamente para que todos os subordinados fossem avisados que não deveriam relatar ao Chefe que Hibari deixara o quarto. Ele prometeu a si mesmo que não se intrometeria diretamente nos problemas de Dino, mas isso não significava que deixaria de tentar ajudar no que fosse possível. Infelizmente, naquele momento o Guardião da Nuvem precisava ver certas coisas para dar valor ao que tinha em mãos.
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O jardim parecia o melhor lugar da casa naquela noite. O moreno pôde respirar livre enquanto sentava em um banco solitário. A distância da Mansão não era significativa, mas ele sabia que teria alguns minutos com sua consciência, sem correr o risco de esbarrar em outra pessoa. Apoiando os cotovelos nas pernas, Hibari inclinou o corpo para frente e encarou a grama embaixo de seus pés.
O incomodo em seu peito ainda estava ali, e mesmo afastado sua mente lhe pregava peças deixando aparecer vez ou outra, flashbacks da dança de Dino, apenas para deixá-lo ainda mais irritado.
Até aquele momento o Guardião da Nuvem não tinha ideia de que era aquele tipo de coisa que o italiano fazia quando estava em sua terra natal. Imaginar que enquanto ele permanecia em Namimori o Chefe dos Cavallone se divertia com suas caras festas o deixava incomodado.
Fechando os olhos e respirando fundo, Hibari tentou ao máximo afastar aquele tipo de pensamento. A voz do louro ecoava em sua mente, doce e charmosa, lembrando-o de todas as vezes que ouvira seu nome ser chamado com carinho. Pois no fundo o moreno sabia que não importasse quantas danças ele tivesse de assistir, no final da noite, era em seus braços que Dino procuraria refúgio. Era em seu corpo que o italiano encontraria alivio. E mesmo que isso soasse como uma pequena e insignificante parcela da vida de ambos, para o moreno era suficiente.
O momento de reclusão do Guardião da Nuvem não durou o tempo que ele esperava. Seus ouvidos captaram passos, e para seu tormento pessoal, a pessoa já estava perto o suficiente para que ele pudesse evitar um confronto direto.
Entretanto, Hibari ficou de pé e deu as costas, mostrando que apesar de estar próximo, ele não tinha intenção alguma de iniciar um diálogo.
- Nunca pensei que o veria em uma festa, Hibari.
O olhar do moreno transbordava arrogância e desdém.
- Se não quer ser mordido até a morte então sugiro que vá embora, Gokudera Hayato. - O Guardião da Nuvem tinha consciência da localização exata de seus tonfas por dentro de toda aquela caríssima roupa.
- Não estou aqui para brigar. - O braço direito do Décimo Vongola ergueu as mãos, mostrando que suas palavras eram genuínas - Eu na verdade vim apenas lhe agradecer pelo que fez.
Hibari virou levemente a cabeça. Aquele assunto começava a lhe interessar.
Ele não se recordava de ter ajudado os herbívoros ultimamente.
- O Jyuudaime estava realmente preocupado quando soube o que aconteceu com o Haneuma. Ele voou do Japão para cá assim que soube, mas eu posso dizer o quão aliviado o Jyuudaime ficou ao saber que tudo estava bem, e que você estava na Itália.
A conversa perdeu o brilho para o moreno. Ele não precisava ouvir dos lábios de terceiros sobre o que tinha feito. Ninguém tinha relação alguma com suas escolhas e ações. Além disso, ouvir de outros sobre seus feitos soava como se suas atitudes fossem apenas mais um favor.
- Isso não lhe diz respeito e não preciso do seu agradecimento.
- Eu sei, mas mesmo assim, muito obrigado por tirar um pouco o peso da responsabilidade das costas do Jyuudaime.
O Guardião da Tempestade fez uma polida reverência para Hibari, surpreendendo-o. Ele mentiria se dissesse que esperava aquele tipo de tratamento após o último encontro que ambos tiveram semanas atrás.
