Capítulo 9
Kim sugeriu uma ida ao toalete, para poderem se recompor, antes de voltarem ao salão. Lá encontraram Louise empoando o rosto.
- Meu Deus! O que houve com vocês? Estão terríveis! – Exclamou ao vê-las.
Kim ia abrindo a boca para explicar, quando Sara se meteu na frente "Nada!", aquele não era o momento certo, nem o lugar ideal, para se conversar sobre isso. Em casa, numa outra hora, ela mesma contaria tudo a Louise.
- Simpático o seu amigo. Parece gostar muito de você.
– E gosta. Somos bons amigos! Nos conhecemos há três meses...
- Intimamente? – Perguntou Kim.
- Você quer saber se dormi com ele? – Louise encarou a amiga, insatisfeita. – Não Kim, não dormi com ele. Não quero forçar nada e, por enquanto, somos apenas amigos!
Sara achava que a sua quota para aquele dia, já estava cheia. Não precisava de uma discussão entre as amigas.
- Suponho que seja um começo, como qualquer outro, Lou. Desejo-lhe felicidades!
- Obrigada, Sara! Sei que é de coração!
- Sinceramente, acho que é hora de seguir em frente e encostar seu papel de divorciada. Seu marido já resolveu sua vida, você está esperando o quê?
- Sei que a seu modo, você só deseja o meu bem, Kim! – Respondeu Louise, já saindo.
Ficaram só as duas e Sara aproveitou para alfinetar a amiga, que após a confissão, parecia ótima; quem estava caída era Sara. Ela queria não ter feito aquela viagem, não ter sabido de ninguém; não ter revisto ninguém; não saber de nada...
- Tudo para você se resume a sexo, não? – Jogou Sara em cima da companheira.
-E não é? – Devolveu Kim.
Sara saiu de lá, pisando duro. Um casamento envolvia tantos fatores... Sexo era apenas um deles. Na opinião de Sara, o mais prazeroso e o mais simples de resolver. Havia mil outros fatores, bem mais complicados, envolvendo um casamento. Viu Grissom, no salão e foi até ele.
- Leve-me embora daqui! – Pediu ela.
- Meu bem, praticamente acabamos de chegar! O que houve? – Ele perguntou, sem entender.
- Não, você não está entendendo! Me leve para casa, preciso sair daqui!
- Há alguns minutos, me pareceu que você estava contente em vir!
Grissom pareceu estar completamente confuso. Sara viu que não estava sendo coerente. Precisava ter uma longa conversa com ele, e lá não era o lugar. Ouviu um pouco a música que estava tocando e simplesmente disse.
- Sabe de uma coisa: você tem razão, vamos dançar!
Ele acompanhou a esposa até a pista de dança, atônito com um comportamento tão incoerente de um ser tão relaxou no peito dele. Sentia-se como alguém que voltou a se re-encontrar. Voltou a achar seu lugar, e conseqüentemente, se acalmara. Nos braços de Grissom tornara a achar seu ponto de equilíbrio.
Eles estavam na segunda música, quando escutaram um ruído característico; um estampido. A música parou abruptamente e ouviu-se pelo salão, um burburinho, que crescia aos poucos.
Sara levantou a cabeça do peito de Grissom. Franziu a testa.
- Mas que diabo... É UM TIRO?
- É o que parece... - disse Grissom. – Precisamos saber de onde ele vem.
'Nós? Porque nós?', e Sara franziu ainda mais a testa.
Alguém gritou do outro lado do salão que o tiro parecia ter vindo daquele lado.
- O que tem por lá? – Grissom perguntou a Sara.
-As salas de aula... eu creio.
Grissom saiu correndo para lá. Sara acompanhou-o. Um homem abriu uma das salas e gritou "aqui!", fazendo com que Grissom se deslocasse até lá. Pela porta aberta, viu um homem sentado atrás de uma mesa, cheia de livros e de papéis. Ao se aproximar mais um pouco, viu a extensa mancha de sangue, que se formara em seu paletó.