Após invadir seu território, o braço direito do Décimo foi quase mordido até a morte pelo moreno após uma pequena discussão. As palavras vagavam pela mente de Hibari vez ou outra, e mesmo sabendo que Gokudera dissera mais para si mesmo, o Guardião da Nuvem viu a verdade por trás das entrelinhas. Julgando pela aparente proximidade entre os Guardiões da Tempestade e Chuva, a situação havia se revolvido.
- Eu não vou me desculpar sobre aquela noite, Hibari. - Gokudera acendeu um cigarro, dando uma longa tragada - Você merecia ter ouvido aquelas palavras, e acredito que elas tenham feito sentido.
- Você realmente gosta de ser mordido até a morte, não? - O moreno sorriu maldosamente. Ele já estava irritado o suficiente por uma noite e não precisava de mais incentivo para retirar seus tonfas.
O homem de cabelos prateados manteve o cigarro nos lábios e ergueu as mãos novamente, mostrando que estava falando sério quando dissera que não estava ali para iniciar uma briga.
- Como eu disse anteriormente, não me importo com você ou o Haneuma, mas você viu, não? - Gokudera lançou um significativo olhar na direção do homem parado a poucos passos de onde ele estava - O nome dela é Ana. Ela é filha de um poderoso mafioso suíço. Sua Família é aliada dos Cavallone e há meses ela está sondando o Haneuma. Ouvi que ela pretende se declarar esta noite e que tem o apoio do pai para isso. Honestamente seria uma aliança extremamente benéfica e lucrativa. Um filh-
O Guardião da Tempestade ergueu o queixo, mas manteve o olhar baixo e fixo no homem que surgiu diante de seus olhos em uma velocidade completamente absurda. O banco havia tombado sem fazer barulho, e mesmo sabendo que estava em uma posição extremamente delicada, Gokudera não parecia sentir-se ameaçado ou comprometido como da última vez.
- Eu vou matá-lo se continuar, Gokudera Hayato. - Hibari mal moveu os lábios para pronunciar tais palavras. Um de seus tonfas estava na garganta do homem de cabelos prateados e seu corpo prontamente posicionado para um mortal ataque.
- Eu estou apenas comunicando o que ouvi. - O braço direito do Décimo deu um passo para trás, dando uma última tragada no cigarro - Ele nunca reclamou... O Haneuma. Eu o encontrei algumas vezes fora do ambiente de trabalho, e por mais que eu soubesse que ele não estava feliz, nunca o ouvi reclamar sobre nada. E o mais irônico era que para fazê-lo sorrir novamente não era preciso fazer nada além de mencionar o seu nome. Honestamente nunca entenderei esse tipo de coisa... - Gokudera apagou o cigarro no cinzeiro portátil em seu bolso - Mas estou certo de que você entende.
Sem esperar nenhum tipo de resposta, o Guardião da Tempestade deu as costas e colocou as mãos nos bolsos, afastando-se com passos calmos.
Hibari apertou com força seu par de tonfas, sem notar que quanto mais tempo permanecia parado, menos vontade ele sentia de morder Gokudera até a morte.
Sua posição não mudou, e ele permaneceu no mesmo lugar enquanto observava o homem de cabelos prateados aproximar-se da Mansão. Em determinada parte do caminho Yamamoto Takeshi surgiu, abrindo os braços e procurando surpreender o Guardião da Tempestade com um abraço. A resposta foi um chute, e mesmo daquela distância, Hibari pôde ouvir com incrível clareza a risada do moreno. Pessoas tristes e infelizes não poderiam rir daquela forma. O Yamamoto Takeshi dos últimos meses não esboçaria aquele tipo de sorriso ou pareceria tão genuinamente feliz.
Dando meia volta e seguindo por um caminho oposto, o Guardião da Nuvem guardou seu par de tonfas. Aquela festa havia terminado oficialmente para ele.
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O caminho até o segundo andar foi feito sem problemas.
As pessoas pareciam ocupadas demais procurando se divertir para notar Hibari subindo as escadas e suspirando aliviado ao ver o corredor vazio. Seus passos não ecoavam por causa do grosso tapete vermelho que forrava o andar, e sabendo que poderia escolher qualquer quarto que não fosse o de Dino para ficar, a escolha foi feita de maneira aleatória. Uma porta a direita e ali estava o lugar em que ele passaria o restante da noite.
Os quartos de hóspede da Mansão eram basicamente iguais. Uma cama de casal, uma pequena escrivaninha, um jogo de sofás, uma pequena estante e a solidão. Sua melhor amiga de todos os momentos.
O moreno entrou e estalou o pescoço, movendo-o devagar para a direita e depois à esquerda. Seu corpo estava tenso e mesmo que negasse, era difícil esquecer as palavras que acabara de ouvir. Ele não deixaria aquele quarto, mas o simples pensamento do que poderia acontecer enquanto estivesse ali o deixava ainda mais irritado.
Por longos minutos o Guardião da Nuvem não fez nada além se andar de um lado para o outro. Seus olhos vez ou outra miravam o relógio em seu pulso, imaginando quanto tempo mais àquela festa ainda se arrastaria. Já fazia mais de quatro horas e não havia sinal de que terminaria tão cedo.
Porém, nada disso o incomodava mais do que o fato de que nesse tempo todo Dino não aparecera para vê-lo. Era infantil e completamente ridículo, mas uma parte de Hibari gostaria de vê-lo nem que fosse por alguns minutos.
E foi essa mesma parte que o fez virar com certa antecipação ao ver a porta do quarto sendo aberta. Por um momento houve expectativa. Por um momento ele imaginou que o italiano entraria e diria que a festa terminou e que ambos poderiam retornar ao quarto.
Por um momento a realidade poderia simplesmente desaparecer.
- Oh, eu não sabia que aqui era um quarto. - Um homem de meia idade e estrangeiro estava na porta do quarto. Seu italiano era perfeito.
Hibari não respondeu. Ele sempre fingia ignorância na língua quando se deparava com um estrangeiro que não fosse Dino.
O homem gastou um pouco do seu italiano dizendo que havia confundido a direção do banheiro, pedindo desculpas e direções. O moreno permaneceu irredutível. Sua expressão era vazia, seus olhos pareciam mortos e mentalmente ele mordia o homem até a morte por ter invadido seu espaço pessoal.
A situação só foi modificada quando ao invés de sair, o homem pisou dentro do quarto e fechou a porta. Havia algo naquela pessoa que fez todos os instintos de Hibari ficarem alerta.
- Eu não pensei que teria tanta sorte em tão pouco tempo. - O italiano perfeito transformou-se em um japonês mediano, mas compreensível - Quando soube meses atrás que o Chefe dos Cavallone possuía um amante eu jamais poderia adivinhar que seria um homem e ainda japonês. Não sei se o envolvimento entre vocês é puramente profissional, mas deixe-me dizer que você tem muito bom gosto, meu jovem... Ou melhor, Hibari Kyouya. Eu não sabia que o jovem Décimo Vongola oferecia seus Guardiões em troca de favores de outras Famílias. - A voz do homem tornou-se baixa, seus olhos verdes estavam pequeninos e havia um esboço de meio sorriso em seus lábios. - Se eu soubesse disso poderia ter oferecido uma alta quantia em dinheiro pelos seus serviços.
O moreno ouvia a tudo sem mover um músculo. As palavras não faziam muito sentido e não eram exatamente interessantes de serem ouvidas. Porém, ele sabia que a pessoa diante de seus olhos era a presa que ele procurava.
- Eu falhei da primeira vez, mas não cometerei o mesmo erro duas vezes. O Chefe escapou com vida, mas imagino o que ele fará quando souber que seu precioso brinquedo foi destruído.
O homem enfiou a mão dentro do terno. Hibari fez o mesmo. Seus tonfas estavam em suas mãos no segundo seguinte. Seus olhos se apertaram. Daquele ponto a luta não seria justa. Havia uma arma apontada em sua direção e daquela distância não havia muitas opções de defesa.
- Que tal se você morresse esta noite, Guardião da Nuvem dos Vongola?
Continua...