Um braço pendia para o chão, com uma arma, que devia estar segura pela mão e agora jazia no chão. Grissom observava tudo, como se tivesse cem olhos. Sara chegou a seguir e falou , bem atrás dele, com desapontamento na voz.
- Professor Herrman!
- Você o conhecia?
- Sim, era nosso professor de Inglês; o sujeito que finalmente fez com que entendesse como se deve usar pronomes. Se uso direito até hoje, devo a ele...
-Sem dúvida, isto é muito importante, querida!
Sara não sabia se ele estava falando sério, ou se estava brincando com ela. Não teve tempo de descobrir, porque ele se virava para o homem que descobrira o corpo, e pedia-lhe para telefonar para a polícia e informá-la, que tinham um morto, por arma de fogo, no campus.
- Foi assassinato? – Perguntou o desconhecido.
- Aparentemente foi suicídio, mas nunca se sabe, antes de investigar direito. Sara me ajude a tirar essa gente daqui. Não quero ninguém contaminando a cena!
Os olhos de Sara e do homem se encontraram. Eles se conheciam. Grissom reparou que o homem olhava para ela de um jeito meio possessivo, que o desagradou muito. Se pudesse ver a expressão de desagrado no rosto de Sara, teria se tranqüilizado. Porém Sara estava à frente dele, de costas, portanto, ele não podia vê-la.
- Olá, Josh! Eu não tinha visto você ainda!
- Mas eu estou por aí. Vim com sua amiga Kim, espero que não se importe.
- Por que eu deveria? – Sara perguntou quase brava. Por que todo mundo parecia achar que aquilo lhe interessava?
- Sei lá... Você poderia não gostar.
- Ora essa! Não sou dona de ninguém! – Deu-lhe as costas, dando aquele assunto por encerrado.
A poucos passos dela, Grissom acompanhava com avidez o diálogo. Meio de soslaio, tinha verificado o rival, e se sentia em desvantagem: Josh era bem mais jovem que ele; era bonitão; uns centímetros mais alto e tinha um físico atlético.
E para piorar as coisas, sua insensibilidade em manter aquele casamento à distância. Culpava-se por estar naquela estranha situação. Certo que Sara tinha uma natureza independente, não admitiria ser sufocada. Mas ficarem tão distantes, por tanto tempo... Não era uma atitude muito inteligente.
Ele estava disperso... Parecia perdido em seus pensamentos. A mulher tirou-o desses devaneios...
- Gil!GIL! O que você pretende fazer?
- Bem, fecharei a sala, para que não contaminem a cena do crime, e esperarei pela poli...
- Crime! – Ela franziu a testa. – Mas não foi suicídio?
- Tenho minhas dúvidas... QUEM quer se matar não dá tiro no peito...
- Você está supondo...
- Se trata de estatística, querida. Os lugares preferidos são cabeça e boca. No peito a probabilidade de errar e não "se achar" o coração, são grandes.
Grissom fechou a porta e lá ficou plantado, feito um cão policial. Sara voltou ao salão e foi "atacada" por seus amigos, que queriam saber detalhes do que acontecera, ali ao lado.
Lana estava chorosa; havia dançado, naquela noite, com o professor, que estava velho, mas ainda sacudia bem o esqueleto. Sara meio que a interrogou:
- E que tal, lhe pareceu ele?
- Como sempre! Normal; não parecia ter o perfil suicida, mas quem pode saber?
- Ele não parecia um sujeito deprimido... Mas isso há muitos anos atrás, hoje em dia não saberia dizer, não encontrei com ele! - Desculpou-se Sara.
- Mas eu poderia... – adiantou-se Louise. – Estive conversando com ele a semana passada inteira, por causa do baile, e em nenhum momento ele pareceu ter tendências suicidas...
- Você não é médica, nem psiquiatra; não pode saber! – Retrucou Josh.
Louise engasgou; ela só queria ajudar. Sara ficou pensando que a teoria de Grissom fazia sentido. Poderia ser um assassinato, e alguém naquele salão ser um assassino. Só em pensar nisso, arrepiou-se toda.
